Processo 374/2010-JP
Data do documento 5 de agosto de 2021
Relator
Luis Filipe Guerra
JULGADOS DE PAZ | CÍVEL
Sentença
DESCRITORES
Responsabilidade civil contratual
SUMÁRIO
N.D.TEXTO INTEGRAL
SENTENÇAA, Advogado em causa própria, com escritório no concelho do Porto, intentou a presente acção declarativa destinada a efectivar a responsabilidade civil contratual contra B, com os demais sinais nos autos, pedindo a condenação desta a pagar-lhe a quantia indemnizatória de 2.500,00 € pelo tempo dispendido, idas inúteis ao balcão x e desgastes físicos e emocionais, bem como a efectuar o serviço por si solicitado.
Alegou, para tanto e em síntese, que pediu à demandada, em 15/06/2010, a transferência do serviço telefónico e de Internet do seu escritório para a sua residência com urgência, visto que se iria ausentar do país a partir do dia 24 de Junho, sendo certo que isso não foi feito e que no dia 23 de Junho ficou sem sinal telefónico, tendo comunicado a avaria; após o seu regresso a Portugal, foi agendada a referida transferência para dia 9 de Julho, mas não apareceu ninguém, pelo que voltou à loja da demandada, sem que até à data da propositura da acção tivesse sido reposta a linha telefónica nem efectuada a respectiva transferência.
Para prova da matéria por si alegada, o demandante juntou aos autos quinze documentos.
Regularmente citada, a demandada apresentou contestação, pugnando pela improcedência da acção e alegando em suma ser verdade que o demandante pediu a mudança exterior do serviço fixo telefónico e x em 16/06/2010, tendo o mesmo sido contactado para esse efeito em 26/06/2010, estando, porém, indisponível e comprometendo-se a contactar de novo a demandada após o seu regresso, o que veio a fazer em 05/07/2010, fazendo nova requisição, a qual veio a ser satisfeita em 19/07/2010; mais alegou, com respeito à avaria invocada pelo demandante, que tentou contactar este, sem êxito, para reparação da mesma e que veio a detectar duas avarias em 08 e 09 de Julho, prontamente reparadas.
Não se realizou a sessão de pré-mediação, dado que a demandada afastou expressamente essa possibilidade.
Foi, então, marcada e realizada a audiência de julgamento, com observância do formalismo legal, no início da qual foi o demandante convidado a aperfeiçoar a petição inicial, concretizando e discriminando quais os danos patrimoniais e não patrimoniais por si sofridos.
O Julgado de Paz é competente em razão da matéria, do objecto, do território e do valor (artigos 9º, nº 1 h); 6º, nº 1; 12º, nº 2; e 8º, respectivamente, da Lei nº 78/2001, de 13 de Julho).
As partes gozam de personalidade e capacidade judiciárias e são legítimas.
Não há outras excepções, nulidades ou quaisquer questões prévias de que cumpra conhecer. FACTOS PROVADOS:
1. Em 16/06/2010, o demandante solicitou à demandada, na loja desta, a alteração do serviço fixo telefónico (x) e x de que dispunha para outra morada, tendo pedido que isso fosse feito antes do dia 24 de Junho.
2. Entre os dias 16 e 24 de Junho, o demandante voltou pelo menos uma vez à mesma loja da demandada para reiterar a sua urgência na transferência do serviço fixo telefónico e x para outra morada.
3. No dia 25 de Junho, o demandante viajou para o estrangeiro, sem que a referida transferência tivesse sido efectuada.
4. Entretanto, no dia 23 de Junho, o telefone deixou de ter sinal, tendo o demandante reportado a avaria à demandada.
5. Quando se encontrava fora, o demandante foi contactado pela demandada para agendar a referida transferência, tendo ficado de recontactar esta para esse efeito após o seu regresso.
6. No dia 5 de Julho, o demandante voltou à mesma loja da demandada para reiterar o seu pedido de mudança exterior do x e agendar a mesma.
7. A demandada detectou e reparou avarias no telefone fixo do demandante nos dias 8 e 9 de Julho.
8. No dia 19 de Julho foi realizada a transferência solicitada, tendo o serviço ficado activo na nova morada no dia seguinte.
9. A demandada veio a creditar ao demandante o valor da assinatura do x e do serviço x, respeitante ao mês de Julho, na factura do mês de Outubro, na sequência de reclamação por parte deste.
CONVICÇÃO PROBATÓRIA:
O facto nº 1 resulta do acordo das partes, bem como, quanto à sua parte final, do depoimento da testemunha C, que acompanhou o demandante à loja da demandada, dado ser colega de escritório do mesmo, o qual se situa nas redondezas.
O depoimento desta testemunha foi ainda relevante no que respeita ao facto nº 2, atendendo a que voltou a acompanhar o demandante à loja da demandada uma vez, antes do mesmo viajar.
O facto nº 3 assenta no acordo implícito das partes, bem como, no que respeita ao dia da partida do demandante para o estrangeiro, no depoimento da mesma testemunha.
O facto nº 4 teve o acordo das partes, atendendo ao teor do artigo 11º da contestação, de cujo teor não foi feita prova de que a demandada tivesse nessa altura tentado contactar o demandante.
durante a audiência de julgamento
O facto nº 6 teve também o acordo das partes, embora a demandada tenha tratado o pedido do demandante como uma nova requisição, em virtude do cancelamento da anterior na sequência da frustração da primeira tentativa de agendamento.
Os factos n.os 7 a 9 suportam-se no depoimento da testemunha D, funcionário da demandada, bem como nos documentos de fls. 47, 50 e 53, emitidos pela demandada e juntos aos autos pelo demandante.
DO DIREITO:
O demandante pretende ser indemnizado pela demandada, bem como a condenação desta a efectuar o serviço solicitado.
No que diz respeito a este último pedido, é óbvio, em face da matéria de facto provada, que se verifica a inutilidade superveniente da lide, atendendo a que o serviço solicitado (alteração de morada do x e x) foi reconhecidamente efectuado em 20/07/2010.
Assim, resta-nos apreciar o mérito do primeiro pedido formulado pelo demandante.
Ora, desde logo, a causa de pedir e o pedido formulados pelo demandante não são claros, até porque, convidado a aperfeiçoar a petição inicial - no sentido de concretizar os prejuízos invocados no artigo 12º dessa peça processual, especificando a natureza e o valor dos mesmos, de forma discriminada – o demandante limitou-se a explicar que o valor do pedido indemnizatório corresponde a 50% da franquia do seguro de responsabilidade civil profissional de que é beneficiário, prevenindo, assim, quaisquer reclamações de clientes decorrentes da privação do serviço de telefone e Internet alegada nestes autos. Porém, no pedido constante da petição inicial, o demandante pede a condenação da demandada no pagamento da quantia de 2.500,00 €, a título indemnizatório pelo tempo dispendido, idas inúteis ao balcão x e desgastes físicos emocionais. Assim sendo, dir-se-ia, mediante a resposta ao convite para aperfeiçoar a petição inicial, que o demandante deixou cair a sua pretensão de ser ressarcido por danos não patrimoniais (cfr. artigo 496º do Código Civil) e passou a exigir o ressarcimento de danos futuros (cfr. artigo 564º, nº 2 do Código Civil), já que o mesmo não alegou que tivesse sofrido danos emergentes e lucros cessantes decorrentes do alegado incumprimento da demandada (ou melhor, limitou-se a alegar que não teve entretanto solução ao problema que evidentemente lhe causou prejuízos, por ter o fax inacessível e ter ficado sem Internet).
Em qualquer caso, como resulta das regras comuns da responsabilidade civil extracontratual e contratual, só há obrigação de indemnização se houver, entre outros pressupostos (culpa, dano e nexo de causalidade entre o facto ilícito e o dano), facto ilícito, isto é, contrário à lei ou ao contrato. E, desde logo, no que respeita à questão da alteração de morada do x e x, não se vislumbra que tenha havido qualquer incumprimento legal ou contratual por parte da demandada, visto que não foi demonstrado que a mesma se tenha vinculado com qualquer prazo de execução ou que tenha desrespeitado alguma obrigação legal a esse respeito (cfr. Lei nº 5/2004, de 10 de Fevereiro e Regulamento sobre Qualidade do Serviço da ANACOM, disponível no site www.anacom.pt). Aliás, a satisfação da requisição do demandante também se atrasou por facto imputável a este, dado ter-se ausentado do país cerca de dez dias. E não basta o cliente pedir urgência para vincular a demandada ou para que se possa assumir que a satisfação do pedido daquele no prazo de quinze dias consubstancia um ilícito contratual. De resto, também não se vislumbra,
até por falta de alegação e prova, que a demora na transferência do x e x para a nova morada tenha causado danos patrimoniais ao demandante. E quanto aos danos não patrimoniais invocados, não revestem os mesmos a gravidade suficiente para merecer a tutela do Direito (cfr. artigo 496º, nº 1 do Código Civil), como bem salienta a demandada na sua contestação.
Por outro lado, pese embora tenha alegado que esteve sem serviço telefónico e Internet desde o dia 23 de Junho até, pelo menos, à data da propositura da acção, o demandante não parece fazer derivar desse facto a sua pretensão indemnizatória, dado que não pede a reposição do serviço (mas apenas a realização do serviço solicitado, o que se tem que entender como referindo-se à alteração de morada).
Ora, no que respeita a esta questão, a prova não foi conclusiva. De facto, ficou apenas provado que o demandante teve avarias nos dias 23 de Junho e 8 e 9 de Julho, mas, à parte estas duas últimas, não se provou qual foi a sua duração. Quer dizer, não se provou, de forma inequívoca, que o demandante tenha estado sem x e x desde 23 de Junho até à data da propositura da acção ou sequer até ao dia 9 de Julho, embora não se exclua essa possibilidade, tanto mais que a demandada refere que tentou contactar o demandante para reparar essa primeira avaria, mas sem êxito, admitindo implicitamente que não a reparou (ademais, a demandada reconheceu a anomalia, creditando ao demandante o valor da assinatura mensal dos serviços contratados, sem que se possa entender que a demandada tenha procurado compensar o demandante no atraso na alteração de morada, uma vez que não houve, nessa parte, incumprimento contratual). E é evidente que essas avarias, na medida em que privaram o demandante dos serviços contratados, constituem ilícitos contratuais, presumivelmente culposos (cfr. artigo 799º do Código Civil). Nessa medida, a demandada teria que indemnizar o demandante pelos prejuízos causados (cfr. artigo 798º do Código Civil), incluindo danos futuros.
Contudo, os danos futuros só são atendíveis se forem previsíveis. Ora, o demandante não convenceu minimamente o tribunal, mediante a prova oferecida, de que irá previsivelmente sofrer danos por efeito da interrupção dos serviços prestados pela demandada. Quer dizer, além dos óbvios incómodos, houve contactos importantes que se deixaram de fazer e/ou actos necessários que se deixaram de praticar, em virtude da privação do x e x, que tornem previsível a reclamação de clientes? Nada disso foi demonstrado, à parte um vago testemunho sobre um cliente que se terá perdido e outro que protestou, mas sem que isso tenha sido sequer alegado (na verdade, não houve alegação de prejuízos concretos sob a forma de danos emergentes ou lucros cessantes, como já se frisou). Aliás, no que respeita aos danos, toda a actividade probatória do demandante foi muito escassa, até porque resultou da discussão da causa que o telefone fixo nem era um instrumento tão essencial de trabalho daquele, já que os clientes o contactavam maioritariamente por telemóvel e que o mesmo não tem telefonista no escritório e nem sempre está lá, tanto assim que pediu a transferência do x e x para a sua residência.
Ora, à parte a culpa - que se presume neste caso - cabia ao demandante o ónus de demonstrar os demais pressupostos da responsabilidade civil contratual da demandada, nomeadamente os danos e o nexo de causalidade entre o facto ilícito (a interrupção dos serviços contratados por avaria) e os danos alegados, dado serem factos constitutivos do seu alegado direito de crédito indemnizatório (cfr. artigos 342º, nº 1, 483º e 563º do Código Civil). Porém, é bom de ver, em face da matéria de facto provada, a qual se baseia nos factos alegados pelas partes (cfr. artigo 664º, 2ª parte do CPC), que o demandante não cumpriu o ónus
de prova respectivo. E a verdade é que os danos não se presumem, não bastando alegar que “o problema causou evidentemente prejuízos” para se retirar daí o direito a uma indemnização, mesmo com recurso ao artigo 566º, nº 3 do Código Civil, mais a mais quando o prejuízo evidente – o valor da contra-prestação do demandante – já foi ressarcido pela demandada.
DO DIREITO:
Nestes termos, julgo a presente acção improcedente e não provada e, por via disso, absolvo a demandada do pedido.
Custas pelo demandante, que declaro parte vencida (cfr. artigo 8º da Portaria nº 1456/2001, de 28 de Dezembro).
Registe e notifique.
Porto, 10 de Fevereiro de 2011 O Juiz de Paz,
(Luís Filipe Guerra)