Se nela está minha alma transformada, que mais deseja o corpo de alcançar? Em si somente pode descansar, pois consigo tal alma está liada.

Texto

(1)

1 SONETOS DE CAMÕES

Camões escreveu peças de teatro (Anfitriões, Filodemo, El rei Seleuco), a obra épica Os Lusíadas (única obra publicada em vida) e mais de duas centenas de soneto.

O soneto é uma forma poética fixa, isto é, com regras definidas e que devem necessariamente ser seguidas por seus praticantes. Surgido na Itália, o soneto clássico tradicional possui catorze versos, distribuídos em duas estrofes de quatro versos (quadras) seguidas de duas de três versos (tercetos). Era a forma praticada pelo italiano Francesco Petrarca (1304-1374), a grande inspiração de Camões, tanto pelo conteúdo lírico (elogio da amada e amor após a morte) quanto pela forma (duas quadras e dois tercetos). No soneto clássico, os versos eram decassílabos, a grande novidade formal do Classicismo renascentista (ou Quinhentismo).

O eu lírico camoniano consegue ser, ao mesmo tempo, intimista (o suficiente para relatar ou referir um conjunto de experiências amorosas particulares) e universal (ao conferir a essas experiências um caráter de reflexão de valor mais amplo).

A base filosófica de sua poesia é o neoplatonismo, uma retomada das ideias de Platão (428-348 a.C). O filósofo grego concebia dois planos distintos da experiência humana: o mundo sensível e o mundo inteligível (ou ideal), atingido após um processo de ascensão espiritual. O primeiro representaria uma prisão do homem à matéria, enquanto o segundo seria o mundo da perfeição. Assim, para Platão, a experiência sentimental ideal seria a do amor espiritualizado – o amor platônico.

Em Camões, a temática do amor espiritual convive com a do amor carnal. Essa coexistência, por vezes tensa, permite perceber o que há de barroco na poesia camoniana. Mas os conflitos encontram sua resolução nos limites da razão clássica.

• As principais características da poesia camoniana se ligam ao conjunto retórico que definia a arte clássica renascentista: equilíbrio, obediência a regras, racionalismo e universalismo.

O principal assunto da lírica camoniana em medida nova é o amor, concebido tanto em sua dimensão racional (busca de definição, tentativa de compreensão de seus efeitos), quanto em sua manifestação mais pungente (sofrimento, desilusão, morte da amada). Mas o poeta tratou também dos desencontros entre o indivíduo e o mundo, de que resulta uma poesia marcada pelo pessimismo e pela angústia existencial.

A visão otimista da condição humana, como resultado do elogio da racionalidade, não se encontra tão explícita no poeta. Ao contrário, sua obra parece expor o conflito entre expectativas e realizações humanas. Dele advém o difundido maneirismo de Camões. De fato, se entendermos a expressão de contradições como um recurso maneirista (que posteriormente desaguaria no barroco), o poeta se enquadra no modelo, como pode ser percebido em sonetos como “Tanto de meu estado me acho incerto” ou “Amor é fogo que arde sem se ver”. Há muito de maneirista também no reconhecimento das limitações da razão no esforço de definição do amor – tema de “Busque amor novas artes, novo engenho”.

De molde clássico é ainda o elogio da beleza da amada, associada a um ideal

de perfeição que, embora de matriz platônica, tem muito de físico e carnal, como se vê

em “Quando da bela vista e doce riso” ou “Alegres campos, verdes arvoredos”. A

celebração do amor aparece em “Quem vê, Senhora, claro e manifesto” e em “O

tempo acaba o ano, o mês e a hora”, por exemplo. Nessa celebração, o amor físico e

(2)

2 o espiritual se misturam, permitindo a convivência de conceitos platônicos com concepções aristotélicas (de Aristóteles, discípulo de Platão que contestava a proeminência que este conferia ao mundo ideal), como se pode notar em “Transforma- se o amador na cousa amada”.

Mas em Camões o amor não é só celebração – racional, espiritual ou física. Há espaço para a expressão do sofrimento amoroso e da desilusão sentimental (“Se tanta pena tenho merecida”, “O céu, a terra, o vento sossegado”, por exemplo). O auge dessa linha é a temática da morte da amada – não apenas pelo grau de dor envolvido, mas, acima de tudo, pela qualidade dos versos. A tradição literária consagrou a lenda de Dinamene, nome mitológico que ele atribui a uma suposta amante morta em um naufrágio na China. Para ela, Camões compôs seus mais belos poemas de amor:

“Cara minha inimiga, em cuja mão”, “Quando de minhas mágoas a cumprida” e “Ah!

minha Dinamene! Assi deixaste”, entre muitos outros.

Sonetos que estão na referência bibliográfica da Unicamp:

(1) A fermosura desta fresca serra (1668 - soneto 136) *

(2) Ah! Minha Dinamene! Assi deixaste (1685-1668 - soneto 101) * (3) Alma minha gentil, que te partiste (1595 - soneto 080) *

(4) Amor é um fogo que arde sem se ver (soneto 005) *

(5) Busque Amor novas artes, novo engenho (l595 - soneto 003) * (6) Cá nesta Babilônia? donde mana (1616 - soneto 120)*

(7) Como quando do mar tempestuoso (1598 - soneto 043)

(8) De vos me aparto, ó vida! Em tal mudança (1595 - soneto 057) (9) Enquanto quis Fortuna que tivesse (1595 - soneto 001)

(10) Esta lascivo e doce passarinho (1595 - soneto 014)

(11) Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades (1595 – soneto 092)*

(12) Na ribeira do Eufrates assentado (soneto 129)

(13) O Céu, a terra, o vento sossegado (1616 - soneto 106) (14) O dia em que eu nasci, moura e pereça (1860 - v)

(15) O tempo acaba o ano, o mês e a hora (1668 - soneto 133) (16) Pede o desejo, Dama, que vos veja (1595 - soneto 008) (17) Quando de minhas mágoas a comprida (soneto 100) (18) Sete anos de pastor Jacob servia (1595 - soneto 030) *

(19) Transforma-se o amador na cousa amada (1595 - soneto 020)*

(20) Vencido está de amor meu pensamento (1685-1668 - soneto 145)

Soneto 19

Transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar;

não tenho, logo, mais que desejar, pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada, que mais deseja o corpo de alcançar?

Em si somente pode descansar, pois consigo tal alma está liada.

(3)

3 Mas esta linda e pura semideia,

que, como um acidente em seu sujeito, assi co a alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia:

[e] o vivo e puro amor de que sou feito, como a matéria simples busca a forma.

Note no texto acima que o poeta não apenas confessa seus sentimentos. Há uma análise, um filosofar sobre eles, o que possibilita caracterizar seu lirismo como reflexivo. Não é à toa, portanto, que predomina no poema um amplo jogo de raciocínio, revelado por conectivos ou articuladores que revelam um caminhar lógico de pensamento, como “por virtude”, “logo”, “pois”, “se”.

Tal estrutura filosófica é também percebida pela própria engenharia do texto.

Veja que o primeiro verso é uma tese, explicada no segundo. O terceiro verso é uma exemplificação do postulado do primeiro. O quarto verso é uma explicação/justificação do que está exposto no anterior.

Outro aspecto importante e que será encontrado no conjunto da obra é o uso de uma primeira pessoa que não compromete o ideal de universalismo tão cobrado em seu tempo literário, o Classicismo. Ou seja, o que é apresentado nos terceiro e quarto versos (o eu lírico não deseja à amada) é exemplificação da tese exposta no primeiro verso.

É notável em tal soneto outra influência de Petrarca, que é a presença do neoplatonismo. No entanto, Camões reinterpreta-o de sua própria maneira, o que permite identificar o que se chama de neoplatonismo camoniano. Para perceber esse aspecto de forma mais nítida, analisemos o soneto a seguir.

Soneto 03

Alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste, memória desta vida se consente, não te esqueças daquele amor ardente que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te algüa cousa a dor que me ficou

da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou, que tão cedo de cá me leve a ver te, quão cedo de meus olhos te levou.

(4)

4 Esse texto trabalha com oposições entre “lá” e “cá”, “Céu” e “terra”, “repousa (...) eternamente” e “viva (...) sempre triste”, que podem ser interpretadas como uma antinomia entre feminino e masculino: à amada cabem os primeiros termos; ao eu- lírico, os segundos. Mas pode ser vista também uma oposição entre céu/espírito (ela), com características positivas, e terra/carne (ele), com características negativas. Esse é o contraste básico do neoplatonismo, de acordo com o qual a matéria, a carne, o corpóreo, é inferior ao ideal, ao espiritual. É dentro desse terreno que surge a expressão “amor platônico”, ou seja, aquele que se manifesta plenamente sem a necessidade do carnal, do corpóreo, preso apenas à ideia, ao pensamento. É a tese presente nos quartetos do outro soneto, “Transforma-se o amador na cousa amada”.

No entanto, os versos 7 - 8 de “Alma minha gentil, que te partiste” demonstram como Camões reinterpreta essa teoria. Basta observar que o eu lírico pede que sua amada, um espírito, lembre-se do amor ardente (obviamente, de valor carnal) que ele já mostrara tão puro nos próprios olhos (obviamente, um valor espiritual). Há, portanto, uma fusão entre carnal e espiritual, ou seja, entre matéria e ideia – o espiritual tem elementos carnais e o carnal tem elementos espirituais. Essa mesma fusão é percebida em “Transforma-se o amador na cousa amada”, basicamente entre a ideia dos quartetos (primado do espiritual) e os tercetos (primado do carnal). Sua conclusão é a de que a ideia precisa da matéria para se realizar plenamente.

O soneto anteriormente exposto, ao opor masculino e feminino, acaba derramando elementos carnais ao homem e quase os eliminando por completo na mulher, que acaba se tornando uma figura etérea, divina. Eis outra clara influência petrarquista.

Um elemento marcante da poesia camoniana é o Maneirismo. Trata-se de uma vertente que de um lado mantém afinidade com o Classicismo, principalmente em seu aspecto formal. Mas, por outro lado, afasta-se, pois busca um rebuscamento da linguagem que se aproxima do estranho, do extravagante do Barroco. É o que se identifica no mais célebre soneto camoniano, transcrito a seguir.

Soneto 04

Amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(5)

5

Observe que o mais interessante nesse texto é que utiliza uma metodologia filosófico-científica ao trabalhar com uma definição: sujeito (amor), verbo de ligação (“é”) e predicado que define o elemento estudado. No entanto, bastante curioso é perceber que esse predicado, ao invés de precisar o objeto de análise, mais impreciso o torna, pois o faz por meio de antíteses, paradoxos e oxímoros, figuras de linguagem muito utilizadas no Maneirismo e Barroco. No entanto, não se deve entender esse esquematismo linguístico como uma mera brincadeira com as palavras. A proposta é bem mais séria e se encaminha para a ideia de que o amor é um sentimento que não pode ser definido, ou seja, que não pode ser controlado pela razão – tese, aliás, caríssima entre os românticos.

É também característica maneirista muito presente em Camões a visão desencantada, pessimista em relação à vida. Note como tal se observa no poema abaixo.

Soneto 05

Busque Amor novas artes, novo engenho, para matar me, e novas esquivanças;

que não pode tirar-me as esperanças, que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças, andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei porquê.

A experiência amorosa, como se vê, nem sempre é apresentada como positiva.

Aliás, a lírica camoniana aborda as múltiplas facetas desse sentimento, desde o encantamento graças ao contato com o objeto amado até a dor provocada pela frustração de expectativas ou pelo fim de um relacionamento. Mas o mais chamativo, como se disse, é este segundo aspecto, que faz o poeta encarar o conhecimento amoroso como produtor de dores e decepções. Ainda assim, é curioso notar que o poeta ainda consegue, por pior que seja a sua situação, expressar, no quinto verso, uma ironia, amarga, mas que revela um caráter espirituoso.

Quanto ao desenvolvimento de seu conteúdo, o poema pode ser dividido em

duas partes: 1.a) os dois quartetos: o eu lírico diz que, em seu estado desesperado,

nenhum mal pode piorar sua situação; 2.a) os dois tercetos: o eu lírico diz que, apesar

de tudo, Amor ainda lhe reserva um mal indefinível. O sentido dos versos 7 e 8 é que

quem está no meio do mar bravo, sem nenhum barco ou navio (“lenho”), não pode

(6)

6 temer nenhuma virada da sorte que piore sua situação. O motivo de se escrever Amor com inicial maiúscula deve-se ao fato de que, no poema, ocorre personificação do amor, que é tratado não apenas como um sentimento, mas como uma divindade. Na segunda estrofe ocorre uma antítese — chamada oxímoro — na expressão “perigosas seguranças”, pois seus dois termos negam um ao outro. Os versos “Olhai de que esperanças me mantenho! / Vede que perigosas seguranças!” contêm ironia carregada de amargura.

No entanto, seu lirismo não se coloca restrito ao amor. Há também em Camões uma abordagem filosófica que se envereda pelos problemas que afetam a existência humana, como se detecta no texto a seguir.

Soneto 11

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança;

todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança;

do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor espanto, que não se muda já como soía.

Enfrenta-se aqui um tema antiquíssimo, presente até no livro bíblico Eclesiastes e na literatura das antigas Grécia e Roma, que é a efemeridade, ou seja, o caráter passageiro dos bens da vida. Sua conclusão, no entanto, acaba por assumir, por meio de sua ideia paradoxal, um tom típico do Maneirismo, lembrando o tom dos textos barrocos.

No poema, reconhece-se como único estado de todas as coisas a mudança. A mudança das coisas afeta até a própria mudança, pois esta já não se dá como antes.

Percebe-se no oitavo verso o pessimismo. O tema da inconstância da vida é expresso por meio de antíteses: “mal” x “bem”, “verde manto” x “neve fria”, “choro” x “doce canto”. Embora a própria mudança possa variar, ela é contínua e está presente em tudo. Na terceira estrofe há uma metáfora (“O tempo cobre o chão de verde manto”) e uma sinestesia (“doce canto”), apresenta também tom pessimista (“do mal ficam as mágoas na lembrança/e do bem (se algum houve), as saudades”).

Soneto 1

A fermosura desta fresca serra

(7)

7 E a sombra dos verdes castanheiros,

O manso caminhar destes ribeiros, Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra, O esconder do sol pelos outeiros, O recolher dos gados derradeiros, Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que a rara natureza Com tanta variedade nos of’rece, Me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;

Sem ti, perpetuamente estou passando, Nas mores alegrias, mor tristeza.

A natureza aparece, descrita neste poema, com duas conotações diferentes:

em harmonia com o poeta (“A fermosura desta fresca serra”) e em conflito com o eu poético (“Sem ti, tudo me enoja e aborrece”). A natureza só adquirirá a beleza própria e o pleno sentido com a presença da amada que passa a ser um elemento decisivo na visão da paisagem. O estado de espírito do poeta reveste-se de uma carga de sentimentos que expressam a saudade, a mágoa, a tristeza, a dor, a solidão e o sofrimento da alma. O sujeito poético está triste porque não tem a presença da mulher amada. Sem ela o mundo que o rodeia não faz sentido, ainda que seja bonito – “Sem ti, tudo me enoja e aborrece”. Os recursos estilísticos presentes no segundo terceto são a anáfora “Sem ti…/ Sem ti”, a hipérbole “perpetuamente estou passando” e a antítese “Nas mores alegrias, mor tristeza”. Estes recursos de estilo têm como objetivo realçar a importância da presença da mulher amada e manifestar os sentimentos exagerados e contraditórios provocados pela sua ausência, pois sem ela o mundo, ainda que belo, não tem sentido. A rima é rica em (“serra/desterra”), e pobre (“castanheiros/ribeiros”). Este poema, segundo a lógica das ideias presentes, pode dividir-se em duas partes lógicas, desempenhando o advérbio “enfim” a função da palavra conectora das duas ideias. A primeira parte corresponde às duas primeiras quadras e nela se descreve uma natureza harmoniosa, propícia ao amor, e a segunda parte, que abrange os dois tercetos, refere a insignificância da beleza natural sem a presença da mulher amada. Este poema denuncia influências da corrente renascentista: o uso do soneto com verso decassilábico, a ausência da mulher amada (característica tipicamente petrarquista) e a presença de uma natureza harmoniosa (locus amoenus).

Soneto 02

Ah, minha Dinamene assi deixaste.

Quem não deixara nunca de querer-te!

Ah, ninfa minha, já não posso ver-te,

Tão asinha esta vida desprezaste!

(8)

8 Como já para sempre te apariaste

De quem tão longe estava a perder-te?

Puderam estas ondas defender-te Que não visses quem tão magoaste?

Nem falar-te somente a dura morte Me deixou, que tão cedo o negro manto Em teus olhos deitado consintiste!

Ó mar! Ó céu! Ó minha escura sorte!

Qual pena sentirei, que valha tanto, Que ainda tenho por pouco o viver triste?

Supõe-se que esta mulher, cognominada poeticamente em sua obra por Dinamene, seja uma jovem chinesa chamada Tin Nam Men. Camões se apaixona em uma de suas expedições, por essa mulher, que por consequência do destino acaba morrendo em um naufrágio às costas do Camboja. Dinamene é o nome de uma das nereidas da Ilíada de Homero, esta nereida é uma ninfa que preside os oceanos, ou seja, são divindades que segundo a mitologia educam os heróis. Elas representam a expressão dos aspectos femininos dentro do inconsciente masculino, pelo fato de serem advindas do mar, perturbam o espírito dos homens que por ele navegam. Esta mulher idealizada pelo sujeito lírico carrega fortes traços decorrentes da cultura greco- latina, recurso este que viabiliza a expressão de idealização do ser feminino. Esta que por ele é idealizada, também por ele é culpada pela própria morte, seu sentimento de perda, faz com que haja um conflito do eu lírico buscando uma tentativa de regeneração através do amor pós-morte, com a intenção que este sobreponha os acontecimentos passados, aliviando a dor da perda. Logo nas primeiras estrofes notamos o tom de lamento e de sofrimento do eu lírico, por não aceitar estar longe de Dinamene. Ele não aceita o fato de ter sido abandonado, ou seja, possui este sentimento de dor, entretanto, a culpa pela própria morte, notamos isto quando ele diz:

“Tão asinha esta vida desprezaste!” e “Tão cedo desta vida, descontente”. Dizendo que ela desprezou a vida por não tentar lutar para viver. O sentimento de saudade que o sujeito lírico manifesta em decorrência da ausência da amada é desencadeado em função de uma morte “antecipada” de Dinamene. O sentimento de perda deriva-se da não conformidade com a procedência dos fatos.

Soneto 06

Cá nesta Babilónia, donde mana Matéria a quanto mal o mundo cria;

Cá donde o puro Amor não tem valia, Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina e o bem se dana, E pode mais que a honra a tirania;

Cá, onde a errada e cega Monarquia

(9)

9 Cuida que um nome vão a desengana;

Cá, neste labirinto, onde a nobreza, Com esforço e saber pedindo vão Às portas da cobiça e da vileza;

Cá neste escuro caos de confusão, Cumprindo o curso estou da natureza.

Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Ao longo do seu tempo no Oriente, Luís de Camões viveu graves dificuldades financeiras, chegando a endividar-se e a cumprir penitência por não amortizar as suas dívidas; combateu também na armada de D. Fernando de Menezes e, mais tarde, de regresso a Goa, naufragou no rio Mekong, onde perdeu a sua amada Dinamene.

O soneto Cá nesta Babilónia donde mana reflete, de certo modo, a vida de Camões no Oriente, mais especificamente na cidade de Goa, na medida em que este se sente vítima de injustiças, tais como não ter o seu serviço militar e obra reconhecidos.

É exemplo do carácter autobiográfico deste soneto o seguinte verso: Cá, neste labirinto onde a Nobreza, / Com esforço e saber pedindo vão /Às portas da cobiça e da vileza. Pois, a Nobreza, referência ao próprio Camões e ao seu esforço patriótico, desconhece uma saída no labirinto do Mal que mana em Babilónia.

Segundo a Bíblia, Babilónia trata-se do local para onde o povo judeu terá procurado refúgio após a conquista de Jerusalém, cidade referida como Sião. Babilónia simboliza também a luxúria e predominância de bens materiais e sensíveis, portanto, o oposto aos valores Cristãos. Numa outra abordagem do soneto Babilónia pode significar também o amor profano e sensual, que de fato, se opõe à ideia bíblica do verdadeiro amor: Cá, onde o puro Amor não tem valia, / Que a Mãe, que manda mais, tudo profana. Babilónia é, de fato, local de desconcerto, pois nela prospera a injustiça, a tirania, o inverter dos valores bíblicos.

Uma possível interpretação de Sião é a pátria, ideia provida de pureza e dignidade, valores mais altos se alevantam. Na Bíblia, Sião é a terra prometida, local de felicidade. Neste sentido, há uma analogia axiológica e simbólica entre a leitura bíblica e a camoniana. Em ambas as interpretações são patentes os verdadeiros valores Cristãos, a pureza do amor e da alma, como também a mitificação de um lugar em que o Bem se afirma.

Sião é apenas um sonho, uma ilusão, pois Camões vê a sua pátria desconcertar-se com a mudança dos tempos e das vontades e talvez pela sua infeliz experiência de vida em Portugal.

Depois de uma análise do soneto “Cá, nesta Babilónia” é possível verificar uma projeção da vivência de Camões, como também dos temas que mais foram abordados pelo poeta: o desconcerto do mundo e a mudança. Este soneto constitui possivelmente uma crítica aos governantes portugueses contemporâneos de Camões e talvez ao Tribunal da Inquisição.

Soneto 18

(10)

10 Sete anos de pastor Jacob servia

Análise no caderno 1 – p. 49 - 50.

Soneto 07

Como quando do mar tempestuoso o marinheiro, lasso e trabalhado, d'um naufrágio cruel já salvo a nado, só ouvir falar nele o faz medroso;

e jura que em que veja bonançoso o violento mar, e sossegado

não entre nele mais, mas vai, forçado pelo muito interesse cobiçoso;

Assi, Senhora eu, que da tormenta, de vossa vista fujo, por salvar me, jurando de não mais em outra ver me;

minh'alma que de vós nunca se ausenta, dá me por preço ver vos, faz tornar me donde fugi tão perto de perder me.

O texto é um soneto constituído por duas quadras e dois tercetos, em metro decassilábico, com o esquema de rimas: ABBA / ABBA / CDE / CDE, verificando-se a existência de rima interpolada em A, emparelhada em B, interpolada em C, D, e E.

Abrange o tema do Amor, especificamente os efeitos negativos que a visão da mulher amada provoca. O sujeito poético, ao longo das duas quadras, fala de uma metafórica aventura pelo mar que se tornou violento e que provocou um naufrágio, do qual o marinheiro conseguiu salvar-se: “… o marinheiro, lasso e trabalhado,/ de um naufrágio cruel já salvo a nado, …”. Embora este lhe tenha provocado medo, depois de se encontrar fora do mar, por interesse, regressa: “só ouvir falar nele o faz medroso,…” ; “ jura (…) / não entrar nele mais, mas vai, forçado / pelo muito interesse cobiçoso, …”.

Esta metáfora – que acaba por se tornar numa imagem – remete para o homem que, perdido de amores, jura não voltar a amar, porém acaba por voltar a apaixonar-se.

No início da primeira quadra e do primeiro terceto, o sujeito poético utiliza termos de comparação: “Como” (verso 1) e “Assi” (verso 9), estabelecendo uma relação de semelhança entre o mar tempestuoso e a sua amada, o que permite a descodificação de toda a metáfora do “mar tempestuoso” como relação amorosa.

Consciente de que ver a amada é uma “tormenta” (v.9), o poeta tenta salvar-se: “de

vossa vista fujo, por salvar-me” (v.10), no entanto, tal como o marinheiro que regressa

ao mar, também o sujeito lírico acaba por voltar ao convívio com a amada o que o leva

ao sofrimento: “minh’alma, que de vós nunca se ausenta,/ dá-me por preço ver-vos,

faz tornar-me/ donde fugi tão perto de perder-me”.

Imagem

Referências

temas relacionados :