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Projetar a Felicidade

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Academic year: 2021

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Projetar

a Felicidade

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Mude o seu modo de agir,

não o seu modo de pensar

Prólogo de

DANIEL KAHNEMAN

PAUL DOLAN

Projetar

a Felicidade

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Prólogo

H

á duas questões centrais no estudo da felicidade (pre-firo a designação «bem-estar subjetivo»). A primeira é uma distinção clássica, que remonta no mínimo aos tempos de Aristóteles, entre duas visões de uma vida boa: uma vida de  prazer, contentamento e outras sensações positivas, ou uma vida bem vivida e com significado. Uma escolha clara entre uma e outra tem os seus problemas. A preferência pela alegria em detrimento do significado irá conferir-lhe o epí-teto de hedonista, que não é propriamente um elogio. Por outro lado, será apropriadamente classificado como lamu-riento se proclamar que o prazer é frívolo e que só a virtu-de e o significado importam. Como virtu-definir então felicidavirtu-de se não quiser ser nem hedonista nem lamuriento? A outra grande questão sobre a felicidade é como medi-la. Devíamos

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estudar se as pessoas ao longo das suas vidas sentem e exrimentam mais felicidade ou mais tristeza? Ou devíamos pe-dir às pessoas para pararem e pensarem sobre as suas vidas e depois dizerem se estão ou não satisfeitas com elas?

As duas questões parecem estar relacionadas. Parece na-tural usar-se a avaliação da satisfação com a vida para estu-dar se as pessoas encontram sentido nas suas vidas, e para identificar sensações de felicidade medindo a experiência corrente. Essa foi também a minha perspetiva durante mui-tos anos, mas Paul Dolan tem uma ideia diferente. Para co-meçar, ele está muito mais interessado nas experiências de vida das pessoas do que na avaliação que fazem das suas vidas. A nova e refrescante ideia é considerar «com signi-ficado» e «sem signisigni-ficado» como experiências e não como juízos. As atividades, na perspetiva de Dolan, diferem numa experiência subjetiva de propósitos – o trabalho voluntário está associado a um sentimento de propósito que não con-seguimos encontrar com o zapping. Para Dolan, propósito e prazer são ambos fatores de felicidade. Esta é uma aborda-gem audaz e original.

A questão «A felicidade consiste em quê?» não tem res-posta numa listagem de factos sobre a felicidade. Tem tudo que ver com o correto uso da palavra: quando as pessoas falam de «felicidade», o que terão em mente? Nenhuma res-posta poderá ser completamente satisfatória, porque quan-do usam a palavra as pessoas nem sempre têm em mente a mesma ideia. Entre as definições imperfeitas de felicidade, o conceito prazer-propósito que Dolan propõe é, creio eu, um forte concorrente. É uma boa descrição do que desejo para os meus netos: uma vida rica em atividades que

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P r ó l o g o

mente lhes proporcionem prazer e tenham um propósito. Paul Dolan é um otimista inveterado que já ultrapassou nu-merosos obstáculos no trajeto que lhe conferiu o reconheci-mento internacional como especialista em bem-estar. Este otimismo revela-se em cada página deste livro. E Paul é es-pecialmente otimista sobre o seu leitor. Ele acredita que o leitor pode dar prazer e propósito à sua vida com escolhas deliberadas, sobre o ambiente que gera para si próprio e so-bre os aspetos da vida que merecem a sua atenção. Por isso lhe oferece numerosos e saudáveis conselhos sobre como fa-zer aquelas escolhas e como levá-las a cabo. O resto, diz ele, é consigo.

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Uma nota para o leitor

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uero agradecer-lhe por ter comprado o meu livro. Fico feliz por isso e espero que o livro também o faça feliz. Sin-to-me pessoal e profissionalmente fascinado pela felicidade e pelo comportamento humano e não me têm faltado imen-sas oportunidades para aumentar este meu fascínio. Antes de escrever um livro inteiramente dedicado à felicidade, foi--me pedido que formulasse as perguntas que estão agora a ser usadas em grandes inquéritos sobre a felicidade no Reino Unido e também para aconselhar o governo britânico sobre como projetar melhores intervenções na alteração de com-portamentos. Neste momento sou crescentemente solicitado para aconselhar instituições de solidariedade, multinacio-nais e outros governos sobre como podem melhorar a felici-dade e influenciar o comportamento.

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O meu fascínio profissional pela felicidade surgiu em larga medida por acaso. Tinha passado uma década a dirigir pesquisa académica sobre como devíamos medir e valorizar os benefícios dos gastos com os cuidados de saúde. Tal tra-balho foi reconhecido com o Prémio Philip Leverhulme, em 2002, pelo meu contributo para a economia da saúde, o que me permitiu fazer um intervalo na minha atividade letiva na Universidade de Sheffield e proferir algumas conferências. Uma dessas conferências, sobre a economia da felicidade, realizada em Milão em março de 2003, viria a revelar-se o acontecimento mais significativo da minha vida académica. No jantar da conferência sentei-me ao lado de um homem que se apresentou como Daniel (Danny) Kahneman. Eu sa-bia exatamente quem ele era. Como muitos saberão, o Danny é um psicólogo galardoado com o Prémio Nobel em Ciências Económicas de 2002. Posteriormente escreveu Pensar,

depres-sa e devagar, que é um livro brilhante sobre o comportamento humano e a tomada de decisões.

O Danny ficou imediatamente interessado em saber qual era o objeto do meu trabalho. Após alguns minutos, disse: «Porque não vens para Princeton (onde ele trabalhava) para podermos trabalhar juntos?» Pensei no assunto durante um nanossegundo e respondi: «Sim, obrigado.» Além de ser uma das pessoas mais simpáticas que já conheci, o Danny é o meu herói intelectual. Na verdade, toda aquela conferência mudou bastante a minha vida pois também conheci Richard Layard, um dos mais famosos investigadores mundiais da felicidade e autor de Happiness: Lessons from a New Science. O Richard foi determinante na minha passagem para a Lon-don School of Economics em 2010.

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U m a n o t a P a r a o l e i t o r

Desde o meu encontro com Danny e Richard, tenho conduzido pesquisa sobre a felicidade e as suas causas. Algumas vezes isso envolveu a análise de conjuntos de dados já existentes; outras vezes tive de proceder eu mes-mo à recolha dos dados. Isto conduziu muito naturalmen-te à pesquisa sobre o ennaturalmen-tendimento do comportamento humano, recorrendo a testes conduzidos em laboratório e no mundo real. Parte importante de como nos sentimos é determinada pelo que fazemos, o que fazemos é larga-mente motivado pelo impacte esperado na nossa felici-dade, e a felicidade é o retorno que recebemos sobre o impacte do que fazemos. Como pode ver, é tudo muito cíclico.

Como parte do reduzido número de investigadores que trabalha simultaneamente sobre felicidade e compor-tamento, estabeleci como um dos objetivos principais deste livro demonstrar como estes dois campos de pesquisa se articulam e, ao fazê-lo, apresentar os últimos conhecimen-tos da pesquisa sobre a felicidade e da ciência comporta-mental para abordar diretamente as questões do que está a tentar conseguir (mais felicidade) e como pode consegui-lo (agindo de forma diferente). Estudei economia mas sou ago-ra professor de ciência comportamental, o que hoje em dia, provavelmente, me faz ter mais aspetos em comum com os psicólogos. A minha pesquisa e agora este livro procuram combinar o melhor destas duas disciplinas: a consideração formal e explícita de custos e benefícios da ciência econó-mica, lado a lado com o reconhecimento da psicologia de que o nosso comportamento é fortemente influenciado pelo contexto e pela situação.

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Também trago para este livro uma evidente perspetiva pessoal. O meu pai teve ao longo dos anos muitos trabalhos manuais, pouco ou nada especializados, e a minha mãe de-sempenhou funções administrativas para contribuir para o rendimento familiar. Cresci numa habitação social e frequen-tei vulgares escolas públicas. O dinheiro era pouco, mas fa-zíamos a nossa vida. Não íamos de férias com frequência, mas os meus pais asseguraram-nos sempre uma boa alimen-tação e vestuário decente. Muitos dos meus atuais amigos não frequentaram a universidade, enquanto outros tiveram antecedentes privilegiados. Portanto, continuo a ter expe-riências que são diferentes de muitos daqueles que escrevem sobre a felicidade e o comportamento humano. Um bom en-tendimento da pesquisa académica é importante, mas tam-bém o é um pouco de conhecimento sobre as complexidades e os caprichos da vida real das pessoas oriundas de meios sociais e económicos diferentes.

Tenho a certeza de que está perfeitamente ciente de que gerir as expectativas que os outros têm sobre si é uma com-petência importante e, por isso, não vou prometer-lhe mu-dar a sua vida; mas espero poder proporcionar-lhe algumas ideias sobre como pode mudar o seu modo de agir. A ciência comportamental ensina-nos que aquilo que nos dizem é im-portante, mas que quem no-lo diz ainda o é mais. Escuta-mos umas pessoas mais do que outras. Idealmente, os bons mensageiros têm três atributos: são merecedores de confian-ça, são entendidos, e são como nós. Como consequência do meu trabalho académico e dos meus antecedentes pessoais, gostaria de pensar que possuo estes três atributos. Mais uma razão para ter em atenção o que se segue.

Referências

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