UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE HUMANIDADES
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA DOUTORADO EM SOCIOLOGIA
TERESA CRISTINA FURTADO MATOS
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE HUMANIDADES
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA DOUTORADO EM SOCIOLOGIA
TERESA CRISTINA FURTADO MATOS
RÁDIOS COMUNITÁRIAS: SINTONIA DISSONANTE E “AUTO-IMAGEM”
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do título de Doutor em Sociologia.
Orientador: Prof. Dr. Ismael de Andrade Pordeus Jr.
Teresa Cristina Furtado Matos
Rádios comunitárias: sintonia dissonante e “auto-imagem”
Tese defendida e aprovada, em ________ de março de 2006, pela banca examinadora constituída pelos professores:
Prof. Dr. Ismael Pordeus Jr. (orientador)
Profª. Drª. Márcia Vidal Nunes
Profª. Drª. Catarina Tereza Farias de Oliveira
____________________________________________________________ Prof. Dr. Gilmar de Carvalho
Agradecimentos
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal, Capes, pelo auxílio financeiro que tornou possível à realização deste trabalho.
Ao meu orientador, Ismael Pordeus, pela confiança depositada e autonomia a mim conferida.
Aos professores, Gilmar de Carvalho, Maria Lina L. Teixeira, Catarina Oliveira e Márcia Vidal, por terem aceito o convite para compor a bancar e pelas contribuições que certamente darão na análise deste trabalho.
À professora Auxiliadora Lemenhe, sua atenção e generosidade em meus primeiros momentos no curso me marcaram profundamente. Meu sincero agradecimento.
Aos professores Jacob Carlos Lima, Moacir Palmeira e Domingos Abreu, que em diferentes momentos leram e comentaram o que viria a ser essa tese.
Aos professores Gilmar de Carvalho e Márcia Vidal, pelos valiosos comentários quando da realização do exame de qualificação.
À Linda Gondim, pelo interesse e incentivo que sempre demonstrou na realização deste trabalho.
À Márcia Vidal, que depois da qualificação me cedeu um conjunto de raros documentos sobre a história das rádios comunitárias em Fortaleza.
Aos colegas que leram e comentaram as sucessivas versões deste texto: Ângela Julita, Iara Araújo, Roseane Nicolau, Maria Meirice e Lindomar Coelho. As sugestões de vocês fizeram deste um trabalho muito melhor.
A minha turma de doutorado. Meninas, vocês foram e são como uma canção de Paulinho da Viola: tranqüila, honesta e elegante. O companheirismo de vocês foi a mais rica experiência deste período de minha formação.
Ao “pessoal lá de casa”. Vocês foram ótimos nesse tempo todo. Perdoaram minhas omissões e me cobraram quando necessário. O afeto de vocês está em cada página deste texto.
À família Brito Sousa. Pelo apoio e a torcida em mais essa empreitada.
A Vancarder Brito Sousa. Porque eu não teria conseguido sem você. Seu apoio nos momentos finais da escrita foi decisivo, sua presença percorre esse trabalho, e tem tornado minha vida muito mais feliz.
À Daniele Nilin. As nossas conversas tornaram a angústia desse momento menos solitária.
À minha amiga Evanira, que um dia impediu que a agência dos Correios fechasse antes que eu postasse minha inscrição de seleção ao doutorado. Essa tese não existira sem aquele seu gesto. Minha gratidão por todos os auxílios e meu enorme carinho por você, César e toda a família.
À Catarina Oliveira, minha amiga e companheira na visita à Rádio Favela, a principal articuladora de nossa estada lá. Tenho aprendido muito com nossa convivência profissional e afetiva.
À Aimbere, pelo auxílio na transformação de problemas burocráticos em soluções.
A todos das rádios comunitárias visitadas que me receberam tão generosamente, prestando informações valiosas sobre suas experiências e percepções.
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Não era um que via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão.
Fiquei confuso com essa dupla existência da verdade.
SUMÁRIO
Introdução ...11
1. A “auto-imagem” e a imagem do outro: o conflito no campo da radiofonia comunitária...22
1.1 Transformações globais, mudanças locais...24
1.2 Conflito e auto-imagem...30
1.3 A noção de comunidade e as rádios comunitárias...36
1.4 Conflito, visibilidade e espaço público...39
1.5 A formação da auto-imagem: entre a ‘cultura comercial popular’ e a ‘cultura alternativa’...42
1.6 O conflito entre as emissoras comunitárias...46
2. O rádio: a história e os usos sociais...51
2.1 Rádio e movimentos populares...57
2.2 A inspiração das rádios livres européias...61
2.3. A gênese das rádios comunitárias...64
2.3.1 As “radiadoras”...65
2.3.2 Rádios livres no Brasil...66
2.3.3 O processo de concessão do serviço de radiodifusão comunitária...74
2.4 As rádios comunitárias em Fortaleza...79
2.5 o cenário das comunicações e as rádios comunitárias...96
2.6 A Abert, a Acert e as rádios comunitárias...102
3. A construção dos discursos: imprensa e rádio comunitária...112
3.1 A diferença...113
3.3 “Não a censura, não ao silêncio”: O jornal “Abraço no
Ar”...134
3.4 O que deve ser uma rádio comunitária...149
3.5 As rádios comunitárias na Internet...151
3.5.1 “Rádios do mal”? ...154
3.5.2 Indicações ao Ministério das Comunicações...157
3.5.3 Os casos de repressão: o fechamento e lacre de rádios comunitárias...158
3.5.4 As reuniões do Conselho de Comunicação...160
4. Rádios comunitárias: em busca do significado...163
4.1 “A Rádio Favela é o que há”...165
4.2 A Rádio Comunidade: “por que comunitário, comunidade é tudo a mesma coisa”...177
4.3 A Rádio Círculo FM ...187
4.4 103.5, A Rádio Comunitária do Antônio Bezerra...190
4.5 As definições e a construção da auto-imagem das rádios comunitárias...201
Considerações finais...206
Referências bibliográficas...212
Anexos...223
Anexo 1- Mapa de Fortaleza- Rádios visitas/pesquisadas...224
Anexo 2 (a) – Informativo CEPOCA – Outubro de 1990...225
Anexo 2 (b) – Informativo CEPOCA – Fevereiro de 1991...227
Anexo 3 – Quadro de diferenciação das radiocom frente as rádios comerciais...229
Anexo 4 – Quadro de matérias publicadas pelo “Boletim Abraço no Ar” e pelo “jornal Abraço no Ar” entre 1997-1999...231
Anexo 5 –“Código de ética das rádios comunitárias”...235
RESUMO
O presente trabalho analisa o conflito existente no campo da radiofonia comunitária em torno dos sentidos do que seja uma “emissora comunitária”. A partir da categoria “auto-imagem”, entendida como uma construção relacional, se discute o processo de formulação da imagem das rádios comunitárias, considerando sua relação com diversos segmentos e interesses sociais. A pesquisa se centra, principalmente, no universo de emissoras comunitárias da cidade de Fortaleza-CE, e busca compreender o ambiente de disputas numa perspectiva de longo curso, desde a fundação do movimento de rádios comunitárias na cidade, que ocorre a partir dos anos 1980, até hoje, aproximando-o da trajetória de desenvolvimento dos meios de comunicação no Brasil.
ABSTRACT
The present work evaluates the struggle found within the field of community radios in relation to the meaning of what a “community radio” is. Beginning with the category “self-image”, considered as a relational construct, the process of community radios’ image built-up is discussed considering its relationship to several segments and social concerns. The research is directed mainly towards the community radios’ universe in the city of Fortaleza, Ceara, and aims at understanding the struggle environment considering a long course approach extending from the founding movement of community radios that took place in 1980 in the city to present day bringing it closer to the development path of the mass media in Brazil.
I N T R O D U Ç Ã O
Esta pesquisa se propõe a compreender o conflito em torno do conceito de radiodifusão comunitária, a partir dos diferentes discursos produzidos sobre e pelas emissoras comunitárias. A pesquisa se centra, principalmente, no campo das rádios comunitárias da cidade de Fortaleza, Ceará.
A regulamentação da radiodifusão comunitária no Brasil data de pouco mais de oito anos. Não é seu aparecimento que institui as primeiras experiências de comunicação comunitária, mas sua criação significa um novo momento da radiodifusão no país, na medida em que nela insere um novo sujeito, a “comunidade”, e lhe reconhece o acesso a um canal de comunicação. Entretanto, o processo não desenvolve seu curso de modo tranqüilo, antes em meio a uma turbulenta redefinição de posições e poderes. Afinal, quem é a comunidade? A própria questão do reconhecimento do direito e a definição de quais grupos devem ou não ter acesso a este veículo de comunicação, e ainda que perfil deve ter uma emissora comunitária passam a compor a pauta dos debates desde então.
As pressões econômicas e políticas que delinearam os vínculos entre Estado, grupos econômicos e políticos marcam o sistema de concessões de canais de rádio e televisão no Brasil e respondem por um dos elementos do conflito: a escassez de acesso aos meios de comunicação (DEL BIANCO, 1999; NUNES, 2003). A emergência de um novo personagem nessa narrativa supõe a partilha de um espaço antes exclusivamente loteado pelos grupos acima citados.
Todavia, o próprio processo de formulação da legislação é marcado por uma série de confrontos entre representantes das emissoras comerciais e das rádios comunitárias, e entre os representantes das radiocom e o Estado, agente de controle e regulação da política de comunicações no país.
Os personagens dessa história representam interesses antagônicos. Por um lado, as emissoras comerciais, desde o processo de negociação do texto da Lei no Congresso Nacional1 e com a finalidade de manterem sua posição de referência e domínio da radiofonia nacional, defendem a limitação do número de radiocom e lhes impõe restrições de funcionamento. Por outro lado os representantes das radiocom querem o reconhecimento legal das emissoras comunitárias, o que as colocaria em outra posição que não a de infratoras da legislação de telecomunicações do país2, concedendo-lhes o direito de transmissão.
Porém, se a legislação representa um avanço porque reconhece o “direito de antena” (COELHO NETO, 2002), ou seja, a possibilidade de transmitir informações pelo espectro eletromagnético a grupos antes dele excluídos; de outro lado vem disciplinar e institucionalizar o conflito em torno do direito de fazer radiodifusão comunitária no país. Antes da existência da Lei a reivindicação dos que faziam rádio comunitária se concentrava na busca pelo reconhecimento deste direito. Depois de sua instituição a questão passa a ser o aperfeiçoamento da Lei e a definição das fronteiras de quem pode ou não ser por ela beneficiado.
Foi no decurso do ano de 1999 que passei a estabelecer contato com o universo das radiocom de Fortaleza, durante a realização do trabalho de campo para a redação de minha dissertação de mestrado3. Naquela ocasião realizei pesquisa
sobre a Rádio Comunitária Mandacaru FM, localizada no bairro Ellery, na região oeste da capital cearense. A pesquisa lidava com a questão da organização e da sociabilidade presente nas rádios comunitárias através da noção de dádiva (GODBOUT; CAILLÉ, 1999; MAUSS, 1988) e, tendo como pressuposto essa
1 “A Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática, encarregada de debater este assunto [o texto da lei de radiodifusão] tinha em 1996, 51 membros, 40 dos quais eram concessionários de rádio e televisão” (COELHO NETO, 2002, p. 29).
2 Como antes de 1998 não havia legislação específica para radiodifusão comunitária qualquer atividade deste tipo era considerada crime federal, passível de punição aos seus infratores.
sociabilidade, buscava entender como se efetua a relação entre rádio e memória (HALBAWACHS, 1990; NORA, 1993) em uma emissora deste tipo (MATOS, 2000).
Naquele momento, embora as atenções estivessem voltadas para a questão da dádiva e da memória, chamou-me atenção uma situação de disputa entre uma gama de radiocom que então existiam na cidade. Ser ou não ser uma rádio comunitária era uma questão presente nas falas dos que faziam e discutiam o campo da radiodifusão comunitária na cidade de Fortaleza.
A observação daquela situação parecia indicar a intensa movimentação de um campo em expansão, o da comunicação comunitária, em que se buscava e se disputava novas definições e o reconhecimento da e para a comunicação nele produzida.
Aquela expansão foi registrada pela Associação de Rádios Comunitárias- Centro de Produção em Comunicação Alternativa, a Arcos-CEPOCA. A entidade congregava as radiocom em Fortaleza à época, e hoje se encontra desativada.
A entidade considerava o crescimento numérico das emissoras como uma ameaça a um projeto que definia um modelo de radiocom fundada nos “princípios da pluralidade, da democracia, da gestão coletiva, do não correr atrás do lucro, da vontade de democratizar a sociedade, etc” 4, em consonância com o movimento nacional de radiocom. As especulações que eu também ouvia na Rádio Mandacaru sobre o aparecimento de novas emissoras, sua localização e sua filiação a determinados grupos políticos ou econômicos, confirmavam minha suspeita sobre a relação entre nascimento de novas emissoras e o surgimento de novos agentes e a busca de definição ou de redefinição de fronteiras e modelos para a comunicação comunitária radiofônica.
Assim, a heterogeneidade dos discursos revelava posições e interesses diversos. O cenário da radiofonia comunitária na cidade indicava uma situação de conflito. De acordo com Pasquino (2004, p. 255) o conflito pode ser entendido como “uma forma de interação entre indivíduos, grupos, organizações e coletividades que
implica choques para o acesso e distribuição de recursos escassos”. Observando essa ambiência nasceu para mim a questão que norteou esse trabalho: como se organiza e em função de que elementos se dão as disputas no espaço de atuação das rádios comunitárias na cidade de Fortaleza?5
Penso que este conflito resulta de uma complexa trama. Como já mencionei, a histórica concentração dos meios de comunicação no Brasil e o delicado problema da democratização destes é um dos fios dessa malha, cenário onde se desenvolve uma série de outros elementos, como a relação da comunicação comunitária com o mercado, representado pelas rádios comerciais e seu modelo de fazer rádio; a relação com o Estado e seus mecanismos de controle; e ainda a relação com os ouvintes, que passam a ser disputados com as tradicionais rádios comerciais.
Em última instância, a expansão das rádios comunitárias encontra um limite físico representado pelo “dial”, que comporta apenas um número limitado de emissoras, sob pena de interferência do som de umas sobre as outras. Em outras palavras não há espaço no ar para todos os que desejarem montar uma emissora comunitária, mesmo que eventualmente atendessem a todos os requisitos legais. Porém, um outro aspecto da questão se refere à preferência do “dial”6, destinada às emissoras comerciais e educativas, estas com amplo espaço para transmissão.
Atualmente, o espaço da radiofonia comunitária institui ainda uma outra instância de debate, que não opõe apenas rádios comunitárias a rádios comerciais, mas comunitárias a comunitárias. No centro da oposição está o reconhecimento como uma radiocom. O prêmio dessa disputa parece ser a possibilidade de poder ou não fazer rádio legalmente, bem como a própria construção da legitimidade da radiofonia comunitária. Aqui as questões do que significa ser uma emissora comunitária, qual o seu papel social, para quem ela deve falar, como ela deve falar, quais valores devem pautar sua produção, e que tipo de organização deve ter passam a ser fundamentais, pois desempenham funções de afirmação, reconhecimento e legitimação.
5 Essa questão parece revelar uma das faces da estrutura de comunicação do Brasil e das atuais transformações que estão em curso.
A perspectiva adotada neste trabalho pressupõe que a compreensão da situação de disputa exige considerar uma série de problemas, instâncias, agentes e interesses, e as combinações entre estes elementos suscitam algumas questões: Como a história dos meios de comunicação no Brasil afeta o campo da comunicação comunitária? Em que medida essa história é um dado constitutivo da situação de disputa?
Qual o tipo de apropriação vem sendo feito do campo da radiofonia comunitária em Fortaleza? Quais os grupos e quais os novos significados acionados nesse processo de apropriação?
Grande parte destas questões passa pela construção da imagem das rádios comunitárias. Os investimentos na elaboração de uma definição, o que implica a aceitação de distinções e singularidades das rádios comunitárias frente às rádios comerciais, cujos parâmetros não são consensuais, são parte importante da dinâmica do conflito.
Acredito que a construção da auto-imagem das radiocom articula diferentes níveis: da relação com o mercado, da relação com o Estado e da autodefinição destas rádios. A compreensão da auto-imagem se ampara aqui em Norbert Elias e Scotson (2000), autores que discutem o papel desta como forma de participação em situações conflituosas e de disputa de poder. O termo “auto-imagem” é usado pelos autores para definir a autoconsciência dos grupos, formada nas configurações sociais e que serve, simultaneamente, como parâmetro de avaliação de si e dos outros, e balizadora das ações sociais.
A questão da imagem é ferramenta fundamental dos conflitos no campo intra-radiocom e nas relações entre as rádios comunitárias e as rádios comerciais. Além de exercer papel considerável nas pressões feitas pelas radiocom sobre o Estado, representado pelos órgãos de controle e fiscalização, é a partir da auto-imagem que fronteiras e distinções são definidas.
e tem papel importante nos processos de publicização das rádios e de seu trabalho junto lugares onde se localizam.
E é no debate público que esta auto-imagem acaba por desempenhar um papel político dentro do jogo de forças de transformação ou manutenção do espaço da comunicação social no Brasil. Além do que, os conflitos são processos que, em grande medida, operam a contraposição e negociação de sentidos e essa dinâmica se torna perceptível a partir da noção de auto-imagem.
E com quais elementos se constrói a luta pela definição e legitimação da radiofonia comunitária?
Antes de 1998, quando as rádios comunitárias transformam-se em realidade oficial no Brasil, uma série de experimentos já conformou a trajetória destas rádios, sob a influência de diversos movimentos sociais na América Latina. Estas experiências se ligam a sindicatos, igrejas, movimentos populares ou a ação espontânea de jovens que ousaram criar programas radiofônicos e colocá-los no ar. A situação de ilegalidade marcou a maior parte destas experiências que se autodefiniram ou foram definidas ao longo dos últimos 50 anos como popular, livre, alternativa e comunitária (COGO, 1998).
As rádios comunitárias aparecem como um novo momento dessa trajetória. Herdeiras da tradição que se constitui na confluência da comunicação livre, alternativa e popular, as rádios comunitárias no Brasil passam a construir uma identidade própria. Entretanto, com a expansão deste campo, principalmente a partir de 1998, a construção dessa identidade e da legitimação passa por um processo conflituoso. Afinal, o que é a comunidade para cada emissora? E o que é comunicação comunitária?
idéia política7. A forma como esta noção de comunidade é significada e apropriada
pelas radiocom reverbera as diferenças e a heterogeneidade que abrigam as experiências neste campo e acabam por gerar uma situação de conflito.
A classificação “rádio comunitária” sugere também a articulação entre a noção de lugar e o veículo rádio. Esta noção ganha espaço na década de 1990, amparada pelas discussões sobre o processo de globalização e a respectiva valorização do espaço local (BAUMAN, 2003). As repercussões deste processo parecem se fazer sentir no caso das radiocom, principalmente na fase mais recente de sua história, na medida em que a denominação rádio comunitária passa a substituir as demais denominações existentes, principalmente “rádios populares”.
Em Fortaleza, onde as iniciativas espontâneas de uso de alto-falantes como emissoras radiofônicas ganham impulso em meados da década de 1980 pela ação de um projeto desenvolvido em parceria pela Prefeitura Municipal de Fortaleza e pela Universidade Federal do Ceará (através de projeto da Professora Márcia Vidal do Curso de Comunicação Social), para a montagem de “rádios populares”, também se verifica essa mudança de denominação.
Na passagem da década de 1980 para 1990 a denominação muda. E sobre os diferentes sentidos da noção de comunidade e da comunicação comunitária os discursos irão se articular.
Na prática, as vivências e interpretações da idéia de comunidade, que ampara a radiofonia comunitária, têm matizes variados: rádios ligadas a grupos religiosos, rádios pertencentes a grupos políticos específicos, rádios vinculadas a entidades comunitárias e rádios com perfil comercial.
Alguns trabalhos (NUNES, 2003; FUSER, 2002, entre outros) ensaiam a formulação de categorias capazes de classificar e compreender essa heterogeneidade de formatos de rádio que tomam o “dial” das cidades brasileiras, e que se autodefinem como emissoras comunitárias. Além de compreender os formatos em que atualmente se apresentam estas categorias, elas podem se
constituir em parâmetros para a compreensão dos discursos de auto-reconhecimento. Já que todas as rádios vão se definir como rádios comunitárias, são diferentes matizes de discursos e as ações por trás de cada concepção do que seja uma rádio comunitária que vão interessar.
Foi a leitura de uma matéria jornalística8 que me revelou pela primeira vez a
existência das radiocom. Aspectos sobre esse tipo de comunicação e o seu significado social me foram pela primeira vez apresentados lá. Pouco tempo depois tomei as radiocom como objeto de pesquisa (MATOS, 2000), como já mencionei. Participações em encontros de rádios comunitárias, pesquisa de campo sobre as rádios comunitárias de Fortaleza-Ce (MATOS, 2000) e leituras diversas me permitiram entender melhor este universo, indicando inclusive a atual direção de meu interesse, a questão do conflito. Essa perspectiva relacional pressupõe que o cruzamento entre estes diferentes agentes e elementos permitiriam perceber como se processa a disputa e sobre o que ela opera. Para dar conta deste intento um variado circuito de fontes foi percorrido.
Para apreender a auto-imagem das rádios comunitárias, pareceu-me importante trilhar o caminho pelo qual as rádios foram vistas e discutidas pela imprensa local. A composição de um catálogo de matérias dos jornais locais diários “O Povo” e “Diário do Nordeste” permitiu discutir essa questão. Os esquemas de percepção envolvidos são indicativos dos sentidos de legitimidade atribuídos ou negados às radiocom. Ao mesmo tempo, a compreensão que as próprias rádios, enquanto movimento, desenvolvem sobre a comunicação comercial é reveladora do lugar social em que se percebem. O jornal “ABRAÇO no Ar” da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária – ABRAÇO permitiu perceber a construção dessa interpretação.
Outra fonte para a compreensão dos esquemas de percepção dos grupos que fazem a radiofonia comunitária foi a rede mundial de computadores. Um exemplo dessa possibilidade me surgiu ao encontrar uma lista de discussão denominada “Rádios livres”9, espaço de debate de diferentes grupos sobre os rumos
8 A matéria intitulada “Escândalo no ar”, de Nivaldo Manzano, publicada pela Revista “Caros Amigos” (ano 1, número 2, em maio de 1997), discorria sobre várias experiências de radiofonia comunitária existentes no Brasil.
do movimento de rádios livres e comunitárias. Em grupos como esses a crítica interna ao papel e ao perfil das rádios comunitárias se realiza de modo mais livre, posto que eles não representem a fala oficial, como acontece nos jornais “ABRAÇO no Ar”. Outras importantes fontes de informações também foram acessadas a partir da Internet, principalmente dados do Ministério das Comunicações e Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), disponibilizados quase que exclusivamente pela rede. Além destes, foram importantes os sítios da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) e a da Associação de Emissoras de Rádio e Televisão (ACERT).
No que concerne às radiocom de Fortaleza, a grande maioria funciona sem o aval da Lei de Radiodifusão Comunitária, ou seja, sem outorga. Os dados do Ministério das Comunicações informam que apenas seis emissoras foram autorizadas a funcionar na cidade, duas delas ainda com licenças provisórias. Mas estas não são as únicas emissoras no ar.
Com a desativação da Arcos-CEPOCA em 2001, entidade representativa das radiocom em Fortaleza, o acesso a este universo se tornou precário. Fatores como a efemeridade, a localização geográfica, o tipo de técnica de irradiação utilizada pelas emissoras, nem sempre acessíveis à escuta radiofônica10, além da tensa relação com o Estado (representado pela ANATEL como agência reguladora e a Policia Federal como agente repressor), tornaram tortuoso o processo de mapeamento das rádios11.
Além disto, a rádio pesquisada anteriormente, e que poderia fornecer as relações e o acesso ao universo das radiocom estava fechada. Meu primeiro contato se deu, então, através de um antigo diretor da Arcos-CEPOCA. Informações sobre o estado atual de desarticulação política das emissoras e da própria Arcos-CEPOCA apareceram a partir de sua fala.
10 Algumas emissoras operam pelo sistema de alto-falantes ou caixinhas, tendo uma audiência restrita aos bairros ou ruas onde se localizam. Estas rádios irradiam seu som através de alto-falantes dispostos em algum ponto do bairro, ou através de caixas de som atadas aos postes de iluminação ou casas ao longo das vias de um bairro.
A impossibilidade de realizar o mapeamento através de uma entidade congregadora apontou como solução para a escolha das emissoras o critério de acessibilidade. Por esse processo fui recolhendo informações a partir de diferentes informantes e fontes - uma das mais importantes o próprio aparelho de rádio - sobre a existência e localização de emissoras pela cidade.
Visitas e entrevistas abertas ou semi-estruturadas também foram feitas. Visitei as rádios comunitárias: “Paupina FM”, instalada no bairro da Paupina; “Rádio Comunidade”, operando pelo sistema de caixas de som e situada no Bairro Dias Macêdo; “Rádio Círculo FM”, instalada no bairro Granja Portugal; “Rádio Comunitária do Antônio Bezerra”, situada no bairro de mesmo nome, e “Rádio Interativa FM”, situada no bairro Novo Mondubim. Todas estas emissoras estão localizadas no município de Fortaleza (ver anexo 1).
Visitei ainda a “Rádio Favela FM”, localizada em Belo Horizonte e considerada uma das primeiras radiocom a operar em freqüência modulada (FM)12 no Brasil. A rádio é considerada uma referência para outras emissoras.
Também foram coletados dados junto à Agência Nacional de Telecomunicações (onde realizei entrevista sobre o processo de fiscalização das radiocom no Ceará) e ao Ministério das Comunicações. São documentos que versam sobre a existência, regulamentação e fiscalização das radiocom no Brasil e na cidade de Fortaleza. Visitas às páginas da ACERT (www.acert.org.br) e ABERT (www.abert.org.br) na Internet também me forneceram informações sobre as rádios filiadas e à visão das duas entidades sobre as rádios comunitárias.
A participação no grupo de pesquisa “Comunicação para a Cidadania”, durante o XXVI INTERCOM - Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação13
me permitiu a descoberta de um rico material produzido sobre o tema, além da oportunidade de discutir a questão do conflito em torno da radiofonia comunitária.
12 FM é a modalidade de serviço de radiodifusão que opera na faixa de 87,8 MHz a 108 MHz, com freqüência modulada.
Assim, resultado de uma composição variada, estes dados alimentam a discussão que se segue, mosaico das diferentes formas de ver e representar as rádios comunitárias no Brasil.
A tese está dividida em quatro capítulos. O primeiro cumpre a função de discutir e apresentar as categorias de análise utilizadas ao longo do trabalho, ao mesmo tempo em que transformações culturais, econômicas e políticas que afetam o universo de existência e significação das radiocom também são debatidas.
O segundo capítulo apresenta um histórico do rádio e seus usos sociais e dentro dele a trajetória que constituiu o campo das rádios comunitárias. O capítulo tece um histórico do movimento de radiocom no Brasil e em Fortaleza-Ce, oferecendo ao leitor um panorama da gênese social da idéia de emissora comunitária.
O terceiro capítulo resulta da análise dos diferentes discursos sobre as rádios comunitárias emanados da imprensa cearense e do movimento de radiocom, através do Jornal “ABRAÇO no Ar”, veículo da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (ABRAÇO) e de uma lista de discussão na Internet sobre rádios livres e comunitárias. A construção da auto-imagem das radiocom, elaborada pelo seu próprio movimento, e a percepção dos órgãos da imprensa oficial são os elementos indicativos dos sentidos acionados e manipulados na construção da legitimação.
C A P Í T U L O I
A “A U T O -I M A G E M ” E A I M A G E M D O O U T R O : O C O N F L I T O N O C A M P O D A R A D I O F O N I A C O M U N I T Á R I A .
O surgimento de um fenômeno social pode ser melhor entendido quando o aproximamos do quadro em que diferentes elementos se cruzaram para produzi-lo. Considerando isto, proponho discutir como se opera a relação entre auto-imagem e conflito no campo das radiocom a partir de processos sociais amplos, capazes de condicionar partes importantes dessa relação.
É durante a década de 1970 que o rádio brasileiro começa a operar em freqüência modulada. O uso dessa freqüência se associa a uma série de fatores tecnológicos, econômicos e políticos. Entre os fatores políticos figuram os interesses do regime militar pela penetração da radiodifusão em âmbito nacional, plano que incorpora o desejo de maior controle dos meios de comunicação, dado o papel estratégico das telecomunicações para os militares (SORJ, 2003). Tal como já ocorria com as rádios que transmitiam em amplitude modulada, AMs, a difusão de emissoras FM será feita através de concessões controladas pelo governo federal. As FMs sedimentam, então, o modelo de propriedade dos meios de comunicação que já estava em curso no país, aprofundando os vínculos entre propriedade, interesses políticos e econômicos.
A existência de regiões não cobertas ainda pela radiodifusão contribui para a interiorização, que passará a ser feita com uso da freqüência modulada, permitindo cobrir regiões do país aonde as AMs não chegavam. De acordo com Del Bianco (1999, p.191):
Do ponto de vista econômico, a medida permitiu que a produção de rádios-receptores fosse incrementada. Dessa forma, Del Bianco (1999, p.190) discute que:
A freqüência modulada ganhou impulso porque houve ação deliberada do governo militar no sentido de definir estratégias para a distribuição de concessões e permissões de canais e de estímulo à reativação da indústria nacional de equipamentos.
Como afirma Ortiz (1995, p.153): “entre nós é o Estado militar quem promove o capitalismo em seu estado avançado”. O que terá repercussão na constituição e consolidação de um mercado de bens simbólicos, que se desenvolve, sobretudo, nos anos 1970 e 1980. Assim, comenta ainda Ortiz (1995, p.121):
Durante o período que estamos considerando [1970-1980], ocorre uma formidável expansão, a nível de produção, de distribuição e de consumo de cultura; é nesta fase que se consolidam os grandes conglomerados que controlam os meios de comunicação e da cultura popular de massa.
Ainda que faça parte do singular processo brasileiro de implantação de um mercado de bens culturais14, a expansão das rádios em freqüência modulada no Brasil, a partir da segunda metade dos anos 1970, parece se relacionar também com o ambiente cultural de transformações políticas e econômicas que ocorrem no globo com conseqüências para a política e para a cultura. Algumas dessas mudanças interessam particularmente a este trabalho, entre elas: a reversão da tendência de crescente padronização dos produtos, inclusive os produtos culturais15; a valorização das identidades locais, que terá implicações para o argumento em favor da comunicação comunitária, e o barateamento de tecnologias que passam a ser acessíveis a grupos antes dela alijados.
14 Que começa a ser desenhado a partir do esforço de centralização política e cultural vivido nos anos 1930 -1940, com o Estado Novo, e que continua a se desenvolver nos anos 1960 e 1970 com o regime militar.
1.1 Transformações globais, mudanças locais
Como observa David Harvey (1989) em “Condição Pós-Moderna”, a partir de 1973 já se registram, no plano internacional, mudanças no regime de produção e em sua forma de organização, o que produz transformações nas relações sociais, bem como nos hábitos, práticas políticas e formas culturais. Essas mudanças correspondem ao declínio do modelo fordista de organização da produção e de orientação das relações políticas e sociais através do globo.
O paradigma fordista se referia basicamente à concentração produtiva e gerencial, com elevado grau de especialização e intensa capacidade produtiva voltada para a produção e distribuição de produtos em massa, que para tanto deveriam se pautar o máximo possível pela padronização. A produção em massa pressupunha uma organização social também padronizada em relação ao consumo dos bens culturais. Estes bens, “standardizados”, são oferecidos para uma população supostamente homogênea (aos olhos do mercado) em termos de consumos e gostos, e em maior ou menor medida, sob o controle do Estado.
Paralela a essa forma de produção e consumo em massa, Harvey irá apontar a emergência de uma outra racionalidade político-organizativa, em sintonia com uma estrutura social fundada em localismos e nacionalismos, e em uma fragmentação dos discursos de legitimação dos processos sociais.
Provavelmente essa mudança se expressa na esteira do enfraquecimento dos grandes discursos organizadores, as metanarrativas, simultaneamente a um avançado processo de segmentação do mercado de trabalho (com a crise do emprego), do mercado consumidor e a formação de uma nova cultura de consumo global. Essa cultura não mais satisfeita com as soluções de “massa” para suas demandas e desejos, ao contrário, cada vez mais interessada na idéia de atendimentos particularizados, aspecto que se fortalece inclusive na política.
Se a economia e a regulação do Estado no modelo fordista tinham em vista tanto a produção quanto o consumo em massa (com bens padronizados)16, com a
crise de acumulação decorrente da queda global dos rendimentos e com as mudanças culturais e políticas observadas ao redor do globo a partir dos anos 1960, aquele paradigma passou a se mostrar deficiente para assegurar o crescimento dos investimentos.
Para Harvey (1989), a solução da crise de acumulação, em nível da produção e gestão política nos países centrais do capitalismo, veio sob a forma de uma flexibilização da produção (acumulação flexível) em sintonia com um mercado consumidor cada vez mais segmentado, que trouxesse “a cara” daqueles a quem se destinariam os produtos, no segmento da indústria cultural.
No Brasil as conseqüências do processo acima descrito não são sentidas de modo imediato. Analisando o mercado de bens simbólicos nos anos de 1970, Ortiz (1995) observa, dentro do processo de consolidação da indústria cultural entre nós, uma tendência à nacionalização e a “standartização” da produção cultural, o que se evidencia pela formação de redes de televisão e de rádio que transmitem para todo o país uma mesma programação, quase que anulando a produção antes localizada, e respondendo às funções de integração nacional proposta pelos militares.
No entanto, ao longo dos anos 1980 e principalmente dos anos 1990 as transformações percebidas por Harvey (1989) passam a ser sentidas entre nós em diversas áreas. No que concerne ao rádio, algumas mudanças podem ser associadas a esse novo momento. Se de um lado a tendência à nacionalização e “standatização” se afirma, com o uso de satélites para transmissão em rede, a segmentação também passa a ser verificada. (DEL BIANCO, 1999). Além disto, o novo momento irá conviver com a popularização de tecnologias que se tornam cada vez mais baratas, como os transmissores, permitindo a emergência de rádios de pequeno porte que podem operar com custos reduzidos, como é o caso das radiocom. Rádios que antes funcionavam com alto-falantes ou com transmissores caseiros poderão “colocar a emissora no dial” com maior qualidade. Passa, então, a ser tecnicamente possível a uma pessoa, um grupo ou comunidade ter uma emissora de rádio.
sentidos de mudança identificados por Harvey (1989), de fortalecimento dos localismos e das singularidades, Glória Gohn (2002, p. 301), percebe na trajetória dos movimentos sociais um processo de valorização de sentidos e categorias que se relacionam a esta tendência. Ao discutir a nova concepção de sociedade civil e sua relação com a dinâmica dos movimentos sociais no contexto dos anos 1990, a autora afirma:
Este espaço [ocupado por instituições e situado entre o mercado e o Estado] é trabalhado segundo princípios da ética e da solidariedade, enquanto valores motores de suas ações, resgatando as relações pessoais, diretas, e as estruturas comunitárias da sociedade, dadas pelos grupos de vizinhança, parentesco, religião, “hobbies”, lazeres, as aspirações culturais, laços étnicos, afetivos, etc. 17
A valorização do sentido das relações comunitárias e da comunidade vai ser decisiva nos anos 1990 também como parte das críticas aos processos de globalização dos mercados e à incapacidade das nações e da comunidade internacional de agir e de dar respostas aos problemas locais. E vai caminhar lado a lado com as questões relacionadas à comunicação.
No que concerne aos meios de comunicação ligados aos movimentos sociais, essas mudanças serão percebidas dentro de um processo que defino como de “autonomização”: um processo que converte paulatinamente a comunicação produzida dentro dos movimentos sociais em um valor em si e não apenas um instrumento de divulgação dos movimentos e de suas demandas.
Doimo (1995, p. 136), citando Della Cava, afirma que a comunicação popular nasce “com o desenvolvimento do ‘movimento popular’ (...) para referir-se a toda sorte de iniciativas comunicacionais à base de tecnologias rudimentares (...) são iniciativas voltadas ao incremento de grupos de base, como cartilhas, boletins, folhetos, convocatórias, audiovídeo, alto-falantes na praça, dramatizações etc”18. Todavia, considerando o acúmulo de experiências nessa área e, como parte do momento de valorização de idéias como comunidade, e valores como a solidariedade, a comunicação passa a ter um outro espaço: ela se “autonomiza”. O
17 Grifos meus.
que significa que ela própria se constitui como um direito, que deve ser assegurado19.
Para esta mudança a presença da Igreja Católica através da Teologia da Libertação vai ser decisiva, na medida em que coloca questões para os movimentos como a “igualdade de condições de acesso aos sistemas de comunicação existentes para o Terceiro Mundo, a identidade cultural de todos os povos e, finalmente, a transformação, pelo Estado, dos meios de comunicação de massa em um sistema de comunicações do povo, para o povo e por ele dirigido” (DELLA CAVA, 1992, p. 68). A Campanha da Fraternidade de 1989, por exemplo, tem como tema “A fraternidade e a comunicação”.
O fato de a comunicação comunitária ter se tornado objeto de um debate jurídico sobre a liberdade de expressão e o direito de comunicar (COELHO NETO, 2002) se relaciona a esse movimento que transforma a comunicação em uma demanda específica.
O atual conflito no campo das emissoras comunitárias pode ser entendido também como parte dessa mudança. A demanda por um canal comunitário sai do espaço exclusivo dos movimentos sociais e se torna uma demanda de outros segmentos sem tradição de organização popular, como por exemplo, as igrejas evangélicas.
Num cenário de centralidade da comunicação20 e da informação diversos
grupos querem ter seu próprio canal de comunicação. A disputa se institui em torno de quem terá direito a ele.
Nessa nova ambiência, não apenas no plano dos movimentos sociais a comunicação é alçada a um outro patamar. Harvey (1989, p. 140), afirma que:
19 O surgimento de emissoras comunitárias e a demanda por liberdade para existirem se situam nesse ambiente.
20 Sobre a centralidade da comunicação na atualidade Castells (2002, p. 418) afirma, por exemplo,
Ela [a acumulação flexível] envolve um novo movimento que chamarei de ‘compressão espaço-tempo’ no mundo capitalista – os horizontes temporais da tomada de decisões privada e pública se estreitam, enquanto a comunicação via satélite, a queda dos custos de transporte possibilitaram cada vez mais a difusão imediata dessas decisões num espaço cada vez mais amplo e variado.
As tecnologias da informação transformam as bases materiais da sociedade e sua forma de compreender e viver o tempo e o espaço, que passam a ser mediados pela intensa presença dos meios de comunicação. A valorização de veículos de comunicação local como as radiocom pode ser lida como parte desse processo de mudanças.
Mas quais as particularidades desse processo em diferentes regiões do planeta? Para Jesus Martin-Barbero (2001, p.271. Grifos meus),
A comunicação está se convertendo num espaço estratégico a partir do qual podem pensar os bloqueios e as contradições que dinamizam essas sociedades-encruzilhada [as sociedades latino-americanas], a meio caminho entre um subdesenvolvimento acelerado e uma modernização compulsiva. Assim, o eixo do debate deve se deslocar dos meios para as mediações, isto é, para as articulações entre práticas de comunicação e movimentos sociais, para as diferentes temporalidades e para a pluralidade de horizontes culturais.
Trabalhando na linha dos estudos culturais e enfrentando a questão da centralidade da comunicação no contexto da América Latina, Martin-Barbero discute os vínculos entre hegemonia, cultura de massa e cultura popular. Sua proposta é entender os meios de comunicação a partir das inúmeras mediações das quais estes participam: práticas de comunicação, movimentos sociais, temporalidades distintas, pluralidade de horizontes culturais.
para entender os processos de negociação de sentido que se estabelecem entre a produção cultural de massa e a percepção formulada por quem a consome.
É a partir destes pressupostos que ele entende o rádio no contexto latino-americano, onde este desempenhará papel importante no processo de construção da nacionalidade, na medida em que é capaz de dialogar com matrizes da cultura popular como a oralidade:
Daí, também, o papel peculiar de certos meios massivos que, como o cinema e o rádio, constroem seu discurso com base na continuidade do imaginário de massa, com a memória narrativa, cênica e iconográfica popular, na proposta de um imaginário e uma sensibilidade nacionais. (MARTIN-BARBERO, 2001, p. 240).
Segundo Martin-Barbero (2001, p.242), são os meios de comunicação que se implantam a partir dos anos 1930, o rádio em especial, que irão oferecer “aos moradores das regiões e províncias mais diversas uma primeira vivência cotidiana da nação”. Thompson (1998) discute que o mesmo processo se realiza no século XV na Europa com a invenção da imprensa, quando os textos deixam de ser elaborados em latim e passam a ser escritos nos idiomas vernáculos. A presença das notícias sobre a nação em um idioma que pretende se afirmar como língua comum colabora para criar o sentido da nacionalidade e de pertencimento a esta.
Atualmente as radiocom oferecem uma outra experiência do espaço a seus ouvintes. Não a da nacionalidade, mas a da localidade, amplificada e mediada pelo rádio. Deste modo, as mediações e a mestiçagem que Martin-Barbero identifica nos processos de produção e de apropriação da comunicação massiva podem ser pensados para o que ele define como as “’novas maneiras de estar juntos’ pelas quais se recria a cidadania e se reconstitui a sociedade, a partir das associações de bairro para a resolução pacífica de conflitos, e das emissoras de rádio e televisão comunitárias para recuperar memórias e tecer novos laços de pertença ao território” (MARTIN-BARBERO, 2001, p. 21). Há na fala de Martin-Barbero uma grande esperança no papel dos meios como agentes dessas novas formas de interação.
comunidade, que os movimentos sociais a partir de um certo momento passam a promover21. Mas simultaneamente à esperança há um processo de negociação do
sentido e do espaço com grupos e instituições de poder, como o Estado e os proprietários dos meios de comunicação - para quem a comunicação se configura antes de tudo como um negócio, e a entrada de novos agentes é entendida em termos concorrênciais.
1.2 Conflito e “auto-imagem”
A negociação e os embates em torno do direito de uma rádio comunitária existir ocorrem em diferentes instâncias. No plano político, por exemplo, a formação de frentes parlamentares serve à defesa dos interesses destes agentes, o que já ocorreu tanto por parte de parlamentares ligados às radiocom22, quanto recentemente por deputados e senadores ligados à ABERT. No plano jurídico ocorre o ingresso de ações tanto por parte de emissoras comunitárias, quanto por rádios comerciais. No Ceará, como se verá adiante, as liminares garantiram o funcionamento de algumas radiocom durante certo tempo. Uma outra instância de conflito, entretanto, é de ordem simbólica, e se organiza a partir da auto-imagem, que desempenha importante papel na construção da legitimidade presente tanto nos discursos jurídicos, quanto políticos.
A auto-imagem é um conceito trabalhado em “Os estabelecidos e os ‘outsiders’” por N. Elias e Scotson (2000). Nessa obra seus autores elaboram um modelo operacional de leitura dos conflitos, a figuração “estabelecidos e ‘outsiders’”, tendo como matéria-prima um trabalho etnográfico. No povoado de “Winston Parva” a questão do conflito é entendida através da distinção de “status” construída pela “auto-imagem” dos grupos em processo conflituoso. A marca da distinção se
21 Criando inclusive um nicho discursivo onde essa dupla valorização é associada à democratização das comunicações.
situa num plano análogo àquele que constrói a imagem da civilização: a crença na superioridade de um dos grupos23.
O esforço de construção das crenças, na inferioridade ou na superioridade, ocorre de modo relacional e envolve os dois grupos. Os estabelecidos defendem suas posições a partir da auto-imagem que constroem de si e da que impõem aos “outsiders”. No caso analisado por Elias e Scotson os móveis do conflito entre dois grupos de trabalhadores, com perfis-socioeconômicos idênticos, não eram econômicos. A distinção e a crença nesta opunham os dois grupos. De um lado os “estabelecidos”, beneficiários da imagem de fundadores do pequeno povoado e guardiões do melhor de seus costumes e tradições. De outro lado os “outsiders”, moradores “comuns”, mal-vistos apenas por serem os mais recentes habitantes do lugar, sem direito às benesses da tradição e da imagem de quem há mais tempo se estabeleceu. O lucro simbólico na crença de tal distinção acaba por criar “status” e poderes diferenciados entre eles.
A auto-imagem torna compreensível o terreno sobre o qual as disputas irão se dar. Ela cristaliza a visão que um grupo tem de si e de suas possibilidades sociais. O conflito analisado por Elias e Scotson é mediado pela auto-imagem, que torna legítima ou ilegítima as pretensões de poder dos dois grupos sociais. E como
se dá a elaboração da auto-imagem?
Parte do processo posto em movimento pela figuração “estabelecidos e ‘outsiders’”, é o que Elias e Scotson chamam de “sociodinâmica da estigmatização”.
Estigmatizar torna-se um expediente eficaz na medida em que manipula representações positivas e negativas de ambos os grupos nas relações mútuas que estabelecem. A manipulação tem como alvo a auto-imagem do grupo a ser atingido, cuja crença na própria inferioridade pode ser decisiva na aceitação de um diferencial
de poder negativo e de uma posição social de subordinação.
A imagem que um grupo forma de si e dos outros é mediada pelo estigma que orienta as ações e toda uma economia emocional levada a cabo pelas relações
de vizinhança. Assim, a “superioridade de forças é equiparada ao mérito humano e este a uma graça especial da natureza ou dos deuses” (ELIAS; SCOTSON, 2000, p. 26). Essa dinâmica de estigmatização exige um investimento constante na distinção e em sua justificação, através da crença de que existe, de fato, uma diferença inata entre os grupos.
Elias e Scotson enfatizam que em todo o processo de estigmatização as crenças são os móveis da disputa de poder. Elas se constituem como a matéria prima da composição da auto-imagem dos grupos que, de modo processual, tal qual as identidades, re-elaboram-se constantemente.
Ainda que no caso das radiocom a auto-imagem não possa ser tomada nos mesmos termos de uma relação de vizinhança, como acontece em “Winston Parva”, a construção de uma determinada imagem das rádios e de seu movimento se torna fundamental na disputa de poder, de legitimação e de território que as rádios enfrentam.
Essa imagem é elaborada não apenas pelas radiocom, mas também pelas diversas instâncias que com elas se relacionam: rádios comerciais, entidades representativas dessas emissoras, em nível local e nacional, órgãos de governo e meios de comunicação de massa. A formulação da auto-imagem, bem como sua aceitação ou negação, ocorre de modo relacional, e opera um jogo de forças onde a prevalência de uma percepção positiva ou negativa sobre as radiocom traz conseqüências para o seu reconhecimento social, o que acontece antes e depois da aprovação da Lei 9.612.
Por isso, a estigmatização aparece como dado importante do processo, legitimando ou deslegitimando socialmente a presença das radiocom junto a opinião pública.
emissoras comerciais transformaram-no em uma questão que extrapola o campo da radiodifusão e invade outras instâncias sociais, ampliando o interesse da opinião pública e manipulando-o a seu favor através da idéia de perigo.
Do lado das radiocom, a necessidade de respaldar constantemente o movimento em torno da imagem de democratização e da ação comunitária, se choca com as constantes denúncias na imprensa de emissoras que funcionam como rádios comerciais de baixa potência ou são colonizadas por interesses políticos e religiosos. Torna-se necessário ainda, para as radiocom, retorquir a representação de ilegalidade, clandestinidade, pirataria, oportunismo e perigo a elas imposta pelas emissoras comerciais e suas entidades representativas24.
Os processos de formulação de uma valoração positiva e do orgulho que a auto-imagem pode carregar permite compreender o que acontece com as radiocom; ainda que neste caso aspectos afetivos da percepção de um grupo humano não sejam a questão central. Em relação às radiocom a auto-imagem torna perceptível o processo de construção, ou não, do reconhecimento e da legitimação das emissoras sem outorga que se definem como comunitárias. Um dos mecanismos de legitimação se processa pelo uso da idéia de comunidade, e dos valores imanentes a estas, que são vistos de modo positivo, e por vezes idealizado, e se fariam presentes na programação, na organização e na relação das emissoras com os ouvintes e o lugar onde se estabelecem.
Exemplo da elaboação da auto-imagem pode ser percebido no Jornal “ABRAÇO no Ar”, que detalharemos a seguir. Neste informativo as radiocom aparecem como portadoras de uma utopia revolucionária: são agentes do aperfeiçoamento social, da democratização, do fortalecimento identitário e da solidariedade. Ações legitimadoras que se opõem a idéias como pirataria, perigo, clandestinidade e crimes, muitas vezes associadas às emissoras. Acompanhe alguns trechos:
Agora é a vez das rádios comunitárias assumirem a responsabilidade da continuidade no aperfeiçoamento de nossa sociedade, da democratização das informações, da cultura e das formas de se relacionar das comunidades em todos os rincões brasileiros, promovendo uma verdadeira revolução com o fortalecimento da identidade cultural local, estimulando a solidariedade entre os cidadãos e provocando a auto-estima nas pessoas (...).
Em outro trecho do jornal tem-se o reforço à imagem transformadora das radiocom, quando elas são apresentadas como “novidade revolucionária”, meio possível de controle coletivo e realização da cidadania, que não podem existir fora delas:
Uma rádio comunitária é algo novo. Com ela se pretende uma revolução política, social e cultural do país – a partir da tribo, da vila do povoado, do grande coração brasileiro. A rádio comunitária é o último meio de comunicação que a população pode de fato possuir e controlar neste final de século. (...) Fora das comunitárias o que vale é o dinheiro. O cidadão não existe, a comunidade não existe (...). Por tudo isso uma rádio comunitária não pode copiar uma comercial (..). A dificuldade é como fazer uma rádio que não siga este modelo que aí está?
O jornal afirma a positividade e a legitimidade dos valores locais, representados pelas radiocom, contra a globalalização, apresentada como excludente e centralizadora:
O movimento de rádios comunitárias é a resistência contra a globalização, centralizadora e excludente, que está se propagando como um furacão sobre a soberania dos povos, onde grandes grupos financeiros é que ditam quem participa ou não do mundo globalizado.
No “ABRAÇO no Ar”, a idéia “rádio comunitária” é usada para explicar as potencialidades da comunicação voltada para a comunidade. Do ponto de vista da disputa política entre radiocom e rádios comerciais, essa interpretação é uma das ferramentas usadas no jogo de legitimação, através da formação de uma imagem com forte conotação progressista e libertária.
Como a história das comunicações no Brasil é a narrativa da concentração dos meios em monopólios estatais, como nos anos 1930 (CAPELATO, 1998) ou dos monopólios privados (SORJ, 2003; NUNES, 2003), como ocorre atualmente, a auto-imagem das rádios se constrói atrelada a essa história, e se apresenta como uma resposta de equilíbrio aos desequilíbrios criados pela concentração, sendo em grande medida uma afirmação pela negação. Como afirma Costa Jr (1999),
As rádios comunitárias fundaram-se como alternativas e construíram sua identidade pela negação do outro que é representado pelas rádios oficiais. Mostram-se como lugar do bem, da liberdade de expressão, em oposição ao lugar da censura e da alienação. Fundaram-se como lugar da possibilidade real de participação da comunidade, em resistência aos mecanismos de exclusão na mídia oficial.
1.3 A noção de comunidade e as rádios comunitárias
Desde Tönnies (1995) a leitura das relações sociais constrói uma dupla tipificação. De um lado teríamos as relações organizadas em torno daquilo que o autor define como comunidade, e de outro as relações próprias de um universo definido como a sociedade. Na primeira as relações seriam pessoais, marcadas pelos contatos face-a-face e pelos laços afetivos que fazem seus participantes manterem-se nela. Na segunda os homens fundariam uma união com base em finalidades objetivas que podem ser melhor alcançadas em grupo. Em Tönnies, o fundamento de tal distinção é psicológico e orientado por dois tipos de vontade: a vontade orgânica [Wesenwille] e a vontade reflexiva [kürwille].
A força emanada das vontades constrói tipos distintos de interação. Na primeira, a comunidade, atua a vontade orgânica, fruto do desejo, da afetividade e da memória, construto que torna o prazer de conviver em um ambiente comum o maior dos estímulos. “A Wesenwille [vontade orgânica], nas suas divisões de vontade vegetativa, mental e animal, expressa-se no prazer, no hábito e na memória”. (BELLEBAUM, 1995, p. 79).
Na sociedade, de outro lado, a vontade imperativa é a vontade reflexiva, orientadora de um modelo de racionalidade orientada a fins, para usar os termos de Weber (1994), e cuja associação se dirige de modo objetivo, com vistas a tornar saciáveis certas necessidades. “A Kürwille [vontade reflexiva], como forma de vontade isolada e autônoma, implica refletir, desejar e conceber”. (BELLEBAUM, 1995, p. 79). As necessidades e formas de organização associativas são reflexivas e tendem a se tornar impessoais e complexas, afastando-se paulatinamente dos limites locais.
comunidade o lugar em que a moral é vivida de forma mais efetiva, dominada que é pela busca de um valor ético que se identifica com a unidade viva que forma a comunidade”. (FREUND, 1980, p. 213).
Da forma como constrói sua argumentação, Tönnies opõe, através da dupla tipologia das vontades, um antagonismo que parece não poder ser resolvido. Assim, apesar de comunidade e sociedade serem apresentadas como necessárias, a comunidade aparece de modo positivo, alvo para o qual parece se voltar na busca de uma interação mais humana. Já a sociedade é carregada de negatividade. A frieza, a impessoalidade e o individualismo que ela porta são vistos como elementos desumanizantes, ainda que construam uma unidade.
Já para Weber (1994), o que confere a uma relação o caráter comunitário é a pertença, vínculo afetivo que configurará o grupo. Deste modo, para ele, “uma relação social denomina-se de 'relação comunitária' quando e na medida em que a atitude na ação social – no caso particular ou em média ou no tipo puro – repousa no sentimento subjetivo dos participantes de pertencer (afetiva ou tradicionalmente) ao mesmo grupo” (1994, p. 25).
O sentido atribuído à ação social e ao outro ao qual ela se dirige é dado, segundo Weber, a partir do sentimento de mútuo pertencimento partilhado pelos membros da comunidade, o que o aproxima de Tönnies e de sua noção de vontade orgânica. Como afirma:
Somente quando, em virtude desse sentimento ['sentimento da situação comum e das respectivas conseqüências'], as pessoas começam de alguma forma a orientar seu comportamento pelo das outras, nasce entre elas uma relação social – que não é apenas uma relação entre cada indivíduo e o meio circundante - e só na medida em que nela se manifesta o sentimento de pertencer ao mesmo grupo que exista uma 'relação comunitária' (WEBER, 1994, p. 26).
usadas para defender as possibilidades da comunicação por elas produzidas, marcada por idéias como participação direta, solidariedade e democratização.
Numa situação de conflito essas imputações positivas se opõem a um leque de sentidos negativos usados pelos seus opositores, como “piratas”, “ilegais”, “clandestinas” ou “perigosas”, que lhes nega a caracterização de veículo legítimo de comunicação de uma localidade.
O recorte das relações de disputa, no estudo das radiocom, expõe a própria dinâmica conflituosa das comunicações no Brasil. Para Simmel(1977), o conflito se constitui como evidência do processo de socialização, surgindo como um dos elementos definidores dos rumos das interações sociais.
Em La Lucha (1977), Simmel elabora um panorama dos conflitos humanos e defende a tese de que a disputa é um antídoto contra o “dualismo disociador, una vía para llegar de algún modo a la unidad, aunque sea por el aniquilamento de uno de los partidos” (1974, p. 265). A compreensão sociológica dos mecanismos de equilíbrio social, para ele, deve ser buscada nas disputas e não na idéia utópica de harmonia social perene. Assim, a existência dos diferentes grupos sociais se manifesta pela necessidade de negociar seus interesses, nem sempre convergentes, em situações de disputa. As disputas, que podem gerar conflitos sangrentos ou não, são a marca das sociedades, enquanto que as diferentes formas em que o conflito se estabelece permitem entender a própria dinâmica social.
Em relação ao campo da radiofonia brasileira, a dinâmica do conflito evidencia uma busca por visibilidade através da apropriação de um veículo de comunicação. Os diversos formatos de radiocom indicam que ela pode se pautar por interesses religiosos, político-partidários, mercadológicos ou ainda na tradição dos movimentos sociais na área de comunicação. Assim, diferentes discursos se organizam e representam segmentos da sociedade em busca de visibilidade: seja ela política, social, comercial ou cultural.
públicos e dos dispositivos que se perdem ou se recriam para o reconhecimento ou a proscrição das múltiplas vozes presentes em cada sociedade” (CANCLINI, 1999, p. 21).
1.4 Conflito, visibilidade e espaço público
A remodelação dos espaços públicos passa, na percepção do autor, pela ascensão do consumo como uma forma de exercício da cidadania, na medida em que produz a mediação entre os sujeitos e o mundo. O olhar sobre o que se consome, bem como sobre o significado social deste processo considera que “quando selecionamos os bens e nos apropriamos deles, definimos o que consideramos publicamente valioso, bem como os modos como nos integramos e nos distinguimos na sociedade, com que combinamos o pragmático e o aprazível” (CANCLINI, 1999, p. 45).
O consumo, a cultura e a cidadania passam a ser vistos de modo conjugado. Daí que, como afirma Canclini:
Ser cidadão não tem a ver apenas com os direitos reconhecidos pelos aparelhos estatais para os que nasceram em um território, mas também com as práticas sociais e culturais que dão sentido de pertencimento, e fazem com que se sintam diferentes os que possuem a mesma língua, formas semelhantes de organização e de satisfação das necessidades (CANCLINI, 1999, p. 46).
Há assim um deslocamento da cidadania para a arena dos meios de comunicação e do consumo, que tornam o exercício de ser cidadão efetivo, seja pelo acesso à informação, que é mediado pelo consumo dos meios, seja pela compra daquilo que é necessário à reprodução da vida em padrões confortáveis. Em relação aos meios de comunicação, o autor afirma:
maneiras de se informar, de entender as comunidades a que se pertence, de conceber e exercer os direitos (CANCLINI, 1999, p. 50).
O surgimento dessas relações entre consumo e cidadania supõe um passado que se inicia ainda com a invenção da imprensa. A produção de impressos e suas conseqüências para o desenvolvimento das sociedades modernas já foram discutidas por muitos autores, entre eles Habermas (1984), Rodrigues (2001) e Thompson (1998). Em seus primórdios, aquilo quehoje chamamos de comunicação de massa aparece e se legitima como espaço por excelência de manifestação da “sociedade civil”,25 formando o que Habermas (1984, p. 40) define como “esfera pública burguesa”, entendida como “o fórum para onde se dirigiam as pessoas privadas a fim de obrigar o poder público a se legitimar perante a opinião pública”.
A gênese dessa nova esfera pública se confunde com o próprio surgimento da modernidade e o nascimento de uma nova classe social, a burguesia, que passa a exigir um espaço de discussão e crítica, antes só acessível à sociedade de côrte. No período em que essa classe afirma seu papel revolucionário, ela reclama o controle do Estado por aquilo que será depois tratado como “opinião pública”. Como afirma Habermas (1984, p. 38):
Ela [a esfera pública], enquanto tal, desenvolve-se especialmente à medida que o interesse público na esfera privada da sociedade burguesa não é mais percebido apenas pela autoridade, mas também é levada em consideração pelos súditos como sendo a sua esfera própria.
Os circuitos de informação - inicialmente fechados aos grupos de comerciantes26 - passam, com a invenção da imprensa e o desenvolvimento dos
primeiros periódicos, a ser publicizados e destinados a um “público”: o público burguês letrado e interessado na ingerência das questões de Estado que afetavam diretamente os seus negócios, que não eram mais apenas negócios domésticos,
25 Em Habermas a sociedade civil aparece, durante o período que analisa, como oposta à ordem estatal e se organiza a partir da então emergente classe burguesa.
haviam rompido a barreira privada e tornavam-se de interesse público à medida que se constituíam como mercados.
Nessa fase, o hábito de discutir em público e a partir de uma perspectiva de crítica às questões de interesse “comum”, que na verdade são próprias de uma esfera privada, tem lugar nos cafés e nos salões, “centros de uma crítica inicialmente literária e, depois, também política, na qual começa a se efetivar uma espécie de paridade entre os homens da sociedade aristocrática e da intelectualidade burguesa” (HABERMAS, 1984, p. 48).
Ao passo que “a troca de informações desenvolve-se não só em relação às necessidades do intercâmbio de mercadorias, as próprias notícias tornam-se mercadorias” (HABERMAS, p. 35). Os jornais, um dos primeiros meios de comunicação a atingir as massas, se constituem como precursores de uma indústria de bens culturais que tem em seu âmago a tensão entre o fato de ser um produto e de, ao mesmo tempo, se colocar como porta-voz da crítica social e dos interesses comuns.
Como mercadoria cultural o sentido de crítica dos primeiros momentos dessa produção é esvaziado, inclusive pela mudança no papel da burguesia que, de força transformadora se converte, com sua chegada ao poder, em força conservadora. Essa tensão não se dissipa com o desenvolvimento da indústria cultural e é um dos temas que compõe as discussões sobre a democratização das comunicações, tocando de perto o universo das rádios comunitárias, cuja proposta é romper diversos níveis de restrições: culturais, econômicas, políticas, informacionais, pelo descompromisso com a obtenção de lucro que marca os veículos comerciais.
Entretanto as próprias radiocom irão se constituir como um mercado. As possibilidades de trabalho, de venda de equipamentos, de atração de pequenos anunciantes, entre outros aspectos, sugerem essa leitura.
apropriar, e um apelo constante à ampliação do acesso às comunicações, realizado não apenas pelo papel de consumidores, mas também de produtores. O espaço dessas manifestações pode ser entendido como uma “esfera pública plebéia” (THOMPSON, 1998).
Todavia, o olhar de Habermas acaba por se fechar no espaço público burguês. Alguns autores criticam essa percepção afirmando a existência de um conjunto de outras manifestações que foram tão importantes para a constituição de uma esfera pública moderna quanto a participação burguesa. Para Thompson (1998, p. 69):
Dirigindo [Habermas] a atenção à esfera pública burguesa, ele tende a negligenciar a importância de outras formas de discurso e atividades públicas que existiram nos séculos XVII, XVIII e XIX na Europa, formas que não fizeram parte da sociabilidade burguesa, em alguns casos dela foram excluídos ou a ela se opuseram. (...) Da mesma forma que a esfera pública burguesa emergente se definiu em oposição à autoridade tradicional do poder real, assim também se confrontou com o levante dos movimentos populares que ela procurou conter.
As críticas também se referem à ênfase excessiva no papel da imprensa no início do século XVIII e ao caráter restritivo dessa esfera que “não somente era destinada às elites instruídas e afluentes, mas também implicava uma reserva predominantemente masculina” (THOMPSON, 1998, p. 70). Em favor dessa linha de argumentação, Stuart Hall atenta para o fato de que “a imprensa liberal da classe média da metade do século XIX foi construída às custas da efetiva destruição e marginalização da imprensa local radical da classe trabalhadora” (2003, p. 251). Exercício que se repete hoje com a marginalização pela grande imprensa comercial brasileira das rádios comunitárias.
1.5 A formação da “auto-imagem”: entre a “cultura comercial popular” e a “cultura alternativa”