UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
ANDERSON SEVERINO DE OLIVEIRA TAVARES
PEDAGOGIAS DA CORPORALIDADE E O CUIDADO DE SI: corporalidade, experiência religiosa e o exercício de si na Igreja Verbo da Vida
NATAL-RN 2019
ANDERSON SEVERINO DE OLIVEIRA TAVARES
PEDAGOGIAS DA CORPORALIDADE E O CUIDADO DE SI: corporalidade, experiência religiosa e o exercício de si na Igreja Verbo da Vida
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para obtenção do Título de Doutor em Ciências Sociais.
Orientador: Prof. Dr. Orivaldo Pimentel Lopes Júnior
NATAL-RN 2019
Tavares, Anderson Severino de Oliveira.
Pedagogias da corporalidade e o cuidado de si: corporalidade, experiência religiosa e o exercício de si na Igreja Verbo da Vida / Anderson Severino de Oliveira Tavares. - Natal, 2019. 173f.: il. color.
Tese (doutorado) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2019. Orientador: Prof. Dr. Orivaldo Pimentel Lopes Junior.
1. Neopentecostalismo - Tese. 2. Pedagogias da Corporalidade Tese. 3. Cuidado de Si Tese. 4. Experiência Religiosa -Tese. 5. Performance - -Tese. I. Lopes Junior, Orivaldo Pimentel. II. Título.
RN/UF/BS-CCHLA CDU 316.74:27
ANDERSON SEVERINO DE OLIVEIRA TAVARES
PEDAGOGIAS DA CORPORALIDADE E O CUIDADO DE SI: corporalidade, experiência religiosa e o exercício de si na Igreja Verbo da Vida
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para obtenção do Título de Doutor em Ciências Sociais
Aprovada em _______ / _______ / ________
BANCA EXAMINADORA
_______________________________________________________________ Prof°. Dr°. Orivaldo Pimentel Lopes Júnior (orientador)
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais – UFRN
_______________________________________________________________ Profa. Dra. Irene de Araújo Van Den Berg (membro externo)
Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – UERN
_______________________________________________________________ Prof°. Dr°. Estevam Dedalus Pereira de Aguiar (membro externo)
Universidade Estadual da Paraíba – UEPB
_______________________________________________________________ Prof°. Dr°. Anasxuell Fernando da Silva (membro interno)
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais – UFRN
_______________________________________________________________ Prof°. Dr°. Luiz Carvalho de Assunção (membro interno)
À minha esposa Dayanna, pelo carinho, a paciência e o incentivo imprescindível.
Muito especialmente às minhas filhas, Beatriz e Letícia, que nasceram e cresceram com esse trabalho, celebrando a conquista comigo.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a todos que contribuíram com este trabalho de forma direta e indireta. Primeiramente, agradeço o incentivo de toda a família, especialmente de minha esposa Dayanna, que dedicou o seu tempo para ouvir minhas inquietações, me acompanhou ao campo de pesquisa todas as vezes que saímos de Guarabira à Campina Grande e me amparou nos momentos de desespero. Às minhas filhas amadas, Beatriz e Letícia, que, procurando chamar minha atenção em momentos de ausência, choravam e também me abraçavam, me fortalecendo para a conclusão deste trabalho.
Também agradeço à minha avó Francisca e à minha mãe Rosângela, mulheres de fé, por todo o esforço que fizeram para que hoje eu esteja concretizando mais um sonho. A elas meu eterno agradecimento. E aos meus irmãos, Ademilson e Lisandra, pela força de sempre.
Agradeço ao meu orientador Orivaldo Pimentel Lopes Júnior pelas orientações, discussões e, sobretudo, pela paciência que teve ao saber dos percalços que enfrentei, sempre acreditando que eu era capaz de desenvolver e finalizar este trabalho.
Às companheiras e aos companheiros no estudo da religião: do grupo Mythos-logos (UFRN), especialmente Clécio e Andrezza, e do grupo de Sociologia e Antropologia da Religião (UFCG). Foram importantes pessoas com as quais dialoguei durante minha formação.
Ao professor Anasxuell Fernando e à professora Irene Van Den Berg pelas brilhantes contribuições nos momentos da qualificação e do trabalho final. Também aos professores Luiz Assunção e Estevam Dedalus por terem aceito compor a banca da defesa final, lendo e contribuindo com o trabalho.
Agradeço aos fiéis e às lideranças da Igreja Verbo da Vida, que me receberam e compartilharam suas experiências, dedicando tempo para os depoimentos que foram fundamentais à realização deste trabalho.
Agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), agência que financiou a pesquisa que originou esta tese. Ao curso de Graduação em Ciências Sociais da UFCG, pela formação, e ao Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFRN, que proporcionou novos aprendizados.
Agradeço aos que estiveram presentes nessa caminhada e não foram citados acima: os amigos, os professores, a coordenação e a secretaria do PPGCS-UFRN.
Agradeço imensamente a Deus pela vida. A todos, os meus sinceros agradecimentos.
RESUMO
Como objetivo central desta tese, verificamos se o modelo de corporalidade da Igreja Verbo da Vida (IVV), que tem como intenção a ação do Espírito Santo no corpo dos fiéis, resulta no exercício de um cuidado de si que se integra ou não aos regimes corporais institucionais que regulam o uso do corpo. Para isso, analisamos as pedagogias da corporalidade exercitadas na IVV, observando nas celebrações o conjunto de técnicas corporais que são transmitidas pelos pastores e ministros por meio de suas performances discursivas e corporais nos cultos, bem como analisamos as experiências dos fiéis ao adquirir as formas de usar a corporalidade. Assim, levantamos dados acerca das concepções de líderes e fiéis da comunidade selecionada sobre a corporalidade, aqui definida como lugar de enunciação dos mecanismos de normatização do uso do corpo nas celebrações e no cotidiano. A perspectiva teórica que utilizamos foi fundamentada na abordagem da pedagogia do corpo, e no conceito de cuidados de si, de Foucault. A pesquisa teve caráter qualitativo, e para sua realização foram utilizadas observação direta, entrevistas informais não estruturadas e entrevistas semiestruturadas com amostra não aleatória de fiéis. Ao observarmos os pastores e ministros da IVV mobilizando e estimulando os fiéis para o uso da gestualidade no culto, verificamos que estes, na busca de serem “instrumentos do Espírito Santo”, ao sentirem a “manifestação da unção” em seus corpos, ativam um conjunto de técnicas corporais. Nas entrevistas com os membros da IVV não constatamos um possível cuidado de si que abrisse possibilidades de ruptura com os regimes corporais institucionalizados. Pelo contrário, o trabalho de si efetuado pelos fiéis entrevistados, no culto e no cotidiano, conduz a uma transformação de si e do corpo, de acordo com os regimes corporais da referida instituição. Nisto, os fiéis são levados a correr, a dançar, a pular, a falar em línguas estranhas, bem como a se abraçar e a “declarar a palavra” nos momentos mais adequados possíveis, demonstrando publicamente o que fazem para ser “instrumentos de Deus”, se sujeitando às lideranças e às sensações corporais que narram como sendo orientações do Espírito Santo.
Palavras-chave: Neopentecostalismo. Pedagogias da Corporalidade. Cuidado de Si. Experiência Religiosa. Performance.
ABSTRACT
As the central objective of this thesis, we investigated if the corporeality model in Igreja Verbo
da Vida (IVV), which has the action of the Holy Spirit on the bodies of its believers as its intention, results into the exercise of a self-care which integrates itself or not to the institutional corporeal regimes that regulate the use of the body. Therefore, we analyzed the corporeal pedagogies conducted at IVV, observing on their celebrations, the set of body techniques which are transmitted by the priests and ministers through their discursive and body performances during services, as well as analyzing the believer’s experiences as they acquire the ways of using the corporeality. Thus, we collected data concerning the priests and the believers’ conceptions about corporeality in the chosen community, here defined as enunciation place for the standardization mechanisms of body use in the celebrations and in everyday life. The theoretical perspective we used was grounded on corporeal pedagogy approach, and on Foucault’s concept of self-care. The research had a qualitative character, and we used direct observation, unstructured informal interviews and semi-structured interviews with nonrandom samples from believers. As we observed both priests and ministers in IVV mobilizing and stimulating believers into the use of gestures in the services, we verified that those, in the search for being “Holy Spirit instruments” , feeling on their bodies the “manifestation of the anointing” , activate a set of body techniques. In the interviews with members of IVV, we did not find a possible self-care which would open possibility of breaking with institutional body regimes. On the contrary, the self-work carried out by the believers interviewed, in the services and in everyday life, leads a self-transformation, in their bodies; according to the institutions own body regimes. On those, the believers are compelled to run, dance, jump, speak in strange languages, as well as hug one another and “declare de word” in the most adequate moments as possible, demonstrating publicly what they do in order to be “God’s instruments”, subjecting themselves to the leaders and to the corporeal perceptions which they describe as orientations from the Holy Spirit.
Key words: Neopentecostalism; Corporeal Pedagogy; Self-care; Religious Experience, Performance.
LISTA DE IMAGENS
Imagem 1 – Templo da Igreja Verbo da Vida Sede Imagem 2 – Cinco mil pessoas sentadas
Imagem 3 – Espaço Interno da IVV Sede Imagem 4 – Púlpito da IVV Sede
Imagem 5 – Fogueira
Imagem 6 – Touro mecânico Imagem 7 – Tiro ao alvo Imagem 8 – Fogos
Imagem 9 – Cantor de louvor intercedendo por um membro da IVV Imagem 10 – Pulo
Imagem 11 – Deitado de bruços
Imagem 12 – Ajoelhada curvando-se ao chão Imagem 13 – Abraço
Imagem 14 – Abraço coletivo entre mulheres Imagem 15 – Abraço coletivo entre homens
Imagem 16 – Ministro impondo as mãos através do toque corporal Imagem 17 – Pastor e membro erguendo os braços e louvando Imagem 18 – Expressão corporal do pastor no púlpito
Imagem 19 – Aglomerado de jovens em volta do pastor
Imagem 20 – Pastor simulando um movimento com uma espada na mão Imagem 21 – Oração em dupla
LISTA DE QUADROS
QUADRO 1 – Informações básicas sobre os entrevistados...21 QUADRO 2 – Cultos Mensais...46 QUADRO 3 – Declarações nos cultos da IVV Sede...116
LISTA DE TABELAS
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
CCM – Comtemporary Church Music
CTBVV – Centro de Treinamento Bíblico Verbo da Vida ECC – Encontro da Consciência Cristã
IVV – Igreja Verbo da Vida
IVV Sede – Igreja Verbo da Vida Sede IVVZS – Igreja Verbo da Vida Zona Sul JPN – Jovens Para as Nações
JV – Jovens da Verdade JVV – Jovens Verbo da Vida MPC – Mocidade Para Cristo
MSC – Música Sacra Contemporânea MVV – Ministério Verbo da Vida OPE – Organizações Paraclesiásticas OPV – Organização Palavra da Vida RBTC – Rhema Bible Training Center VPC – Vencedores por Cristo
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 12
Metodologia ... 18
Caminhos da Pesquisa ... 22
Estrutura dos capítulos ... 25
CAPITULO 1 – A IGREJA VERBO DA VIDA ... 28
1.1 História, Organização e Estrutura da IVV ... 28
1.1.1 O Ministério Verbo da Vida ... 33
1.1.2 A Inserção da Igreja Verbo da Vida no Mercado Religioso Local ... 37
1.1.3 A Igreja Verbo da Vida Sede ... 42
1.1.4 Os cultos da IVV Sede ... 46
1.2. Crenças da Igreja Verbo da Vida ... 50
1.2.1 A Teologia da Prosperidade ... 50
1.2.2 Dízimos e Ofertas ... 54
1.2.3 A Divisão do Homem em Três ... 58
1.2.4 A Cura Divina ... 59
1.2.5 A Autoridade do Crente... 61
CAPÍTULO 2 – O MOVIMENTO GOSPEL E A IGREJA VERBO DA VIDA ... 67
2.1 O fenômeno da música gospel ... 68
2.1.1 Origens ... 68
2.1.2 Os antecessores do gospel no Brasil ... 70
2.1.3 O movimento gospel no Brasil ... 72
2.2 A oferta e a demanda da música gospel ... 74
2.2.1 O mercado da música gospel ... 74
2.2.2 Produção e circulação da música gospel na IVV ... 77
2.2.3 Consumo e Entretenimento Gospel ... 79
2.3 O Ministério de Música ... 84
2.3.1 O artista gospel e o ministro de louvor ... 84
2.3.2 O caso do Ministério de Música da Igreja Verbo da Vida ... 88
2.4 Os usos e costumes e as pedagogias da corporalidade na IVV ... 93
2.4.1 A flexibilização dos usos e costumes ... 93
2.4.2 As novas dinâmicas de pedagogias da corporalidade ... 100
CAPÍTULO 3 – PEDAGOGIAS DA CORPORALIDADE EXERCITADAS NA IVV 110 3.1. Meios de transmissão da religião neopentecostal ... 111
3.1.1 Performances e o modelo de corporalidade no culto ... 114
3.2 Experiências religiosas na IVV ... 129
CAPÍTULO 4 – PEDAGOGIAS DA CORPORALIDADE E O CUIDAR DE SI ... 143
4.1. As tecnologias de si ... 146
4.2. As restrições, os usos do corpo e o cuidado de si ... 149
4.2.1 Crescimento espiritual, tensão vertical e o exercício de si ... 160
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 165
INTRODUÇÃO
Foi através do contato e da adaptação ao mundo grego que a religião cristã começou a pensar o corpo e a alma como duas partes diferentes e separadas, ou mundos antagônicos. Platão concebia o corpo como algo que estava separado da alma, em oposição a ela. Assim, o corpo foi considerado inferior à alma/mente, já que era a prisão das ideias e da própria alma, que seria
perfeita, eterna e imortal. O corpo, para Platão, era visto como um obstáculo para que a alma realizasse inteiramente sua potencial perfeição.
A partir do contato com a antiguidade grega, o cristianismo, ao absorver a noção antagônica entre corpo e alma, passou a compreender o corpo como algo inferior, morada do pecado. Seria, portanto, necessário submeter os corpos às penitências e ao sofrimento, para que seus donos chegassem à salvação (CARVALHO, 2006; ALBANO, 2011). Uma das principais fontes das concepções do cristianismo a respeito do corpo é o conjunto das interpretações teológicas dos escritos do apóstolo Paulo. Ele considerava o corpo, de modo paradoxal, como o templo do Espírito Santo e a carne, a morada do pecado. Vejamos um exemplo de como o apóstolo Paulo, em Coríntios I 6:19-20, propõe a concepção do corpo:
Ou vocês não sabem que o seu corpo é templo do Espírito Santo, que está em vocês e lhes foi dado por Deus? Vocês já não pertencem a si mesmos. Alguém pagou alto preço pelo resgate de vocês. Portanto, glorifiquem a Deus no corpo de vocês.
No tocante ao universo protestante, as pedagogias da corporalidade, atravessadas pelo dualismo acima mencionado, têm interpretado o corpo como a habitação da maldade. Com o protestantismo brasileiro de raiz norte-americana, essa interpretação fez emergir uma série de interdições referidas ao corpo, tais como as relativas ao não consumo de bebidas alcoólicas, a não fumar, a não dançar, assim como a rejeitar algumas expressões culturais tipicamente brasileiras (GOMES, 2006).
Nas versões pentecostal e neopentecostal do protestantismo brasileiro, o corpo foi representado como morada do demônio, tornando-se comum as práticas exorcistas. A partir da valorização dos dons do Espírito Santo, o pentecostalismo teve como marca os cultos emotivos, que deram maior mobilidade aos corpos (palmas, choros, danças e coreografias). Assim, nessa versão, os movimentos corporais denotam certa imprevisibilidade, já que as técnicas corporais estão relacionadas ou com a ação do Espírito Santo sobre os fiéis ou com a possessão demoníaca.
O movimento pentecostal expandiu-se em todo o território brasileiro, seu crescimento foi acentuado a partir da década de 80, quando foram contabilizados 3,9 milhões de pentecostais no Brasil. Esse movimento trouxe celebrações nas quais a emoção e a “imprevisibilidade” ganharam espaço, em contraposição ao estilo litúrgico do tradicionalismo católico. Com essas características, o pentecostalismo representou um movimento na direção da desfiliação religiosa do catolicismo (GUERRA, 2003; SOUZA, 2001). Assim, a série histórica tem apontado para o gradual declínio do número de adeptos da Igreja Católica e para o crescimento dos evangélicos no Brasil. De acordo com o Censo do IBGE de 1970, os católicos representavam 91,8% da população brasileira, enquanto no último Censo, de 2010, representavam 64,6%. Já os evangélicos, na década de 70, eram 5,2%, passando, em 2010, para 22,2% da população, dos quais 60% eram pentecostais (aproximadamente 25,4 milhões de indivíduos).
Nesse cenário religioso nacional, os neopentecostais e os carismáticos católicos têm colocado em curso novas dinâmicas de corporalidade nas celebrações religiosas. No âmbito dessas mudanças, um dos fenômenos que tem ganhado crescente visibilidade são os shows religiosos, os quais apresentam semelhanças significativas aos da esfera da música secular (TAVARES; GUERRA, 2013, 2014). Esses shows refletem um fenômeno descrito por Cunha (2007), em trabalho relacionado ao campo dos evangélicos, como explosão gospel1, sendo suas atrações e seus estilos de música apresentados nos moldes da música secular. Assim, o movimento gospel inseriu danças e expressões corporais nos cultos, de modo que transformou o corpo em um valor do modo de vida evangélico, abraçando a forte cultura do consumo e a adesão à moda. Esse movimento modelou os corpos dos crentes, fazendo com que eles aceitassem cada vez mais os modelos adotados pelo mundo secular (CUNHA, 2007).
Historicamente, os modelos religiosos do campo dos protestantes têm exercido pedagogias da corporalidade com tensões variáveis com as pedagogias da corporalidade hegemônicas nas culturas/sociedades envolventes (Cf. ELIAS, 1998a, 1998b; FOUCAULT, 1980, 1984), que objetivam controlar e dominar o corpo através de restrições e repressões, evitando, assim, que ele caia no pecado da carne.
Nas instituições do campo dos protestantes, observamos graus variáveis de adesão ao movimento gospel, iniciado pela Igreja Renascer em Cristo, bem como no campo dos católicos.
1 Magali Cunha (2004) denominou de explosão gospel um movimento que foi além do aspecto musical, constituindo uma cultura religiosa. Segundo a autora, esse movimento é uma expressão cultural configurada pela tríade música-consumo e entretenimento. A explosão gospel será abordada com mais detalhes no segundo capítulo desta tese.
Neste, como uma duplicação do ocorrido entre os evangélicos, assistimos à significativa emergência dos padres popstars (Cf. CLARKE, 1999; GUERRA, 2003), que replicam as estruturas de megashows gospel, onde novas dinâmicas de expressão corporal são colocadas em curso.
Na Igreja Verbo da Vida, instituição neopentecostal2 selecionada para esta pesquisa, foi possível observar um conjunto de técnicas corporais através de cultos, rituais, shows e atividades em geral ofertadas para um público amplo (crianças, jovens, adultos, mulheres e homens). O conceito de técnicas corporais aqui utilizado foi formulado por Marcel Mauss ([1934] 2003), entendendo-o como as diferentes maneiras a partir das quais os homens sabem servir-se de seus corpos, que variam tanto de sociedade para sociedade quanto na linha da temporalidade. Essas maneiras ou habilidades socialmente aprendidas dependem de nossa
devoção às tradições e têm caráter de eficácia. Nas palavras do autor:
Chamo de técnica um ato tradicional eficaz (e vejam que, nisto, não difere do ato mágico, religioso, simbólico). É preciso que seja tradicional e eficaz. Não há técnica e tampouco transmissão se não há tradição. É nisso que o homem se distingue sobretudo dos animais: pela transmissão de suas técnicas e muito provavelmente por sua transmissão oral (MAUSS, 2003, p. 217).
Nos cultos e nas demais atividades da Igreja Verbo da Vida – IVV é comum a utilização de músicas de estilos variados, executadas em boa parte do tempo de duração dessas atividades. Durante essas apresentações, na forma de solos ou na forma de coletividade, a música, considerada um modo eficaz de adoração, desperta emoções no público que se manifestam de diferentes meios: abraços, pulos, elevação e abaixamento da cabeça, elevação dos braços, aposição das mãos no peito, entre outros. Assim, a partir das visitas preliminares a essa instituição religiosa, foi possível observar repertórios específicos de expressões corporais, não apenas nos momentos de louvor e adoração, mas também em momentos de pregação, que foram narrados pelos fiéis como sendo desencadeados pela comunhão com o Espírito Santo.
A teologia da IVV assevera a ação do Espírito Santo sobre os fiéis. Essa ação desperta os “dons do Espírito” quando os fiéis estão “cheios” d’Ele ou são por Ele tocados, manifestando em seus corpos, templos do Espírito Santo, fenômenos como o dom de falar em línguas
2 As igrejas neopentecostais se caracterizam pela ênfase na Teologia da Prosperidade e na Guerra Espiritual contra o diabo e pela liberalização dos tradicionais usos e costumes de santidade. Essas características estão presentes na instituição religiosa analisada, como abordamos no Capítulo I desta tese. Entre os fiéis e as lideranças com os quais entramos em contato, alguns se reconhecem como pentecostais e outros como neopentecostais. Não pretendemos apresentar um capítulo com as classificações do pentecostalismo brasileiro e suas origens históricas. Com esse objetivo, existem trabalhos como os de Almeida (2003, 2006), Alves (2005), Freston (2000), Mariano (2005), Romeiro (2010), Silveira (2007), Texeira e Menezes (2009), entre outros.
(glossolalia), o de curar, o da revelação e o da profecia. Os cultos centrados no louvor, na oração e na pregação, transmitindo um conjunto de técnicas corporais, têm o intuito de incorporar o Espírito Santo no corpo individual dos fiéis. Assim, muitas das técnicas corporais irrompem da experiência do “recebimento do Espírito Santo”.
Nos eventos realizados pela Igreja Verbo da Vida foi possível presenciar o que toma a aparência de um “tumulto organizado”. No Acampamento, que ocorre em período de carnaval, por exemplo, o louvor, com músicas narradas como de adoração, predominou antes e depois da pregação e dos testemunhos dos pastores. No momento posterior à pregação, os fiéis pulavam, cantavam, falavam em línguas e erguiam e balançavam os braços, em movimentos repetitivos. Destacamos as corridas no espaço da celebração, nas quais os fiéis, tocados pelo Espírito, se movimentavam em várias direções e depois paravam, com a respiração ofegante, retomando gradualmente uma dança com movimentos lentos. A ênfase discursiva dos fiéis a respeito dessas corridas foi a de que o poder do Espírito Santo estava em manifestação. Conforme eles, cada pessoa reage de uma forma distinta “embaixo da unção” – nome atribuído à manifestação do poder do Espírito Santo.
Assim, encontra-se na IVV um discurso de espontaneidade ou de imprevisibilidade dos movimentos corporais não só narrado pelos fiéis como também, e primeiramente, pelas lideranças. No entanto, alguns movimentos corporais, como correr ou até mesmo “cair no Espírito”, não se observam em todos os cultos, como os Cultos de Celebração no domingo à noite. Também não observamos neste tipo de culto a mobilidade dos fiéis como acontecia em eventos promovidos pela IVV e nos Cultos do Espírito, dos Jovens e dos Adolescentes, quando, embalados pelo louvor, os fiéis caminhavam de um lado a outro do templo orando em línguas estranhas.
Estudos socioantropológicos enfatizam como um dos traços distintivos das comunidades neopentecostais a “liberdade” na devoção religiosa. Segundo Machado (1996), os pentecostais não só passaram a tolerar trajes adotados pela sociedade em geral como também efetivaram uma participação mais alegre e espontânea nos cultos. Conforme pesquisa realizada pela autora em grupos carismáticos e pentecostais, os adeptos dessas comunidades justificaram a adesão destes grupos a elementos como a alegria, a espontaneidade e a música.
Nesse contexto, em que os fiéis pulam, dançam e correm, aparentemente os sujeitos têm uma maior autonomia em relação aos seus corpos, mas a reafirmação de regras é uma hipótese que não pode ser descartada. O controle de como se deve usar o corpo – e não tanto o daquilo que o corpo usa, já que, nesse aspecto, esta instituição religiosa é mais flexível – requer mais do que mecanismos de disciplinarização a exemplo de punições, vigilâncias e confissões.
Como os fiéis buscam ser usados na forma de “instrumentos do Espírito Santo”, discurso frequentemente narrado, este fato nos direcionou para uma investigação dos cuidados de si, que Foucault (2004a) também denominou de tecnologias de si. Nesse aspecto, parafraseando o autor, a preocupação centrou-se nas operações em que os próprios sujeitos fizeram em seus corpos, (re)modelando-os com o objetivo de alcançar estados de santidade ou pureza.
A ideia central deste trabalho é a de que o modelo de corporalidade observado na Igreja Verbo da Vida ativa um cuidado de si que se desdobra tanto em um conjunto de imperativos negativos – o que não fazer como requisito de santificação/purificação – como em um conjunto de imperativos positivos – o que fazer como requisitos de santificação/purificação – inserindo os fiéis num sistema minucioso de controle, apenas aparentemente marcado pela espontaneidade. Também destacamos como uma hipótese a ser verificada se o modelo de corporalidade ativa um cuidado de si, instaurado a partir das experiências nos rituais de
comunhão com o Espírito Santo, que abre possibilidades de ruptura com os regimes corporais institucionalizados. Deste modo, um espaço intercorpóreo é criado, no qual os fiéis podem refletir de forma crítica sobre suas corporalidades e as tecnologias de poder nelas exercidas.
Como objetivo verificamos se o modelo de corporalidade da Igreja Verbo da Vida, que tem como intenção a ação do Espírito Santo no corpo dos fiéis, resulta no exercício de um
cuidado de si integrado ou não aos regimes corporais institucionais que regulam o uso do corpo. Para isso, analisamos as pedagogias da corporalidade exercitadas na Igreja Verbo da Vida, observando nas celebrações o conjunto de técnicas corporais que são transmitidas pelos pastores e ministros por meio de suas performances discursivas e corporais nos cultos, bem como considerando as experiências dos fiéis ao adquirirem as formas de usar a corporalidade. Assim, levantamos dados acerca da concepção dos participantes da comunidade selecionada sobre sua corporalidade, aqui definida como lugar de enunciação dos mecanismos de normatização do uso do corpo nas celebrações e no cotidiano.
Mediante os estudos da Sociologia e da Antropologia, o corpo passou a ser compreendido como um elemento sobre o qual a cultura impõe a sua marca. Autores como David Le Breton (2007, 2011), Silvana Goellner (2003) e José Carlos Rodrigues (2006), entre outros, apontam em seus trabalhos para o fato de o corpo ser modelado pelo social e pelo cultural. Como destacamos, Marcel Mauss (2003) já havia discutido essa concepção de corpo
tatuado pela cultura. A relação entre o corpo e a cultura acontece na medida em que as diferentes situações culturais definem as maneiras de como usar o corpo.
Nossa pesquisa lança mão do argumento de que se deve estudar os usos que os indivíduos fazem de seus corpos. Nisto, as instituições religiosas ocupam uma centralidade
significativa nos processos de construção, na transmissão de normas e nos mecanismos de controle da corporalidade.
Há séculos que o cristianismo se sustenta e se expande entre as diferentes culturas, adaptando-se a elas e transformando-as3. Dentre os vários aspectos em que o cristianismo se refletiu na moldagem das sociedades, e foi por elas sendo remodelado, destacamos aqui o de suas pedagogias da corporalidade (Cf. SCHILLING, 2007). Com inspiração no conceito de
técnicas corporais de Mauss (2003), a pedagogia da corporalidade abordada neste estudo se refere aos meios centrais pelos quais a cultura transmite habilidades, disposições, crenças e
técnicas corporais; bem como às experiências dos sujeitos que utilizam essas técnicas e os resultados desses processos (Cf. SCHILLING; MELLOR, 2007; 2010). Marcel Mauss (2003) descreve diferentes técnicas corporais, ressaltando seus componentes sociais, psicológicos e biológicos. No entanto, o autor tem pouco a dizer sobre os detalhes de como essas técnicas são realmente ensinadas e sobre as experiências que as pessoas atravessam ao adquirir – ou a não adquirir – novas habilidades corporais. Por isso, a importância de se trabalhar com a concepção de pedagogia da corporalidade.
Assim, mobilizamos como perspectiva teórica um conjunto de autores para refletirmos sobre as pedagogias da corporalidade exercitadas na IVV, isto é, sobre o modelo de corporalidade ensinado/aprendido nesta instituição. Sobre as transmissões das técnicas corporais, das disposições e das crenças, que observamos através dos rituais e dos equipamentos de performance, utilizamos as perspectivas de Stanley Tambiah (1985), Bauman e Briggs, (2006) e Richard Schechner (2006) e também a concepção de imitação prestigiosa de Marcel Mauss (2003). No que se refere às experiências dos indivíduos, concernente aos sentimentos, emoções e sensações corporais, utilizamos o conceito de modos somáticos de atenção de Thomas Csordas (2008), o estudo de Rebecca Norris (2005) com base na neurociência e o trabalho de Simon Coleman (2000, 2004).
Conforme Chris Schilling e Philip Mellor (1997, 2007), um estudo que vise a analisar os mecanismos pelos quais as instituições religiosas transmitem as maneiras de como usar o corpo, as experiências dos fiéis e os resultados desse processo adota a discussão sobre a dialética externalidade/internalidade, que se encontra em Durkheim4 e que foi aprimorada por Bourdieu.
3 Teixeira (2013), argumentando sobre o censo do IBGE de 2010, traz à tona, a partir dos dados do Pew Research Center, que a religião cristã continua hegemônica no mundo, abarcando cerca de 31,5% de sua população, com cerca de 2,2 bilhões de adeptos.
4 Conforme Mellor e Shilling (2010), a análise dos fatos sociais de Durkheim (2007) é mais complexa do que tem sido considerada e precisa ser repensada. Destacando que os fatos sociais são realidades externas aos indivíduos, capazes de exercer pressão sobre estes, Durkheim defende que a sociedade é feita de nada mais do que indivíduos, o que torna o fato social evidente nos sentimentos, nas experiências e nos hábitos corporificados por eles, assim
Deste modo, procura-se observar como os sujeitos experimentam as manifestações externas de uma determinada religião, ao focalizar suas dimensões internas, examinando em que medida o que foi incorporado resulta no que pode ser chamado de um habitus religioso (MELLOR; SCHILLING, 2010). Assim, os resultados do processo constituem-se num habitus que se refere a uma disposição corporal socialmente estruturada que organiza os sentidos de ação em hierarquias particulares, as quais predispõem os indivíduos a maneiras específicas de conhecer e de agir no mundo.
Destaca-se também neste estudo a abordagem de Foucault (1980, 1984, 1987), que interpreta a descoberta do corpo como objeto e alvo do poder, que fez surgir uma tecnologia denominada disciplinas, mecanismo de controle e dominação do corpo de modo a torná-lo cada vez mais dócil e útil. As disciplinas é uma tecnologia de poder que pode operar juntos com as
tecnologias de si. Nas tecnologias de si, as quais Foucault também denominou de cuidados de
si, a preocupação centra-se nas operações feitas pelos próprios sujeitos em seus corpos, (re)modelando-os, com o objetivo de alcançar estados de felicidade, pureza, sabedoria, perfeição ou imortalidade (FOUCAULT, 2004a).
Metodologia
O objeto empírico desta pesquisa é a Igreja Verbo da Vida, que conta com 354 igrejas distribuidas pelo Brasil, seis destas localizadas na cidade de Campina Grande-PB. A instituição foi fundada pelo casal missionário norte-americano Harold L. Wright, conhecido como Bud, e Janace S. Wrigth, conhecida como Jan, na cidade de São Paulo em 1985. De início, o casal abriu uma sede em Barueri-SP e, depois, partiu para o Nordeste, precisamente para Campina Grande-PB, onde conseguiu fundar uma sede em 1992. Nesta cidade, Bud e Jan fundaram o Ministério Verbo da Vida (que conta com o escritório internacional), a Escola Rhema Brasil, a Escola de Ministros e a Escola de Missões.
O número de estudos sobre o neopentecostalismo no Brasil vem crescendo significativamente nas últimas décadas. Dentro desse quadro, a Igreja Universal do Reino de Deus é a instituição que ocupa o maior espaço. A Igreja Verbo da Vida, mesmo com o
como nas dimensões institucionais e morfológicas da sociedade (MELLOR; SHILLING, 2010). Na abordagem de Durkheim (2008, p. 264), os fatos sociais agem fora dos indivíduos, principalmente na esfera das instituições. Porém, como “a força coletiva não nos é totalmente exterior; ela não nos move totalmente de fora”, os fatos também agem dentro dos indivíduos, sendo “preciso que esta força penetre e se organize em nós; torna-se assim parte integrante do nosso ser e, por essa razão, o educa e o faz crescer” (DURKHEIM, 2008, p. 264).
crescimento e visibilidade que vem alcançando, contabilizando até o momento desta pesquisa 370 igrejas no total, localizadas mais fortemente na região Nordeste do Brasil, ainda não é objeto de muitos estudos socioantropológicos. Consideramos relevante direcionarmos o estudo a essa instituição que vem crescendo na cidade de Campina Grande-PB, como destacaremos no primeiro capítulo, onde suas doutrinas, eventos e instituições vêm impactando o cenário religioso local, o que faz da igreja um fenômeno social impossível de ser ignorado.
Os estudos realizados na Igreja Verbo da Vida estão mais focalizados em questões relacionadas ao consumo, ao mercado religioso, à religião na pós-modernidade e à teologia da prosperidade e seu impacto na sociedade5. Assim, a ausência de estudos sobre a IVV abordando questões relativas à corporalidade torna este trabalho peculiar. Embora a instituição religiosa escolhida seja neopentecostal, como muitas outras que já foram estudadas, ela contém características e um modelo sui generis de corporalidade, como abordaremos ao longo deste trabalho. Destacamos que esta pesquisa também servirá como contribuição na compreensão da corporalidade e das performances no pentecostalismo brasileiro.
A pesquisa, de caráter qualitativo, foi realizada a partir dos seguintes procedimentos: (a) entramos em contato com lideranças e membros da Igreja Verbo da Vida; (b) frequentamos sistematicamente as celebrações e os eventos promovidos por essa comunidade6; (c) realizamos descrições das práticas e concepções relativas à corporalidade observadas no seu cotidiano; (d) realizamos entrevistas com lideranças e amostra não aleatória de fiéis; e (e) produzimos descrições das linhas gerais das pedagogias da corporalidade.
Através da utilização da observação direta buscamos alcançar nossos objetivos, sendo preciso adentrarmos no contexto cultural e institucional em que estão inseridos os fiéis, para adquirirmos informações relacionadas à corporalidade. É o engajamento na comunidade selecionada, a partir da interação com os fiéis, que possibilita as negociações e trocas simbólicas importantes para a produção de conhecimento. No entanto, nossa intenção não foi a de experienciar o que foi vivenciado pelos fiéis, de modo a nos transformarmos em nativos, visto que nossos objetivos se distinguem dos daqueles sujeitos que ocupam posições e posturas, alvos de nossa investigação.
Mesmo quando o pesquisador está instalado na mesma cultura, isso não significa que seu discurso seja o de um nativo. Viveiros de Castro (2002) demonstra que o discurso do
5 Destacam-se como estudos relacionados a essas temáticas: Alves (2005), Dantas Junior (2018), Cavalcanti (2017) e Tavares e Guerra (2013).
6 Referimos como “sistematicamente”, visitas regularmente realizadas aos sábados (Culto dos Jovens), domingos (Cultos de Celebração) e primeiras terças-feiras de cada mês (Culto do Espírito), além da participação em eventos e atividades em geral, durante um ano.
pesquisador é estabelecido por uma relação com o ponto de vista do nativo. O autor compreende esta relação a partir de que o antropólogo faz uso de significados por ele conhecidos para dar sentido ao ponto de vista do outro. Assim, Viveiros de Castro (2002) expõe que:
Ainda quando antropólogo e nativo compartilham a mesma cultura, a relação de sentido entre os dois discursos diferencia tal comunidade: a relação do antropólogo com sua cultura e a do nativo com a dele não é exatamente a mesma. O que faz do nativo um nativo é a pressuposição, por parte do antropólogo, de que a relação do primeiro com sua cultura é natural, isto é, intrínseca e espontânea, e, se possível, não reflexiva; melhor ainda se for inconsciente. O nativo exprime sua cultura em seu discurso; o antropólogo também, mas, se ele pretende ser outra coisa que um nativo, deve poder exprimir sua cultura culturalmente, isto é, reflexiva, condicional e conscientemente. Sua cultura se acha contida, nas duas acepções da palavra, na relação de sentido que seu discurso estabelece com o discurso do nativo. Já o discurso do nativo, este está contido univocamente, encerrado em sua própria cultura. O antropólogo usa necessariamente sua cultura; o nativo é suficientemente usado pela sua (VIVEIROS DE CASTRO, 2002, p. 114).
Para a realização desta pesquisa contactamos as lideranças da instituição selecionada, visando esclarecer os aspectos da investigação, para, em seguida, os mesmos mediarem o nosso contato com os demais membros e líderes (procedimento a). Após os primeiros contatos, frequentamos as atividades realizadas pela instituição (procedimento b), interagindo e observando o cotidiano dos fiéis, para, num momento posterior, descrever as práticas observadas (procedimento c).
O acesso e a permanência no grupo permitiram aproximação – familiaridade – e comunicação, o que produz o enriquecimento de informações que só podem ser adquiridas com a “intimidade cultural”7. Após o acesso ao grupo, frequentando os cultos e as atividades da instituição, realizamos entrevistas informais, nas quais, por meio da conversação não estruturada com líderes, diáconos e fiéis, obtivemos informações gerais sobre o uso da corporalidade. Em seguida, selecionamos intencionalmente cinco indivíduos para realizarmos entrevistas semi-estruturadas (procedimento d), com o objetivo de adquirirmos informações específicas em relação às pedagogias da corporalidade (procedimento e). Na seleção, levamos em consideração variáveis como o tempo de pertencimento na IVV, a idade, e as posições
ocupadas pelos fiéis na comunidade. Esta última variável foi importante, pois possibilitou a obtenção de dados acerca dos diferentes posicionamentos em relação à normatização do uso do
7 Conforme Benites (2007), o termo denominado por Michael Herzfels “intimidade cultural” corresponde ao ingresso do pesquisador em um ambiente no qual se compartilham os sentimentos do que pode ser embaraçoso e constrangedor entre os sujeitos do grupo pesquisado.
corpo, tanto do ponto de vista institucional quanto da membresia. Abaixo, segue um quadro com informações sobre nossos entrevistados:
QUADRO 1 – Informações básicas sobre os entrevistados
EN TR EV IS TA D O (A ) * IDADE ** TEM P O D E P ER TEN C IM EN TO ** C A R G O /F U N Ç Ã O / G R U P O *** Marcus 47 25 Coordenador doutrinário do MVV Profeta
Professor das Escolas Rhema Brasil, de Ministros e de Missões
Carlos 28 8 Departamento dos JVV
Recepção
Carla 39 20 Ministra de louvor
Projeto Pão e Vida
Maria 50 15 Grupo Familiar
Departamento de mulheres
Flávio 27 3 Departamento dos JVV
Jovens intercessores
Fonte: Dados da Pesquisa *Nomes fictícios. ** Em anos
*** De acordo com o critério de classificação nativo.
Para os registros do que foi observado na IVV, utilizamos um caderno de campo, no qual, ao final de cada evento observado, foram registradas as informações relacionadas à instituição e à corporalidade dos fiéis; bem como utilizamos um aplicativo de notas8 no dispositivo de telefone móvel, a fim de registrar algumas informações In loco de maneira detalhada. Também assistimos os cultos, dos quais participamos, no youtube e consultamos as redes sociais da referida comunidade religiosa, observando os conteúdos e fotos postadas, para registrar os detalhes não observados In loco.
Caminhos da Pesquisa
Meus primeiros contatos com a IVV ocorreram quando uma de suas igrejas foi instalada a menos de 20 metros de onde eu residia, a Igreja Verbo da Vida Zona Sul – IVVZS, localizada no bairro Jardim Paulistano, na cidade de Campina Grande-PB. De casa, observava os fiéis indo à igreja e escutava os louvores e as celebrações, nada muito próximo. Já nos anos 2013 e 2014, quando realizei pesquisa de mestrado, fiz uma comparação entre sites de Paróquias da Igreja Católica e sites de igrejas neopentecostais, como a Bola de Neve Church, a Igreja Verbo da Vida e a Igreja Universal do Reino de Deus. Nessa pesquisa, constatei uma série de eventos semelhantes entre essas igrejas, destacando-se, como na IVV, aqueles voltados ao público jovem, a exemplo dos shows e dos acampamentos.
Um contato mais direto, fora do ciberespaço, aconteceu no final de 2014, quando comecei a frequentar celebrações e alguns eventos da IVVZS, para conhecer seu estilo litúrgico, seus rituais e suas práticas. No ano de 2016, já realizando a pesquisa de doutorado e identificando-me como pesquisador, conversei com o pastor da IVVZS, explicando-lhe o estudo que estava para realizar, assim como meus objetivos. O pastor, ao concordar e permitir meu acesso a essa instituição religiosa, se prontificou a apresentar-me tanto às lideranças, aos demais pastores e aos ministros quanto nos projetos engajados. No entanto, o acesso a essa instituição não prosseguiu em virtude de uma mudança de pastores, na qual o pastor presidente da instituição foi realocado para o centro de cura da Igreja Verbo da Vida Sede, chegando um novo pastor presidente na IVVZS.
Procurei conversar com o pastor recém-chegado, esclarecendo-lhe a pesquisa, e ele não foi tão acolhedor como o anterior, mas me pediu uma cópia do projeto e informou que precisava realizar uma reunião com a diretoria da igreja para possibilitar a deliberação. Em meio ao processo de envio do projeto e espera pela resposta do pastor, comecei a frequentar e conhecer a Igreja Sede. Nela, observei grandes eventos sendo organizados e realizados, em níveis local, nacional e mundial. Também percebi que, devido à complexidade da organização, para conhecer melhor essa instituição religiosa seria necessário acessar o Ministério Verbo da Vida, que administra e coordena em nível mundial todas as instituições ligadas ao Verbo da Vida, com sede na cidade de Campina Grande-PB.
Visando construir uma relação com o universo daqueles atores, tomei a decisão de migrar a pesquisa e estabeleci visitas mais sistemáticas à Igreja Sede9. Vale salientar que outro
9 Não recebi uma resposta do pastor da IVVZS, mas o comuniquei, após ter acesso à Igreja Sede, que migraria a pesquisa para esta igreja.
fator importante para essa decisão foi a presença constante de minha mãe na IVVZS, que estava congregando na igreja. Por mais que eu lhe explicasse meus objetivos de pesquisa, ela os desconsiderava em vista de uma possível conversão, o que gerou certo incômodo. Esse apelo à conversão, diga-se de passagem, não deixou de existir na Igreja Sede: o líder dos jovens, por exemplo, explicou que minha presença na IVV e a pesquisa não eram por acaso, mas um
chamado para aquele lugar e para Deus.
A estratégia para acessar a Igreja Sede foi inicialmente conversar com o pastor presidente João Roberto, o que tornou o processo bastante demorado, pois a secretária da igreja sempre informava sobre sua agenda cheia, relatando compromissos que incluíam viagens. Devido à dificuldade em marcar um encontro com o pastor, sempre deixando o número do celular com a secretária e nunca recebendo um retorno, entrei em contato com um casal de diáconos conhecidos que serviam na IVV Sede, para intermediar o encontro. A diaconisa conversou com a secretária explicando que eu era alguém de sua família que precisava conversar com o pastor. Em uma quarta-feira, após quase três meses de espera, a secretária me ligou informando que conseguira um horário após um casal desmarcar um aconselhamento com o pastor, e que eu teria de estar lá em 30 minutos.
Quando consegui conversar com o pastor presidente, expliquei meu projeto de doutorado, falando-lhe um pouco sobre a temática. Ele inicialmente demonstrou interesse, explicando que na IVV havia uma liberdade maior em relação às outras igrejas e enfatizando que o fundamento e o foco dessa instituição eram a Palavra. Assim, para ele, questões relativas aos vestuários, às danças, aos cortes de cabelo e às maquiagens, elementos de interdições em igrejas tradicionais, eram secundárias para a IVV. Prosseguindo a conversa, ele disse que via com bons olhos o conhecimento, não lhe sendo contrário.
Com a experiência que tivera na IVVZS, logo ofereci uma cópia do projeto. Porém, o pastor, ainda não permitindo o acesso para a realização da pesquisa, pediu para que antes eu conversasse com o Diretor Executivo do Ministério Verbo da Vida, Thiago Borba, pois ele poderia me acompanhar, assim como me apresentar às demais lideranças e departamentos. Com isso, o pastor estaria mais seguro a respeito da minha presença dentro da igreja. Como orientado pelo pastor presidente, fui no domingo à noite para o Culto de Celebração da Igreja Sede. Ao final do culto, desci até o púlpito, onde fui recebido com um abraço pelo pastor. Ele me apresentou a Thiago Borba, que, conversando comigo, perguntou a minha área de conhecimento e o que eu estava pesquisando. Logo após, trocamos nossos contatos e combinamos via
Marcamos um encontro no Ministério Verbo da Vida. Thiago Borba, que estava junto a outro pastor, me recebeu em sua sala, a da Diretoria Executiva. Relatei mais uma vez o que estava pesquisando e entreguei uma cópia do projeto de pesquisa. Por eu já ter sido recebido pelo pastor João Roberto, meu encontro com Thiago não foi de muitos questionamentos. Receptivo, ele perguntou como poderia me ajudar. Inicialmente informei que precisava conhecer alguns líderes de departamento. Prontamente, ele pediu para uma jovem, filha do Apóstolo Guto Emely, me apresentar à estrutura do Ministério e aos sujeitos que lá trabalhavam. Na ocasião, estavam alguns pastores, líderes e ministros. Nas salas em que entravámos, a jovem me apresentava e, em resposta, as pessoas se apresentavam e falavam um pouco de suas funções no Ministério.
Ter conversado com o pastor João Roberto e com Thiago Borba, e eles permitirem meu acesso, fortaleceu a forma com a qual fui visto pelos demais contactados, facilitando uma maior abertura e diminuindo alguma possível desconfiança, tornando-os mais acessíveis. Um exemplo prático foi o que aconteceu em uma conversa com Carlos (membro dos Jovens Verbo da Vida – JVV, 28 anos), na qual expliquei o que estava fazendo e o caminho que já havia percorrido até a ocasião, isto é, conversado com pastor João, Thiago Borba e Welder (líder dos jovens), que permitiram a realização da pesquisa. Carlos reagiu com surpresa e admiração pelo fato de eu já conhecer boa parte da liderança, inclusive aquela que exerce autoridade, como os citados acima.
Ao iniciar as visitas mais sistemáticas, em um dos Cultos de Celebração que frequentei, fui abordado pelo profeta e coordenador doutrinário Marcus, que perguntou quem eu era, indagando que nunca havia me visto pela igreja. Identifiquei-me como pesquisador e afirmei que já conversara com as lideranças do Ministério. Ele não demonstrou surpresa, reconhecendo que havia falado com Borba. Com essa abordagem no final do culto, comecei a perceber que também estava sendo observado, mesmo numa igreja com cerca de 2 mil membros cadastrados e que tem espaço para receber um total de até 5 mil pessoas nos cultos.
Após o acesso ao campo, comecei a participar com frequência, durante dezembro de 2017 até dezembro de 2018, dos Cultos de Celebração, dos Cultos dos Jovens e dos Cultos do Espírito e com menos frequência dos Cultos dos Adolescentes, pois estes ocorrem no mesmo horário do Culto de Celebração. Participei de grupos no formato de célula, denominados de
Igreja nas Casas e de Grupo Familiar. Também participei dos seguintes eventos da IVV: Acampamento, Acampamento dos Jovens Verbos da Vida – JVV, Encontrão Verbo da Vida, Jovens Para as Nações – JPN, Conferência de Família, Conferência de Cura e Alternavida.
Aproximei-me bastante do departamento dos Jovens Verbo da Vida. Minha idade permitiu uma maior interação e também a criação de laços de amizade com alguns jovens dessa igreja. Durante a estadia nesse departamento, participei da confraternização de São João no período da festa junina e também passei três dias imerso com os jovens no Acampamento (que ocorreu em uma cidade do brejo paraibano). Aproveitando a ocasião, troquei contatos. Também entrei para o grupo no Whatsapp dos JVV.
Em relação às entrevistas, encontrei inicialmente dificuldade em encontrar uma liderança disposta a ser entrevistada. A justificativa da falta de tempo foi recorrente entre a liderança. Por um período, priorizei entrevistas informais, dialogando com os líderes e também com os fiéis na forma de conversação. Após uma aproximação com o coordenador doutrinário do Ministério Verbo da Vida – MVV, ele se demonstrou aberto como também me convidou para uma segunda visita ao MVV, onde foi realizada a entrevista semi-estruturada.
Também foi preciso uma maior aproximação com os fiéis para realizar as entrevistas. Em meio aos encontros na igreja foram possíveis duas entrevistas na própria instituição, uma agendada para antes de iniciar o culto e outra após o seu término. Outras duas entrevistas foram agendadas nas próprias residências dos entrevistados. Tais entrevistas foram registradas através de um gravador de voz e armazenadas em computador no formato mp4. Em seguida, foram transcritas para documentos de texto (pdf). Os arquivos de voz e de texto oriundos dessas entrevistas permanecerão armazenados por um período de cinco anos, para possíveis consultas e conferências, e posteriormente serão excluídos permanentemente, conforme regra do comitê de ética.
Estrutura dos capítulos
Planejamos estruturar o texto da tese em quatro capítulos, cujos conteúdos passamos a descrever, seguidos das considerações finais e das referências utilizadas.
No primeiro capítulo, descrevemos a Igreja Verbo da Vida no que se refere à origem (desde a chegada de Bud Wright e sua esposa Jan Wright ao Brasil), à organização e à estrutura dessa instituição. Também descrevemos e buscamos interpretar em linhas gerais a inserção e o crescimento dessa organização na cidade de Campina Grande-PB. Na segunda parte desse capítulo, abordamos as principais crenças ensinadas pela igreja sobre: a prosperidade, os dízimos e as ofertas, a divisão do homem em três, a autoridade do crente e a cura divina.
No segundo capítulo, abordamos aspectos do movimento gospel, situando a Igreja Verbo da Vida como campo empírico em que observamos suas dinâmicas. Mesmo havendo
tensões e disputas em torno do termo música gospel, que envolve agentes no mercado, nos grupos religiosos, na mídia e na academia, os sujeitos da instituição religiosa aqui analisada reconhecem o estilo musical do Ministério Verbo da Vida como Música Cristã/Gospel. Faz parte desse estilo um conjunto de subgêneros musicais como o forró, o pop, o pagode e o Louvor
& Adoração. Assim, dentre os aspectos focalizados no capítulo, destacamos: a emergência da indústria fonográfica gospel e da secular, o desenvolvimento dos meios de comunicação, a ampliação da força da cultura do consumo na esfera religiosa e a constituição do ethos gospel, no qual o estilo musical se constrói como um tipo de entretenimento religioso. Também abordamos questões relacionadas à postura mais liberalizada adotada por esse movimento em relação aos usos e costumes e às novas dinâmicas de pedagogias da corporalidade colocadas em curso.
No terceiro capítulo, procedemos a uma análise das pedagogias da corporalidade, discutindo como os pastores e ministros, através de suas performances no culto, atuam no sentido de despertar emoções e atitudes nos fiéis, mobilizando-os para a execução prática dos modelos de corporalidade propostos por eles, agentes institucionais para a ativação de um conjunto de técnicas corporais a serem adquiridas e utilizadas pelos fiéis. Também analisamos as narrativas das experiências religiosas dos fiéis da IVV, verificando os sentimentos, as emoções e as sensações corporais que emergiam quando eles participavam dos cultos e das demais atividades realizadas no âmbito dessa organização religiosa.
No quarto capítulo, apresentamos as restrições e os usos do corpo no culto, analisando os investimentos que os fiéis fazem em si mesmo (cuidados de si) para serem alvos e se manterem na “presença do Espírito Santo”. Também destacamos nesse capítulo como esse trabalho de si é uma busca dos fiéis para alcançar a maturidade espiritual, que é estimulada pelas lideranças da instituição, incentivando-os a encontrarem seus “propósitos” ou “chamados”.
CAPITULO 1 – A IGREJA VERBO DA VIDA 1.1 História, Organização e Estrutura da IVV
A Igreja Verbo da Vida (IVV) foi fundada pelo casal norte-americano Harold Leroy Wright e sua esposa Janace Sue Wright. Ele ficou conhecido como “Bud” e ela, como “Jan” ou “Mama Jan”. O pastor Bud nasceu no Estado do Alabama, no sul dos Estados Unidos, em 1945, e foi criado na fazenda de seus pais. Quando mais velho, se tornou caminhoneiro, e exerceu a profissão por alguns anos. Mesmo crescendo numa família metodista, Bud só se converteu aos 27 anos de idade, quando se firmou como cristão confesso (aquele que aceita Jesus como o seu Senhor Salvador) e se afastou das “coisas mundanas”. Converteu-se na Igreja Batista Missionária, onde recebeu um “chamado ministerial”, exercendo-o apenas quando retornou à Igreja Metodista, a qual pastoreou por 5 anos.
Durante o período de pastoreio na Igreja Batista Missionária, no Estado do Alabama, Bud recebeu de seu tio fitas e livros de Kenneth Hagin, as quais fizeram com que ele tomasse conhecimento do que considerou “verdades da Palavra de Deus”. A partir dessa experiência, o pastor Bud e sua esposa Janace procuraram se aprofundar na Palavra, indo estudar na Escola Bíblica (Rhema Bible Training Center – RBTC) de Kenneth Hagin, localizada em Oklahoma. É importante destacar a direção divina relatada pelo pastor Bud antes de ser membro da RBTC:
“Quero que você estude por dois anos no RBTC, e depois vá levar a minha Palavra para o meu povo no Brasil, para que eles sejam livres” (MINISTÉRIO VERBO DA VIDA, 2013).
O casal passou dois anos no curso, matriculou-se em 1981 e graduou-se em 1983, e posteriormente se preparou para viagem ao Brasil, chegando ao país no mesmo ano de sua graduação. Foi durante o curso no RBTC que as portas do Brasil começaram a se abrir para Bud, quando ele conheceu um brasileiro, pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular:
Tratava-se do evangelista Davi Pires que na época morava nos EUA, mas era pastor da Igreja do Evangelho Quadrangular em São Paulo. Davi fez a ponte entre Bud e uma missão evangelizadora em Campo Mourão no Estado do Paraná, para onde vieram. Assim, chegando ao Brasil, o pastor Bud fica a serviço do pastor Davi, porém passados sete meses, ele diz que Deus o manda para São Paulo. Em São Paulo, permanece em contato com Davi, ficando em seu apartamento, à sua espera. No entanto o pastor Bud confessa não estar satisfeito em trabalhar com o pastor Davi, e inicia um estudo bíblico, realizado aos domingos à noite em Guarulhos, que contava com a presença de 15 pessoas. Em poucos meses esse número subiu para 100 pessoas, e assim surgiu a primeira Igreja Verbo da Vida no Brasil, no ano de 1983. (ALVES, 2005, p. 103).
Esse rompimento ocorreu por Bud não comungar com as doutrinas da Igreja do Evangelho Quadrangular, já que as mensagens do pastor enfatizavam elementos como prosperidade e a unção, que não cabiam nas doutrinas daquela igreja. As reuniões que ocorreram em Guarulhos, na casa de uma intérprete de línguas estrangeiras, também eram marcadas por sinais e milagres que acompanhavam as pregações de Bud. Assim, suas falas com ênfase na prosperidade, na unção e nos milagres, que correspondiam às curas divinas, tornaram Bud reconhecido, ganhando adeptos que tornaram possível o surgimento da Igreja Verbo da Vida no ano de 1985. No ano seguinte à criação da igreja, também foi criada uma escola bíblica no mesmo estabelecimento.
Em 1987, o pastor Bud ordenou um aluno chamado Ohanes Karagulian, conhecido como Hans, pastor daquele ministério. Sob liderança de Hans, a Igreja Verbo da Vida em Guarulhos passou de 150 para 1000 membros. Com essa transferência de liderança, Bud teve maior liberdade de partir para Barueri - SP, onde fundou mais uma congregação e uma escola bíblica (ALVES, 2005). Até que no ano de 1988 o casal viajou para o Nordeste, passando pelas capitais nordestinas até chegar à cidade de Campina Grande.
Segundo Patrícia Alves (2005), o pastor Bud teve conhecimento sobre o Nordeste, inclusive sobre sua localização, através de perguntas feitas aos membros de sua Igreja. Ele chegou a interrogar uma campinense, que lhe falou como Campina Grande era uma cidade central, próxima a várias capitais. É importante destacar que o percurso feito pelo pastor Bud, a vinda ao Brasil, a instalação de igrejas em Guarulhos e Barueri e, por fim, a vinda ao Nordeste, é narrado por ele como sendo “vontade de Deus” ou “direção divina”. Assim como ocorreu em Campina Grande, quando esteve hospedado com sua esposa no hotel Ouro Branco, e lá recebeu uma “revelação de Deus”, que afirmava que era nessa cidade que o casal deveria ficar e instalar o Ministério Verbo da Vida. Campina Grande seria a base para que a “Palavra de Deus” chegasse a todas as capitais do Nordeste:
Estando ele hospedado no hotel Ouro Branco, se dirigiu até a cobertura para contemplar a vista da cidade. Nesse momento vê o que parece ser uma roda de bicicleta com o eixo e os vários raios, onde compreende que simbolicamente o eixo significa a cidade de Campina Grande, que se torna à base, e os vários raios simbolizam a difusão da igreja, sua extensão por vários lugares, mas, sua submissão à base (ALVES, 2005, p. 104).
Nesse período, o casal passou dois dias em Campina Grande, logo retornando a São Paulo. Foi somente em 1990, dois anos depois, que “Deus ordenou” o retorno de Bud e Jan a Campina Grande, dessa vez para fixarem residência. Passando a morar nessa cidade, o pastor
Bud começou a ministrar a palavra na casa de um empresário, crente presbiteriano, que recebia nas segundas-feiras pregadores de várias denominações. Os cultos ocorriam na sala dessa casa, mas logo passaram a ser realizados no salão de jogos, pelo fato de o público crescer à medida que ficava sabendo dos milagres ocorridos.
Ganhando notoriedade, o pastor Bud deu início às reuniões para estudos bíblicos, que ocorriam no pátio de uma escola particular no centro da cidade de Campina Grande. Eram frequentadas por membros de outras denominações que buscavam o conhecimento sobre a
Palavra da fé, a qual Bud aprendera na escola de Kenneth Hagin. Depois, essas reuniões foram transferidas para a casa de Bud juntamente com doze membros participantes. Como o número de crentes foi aumentando, em janeiro de 1992, o pastor Bud, com o auxílio de outro missionário norte-americano chamado Gerald Foster, alugou um galpão no centro da cidade, que passou a ser a primeira Igreja Verbo da Vida do Nordeste. No mesmo prédio também funcionava o Centro de Treinamento Bíblico Verbo da Vida (CTBVV).
De acordo com Alves (2005), a igreja logo alcançou o total de 200 membros, o que tornou necessária a mudança para outro local, pois o prédio não mais comportava o número de pessoas que aumentava consideravelmente. Sendo assim, alugaram o espaço de uma antiga concessionária no bairro Prata, acomodando os fiéis, que já chegavam a 400. Como o número de membros não parava de crescer, em 1997 comprou-se um terreno no bairro Dinamérica para a construção da igreja sede, onde está localizada até a atualidade. Além disso, como diversas igrejas estavam sendo fundadas, espalhando-se pelo Brasil, e mais fortemente no Nordeste, em 1998 fundou-se em Campina Grande o Ministério Verbo da Vida, um centro de operações com o objetivo de assessorar todas as instituições ligadas à Verbo da Vida.
No ano de 2000, o Centro de Treinamento Bíblico – CTBVV se transformou no Centro de Treinamento Rhema Brasil, filiado ao Ministério Kenneth Hagin nos Estados Unidos. O Rhema Brasil é uma escola bíblica de caráter interdenominacional que está instalada ao lado da igreja sede. Tendo duração de dois anos, o curso da escola visa à capacitação dos fiéis nas doutrinas bíblicas10 conforme são pregadas pela igreja, preparando-os para uma vida cristã de acordo com a mensagem religiosa que é propagada pela IVV.
10 São estudadas 24 matérias, 23 teóricas e uma prática, denominada Ministrando a Palavra, na qual o aluno precisa pregar por um período de 15 minutos. As matérias teóricas são: Aliança de sangue; Autoridade do crente; As manifestações do Espírito; Caráter de Deus; Como ser guiado pelo Espírito; Cristo, aquele que cura; Doutrinas básicas da Bíblia; Escatologia; Evangelismo; Família cristã; Fruto do Espírito; Fundamentos da Fé; Gálatas; História da Igreja; Justiça de Deus; Ministério prático; O livro de Atos; Oração que prevalece; Realidades da nova criação; Submissão e autoridade; Vida de louvor; Vida de prosperidade; e Unção.
Em 2009, a visão do pastor Bud foi ampliada. Segundo ele, “Deus falou”:“O Verbo
da Vida vai para todo o mundo”11. Hoje, o Ministério prepara missionários para as nações com o auxílio da Agência de Missões Verbo da Vida. Com esse propósito foi criada a Escola de Missões, localizada no bairro Jardim Paulistano, que capacita sujeitos para servirem no campo missionário local, nacional ou internacional.
Uma terceira escola sede foi fundada em Campina Grande, a Escola de Ministros Rhema, também localizada no Jardim Paulistano. Esta não só prepara ministros para propagar a mensagem religiosa como também os sujeitos que atuam no Ministério de Socorros12 (os conselheiros, os secretários, os que recebem as pessoas nos cultos, os que cuidam e ensinam as crianças, os que acolhem o novo convertido, o pessoal da assistência social, entre outros). Assim, essa escola destaca-se na formação de lideranças para atuar em diversos departamentos. Para que os sujeitos se formem na Escola de Ministros e na Escola de Missões, que têm duração de um ano, é preciso que eles primeiro se formem no Centro de Treinamento Rhema Brasil. A inserção dos convertidos na IVV torna-se duradoura ou permanente, o que evita o trânsito religioso, à medida que eles vão ingressando nas escolas, demonstrando fidelidade à instituição religiosa.
Já em 2012, um ano antes de morrer, o pastor Bud fundou o Centro de Cura Rhema Brasil, assim como fez Kenneth Hagin no EUA. Ele teve auxílio de alguns ministros de cura que vieram dos EUA para treinar novos ministros e, assim, levantar uma equipe. O Centro de Cura funciona de segunda a sexta-feira durante a noite. As pessoas enfermas se submetem nesses cinco dias a escutar a “Palavra de Deus”, para que compreendam que faz parte da “vontade Dele curar”, basta que o sujeito “tome posse” disso. Na sexta-feira há a imposição de mãos para que o enfermo seja curado.
Todos os anos, no mês de agosto, as Igrejas Verbo da Vida comemoram a chegada do Pastor Bud e de sua esposa Jan ao Brasil. Agosto é um mês missionário para essa instituição. Por isso, durante esse período é resguardado um culto de celebração denominado Dia Verbo da
Vida de Missões, que ocorre em todas as Igrejas Verbo da Vida, sobretudo destinado a preservar a memória e a agradecer ao casal13. Em agosto de 2018, esse culto exibiu um filme curta-metragem relatando a vinda do casal ao Brasil, até sua chegada à Campina Grande, história
11 Os símbolos (a Bíblia, a pomba e o farol) presentes no logotipo da IVV mostrado na capa deste capítulo foi elaborado pelo Departamento de Comunicação em conformidade com a visão do pastor Bud. Assim, a Biblía e a pomba representam a “Palavra de Deus” e o “Espírito Santo” que vai iluminar (farol) todas as nações.
12 Existem 5 dons ministeriais mais frisados na igreja, que são os Apóstolos, os Profetas, os Evangelistas, os Pastores e os Mestres. De maneira menos enfática está o Ministério de Socorros (ajuda). Os dons ministeriais são justificados através da passagem bíblica de 1 Coríntios 12:28.