PSICOTERAPIAS
COGNITIVA E
CONSTRUTIVISTA
Abreu ... [et al.]. – Dados eletrônicos. – Porto Alegre : Artmed, 2012.
Editado também como livro impresso em 2003. ISBN 978-85-363-2722-8
1. Psicoterapia cognitiva. 2. Psicoterapia construtivista. 3. Psicoterapia – Prática clínica. I. Abreu, Cristiano Nabuco de.
CDU 615.851
PSICOTERAPIAS
COGNITIVA E
CONSTRUTIVISTA
NOVAS FRONTEIRAS DA PRÁTICA CLÍNICA
2012
CRISTIANO NABUCO DE ABREU
MIRÉIA ROSO
(E COLABORADORES)
VERSÃO IMPRESSA DESTA OBRA: 2003
Capa
Gustavo Macri
Preparação do original Elisângela Rosa dos Santos
Leitura Final
Claudia Bressan
Supervisão editorial
Mônica Ballejo Canto
Projeto e editoração
Armazém Digital Editoração Eletrônica – rcmv
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IMPRESSO NO BRASIL
Corinna Schabbel, psicóloga – The Fielding Institute – Califórnia.
Cristiana Vallias de Oliveira Lima, psicóloga. Cristopher Muran, psicólogo – Brief Psycho-terapy Research Program – Beth Israel Medical Center; Albert Einstein College of Medicine. Daniel Boleira Sieiro Guimarães, psiquiatra – Ambulatório de Bulimia e Transtornos Ali-mentares (AMBULIM) do Instituto de Psiquia-tria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Eduardo Simon, psiquiatra – Núcleo de Psico-terapia Cognitiva de São Paulo.
Eliana da Silva Ramos Arruda, psicóloga. Eliane Falcone, psicóloga – Instituto de Psico-logia da Universidade Estadual do Rio de Ja-neiro.
Flávia Andrade, psicóloga – Núcleo de Psico-terapia Cognitiva de São Paulo.
Francisco Lotufo Neto, psiquiatra – Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Facul-dade de Medicina da UniversiFacul-dade de São Pau-lo.
Helene Shinohara, psicóloga – Pontifícia Uni-versidade Católica do Rio de Janeiro.
Henrique Alvarenga da Silva, psiquiatra – De-partamento de Engenharia Biomédica da Uni-versidade Federal de São João Del-Rei; Núcleo Mineiro de Psicoterapias Cognitivas.
Cristiano Nabuco de Abreu (org.), psicólo-go – Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (AMBULIM) do Instituto de Psi-quiatria do Hospital das Clínicas da Faculda-de Faculda-de Medicina da UniversidaFaculda-de Faculda-de São Pau-lo; Núcleo de Psicoterapia Cognitiva de São Paulo.
Miréia Roso (org.), psicóloga – Ambulatório de Doenças Afetivas (GRUDA) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculda-de Faculda-de Medicina da UniversidaFaculda-de Faculda-de São Paulo. Aaron T. Beck, psiquiatra – Psychopathology Research Unit – Department of Psychiatry – University of Pennsylvania.
Admar Cardoso Jr., psicólogo – Centro de Aperfeiçoamento Profissional (CEFAP). Álvaro Pacheco Duran, psicólogo – UNICAMP. Augusto Zagmutt Cahbar, psicólogo – Sociedad de Terapía Cognitiva Posracionalista (Santiago). Carlos Eduardo Gonçalves Reche, psiquia-tra – Faculdade de Psicologia da Universida-de do Estado Universida-de Minas Gerais; Núcleo Minei-ro de Psicoterapias Cognitivas.
Carlos Eduardo Leal Vidal, psiquiatra – Facul-dade de Medicina de Barbacena (Minas Gerais); Núcleo Mineiro de Psicoterapias Cognitivas. Carlos Eduardo Pires e Albuquerque, psicó-logo – Consultores Associados Milton de Olivei-ra; Núcleo Mineiro de Psicoterapias Cognitivas
Jeremy Safran, psicólogo – New School for So-cial Research (New York).
Ivana Lia Rios Costa, psicóloga – Centro de Formação e Aperfeiçoamento Profissional (CEFAP).
Lígia Montenegro Ito, psicóloga – Laborató-rio de Investigações Médicas (LIM 23) do Ins-tituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Lilian Erichsen Nassif, psicóloga – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universi-dade Federal de Minas Gerais; Núcleo Mineiro de Psicoterapias Cognitivas.
Luciane Gonzalez Valle, psicóloga.
Mateo Ferrer Farji, psicólogo – Sociedad de Terapía Cognitiva Posracionalista (Santiago).
Mariangela Gentil Savoia, psicóloga – Ambu-latório de Ansiedade (AMBAN) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Facul-dade de Medicina da UniversiFacul-dade de São Pau-lo; Centro de Atenção Integrada em Saúde Mental (CAISM) da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
Maurits Kwee, psicólogo – Waseda University; Advanced Research Center for Human Sciences. Myrian Vallias de Oliveira Lima, psicóloga. Raquel Gonçalves Wanderley, psicóloga – Núcleo Mineiro de Psicoterapias Cognitivas. Simone da Silva Machado, psicóloga – Uni-versidade de Santa Cruz do Sul; Centro de Con-trole de Stress; Núcleo de Estudos e de Atendi-mento em Psicoterapias Cognitivas.
Willem Kuyken, psicólogo – Psychology Depar-tment – Exerter University.
Prefácio... 11 Táki Athanássios Cordás
Introdução ... 13 Miréia Roso e Cristiano Nabuco de Abreu
PARTE I
Aspectos epistemológicos
1.
Verdade, conhecimento e emoção nas abordagens cognitivas ... 21 Henrique Alvarenga da Silva2.
Cognitivismo e construtivismo ... 35 Cristiano Nabuco de Abreu e Miréia RosoPARTE II
Um estudo comparativo entre os modelos cognitivo e construtivista
3.
Terapia cognitiva: abordagem revolucionária ... 53 Aaron T. Beck e Willem Kuyken4.
Técnicas selecionadas da prática da terapia cognitiva ... 61 Helene Shinohara5.
Construtivismo e prática clínica da rebiografia narrativa ... 69 Maurits Kwee6.
Técnicas selecionadas da prática da terapia construtivista ... 89 Simone da Silva MachadoPARTE III
A terapia cognitiva dos transtornos psiquiátricos
7.
Fobia social ... 101 Mariangela Gentil Savoia8.
Transtornos alimentares ... 113 Daniel Boleira Sieiro Guimarães9.
Transtorno de pânico ... 125 Lígia Montenegro Ito10.
Depressão ... 133 Cristiana Vallias de Oliveira Lima11.
Transtorno obsessivo-compulsivo ... 139 Carlos Eduardo Leal Vidal e Raquel Gonçalves Wanderley12.
Dependência química ... 149 Flávia Andrade e Eduardo SimonPARTE IV
A terapia construtivista dos transtornos psiquiátricos
13.
Fobia social ... 159 Miréia Roso14.
Transtornos alimentares ... 167 Augusto Zagmutt Cahbar e Mateo Ferrer Farji15.
Transtorno de pânico ... 181 Luciane Gonzalez Valle16.
Depressão ... 195 Álvaro Pacheco Duran17.
Transtorno obsessivo-compulsivo ... 203 Carlos Eduardo Gonçalves Reche18.
Alcoolismo ... 215 Lilian Erichsen NassifPARTE V
Os modelos cognitivo e construtivista na terapia de casal
19.
Terapia de casal: enfoque cognitivo ... 229 Myrian Vallias de Oliveira Lima20.
Terapia de casal: enfoque construtivista ... 237 Corinna Schabbel e Eliana da Silva Ramos ArrudaPARTE VI
Novas fronteiras da prática clínica
21.
Modelos de estágios do processo de resolução da ruptura da aliança ... 251 Jeremy Safran e Cristopher Muran22.
Empatia ... 275 Eliane Falcone23.
Religião, psicoterapia e saúde mental ... 289 Francisco Lotufo Neto24.
Construtivismo e cultura organizacional ... 303 Carlos Eduardo Pires e Albuquerque25.
Terapias cognitivas na oncologia ... 315 Admar Cardoso Jr. e Ivana Lia Rios Costa26.
A pessoa do terapeuta e o processo de mudança em psicoterapia ... 325 Cristiano Nabuco de AbreuO uso de recursos psicológicos no trata-mento dos quadros psiquiátricos e no auxílio à superação da dor e do desconforto humano remonta à Antigüidade Clássica, provavelmen-te anprovavelmen-tes da máxima socrática “Noxe provavelmen-te ixum” (Conhece-te a ti mesmo”). Esses procedimen-tos podem ser identificados nas mais diferen-tes formas de apoio, persuasão, confissão reli-giosa, obras literárias e uso de arte.
De maneira sistemática, porém, o início do século XX marca o desenvolvimento da psicote-rapia como teoria e prática pelas mãos de três homens: Freud, Jung e Adler. Cumpre ressaltar que Adler não recebeu o reconhecimento ime-diato nos círculos psicoterápicos de maneira tão ufanista quanto os dois primeiros, mas sua ên-fase na importância do presente e do futuro em psicoterapia o tornam um pioneiro em aspectos que a terapia cognitivo-comportamental ressal-taria somente décadas depois.
Mais de 700 “marcas” de psicoterapia es-tão no mercado, boa parte delas com corpos teóricos rudimentares ou com referenciais emprestados ou mal copiados de outras linhas psicoterápicas. Nesse sentido, a pesquisa so-bre a efetividade das psicoterapias encontra objetores radicais particularmente entre de-terminados redutos psicanalíticos, bem como problemas metodológicos importantes, entre eles a escolha do método qualitativo ou quan-titativo.
No entanto, as psicoterapias de orienta-ção comportamental e cognitiva buscaram pre-cocemente sua validação científica e sua
eficá-cia no tratamento de diversos transtornos psi-quiátricos. O mesmo ainda não ocorreu com o construtivismo aplicado à psicoterapia. Apesar de sua reconhecida importância na área da edu-cação, somente nas últimas duas décadas co-meçou a ter uma base teórica cada vez mais sólida para sustentar a compreensão dos pro-cessos envolvidos na mudança humana e, por-tanto, aplicadas à psicoterapia.
Vale abrir um parênteses neste prefácio para esclarecer que, quando falamos de tera-pia construtivista, não estamos falando ape-nas a respeito de uma mera vertente da tera-pia cognitiva, mas sim de uma abordagem que, em si mesma, apresenta variantes importan-tes.
Para fins didáticos, as teorias construti-vistas em psicoterapia podem ser divididas em duas variantes, que se diferenciam principal-mente pelo conceito que têm do significado da realidade: o construtivismo radical e o cons-trutivismo crítico. O conscons-trutivismo radical tem como referência a posição idealista, tal como na Filosofia, afirmando que não há realidade além de nossa experiência pessoal. Nesse sen-tido, o conhecimento não reflete uma necessi-dade ontológica objetiva, e sim a experiência tal qual a construímos. Sua maior e mais re-cente expressão são os trabalhos de Maturana e Varela e o conceito que utilizam de autopoiese (sistemas que se auto-organizam constante-mente).
O construtivismo crítico não nega a exis-tência de um mundo real, mesmo que não
pos-samos conhecê-lo diretamente. Nessa perspec-tiva, o indivíduo é um co-criador de sua reali-dade pessoal, ou seja, a realireali-dade externa existe objetivamente, porém o conhecimento desta ja-mais será objetivo, e sim construído pelo obje-tivo, a partir de suas percepçõs e experiências. Muitos são os autores que partem dessa pers-pectiva teórica para formular suas teorias psi-cológicas construtivistas e, conseqüentemen-te, suas propostas terapêuticas. Alguns dos mais representativos na atual psicologia construti-vista são Michael Mahoney (EUA), Vittorio Guidano (Itália), Óscar Gonçalves (Portugal), Jeremy Safran (EUA), Leslie Greenberg (Ca-nadá) e Robert Neimeyer (EUA). Vários outros, entre eles brasileiros e colaboradores deste li-vro, têm contribuído para o desenvolvimento das teorias e psicoterapias construtivistas. Ou-tro aspecto refletido por este livro é o da inter-disciplinaridade dos estudos cognitivos, o qual tem crescido muito desde os anos 70. O que se chama hoje de ciência cognitiva dissemina sua influência e busca soluções em áreas tão ex-tensas quanto a natureza do pensamento, das
emoções, da lingüística, da filosofia e da psi-quiatria. Com certeza, a psicoterapia cognitiva rege em sua aplicação todas essas áreas dire-tamente relacionadas ao ser humano que bus-ca mudanças – talvez por isso o autor deste prefácio não seja nem psicólogo nem psicote-rapeuta.
Elogios à competência dos organizadores, Cristiano Nabuco de Abreu e Miréia Roso, e dos autores seria redundante uma vez que a importância científica e didática de seu traba-lho é sobejamente conhecida. Assim, o metraba-lhor a fazer é agradecer profundamente a todos. Agradecer não apenas pela qualidade técnica incontestável desta obra, mas também pelo exemplo de diletantismo, pois não é possível usar outro termo para quem busca ensinar e discutir suas idéias.
Táki Athanássios Cordás Coordenador Geral do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (AMBULIM) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Miréia Roso
Cristiano Nabuco de Abreu
A idéia de escrever este livro começou a desenvolver-se a partir de diversas discussões a respeito de como, enquanto terapeutas cog-nitivos, realizamos nosso trabalho na psico-terapia. É fato que, no Brasil, a formação da maior parte dos terapeutas ainda tem forte influência da psicanálise e pode-se conside-rar a terapia cognitiva como uma escola de psicoterapia ainda em expansão. Por isso, os clínicos que optaram por estudá-la e praticá-la ainda carecem de um modelo capaz de iden-tificar sua prática de maneira genuína. É co-mum nos depararmos, em aulas e congressos no Brasil, com questões do tipo: “Será que este procedimento que estou realizando com meu cliente é realmente compatível com o modelo
cognitivo?”, “Se opto por aplicar, por
exem-plo, técnicas comportamentais comprovada-mente eficazes no tratamento de quadros an-siosos, ainda assim posso considerar a minha prática como basicamente cognitiva?”, “E se, em alguns casos, priorizo o enfoque das eções, estaria mais identificado com um mo-delo cognitivo construtivista?”. Portanto, ao que tudo indica, estamos em um território mesclado por natureza, por terapeutas e pelo entendimento destes a respeito do que se con-sidera sacramental dentro de cada autor cog-nitivo.
Acreditamos não ser possível legitimar a nossa prática apenas seguindo um modelo teó-rico (na maioria das vezes “importado”), o qual
nos é ensinado e não nos deixa tão confortá-veis ao aplicá-lo (Abreu, 1996). É provável que muitos leitores, terapeutas cognitivos, já se te-nham questionado a esse respeito, tal como nós já o fizemos inúmeras vezes. Foi precisamente por essa razão que optamos por organizar um livro que pudesse abranger diferentes visões de terapeutas cognitivos para que, assim, ti-véssemos a oportunidade de vislumbrar nossa prática a partir dos diferentes pressupostos que possuímos – sejam eles objetivistas ou construtivistas.
A TERAPIA COGNITIVA: HISTÓRICO E APLICAÇÕES
A chamada revolução cognitiva teve iní-cio por volta de 1956, quando Skinner come-çou a incluir o comportamento verbal como tema de seus estudos. Isso revelava que os behavioristas começavam a reconhecer a ne-cessidade de compreender os “processos inter-nos” que governam o comportamento. A fa-mosa “caixa-preta” passava a despertar o inte-resse dos pesquisadores. Os estudos do com-portamento governado por regras são um exemplo disso.
Em 1958, Wolpe introduzia a técnica da dessensibilização sistemática, a qual mostrava que era possível modificar uma resposta de ansiedade com procedimentos apenas
cogni-tivos: treinava-se o paciente a relaxar, enquan-to ele imaginava situações geradoras de ansie-dade de modo a inibi-la. Foi a primeira forma de terapia verbal alternativa à psicanálise e es-tava baseada nos modelos de aprendizagem.
A conclusão a que se chegava, a partir desses estudos, era a de não ser mais suficien-te modificar o consuficien-texto de maneira a reforçar (positiva ou negativamente) uma resposta que precisava ser modificada; era necessário con-siderar também de que maneira o indivíduo percebia esse contexto. Em outras palavras, não era a situação (ou o contexto) a determinante do que as pessoas sentiam ou como se com-portavam, e sim o modo como interpretavam tais situações.
Foi exatamente isso que Beck afirmou em 1963, quando começou a publicar estudos so-bre a relação entre o pensamento e a depres-são. Alguns anos mais tarde, por volta de 1970, juntamente com Mahoney (1974) e Ellis (1985), influenciados pelo avanço dos estudos na área das ciências cognitivas, deram início à revolução cognitiva propriamente dita (Abreu e Shinohara, 1998). Até hoje, a terapia cogni-tiva tem como pressuposto a idéia de que os sentimentos e os comportamentos do indiví-duo são determinados pelo modo como ele estrutura e interpreta o mundo através de seus pensamentos e de suas crenças.
De maneira geral, a terapia cognitiva co-meçou sendo aplicada no tratamento de trans-tornos psiquiátricos, primeiro através de te-rapia individual e, depois, de tete-rapia em gru-po. Hoje, ela também é aplicada na terapia de casais e de pessoas que buscam tratamen-to mesmo sem apresentar um diagnóstico psi-quiátrico.
Três aspectos principais caracterizam as terapias cognitivas e tornam sua aplicação cada vez mais freqüente:
• Seu caráter breve: procura-se definir um foco e estabelecer objetivos para o tratamento.
• Seu caráter pedagógico: parte do tra-balho consiste em discutir com o clien-te seu quadro clínico, a necessidade da medicação e os efeitos colaterais, bem como, sempre que possível, orientar a família.
• Seu caráter multidisciplinar: a terapia participa de um trabalho em conjunto com outros profissionais (psiquiatras, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, etc.).
Esses aspectos também justificam sua importante aplicação em projetos de pesquisa. A maior parte dos tratados referentes ao tratamento psicológico dos transtornos psiqui-átricos reporta-se à terapia cognitivo-compor-tamental (TCC) desses transtornos. Geralmen-te, são descritos “pacotes” de tratamento nos quais se utilizam técnicas comportamentais e cognitivas cujo objetivo é o alivio de sintomas de um determinado transtorno psiquiátrico. Um exemplo é o tratamento do transtorno do pânico. O tratamento desse transtorno, em ter-mos cognitivo-comportamentais, inclui a expo-sição a situações fóbicas de maneira gradual e sistemática, o gerenciamento da ansiedade através de técnicas de respiração e relaxamen-to e a modificação de crenças e pensamenrelaxamen-tos catastróficos associados ao aumento da ansie-dade em determinadas situações. A eficácia desse tipo de tratamento foi extensivamente comprovada em inúmeros estudos no mundo inteiro.
O que esse tipo de abordagem oferece como vantagem? A utilização de técnicas. Note-se que o intuito aqui não é o tratamento do indivíduo como um todo, mas o tratamento de seu transtorno, o que é extremamente válido. Se trabalhamos em uma instituição e precisa-mos oferecer tratamento rápido e eficaz a pes-soas que nos procuram em sofrimento, essa abordagem oferece-nos condições de fazer isso com sucesso. Outra qualidade desse tipo de abordagem é sua fácil aplicação em projetos
de pesquisa. A psicologia mereceu o respeito que tem hoje quando provou que seus méto-dos eram váliméto-dos sob um ponto de vista cien-tífico, mesmo que esse ponto de vista tenha sido, até hoje, o positivista (o modelo médico de ciência).
Já a indicação da terapia cognitiva de Beck se dá quando o objetivo principal é o alívio de sintomas através da modificação de crenças e pensamentos disfuncionais (Ver Capítulo 3). Aqui, a abordagem refere-se ao método cogni-tivo que segue um padrão bem-estruturado, no qual o terapeuta utiliza um roteiro que inclui a organização da agenda, a revisão e a prescri-ção da liprescri-ção de casa, a discussão das tarefas e um resumo da sessão no final da mesma. O trabalho é educativo e está centrado nos pro-blemas do aqui e agora, relevando menor aten-ção às recordações da infância (Bricker, Young e Flanagan, 1993).
O modelo de Beck procura ensinar o pa-ciente a: (1) observar e controlar os pensamen-tos automáticos negativos; (2) reconhecer os vínculos entre cognição, afeto e comportamen-to; (3) examinar as evidências a favor e contra pensamentos automáticos distorcidos; (4) subs-tituir cognições tendenciosas por interpretações mais orientadas para o real e (5) aprender a identificar e alterar as crenças disfuncionais que o predispõe a distorcer suas experiências. Di-versas técnicas são utilizadas para isso. As mais comuns são o diário de pensamentos, no qual o paciente registra pensamentos que alteraram suas emoções ao longo do dia a fim de avaliá-los de maneira mais objetiva, e o questio-namento socrático, através do qual o terapeuta auxilia o cliente na identificação das distorções de seus pensamentos e crenças, bem como na associação destas e do mal-estar que apresen-ta (Beck, 1998).
Esse tipo de abordagem é útil quando a pessoa que procura tratamento sente-se con-fortável frente a uma abordagem mais racio-nal, organizada e objetiva. No tratamento de transtornos psiquiátricos caracterizados por uma dificuldade de organização do paciente,
como, por exemplo, a depressão, esse tipo de abordagem mostra-se extremamente útil, na medida em que ensina o paciente a organizar seu tempo e suas prioridades, dando-lhe ins-trumentos para observar-se de maneira mais concreta.
Finalmente, a abordagem cognitiva-cons-trutivista é indicada quando o objetivo é com-preender a “construção de significados” que o indivíduo realizou ao longo de sua vida e que pode estar causando sofrimento. O foco dessa terapia incide sobre os esquemas emocionais que orientaram tal “construção”. Por isso, a maior parte das técnicas da terapia construti-vista focaliza as narrativas que o cliente faz de sua história de vida e de suas experiências atu-ais. A história de vida tem especial relevância, uma vez que permite a compreensão do modo pelo qual tal construção foi sendo realizada.
A abordagem construtivista é utilizada quando há necessidade de realizar um traba-lho psicoterápico mais amplo e mais profun-do, no qual as mudanças obtidas são muitas vezes mais duradouras. No tratamento dos transtornos de personalidade, nos quais as téc-nicas comportamentais e cognitivas têm-se mostrado insuficientes e muitas vezes pouco eficazes, a terapia construtivista poderia ser bastante promissora.
Por que promissora e não eficaz? Porque ainda estamos no início do desenvolvimento de uma metodologia que nos permita validar procedimentos cuja prioridade é o indivíduo e sua história, e não a observação externa, o diag-nóstico ou a aplicação de técnicas na realiza-ção de uma psicoterapia científica. Não que o diagnóstico, a generalização de dados ou a validação de técnicas sejam menos importan-tes; porém, em psicoterapia, isso está longe de ser suficiente.
Esperamos que esta obra sirva de ponto de partida para novas reflexões e para o apri-moramento e o refinamento dos modelos cognitivos no Brasil e que possamos, no futu-ro, desenvolver um modelo nosso, que atenda às nossas necessidades.
CONCLUSÃO
Ainda restaram sem uma resposta ques-tões importantes sobre o que determina a in-terpretação que uma pessoa faz das situações, ou mesmo a quais regras esse processo de atri-buição de significados obedece.
Beck, no início de seu trabalho, afirmava que são os esquemas cognitivos ou as crenças que determinam essa interpretação de um in-divíduo sobre si mesmo e sobre o mundo. Mas, hesitando a outra ponderação, de onde pro-vêm esses esquemas? Seriam eles apenas deri-vados de uma natureza cognitiva?
Para Beck (1970), os esquemas são estru-turas cognitivas abstratas, formadas segundo regras e pressupostos adquiridos durante o de-senvolvimento, que geram padrões ou temas na percepção que o indivíduo tem de si mesmo e de suas experiências. Todavia, bem sabemos que algum tempo após publicada, muitos estudio-sos já não aceitavam essa definição como com-pletamente suficiente (Mahoney, 1998).
Mesmo se fosse consenso que o compor-tamento do indivíduo é um reflexo da inter-pretação que ele faz de si mesmo e do mundo, hoje essa interpretação (de mão única) não pode não ser totalmente validada, pois a neurociência aponta para o fato de que as emo-ções também contribuem para a arquitetura da atribuição de significados (Damásio, 2001). Não seriam, portanto, os esquemas emocionais, construídos desde a infância que antecedem as interpretações cognitivas do indivíduo? Idéi-as dessa natureza foram Idéi-as responsáveis pela origem da concepção construtivista, conforme veremos ao longo dos primeiros capítulos des-te livro.
Portanto, vale relembrar que hoje a tera-pia cognitiva apresenta duas possibilidades de compreensão e intervenção no processo de mudança psicológica, e ambas procuram iden-tificar as formas de interpretação que o indiví-duo faz de suas experiências. Quando falamos de terapia cognitiva, é necessário sempre con-siderar o ponto de vista do qual se parte, ou
seja, qual é a conce(o)pção epistemológica ado-tada pelo clínico (Abreu, 2001). Cada um per-mite, de sua própria maneira, diversas possibi-lidades de entendimento, intervenção e objeti-vos terapêuticos (Mahoney, 1998).
Concordamos com a afirmação de Miró (1998) de que explicar a mudança terapêuti-ca, partindo de uma concepção histórica do sujeito, não deveria ser uma limitação para a psicoterapia científica, mas sim um horizonte, certamente mais coerente com as necessida-des encontradas quando se trata de investigar cientificamente os processos de mudança en-volvidos no trabalho psicoterapêutico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ELLIS, A. Expanding the ABC of rational-emotive therapy. In: MAHONEY, M.; FREEMAN, A. (Eds.).
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Verdade, Conhecimento e Emoção
nas Abordagens Cognitivas
Henrique Alvarenga da Silva
rapêutica, e diversos trabalhos de pesquisa têm sido conduzidos nesse sentido. Como resulta-do disso, a terapia cognitivo-comportamental tem conseguido mostrar-se eficaz em uma sé-rie de transtornos psiquiátricos e alcançado seu lugar tanto na prática clínica quanto nas insti-tuições de ensino.
O construtivismo como forma de psicote-rapia ainda é recente. No Brasil, é mais conhe-cida sua versão piagetiana, utilizada principal-mente na área da pedagogia. Entretanto, nos últimos anos, sua construção teórica tem cres-cido significativamente e merece ser visitada.
A psicoterapia cognitivo-construtivista faz parte de uma revolução epistemológica no cam-po das ciências cognitivas, assumindo como característica marcante a grande multi-disciplinaridade. Ela surgiu a partir de contri-buições das ciências biológicas, da filosofia, da lingüística, da antropologia, da computação e de vários ramos da psicologia. Fruto especial-mente de questionamentos nas concepções básicas dessas áreas, representa o resultado de uma evolução histórico-científica que culmina com o encontro de diversas disciplinas no que se denomina ciência cognitiva ou, conforme Gardner (1996), uma nova ciência da mente.
As idéias filosóficas não são apenas orna-mentos ou comentários parasitas sobre os difí-ceis objetivos da ciência. É inevitável que toda
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CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Nas três últimas décadas, o aparato teó-rico da psicoterapia tem atravessado importan-tes revoluções epistemológicas. A psicoterapia comportamental incorporou gradualmente conceitos cognitivos e hoje é usualmente de-nominada de terapia cognitivo-comportamen-tal. Essa nomenclatura evidencia uma fusão de teorias e práticas, além de mostrar que elas têm tido flexibilidade suficiente para suportar con-tínuas reformulações. Flexibilidade essencial para uma proposta teórica que deseja manter-se atualizada em um momento em que as ino-vações nas ciências do homem e da mente têm sido tão rápidas.
Assim como há alguns anos o comporta-mentalismo e o cognitivismo eram considera-das duas correntes contraditórias, hoje ainda percebemos haver uma distinção entre terapia
cognitvo-comportamental e terapia cognitivo-construtivista ou, mais simplesmente, entre
te-orias cognitivistas e construtivistas. Acredita-mos que, apesar dessa atual distinção, essas duas propostas têm muito a se beneficiar uma da outra.
A terapia cognitiva surgiu, sobretudo, a partir da prática clínica de terapeutas. Seus pro-ponentes e desenvolvedores têm-se preocupa-do de maneira sistemática com sua eficácia
te-ciência, inclusive a psicologia, comprometa-se com uma posição epistemológica clara, pois não existe ciência livre de filosofia. E é justa-mente o amplo trabalho filosófico que man-tém unidos os múltiplos programas de pesqui-sa agrupados sob o nome de ciências cogniti-vas. Entretanto, é comum que, em vários ra-mos da ciência, os pressupostos teóricos fun-damentais sejam os mais frágeis. Uma teoria sem alicerces bem-fundamentados é como um edifício erguido sobre areia movediça.
A proposta cognitivo-construtivista fun-damenta-se na concepção de que todo o pro-cesso de construção de significados realiza-se na interface entre a cognição, a emoção e a experiência, a partir da participação ativa do indivíduo, formando um conjunto de crenças que sustenta o processo de julgamento, a to-mada de decisões e as ações do ser humano.
Este capítulo pretende mostrar como a revolução epistemológica nas ciências naturais foi incorporada pela psicologia e traçar um breve percurso histórico desse processo. Serão discutidos os aspectos considerados essenciais na construção do significado e salientadas al-gumas particularidades da relação terapêutica oriundas dessa nova abordagem.
EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA
EPISTEMOLOGIA CONSTRUTIVISTA O resgate histórico dessa evolução torna-se complexo devido à sua não-linearidade, dado o grande isolamento inicial entre essas disciplinas. Apesar disso, acreditamos que a exposição desse processo, mesmo que simpli-ficada, seja essencial para a sua compreensão. Afinal, as teorias não são criadas em um mo-mento isolado; elas são desenvolvimo-mentos his-tóricos contínuos, em um processo de supera-ção das contradições das teorias precedentes. É essencial ter em mente que as teorias são apenas instrumentos, e não respostas aos enig-mas, necessitando estar constantemente em re-novação, e que os verdadeiros avanços na his-tória das ciências acontecem quando seus pa-radigmas são revistos, aprimorados ou substi-tuídos (Kuhn, 2000). Assim, não basta a
expo-sição das teorias; é necessário esclarecer seu desenvolvimento e seus efeitos.
No ocidente, os primeiros modelos acer-ca do funcionamento da mente foram formu-lados por Sócrates, que considerava a razão e a consciência (psyché) como a essência do ser humano. Posteriormente, Platão denomina de “idéias” os conteúdos da consciência, conside-rando existirem fora do mundo físico (Benson, 1993). Segundo ele, o conhecimento perten-ceria à “alma”, sendo apenas um “relembrar”. Desde o início do pensamento filosófico gre-go, já estava lançada a idéia de uma dicotomia entre uma mente não-física e um corpo físico. No século XVII, Descartes e Galileu fize-ram a distinção precisa entre realidade física, passível de ser descrita pela ciência, e “reali-dade mental da alma”, considerada fora do campo da pesquisa científica (Reale e Antiseri, 1990). Ao afastar a mente da ciência, reduzia-se o campo científico e a complexidade dos problemas, o que facilitava seu desenvolvimen-to inicial. Esse dualismo foi útil durante algum tempo, pois ajudou a afastar a autoridade dos religiosos sobre os cientistas da época. A revo-lução científica que se iniciava tinha como tra-ço mais característico seu método
experimen-tal, buscando suas verdades
independentemen-te da metafísica e da fé e independentemen-tendo como preindependentemen-ten- preten-são descrever uma realidade objetiva.
Toda a ciência moderna baseia-se nessa noção da existência de uma realidade objeti-va, regida por leis fixas, coerentes e univer-sais, passíveis de serem conhecidas. O período moderno da filosofia foi, em grande parte, do-minado pela idéia básica de que a mente ca-racteriza-se por espelhar a natureza, garantin-do, assim, a representação correta da realida-de (Rorty, 1979). A ciência seria a busca da certeza, da verdade objetiva. Nesse contexto, a atividade científica seria concebida como a descoberta dessas leis da natureza (da realida-de), e o homem seria apenas um observador passivo, capaz de captar fenômenos que ocor-rem sem a sua interferência.
É indiscutível que tal conceito possibili-tou avanços importantes nas ciências naturais, tendo sido bastante eficiente do ponto de vista pragmático. Até recentemente, esse ideal da
ciência manteve seu caráter dominante.
Con-tudo, mesmo muito antes do surgimento do método científico, diversos pensadores já se questionavam sobre a possibilidade de se ad-quirir essa almejada “verdade objetiva”, ques-tionamentos esses que surgiram em diversos momentos através da história.
No século XVIII, Vico (1999) sugeria que só era possível conhecer aquilo que se cons-truiu, ou seja, que o conhecimento repousava em uma relação mútua entre conhecer e fazer. As questões acerca da origem, da essência e da certeza do conhecimento foram sistematica-mente formuladas pela primeira vez por Lock (1973), em sua obra An essay concerning
hu-man understanding. O ramo da filosofia que
assim surgia, conhecido como epistemologia, procurava saber se nossas representações in-ternas eram precisas e até que ponto podiam espelhar a realidade externa. Sua preocupa-ção fundamental é entender como se dá o co-nhecimento. As primeiras noções acerca do conhecimento postulavam que a verdade a ser conhecida era independente do homem.
Essa independência era a marca registra-da registra-da realiregistra-dade objetiva. De fato, a discussão sobre os conceitos de “verdade” e de “conheci-mento” derivou em variadas linhas de pensa-mento, as quais se diferenciavam conforme o modo como entendiam a possibilidade de aces-so a essa verdade.
As dificuldades de separação entre o ob-servador (o homem) e o objeto da observação foram expostas pela primeira vez por Kant (1997), em sua obra-prima Crítica da razão
pura. No início do século XX, cresceram os
questionamentos relativos às noções de verda-de e objetividaverda-de, provocando verdaverda-deiras re-voluções científicas. Gadamer (2001) conside-rava que o conceito de verdade não poderia ser aplicado às ciências humanas. Quase repe-tindo as palavras de Vico (1999), o conhecer passa a ser definido por Dupuy (1996) como o ato de “produzir um modelo do fenômeno e efetuar sobre ele manipulações ordenadas”. Na biologia, Maturana (1988) e outros teóricos mostraram que o acesso de um organismo à realidade não é possível em termos absolutos, pois está sempre limitado pela estrutura bioló-gica do organismo que busca conhecer.
Na física, Max Planck desenvolveu a me-cânica quântica, que introduzia a idéia de imprevisibilidade. A ciência começava a se in-teressar por fenômenos que não poderiam mais ser explicados por simples relações de causa e efeito. Em decorrência dessa mudança de pers-pectiva, passa a ser descrita como um diálogo com a natureza, as certezas dão lugar a possi-bilidades e probapossi-bilidades, e o futuro deixa de ser totalmente previsível. Esse movimento, que vem sendo esboçado desde o final do século XIX, passa a ser chamado de pós-modernismo. O processo de transformação dos pressu-postos epistemológicos tem uma história para-lela na psicologia. Em um primeiro momento, enquanto o paradigma dominante era a busca da verdade absoluta, o campo de observação ficou restrito aos fenômenos objetivos, ou seja, ao comportamento. Assim, Watson (1919; 1920) propôs que uma psicologia científica deveria restringir-se ao estudo do comporta-mento observável e que toda conduta humana deveria ser explicada em termos de estímulos e respostas aprendidas. As pesquisas sobre o aprendizado, desenvolvidas na Rússia princi-palmente por Pavlov (1927), foram muito bem recebidas pelos psicólogos nos Estados Unidos e ajudaram a promover a teoria comportamen-tal. Skinner (1970; 1995), certamente um dos mais influentes behavioristas do século XX, con-siderava que as diferenças entre as pessoas eram devidas às diferentes histórias de estímulo e reforço.
A versão britânica do comportamenta-lismo surgiu no início da década de 50, deriva-da sobretudo deriva-das idéias de Pavlov (1927), Watson (1920) e Hull (1943); nos Estados Unidos, foi impulsionada pelos estudos de Skinner sobre condicionamento (Rachman, 1997). Os problemas dos pacientes eram defi-nidos pura e simplesmente como distúrbios de comportamento, e a solução proposta era um programa corretivo de condicionamento ope-rante. De acordo com Eysenck (1960), o com-portamento não era considerado um sintoma, e sim o próprio problema.
A terapia comportamental era atrativa por se legitimar em sua posição científica, preten-dendo ser uma ciência objetiva e insistindo na necessidade de fundamentação empírica. No
entanto, apesar de seu grande progresso práti-co, houve um declínio crescente em sua pro-dução teórica com o passar dos anos. A partir de 1970, essa estagnação teórica começou a se tornar fonte de insatisfação, pois uma série de questões simplesmente não encontrava respos-tas no âmbito desse paradigma (Rachman, 1997). Relações simplistas de causa e efeito mostravam-se cada vez mais insuficientes para explicar o comportamento humano: estímulos aparentemente idênticos provocavam respos-tas totalmente inesperadas.
No início da década de 20, Vygotsky cu-nhou o termo mediação para descrever os pro-cessos através dos quais os organismos estabe-lecem as conexões entre os estímulos e as res-postas (Cole, 1994). Entretanto, Vygotsky e Luria aplicaram o conceito de mediação quase que exclusivamente ao desenvolvimento dos processos mentais nas crianças. Aos poucos, a noção de que havia alguma forma de media-ção entre os estímulos ambientais e as respos-tas apresentadas começou a ganhar destaque. Ficava cada vez mais evidente que o homem não reagia passivamente a estímulos ambien-tais, mas sim de acordo com sua interpretação desses estímulos, os quais podiam ser mais com-plexos do que se imaginava.
Estudos com crianças demonstraram que, já por volta dos seis meses de idade, os estímu-los desencadeadores de respostas comporta-mentais em bebês incluem complexas imagens mentais e, no segundo ano de vida, começa a se desenvolver a capacidade de pensamento simbólico. Portanto, desde cedo, o bebê passa a responder não a meros estímulos físicos, mas sim a estímulos que se revestem de significa-ção (Bowlby, 1997).
A nova psicologia emergente deparava-se com um problema: como utilizar a metodo-logia científica se não há mais como observar objetivamente os fenômenos a serem estuda-dos? A metodologia da ciência moderna mos-trava-se, não apenas insuficiente, mas também inadequada ao estudo dos fenômenos mentais. Como todo o acesso que temos aos fenômenos subjetivos de uma outra pessoa passa, inicial-mente, pela própria interpretação desta, a pos-sibilidade de um conhecimento objetivo des-morona.
O papel do observador adquire uma nova dimensão, pois não há mais observação despro-vida de interferência. Todo contato com outro ser humano provoca inevitavelmente interferên-cia e modifica o objeto da observação. Na inte-ração humana, não há mais somente um obser-vador, e sim um participante do processo. Prigogine (1996), prêmio Nobel de química, admite que, mesmo nas ciências naturais, como na física, existe sempre um vínculo entre o ob-servador e o fenômeno e que todo processo de mensuração sofre a interferência do observador. O novo paradigma toma por objeto de investi-gação as relações entre os elementos e o obser-vador, e não o objeto-em-si.
O pensamento, a emoção e as sensações de um ser humano não são passíveis de obser-vação direta, não podendo ser consideradas realidades objetivas a serem captadas. Depen-dem de sua exteriorização – comunicação – por meio do discurso. Nas palavras de Ricoeur (1999, p. 27-28):
O que é experienciado por uma pessoa não pode se transferir totalmente como tal e como experiência para mais ninguém. A minha ex-periência não pode se tornar diretamente a vossa experiência. No entanto, algo se passa de mim para vocês, algo se transfere de uma esfera de vida para outra. Esse algo não é a experiência enquanto vivenciada, mas a sua significação. A experiência vivenciada, como vivida, permanece privada, mas seu sentido, a sua significação torna-se pública.
A aceitação do subjetivo como objeto de estudo da ciência tornou viável o surgimento e a incorporação de conceitos cognitivos à então vigente terapia comportamental. A estru-turação metódica das sessões, sua base empiri-cista e a inclusão de exercícios comportamen-tais facilitaram a absorção acadêmica e profis-sional da nova forma de terapia, denominada de terapia cognitivo-comportamental. Um dos primeiros focos de atenção das terapias cogni-tivas foi a depressão, por ela envolver elemen-tos cognitivos óbvios e não ter sido tratada com sucesso através da terapia comportamental.
Beck (1967; 1976) e Ellis (1958; 1962) foram os dois teóricos pioneiros e mais
influen-tes da terapia cognitiva. Segundo eles, os dis-túrbios emocionais são causados por proces-sos cognitivos ou cognições disfuncionais; em outras palavras, pelos pensamentos ilógicos e irracionais.
Para Ellis, os seres humanos apresentam a tendência de pensar irracionalmente, e suas propostas iniciais de tratamento cognitivo vi-savam à correção dos pensamentos ou das cren-ças disfuncionais através da maximização da racionalidade. A emoção é considerada uma conseqüência do pensamento, e o objetivo da terapia é torná-la mais “adequada” através da correção da lógica do pensamento.
Para Beck (1997), a terapia cognitiva fun-damenta-se na noção de que o estado de hu-mor e o comportamento do indivíduo são em grande parte determinados pelo modo como ele estrutura o mundo. Além disso, considera que os transtornos emocionais são causados por
constructos cognitivos disfuncionais e que a sua
correção pode proporcionar a melhora clínica. Os terapeutas cognitivos usualmente empgam o termo cognições disfuncionais para se re-ferirem às crenças rígidas, excessivas ou inapropriadas mantidas pelos pacientes.
Um importante elemento do modelo cog-nitivo é o conceito de esquemas emocionais. Segundo Beck (1997), estes designam padrões cognitivos relativamente estáveis, responsáveis pela regularidade das interpretações do indi-víduo em sua relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo. A importância das crenças pessoais já foi ressaltada também pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset (1982), que as considera como o “extrato básico mais pro-fundo da arquitetura de nossa vida”. Segundo ele, o diagnóstico de uma existência humana deve começar identificando o sistema de suas convicções e, para isso, sua crença fundamen-tal. Essa distinção entre níveis de crenças é mantida e desenvolvida por Aaron Beck e ou-tros terapeutas cognitivos.
Beck (1997) denomina de crenças centrais aquelas mais fundamentais, geralmente desen-volvidas durante a infância, que influenciam o surgimento e a manutenção das crenças inter-mediárias e dos pensamentos automáticos. Uma das etapas essenciais do processo da te-rapia cognitiva consiste precisamente em
aju-dar o paciente a compreender que suas cren-ças são apenas “idéias” e não “verdades”, sen-do, assim, passíveis de modificação.
A terapia cognitiva inicial reconhecia a influência do pensamento sobre a emoção, mas ainda não compreendia que as emoções tam-bém podiam influenciar os pensamentos. Uma série de estudos mais recentes têm demonstra-do que o estademonstra-do de humor pode influenciar sig-nificativamente os processos cognitivos envol-vidos na interpretação e na avaliação da expe-riência (Teasdale, 1997).
O PAPEL DAS EMOÇÕES
A definição de termos como emoção, sen-timentos e afetos sempre foi confusa na lite-ratura. É provável que a dificuldade de defi-ni-los e de observá-los objetivamente tenha servido para que a ciência moderna não se dispusesse a estudá-la e, talvez, para manter a crença de que a emoção seja prejudicial ao raciocínio.
Damásio (2000) faz uma importante dis-tinção ao designar por “emoção” um conjunto de reações corporais e por “sentimentos” a ex-periência mental privada da emoção. Assim, fica claro que a emoção não necessita de uma consciência para existir ou ser acionada. Por exemplo, quando nos damos conta de que estamos ansiosos, esse estado emocional já está presente muito antes de percebê-lo. Assim, a emoção e o sentimento fazem parte de um
continuum funcional em constante
relaciona-mento.
A história do estudo das emoções mos-tra uma clara dicotomia. Resumidamente, po-demos dizer que os dois pólos da questão ca-racterizam-se ou por negar sua importância ou por considerar a emoção fundamental para a vida.
As teorias que consideram a emoção sem função ou significado são descendentes da doutrina estóica. Segundo essa tradição, a na-tureza dotou os animais com o instinto e o homem com a razão. O ideal estóico conside-ra que o homem deve relacionar-se com seus semelhantes em atitude de total distanciamen-to, seja na política, no casamento ou nas
ami-zades. De acordo com Zenão, fundador do estoicismo, as emoções são sempre – e só – perturbações do espírito e erros da razão, con-duzem à infelicidade e devem ser destruídas, extirpadas e totalmente erradicadas. É conhe-cida como “doutrina da apatia estóica” a idéia de que a felicidade é apatia, insensibilidade e ausência de toda paixão (Reale e Antiseri, 1990).
A existência de emoções nos animais pa-rece ter facilitado o surgimento da idéia de que sejam estados biológicos inferiores. A negação de sua importância encontrou diversos adep-tos na história, entre eles Descartes, Spinoza, Leibniz e Hegel. Para Descartes, a força da alma consiste em vencer as emoções.
Por outro lado, diversos pensadores ad-mitiam a importância das emoções. Pascal foi um dos pioneiros a dar primazia às “razões do coração, que a própria razão desconhece”, in-sistindo no valor e na função da emoção, que considerava como “fonte de conhecimento”. Shaftesbury foi provavelmente quem mais di-fundiu esse ponto de vista, tendo lançado tam-bém o conceito de balança ou equilíbrio das emoções (Abbagnano, 1999). As teorias cien-tíficas e filosóficas atuais partem da convicção de que não é possível compreender a existên-cia do homem, seja como organismo, “eu” ou pessoa, sem levar em conta a experiência emocional.
A negação da emoção pela ciência du-rante tanto tempo é quase incompreensível, dado o fato de que na prática clínica, tanto da psiquiatria quanto da psicologia, nós nos deparamos diariamente com ela. Até o final do século XIX, a emoção quase não tinha es-paço em discussões científicas, muito menos em laboratórios de pesquisa. A partir da se-gunda metade do século XIX, partindo de pa-radigmas que aceitam a subjetividade, as emo-ções voltaram a ganhar espaço em discussões científicas.
Um dos primeiros trabalhos científicos importantes foi o de Darwin (2000), que co-meçou a estudar a expressão da emoção no corpo dos homens e dos animais. Mais tarde, a mesma corrente de investigação psicológica, considerando a estreita correlação entre os es-tados corporais e psíquicos, começou a ver nos
estados somáticos mais do que apenas uma sim-ples “expressão” das emoções. O psicólogo americano William James e o anatomista di-namarquês Carl Lange, trabalhando indepen-dentemente, propuseram que os estados cor-porais eram responsáveis pela indução dos sen-timentos (Mahoney, 1998). Nessa linha de pen-samento, ficamos tristes porque choramos, sentimo-nos assustados porque trememos. Essa teoria somática das emoções, embora hoje con-siderada incompleta, surgiu a partir da neces-sidade de estreitar as relações entre o corpo e a mente.
Nas palavras de James (1976), “sem os estados corpóreos que se seguem à percepção, esta teria forma puramente cognitiva, pálida, descorada e desprovida de calor emocional”. A principal lacuna dessa teoria é que ela não explica a importância das emoções nem sua função biológica.
Os últimos anos foram decisivos na com-preensão da importância da emoção. A idéia popular de que ela interfere negativamente no pensamento foi refutada por diversos autores. Damásio (1998; 2000), Gazzaniga et al. (1998) e Bowlby (1990), entre outros, têm demons-trado que as emoções são essenciais nos pro-cessos de tomada de decisão.
Bowlby (1990) propõe que grande parte do que chamamos sentimentos são fases de avaliações intuitivas de um indivíduo sobre seus próprios estados e desejos para agir, ou sobre a sucessão de eventos ambientais em que ele se encontra. Assim, atribuir um sentimento é fazer uma previsão sobre o comportamento subseqüente. Desse modo, pode-se compreen-der a importância da emoção nos processos de interação: somente um animal capaz de avali-ar o estado de ânimo de outro estavali-ará apto a participar da vida social. Se considerarmos que alguém está enfurecido, ou nos afastamos, ou nos preparamos para esse confronto de uma maneira diferente daquela quando inferimos que está triste. Portanto, é essencial que pos-samos conhecer não apenas nossas próprias emoções, mas também inferir os estados emo-cionais daqueles que interagem conosco.
Maturana (2001, p. 182) considera a emoção como disposições corporais dinâmicas que especificam os domínios de ações nos quais
operamos em um instante, ou seja, são as emo-ções que guiam, momento a momento, nosso agir. Além disso, como são as emoções que es-pecificam o domínio de relações a cada mo-mento, é a emoção que define o curso de nos-sas vidas no âmbito individual e cultural:
Ao não compreendermos os fundamentos emocionais do nosso agir, tornamo-nos prisi-oneiros tanto da crença de que os conflitos e problemas humanos são racionais, quanto da crença de que as emoções destroem a racio-nalidade e são fonte de arbitrariedade e de-sordem na vida humana.
De um ponto de vista evolucionista, Da-másio (2000) acredita que a razão surge a par-tir da emoção e juntamente com ela. As emo-ções fazem parte de um aparato biológico que visa à sobrevivência, regulando o estado inter-no do organismo de modo que ele possa estar preparado para reagir. A maioria das reações emocionais, se não todas, resultam de uma lon-ga história de minuciosos ajustes evolutivos. Entretanto, o impacto maior da emoção só foi atingido na natureza quando esta se tornou consciente. Ou seja, o ser humano, ao se dar conta da emoção, é capaz de refletir, planejar e superar a tirania das emoções.
A razão, assim situada, não suprime a emoção, mas trabalha junto com ela. Por isso, os estados emocionais desempenham um im-portante papel nos intrincados processos de tomada de decisão, sendo componente essen-cial desses. A razão objetiva, sem emoção, não é suficiente para lidar com a complexidade e as incertezas dos problemas pessoais e sociais. Isso não significa que os processos lógicos se-jam desnecessários, mas que ambos, tanto o processamento lógico quanto o processamen-to afetivo, agem conjuntamente. O processa-mento consciente das emoções, enquanto sen-timentos, proporciona a ampliação dos meca-nismos de resolução de problemas, isto é, sen-tir as emoções amplia o alcance delas, facili-tando o planejamento de novas formas de ação, mais talhadas para a ocasião.
Segundo a hipótese do “marcador somá-tico”, desenvolvida por Damásio (1998), a emoção reduz o número de opções a serem
analisadas pela consciência, reduzindo, assim, a complexidade do processo e agilizando o tem-po de restem-posta. Sem essa redução, a quantida-de quantida-de variáveis a serem analisadas cognitiva-mente seria excessiva (Mathews, 1997). Sem o estímulo e a orientação da emoção, o pensa-mento racional torna-se lento e desintegra-se. Embora as emoções possam dar origem a rea-ções que, cotidianamente, descreveríamos como irracionais, sua ausência acarreta preju-ízos maiores. A razão sozinha não é suficiente nem apropriada para um organismo que se vê diante de escolhas. A frase “um sentimento visceral” atinge um sentido praticamente lite-ral para Damásio. Sem essa experiência visce-ral, corpovisce-ral, não há como dar valor às opções que se apresentam. Como diria James (1967), opções puramente cognitivas seriam “pálidas, descoradas, desprovida de calor emocional”. Podemos agora acrescentar também que, sem a emoção, as informações ou as escolhas seri-am desprovidas de “valor”.
Segundo Abbagnano (1999), entende-se por emoção qualquer estado, movimento ou condição que provoque a percepção de valor (alcance ou importância) que determinada si-tuação tem para sua vida, suas necessidades, seus interesses. Essa definição atual identifica a emoção como o que confere valor e matiz aos pensamentos.
A CONSTRUÇÃO DO SIGNIFICADO
A partir do momento em que os estados mentais e a emoção passam a ser considerados objetos de uma psicologia cognitiva, surge a seguinte questão: como são criados os signifi-cados? Qual a interferência desses significados na vida de cada um? Através de que processos se realiza a mudança?
Uma psicologia centrada nos significados pode inicialmente causar uma sensação de des-confiança se ainda nos baseamos nas premis-sas da ciência moderna de que há uma causa verdadeira e objetiva para o comportamento do homem. Adeptos dessa postura objetivista poderiam alegar que o que as pessoas dizem não representam as verdadeiras causas de seus comportamentos, pois estas são inacessíveis à
consciência. Até mesmo Freud aderiu a essa visão da ciência, que era a mais atual em sua época.
Está claro que as pessoas não podem des-crever corretamente a base de suas escolhas nem as tendências que influenciam a distribui-ção dessas escolhas. Porém, não há sentido em descartar as construções e as explicações pes-soais baseadas na premissa de que não repre-sentam a verdade, pois é o mesmo que consi-derar sem valor as crenças individuais e as nar-rativas de vida de cada um. É justamente esse conteúdo mental que as teorias baseadas na ciência moderna descartavam ao serem apli-cadas à psicoterapia. E é também esse conteú-do que as teorias chamadas pós-modernistas vêm trazer de volta à posição de destaque nas pesquisas, partindo de premissas completamen-te diferencompletamen-tes. Enquanto a ciência moderna des-cartava esses conteúdos pelo fato de não po-derem ser verificáveis quanto à sua veracida-de, as teorias de base cognitiva, sobretudo as de base cognitivo-construtivista, estão interes-sadas nas influências dessas construções sobre a vida do próprio indivíduo. Podemos dizer que a verdadeira revolução cognitiva deve-se à ên-fase na construção dos significados.
Em uma relação terapêutica, isso signifi-ca considerar de extrema importância a inter-pretação que o próprio paciente tem sobre suas experiências, sobre seu mundo e sobre si mes-mo. Não se trata mais de descobrir os signifi-cados ocultos, mas de conhecer os processos de sua construção. É evidente que cada um é criador de sua própria rede de significados, sendo participante ativo desse processo. Cons-truir algum sentido a partir da experiência é, antes de tudo, construir alguma forma de coe-rência (Gonçalves, 1998a). Na ausência de uma coerência interna, a vida transforma-se em um composto de experiências dissociadas que não podem ser compreendidas nem na sua singu-laridade nem na sua seqüência (Gonçalves, 1998b). O desenvolvimento de uma estrutura narrativa coerente é condição essencial de so-brevivência psicológica. Se não fôssemos ca-pazes dessa organização, estaríamos perdidos na escuridão de uma experiência caótica (Bruner, 1997).
Um sistema de crenças ou valores é ca-paz de conferir continuidade e coerência às nossas vidas, porque ajuda-nos a tomar deci-sões e a avaliar a importância das experiên-cias pessoais. Schiller e Dewey alegavam que “as idéias tornam-se verdadeiras na medida em que nos ajudam a manter relações satisfa-tórias com outras partes de nossa experiên-cia” (apud James, 1967). Ou seja, temos a ten-dência de aceitar melhor aquilo que está de acordo com nossas crenças e, ao aceitar, nós o validamos como verdadeiro. Na vida cotidia-na, “verdadeiro” é apenas um adjetivo que qualifica uma crença, um julgamento ou um fato como sendo coerente com o que já co-nhecemos.
Para Guidano (1988b), conhecer é a cons-trução e a reconscons-trução contínua de uma reali-dade capaz de dar coerência ao curso da expe-riência. Assim, passo a passo, construímos nos-sos modelos de mundo, nosnos-sos modelos men-tais, em grande parte em nível tácito.
De acordo com Greenberg (1996), o des-conforto ou os problemas emocionais resultam de dificuldades na organização das experiên-cias em uma narrativa coerente. Nesse senti-do, Festinger (1975) introduziu o conceito de dissonância cognitiva para se referir às rela-ções discordantes ou contraditórias entre cognições, considerando-a um estado de ten-são psicológica que motiva a busca da redução da contradição. Assim, quanto mais importan-tes forem essas crenças, maior o desconforto produzido pela dissonância entre elas. O des-conforto surge quando há contradição entre a experiência em si e a explicação ou a elabora-ção dessa experiência, ou quando duas ou mais crenças revelam-se incompatíveis. A dissonân-cia pode ser reduzida pela redução do número ou da importância das cognições incoerentes. Todavia, o conjunto de crenças de um ser hu-mano não pode ser fácil nem intencionalmen-te modificado por outra pessoa.
No construtivismo, não há uma busca fo-calizada na mudança de crenças; o objetivo não é apenas proporcionar novas “crenças funcio-nais”, mas também tornar o cliente consciente de seus processos de atribuição de significado
e mais capaz de flexibilizar suas construções. Portanto, é imprescindível que tanto os pro-cessos cognitivos quanto os propro-cessos emocio-nais participem dessa organização, através de um processo dialético entre pensamento e sen-timento para a construção de significado. É a elaboração cognitiva das emoções e dos senti-mentos que tem o potencial de organizar a ex-periência de unidade entre corpo e mente, com-portamento e cultura.
A síntese dialética construtivista ocorre entre a experiência e a explicação, entre os conceitos e as experiências corporais. Quando a construção do significado não leva em consi-deração as informações geradas por processos afetivos, ou se deixa guiar por esquemas emo-cionais disfunemo-cionais, não é capaz de proporci-onar coerência e provoca desconforto. Nessa existência relacional, a natureza auto-inter-pretadora do ser humano toma uma posição de destaque, pois ele é, ao mesmo tempo, su-jeito e objeto de sua investigação. No processo de relacionamento com diferentes aspectos de sua existência, os seres humanos estão sempre à procura de significados, sempre à procura de um sentido (Mahoney, 1988). Alguns autores propõem, inclusive, considerar o cérebro como um “dispositivo hermenêutico”.
Todo o processo de conhecer realiza-se em uma relação dialética constante, na qual as contradições em que se enreda a realidade vão gradualmente sendo superadas. Hegel consi-derava a dialética como a própria natureza do pensamento, o qual se desenvolvia através de uma série de “momentos dialéticos” (Abbagnano, 1999). Sua dialética trata da cons-trução do conhecimento e serve de elo de liga-ção entre todas as teorias construtivistas (Glassmann, 2000).
As perspectivas cognitivo-construtivistas consideram que o ser humano está continua-mente implicado em um processo ativo de or-ganização emocional e cognitivo da experiên-cia para entender e guiar sua relação com o mundo (Greenberg et al., 1996). A síntese or-ganizada resultante desse processo é a própria experiência de estar-no-mundo.
A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO SIGNIFICADO Diversas correntes de pensamento com-partilham a noção de que não há sentido na idéia de um ser humano na ausência de um mundo no qual ele se insere. Ao mesmo tempo em que a sociedade nasce da interação entre indivíduos, ela retroage sobre ele e modela-o. Podemos dizer que a relação do homem com seu meio é uma relação de co-construção. Por diferentes ângulos, na biologia, na psicologia e na antropologia, vários pesquisadores con-cordam com o fato de que as evoluções cultu-rais e genéticas são interligadas, em um pro-cesso denominado co-evolução gene-cultura (Wilson, 1999).
Nas tentativas iniciais de se consolidar como uma disciplina científica, a psicologia buscou inicialmente as leis da atividade men-tal na estrutura do organismo. A noção vigen-te era que as respostas e as leis de toda ativi-dade mental poderiam ser encontradas no in-divíduo. Não há dúvida de que essa psicologia do indivíduo tenha contribuído em muito para o conhecimento do ser humano. Entretanto, a origem social dos processos mentais foi am-plamente ignorada.
O ser humano emerge dessa relação dialógica entre os diferentes níveis de sua exis-tência biológica e cultural, não sendo possível reduzir sua essência a apenas um de seus as-pectos. Schneirla (1972) julga pertinente falar de uma natureza do verme, de uma natureza da formiga ou, até mesmo, de uma natureza do pássaro, mas não de uma natureza huma-na, porque o homem “pode ter toda e qual-quer natureza que permitam as condições de sua criação e de sua situação social” (Schneirla, 1972, p. 67). Além disso, a razão pela qual os seres humanos não possuem uma natureza psi-cológica específica é que a biologia influi de maneira radicalmente diferente sobre o com-portamento animal e sobre o comcom-portamento humano. Enquanto a maior parte do compor-tamento animal é determinada diretamente pela biologia, as ações humanas sofrem uma influência indireta e não-específica da
biolo-gia. Enquanto nos animais inferiores encon-tram-se grandes repertórios de comportamen-tos relativamente estereotipados, nos mamífe-ros, como regra geral, o padrão adaptativo geral não está inicialmente formado ou está formado de maneira muito imprecisa.
Para Ortega y Gasset (1982), o homem não é uma natureza, e sim uma história. Em outras palavras, “os seres humanos não termi-nam em suas próprias peles… não existe tal coisa como uma natureza humana independen-te da cultura” (Bruner, 1997). Diz-se, então, que o homem é um ente de relação. Para Buber (2000), o fundamento ou a essência de sua existência é a relação. Heidegger (1996) utili-za o termo Dasein, traduzido para o português como ser-no-mundo, para referir-se a um ser que se relaciona com o mundo, e não apenas se localiza neste, enfatizando a impossibilida-de impossibilida-de sequer imaginar o homem isolado e in-dependente do mundo.
A natureza essencialmente relacional do ser humano baseia-se tanto nos aspectos cul-turais quanto nos aspectos biológicos. Mesmo antes da proposta evolucionista de Charles Darwin, já havia a noção de que a construção biológica de um organismo vivo pautava-se na relação deste com o meio ambiente.
O genoma humano não especifica toda a estrutura do cérebro. Possuímos apenas cerca de 30.000 genes, número insuficiente para determinar a estrutura e a posição de todas as células em nosso organismo, muito menos no cérebro. Os genes nada mais são do que ape-nas uma receita básica para a construção de um ser humano. O cérebro possui aproxima-damente 1011 neurônios, cada um podendo
receber cerca de 10.000 a 100.000 conexões sinápticas, havendo, assim, um número astro-nômico de possibilidades de configuração des-se sistema (Kandel et al., 1995). A informação contida na complexa rede neuronal excede em muito a quantidade que pode ser armazenada nos genes (Singer, 1986). Contudo, apesar de as informações genéticas não serem suficien-tes para proporcionar a configuração dessa rede, as conexões entre os neurônios não são realizadas aleatoriamente, mas seguem uma or-ganização surpreendente.
A capacidade de organização dos sistemas neuronais não se baseia apenas em padrões de ativação gerados espontaneamente na própria estrutura cerebral, pois requer informação ex-terna. É através da experiência, da interação com o meio, que o padrão de conexões do sistema nervoso é modelado. Essa interação proporcio-na a informação epigenética necessária para a construção dessa estrutura. O sistema nervoso é um órgão estruturalmente dinâmico e seus me-canismos de auto-organização não se confinam aos estágios embriogênicos do desenvolvimen-to, uma vez que ocorrem durante toda a vida (Tononi et al., 1998). A interação é necessária para o estabelecimento da configuração das conexões e também para a manutenção de sua existência. O cérebro dos mamíferos apresenta uma natureza essencialmente construcionista (Purves et al., 1996).
A atividade do organismo na sua relação com o meio, ao longo de sua existência, é que determina a forma de um grande número de circuitos e sistemas neuronais. Do ponto de vista do desenvolvimento evolutivo de seleção natural, o equipamento biológico humano evo-luiu no sentido da flexibilidade, em oposição à rigidez inata de um determinismo biológico. Essa capacidade de remodelação pela experiên-cia proporciona aos animais uma flexibilidade muito maior em sua relação com o meio am-biente.
O aspecto genético é somente um esque-ma geral sobre o qual se desenrola a estrutu-ração humana (da mente) a partir de um sem-número de experiências no decorrer da histó-ria do indivíduo. Podemos dizer que o sistema nervoso central é uma matéria-prima molda-da pela existência. Ele é uma estrutura elabo-rada, com muitas de suas partes já no lugar, porém é a experiência que afina esse “tosco aparelho” até que possa executar um trabalho de precisão (Crick, 1994).
A importância dos eventos ambientais pode ser exemplificada com diversos casos. Por exemplo, a separação de uma ovelha recém-nascida de sua mãe por poucas horas após o nascimento impede o desenvolvimento habitual de um comportamento de “brincar” que as ove-lhas normalmente apresentam (Maturana,