Vendas de combustíveis no Brasil (mil m³/dia)

Texto

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Combustíveis

FCStone do Brasil

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Mercado de petróleo e câmbio determinarão a demanda de etanol e gasolina no Brasil em 2019

Retrospectiva: como o petróleo e o câmbio influenciaram o mercado em 2018 O mercado de etanol tem apresentado comportamento singular na safra 2018/19 (abr-mar) no Centro-Sul do Brasil, uma vez que os preços do biocombustível registraram variações relativamente bruscas ao longo do ciclo. Apesar do mix mais alcooleiro das usinas levar à forte produção, as cotações do álcool permaneceram acima dos patamares observados em anos anteriores. Essa tendência pode ser explicada, em grande parte, pelo petróleo e pela taxa de câmbio brasileira.

Entre meados de 2017 e setembro deste ano, os preços internacionais do petróleo tiveram significativa valorização. Nesse período, o rápido crescimento da demanda pelo barril, pu- xada especialmente pelos asiáticos, teve papel fundamental na alta. A diminuição da pro- 23 de novembro de 2018

Vendas de combustíveis no Brasil (mil m³/dia)

Fonte: ANP.

0 20 40 60 80 100 120 140 160

2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 Etanol Hidratado Gasolina Comum

Retrospectiva: como o petróleo e o câmbio influenciaram o mercado em 2018.

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Movimentação recente:

colapso do petróleo, valorização do real e estoques forçam usinas a reduzir o preço do etanol. Pág.3

Perspectivas para 2019.

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dução da Organização dos Países Exporta- dores de Petróleo (OPEP) também teve im- pacto importante, com destaque para a Venezuela, onde a falta de investimentos, em meio à crise econômica e política, redu- ziu a extração de óleo de 2,12 milhões de barris por dia (mbpd) em julho de 2017 pa- ra 1,43 mbpd no último setembro. Em 2018, a imposição de um embargo contra o Irã pelos Estados Unidos, após sua decisão de deixar o Acordo Nuclear com o país, amea- çou retirar mais 1,4 mbdp de petróleo do mercado.

Concomitantemente, a taxa de câmbio do real com o dólar saiu de um patamar de relativa estabilidade, ao redor de BRL 3,10- 3,30/USD em 2017, e disparou, chegando a atingir BRL 4,208 no fechamento de 13 de setembro. Uma mistura de fatores internos e externos provocou esse movimento. No Brasil, a incerteza eleitoral foi o principal fator altista. No exterior, o aperto monetá- rio – após uma década de alívio – causado pela redução dos ativos dos bancos centrais americano, europeu e japonês promoveu um fluxo de capitais de países emergentes em direção aos desenvolvidos.

Visto que a nova política de preços da Pe- trobras prevê que a venda de gasolina às distribuidoras no mercado doméstico seja feita com base nos preços internacionais, as cotações da gasolina no Brasil apresenta- ram forte elevação no período. O valor mé- dio da gasolina A praticado pela empresa avançou de BRL 1,546/L na média de feve- reiro para BRL 2,225/L em setembro. Essa alta foi repassa às bombas: o litro do com- bustível fóssil nos postos de São Paulo, por exemplo, valorizou-se em cerca de 39,5%

no período.

Neste sentido, a paridade entre o etanol e a gasolina no Centro-Sul chegou a atingir pouco mais de 59,0% no fim de agosto, re- presentando uma queda anual de 10,5 pon- tos percentuais. Considerando o poder ca- lorífico de ambos combustíveis, a paridade de equilíbrio seria aproximadamente 74%, mas a razão de 70% é geralmente adota como o ponto de balanço entre os dois pro- dutos no mercado, visto a preferência do consumidor pela gasolina. O diferencial de preço entre os dois produtos foi tão amplo que, mesmo com a alta sazonal do biocom- bustível a partir do fim do 3º trimestre, a

Fontes: ANP, Denatran, INTL FCStone.

Paridade de preço etanol / gasolina em cada estado brasileiro (média de outubro)

50%

55%

60%

65%

70%

75%

80%

85%

90%

0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100

Paridade de preço etanol / gasolina

Participação na frota de carros (%)

SP MG GO

PR

RJ

SC RS 68% da frota brasileira de

carros se encontra em estados com paridades

favoráveis ao etanol

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paridade média no cinturão canavieiro não ultrapassou os 65%. Cabe destacar que a tendência se repetiu em outras regiões, co- mo no Norte e Nordeste do país, embora a maior parte desses estados continuem com paridades pouco atrativas ao consumo do etanol.

Desta forma, a demanda etanol permane- ceu significativamente mais aquecida ante a anos anteriores. No mês de setembro, o consumo de hidratado renovou a máxima histórica no Brasil e atingiu 60 mil m³/dia - volume que representa um crescimento de 37,3% em relação ao mesmo mês do ano anterior. O consumo de gasolina, por sua vez, encolheu 17,4% nesses 12 meses, apre- sentando uma média de 96,4 mil m³/dia,

mínima desde julho de 2011.

Movimentação recente: colapso do petróleo, valorização do real e esto- ques forçam usinas a reduzir o preço do

etanol

Usualmente, o fim do terceiro trimestre é caracterizado como o período em que a colheita de cana-de-açúcar no Centro-Sul do Brasil começa a se aproximar do fim. Em meio a um menor output de etanol, os pre- ços do biocombustível começam a se valo- rizar – uma vez que usinas tendem a depen- der cada vez mais de seus estoques. Contu- do, a situação no ciclo 2018/19 têm se mos- trado atípica ante à sazonalidade.

De fato, as cotações do hidratado registra- ram valorização até o fim de outubro. Des- de então, as cotações PVU (Posto-Veículo- Usina) reverteram essa movimentação e acumularam queda de 10,7% em Ribeirão Preto. Ressalta-se que, no mesmo período do ano passado, o preço do hidratado na região supracitada havia se elevado em 10,1%.

Em consequência, as cotações nos postos de alguns estados começaram a recuar – ainda que a desvalorização nas usinas não tenha sido completamente repassada aos consumidores finais. De acordo com a ANP, o preço médio do hidratado em São Paulo atingiu R$ 2,76/L no fim da primeira quinze- na de novembro, diminuição de 1,8% ante ao fim de outubro. Novamente, as oscila- ções do biocombustível foram reflexo da forte retração do petróleo no mercado in- ternacional, bem como dos recentes ajustes das cotações da gasolina A no Brasil.

No último mês e meio, o preço do petróleo entrou em colapso, recuando mais de 25%

em comparação com as máximas do final de setembro. Esse movimento foi causado por uma reversão nas expectativas de défi- cit para superávit no saldo de oferta e de- manda no curto prazo. As sanções contra o Irã retirarão muito menos barris do merca- do do que se previa, visto que os Estados Unidos distribuíram isenções aos principais importadores do país persa. Os americanos

Evolução dos preços médios do etanol e da gasolina nas bombas em SP

Fonte: ANP.

0,0 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 3,5 4,0 4,5 5,0

2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 Gasolina Etanol

Preços da gasolina A no Brasil seguem o mercado internacional

Fontes: Petrobras, Bloomberg, INTL FCStone. ¹Preços às distribuidoras, sem tributos.

1,0 1,2 1,4 1,6 1,8 2,0 2,2 2,4

fev-18 abr-18 jun-18 ago-18 out-18

Gasolina A (R$/L)¹ Nafta Noroeste Europa (R$/l)

Correlação: 98%

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aumentaram significativamente sua própria produção, explorando os campos de xisto, e já são os maiores produtores mundiais, ex- traindo cerca de 11,7 mbpd. No lado do consumo, o intenso ritmo de crescimento da demanda asiática deve se arrefecer em 2019. A desaceleração econômica prevista em meio ao aperto monetário nos países desenvolvidos e a corrente guerra comerci- al entre os Estados Unidos e a China tende a diminuir a procura por derivados de pe- tróleo, movimento que é acentuado pela desvalorização das moedas dos países emergentes.

Especificamente para a gasolina, o cenário ficou ainda mais baixista. Seu prêmio em relação ao petróleo recuou substancial-

mente nos últimos meses, devido aos seus estoques elevados. O consumo mundial de óleo diesel cresce rapidamente – movimen- to que deve continuar até 2020, uma vez que embarcações em águas internacionais terão que substituir seu combustível do óleo residual pelo diesel até lá, por deter- minação da Organização Marítima Interna- cional –, o mercado precifica isso e as ele- vadas margens de produção de diesel man- têm as refinarias de petróleo ativas e ofer- tando, consequentemente, mais gasolina.

Para completar, a produção de petróleo leve, cujo rendimento de gasolina em rela- ção ao diesel é maior, cresce num ritmo muito mais rápido que o de pesado ao re- dor do mundo, graças ao xisto americano e a redução da oferta de produtores de pe- tróleo pesado, como a Venezuela.

Enquanto o petróleo despencava, a elimi- nação da incerteza eleitoral no Brasil aju- dou o real a se valorizar frente ao dólar, também agindo de maneira baixista aos preços da gasolina no país. O último preço médio da gasolina A anunciado pela Petro- bras é de USD 1,5556/L, já 30,9% abaixo da máxima de setembro.

A queda abrupta dos produtos fósseis, em meio aos estoques de etanol mais elevados dos últimos anos, ameaçou a competitivida- de do etanol nas bombas, forçando a maio- ria das unidades produtoras a diminuir a pedida pelo biocombustível. Em resposta, a paridade, que usualmente se eleva neste período do ano, recuou para 63,5% na se- mana do dia 16 – a primeira diminuição desde o fim de agosto.

Perspectivas para 2019

O consumo total de combustíveis em moto- res de ciclo Otto (gasolina C e etanol hidra- tado) no Brasil está correlacionado a dois fatores: crescimento econômico (que deter- minará o tamanho da frota de veículos no longo prazo) e preços dos combustíveis (que determinará a decisão do motorista de dirigir ou não no médio prazo).

Desde 2014, a recessão econômica limitou o crescimento da frota de veículos, criando uma resistência ao avanço do consumo de

Estoques de etanol hidratado no Centro-Sul

Fontes: MAPA, INTL FCStone.

0 1 2 3 4 5 6 7 8

16-abr 16-jun 16-ago 16-out 16-dez 16-fev

Mín-Máx (4 anos) 2018/19 2017/18 Média (4 anos)

Relação inversa entre a paridade de preço e o consumo

Fontes: ANP, INTL FCStone.

0%

10%

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90%

2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 Participação do etanol hidratado nas vendas de combustíveis Otto Paridade de preço etanol / gasolina na bomba em SP

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combustíveis, após vários anos consecuti- vos de alta. Em 2018, apesar da leve recu- peração econômica, os elevados preços dos combustíveis e o desabastecimento causa- do pela greve dos caminhoneiros em maio causaram nova queda na estatística de con- sumo. Em 2018 até setembro, o consumo médio de etanol hidratado no Brasil foi de 48,8 mil m³/dia, e o de gasolina C, 105,7 mil m³/dia. Considerando o poder calorífico médio dos dois produtos, estimamos que o consumo total de energia dos motores Otto tenha sido de 1.129 GWh/ dia, o que repre- senta um recuo de 4,6%

em relação à média do ano passado.

Nossa perspectiva é de uma aceleração mode- rada do crescimento do PIB e 2019 e 2020, re- tornando para a média das últimas décadas para a economia brasi- leira, de 2,5% a.a. A me- lhora na confiança dos

agentes com a vitória das propostas econô- micas da campanha de Jair Bolsonaro nas urnas tende a contribuir para destravar in- vestimentos e imprimir um ritmo mais dinâ- mico à demanda no país.

O cenário externo mais avesso ao risco e os desequilíbrios nas contas públicas brasilei- ras são os principais limitantes para o po- tencial de crescimento nos próximos anos.

A guerra comercial travada entre Estados Unidos e China tem reduzido a corrente global de comércio, deteriorando as pers- pectivas de crescimento da economia mun- dial, com maior peso sobre as economias chinesa e emergentes fornecedoras de ma- térias-primas e componentes ao gigante asiático. A contração das condições finan- ceiras globais, com a retirada de estímulos monetários na União Europeia e a elevação gradual do referencial de juros do Federal Reserve, também aponta para o início de um movimento de reversão nos fluxos de capital ao redor do mundo, com fuga de recursos aplicados em mercados de economi- as emergentes de volta para as principais pra- ças financeiras das eco- nomias avançadas.

Os déficits fiscais cres- centes incorridos nos últimos anos, que colo- caram a dívida pública brasileira em trajetória acelerada de ex- pansão, estrangularam a capacidade de investimento do Estado brasileiro e acentu- aram as preocupações dos investidores com a sustentabilidade do endividamento.

Sem novidades até o momento no que diz respeito ao avanço das reformas do ajuste fiscal que serão adotadas pelo governo eleito e diante de um Congresso bastante dividido, que torna incerta a aprovação des- sas medidas, ainda é cedo para supor que otimismo com o próximo governo perdura- rá.

Em 2019, considerando e previsão de cres- cimento econômico de 2,5%, estimamos que o consumo de combustíveis voltará a subir, avançando 3,7% em comparação com o ano atual para 1.171 GWh/dia. Em volu- me, esse avanço levaria o consumo de com- bustíveis de 154,4 mil m³/dia em 2018 para 160,1 mil m³/dia em 2019, supondo que a participação de cada um dos produtos per- maneça a mesma. A parcela do etanol e da gasolina, todavia, será determinada pela evolução da paridade de preços na bomba.

Desta forma, as perspectivas para o etanol nos próximos meses tendem a ser, em gran-

Projeções de crescimento para a

economia brasileira (%)

Fontes: FMI, OCDE, BCB, INTL FCStone.

Fonte 2018 2019 2020

FMI 1,4 2,4 2,3

OCDE 1,2 2,1 2,4

Focus 1,4 2,5 2,5

INTL FCStone 1,4 2,5 2,5

Relação entre crescimento econômico e consumo de combustíveis

Fontes: ANP, IBGE, INTL FCStone.

0 200 400 600 800 1000 1200 1400

2001 2003 2005 2007 2009 2011 2013 2015 2017 2019 Consumo de combustíveis Otto (GWh/d)

PIB (bi BRL - valores de 95)

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de parte, determinadas pelas movimenta- ções do petróleo e da gasolina. Caso o bai- xo patamar dos produtos fósseis persista, as cotações do biocombustível podem conti- nuar pressionadas – mesmo durante o perí- odo de entressafra no Centro-Sul.

O cenário futuro para o petróleo e para a gasolina ainda se encontra bastante indefi- nido. Apesar da reversão dos fundamentos, a intensa queda recente do óleo pode ser vista como exagerada, provocando recupe- rações. A cúpula do G20 e a reunião ordiná- ria da OPEP, nos dias 31/11 e 06/12, respec- tivamente, também trarão importantes no- vos fundamentos para esses mercados. Não há uma clara direção para os preços por enquanto, mas os contratos futuros do pe- tróleo Brent apontam para uma sutil reto- mada nos primeiros meses de 2019.

Contudo, é importante relembrar os fatores que podem oferecer suporte aos preços do álcool. Em meio ao amplo diferencial entre as cotações do etanol e da gasolina, a pari- dade tem espaço para crescimento sem que haja o comprometimento da competiti- vidade do biocombustível. Isso significa que, mesmo em meio a novas quedas do combustível fóssil, o álcool pode se valori- zar sem perder sua atratividade ao consu- midor final.

Neste sentido, espera-se que a demanda continue aquecida, proporcionando viés altista às cotações do álcool. Este contexto é evidenciado pelos estoques do produto no Brasil: apesar de se manter expressiva- mente acima de anos anteriores ao longo da safra, a tancagem do biocombustível começou a recuar de forma antecipada em 2018/19.

Ainda que estimar patamares de preço para o etanol no longo prazo seja complexo, especialmente quando se considera os mui- tos fatores discutidos nessa matéria, é pre- ciso destacar a possibilidade de alta nas cotações frente à gasolina. Isso porque, ao analisar dados dos últimos anos, observa-se que a proporção entre os preços dos dois produtos tende a retornar à média histórica – principalmente após períodos atípicos.

Por fim, a projeção de menor produção de etanol por usinas do Centro-Sul em 2019/20

também será outro ponto de atenção. Caso os preços do etanol encontrem resistência para subir, sua atratividade frente ao açú- car pode diminuir – principalmente se as perspectivas de menor produção do ado- çante no Hemisfério Norte se intensifica- rem. Assim, unidades produtoras podem destinar uma maior parcela de sua capaci- dade à produção de açúcar. Vale lembrar que nós da INTL FCStone estimamos, com base numa ampla pesquisa com usinas, que o mix açucareiro no próximo ciclo cresça em relação a 2018/19, para 39,7% (+4,6 pontos percentuais) e que, consequente- mente, a produção de etanol hidratado de cana no Centro-Sul recue 16,7% para 17,4 milhões de m³. Considerando também a produção projetada de etanol de milho no Centro-Sul, e de cana no Norte-Nordeste, estimamos que a oferta total de hidratado no país recuará cerca de 13,4%.

Supondo que o consumo de etanol hidrata- do no Brasil recue no mesmo montante, as vendas de álcool em 2019 registrarão uma média de 42,2 mil m³/dia. Para abastecer a alta esperada no consumo total de combus- tíveis Otto, as vendas de gasolina C terão que subir 9,6%, para 115,8 mil m³/dia. Consi- derando a produção nacional média dos últimos anos, o país teria uma necessidade de importação de 7,87 mil m³/dia de gasoli- na A. A participação do etanol hidratado nas vendas de combustíveis Otto no Brasil, portanto, recuará cerca de 4,9 pontos per- centuais, para 26,7%.

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