OS IMPACTOS SOCIAIS E AMBIENTAIS DA IIRSA
Manuela Moraes1
Desde o início das obras da Iniciativa para Integração da infra-estrutura Sul Americana (IIRSA), diversos estudos e campanhas são lançados todos os anos por movimentos sociais e organizações não governamentais denunciando os enormes impactos socais, econômicos e ambientais relacionados ao megaprojeto. A função inicial do projeto de interligar países e ultrapassar barreiras naturais existentes no subcontinente tem como consequência lógica e inevitável o impacto destrutivo sobre frágeis biomas naturais – como a Floresta Amazônica brasileira, peruana e boliviana, o Pantanal, o Cerrado e Chaco paraguaio e boliviano – além de afetar diretamente os modos de vida de populações rurais, ribeirinhas e indígenas. Apesar de todo discurso feito por parte dos idealizadores e financiadores das obras sobre preocupação e o respeito para como o meio ambiente e a sociedade, o que se vê muitas vezes é a liberação de projetos sem um estudo prévio de impactos ambientais, e o descaso com as populações locais, que não são ouvidas nem assistidas ao longo do processo, privilegiando o aspecto econômico das obras.
O projeto original da IIRSA prevê a construção de sete usinas hidrelétricas [ver
gáfico1], todas elas ainda sem estudos de impactos ambientais. Mesmo a que já está em
execução, a de Yacyretá2, não possui licença ambiental. Em relação à infra-estrutura viária, são 63 obras relacionadas à ampliação, pavimentação ou construção de novos trechos de rodovias, com investimentos iniciais previstos na casa dos U$ 8 bilhões, além de 62 ferrovias reformadas, construídas ou ampliadas.
Apenas no Brasil, a implementação da IIRSA deve afetar uma área de cerca 2,5 milhões de Km2. Segundo estudos da ONG Conservação Ambiental3, constam nesta área 47 Unidades de Conservação de proteção integral, 90 Unidades de Conservação consideradas de uso sustentável, 107 áreas indígenas, 484 áreas consideradas pelo governo federal como de prioridade de conservação, além de outras 145 áreas de proteção fora do território nacional.
1
Graduanda em jornalismo pela Universidade Estadual Paulista (UNESP – SP – Brasil)). Integrante do grupo de pesquisa América Latina e Marx. Movimentos sociais, partidos, Estado e Cultura - CNpq
2
Veja fixa completa do projeto em: http://www.iirsa.org/proyectos/detalle_proyecto.aspx?h=314
3
Implicações da Iniciativa de Integração da Infra-estrutura Regional Sul-americana e projetos correlacionados na política de conservação no Brasil
Projetos previstos dentro da carteira de investimentos da IIRSA e do PAC, como o Complexo do Rio Madeira e a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, são alvos de diversas ações jurídicas por parte de organizações não governamentais, movimento sociais como o Movimento dos Atingidos por Barragens e do Ministério Público, questionando as obras em função de seus impactos negativos. É este quadro de questionamentos, somando à chamada “lentidão” do IBAMA em conceder a licença para realização das mesmas, que levou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, a anunciar a preparação de um pacote de mudanças para tornar o processo de licenciamento mais rápido. Dentre as mudanças previstas está a possibilidade das regras para licenciamento serem definidas por decretos que ditariam as normas para as áreas do petróleo, rodovias, linhas de transmissão elétrica, portos e hidrovias4. Esta proposta de simplificação das licenças vem sendo articulada desde o governo Lula, e caso seja concretizada (a previsão é que entre em vigor ainda no primeiro semestre de 2011) deverá tornar todo processo de licenciamento ainda mais suscetível às pressões e aos interesses do empresariado.
TABELA 1 – Hidrelétricas da IIRSA
Nome da Hidrelétrica País Custo da Obra Financiamento Estado de
execução Corpus Christi Argentina/
Paraguai
U$ 4,2 bi Tesouro Nacional Não Iniciado
Gabiri Brasil/
Argentina
U$ 1,7 bi A definir Não Iniciado
Yacyretá Argentina/
Paraguai
U$ 1,2 bi Tesouro Nacional Em Execução
Micro-central Centurión e Telavera
Uruguai U$ 600 mi Tesouro Nacional Não iniciado
Cachuela Esperanza Bolívia U$ 1,2 bi Tesouro Nacional Não iniciado Complexo Hidr. Rio
Madeira (Santo Antônio e Jirau)
Brasil U$ 11,370 bi Tesouro Nacional Não iniciado
Hidr. Binacional Brasil-Bolívia
Brasil/ Bolívia
U$ 2 bi Tesouro Nacional Não iniciado
4
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1902201120.htm e Estado de São Paulo, 20 de fevereiro de 2011, caderno “Vida”
Dentre os impactos relacionados à construção de grandes hidrelétricas está a redução da vazão dos rios represados – a modificação da geometria hidráulica decorrente do represamento dos rios leva à modificação da carga sedimentar em seu percurso e afluentes, causando impactos sobre a pesca, no crescimento desordenado de algas aquáticas e deterioração da qualidade da água, aumento as doenças de veiculação hídrica – o desmatamento e a conseqüente perda de espécies da fauna e da flora, o aumento na emissão do gás metano (CH4) que é liberado após a inundação de áreas verdes através do processo de putrefação da matéria orgânica, com o conseqüente agravamento do efeito estufa. Dentre os efeitos sociais estão a desterritorialização de centenas comunidades indígenas, muitas em isolamento voluntário, e de famílias que são obrigadas a abandonar suas terras, muitas vezes sem nenhuma compensação, e a migrar para outras regiões ou para a cidade, sem nenhuma perspectiva ou preparação, o que os torna mais suscetíveis a prostituição, tráfico de drogas, desemprego e alcoolismo, além do desaparecimento de culturas e modos de vida centenários. Segundo Renan Albuquerque Rodrigues, professor da Universidade Federal do Amazonas, e estudioso sobre o impacto da construção de barragens sobre populações locais,
a discussão que se molda a partir dos resultados diz respeito justamente aos polos de descontentamento que se formam mediante a desterritorialização. Ambos emergem porque atitudes e comportamentos humanos foram afetados pe la barragem, indicando que a apartação dos povos de suas terras é violenta porque fragmenta relações econômicas e familiares, e enfraquece a formação de identidades coletivas.5
Outro aspecto da construção de megaprojetos na região Amazônica, assim como em qualquer outra região de bioma frágil, é o grande deslocamento de trabalhadores que eles provocam. O aumento do fluxo de pessoas nestas regiões carentes da presença do Estado leva ao aumento na circulação de doenças infecciosas, do tráfico de drogas, da prostituição, o trabalho escravo e infantil, e a acentuação das desigualdades econômicas.
A expansão das áreas de plantio de soja e de criação de gado é outra questão que vem sendo discutida no bojo do projeto da Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul Americana. Esta seria uma conseqüência quase que natural do aumento da infra-estrutura necessária para o escoamento da produção e da flexibilização das leis ambientais em
5
Revista T&C Amazônia. Efeitos da desterritorialização ocasionada pela construção de grandes projetos estruturantes na amazônia: o caso da matriz energética.Renan Albuquerque Rodrigues. (T&C Amazônia, Ano VIII, Número 18, I Semestre de 2010)
andamento no Brasil, que tornam o processo de produção mais barato. De acordo com Furnas e Odebrecht, um dos consórcios interessados na obra da Barragem do rio Madeira, o complexo estimulará a produção de 25 milhões de toneladas de soja por ano apenas no Brasil,
o equivalente a cerca de 80 mil km2 de área de expansão da agricultura mecanizada (IAG,
2003). O aumento desta cultura certamente levará ao desmatamento ilegal, à expulsão de
agricultores familiares, à ocupação irregular do solo, especulação fundiária, e agravamento dos conflitos agrários.
Atividades irregulares como a extração ilegal de madeira e de minérios – com garimpos clandestinos que contaminam os cursos d’água com o uso de mercúrio – também são apontadas como consequências prováveis do processo de transformação pelo qual a região norte do Brasil deve passar com a implementação da IIRSA e do PAC.
Uma última preocupação a ser levantada é o crescimento desordenado das cidades próximas aos megaprojetos. Um exemplo é Porto Velho, capital de Rondônia6, cidade que já sente os efeitos da explosão demográfica – de acordo com o IBGE esta já é a terceira maior capital da região norte. Este crescimento desordenado traz consequências graves para toda a população – uma vez que os serviços públicos não crescem na mesma proporção – sobretudo para a mais pobre, com alta concentração de moradores nas periferias, agravamento da desigualdade social e má distribuição de renda. Cria-se assim um quadro de exclusão social, com queda de expectativas, e baixa inserção no mercado formal de trabalho.
Uma das conclusões que podemos tirar sobre o planejamento da IIRSA é que sua estrutura foi pensada de forma integrada – cada estrada, ferrovia, porto, hidrelétrica está interligado, de forma a gerar uma grande cadeia de escoamento – no entanto, sua execução é propositadamente fragmentada em cada território, para facilitar o licenciamento e burlar as determinações e avaliações do Ministério Público e do IBAMA. Quando se trata de avaliar os riscos provocados pelas obras, o que se percebe é que existem dois pesos e duas medidas, uma que considera os aspectos econômicos, e outra para os sócio-ambientais. Ou seja, ao defender a construção de uma hidrelétrica no coração da Amazônia, governo, bancos financiadores e construtoras contextualizam a obra no âmbito nacional e continental, ressaltando sua importância para o desenvolvimento econômico do país, demonstrando sua contribuição para o aumento da produção industrial e da geração de empregos, etc. Entretanto, quando se
6
O estado de Rondônia, dentre outras obras, vai receber a ponte Binacional sobre o rio Mamoré (que é parte do Corredor de Exportação Brasil/Bolívia), em estado de licitação, que terá pouco mais 1.200m e custará U$150 milhões ao Tesouro Nacional, e mais duas hidrelétricas sendo uma delas Binacional (Brasil-Bolívia)
apresentam os impactos sociais e ambientais do projeto, sua importância é avaliada de forma pontual, como se acontecesse de forma isolada e sem conexão com as outras obras previstas no plano total da IIRSA.
Referências
IIRSA. “Agenda de Implementação Consensuada de 2005-2010” Disponível em: <http://www.iirsa.org/BancoConocimiento/A/agenda _implementacion_consensuad a/agenda_implementacion_consensuada.asp?CodIdioma=ESP>
Revista Política Ambiental. Implicações da Iniciativa de Integração da Infra-estrutura
Regional Sul-americana e projetos correlacionados na política de conservação no Brasil.
ONG Conservação Internacional.
RODRIGUES, Renan Albuquerque. Efeitos da desterritorialização ocasionada pela
construção de grandes projetos estruturantes na amazônia: o caso da matriz energética.
Revista T&C Amazônia (T&C Amazônia, Ano VIII, Número 18, I Semestre de 2010)
BASTOS, Wanderley Rodrigues. Projeto da Iniciativa de Integração da Infraestrutura
Regional Sul Americana (IIRSA), Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): O complexo hidrelétrico do rio Madeira. T&C Amazônia, Ano VIII, Número 18, I Semestre de
2010.
IAG – Grupo de Assessoria Internacional. 2003. Relatório da XIX reunião. O PPA 2004-2007 na Amazônia: Novas Tendências e Investimentos em Infra-estrutura. PPG7, Brasília. Disponível em: <http://www.amazonia.org.br/arquivos/76911.doc>