UFCD 3536

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Texto

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Geriatria

Formação Modular

MANUAL

Velhice – Ciclo Vital e Aspectos Sociais

Formadora: Inês Mendes

Local: Junta de Freguesia

Borba de Godim - Lixa

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Formadora: Inês Mendes 2

“Uma bela velhice é, comummente,

recompensa de uma bela vida”

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Formadora: Inês Mendes 3

Índice

Princípios Fundamentais ………..……….…. pág. 4

1) Velhice – Ciclo Vital ………. pág. 9

 Velhice e tarefas do desenvolvimento psicológico ……… pág. 9

 Teorias sobre o envelhecimento psicossocial ……….. pág. 10 o Teorias psicossociais de Eric Erickson, R. Peck e Buhler …....… pág. 10

 Do jovem adulto à meia-idade ………..….… pág. 13

 A meia-idade e as tarefas evolutivas ………...… pág. 15

 Aspectos estruturais e funcionais da Velhice …..………...… pág. 16

2) Velhice – Aspectos Sociais ……….. pág. 19

 A velhice e a sociedade ……….….. pág. 19 o Velhice e envelhecimento: conceitos e análise ………...…pág. 20

 Mitos da velhice / Atitudes, Mitos e Estereótipos ………... pág. 21

 Representações da morte ……….………….. pág. 26

 Problemas sociais da velhice ……….. pág. 27

 A pessoa idosa no final do Séc XX ………..………….. pág. 30

3) Velhice – Socialização e Papéis Sociais ………..….….. pág. 33

 Aspectos sociais da velhice ……….……….. pág. 33 o Socialização e papéis sociais

o Preparação para a velhice: os papéis para a transição

 O modo de vida das pessoas de idade ………..……..….….…….. pág. 36 o As condições de vida

o A satisfação de viver

 Processo de envelhecimento / sensibilização à problemática da pessoa idosa / Pessoa Idosa noutras Civilizações……….…….... pág. 39

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Formadora: Inês Mendes 4

Princípios Fundamentais

A velhice é um conceito abstracto, uma categoria socialmente construída que, como escreveu Simone de Beauvoir (1990) é o que serve para referir o período de vida em que as pessoas ‗ficam velhas‘.

Essa forma de dizer denuncia um olhar holístico que visa propiciar condições para uma mudança de perspectiva em torno do fenómeno, sobretudo, porque as diferenças individuais coexistem com a velhice o que contradita a tendência da sociedade moderna em homogeneizá-la num único grupo etário normativamente iniciado aos 65 anos de idade.

No mundo contemporâneo, a velhice humana transformou-se numa questão social e política, rompendo com o estatuto que manteve até ao final da primeira metade do século XIX, em que era um assunto quase exclusivamente restrito à esfera privada e familiar. O século XX, sobretudo a partir da década de 60, institucionalizou o curso de vida (Featherstone e Hepworth, 1996), sustentando-se na abordagem científica de gerontólogos e geriatras que apresentam as debilidades físicas, psíquicas e sociais das ‗pessoas de idade‘ como problemas objectiváveis que justificam a concepção de respostas sociais enquadradas em serviços especializados.

Desde o final do século XIX que o exponencial aumento demográfico, a maior longevidade humana, as melhores condições de vida, a diversidade de estilos de vida e a maior exigência no desempenho de cidadania, propõem e sedimentam uma nova dinâmica social face à velhice, diferente da presenciada e vivida nos períodos anteriores. A recomposição demográfica que tem por base o aumento do índice de envelhecimento, associada à maior qualidade de vida das ‗pessoas de idade‘ (nomeadamente com mais saúde), alterou as atitudes e os comportamentos face à velhice e ao envelhecer. Foi neste segmento que se desenvolveu o Estado-Providência e foi também, no final do século XX, que ele começou a fraquejar. À velhice, como categoria populacional, é atribuída grande parte da responsabilidade pela crise desse Estado de Bem-Estar. É nesse sentido que a velhice é um problema social das sociedades modernas do início do século XX.

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Formadora: Inês Mendes 5

O envelhecimento demográfico em Portugal entre 1960 e 2001 caracterizou-se por um decréscimo de 36% na população jovem (0-14 anos) e um aumento de 140% da população com 65 ou mais anos de idade. Dentro deste mesmo grupo acentua-se o envelhecimento das pessoas com idade igual ou superior a 75 anos que em 1960 era de 2,7% e passou em 2001 para 6,7% do total da população. A população com idade igual ou superior a 85 anos aumentou de 0,4% para 1,5% entre 1960 e 2001. Os indivíduos com 100 anos eram cerca de um milhar com maior longevidade nas mulheres. ―Assiste-se assim, ao fenómeno do envelhecimento da própria população idosa‖ (INE, 2002: 11). A esperança média de vida aumentou, no mesmo período, cerca de 11 anos para os homens e cerca de 13 para as mulheres. O declínio do índice de dependência de jovens, que desceu de 59 em 1960 para 48 em 2001, implicará o declínio da própria população em idade activa nos próximos anos. As preocupações crescentes que o fenómeno de envelhecimento revela levaram a que a Assembleia Geral das Nações Unidas convoca-se a II Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento, para 2002, no sentido de se equacionar um plano internacional para o envelhecimento numa perspectiva estratégica de longo prazo.

A tarefa sociológica de análise de um problema social é a de recensear os espaços, os tempos e os contextos em que foram elaboradas as políticas que o suportam, a que estão associadas as características profissionais dos especialistas e as representações sociais construídas em torno da sua especialização.

Os primeiros discursos de carácter científico sobre a velhice vêm da medicina e deram lugar à emergência das disciplinas de gerontologia e geriatria em que predomina o modelo patológico. Também no domínio da política social as pesquisas sobre a velhice têm incidido, essencialmente, na perspectiva do grupo como problema social, encarado em função das suas possibilidades e direitos providenciados. Assim, conjuntamente, a ciência médica e a política vieram a categorizar as ‗pessoas de idade‘ como grupo dependente, separado e diferente do resto da sociedade, ou seja, na perspectiva funcional do desvio. Neste contexto social, os valores considerados na temática do envelhecimento, passam a derivar de uma análise sobre a

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Formadora: Inês Mendes 6

existência real que leva a pessoa a confrontar-se com a ambiguidade entre a ideia de continuidade associada à vida e a ideia de ruptura associada à morte que surge como o culminar do processo de envelhecimento. Essa dualidade tem influência na preponderância assumida pela dicotomia da relação entre dependência e autonomia. A análise da velhice é, assim, orientada pela premissa enviesada do princípio de que as ‗pessoas de idade‘ têm debilidades que as tornam dependentes de terceiros. Anne-Marie Guillemard (1988) sublinha que o Estado, quando dispõe de fraca margem de autonomia e manobra perante a ordem das relações sociais, inflecte o curso da sua acção a favor das forças sociais que têm a dominância na sociedade.

O sistema de protecção social foi definido como universal e a redistribuição de benefícios concretizada na prestação de serviços burocráticos despersonalizados. Esses benefícios são ‖benevolentemente repressivos‖ e concebidos para dar resposta à crescente atomização da vida social (Santos, 1999b). A relação estabelecida passa a ser entre os detentores de direitos e os agentes socialmente mandatados para classificar as pessoas nas categorias jurídicas que lhes correspondem. Como diz Sara Arber e Jay Ginn (1991), as ‗pessoas de idade‘ são vistas como um grupo de pessoas ‗parasitas‘ do Estado. Como forma extrema desta imagem sucedeu a relação de desequilíbrio entre trabalhadores e pensionistas em que os primeiros são vistos como os únicos que produzem rendimento e pagam impostos para sustentar as reformas dos pensionistas. Querer atribuir ‗uma‘ identidade às pessoas que a sociedade moderna categoriza como ‗velhas‘ é violentar a sua inserção social, construída, reconstruída e protagonizada em trajectórias individuais. As ‗pessoas de idade‘ devem ser olhadas pela sua diversidade. Estamos perante o que Ruano-Borbalan (1998) designa por ―o paradoxo da identidade‖, simultaneamente, idêntico e distinto.

Analisar a velhice das pessoas enquanto objecto de estudo implica perceber a sua concepção e como ela se constituiu em problema social. A definição de problema social envolve quatro dimensões associadas a um trabalho de reconhecimento, legitimação, pressão e expressão (Lenoir, 1998). Ao problema social estão inerentes, também, formas de pressão

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Formadora: Inês Mendes 7

protagonizadas e legitimadas por grupos de interesses que se assumem como representantes das pessoas que comungam um mesmo problema.

Envelhecimento / Distintas Áreas

Geriatria é a especialidade médica que trata de doença de idoso ou de doentes idosos, mas também se preocupa em prolongar a vida com saúde. Ao longo da vida a capacidade funcional vai reduzindo e na terceira idade é importante manter a independência e prevenir incapacidades, assim garantindo uma boa qualidade de vida. O processo natural do envelhecimento associado as doenças crônicas e a hábitos de vida inadequados são os responsáveis pela limitação do idoso. Nesta fase é importante focar sempre na prevenção, pois até o idoso aparentemente saudável requer cuidados.

Objectivos da Geriatria:

 Manter a saúde em idades avançadas.  Manter a funcionalidade.

 Prevenir doenças.

 Detectar e tratar precocemente as doenças.

 Manter o máximo grau de independência do idoso.

Prevenção de doenças nos idosos:

 Corrigir os hábitos que agridem a saúde (alimentação não saudável, inactividade física, obesidades, etc...)

 Adequar o ambiente doméstico, diminuindo assim o risco de acidentes como quedas e suas consequências.

 Estimular a prática de actividades físicas aeróbias para aumento de resistência, força e flexibilidade.

 Equilibrar o estado emocional, ampliando a rede de apoio e suporte ao idoso.

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Formadora: Inês Mendes 8

Gerontologia

Antes de mais nada, é preciso esclarecer que esta especialidade não está ligada somente à área da saúde, pelo contrário, está aberta a todas as áreas.

O profissional desta área está apto a contribuir para que o envelhecimento seja um processo saudável, bem-sucedido, assistido e cuidado. Inclusive orientando a família e a sociedade sobre como lidar com o seu idoso, fazendo intervenções e combatendo preconceitos.

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Formadora: Inês Mendes 9

1) Velhice – Ciclo Vital

Velhice e tarefas do desenvolvimento psicológico

Havighurst (1953), um dos mais notáveis psicólogos do desenvolvimento humano, insatisfeito com os modelos e teorias do desenvolvimento prevalentes nos anos quarentas e cinquentas do século XX, realizou só ou em colaboração com autores de países diversos uma série de pesquisas sobre o que denominou o ciclo de vida. O ciclo de vida começa com a concepção e termina com a morte. Ele considerava que as propostas de desenvolvimento então vigentes ou eram predominantemente alicerçadas nas mudanças biológicas ou se centravam em aspectos psicológicos específicos (cognitivos, emocionais, sexuais e morais), não enfocando, com base em pesquisas sólidas, o desenvolvimento humano como um todo. Além disso, para os modelos dominantes a tendência era considerar que o desenvolvimento praticamente se completava na adolescência (às vezes antes dos quinze anos) ou começo da juventude.

Entende-se por tarefas de desenvolvimento aquelas que a pessoa deve

cumprir para garantir seu desenvolvimento e seu ajustamento psicológico e

social. São tarefas com as quais a pessoa satisfaz ―suas necessidades

pessoais de evolução e para garantir o próprio desenvolvimento e manutenção de padrões sociais e culturais específicos‖ (Melo, 1981, p.21). Mais, além de garantir a formação e a actuação do cidadão, devem dar base de sustentação para o progresso (pessoal e social) e bem-estar humano.

Pfromm Netto (1976) considera que as tarefas de desenvolvimento são como ―lições‖ que a pessoa deve aprender ao longo de sua existência para se desenvolver satisfatoriamente e ter êxito na vida. As tarefas não são estanques em cada etapa embora algumas sejam preferencialmente típicas dessa ou daquela fase. Em cada fase todas se relacionam entre si e o prejuízo ou déficit em uma tarefa pode comprometer outras no mesmo período ou em período futuro.

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Formadora: Inês Mendes 10

Teorias do Envelhecimento Psicossocial

Algumas teorias psicossociais tentam explicar o processo do envelhecimento. e o impacto social desse novo perfil populacional e a relação recíproca do impacto desta sociedade no idoso pertencente a ela. São elas:

Eric Erickson – Teoria do Desenvolvimento

Erikson propõe uma concepção de desenvolvimento em oito estágios psicossociais, perspectivados por sua vez em oito idades que decorrem desde o nascimento até à morte, pertencendo as quatro primeiras ao período de bebê e de infância, e as três últimas aos anos adultos e à velhice, cada estágio é atravessado por uma crise psicossocial entre uma vertente positiva e uma negativa.

Erikson dá especial importância ao período da adolescência, devido ao fato ser a transição entre a infância e a idade adulta, em que se verificam acontecimentos relevantes para a personalidade adulta.

Na Teoria Psicossocial do Desenvolvimento, este desenvolvimento evolui em oito estágios. Os primeiros quatro estágios decorrem no período de bebê e da infância, e os últimos três durante a idade adulta e a velhice.

Cada estágio contribui para a formação da personalidade total (princípio epigenético), sendo por isso todos importantes mesmo depois de se os atravessar. O núcleo de cada estágio é uma crise básica, que existe não só durante aquele estágio específico, nesse será mais proeminente, mas também nos posteriores a nível de consequências, tendo raízes prévias nos anteriores.

A formação da identidade inicia-se nos primeiros quatro estágios, e o senso desta negociado na adolescência evolui e influencia os últimos três estágios. Erikson perspectivava o desenvolvimento tendo em conta aspectos de cunho biológico, individual e social.

A teoria psicossocial em análise enfatizava o conceito de identidade, a qual se forma no 5º estágio, e o de crise que sem possuir um sentido dramático

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Formadora: Inês Mendes 11

está presente em todas as idades, sendo a forma como é resolvida determinante para resolver na vida futura os conflitos.

Esquema de Desenvolvimento de Eric Erickson

Confiança X Desconfiança (até um ano de idade)

Durante o primeiro ano de vida a criança é substancialmente dependente das pessoas que cuidam dela, requerendo cuidado quanto à alimentação, higiene, locomoção, aprendizado de palavras e seus significados, bem como estimulação para perceber que existe um mundo em movimento ao seu redor. O amadurecimento ocorrerá de forma equilibrada se a criança sentir que tem segurança e afeto, adquirindo confiança nas pessoas e no mundo.

Autonomia X Vergonha e Dúvida

(segundo e terceiro ano)

Neste período a criança passa a ter controle de suas necessidades fisiológicas e responder por sua higiene pessoal, o que dá a ela grande autonomia, confiança e liberdade para tentar novas coisas sem medo de errar. Se, no entanto, for criticada ou ridicularizada desenvolverá vergonha e dúvida quanto a sua capacidade de ser autônoma, provocando uma volta ao estágio anterior, ou seja, a dependência.

Iniciativa X Culpa (quarto e quinto ano)

Durante este período a criança passa a perceber as diferenças sexuais, os papéis desempenhados por mulheres e homens na sua cultura (conflito edipiano para Freud) entendendo de forma diferente o mundo que a cerca. Se a sua curiosidade ―sexual‖ e intelectual, natural, for reprimida e castigada poderá desenvolver sentimento de culpa e diminuir sua iniciativa de explorar novas situações ou de buscar novos conhecimentos.

Construtividade X Inferioridade (dos 6 aos 11 anos)

Neste período a criança está sendo alfabetizada e freqüentando a escola, o que propicia o convívio com pessoas que não são seus familiares, o que exigirá maior sociabilização, trabalho em conjunto, cooperatividade, e outras habilidades necessárias. Caso tenha dificuldades o próprio grupo irá criticá-la, passando a viver a inferioridade em vez da construtividade.

Identidade X Confusão de

Papéis O quinto estágio ganha contornos diferentes

devido à crise psicossocial que nele acontece, ou seja, Identidade Versus Confusão. Neste

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Formadora: Inês Mendes 12 (dos 12 aos 18 anos) contexto o termo crise não possui uma acepção

dramática, por tratar-se de a algo pontual e localizado com pólos positivos e negativos.

Intimidade X Isolamento (jovem adulto)

Nesse momento o interesse, além de profissional, gravita em torno da construção de relações profundas e duradouras, podendo vivenciar momentos de grande intimidade e entrega afetiva. Caso ocorra uma decepção a tendência será o isolamento temporário ou duradouro.

Produtividade X Estagnação (meia idade)

Pode aparecer uma dedicação à sociedade à sua volta e realização de valiosas contribuições, ou grande preocupação com o conforto físico e material.

Integridade X Desesperança (velhice)

Se o envelhecimento ocorre com sentimento de produtividade e valorização do que foi vivido, sem arrependimentos e lamentações sobre oportunidades perdidas ou erros cometidos haverá integridade e ganhos, do contrário, um sentimento de tempo perdido e a impossibilidade de começar de novo trará tristeza e desesperança.

Peck – Teoria do Desenvolvimento

Este autor acrescentou dimensões interessantes ao trabalho de Erickson. No período da meia-idade, as tarefas que ele indicou foram:

 Aprender a valorizar a sabedoria ao invés dos poderes físicos;  Aprender uma sociabilidade menos sexualizada;

 Desenvolver a capacidade de transferir investimentos emocionais de uma pessoa para a outra, ou de uma actividade para a outra;  Manter a flexibilidade psicológica ao invés de desenvolver uma

rigidez mental.

Buhler – Teoria do Desenvolvimento

Buhler propôs que as pessoas desenvolvem através de sua vida útil, e que o desenvolvimento idade (amadurecimento) é muito mais significativo do que psicologicamente "idade mental" ou "quociente de inteligência",

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Formadora: Inês Mendes 13

Segundo ela, essencialmente saudável que as pessoas enfrentam desafios de forma contínua ao longo da vida. Eles tentam integrar quatro tendências básicas, que incluem:

o Precisa de uma satisfação (por amor, sexo, ego e reconhecimento),

o Fazendo auto-limitante adaptações (por encaixar, pertencer, e permanecendo seguro),

o Movendo em direcção a expansão criativa (através da auto-expressão e realizações criativas),

o Defender e restaurar a ordem interna (por ser fiel à própria consciência e valores).

Estabelece, então, a diferença entre as vidas baseadas apenas na Vitalidade e na Mentalidade.

Do jovem adulto à meia-idade

O início da idade adulta varia de um indivíduo para o outro e uma passagem adequada para essa fase depende da resolução satisfatória das crises da infância e da adolescência. É um período de grandes mudanças, no qual a pessoa adquire total maturidade e apresenta o máximo em seu potencial para a satisfação pessoal. A pessoa deve ser capaz de mudar sempre para atender às exigências das situações.

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Formadora: Inês Mendes 14

Jovem Adulto (de 20 a 40 anos) - PRINCIPAIS DESENVOLVIMENTOS

 Saúde física atinge o máximo, depois cai ligeiramente.  Habilidades cognitivas assumem maior complexidade.  Decisões sobre relacionamentos íntimos são tomadas.  A maioria das pessoas se casa; a maioria tem filhos.  Escolhas profissionais são feitas.

Meia- idade (de 40 a 65 anos) - PRINCIPAIS DESENVOLVIMENTOS

 Ocorre certa deterioração da saúde física, e declínio da resistência e perícia.

 Mulheres entram na menopausa.

 Sabedoria e capacidade de resolução de problemas práticos são acentuadas; capacidade de resolver novos problemas declina.

 Senso de identidade continua a se desenvolver.

 Dupla responsabilidade de cuidar dos filhos e pais idosos pode causar stress.

 Partida dos filhos tipicamente deixa o ninho vazio.

 Para alguns, sucesso na carreira e ganhos atingem o máximo; para outros ocorre um esgotamento profissional.

 Busca do sentido da vida assume importância fundamental.  Para alguns, pode ocorrer a crise da meia-idade.

Terceira idade (de 65 anos em diante) - PRINCIPAIS DESENVOLVIMENTOS

 A maioria das pessoas é saudável e activa, embora a saúde e a capacidade física declinem um pouco.

 Retardamento do tempo de reacção afecta muitos aspectos do funcionamento.

 A maioria das pessoas é mentalmente activa. Embora a inteligência e a memória possam se deteriorar em algumas áreas, a maioria das pessoas encontra modos de compensação.

 Aposentadoria pode criar mais tempo para o lazer mas pode diminuir as rendas.

 As pessoas precisam enfrentar perdas em muitas áreas (perdas de suas próprias faculdades, perda de afectos) e a iminência de sua própria morte.

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Formadora: Inês Mendes 15

o Casamento e seus ajustamentos: O relacionamento conjugal está associado à saúde e à qualidade de vida, principalmente nos anos de maturidade e velhice, embora o facto de um casamento durar não significa necessariamente que o mesmo é satisfatório para os conjugues.

o Carreira profissional e seus ajustamentos: há um declínio após os 65 anos de idade, pois envolve as tarefas de desaceleração, planeamento para a reforma e a criação de um novo modo de vida na condição de reformado.

o Família e seus ajustamentos: na sociedade contemporânea, desconsiderando, os casos verdadeiros de negligência, considera-se que a família tem poucas condições de dar conta da situação complexa da velhice, pelos seguintes motivos;

 O seu tamanho diminui consideravelmente e, assim, as suas funções/capacidade também;

 O grande número de filhos e netos servia de garantia e amparo aos mais velhos no futuro;

 Parte da responsabilidade pelo idoso foi transferida ao Estado;

 Os avanços tecnológicos a nível da medicina (saúde), levou a que somente pudesse ser operada em locais próprios e por especialistas e não em ambiente familiar.

A meia-idade e as tarefas evolutivas

A meia-idade é uma fase do ciclo vital que se estende, aproximadamente, dos 40 aos 60 anos. A princípio, a meia-idade é um período caracterizado por um movimento interno da pessoa para resumir e reavaliar a própria vida. Mesmo que esses ―movimentos‖ não conduzam a qualquer mudança efetiva. Essa auto-avaliação não se refere apenas à busca por metas, mas também às satisfações interiores. Considerações em torno do que a pessoa conseguiu,e se essas conquistas estão de acordo com os sonhos e as idéias anteriormente alimentadas tornam-se, então, ponto principal nessa etapa da vida.

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Formadora: Inês Mendes 16

As décadas que constituem a meia-idade podem vir a confirmar, ou não, os progressos profissionais, a estabilização das relações afetivas de modo geral e especialmente a conjugal. Similarmente, o indivíduo é levado a fazer considerações a respeito das conquistas impetradas na esfera cívica e socioeconômica da vida.

Por tudo isso é que pode-se dizer que é a:  Aceitação do corpo que envelhece;

 Aceitação da limitação do tempo e da morte pessoal;  Manutenção da intimidade;

 Reavaliação dos relacionamentos;

 Relacionamentos com os filhos: deixar ir, atingir igualdade, integrar novos membros;

 Relação com seus pais: inversão de papéis, morte e individuação;  Exercício do poder e posição: trabalho e papel de instrutor;

 Preparação para a velhice.

Aspectos estruturais e funcionais da Velhice

As teorias que abrangem o desenvolvimento adulto pressupõem que há regularidades no ciclo da vida, onde se processam mudanças e que se tratam de adaptações cumulativas a eventos biológicos, psicológicos e sociais (ERBOLATO, 2001). Porém, sabemos que as pessoas não envelhecem todas da mesma maneira. A par dos factores genéticos que determinam muito do processo, há que realçar que não é igual envelhecer no feminino ou no masculino, sozinho ou no seio da família, casado, solteiro, viúvo ou divorciado, com filhos ou sem filhos, no meio urbano ou no meio rural, na faixa do mar ou

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Formadora: Inês Mendes 17

na intelectualidade das profissões culturais, no seu país de origem ou no estrangeiro, activo ou inactivo (Ministério da Saúde, 1998).

O envelhecimento diferencial envolve preferencialmente os órgãos efectores e resulta de processos intrínsecos que se manifestam a nível dos órgãos, tecidos e células:

 Assim, a pele envelhece mais rapidamente que o fígado.

 As complicações vasculares afectarão o sistema cardíaco principalmente.

 A arteriosclerose acumulada por má alimentação, pelo stress e contaminação bacteriana, poderá ocorrer mais cedo ou mais tarde, de acordo com hábitos prevalecentes e resistência orgânica.

Seja qual for o mecanismo e o tempo de envelhecimento celular, este não atinge simultaneamente todas as células e, consequentemente, todos os tecidos, órgãos e sistemas. Cada sistema tem o seu tempo de envelhecimento, mas sem a interferência dos factores ambientais há alterações que se dão mais cedo e se tornam mais evidentes quando o organismo é agredido pela doença.

Diz Ermida (1999), que a "diminuição de função renal em cerca de 50% aos 80 anos - condiciona a farmacoterapia dos idosos", "as alterações orgânicas a nível das mucosas digestivas, são determinante frequente de problemas nutricionais"; "as alterações a nível de arquitectura dos ossos, a dismetabolia cálcica, propiciam fracturas frequentes"; a "diminuição da água intracelular (perda de 10 a 15% aos 80 anos) torna o idoso extremamente sensível aos desequilíbrios hidroelectrolíticos"; e o "aumento da massa gorda favorece a obesidade com todo o seu cortejo de consequências".

A nível do sistema nervoso, existe fundamentalmente perda de neurónios substituídos por tecido glial, a diminuição do débito sanguíneo, com consequente diminuição da extracção da glicose e do transporte do oxigénio e a diminuição de neuromodeladores que condicionam processos mentais, alterações da memória, da atenção, da concentração, da inteligência e pensamento.

Para além de tudo isto, temos ainda a considerar as diminuições orgânicas e funcionais, que originam significativas alterações na forma e na composição corporal com o decorrer dos anos. Talvez as condições mais relevantes a ter em consideração para a sobrevivência do idoso e para a sua qualidade de vida sejam, no entanto, a diminuição da sua reserva fisiológica e

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Formadora: Inês Mendes 18

a consequente dificuldade na reposição do seu equilíbrio homeostático quando alterado.

As modificações fisiológicas que se produzem no decurso do envelhecimento resultam de interacções complexas entre os vários factores intrínsecos e extrínsecos e manifestam-se através de mudanças estruturais e funcionais que se encontram sintetizadas no quadro 1.

Quadro 1 - Modificações fisiológicas do envelhecimento

ALTERAÇÕES ESTRUTURAIS ALTERAÇÕES FUNCIONAIS

Sistema cardiovascular Células e tecidos Sistema respiratório Composição global do corpo e

peso corporal

Sistema renal e urinário Músculos ossos e articulações Sistema gastrointestinal Pele e tecidos subcutâneos Sistema nervoso e sensorial Tegumentos Sistema endócrino e metabólico Sistema imunitário

Ritmos biológicos e sono

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Formadora: Inês Mendes 19

2) Velhice – Aspectos Sociais

A velhice e a sociedade

Em muitas culturas e civilizações, a velhice é vista com respeito e veneração: representa a experiência, o valioso saber acumulado ao longo dos anos, a prudência e a reflexão. A sociedade urbana moderna transformou essa condição, pois a actividade e o ritmo acelerado da vida marginalizam aqueles que não os acompanham.

Velhice é o último período da evolução natural da vida. Implica um conjunto de situações -- biológicas e fisiológicas, mas também psicológicas, sociais, económicas e políticas -- que compõem o quotidiano das pessoas que vivem nessa fase.

Não há uma idade universalmente aceite como o limiar da velhice.

As opiniões divergem de acordo com a classe socioeconómica e o nível cultural, e mesmo entre os estudiosos não há consenso. Para efeitos estatísticos e administrativos, a idade em que se chega à velhice costuma ser fixada em 65 anos em diversos países, após o que se encerra a fase economicamente activa da pessoa, com a reforma. Actualmente, nas nações mais desenvolvidas, esse limite não parece absolutamente adequado do ponto de vista biológico, pelo que a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou-o para 75 anos.

Para compreender tal transformação, é preciso ter em conta o aumento progressivo da longevidade -- e, portanto, da expectativa de vida -- que se produziu nas últimas décadas do século XX, facto sem precedentes na história. O fenómeno se deve aos avanços na área de saúde pública e da medicina em geral, e à melhoria das condições de vida em seus mais variados aspectos. Por isso, é cada vez maior o número de pessoas que ultrapassam a idade de 67 anos de idade e, mais que isso, que atingem essa idades em boas condições físicas e mentais.

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Formadora: Inês Mendes 20

o Velhice e envelhecimento: conceitos e análise

Desde o nascimento a vida desenvolve-se de tal forma que a idade cronológica passa a definir-se pelo tempo que avança. E o tempo fica definido como uma sinonímia para uma eternidade quantificada, ou seja, uma cota. Desta forma, o homem e o tempo influenciam-se mutuamente, produzindo profundas mudanças nas subjectividades e diferentes representações que lhe permitem lidar com a questão temporal (Goldfarb, 1998).

As limitações corporais e a consciência da temporalidade passam a ser problemáticas fundamentais no processo do envelhecimento humano, e aparecem de forma reiterada no discurso dos idosos, embora possam adquirir diferentes mudanças e intensidades dependendo da sua situação social e da própria estrutura psíquica (Goldfarb, 1998). Corpo e tempo entrecruzam-se no devir do envelhecimento, e como consequência disso, nascerão as diversas velhices e suas consequentes múltiplas representações. Entretanto, se cada pessoa tem a sua velhice singular, as velhices passam a ser incontáveis e a definição do próprio termo torna-se um impasse.

Afinal, uma pessoa é tão velha, tendo como referencial algum tipo de declínio orgânico, ou são as maneiras pelas quais as outras pessoas passam a

encará-las que as confinam num reduto denominado Terceira Idade? E quando uma pessoa se torna velha?

Há uma idade ou um intervalo específico para a Terceira Idade?

Não é preciso ir muito longe para constatar que o que se percebe, então, é a impossibilidade de se estabelecer uma definição ampla e aceitável em relação ao envelhecimento (Veras, 1994). Percebe-se actualmente que os

nossos referenciais sobre a terceira idade e tudo o que se supunha saber é insuficiente para definir o que se actualmente concebe como terceira idade/envelhecimento/velhice.

A característica principal da velhice é o declínio, geralmente físico, que leva as alterações sociais e psicológicas. Os teóricos classificam tal declínio de duas maneiras: a senescência e a senilidade.

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Formadora: Inês Mendes 21

 A senescência é um fenómeno fisiológico e universal, arbitrariamente identificada pela idade cronológica, pode ser considerada um envelhecimento sadio, onde o declínio físico e mental é lento, e compensado, de certa forma, pelo organismo (Pikunas, 1979).

 A senilidade caracteriza-se pelo declínio físico associado à desorganização mental (Pikunas, 1979). Curiosamente, a senilidade não é exclusiva da idade avançada, mas pode ocorrer prematuramente, pois, identifica-se com uma perda considerável do funcionamento físico e cognitivo, observável pelas alterações na coordenação motora, a alta irritabilidade, além de uma considerável perda de memória.

Atitudes, Mitos e Estereótipos ligados à Velhice

Tópicos, ditos, frases feitas, etiquetas verbais ou adjectivações a respeito de pessoas e grupos, são alusões que frequentemente encontramos, quer nas conversas diárias da rua, quer nos meios de comunicação social. O mundo social e humano, dificilmente se nos apresenta, em sua crua realidade objectiva e objectual, sem possuir adjectivações (frequentemente estereotipadas), porque o estereótipo é precisamente uma percepção extremamente simplificada e geralmente com ausência de matrizes. Na medida em que o conhecimento humano não é capaz de ser sempre complexo, flexível e crítico podemos dizer que tendemos a cair no estereótipo (Castro, et al, 1999).

Os estereótipos mais estudados actualmente são os que se referem a grupos étnicos, no entanto existem estereótipos em todos os domínios da vida

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social: relativos a ambos os sexos, às ocupações, ao ciclo vital, à família, à classe social, ao estado civil, aos desvios sociais e a qualquer campo da vida que desejamos diferenciar.

Estudos recentes sobre o sóciocognitivismo, reafirmam o papel crucial dos estereótipos na percepção de outros seres humanos, havendo mesmo quem defenda (Bondehausen y Wyer, 1973) que as pessoas utilizam prioritariamente os estereótipos para interpretar a informação complexa sobre indivíduos e grupos, buscando outras interpretações apenas, quando os estereótipos não oferecem explicações suficientes.

O estereótipo é ―uma representação social sobre os traços típicos de um grupo, categoria ou classe social (Ayesteran e Pãez, 1987) e caracteriza-se por ser um modelo lógico para resolver uma contradição da vida quotidiana, e serve sobretudo para dominar o real. No entanto, também contribui para o não reconhecimento da unicidade do indivíduo, a não reciprocidade, a não duplicidade, o despotismo em determinadas situações.

A literatura científica sobre os estereótipos é prolixa, pelo facto de se tratar de um conceito multi-unívoco – construtor categorial, generalizador, estável e definidor de um grupo social. Contudo, existem múltiplos defensores dos quais destacamos Walter

Lippmann (cit. por Castro et al, 1999) que entende os estereótipos como pré-concepções rígidas, mais ou menos falsas e irracionais.

Socialmente, e no caso dos idosos, a valorização dos estereótipos projecta sobre a velhice uma representação social gerontofóbica e contribui para a imagem que estes têm se si próprios, bem como das condições e circunstâncias que envolvem a velhice, pela perturbação que causam uma vez que negam o processo de desenvolvimento.

O ―Ancianismo‖ como conceito gerontológico, define-se como o ―processo de estereotipia e de discriminação sistemática, contra as pessoas porque são velhas‖ (Staab e Hodges, 1998).

Este problema surge, quando o fenómeno de envelhecer é considerado prejudicial, de menor utilidade ou associado à incapacidade funcional. A rejeição e rotulagem de um grupo, em particular de indivíduos, desenvolvesse porque as características individuais com traços negativos, são atribuídos a

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todos os indivíduos desse grupo. Assim a palavra ‖velhote‖ descreve os sentimentos ou preconceitos resultantes de micro-concepções e dos ―mitos‖ acerca dos idosos. Os preconceitos envolvem geralmente crenças, de que o envelhecimento torna as pessoas senis, inactivas, fracas e inúteis (Nogueira, 1996).

No ―mundo civilizado‖ de hoje, a velhice é tida como uma doença incurável, como um declínio inevitável, que está votado ao fracasso. Esta postura social atingiu tal dimensão, que Louise Berger (1995) chega mesmo a afirmar, que abundam hoje ―ideias feitas e preconceitos relativamente à velhice. Os ―velhos‖ de hoje os ―gastos‖ os ―enrugados‖ cometeram a asneira de envelhecer numa cultura que deifica a juventude‖.

De facto, as atitudes negativas face aos idosos existem em todos os níveis sociais: intervenientes, beneficiários, governantes etc. Assim, perante esta diversidade de conceitos somos levados a questionar o que se entende por mitos, estereótipos, crenças e atitudes?

No sentido de clarificar e uniformizar estas questões e baseados nos pressupostos teóricos defendidos por Berger, 1995; Santos, 1995; Nogueira, 1996 e Dinis, 1997; Castro et al, 1999, passaremos a apresentar as seguintes conceptualizações.

Atitude, é um conjunto de juízos que se desenvolvem a partir das nossas

experiências e da informação que possuímos das pessoas ou grupos. Pode ser favorável ou desfavorável, e embora não seja uma intenção pode influenciar comportamentos.

Crença, é um conjunto de informações sobre um assunto ou pessoas,

determinante das nossas intenções e comportamentos, formando-se a partir das informações que recebemos. Por exemplo: a ―ideia‖ de que todos os idosos são sensatos e dóceis e nunca se zangam.

Estereótipo, é uma imagem mental muito simplificada de alguma

categoria de pessoas, instituições ou acontecimentos que é partilhada, nas suas características essenciais por um grande número de pessoas (Castro, 1999); dito de outra forma é um ―chavão‖, uma opinião feita, uma fórmula banal desprovida de qualquer originalidade, ou seja é uma ―generalização‖ e

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simplificação de crenças acerca de um grupo de pessoas ou de objectos, podendo ser de natureza positiva ou negativa.

O estereótipo positivo, é aquele em que se atribuem características positivas a todos os objectos ou pessoas de uma categoria particular, por exemplo, ―todos os idosos são prudentes‖.

Contrariamente, um estereótipo negativo, atribui características negativas a todos os objectos ou pessoas de uma determinada categoria, de que é exemplo ―todos os idosos são senis‖.

Um estudo realizado na Université de Montreal por Champagne e Frennet (cit. por DINIS, 1997), permitiu identificar catorze estereótipos como os mais frequentes relativos aos idosos e que passamos a descrever:

* Os idosos não são sociáveis e não gostam de se reunir; * Divertem-se e gostam de rir;

* Temem o futuro;

* Gostam de jogar às cartas e outros jogos;

* Gostam de conversar e contar as suas recordações; * Gostam do apoio dos filhos;

* São pessoas doentes que tomam muita medicação; * Fazem raciocínios senis;

* Não se preocupam com a sua aparência; * São muito religiosos e praticantes;

* São muito sensíveis e inseguros; * Não se interessam pela sexualidade; * São frágeis para fazer exercício físico; * São na grande maioria pobres.

A análise destes resultados permite-nos observar que a maioria destes estereótipos está ligada não a características específicas do envelhecimento, mas sim a traços da personalidade e a factores socioeconómicos. E, se por um lado, a formação de estereótipos simplifica a realidade, por outro, hiper-simplificam-na, levando muitas vezes a uma ignorância acerca das características, minimizando as diferenças individuais entre os membros de um determinado grupo. É disso, exemplo, o estereótipo de que ―todos os idosos

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são solitários‖. Este, não tem em consideração os idosos que têm uma vida social activa. Ainda com base neste estereótipo, os idosos activos socialmente, são considerados, muitas vezes, como tendo um comportamento social atípico, pelo que se enquadram numa excepção.

De facto, o mito é ―uma construção do espírito que não se baseia na realidade‖ e por isso constitui uma representação simbólica. Pode ser também um conjunto de expressões feitas ou eufemismos, que mantemos relativamente aos idosos, por exemplo: ―ela tem um ar jovem para a idade‖, ―idade de ouro‖, etc…

Numa análise mais profunda percebemos que os mitos escondem muitas vezes uma certa hostilidade e quando utilizados em excesso, impedem o estabelecimento de contactos verdadeiros com os idosos.

O que importa realçar neste estudo acerca dos ―mitos‖ e dos ―estereótipos‖ é o facto de estes estarem muitas vezes ligados ao desconhecimento do processo de envelhecimento, e poderem influenciar a forma como os indivíduos interagem com a pessoa idosa.

Por outro lado são causa de enorme perturbação nos idosos, uma vez que negam o seu processo de crescimento e os impedem de reconhecer as suas potencialidades, de procurar soluções precisas para os seus problemas e de encontrar medidas adequadas.

O termo ―terceira idade‖ por exemplo, é um rótulo socioeconómico que permite muitas vezes que o Homem entre nela pela porta da psicopatologia, que é a ciência que se ocupa da relação perturbada (Gyll, 1998). Estas imagens mentais simplificadas e estereotipadas sobre os idosos são usadas e compartilhadas actualmente em todos os níveis e grupos sociais.

Esta visão global e generalizada, que caracteriza os estereótipos gerontológicos pouco críticos e frequentemente carentes de objectividade, distorce a realidade. Investigações diversas sobre esta temática têm demonstrado que a distorção causada pelos estereótipos ―cegam‖ os indivíduos, impedindo-os de se precaverem das diferenças que existem entre os vários membros, não lhe reconhecendo deste modo qualquer virtude, objecto ou qualidade.

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Nesta perspectiva os estereótipos tornam-se inevitavelmente elementos impeditivos na procura de soluções precisas e de medidas adequadas, tornando-os urgente o combate a estas representações sociais gerontofóbicas e de carácter discriminatório, levando os cidadãos a adoptar medidas e comportamentos adequado face aos idosos.

Representações da Morte

A velhice é uma etapa da evolução humana. Nascer, crescer, desenvolver e morrer são processos naturais que fazem parte do ser humano. Entretanto, há outros factores que contribuem para a compreensão do homem e de sua existência.

A complexidade da existência humana pode ser vista por diversas vertentes, por diversos olhares e saberes. É comum que algumas ciências, mantenham uma visão de homem dicotomizada, uma visão que se afunila apenas naquela característica específica sem perceber o indivíduo como um todo, como um ser integral, um ser que é sim biológico, mas também é um ser psicológico, é um ser social.

A velhice, na história, sempre ocupou dois papéis antagónicos, ou representações sociais: ou referia-se à imagem do fim, da morte, do mal e da perda, ou da sabedoria, do conhecimento e do respeito. No entanto, trata-se de um facto natural da vida, tão certo quanto o fim, ao qual todos estamos ―destinados‖. Se, como dizem os matemáticos, a soma dos factores não altera o resultado do produto, assim também a meia-idade e a velhice, vividas por cada indivíduo, com sua singularidade, são a premissa do fim que se aproxima e que é inevitável a todos – a morte.

“Esse estado primordial de desamparo desempenha um papel decisivo na estruturação do psiquismo, que se constitui fundamentalmente na relação com o Outro, ou seja, o ser humano só sobrevive porque o Outro o deseja. Essa é a origem da necessidade de ser amado e cuidado, perpetuada no ser humano até sua morte”

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Envelhecer por si só já é um processo que implica em perdas que tornam o ser idoso estigmatizado em total dependência e velada incompetência de decidir suas próprias coisas. O amparo e olhar para esses idosos se tornam essenciais. A velhice traz consigo, então, a perspectiva de morte.

Problemas Socais da Velhice

O envelhecimento demográfico das populações é um fenómeno irreversível das nossas sociedades modernas. Os impactes que se têm vindo a fazer sentir, entre os quais sobressai a sustentabilidade financeira dos sistemas de reformas, interferem nos equilíbrios individuais e colectivos, relativos às idades da vida e ao ciclo de vida ternário. Velhos e reformados são agora duas categorias sociais, dois conceitos que tendem a demarcar-se. A velhice surge então associada às dificuldades decorrentes da aquisição gradual de incapacidades. A família, as solidariedades intergeracionais e as políticas sociais debatem-se com este desafio, procurando encontrar as melhores soluções e as respostas mais adequadas à diversidade dos problemas.

Nos dias que correm é impreterível reflectir, de modo mais insistente, sobre os impactes do envelhecimento demográfico das populações e sobre as profundas mudanças que, simultaneamente, têm vindo a ocorrer nas sociedades industriais modernas, como é a nossa. Estas têm sido de tal forma rápidas e, em muitos casos, inesperadas, que necessitamos de permanente pesquisa e discussão. O debate — profícua fonte de inspiração — é, neste caso, essencial, na medida em que estudiosos e políticos se confrontam, muitas vezes, com diferentes modos de explicação do mundo. Os primeiros procuram interpretar os factos a partir de causas gerais sem nunca se misturarem com os assuntos em questão. Os segundos, que vivem por entre o descosido dos factos jornalísticos e a parcialidade dos acontecimentos em que estão envolvidos, tendem, geralmente, a reduzir a explicação global à singularidade da parcela do conhecimento que detêm. A definição de políticas de velhice, a partir de uma formulação mais rigorosa e objectiva dos problemas do envelhecimento e da análise exaustiva da diversidade de realidades sociais,

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poderá proporcionar as correcções necessárias para que as futuras gerações de idosos possam vir a viver melhor do que as que as antecederam.

O problema social que representa a velhice nas sociedades modernas é um exemplo paradigmático da forma como certas perspectivas, científicas e não científicas, podem contribuir para o deformar através da difusão de ideias e representações já construídas do que é a velhice. As "pessoas idosas" — enquanto estereótipo socialmente produzido e facilmente reconhecível — enquadram uma categoria de indivíduos, cujas propriedades, relativamente homogéneas, são normalmente identificadas com isolamento, solidão, doença, pobreza e mesmo exclusão social. Nesta perspectiva comum, as pessoas idosas são consideradas como indivíduos isolados, permanecendo oculta a dimensão familiar da identidade, da existência. A lógica repousa na percepção da pessoa idosa enquanto agente de acção social apartado dos laços sociais inerentes à instituição familiar a que pertence e no quadro das relações tradicionais de amizade e de vizinhança. Esta avaliação, que decorre da posição que os agentes sociais ocupam relativamente às situações problemáticas — porque existem situações problemáticas de isolamento, solidão, doença e carências afectivas e materiais —, impõe-se com maior visibilidade social e, desse modo, adquire as condições para se apresentar como propriedade comum e dominante da categoria dos indivíduos denominados idosos.

Um tal processo representou uma verdadeira revolução demográfica com efeitos no equilíbrio proporcional dos grupos etários. A tendência, que se tem manifestado de forma crescente, é para um desequilíbrio considerável entre as gerações, ou seja, o aumento dos mais velhos é relativamente empolado pela

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redução dos mais novos, contribuindo, desse modo, para o agravamento do desequilíbrio intergeracional.

Ao longo deste século fomos passando de um sistema demográfico tradicional para um sistema demográfico moderno, período ao longo do qual a mortalidade desceu a níveis nunca antes registados e o declínio da fecundidade ultrapassa já os cenários mais pessimistas das projecções demográficas. O excessivo declínio da fecundidade, que ocorre em alguns países europeus — os países de sul da Europa, Alemanha e Áustria —, é preocupante em relação ao equilíbrio futuro das gerações. Há casos, como o da população italiana e espanhola, onde a fecundidade desceu para, aproximadamente, uma criança por mulher, ou seja, metade do necessário à renovação das gerações. A redução crescente dos nascimentos equivale à redução das proporções de jovens, enquanto o aumento relativo dos restantes grupos etários irá, a médio prazo, afectar de novo o equilíbrio intergeracional pela correspondente redução dos jovens adultos e dos adultos activos. Este segundo impacte do declínio da fecundidade, ao contrário do primeiro, que proporcionou a redução dos encargos públicos com a educação, interfere directamente nos fluxos das quotizações da população que contribui para o sistema. São mais inactivos a receber e menos activos a quotizar-se, estes tendo que contribuir com uma parcela maior dos seus rendimentos para garantir o funcionamento do sistema.

Estamos perante transformações estruturais que, quando associadas às mudanças de comportamento face à nupcialidade e à família, conduzem a configurações familiares bem distintas das que encontramos no passado. As trajectórias de vida mais longas e as perturbações das idades da vida afectam não só as consciências individuais como o modo como os indivíduos se relacionam na teia das relações estritas do seio familiar. As idades e os ciclos de vida sofrem perturbações que põem em causa o nosso conhecimento construído e a forma como ele interfere nas estratégias individuais e colectivas face à velhice e ao envelhecimento.

No cenário de envelhecimento futuro, é importante que as instâncias produtoras de políticas sociais se preparem para as transformações que começaram a ter lugar. Os apoios de tipo social que têm marcado as políticas

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na maior parte dos países em que foram implementadas, como os centros de dia e os apoios domiciliários, poderão deixar de ser a orientação essencial das políticas nas futuras gerações de idosos. A velhice dependente vai ser o grande desafio já no início do milénio. Em contrapartida, as próximas gerações virão mais bem munidas para responder às dificuldades materiais e culturais, com maior sentido de autonomia e uma mais poderosa consciência de cidadania, promotora de maior capacidade de resolução dos problemas individuais e mesmo colectivos.

As políticas sociais vão ainda deparar-se com as dificuldades de gestão social do não trabalho, transferindo para outras áreas alguns dos problemas que eram atribuídos apenas aos idosos.

A pessoa idosa no final do Século XX

Foi sobretudo a partir da segunda metade do século XX que emergiu um novo fenómeno nas sociedades desenvolvidas − o envelhecimento demográfico, ou seja, o aumento significativo do número de pessoas idosas. Com isto, surgiu a necessidade, a nível internacional, de caracterizar o fenómeno, de repensar o papel e o valor da pessoa idosa, os seus direitos e as responsabilidades do Estado e da sociedade para com este grupo específico da população.

Como disse Kofi Anam (2002): ―A expansão do envelhecer não é um problema. É sim uma das maiores conquistas da humanidade. O que é necessário é traçarem-se políticas ajustadas para envelhecer são, autónomo, activo e plenamente integrado. A não se fazerem reformas radicais, teremos em mãos uma bomba relógio a explodir em qualquer altura‖.

No final do século XX e início do século XXI a sociedade mundial depara-se com uma configuração sócio-etária: o envelhecimento populacional. A ONU estipulou de 1975 – 2025 como a Era do Envelhecimento (50 anos). A velhice tem sempre acompanhado a humanidade como uma etapa inevitável de decadência e declinação. A palavra velhice é carregada de significados como

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inquietude, fragilidade, angústia. O envelhecimento é um processo que está rodeado de muitas concepções falsas, temores, crenças e mitos. A imagem que se tem da velhice mediante diversas fontes históricas, varia de cultura em cultura, de tempo em tempo e de lugar em lugar. Esta imagem reafirma que não existe uma concepção única ou definitiva da velhice mas sim concepções incertas, opostas e variadas através da história.

O pensamento científico que caracterizou os séculos XVI e XVII introduziu novas formas de pensar que enfatizavam a observação, experimentação e verificação, podendo-se então, descobrir as causas da velhice mediante um estudo sintomático. Ainda assim prevalecia a ambivalência em relação à velhice.

Durante os séculos XVII e XVIII foram feitos muitos avanços no campo da fisiologia, anatomia, patologia. As transformações que ocorreram na Europa nos séculos XVIII e XIX reflectiram em uma mudança na população anciã. O número de pessoas em idade avançada aumentou e os avanços da ciência permitiram descartar vários mitos acerca da velhice. Contudo, a situação dos velhos não melhorou. O surgimento da Revolução Industrial e do urbanismo foram derradeiros para os anciões que, sem poder trabalhar, foram reduzidos à miséria.

No final do século XIX os avanços da medicina propiciaram a divisão de velhice e enfermidade e nos finais do Século XX surgem a Gerontologia e a Geriatria como disciplinas formais. O que se percebe são ciclos que ocorrem ao longo da história. Períodos em que os idosos são valorizados são seguidos por crises entre jovens e velhos e posterior desvalorização do ancião. Hoje, para uma parcela economicamente activa da população idosa, existe um movimento de valorização, pois esta população está impulsionando mercados como o de turismo e serviços para a terceira idade.

Os meios de comunicação, da forma como estão hoje inseridos em nossa vida, também têm um papel importante na construção desta terceira idade. A televisão e o cinema, particularmente, possuem um grande potencial para influenciar nos conceitos acerca da velhice. As parcelas da população mais influenciáveis são as crianças e jovens. Estes meios funcionam como um espelho da sociedade e contribuem para estabelecer ou validar modelos de

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comportamento. Porém o número de pessoas idosas que aparecem nos programas ou filmes não corresponde a realidade encontrada na sociedade. Neste caso a mensagem que pode estar sendo passada é de que o velho não é importante. Os estereótipos negativos também são muito explorados.

No início da década de 90 ocorreu uma leve mudança na visão negativa da velhice em programas e filmes como ―Assassinato por escrito‖, ―Cocoon‖ e ―Conduzindo miss Daisy‖ e o surgimento de idosos como mercado consumidor pode ainda alterar mais este quadro. A imagem passada pelos meios de comunicação afecta também a auto-estima dos idosos. A validação social é crucial para o desenvolvimento de todas as pessoas e os anciões não são diferentes. É, então, necessária uma consciencialização da importância desses meios na constituição da velhice. Assim podemos começar a mudar a visão que nossa sociedade possui do que é ser velho hoje em dia.

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3) Velhice – Socialização e Papéis Sociais

Aspectos sociais da velhice

O novo perfil do idoso, acrescido a um número cada vez maior de cidadãos da terceira idade, forçosamente implica numa atenção mais dedicada a esta categoria; seja por parte do governo, ou da sociedade, como um todo. Esse novo perfil, do idoso com vida activa, social, financeira, política e até amorosa, necessariamente altera as relações familiares e profissionais. Essa nova atitude diante da vida e da sociedade implica também em alterações das políticas económicas, sociais e de saúde, para oferecer uma vida digna, a esta categoria emergente, que já deu sua contribuição ao longo de toda a vida.

Apesar do evidente crescimento da população idosa, e das transformações sociais dele decorrentes, a discussão sobre o envelhecimento se dá num contexto em que a diversidade de conceitos para explicar quem é o idoso e como se caracteriza o processo de envelhecer, ainda está longe de diminuir.

É possível afirmar que o envelhecimento não é igual para todos, e, para além da idade, depende das condições objectivas de vida em fases anteriores do ciclo vital, do acesso aos bens e serviços, bem como da cobertura da rede de protecção e atendimento social. Os estudos sobre a velhice e o processo de envelhecimento abarcam as diversas possibilidades de pensar o lugar social ocupado pelo idoso na realidade mundial. A velhice tem sido tratada como um mal necessário, da qual a humanidade não tem como escapar. Por esse princípio, o idoso também é tratado como um mal necessário, como alguém que já cumpriu sua. função social: já trabalhou, já cuidou da família, já contribuiu para educação dos filhos, restando a eles, somente, esperar pela finitude da vida. O que se observa é que, com o avanço das pesquisas na área da saúde, e o acesso da população idosa aos diversos serviços, a população, de um modo geral, chega aos 60 anos com possibilidade de viver mais (e com qualidade de vida) do que vivia há 20 anos atrás. Veras (2003, p.8) adverte que

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―muito antes do que se imagina, teremos indivíduos se aposentando perto dos 60 anos de idade e iniciando um novo ciclo de vida que perdurará por mais de 30 ou 40 anos‖.

A velhice apresenta múltiplas faces, e não pode ser analisada desvinculada dos aspectos socioeconómicos e culturais, pois as suas características extrapolam as evidentes alterações físicas e fisiológicas individuais.

―A população idosa constitui-se como um grupo bastante diferenciado, entre si e em relação aos demais grupos etários, tanto do ponto de vista das condições sociais, quanto dos aspectos demográficos e epidemiológicos. Qualquer que seja o enfoque escolhido para estudar este grupo populacional, são bastante expressivos os diferenciais por género, idade, renda, situação conjugal, educação, actividade económica, etc.‖ (VERAS, 2003, p. 8-9).

O envelhecimento populacional pressiona a sociedade a repensar a fase final da vida, a entender o lugar social ocupado pelo idoso, como um sujeito que tem direitos e deveres enquanto cidadão. A inclusão social é temática, bastante ampla e complexa. Relaciona-se à questão da protecção social e do lugar social ocupado pela população em nosso país. Destaca-se que vivemos numa sociedade onde os direitos sociais são identificados como favor, como tutela, como um benefício e não prerrogativa para o estabelecimento de uma vida social digna e de qualidade.

Mesmo estabelecidos em lei, a direcção dada pelos responsáveis pela garantia dos direitos nem sempre é direccionada para sua efectivação. O caminho da inclusão social corre em paralelo à discussão do direito e da protecção social.

Por protecção social entende-se por um conjunto de acções que visam prevenir riscos, reduzir impactos que podem causar malefícios à vida das pessoas e, consequentemente, à vida em sociedade. A exclusão social ocorre quando num determinado grupo da sociedade é de alguma forma excluído dos seus direitos, ou ainda, tem seu acesso negado por ausência de informação, por estar fora do mercado de trabalho, entre outras coisas. A inclusão, portanto, significa fazer parte, se sentir pertencente, ser compreendido em

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sua condição da vida e humanidade. É sentir-se pertencente como pessoa

humana, singular e ao mesmo tempo colectiva.

Inclusão e protecção social estão intrinsecamente relacionadas aos direitos sociais. Os direitos estabelecidos no Estatuto do Idoso que indicam e fortalecem a inclusão social do idoso são:

1º Direito à vida: viver com dignidade, com acesso aos bens e serviços socialmente produzidos;

2º Direito à informação: ter conhecimento, trocar ideias, perguntar, questionar, compreender. A informação caminha por dois níveis que se complementam: o primeiro refere-se à vida quotidiana e o segundo refere-se à garantia dos direitos – como funcionam os serviços prestados por meio da política social, como funciona a rede de atendimento social, a gestão pública, como o poder público emprega o dinheiro na área do envelhecimento.

3º Direito à vida familiar, à convivência social e comunitária: receber apoio e apoiar a família, preservar laços e vínculos familiares, trocar experiência de vida; receber suporte social, psicológico e emocional.

4º Direito ao respeito: às diferenças, às limitações, ao modo de entender o mundo, ao modo de viver neste mundo.

5º Direito à preservação da autonomia: ter preservada a capacidade de realizar algumas tarefas sozinho ou com auxílio; ter preservada a privacidade; ter preservada a capacidade de realizar as actividades de vida diária e de vida prática.

6º Direito de cessar serviços que garantam condições de vida: acesso aos serviços de saúde, educação, moradia, lazer, entre outros.

7º Direito de participar, opinar e decidir sobre sua própria vida: conhecer e participar de actividades recreativas e de convivência.

A gestão da velhice – que segundo Debert (1999, p. 13-14) por muito tempo foi considerada como específica da esfera privada e familiar, da previdência individual, ou de associações filantrópicas –, vem transformando-se numa questão pública, expressa na legislação específica para os idosos, que expressa (e ao mesmo tempo influencia) o surgimento de uma nova categoria cultural: ―os idosos, como um conjunto autónomo e coerente que impõe outro recorte à geografia social, autorizando a colocação em prática de modos específicos de gestão.‖

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O modo de vida das pessoas de idade

Envelhecer com saúde, autonomia e independência, o

mais tempo possível, constitui assim, hoje, um desafio à responsabilidade individual e colectiva, com tradução significativa no desenvolvimento económico dos países.

Coloca-se, pois, a questão de pensar o envelhecimento ao longo da vida, numa atitude mais preventiva e promotora da saúde e da autonomia, de que a prática de actividade física moderada e regular, uma alimentação saudável, o não fumar, o consumo moderado de álcool, a promoção dos factores de segurança e a manutenção da participação social são aspectos indissociáveis.

Do mesmo modo, importa reduzir as incapacidades, numa atitude de recuperação global precoce e adequada às necessidades individuais e familiares, envolvendo a comunidade, numa responsabilidade partilhada, potenciadora dos recursos existentes e dinamizadora de acções cada vez mais próximas dos cidadãos.

Existe um mito de que a velhice seja uma etapa de restrições, privações e sofrimentos, o que é uma inverdade, pois os idosos podem gozar de bem-estar e saúde até o final da vida, tudo vai depender da forma como viveram e como cuidaram de si mesmos ao longo dela. As doenças podem surgir em qualquer fase da vida, o que ocorre nesta fase são algumas limitações que, se bem administradas, não impedem que o idoso tenha uma vida plena, saudável e feliz.

A chegada na terceira idade traz consigo muitas perdas e mudanças!

Com a Reforma ocorre a perda do trabalho, algo ao qual o idoso se dedicou boa parte da sua vida; além disso, em muitos casos, também existe a

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