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EU – Não

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Academic year: 2022

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1 ENTREVISTADOS: 3 encarregados de educação da Escola ATENA

DATA: 21 de Abril, 18.30h

LOCAL: “Bar” dos alunos da Escola TEMPO: 1h 14 m

EU – A primeira coisa que vos vou pedir é que se apresentem: nome, profissão, as habilitações, o número de filhos que têm e quantos aqui na escola. E o ano também. Qualquer um pode começar. AP1?...

AP1 – Sou licenciada em biologia, tenho dois filhos a frequentar esta escola - tenho uma filha a frequentar esta escola! E sou professora.

EU – Noutra escola?

AP1 – Noutra escola.

AP2 – Sou professora na Faculdade de Letras, tenho quatro filhos, e uma, a mais “novita”, nesta escola.

EU – E os outros passaram por aqui?

AP2 – Por aqui não.

EU – Não. Andaram noutras escolas. Esta é a primeira experiência nesta escola, desta filha mais nova.

AP2 – Sim.

AP3 – Sou docente também, tenho…

EU – Mas no ensino superior, não é?

AP3 – No ensino superior, ciências, na Faculdade de Ciências. E tenho dois filhos, o mais velho está aqui no Atena, no 10º ano. E a mais nova está no 6ºano.

EU – No 6º ano. Virá para aqui?

AP3 – Ela disse-me que gostava de vir para aqui, mas não estou seguro, porque ela depois está no conservatório e aquilo de 15 em 15 dias muda; não se sabe muito bem como estão as coisas.

EU – Conservatório, que funciona na Escola Sísifo…

AP1 – Mas que em principio vai mudar para a Quinta das Flores.

AP3 – Em princípio.

EU – Pois, porque isso também já se arrasta há muito tempo…

AP1 – Não. Só se começou a conversar agora.

EU – Faltou uma questão nesta apresentação, que é sobre as vossas funções aqui na Escola, o vosso relacionamento com a escola, não é? As funções que desempenham, em que têm participado, o que é que conhecem das dinâmicas da escola, em termos internos e também em termos daquelas coisas que são feitas de propósito para que os pais participem… Se têm essa experiência. Quem começa? O AP3?

AP3 – Eu posso começar. Eu sou - não sei o nome técnico - sou representante de pais, acho que é

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2 assim o nome, será?

EU – No Conselho de Turma?

AP3 – No Conselho Turma, dos encarregados de educação, exactamente. A minha participação não tem sido… muito grande. Tenho vindo apenas naquelas alturas em que é necessário vir, na altura da entrega das notas. Há uma reunião com o representante, em que o representante é convocado, para transmitir alguma informação… Troquei algumas informações com os poucos pais que vieram também a uma reunião para a preparação da visita de estudo. Também tenho alguma ligação ao liceu, porque fui cá estudante.

EU– Então nunca fizeste nenhuma reunião, formal, com os outros pais da turma que tu representas?

AP3 – Não fiz… E eu, de certa maneira, dei-lhe a entender a razão pela qual isso aconteceu na minha mensagem. Eu estou numa situação um bocado particular, porque a relação do Artur com a escola tem sido - com a escola não, com a idade, com os 15 anos - tem sido bastante complicada.

EU – Ai é?

AP3 - Eu não me sinto bastante… principalmente motivado para… para esse tipo de interacção.

Quando me ofereci para participar neste encontro, foi se não houvesse mais pais, se fosse necessário para fazer número; agora estou numa situação pouco normal…

EU – Não, todas as situações são importantes e representativas. Se calhar essa até é uma circunstância que pode ser interessante e trazer uma perspectiva diferente.

AP3 – Eu estou a dizer isto, porque já estive ligado a estas associações, na Casa Branca, onde o Artur esteve, e tínhamos uma participação um bocado mais activa, mas…

EU – Comparando com esta, na Casa Branca eram mais activos…

AP3 – Sim, sim.

EU – Já lá vamos depois explorar esse assunto. AP2?

AP2 – Eu, desde o ano passado que sou Presidente da Associação de Pais desta escola.

EU – Desde o ano passado, estás no teu segundo ano…

AP2 – Segundo ano.

EU – E na representação de turma…

AP2 – Sim, também sou este ano representante dos encarregados de educação da turma, apesar de eu e a minha colega - porque este ano no regulamento são dois, não é, e eu e a minha colega pertencemos aos corpos sociais da associação – daí termos feito uma pressão enorme para não ficarmos, porque achávamos que duplicávamos os nossos papéis, mas como não se encontrou ninguém, ficámos as duas.

EU – Ah, sim…

AP2 – Porque é sempre difícil encontrar gente que tenha alguma disponibilidade…

EU – Então, AP3, sendo dois, na tua turma ficou outra pessoa eleita?

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3 AP3 – Ficou, ficou. E curiosamente havia mais candidatos; a princípio não havia ninguém, mas depois

surgiram mais candidatos…

EU – Mas também não há contacto com esse representante?

AP3 – Não, porque eu… Na primeira reunião que eu vim, de facto estava o outro representante;

agora na última não pude vir, porque tinha aulas. Portanto, eu não vim e mandaram-me a informação por e-mail, mas disseram-me que o outro encarregado também não pôde vir. Foi na semana anterior à Páscoa.

EU – Pois. AP1?

AP1 – Eu sou representante também, dos encarregados de educação. O ano passado fui voluntariamente, este ano pus o meu lugar à disposição, mas… e nem vim à reunião.

EU – Não vieste à reunião e foste eleita?

AP1 – Porque como conheço a Directora de Turma, disse que eventualmente… Porque eu já sei que nestas coisas é muito difícil e não há ninguém. Então, pronto, mesmo não vindo à reunião fiquei.

Fiquei eu e ficou outra mãe. O contacto que eu tenho com os encarregados de educação? Tive a preocupação de pedir o email, mas nem todos me deram; portanto, numa turma de vinte e poucos, eu tenho o email de dezasseis pais. E sempre que há uma reunião, e que eu venho, mando os tópicos no final dessa reunião, mas tenho sempre muito pouco feedback dos pais. Mando também um email antes a perguntar se há questões, dúvidas ou sugestões. No início, mais no ano passado, sinceramente, percebi que os pais estavam preocupados: era 7º ano, queriam saber, queriam opinar, muito preocupados. Este ano, sinceramente, não tenho feedback dos pais, ninguém me responde.

Fico muito triste, sinceramente, porque tenho a preocupação de perguntar e depois enviar as respostas, mas ninguém responde.

EU – Uma vez um pai respondeu-me assim, quando eu dizia “mas vocês não participam”: ”mas nós não participamos, porque corre sempre tudo bem, está tudo muito bem na sua escola, não se preocupe”.

AP1 – Eu acho que é isso, quando os pais sentem alguma coisa vêm perguntar, mas é o problema que eu vejo sempre - só se vem perguntar o que está mal, não se vem ver o que está bem. Mesmo isto da fruta, eu só soube porque a minha filha disse-me, mas não sabia porquê, porque é que davam fruta;

ela também não me chegou a dizer porquê! Afinal vão buscar ao mercado a fruta que sobra e depois dão aqui. Acho que é muito positivo.

EU – E as vossas relações com os directores de turma dos vossos filhos? Vêm normalmente? Como apreciam essas relações?

AP2 – A relação com a professora que é directora de turma da minha filha é muito boa, é muito amistosa…. A senhora é sempre muito… como é que hei-de dizer… sempre muito disposta a ajudar ou a intervir, ou a seguir as nossas sugestões… Não tenho nada a dizer! É assim muito mãe!

AP3 – Isso já é dizer muito!

EU – Pois é!

AP3 – É como o meu, que acho que também cumpre muito bem essa função. O professor é muito simpático e acompanha a turma e está sempre pronto para sugestões, embora, lá está, a maioria dessas sugestões sejam dirigidas ao meu próprio filho, mas…

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4 EU – Não, agora estou a perguntar-te mesmo nesse papel, de encarregado de educação do teu filho.

AP3 – Ah, sim! É tudo uma maravilha. A maneira como ele actua e como percebeu que ele é complicado, desde o início foi formidável.

EU – Sim, sim

AP1 - Eu também não tenho problema nenhum com a directora de turma.

EU – Já tinhas também uma relação privilegiada, porque já a conhecias, não é?

AP1 - Já a conhecia, de quando dei aqui aulas na escola; já a conhecia, é professora de inglês, portanto…não tenho problema nenhum. Eu acho que os directores de turma cumprem o seu papel.

AP2 - Mas nem todos cumprem o seu papel! Eu já tive uma experiência - não foi aqui…

AP1 - Ou pelo menos deviam cumprir…

AP2 – Depende das pessoas, do entendimento que têm, não sei…

EU – Eu AP2 fazer uma pergunta…Nós temos aqui um grupo muito especial; não deixa de ser representativo da escola, na minha opinião, este grupo, vocês os três…

AP2 – É representativo, foi o que se conseguiu!

AP1 - Somos todos professores!

AP3 – Esse é que é o problema!

EU – Era aí que eu queria chegar! Essa relação com a escola, quando são professores, com professores, apesar de estarem em papéis diferentes, fica algo facilitada em termos de comunicação, não é? Mas claro que não vamos estar aqui agora a especular como seria com outros pais, terei que averiguar isso de outra maneira, em outros grupos; aqui só poderemos aproveitar do facto de vocês também serem professores, não olhar para isso como um obstáculo, mas explorar isso. Porque também é verdade, que nós… eu também sou professora, e sou mãe, e também já fui encarregada de educação, e sei que muitas vezes a gente distingue mesmo os dois papéis, conseguimos distingui-los.

É difícil, mas conseguimos!

Então, em relação agora às razões de escolha desta escola para os vossos filhos? É simples esta questão.

AP1 – A minha primeira razão foi em termos de infra-estruturas. A Mafalda vinha da EC, que eu considero que não é uma escola muito propícia para os miúdos brincarem…Saem das aulas e os espaços para brincarem ficam praticamente à chuva. A principal razão para a Mafalda vir para aqui foi as infra-estruturas, até porque a Mafalda queria escolher espanhol, e eu também queria que ela tivesse espanhol, e a Atena não oferecia espanhol. Depois, a segunda opção, que levou a colocar a Mafalda aqui, foi porque vinha um grande núcleo de alunos, de colegas da turma dela, vinham também aqui. E depois, em terceiro, as referências que a escola já tinha em termos de ranking; não é que eu considere isso importante, porque todos nós sabemos porque é que o Atena está à frente nos rankings, mas pronto…

EU – Nós sabemos, mas depois vais ter que me dizer!...

AP2 – Ora bem, a minha veio com o primeiro contingente de terceiro ciclo aqui para a escola, e veio CQ

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5 da EC também. E foi uma decisão difícil. Então, há aqui sempre um aspecto circunstancial. E há outro

aspecto que é mais fundamental - era esperar que esta escola desse um ensino mais exigente;

melhor, no nosso ponto de vista, de pais. Mas também a circunstância de ela querer francês e a turma toda onde ela estava, e até muito bem, penso, monopolizou ali o espanhol, toda a gente quis ir para o espanhol. A circunstância de facto de haver esse contingente que vinha para a escola, e eu estava também… não estava nada na associação de pais, mas era também muito atenta aos processos da escola, e houve várias reuniões. Não sei, reagi um bocado ao quase lobby contra o Atena que se começou a criar na EC. Não sei se se deu conta…

AP1 - Sim, sim!

EU – Isso é muito interessante!

AP2 – E, sei lá, até porque não gostei nada dos argumentos que eram usados para de algum modo depreciar…

EU – Não queres explorar isso um bocadinho?

AP2 - Se for útil!…

EU – É! Então não é?

AP1 - A ideia que se criou nesta Escola era de que quem vinha para aqui eram os piores – “Ai o que vem lá! De lá vêm os piores!” Esta guerra que se criou entre as escolas, sabe?

AP2 – Sim, e lá só se via o negativo: porque são competições, concorrências, negativas de facto.

Então fazia-se o seguinte, fazia-se do género… Exactamente porque começou a haver algum interesse de muita gente de trazer os meninos para aqui: eram os rankings, era a ideia de que é uma escola boa, que dá preparação aos miúdos e tal… Depois, donde surgiu não sei, mas então era a ideia de dizer que os professores do Atena não sabiam ensinar meninos do 3º ciclo, que os nossos meninos iam ser cobaias dos professores do secundário do Atena, que a insegurança AP2 ser enorme, que aconteciam coisas horríveis aqui à volta em termos de segurança, com os meninos - os nosso meninos pequeninos iam encontrar aqui perigos incríveis!- depois iam ter o exemplo perverso e pervertido, o que é pior, dos mais velhos, que aquela escola era muito mais protectora, e por ai adiante… E eu começou-me a irritar aquilo, sabe, e comecei-me a distanciar e a pensar afinal o que é que AP2 ser a nossa escolha. E acabou por se centrar exactamente nisso - pronto, então pode ser que seja uma escola mais exigente. E depois a filha mais velha que eu tenho, com dois anos de diferença, e que tinha tido uma experiência perfeitamente desoladora no 3º ciclo, no 7º ano, ali no EC, e que eu achei inqualificável! E a experiência dos meus dois filhos mais velhos, que também tinham passado pela EC, embora já há uns anos, que tinham tido uma experiência óptima de que não posso dizer nada no 2º ciclo, mas que depois, para o 3º ciclo, de facto havia uma diferença bastante grande…Então juntando tudo, acabou por se tomar a decisão.

EU – Pois, porque falta aqui dizer que a EC é uma escola que tem o 3º ciclo também, portanto essa luta é uma luta pela sobrevivência, não é?

AP2 – Sim, embora naquele momento estivesse já a aglutinar o 1º ciclo. Agora neste novo esquema, já é uma escola diferente, já estava tudo em transição, não é?

EU – AP3, e tu porque escolheste esta escola?

AP3 – Quem escolheu esta escola foi o Artur. Desde há muito tempo que ele dizia que vinha para aqui, porque os colegas vinham para aqui. Por outro lado eu gostava da escola… Como ele fez esta escolha e gostava dela…

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6 EU – Tudo certo.

AP3 – Tudo certo!

EU - Mas já agora digam-me: em termos geográficos da vossa residência, a coisa bate certo ou não?

AP2 – Tanto fazia! Vem a pé!

AP1 - Aliás, depois ali fizeram listas de aproximação dos miúdos. Primeiro era quem fosse deficiente, depois era quem tivesse pais a trabalhar aqui, e depois era a área de residência. E mesmo assim ainda houve confusões com a área de residência, daqueles que arranjaram umas coisas da junta de freguesia, que moravam com os avós… Pronto, aquelas coisas que nós sabemos que o povo português é hábil em arranjar! Mas não, a Mafalda dá perfeitamente para vir a pé - está a 8 minutos da escola.

AP2 - Eu vivo perto das duas. Vai-se a pé.

AP3 – Nós também moramos perto, embora o Vale das Flores fosse mais perto. Mas havia vários colegas que vinham para aqui…

EU – Pois, e desculpem insistir nisto, porque por um lado há a ideia de que - e já lá vamos!- que uma das razões da qualidade tem a ver com a massa humana, não é, com os meninos que aqui chegam, que são desta zona residencial, que socialmente é uma zona privilegiada. Internamente a escola faz está justificação para si própria. Externamente, há também de facto muito a ideia da tal concorrência, das tais estratégias já de marketing, ou seja, os pais que têm mais conhecimento e mais capacidades de escolha, para os filhos a escola é aquela, e lá se arranjam umas formas como as descritas pela AP1.

Portanto é a escola a escolher os alunos, entre aspas.

AP1 - Claro, deixa sempre alunos à porta.

EU – Exactamente por isso é que eu estava a insistir nisto da residência, se vocês podiam ser, e podem ser um caso desses - afinal não moram aqui ao lado, afinal havia outras alternativas e vocês quiseram esta. Não é?

AP1 – Ou nós ou os miúdos.

EU – Eu aqui estou a juntar-vos, porque é natural que a decisão seja conjunta. Então entrávamos já na questão das qualidades ou da qualidade na escola. O que é que faz a qualidade na escola? Vocês partem todos de uma base de entendimento: a escola é boa. Mas eu gostava que isto fosse um bocadinho mais bem explorado. O que é uma escola boa? Se quiserem partir deste exemplo e comparando com outros que conhecem, ou no abstracto. O que faz uma boa escola?... Difícil?

AP2 - Há várias coisas. Olhe, uma que eu acho importante é a exigência. Os meninos vêm para aprender. Mas lá está, exigência com um ensino que saiba entender esta nova geração. E se me permite, e se quer que eu seja muito franca, que é para isso que eu aqui estou, eu não encontro nesta escola, na maioria dos professores que tenho conhecido, grande interesse em ir ao encontro, no fundo, desta geração. Continuam os mesmos métodos, usam os mesmos métodos tradicionais…

Não vejo diferença das escolas que eu conheço… Já conheci a EC e a Martim de Freitas. E a Quinta das Flores. E a Hefesto! Conheço-as todas!

AP1 - E as escolas vão continuar a ser iguais a si próprias enquanto forem quatro paredes e um quadro de giz. Algumas agora vão evoluir. Com o plano tecnológico vão ser colocados computadores nas salas, os sumários vão ser registados nas salas. Provavelmente esta para o ano não vai entrar em

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7 obras…

AP2 – Ai, vai, vai. Não é para o ano, é este ano já, no Verão.

AP1 - Por isso a minha preocupação é a exigência, ou pelo menos, transmitir aos alunos que é importante eles estarem na escola, estudarem e crescerem até na própria escola.

Mas isso eu acho que a maioria das escolas também faz. Agora, a ideia de que os alunos que fazem aqui quase este triangulo: Escola nº10, EC, Atena, ou que vêm também ali do João de Deus, que são alunos que, vindo aqui para o Atena, crescem e têm potencialidades para crescer; acho que é um bocado o que vem aqui para esta escola é um bocadinho destas escolas, João de Deus, EC e aqui a nº10. E portanto são alunos que já vêm, creio eu, que já vêm bem trabalhados e, portanto, se tiverem aqui a ajuda destes professores, que embora não utilizando as tecnologias que os miúdos têm em casa, ainda recorrem um bocadinho à lição magistral, conversam muito com eles, lêem muito o que está no livro, mas como os miúdos vêm com bons hábitos de trabalho, acho que os miúdos conseguem por si próprios crescer. Acho, acho!

EU – Então tu dizes que a virtude não está aqui, a virtude está antes?

AP1 - A virtude está antes, daqui vem um bocadinho – há um bom grupo de docentes aqui nesta escola-, mas depois, os meninos do 12º ano, por exemplo, têm aulas toda a manhã aqui…Podemos ir por aí? À tarde têm dois explicadores de matemática, um que explica a teoria e um que explica a prática, têm um explicador a biologia, têm um explicador de psicologia… e por aí sucessivamente.

Portanto, a carga económica dos pais, ou que os pais podem disponibilizar para depois fazer um acompanhamento daquilo que se exige de manhã e que se trabalha à tarde, também é muito importante. A escola não é feita aqui no D.Maria; é feita de onde vêm os meninos e para onde vão os meninos à tarde. Também têm o “British”…

EU – Depende dos pais, depende das famílias…

AP1 - Por isso é que eu digo, eles têm uma boa massa para trabalhar. Mas depois os miúdos também trabalham muito em casa, há muito trabalho próprio. E dos pais também.

AP3 – Eu tenho alguma dificuldade em responder, porque é que a escola é boa.

EU – Mas isto é mesmo uma reflexão em cima da hora!

AP3- Eu acho que a escola será boa devido à organização e aos docentes. Acho que são os dois principais factores.

EU – A organização e os docentes?

AP3 – Os docentes. Isto da escola ser boa, agora os resultados serem bons, já é outra questão.

EU – Ah, isso é muito interessante, essa diferença que fizeste agora. A escola boa não é a mesma coisa que resultados bons.

AP3 – Pronto, e portanto eu realmente não consigo avaliar nem os professores, nem a organização, mas acho que os bons resultados da escola, agora a falar de resultados, têm alguma coisa a ver com a organização da escola. Senão não seria possível…

EU – Não tem só a ver com a parte da tarde, tem também a ver com a parte da manhã…

AP1 - Tem a ver com os horários também - eles têm um bom horário. Mesmo que metade não tenha explicações, mesmo que metade não vão, têm a tarde para trabalhar individualmente. Há a

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8 preocupação da escola em criar um bom horário para os anos terminais. É uma preocupação!

AP2 - Eu tenho verificado um bocado isso, não se importam até de sacrificar um bocado os professores nos horários, para dar aos alunos um bom horário. Mas claro que o que os meus colegas disseram, obviamente, conjuga-se também com o que eu penso. Eu diria que há uma queixa muito sentida por parte dos professores e do Conselho Executivo em relação a esta corrida às explicações, porque deixa os alunos…E a Associação de Pais também tem tentado, mas não dá para contrariar esse processo. Está para além da escola, está em toda a competição, objectivos, e depois também na perspectiva de vida que tem determinada classe social que é imperante aqui na escola. Nesse sentido, eles de facto querem conquistar resultados muito altos. Uma grande parcela, porque a escola… Curiosamente os rankings e a fama desta escola penso que não é conquistada por toda a escola, mas por este sector dos alunos que vão para determinadas áreas e que lhes exigem de facto uma nota de entrada. Se formos para humanidades, não é, e eu falo pelo que daqui e dali retiro, porque não são esses alunos que fazem a imagem da escola. E há até realmente essa queixa, tenho ouvido muitas vezes, já tem até surgido em Assembleia de Escola… Mas o que fazer? É isso mesmo - toda a sociedade puxa assim, é assim, e os pais têm condições económicas para o fazer e transformam os alunos, de facto, muitas vezes nuns jovens muito… até alterados, em termos de experiência humana e enriquecimento cultural, ou a outro nível, porque estão ali centrados.

EU – Olha, vou pegar nisso que tu disseste, porque da perspectiva interna da escola, um dos pontos fortes que eles encontram em si, é essa questão cultural, ou seja, uma das grandes preocupações em termos de formação integral dos alunos, é a questão cultural, o que até condiz com o que nós encontramos quando chegamos ao átrio da escola: tens ali informação sobre as várias actividades culturais da cidade. Mas também se queixam, de facto, que investem e não colhem. E uma das razões será essa sobre-ocupação deles, não é?

AP2 - Qualquer coisa que se organiza não tem…adesão.

EU – Pois, a escola não pode fazer nada, vocês já reflectiram sobre isso. Eu AP2 perguntar a vossa opinião sobre uma ideia que já não é propriamente nova, mas que é defendida por muita gente das ciências da educação - o separar a entrada na universidade, o acesso, do ensino secundário. Separar, ou seja, não fazer depender uma coisa da outra. O que é que vocês entendem sobre isso?

AP1 - Eu aliás já digo isso há muito tempo. É uma ideia que se pudesse chegar a algum lado com ela…Porque os miúdos não vivem o liceu. É uma correria, aqui. E portanto, eu acho que o acesso à universidade devia ser feito em cada curso específico, de uma maneira que eles arranjavam. O liceu devia ser vivido com outras actividades interculturais, outras coisas que antigamente havia, portanto, eles não estarem só direccionados para o estudo. Porque eles passam aqui uma correria! São três anos que eles andam aqui a correr, a estudar, saem daqui vão para ali… Portanto, eu já defendo isso há muito tempo - separar o acesso à faculdade, exactamente.

EU – Então, o AP3 e a AP2, os dois estando lá em cima, no ensino superior, o que é que vocês?...

AP3 – Eu posso dizer que não consigo ver alternativas ao sistema actual.

EU – Não consegues…

AP3 – Não, não consigo mesmo! Não consigo ver uma alternativa justa. Como é que se pode seriar os alunos que entram na universidade, por exemplo? Acho que não há alternativa, acho que não há alternativa ao que existe actualmente. Eu defendo é que devia haver um hierarquizado e os alunos deviam ser analisados todos em igualdade de circunstâncias. E deviam ser os alunos que têm melhores classificações a entrarem para esses cursos.

EU – E a questão das apetências não se põe aqui? Para determinados cursos…

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9 AP3 - Eu acho que isso não chega; não chega, porque o problema é que as apetências não podem ser

medidas. Eu sinto isso sobretudo no nosso país. Essa apetência, eu não consigo ver como é que ela pode ser medida. Portanto, acho que não pode ser um critério para permitir ou não a entrada num dado curso.

EU - Só se pode medir o conhecimento, não é?

AP3 – Eu acho que só se pode medir o conhecimento. Isso introduz desequilíbrios, brutais, não é? Eu estive presente num estudo que foi apresentado este ano, na reitoria, mas que envolvia alunos universitários - não sei se tem conhecimento… E que demonstrava que este desequilíbrio entre os miúdos vindos da classe, digamos mais baixa, relativamente aos da média-alta, que nos anos 80 era de 1 para 4, agora já vai em 1 para 11e a aumentar. Isto quando falamos nos cursos universitários que têm valores mínimos para entrar. Portanto, é completamente impossível a um miúdo que tenha origens mais modestas, conseguir entrar num curso…

EU – Isso é o tal indicador da desigualdade crescente, socialmente.

AP3 – Sim, e eles mostraram que isso acontece a uma velocidade assustadora. Eu vim bastante angustiado.

EU – Essa é a última questão que eu tenho para a nossa conversa.

AP3 – Mas já agora, só mais um pormenor relativamente a uma coisa que disse há bocado, relativamente à frequência ou não, das actividades culturais. A verdade é que eles são nossos filhos e (a cidade) não tem muito essa tradição de…. No Gil Vicente, os melhores espectáculos que eles dão, estão às moscas. E quem diz Gil Vicente diz a maior parte das companhias de teatro, etc. E portanto, eles têm simplesmente a nossa sociedade! Acho que não é possível que uma escola altere os hábitos de vida que os miúdos já trazem de sua casa, e portanto… Acho eu!...

EU – Eu não estou aqui para concordar nem discordar, mas a escola pode fazer diferença, não? AP2, sobre isto queres dizer alguma coisa?

AP2 – O que quero dizer é que, no fundo, quando se escolhe, não podemos ter o melhor dos dois mundos. Quando alargamos o acesso e tentamos democratizar o ensino, obviamente que alguma???

Não podem estar todos juntos. E quando falamos da questão da apetência, que se fala muito em relação à medicina, que no fundo é uma área muito sensível - todos nós precisamos de médicos, é o nosso corpo, temos uma sensibilidade muito especial, não é, lida com vida e morte - e se fala muito que hoje vai tudo para medicina, e muitos vão e não têm sequer apetência, não é, têm é notas, e chegam lá e não sabem ser médicos. E ouve-se muito isto, por exemplo. Mas de facto, como o AP3 disse, julgar é sempre muito difícil. Por outro lado, sim senhora, concordo com a AP1, quando diz que os miúdos hoje não estão…eu já nem digo só no liceu…nem têm tempo para brincar e disponibilidade para brincar, o que é mau para o crescimento deles. Mas por outro lado o ensino é realmente esta continuidade. E num tipo de escola como esta, que é uma escola virada para o prosseguimento de estudos, não é, como fazer quebrando esta continuidade? Agora, acho que cada faculdade, cada curso, deve ter as suas… deve ter a sua prova de ingresso. Isso eu acho.

EU – E não devia bastar essa prova de ingresso? Ou pelo menos as notas terem um peso muito menor

AP3 – A prova não funciona! Vou dar só um exemplo bastante particular. As universidades agora têm um bocado mais de liberdade na escolha das disciplinas de frequência obrigatória antes de se entrar.

Isso levou a quê? Levou a que as universidades que tinham dificuldade de receber alunos baixassem a fasquia. E qual foi o passo seguinte? O passo seguinte foi que os alunos escolhessem esses cursos. E

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10 qual foi o passo seguinte? Foi que as outras universidades também baixassem a fasquia. E portanto, o

resultado de nós permitirmos que a escolha seja feita pelas próprias escolas é este! Isto nunca vai funcionar. E mais uma vez chamo a atenção para como as coisas funcionam no nosso país. O nosso país é um país onde a justiça funciona como funciona… As notícias dos jornais são sempre sobre pessoas que são absolvidas, portanto não há culpados. E a partir do momento em que o processo de selecção não fosse bastante objectivo, iam acontecer coisas e nunca haveria culpados.

AP1 – Eu quando dizia uma prova, era tipo para todas as faculdades de medicina a mesma prova de ingresso, não em cada universidade…

AP3 – Ah, mas aí há uma prova e os alunos vão ter de se preparar para a prova! Eu estou a falar nisso porque os meus filhos não têm essas capacidades… Isso só para miúdos com grandes capacidades. Os pais e isso ajudam, mas os próprios miúdos têm grande capacidade de trabalho. Mas há muitos miúdos que não têm, e esses estão - era isso que eu estava a dizer - estão completamente “lixados”, não têm qualquer hipótese! Esses que conseguem são pessoas excepcionais…

AP1 – Eu acho que devia dar-se oportunidade a todos, mas esta correria aqui no secundário, eu pelo menos não concordo.

AP2 - Mas temos que pensar na situação - como é que fazemos? Não há lugar para todos… Para estarmos a formar gente para o desemprego, também… Quer dizer, chega-se a um ponto que temos que rever todas as nossas ideias…

EU – Desculpem, mas então isto é uma escola, é um lugar de educação, é um lugar de transformação.

Não acreditam então nisso? Ou seja, no papel dela na construção das gerações futuras e de uma forma diferente, uma construção social diferente? Não é possível esperar isso da escola?

AP2 – Há sempre uma transformação, é evidente, há sempre uma transformação, mas há muitos factores a contribuir para ela. São turmas muito grandes…Numa escola ideal não seriam turmas assim, não é?

AP1 – Agora eu tenho que dar aí uma achega. A AP2 tem a filha no 8ºA. Esta escola tem, ou pelo menos na turma da minha filha há uma preocupação com a formação, porque eles vão àquela actividade, que é um bocado criticada porque só vão aquelas turmas …E os miúdos vêm muito enriquecidos dessa actividade. Os miúdos vêm com regras, os miúdos limpam o chão, fazem as camas, obedecem aos professores de uma maneira diferente…

EU – Isso é uma actividade extra curricular?

AP1 – É uma actividade integrada na turma; é uma actividade que tem a ver com a educação física e depois também participa o professor de educação tecnológica.

AP2 – Mas é no fundo a alma de um professor…

AP1 – É a alma de um professor, é a alma do professor de educação física; os outros professores alguns vão…

EU – É um projecto especial…

AP1 – É um projecto especial do professor de educação física, mas eu acho que é muito importante; é muito importante enquanto grupo, eles vão, funcionam em grande grupo, aprendem a distribuir as tarefas e a organizar-se também.

EU – Foste buscar isso para ilustrar aquela parte da formação integral?

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11 AP1 – Exacto. E depois quando vêm, o professor organiza um jantar em que são os miúdos que

fazem, eventualmente participam na elaboração da comida, e depois arrumam a cozinha… E portanto esse jantar é oferecido aos pais. E nós vimos aqui, os pais trazem as sobremesas e vimos jantar. São os miúdos que servem os pais e que lavam a louça.

AP2 – E os pais das outras turmas têm pena que os seus filhos também não tenham oportunidade disso, não é?

EU – Isso é uma iniciativa daquele professor, só para os seus alunos…Uma pergunta mazinha: e os pais aqui também escolhem os professores?

AP2 - Não…

EU – Não?...

AP3 – É impossível, acho que é impossível.

EU – OK…Fracos… pontos fracos: turmas grandes, dizias tu. Há bocadinho falámos de qualidades, não é, mas ficou assim um bocadinho no ar. Em termos de pontos fracos que vocês encontrem e de sectores que merecessem ser mudados.

AP1 - Os balneários! Não há água quente, acho eu, e depois da educação física a maioria dos miúdos não toma banho, não quer tomar banho porque a água é fria. Inclusivé a minha filha. Eu dou-lhe daqueles toalhetes e digo-lhe: “olha, pelo menos limpa-te debaixo dos braços porque vais conviver com os outros professores e eles não são obrigados a…”

EU – Bem sabemos como é…

AP1 - Exactamente, mas esse é um ponto fraco. E por exemplo, uma aula de educação física -outro ponto fraco é os horários - uma aula de educação física de 45 minutos no primeiro segmento do bloco de 90, implica que os miúdos não têm tempo de tomar banho e ir depois logo para outra aula de 45 minutos.

EU – Esses dois estão aí. E mais? Não há mais pontos fracos?

AP2 - Eu tenho. Por exemplo, esta escola é uma escola pequena, em relação a outras escolas é uma óptima vantagem. Eu esperaria desta escola mais sentido de comunidade educativa. Apanhei esta escola num momento muito complicado, melindroso. De facto foi todo este movimento de revolta contra o sistema, legislação em catadupa, agitação, mau estar… Portanto também não sei se o meu juízo… enfim… se deva até esperar que haja alguma estabilização… Não sei se vou ter tempo para isso… Mas eu esperava que houvesse oportunidade, numa escola tão pequena, de construir projectos que aglutinassem a população, que se criasse, de facto, aquilo que às vezes não é possível no meio urbano, não é? Mas não encontro isso…

EU – Posso pegar outra vez naquela tua observação há pouquinho sobre metodologias. Eu sei que ela foi buscar o plano tecnológico, mas será que a questão dos recursos resolve essa outra questão que tu dizes?

AP2 – Pois eu acho que é muito da atitude, penso eu. Há aqui um corpo docente, que eu não conheço muito bem, o corpo docente, há uma parte que, enfim, até tem saído aos poucos, não é? Bastantes que se reformaram…

EU – Aos poucos, e desta vez…

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12 AP2 - Aos muitos! Sim. Portanto foi saindo. O corpo não está estável, o que é também normal em

qualquer escola… Vêm professores que não são efectivos da escola, portanto passam por aqui, e eu conheço casos de professores que têm substituído professores de longa data, de longa experiência, e que insatisfazem muito pais e alunos. E há uma tentativa, e eu vejo, há uma tentativa, que tem que existir, e nós temos de pressionar para que ela exista, que é que as coordenações das áreas disciplinares funcionem de facto como coordenações. Mas há professores novos que acham que é peso demais e pressão demais e abandonam… Também há casos assim. E depois, no fundo, há bons e maus professores, como em todo o lado, não é?

EU – Sim.

AP2 – Agora em termos de metodologia, eu vejo professores que fazem, mesmo com poucos recursos tecnológicos; vejo professores que tentam ser mais criativos, apelar aos miúdos, dentro daquilo que já há algum tempo… há muito tempo, se tenta introduzir na educação e que agora, digamos com o modelo “bolonhês”, está a tentar que se faça alguma coisa, que é o ensino de facto virado para a aprendizagem - o aluno está ali a criar a sua própria aprendizagem, a ser instado e estimulado para descobrir e aprender. No fundo eu vejo - estou com duas adolescentes em casa e já passei pela adolescência dos irmãos - e sei que é nesta fase muito difícil eles estarem motivados para a escola. É horrível! Nem é tanto esta que está aqui, mas a que está na Hefesto. Quer dizer, vejo-me atrapalhada! Uma aluna que podia ser brilhante, mas ela quer lá saber! Acha tudo uma seca, que é a expressão deles - “aquela aula é uma seca!”

AP1 - Concordo com uma alteração, que era as aulas voltarem a ser novamente de 60 minutos. Era fundamental! 30 minutos é o que eles conseguem estar a fazer uma tarefa; creio eu que não são mais de 30 minutos.

EU – Mas isso depois contradiz um bocadinho as pedagogias activas…

AP2 - Mas eram organizadas, porque esta escola que não tinha terceiro ciclo queixa-se imenso, e queixa-se a toda a hora, da indisciplina dos mais novos.

EU – Ai é?

AP2 - Os miúdos vêm, desde cedo, incapazes de estar numa sala de aula; não foram ensinados a estar numa sala de aula. Estão com o máximo à vontade e o à vontade significa tudo. Portanto, não estou a falar em violência, que não há aqui na escola, não há assim casos dramáticos, mas estão de facto indisciplinados, estão barulhentos… Mesmo aqueles que querem aprender, que a minha é desse género, quer estar atenta, quer ouvir a professora, quer… É horrível, porque sente-se prejudicada pelos miúdos destabilizadores, e há sempre destabilizadores na turma, que não sabem estar na sala de aula! Eu sei daqui de Conselhos de Turma, lá na minha outra função, que sempre entram os professores a queixar-se da indisciplina, e depois houve um professor, por exemplo, que fez esta experiência: fazer a chamada à moda antiga, à entrada da sala, eles só entram depois da chamada, e diz ele que tem tido resultados, porque eles pelo menos percebem que ali há uma porta e que se entra para qualquer coisa diferente.

EU - Ias dizer alguma coisa?

AP3 - Eu posso dizer que, relativamente ao que estava a falar da pedagogia activa, não sei bem o que é, mas percebo mais ou menos o que é que quer dizer, eu devo dizer que perdi hoje qualquer esperança de… O que se está a passar neste momento no nosso país está a ter efeitos devastadores e acho que é irrecuperável, acho que é absolutamente irrecuperável. Eu não sei explicar, acho que está à vista e eu sinto as consequências na universidade. Eu acho que o que se fez no ensino nos últimos…

meia dúzia de anos, acho que tornou impossível qualquer… Neste momento o que interessa é apenas CC

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13 a imagem. Os professores agora passam horas e horas na escola, preocupados, não com as aulas,

porque isso não serve para nada, mesmo em termos de avaliação, mas com a imagem, a preencher coisas e a estar em actividade por actividade… E eu sinto que nós chegámos a um nível do qual nunca vamos conseguir recuperar. Estou a falar francamente. Relativamente aos alunos que chegam à universidade, eles têm deficiências como nunca tiveram. Como nunca tiveram! E acho que o efeito disto que se passou… já vem de há mais tempo, mas o que se passou nos últimos 2,3 anos, vai-se sentir com mais acuidade dentro de… mais cinco anos, talvez, na universidade. E acho que é impossível voltar para trás, é impossível. E esse tipo de princípio que estava a referir, isso é completamente impossível, vai contra toda a lógica governativa! Repare, basta pensar no papel que a filosofia deixou de ter. Eu estou a falar na filosofia, mas o papel que a física e a química estão a ter é exactamente o mesmo - valem zero actualmente! Dos 100 alunos que querem medicina, há 20 que entram e os outros 80 vão seguir os outros cursos de ciências; os outros 80 vão seguir os cursos de ciências e é uma maravilha, porque senão, neste momento, o nosso país não formava universitários na área das ciências. E portanto, neste momento funciona assim. E não há qualquer hipótese de haver aquela coisa mais robusta… e muito menos no sentido que estava a indicar.

EU – É?

AP3 – Depende de um ou outro professor. E repare: o que este professor consegue é um acto de coragem. O que os professores me dizem sempre é “ eu, se tiver algum problema com um miúdo, eu sou o responsável”. O professor é responsável, pelo miúdo, se tiver algum problema o professor está

“lixado” e os pais…

AP2 – É…Nessas actividades como visitas de estudo…

EU – Então quer dizer que a questão da autonomia, é “bluff”? A autonomia das escolas?

AP2 -Eu ainda não percebi o que isso é…

AP3 – Eu acho que a autonomia é boa; é boa, mas não é obrigatoriamente vantajosa, não na minha opinião…

EU – Na tua opinião…

AP3 - Não é obrigatoriamente vantajosa, mas pode ser…

EU - Tu pões as questões em termos legislativos. No fundo será uma rede que vem de cima e que nos tolhe os movimentos. Então se conseguirmos accionar, activar a autonomia da escola, através de vários processos, entre eles este da auto-avaliação que é o que me interessa, será que activando essa autonomia internamente, não podemos contrariar um pouco essa visão negra, que é de facto a primeira que nos aparece?...

AP3 – Acho que a autonomia pode funcionar bem e pode funcionar mal. Como tudo! E acho que nem tudo o que vem de cima é mau. Pelos exemplos que eu dei, são coisas que vieram de cima e que são péssimas: o caso da filosofia é péssimo, o caso de deixar de ser necessário certas cadeiras para se entrar em certos cursos universitários é péssimo. E podíamos dar outros exemplos: a antecipação à avaliação dos professores do secundário é terrível! Mas são exemplos, e nem tudo o que vem de cima é mau, e nem tudo o que é a nível local é bom. Depende dos professores, depende da própria escola.

Acho que uma escola como a Atena se calhar tem condições para funcionar com uma maior autonomia.

EU – AP2, autonomia?

AP2 – É que eu ainda não entendi muito bem, porque de facto - não entendi muito bem na prática, PR

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14 porque muita da legislação que saiu e que eu li até com muita atenção, eu até acho que concordo

com as fundamentações, com aquelas coisas que lá estão; depois quando se vê a forma de pôr em prática, começam a entrar as coisas perversas, os aspectos que não estão à vista. Eu não sei muito bem como é que vai ser a autonomia nas escolas, sinceramente estou para aprender. Agora, quando a lógica, e a lógica não vem só do nosso ministério, sabemos que estamos enquadrados na Europa, não é? E que estamos enquadrados sempre, nós periferia - é muito diferente de estar enquadrado e não ser periferia, mas somos e não vamos deixar de ser! Quando as lógicas começam a ser de encontrar índices satisfatórios de aproveitamento dos alunos, não importa como, pergunto-me que autonomia vai ser essa; quando os dinheiros, porque há coisas que custam dinheiro e quando os professores nem sequer podem fazer fotocopias, não têm o mínimo das condições, não é, básicas, primárias, de ter o material, de poder ser mais criativos nas aulas, de ter acesso… Quando o dinheiro não é criado dentro da escola, e ela continua a submeter-se a um orçamento, não sei bem o que é a autonomia; eu não sei muito bem o que é que vai ser a autonomia. E obviamente que vai depender da forma como… de quem vai ser o material humano que vai estar na direcção da escola. Agora vai ser importante essa concentração de poder no director ou directora; depende muito do projecto que essa pessoa traz para a escola, se é isso que o vai seleccionar para esse posto, do projecto que traz, as ideias, como é que isso vai funcionar… É tudo uma interrogação.

AP1 – Não sei, sinceramente, se eles queriam inovação com este projecto de autonomia- falo da experiência da minha escola - o único candidato que apareceu foi o actual presidente do conselho executivo.

EU – Mas isso vai provavelmente acontecer na maioria das escolas…

AP2 – Não, há aí escolas que têm 10!

EU – É? Bom, vamos então ao assunto que temos rodeado desde o princípio e que é a autoavaliação da escola, e que está relacionado com isto da autonomia. Portanto, a questão da autoavaliação da escola também foi criada por uma lei, a que ninguém ligou durante anos - a lei é de 2002. Só começou a levar-se isto a sério a partir do momento em que é criado um grupo de trabalho no ME que vai avaliar escolas, num projecto que depois passou para a inspecção. A autoavaliação da escola é precisa para a escola se submeter à avaliação externa - nenhuma escola se pode propor sem ter já organizado um processo interno de autoavaliação. E depois há a questão da nota da escola na avaliação externa que passa a ter repercussões na avaliação dos professores, em termos de quotas para as classificações superiores dos professores. Portanto, isto começa a ser um emaranhado, em que a autoavaliação está lá, e é importante, e as escolas começaram a mexer-se. E foi isso que cativou o meu interesse. Agora elas mexem-se, mas para onde é que elas se mexem? Mexem-se para quê?

AP1 - Papéis só!

EU – Papéis só?

AP1 - É só papéis, só querem papéis! Estou a falar, porque a escola onde eu estou foi o ano passado, ou há dois anos, sujeita à avaliação externa e eles só pediam evidências -para isso onde é que está a evidência? Portanto, é papéis, é registar tudo. E em que é que isso melhora? Se nós já fazemos e não registamos, então agora passamos a vida na escola a registar? Onde é que nós vamos buscar tempo para fazer relatórios da avaliação intercalar dos nossos alunos? Agora este teve insuficiente, agora outro… Fazer um teste formativo. Então e tenho que escrever? Eles só pedem evidências!

AP3 -Funciona para a imagem! Há muito menos alunos a chumbar! Agora para se chumbar um aluno é um trabalhão! Isso aí funciona, realmente. A estatística aí funciona!

AP2 - E é material humano, nós temos energias limitadas, e as energias vão todas para aquilo, todas PR

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15 ou grande parte, e não sobra para estar numa sala de aula com 25 a 28, jovens, adolescentes,

crianças…

EU – Mas quer dizer que a autoavaliação para vocês é só papéis?.... Não vêm vantagem nenhuma em a escola se autoavaliar, e ficar apenas sujeita à avaliação externa, que vem e quer evidências?

AP1 - Os professores todos os dias se autoavaliam, acho eu, não é? A partir do momento que põe uma estratégia e não resultou, no outro dia já faz diferente. Agora tenho de colocar num papel? A única coisa que a avaliação das escolas pede, ou pediu, foi papéis. E nas actas que tenha tudo escrito o que é que se faz. Diz que se fala muitas vezes no geral e não se vai ao particular…

EU - Eu não sei se já deste conta que estás com a tua perspectiva do professor aqui em cima da mesa, não é? Vamos à mãe, mãe!

AP1 - Então vamos falar enquanto mãe: eu venho várias vezes à escola e não venho só para apontar o que está mal, mas a generalidade dos pais não é isso que faz e só vem à escola quando sente que algo corre mal…

EU – A autoavaliação pressupõe um processo mais transparente, contínuo, de organização e prestação de contas…

AP1 - A generalidade dos pais está preocupado com a avaliação dos filhos, não com a avaliação da escola.

EU – Muito bem. Ninguém me diz mais nada! Quer dizer, a parte mais importante da minha entrevista vocês arrumam-na assim às três pancadas - é só papéis!

AP1 - O problema é a avaliação das escolas, saber o que foi a avaliação das escolas e não concordo…

EU – Como mãe, aqui, o ano passado, também participaste na autoavaliação? Também te pediram para colaborar? Não?

AP1 - Não me recordo disso.

EU – Não houve nenhum inquérito, nenhum questionário para responder?

AP1 - Uma das criticas que se faz a qualquer escola é que chega muito pouco aos pais. Só se sabe o que se passa na escola se o filho eventualmente chega a casa e diz “hoje houve isto”; de resto não se sabe mais nada!

EU – Exacto, então e o processo de auto avaliação não podia inverter um pouco isso?

AP1 - O processo de autoavaliação fica aqui na escola, só a escola é que sabe o resultado, a não ser que o publique depois na página da Internet…

AP2 - Estando nos corpos sociais da associação de pais… Nós não cobramos cotas, e tem-se pensado e dito às vezes “porque é que não cobramos cotas?”Isto tem vindo assim sempre, mas eu pergunto-me e não sei muito bem quem é o corpo de associados. É aquele grupito que se vai reunindo, debatendo e encontrando formas de relacionamento com a escola e órgãos directivos, etc., e que vai colocando tudo na Internet, na página da escola… Mas nunca ninguém lá vai ver…

AP1 - Exacto, eu só recebo os e-mails.

AP2 – Como representante no Conselho de Turma também recolhi os e-mails, recolhemos, e CA

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16 enviamos às pessoas - a maioria deles, portanto; alguns também não deram os e-mails - mas muitos

deles vêm para trás, vêm recambiados, ou não há feedback nenhum dos outros. De facto, a pessoa não se sente parte de uma comunidade. Lá reunimos todas as segundas-feiras primeiras de cada mês e abertos a toda a participação de mães e pais, dizemos sempre, mas também nunca ninguém aparece. Isto só para dizer que quando surgem problemas, aí há uma…Mas eu estou a dizer isto também por causa da questão que estávamos a abordar. De facto, eu tenho notado como mãe, na associação de pais, que eu venho aqui à escola e, por exemplo, nós somos chamados para dizer, para avaliar o projecto educativo, para acrescentar, para fazer sugestões do projecto educativo; quando foi revisto o regulamento - agora está outra vez a ser revisto pelo Conselho Geral Transitório - mas nessa altura nós lemos aquilo tudo, fizemos as nossas sugestões… De facto a escola é aberta a assimilar as nossas preocupações e a introduzi-las; nós, no fundo, participamos mais nesse processo, mas é só este grupito muito restrito, os outros pais funcionam sempre longe… Mas também porque estão longe, porque nós não somos capazes de criar decerto as linhas de… O ano passado, por exemplo, eu tentei fazer uma reunião com os representantes das turmas. Estes representantes -estes não, os que estavam na altura - vieram só uns pouquitos; poucos, em relação ao número de turmas:

eram aí dez pessoas. E é sempre difícil, lá está, estabelecer linhas, porque eu pensei assim: talvez por eles se consiga alargar um bocadinho…

AP1 - Mas eu recordo-me que os que estavam era só para criticar as saídas, porque tinham de sair pela porta principal… Coisa que a mim nem me preocupava nada… Estavam só para criticar.

AP2 - É verdade! E outras vezes vêm porque querem dizer coisas sobre os seus próprios filhos!

EU – É?

AP2 - É uma cultura portuguesa… Nós estamos sempre a olhar para o nosso umbigo e não fazemos trabalho cívico, não é? Participação cívica, actividade associativa não temos assim muito… Sem ser o desporto e a igreja, a religião… Fora disso não…

EU – Então esta questão da auto avaliação é uma coisa longínqua para vocês, não faz ainda, ou não fará muito sentido ser uma das questões principais em termos de gestão da escola…

AP2 – Eu, como membro da Associação de Pais, volto eu a dizer, sinto muito, talvez esteja também contaminada pelo pessimismo que eu vejo aqui na escola, da parte de professores e Conselho Executivo…

EU – Estavas na Assembleia, quando tomaram a decisão? Penso que aqui teve origem na Assembleia.

AP2 - Há uma Assembleia de Escola onde eu não estava, ainda não era da Associação de Pais. Mas fora isso há um pessimismo tão grande, mesmo em relação à autonomia, em relação à nova gestão;

foi tudo tomado tão negativamente, que também nós acabamos por não sentir muito entusiasmo em relação a isso. A escola viveu nestes dois anos… São para esquecer! Espero que venham melhores…

EU – Portanto, em termos de prestação de contas e do vosso acesso à escola e aos processos da escola e às dinâmicas da escola, estão satisfeitos. É o suficiente, não é? É o suficiente. Bom, então vamos terminar com a questão da projecção do futuro e eu volto àquela escola como motor, centro não só de reprodução, mas também possivelmente de produção. Porque isso põe-se na questão da regulação. A autoavaliação seria um processo para fazer a regulação da escola, já que o estado não pode fazer, nem quer fazer mais a regulação sozinho. Vocês sabem que em termos formais, e se calhar não só, os pais têm um papel muito importante. Em termos reais, aqui na escola, já disseram que são bem ouvidos, e que se não são mais é porque se calhar mais não se reúnem, mas vocês sentem que são ouvidos, a vossa voz é respeitada. É?

AP3 – Sim.

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17 EU – Respeitada ou temida?

AP2 – Não! Nunca senti isso! Há muita colaboração, muito…

EU – É? Ok. Então, na vossa opinião, agora em termos abstractos, a escola não teria mesmo esse outro papel de produção, de mudança? Vamos manter assim? Vocês em outras coisas não estão muito satisfeitos…Ficaste com medo quando viste que o fosso social entre classes aumentava na universidade e disseste que isso te preocupava… Vocês também já manifestaram algumas preocupações sociais. A minha questão é aqui: vocês, enquanto pais, estão interessados na promoção social dos vossos filhos, mas dá a ideia que têm noção que ela individualmente não se faz, porque também há um lastro social global. Como é que a escola vai fazer isso? Como é que vocês pensam que a escola pode fazer isso? Ou acham que deve, para já?

AP3 – Como é que ela pode fazer isso? Sendo uma boa escola, por exemplo.

EU – Sim? Apostando mais nos resultados? Aquela conversa de há pouco…

AP3 – Não, o meu problema… Eu não tenho nada contra os resultados; também não tenho nada contra a autoavaliação e acho que pode ser importante. O que eu tenho… eu sou absolutamente contra a forma como se pretende defender a autoavaliação, ou a forma… Quando eu falei há bocado de resultados, são resultados no papel, são resultados estatísticos, agora se for uma escola…Às vezes há resultados interessantes! Eu sei de um caso de uma escola de Tábua, que é um local no interior do país muito, muito atrasado, e onde a escola secundária estava entre as 10 melhores em termos de classificação de biologia, em termos percentuais. E portanto eu acho que isso é um resultado fabuloso, é evidente que tem mérito. Mas o que se conseguiu nessa escola tem o valor de todos os miúdos da escola; portanto uma boa escola pode funcionar, ou um bom departamento, mas mais uma vez temos a situação de um professor, quando eu dava este exemplo…

EU – Escola, departamento, professor!

AP3 – Sim, sempre que eu dava este exemplo - “ah é o fulano de tal”,“é o fulano de tal!”

AP1 - Quando eu falei há bocado na visita, “ah, isso é um professor!”

EU – Exacto.

AP3 – O “fulano de tal” consegue fazer isso, portanto uma boa escola será uma escola que tem sobretudo desses e isso tem a ver com a própria organização. É obvio que a autoavaliação tem a ver com isso, mas a autoavaliação que nos estão a vender, e que é mais fácil de comprar, é preencher papéis.

AP2 – Pois!...

AP3- Eu estou a dizer isto porque eu leccionei durante alguns tempos na área da qualidade e dediquei-me um pouco a isso. Sempre defendi isso, e na minha área profissional nós tínhamos falta disso e eu sempre me queixava disso. Acontece que quando passamos para a prática podem acontecer duas coisas: ou pode funcionar bem, ou seja, a entidade que recebe essas técnicas de gestão da qualidade pode acolhê-las no melhor sentido, ou seja, no de melhorar o seu produto; ou então pode acolhê-las no sentido de conseguir um papelinho que diz, estou certificado de qualidade.

E aquilo que caminhamos no ensino é o certificado, isso é que interessa, para podermos mostrar aos parceiros europeus que somos certificados. E a outra parte, não estamos sequer a investir nela, porque não sabemos como; é preciso saber como, não sabemos e o que interessa é preencher o papel. E que tem um efeito exactamente oposto daquele que se pretendia! E não estou a dizer que a

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18 autoavaliação não é importante; estou a dizer que não sabemos fazê-la, nem estamos interessados,

nem é isso que interessa. O que interessa é termos muitos alunos na universidade, termos alunos com Magalhães, isso é que interessa! Esses números, são as novas oportunidades, é o aumento do número de graduados … Isso é que interessa! É exactamente o oposto daquilo que se devia… As ideias são óptimas, a concretização é que não funciona e as ideias não são suficientes para justificar a sua manutenção.

EU – Mas eu insisto, desculpem, nesta questão da regulação. Aqui é um professor específico de educação física, ali um de biologia…Mas vocês disseram - muito bem, mas os outros pais dos outros meninos ficam com pena, porque eles não tiveram aquela oportunidade, porque eles não tiveram a sorte de ter aquele professor, então e isto não é justo. A questão da justiça não é um valor importante? A oportunidade igual no acesso?

Portanto, a minha preocupação com a regulação é nesse sentido: regular no sentido de não deixar as coisas acontecerem, dependendo apenas de uma pessoa…

AP2 - Ora bem, eu também concordo com isso e acho que há esse lado positivo que podia ser aproveitado. Mas agora digo também, volto a dizer - estes dois anos são para esquecer; espero que sejam só dois… Porque de facto a medida que nos deu é que, os professores ficaram tão assoberbados por tudo isto que estava a acontecer, que não são capazes também de tirar o lado positivo das coisas, e ele às vezes também existe, mas ficaram completamente…Eu senti, de facto, uma completa absorção e por razões várias, mas não importa.

Mas só para dizer: esta questão de autoavaliação é muito importante, mas é importante por exemplo, se um professor tem esse espírito - é preciso sempre um elemento desencadeador dessas energias, um elemento que até é mais talentoso, mais criativo. Que bom que exista esse elemento!

Mas ele pode espoletar outras energias e aglutinar outras competências à sua volta, ou seja, se as escolas se apoiassem mesmo no grupo disciplinar e da criatividade de alguns… Que nós conhecemos escolas de província, que apesar de não terem…Olhe, a escola de Cantanhede - também porque parece que a autarquia está interessada e é um parceiro de facto actuante - fazem lá coisas interessantíssimas - não sei se por acaso algum de vós tem tido alguma notícia - coisas interessantíssimas! Conheço alunos meus que vêm de escolas e de que me falam, e que eu sei - de Mira, da Tocha, às vezes pequenas escolas onde, por exemplo, fazem grupos, inventam projectos… Lá está, não vai de uma pessoa, vai de um grupo de professores e como são escolas pequenas, é mais fácil chamá-los todos.

E fazem coisas tão engraçadas com os miúdos, que de facto lhes faz dar a noção que a escola não é essa seca que eles têm que gramar, mas é qualquer coisa onde gostam de ir, onde eles estão a aprender, onde eles se estão a formar…Eu acho isso possível, mesmo ao nível do ensino, se esses grupos de coordenação que se vão formando, essa rede que depois se organiza na escola, se funcionasse de facto como grupo de coordenação, no sentido de melhorar o ensino naquela disciplina, de encontrar as melhores estratégias de ensino, de… pronto, resolver problemas!

Eu custa-me imenso, por exemplo, ver a nível de Conselho de Turma, em turmas de 28, 25 ou 26 miúdos de 12 anos, que vieram para aqui com 11 anos e estão agora a chegar aos 13, miúdos que vêm de trás com dificuldades de disciplina e de métodos de estudo, etc. Mas, por exemplo, há lá miúdos problemáticos! E eu fico até incomodada por ver que conselho de turma após conselho de turma as queixas continuam, dirigem-se sempre aos mesmos alunos, agora não dizem nomes, os professores não querem dizer nomes, porque… talvez entendamos porquê, mas nós sabemos exactamente e nunca se acede àquele caso a pensar porque é que aquele miúdo, aquele menino, se mantém daquele jeito? Não tem aproveitamento, ou é outro menino que está sempre silencioso, ou aquele menino que está sempre isolado...

EU – O que é que já se fez para mudar isso, não é?

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19 AP2 - O que é que já se fez para mudar isto?! E eu faço perguntas: o miúdo é destituído? Não é! Mas

algum problema existe! Porque não se chamam os pais? Mas às vezes os pais estão tão próximo que nem vêem, ou não querem ver, ou custa-lhes ver… Mas há que fazer alguma coisa! Há uma psicóloga óptima na escola, que eu tive ocasião de conhecer. É uma pessoa óptima, mas o miúdo diz que não vai à psicóloga. Porquê? Porque na nossa sociedade há ainda muito o preconceito e os outros miúdos dizem logo, “és tolinho vais à psicóloga”! E o miúdo recusa-se a ir e ninguém o faz lá ir! E eu fico com pena que numa escola destas existam estes problemas … Portanto, a autoavaliação pode funcionar a muitos níveis e positivos, mas a esse que nós vimos, que é a produção de papéis, não pode.

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Referências

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