MEMÓRIAS DE UMA MOÇA MALCOMPORTADA: uma vida inesperada

Texto

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MALCOMPORTADA:

uma vida inesperada

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Diretoria Administrativa da EDUFRN Maria da Penha Casado Alves (Diretora) Helton Rubiano de Macedo (Diretor Adjunto) Bruno Francisco Xavier (Secretário) Conselho Editorial

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Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo Secretária Adjunta de Educação a Distância Ione Rodrigues Diniz Morais

Coordenadora de Produção de Materiais Didáticos Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo

Coordenadora de Revisão Aline Pinho Dias Coordenador Editorial Kaline Sampaio

Gestão do Fluxo de Revisão Edineide Marques

Gestão do Fluxo de Editoração Rosilene Paiva

Conselho Técnico-Científico – SEDIS

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Wicliffe de Andrade Costa – CCHLA Revisão Linguístico-textual Emanuelle Pereira de Lima Diniz Revisão de ABNT

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Coordenadora: Claudianny Amorim Noronha Vice-coordenadora: Luciane Terra dos Santos Garcia Comissão editorial responsável pela avaliação dos correspondentes à Chamada nº.03/2020 – PPGEd/UFRN Adir Luiz Ferreira (UFRN)

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Giliard da Silva Prado (ad hoc – UFU) José Hélder Pinheiro Alves (ad hoc – UFCG) Laêda Bezerra Machado (ad hoc - UFPE) Marcilio De Souza Vieira (UFRN) Maria Aparecida de Queiroz (UFRN) Maria da Paz Cavalcante (ad hoc – UERN) Maria Ines Sucupira Stamatto (UFRN) Mariangela Momo (UFRN)

Natália Conceição Silva Barros Cavalcanti (ad hoc – IFPa) Patrícia Ignácio (ad hoc - FURG)

Rosa Aparecida Pinheiro (ad hoc - UFSCar) Rossana Carla Rameh de Albuquerque (ad hoc – FPS) Tatyana Mabel Nobre Barbosa (UFRN)

Apoio

Esta publicação contou com o financiamento do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEd) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a partir da Chamada 03/2020 – PPGEd, contemplada após análise pela Comissão Editorial do PPGEd. Também são apoiadores:

a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), a Pro-Reitoria de Pós- Graduação (PPG/UFRN) e a Secretaria de Educação a Distância (SEDIS/UFRN).

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Todos os direitos desta edição reservados à EDUFRN – Editora da UFRN Av. Senador Salgado Filho, 3000 | Campus Universitário

Lagoa Nova | 59.078-970 | Natal/RN | Brasil Coordenadoria de Processos Técnicos

Catalogação da Publicação na Fonte.UFRN / Biblioteca Central Zila Mamede Publicação financiada com recursos do Fundo de Pós-graduação (PPg-UFRN). A seleção da obra foi realizada pela Comissão de Pós-graduação, com decisão homologada pelo conselho Editorial da UDFRN, confrome Edital no 2/2019-PPG/EDUFRN/SEDIS, para a linha editorial Técnico-científica.

Andrade, Erika dos Reis Gusmão.

Memórias de uma moça malcomportada : uma vida inesperada [recurso eletrônico] / Erika dos Reis Gusmão Andrade. – 1. ed. – Natal:

EDUFRN, 2022.

182 p. : il., PDF ; 3,36Mb

ISBN nº 978-65-5569-211-2

1. Memorial. 2. Autobiografia. 3. Educação. I. Título.

CDU 92

A553m Elaborada por Edineide da Silva Marques CRB-15/488.

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Natal, 2022

MEMÓRIAS DE UMA MOÇA MALCOMPORTADA:

uma vida inesperada

MEMÓRIAS DE UMA MOÇA MALCOMPORTADA:

uma vida inesperada

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Eis aqui tudo de novopovo A mesma grande saudade A mesma grande vontade Minha mãe, meu pai, meu

povo Minha mãe me deu ao

mundo De maneira singular Me dizendo a sentença Pra eu sempre pedir licença Mas nunca deixar de entrar Meu pai me mandou pra

Num momento de amorvida E o bem daquele segundo Grande como a dor do

mundo Me acompanha onde eu vou Meu povo, sofremos tanto Mas sabemos o que é bom Vamos fazer uma festa Noites assim, como essa Podem nos levar pra o tom

Letra de Tudo de novo © Uns Produções Artísticas Ltda Compositores: Caetano Emmanuel Viana Teles Veloso Canta Maria Betânia, Álbum Ao Vivo, 1985.

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Ser grata é um exercício de humildade e reconhecimento da participação das pessoas em nossas vidas e da colaboração que elas deram nos diversos aspectos do constituir-se. Tive muita sorte em minha caminhada, encontrei muitas almas do bem. As do mal, eu esqueci!

Na minha infância e início da puberdade, tive a honra de ser acompanhada por dois seres humanos de luz, que mesmo tendo ficado pouco tempo em minha vida, me ensinaram coisas fundantes para meu ser: minha mãe, Senise, mulher sábia, que trazia em si a alegria de viver, o gosto pela leitura (que me deixou de herança e que me salvou em muitos momen- tos), o cuidado com o outro, o sentido de amor incondicional (que briga quando precisa) e a consideração pelos demais seres humanos que fazem parte de nosso cotidiano; meu pai, Lourival, homem sisudo e compenetrado (acho que foi isso que o levou tão cedo), mas que me ensinou o valor da honestidade, da ética, e principalmente o sentido de família (de espírito e não de sangue) que guardo até hoje.

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Na minha adolescência, tive meus avós paternos e mater- nos, que marcaram de forma emotiva meu olhar sobre o que é afeto e como ele se constrói; alguns professores do Ensino Médio (os do Ensino Fundamental não lembro), Zé Carlos, professor de história, que me marcou indelevelmente, me mos- trando a realidade de nosso país, Michelli, um italiano ruivo, professor de física, que mesmo sabendo das minhas enormes dificuldades com a disciplina nunca duvidou de meu esforço e Conceição, professora de português, que me apresentou o mundo da literatura brasileira de um modo maravilhoso.

Também tive meus três grandes amigos: Roberto, uma pessoa muito leve, que me apresentou um pouco da MPB da época e fez me apaixonar; Mário, amigo que perdura até hoje (de nossa forma) que me deu muitas aulas de química e física, mas principalmente de amizade; e Iúri, que me apresentou o mundo de outro ângulo e mais tarde veio a se tornar meu marido, primeiro companheiro.

Não posso deixar de falar de minhas amigas Ana Amélia, Ingrid e Tereza, companheiras de tantas agruras que infeliz- mente atingem o universo feminino, em que só uma mulher consegue consolar a outra, mas de muitas alegrias também.

Elas continuaram amigas na minha entrada no mundo adulto, onde eu era mãe, solteira e estudante do noturno para traba- lhar durante o dia. Nessa época me mudei para Natal e novos

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seres de luz apareceram: meus sogros Iracy e Arnon, bem como a família Mascarenhas, que me recebeu em sua casa e vidas com dois pacotinhos a mais, minhas filhas.

A elas, Sarah e Sofia, agradeço especialmente, por me salvarem a vida com suas vindas e me fazerem buscar a construção de nossas vidas. Mais ainda, por serem as acom- panhantes mais fiéis, mais amorosas e com quem tenho aprendido mais na vida... a trajetória de ser mãe merece um outro texto memorial!

Ao meu segundo companheiro, Eugênio, pelas discussões teóricas, filosóficas, educacionais e, principalmente, amorosas.

Quem me ajudou a entender os textos complexos do início do mestrado e me embrenhar nesse mundo da academia e a entender muito da construção cotidiana de uma vida conjunta, além de ter se disposto a cuidar de minhas filhas no período que passei em Uberlândia. Grata sempre.

No meu ingresso na UFRN como estudante do mestrado e depois como professora efetiva, muitos foram os que fize- ram a diferença em minha trajetória. Agradeço a todos de coração. À Laíse, secretária do Departamento de Educação, meu eterno anjo da guarda. Milton José, eterno secretário da Pós-graduação, ao seu jeito único de nos ajudar. À querida e carinhosa Gleide (in memorium), funcionária do DEPED, sempre presente com um carinho e à Graça, secretária da

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Coordenação do Curso de Pedagogia, foram muitas “brigas”

e aprendizagens.

Aos colegas de mestrado e doutorado, hoje colegas pro- fessores, pelo apoio, companheirismo, carinho e afeto: Maria Carmem Rego, Daniela Medeiros, Cyntia Medeiros, Terezinha Petrúcia, Laêda Machado, Maria José, Alda Duarte, Gilmar Guedes, Luzia Guacira, Andréia Quintanilha, Otávio Tavares, Helena Freitas, Ana Aguiar, Marluce e outros tantos que estiveram em minha caminhada.

Aos colegas da UFRN que muito me ensinaram sobre o mundo acadêmico e me ajudaram a caminhar em meio aos caminhos universitários: Jomária Alloufa, Margot e Vicente Madeira, Rosário Carvalho, orientadores de meus trabalhos de mestrado e doutorado; Moisés Sobrinho, colega do grupo de pesquisa; Elda Melo e André Diniz (UFCG) parceiros de estudos, orientações e muito trabalho, queridos também;

Rosália Silva, mais que colega, uma amiga de todo dia, até nas discordâncias; Márcia Gurgel, Marcos Lopes, Ricardo Lins, João Valença, João Emanuel, Mirian Dantas, Arlete Duarte, Conceição Almeida, que me marcaram indelevel- mente pelas posturas, ética e sabedoria com a coisa pública e com o conhecimento; referências para sempre. Em espe- cial, Marta Pernambuco (in memorium), ariana como eu,

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autêntica, de coração enorme e muito coerente acadêmica e afetivamente... saudade.

Outros tantos colegas fizeram parte de minha vida de trabalho e aprendizagem. Não vou nomeá-los aqui, pois no corpo do memorial aparecem como colaboradores na minha trajetória.

Enquanto estive como Pró-Reitora Adjunta de Graduação, encontrei pessoas comprometidas, solidárias, amorosas, éticas e exemplos de servidores públicos; a todos os servidores que lá estavam no período de junho de 2015 a março de 2019, serei sempre agradecida. Peço licença para agradecer a alguns especialmente: à Vanessa, Lorena, Elisa (hoje do PPGEd), Camila e Tâmara, às meninas da assessoria e secretaria, pelo cuidado, carinho, bons papos e risadas, e pela segurança e seriedade com que me ajudaram a fazer o meu trabalho; à Eliane, Juliana, Elizama e Carminha (já aposentada), cada uma ao seu modo pensando em como melhor conduzir os pro- cessos de avaliação, regulação e acompanhamento dos cursos de graduação. Muito pouco teria feito sem vocês. A Ricelle, companheiro de coordenação dos programas e projetos da PROGRAD, agradeço o pensar junto, a preocupação com a lisura e a solidariedade; ao povo da DDPEd, cada um com seu modo de ser, muito me ensinaram e me deram suporte para acompanhar os projetos dos cursos de graduação da UFRN; à Neijeme, Ana Rita, Victor, Marconi, José Carlos

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e Luana, mas em especial à Anne e Elda, companheiras em todos os momentos.

Na DACA, a todos que fizeram do trabalho técnico difí- cil uma ponte para o sucesso dos estudantes, em especial a Vicente, Wendell, Fabíola, Francisquinho, Gracinha, Andressa e Renan pela lisura na condução dos processos e apoio nos momentos necessários; à Fernanda, colega com quem tive alguns embates por pontos de vista diferentes, agradeço o cuidado com a coisa pública e com o metiê burocrático, mas necessário para segurança jurídica. Não poderia esquecer de Arthur, Jussara e Nathália, sempre na linha de frente da PROGRAD, mediando os atendimentos e nos preparando para eles.

Em Uberlândia, no período que passei na UNIT (Centro Universitário do Triângulo), à professora Regina Feltran, que além de colega com quem compartilhava as preocupações com a formação de professores no ensino superior, foi um anjo da guarda ajudando na minha melhor adaptação ao novo espaço de moradia. Assim como a Mauro e Cirley, amigos que fiz e que muito me acolheram com café quente e pão de queijo, ambos feitos na hora, para acalentar a saudade de casa.

Às amigas que herdei do meu primeiro casamento, Claudia Frederico e Gorete Menezes. Minhas queridas e combativas militantes, a história de vocês também me fortalece!

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Algumas pessoas participaram de minha trajetória em tempos e lugares diferentes e continuam participando, como colegas e amigos. Mesmo correndo alguns riscos de esqueci- mento, sou profundamente grata à Elda Silva Nascimento Melo, Danielle Oliveira da Nóbrega e André Augusto Diniz Lira, pelas conversas, confidências, brigas, carinhos e confiança.

A todos os estudantes que passaram por minhas salas de aula ou orientações, da Educação Básica ao Ensino Superior, por manterem vivos em mim a chama da aprendizagem, a alegria da troca e a humildade da incompletude.

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PREFÁCIO:

Memorial de jovens titulares: um olhar acadêmico prospectivo

A “história de vida” não é a história da vida, mas a ficção apropriada pela qual o sujeito se produz como projeto dele mesmo.

Só pode haver sujeito de uma história a ser feita, e é, à emer- gência desse sujeito, que intenta sua história e que se experimenta como projeto, que responde o movimento da biografização.

Christine Delory-Momberger (grifos da autora)1

Li com encantamento este Memorial acadêmico, agora publi- cado como livro autoral, Memórias de uma moça malcompor- tada: uma vida inesperada. E é com igual encantamento que

1 Christine Delory-Momberger. Biografia e Educação. Figuras do indivíduo- -projeto. Trad. Maria da Conceição Passeggi; João Gomes da Silva Neto; Luis Passeggi. São Paulo, Natal; Paulus-Edufrn, 2008, p. 65.

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Precisei objetivar primeiramente esse encantamento e a honra desta escrita, antes de agradecer à Professora Erika dos Reis Gusmão Andrade2 seu generoso convite para prefaciá-lo.

Há de fato um tríplice encantamento. O primeiro é o de ler o memorial de uma jovem professora titular, que acompanhei de longe desde seu ingresso como aluna do doutorado em Educação, do qual participei como parte da banca examinadora de sua Tese, em 2003. Segui acompanhando seu percurso como professora da Pós-Graduação em Educação e seus sucessivos trabalhos na gestão universitária. Em suma, uma trajetória exitosa que lhe garantiu, em 2020, a promoção ao cargo de professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). O segundo encantamento deve-se à maneira como a autora, “ filha de Iansã” 3, nos envolve, gradativamente, em seu percurso pessoal, intelectual, militante, profissional, ecumênico, decantando as viradas biográficas em cinco gran- des Inesperados. O terceiro encantamento decorre, certamente, da curiosidade científica que me desperta o memorial como

2 Tomo a liberdade de substituir no restante do texto o nome completo da autora por Erika.

3 Como o prefácio é escrito antes da diagramação e paginação do livro, não posso inserir as páginas correspondentes às citações, que ficarão aqui entre aspas.

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gênero discursivo e que persigo, sem tréguas, há mais de vinte anos, em busca de melhor compreendê-lo. Percebo neste memorial uma ruptura e uma inovação discursiva, que se encontram em sintonia com as mudanças históricas da carreira docente no ensino superior e sobretudo nas uni- versidades federais. Nada que Mikhail Bakhtin (1992) já não tenha comentado:

A riqueza e a variedade de gêneros do discurso são infi- nitas, pois a variedade virtual da atividade humana é inesgotável, e cada esfera dessa atividade comporta um repertório de gênero de discursos que vai diferenciando-se e ampliando-se à medida que a própria esfera se desenvolve e fica mais complexa (BAKHTIN, 1992, p.279).4

Os memoriais autobiográficos5 constituem parte desse repertório de gênero discursivo criado na universidade e para a universidade, cuja institucionalização6 tem origem

4 BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Tradução Maria Ermantina Galvão Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

5 Recorro a denominações do memorial que se tornaram usuais nos estudos e pesquisas sobre esse gênero (cf.) PASSEGGI, M.C. Memorial de formação.

In: OLIVEIRA, D.A.; DUARTE, A.M.C.; VIEIRA, L.M.F. DICIONÁRIO:

trabalho, profissão e condição docente. Belo Horizonte: UFMG/Faculdade de Educação, 2010. Acesso em 7/11/2020. Disponível em: https://gestrado.

net.br/verbetes/memorial-de-formacao/

6 Cf. CÂMARA, Sandra. O memorial autobiográfico. Uma tradição acadêmica do ensino superior no Brasil. Tese de doutorado. PPGED-UFRN, 2012.

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na Universidade de São Paulo para provimento do cargo de professor catedrático, nos anos 19307. Ao longo de quase um século, ele vai “diferenciando-se e ampliando-se à medida que” a universidade “se desenvolve e fica mais complexa”. Em 1980, o memorial acadêmico passa a ser um instrumento de promoção ao cargo de Professor Adjunto, cujo acesso se dava mediante concurso público de provas e títulos. Nos anos 1990, este gênero se amplia e se democratiza, sob a denominação de memorial de formação, como trabalho final do curso de graduação para a educação básica. A partir de 20128, ele é proposto como requisito parcial para a promoção à Classe E, de Professor Titular, à qual também se acedia mediante concurso público.

Erika opta por escrever seu memorial apoiando-se nas normas estabelecidas pela Resolução no. 067/2017-CONSEPE, de13/06/2017, que segue estritamente a recomendação da Lei nº 12.772, de 28 de dezembro de 2012, Art. 27, § 3º, c, segundo a qual o candidato deve ser aprovado na defesa de um memorial ou de uma tese acadêmica inédita, nesse sen- tido, o memorial “deverá considerar as atividades de ensino,

7 Decreto no 7.204, de 11 de junho de 1935. (Regulamento da Faculdade de Medicina Veterinária de São Paulo, Art.115 – “O memorial [...] dirá respeito a tudo que se relacione com a formação intelectual do candidato e com sua vida e atividade profissionais ou cientifica [...])”.

8  Lei nº 12.772, de 28 de dezembro de 2012,  alterada pela Lei Lei nº 12.863, de 24 de setembro de 2013.

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pesquisa, extensão, gestão acadêmica e produção profissional relevante”. Convém observar que as Resoluções normativas da UFRN, anteriores9 a 2012, que regulamentavam as normas de progressão, promoção e/ou concursos exigiam como parte do Memorial um Projeto de Atuação Profissional (MPAP). A Resolução de 2017 mantém a opção entre o memorial ou tese inédita, mas também apaga o Projeto de Atuação Profissional que não consta das orientações do MEC. É inegável que nos últimos anos, a promoção à titular foi essencialmente pleiteada por professores que permaneceram por muitos anos à espera de uma vaga ao cargo de titular, de modo que, em geral, eles retraçam longos percursos no magistério superior. É nesse sentido que Erika, ao acrescentar o Plano de Ação, não exigido pela Resolução de 2017, afirma essa mirada prospectiva que me parece ser representativa de novos tempos para os memoriais de jovens titulares, com um bom caminho ainda a percorrer.

Admito com Delory-Momberger, na epígrafe acima, que “Só pode haver sujeito de uma história a ser feita”. E é no processo de autobiografar nossa história que nos experimentamos como trajeto e como projeto, enquanto ser-em-devir.

9 Cf. a título de exemplo a Resolução no 006/05-CONSEPE, de 19 de abril de 2005, sobre as normas para os cargos de Auxiliar, Assistente e Adjunto e a Resolução 013/2008-CONSEPE, de 04 de março de 2008, sobre normas para a classe de Titular.

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O memorial acadêmico de Erika, contrariamente a tantos outros por mim analisados, traz duas inovações.

Primeiramente, é marcado pela recentidade da experiên- cia vivida como professora. Em segundo lugar, pelo olhar, primordialmente prospectivo, que ocupa uma larga parte de sua reflexão crítica. Para Erika, esses dois movimentos, prospectivo e retrospectivo, são desafios cruciais para a escrita. O primeiro, retrospectivo, é o de “olhar como fui me constituindo acadêmica das ciências humanas na trajetória construtiva de mim mesma, sendo quem não sou mais, aquela pessoa naqueles diferentes momentos”, do percurso de 16 anos (2004 a 2020), no magistério superior, na UFRN. O segundo, prospectivo, é o de se projetar em devir: “preciso pensar em um planejamento de carreira para os próximos 10 anos de exercício da docência universitária”, embora considere ser

“difícil projetar um futuro”, uma vez que “planejar o futuro é igualmente duvidoso”, sobretudo porque considera que sua vida “foi feita de inesperados, de ventanias e raios, em todos os seus aspectos”. Mas, pelo que pude ver, Erika está sempre pronta a aceitar novos desafios e encontrar uma razão plausível e digna para enfrentá-los, como é o caso de planejar o futuro: “talvez a vida esteja se apresentando de forma mais calma com a chegada da maturidade, então aceito o desafio e nessa parte do texto tentei fazer esse exercício”.

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É esse o pacto autobiográfico, noção pinçada nos estudos de Philippe Lejeune (2008)10, que ela faz como narradora-au- tora-candidata e que imagino se delinear como procedimento possível em memoriais de jovens titulares. É nesse sentido que seu memorial me parece representativo de um novo momento na história da carreira docente nas universidades federais e, consequentemente, na história desse gênero discursivo que se modifica em função das modificações da esfera social na qual e para qual ele é elaborado como demanda institucional.

É essencialmente sobre essa “feitura do memorial” que desejo centrar minha leitura.

O memorial acadêmico, como narrativa autobiográfica, é uma prática autorreferencial, no sentido em que o processo de autoria se fundamenta em tomar a si mesmo a própria experiência e o projeto de vida como objeto de reflexão para interrogar-se e interpretar, de modo objetivo e crítico as atividades elencadas na Resolução. Mas, o memorial é antes de tudo um espaço institucional de autotematização, autoin- terpretação no processo hermenêutico de narração. Por essa razão, Erika entrelaça no seu memorial um eu que permanece ao longo a vida, “a filha de Iansã”, a pessoa curiosa, militante, solidária, que marca sua identidade (mesmidade), e um eu

10 LEJEUNE, P. O pacto autobiográfico. De Rousseau à Internet. Trad. Jovita Noronha, Maria Inês Guedes. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

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refletido (ipseidade), resultando análise crítica da experi- ência vivida na experiência narrada: “Hoje reflito que essa busca pelo religioso e sagrado, se deu como forma de manter viva a memória de minha mãe, mas também foi tentativa de achar respostas para tantas perdas e fraturas...”. Mesmidade e ipseidade se articulam no que propõe Paul Ricœur (2010)11 como identidade narrativa, seja ela profissional ou pessoal.

Por essa razão é que o memorial permite observar o que e como a pessoa que narra seleciona, articula os acontecimentos, valora, nega, transgride, inova, propõe, em suma, como ela associa, experiências, aprendizagens e conhecimentos. É isso o que finalmente se avalia. Como os candidatos decidem, tomam iniciativa, reproduzem atitudes, rompem, inovam, propõem, apresentam suas filiações científicas, como se veem diante das experiências e de alternativas que enclausuram ou que liberam? Finalmente ele é totalidade sintética pela qual narradores e o narrado vão se construindo na e pela atividade de linguagem, escrita, crítica e reflexiva. Esse esforço é reali- zado e apreendido a que preço? Ao longo de minhas pesquisas analisei em muitos memoriais uma travessia provocada pela própria escrita que opera a passagem da resistência à sedução

11 RICŒUR, P. Tempo e narrativa, tomos 1, 2, 3. Trad. Claudia Berliner, Marcia Aguiar, São Paulo: Martins Fontes, 2010.

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autobiográfica12. A hipótese é que na reflexividade narrativa emergem a consciência da própria agência e da capacidade de emancipação. O que me parece próprio da escrita de Erika é que, na universidade, ela navega num mar sem tormentas.

Sua opção de escrita do memorial é a da ordem cronoló- gica. O que me faz lembrar Simone de Beauvoir (1908-1986), em quem se inspira para parafrasear o título do seu memorial, substituindo “moça bem-comportada” por “moça malcom- portada”. Em sua obra memorialística, publicada entre 1958 (Mémoires d’une jeune-fille rangée) e 1981 (Cérémonie des adieux), Beauvoir também opta pela linearidade do tempo, que certamente se impõe como força inexorável para narrar a experiência vivida desde a juventude até a morte de Jean-Paul Sartre. Por que “malcomportada”? Queria rastrear na leitura esse mal comportamento, não consegui encontrar. Há uma porta aberta para uma outra leitura? A que criaria frestas no jogo de palavras, deixando passar um juízo moral? Um pensamento feminista? Um relutar pela vida, que não consegui captar? O trabalho de reflexividade biográfica leva em conta, consciente ou inconscientemente, as relações que estabelece- mos em nossas vidas com as narrativas canônicas, sejam elas literárias, populares, místicas, míticas, cotidianas e que vamos

12 PASSEGGI, Maria. Memoriais: injunção institucional e sedução autobiográ- fica. In Passeggi, M. Souza, E. (Org.) (Auto)Biografia: formação, território e saberes. São Paulo, Natal: Paulus-Edufrn, 2008, p. 103-131.

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incorporando, desde a mais tenra infância, num processo de heterobiografização, pois as histórias ouvidas nos formam, como constata Erika em suas leituras de Beauvoir (1987), Galeano (1978) e Viezzer (1981). Permanece a indagação. O mal comportamento é um enigma? Faz parte do imaginário e das narrativas ouvidas? De representações sociais, definidas por Erika como “uma forma de conhecimento utilizada como norteador de comunicações e de condutas”?

O que mais me encanta no título e na estrutura do memo- rial são os cinco Inesperados que segmentam sua trajetória e que ela deseja marcar por cinco movimentos do “ir-se-tor- nando”: 1) trabalhadora da educação; 2) pesquisadora da Teoria das Representações Sociais; 3) professora da UFRN;

4) Pró-Reitora Adjunta de Graduação; 5) professora titular.

Movimentos que se concluem numa nova fase, o ingresso no pós-doutorado e “mais 10 anos de carreira pela frente”.

As experiências vividas e narradas por Erika seguem a line- aridade do tempo e ela vai costurando vozes e ecos sempre na direção de um devir. A experiência narrada não é nem uma “ilusão biográfica”, como afirmava Bourdieu (1986)13, nem uma ficção, nem tampouco uma prática terapêutica. A

13 BOURDIEU, P. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, M.M.; AMADO, J.(Org.) Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 1998. p. 183-191.

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reflexividade autobiográfica, que Dilthey (2010)14 colocou no centro das Ciências Humanas, está na base da consciên- cia história e de nossa própria historicidade. Marcada por incertezas e ambiguidades, a busca de sentido é em suma a busca de coerência entre acontecimentos e sentido, entre presente, passado e devir. Mas é importante dizer que Erika narra um percurso de êxitos acadêmicos, que se iniciam com seu ingresso no Mestrado em Educação, em 1993. Dez anos depois, junho de 2003, ela defende sua tese de doutorado.

Nos dez anos seguintes, entre 2004 e 2015, ela faz uma longa travessia de forma acelerada na gestão universitária e que ela considera como inesperados e de “vida inesperada”. Mas essa trajetória improvável não deixa passar por entre as linhas acontecimentos que se aproximem do esperado, resultante de um constante investimento na vida e na educação pública?

Nunca imaginei que a moça que chegou ao Rio Grande do Norte no final de 1991, sem nem saber o que era mestrado, chegaria, 24 anos depois, a ser Pró-Reitora Adjunta de Graduação de uma universidade que se tornou referên- cia no Norte e Nordeste do país, pela sua capacidade de produção do conhecimento e colaboração na formação de professores para todo o sistema federal, estadual e

14 DILTHEY, W. A construção do mundo histórico nas ciências humanas.

Trad. Marco Antônio Casanova. Brasil: Unesp Editora, 2010.

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municipal de ensino dessa região, bem como por sua capa- cidade extensionista. Para mim, um misto de emoção, responsabilidade e compromisso com a educação pública do meu país.

A noção de inesperado que afirma ter encontrado na obra de “Marcelo Gleiser (2016) - A simples beleza do inesperado:

um filósofo natural em busca de trutas e do sentido da vida”

- por recomendação da Professora Conceição Almeida, me fala muito da Erika com quem pude partilhar, nos anos 2000, os trabalhos do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação e Representações Sociais, liderado pelos professores Jomária Mata de Lima Alloufa, Margot Madeira e Moisés Domingo Sobrinho. Para Erika, os inesperados não são jamais “infortú- nios”, eles trazem a beleza simples do acontecer no limiar de um estatuto anterior e um novo estatuto, conquistado ou a ser conquistado, com desafios que não a intimidam. Curiosa, fui ler Marcelo Gleiser (2016) e concordo com a recomendação da Professora Ceiça Almeida. Gleiser (2016, p. 13), ao conjugar filosofia e ciências conta que era adolescente quando surge seu interesse pela imensidão cósmica e se deixa seduzir “pelo poder da mente e por sua capacidade de ponderar assuntos que, aparentemente, eram imponderáveis”.

O “que importa, continua Gleiser, é participar do pro- cesso de descoberta, da busca pelo conhecimento. É nossa

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curiosidade que nos ergue acima da banalidade do igual, da rotina de todos os dias; é nossa curiosidade que nos define enquanto criaturas pensantes”.

A leitura do memorial de Erika me sugere que ela vai tecendo sua história, na vida pública e na vida privada, com uma disposição semelhante, interrogando-se, mas com fé na vida, confiante em sua curiosidade e em seu protagonismo, espantando-se diante dela mesma: “Onde eu estava que nada disso vi? Na bolha!”. Torna-se militante, feminista. E quando

“tudo se descontrolou. Ventania de novo”, ela decide: “Mas agora eu queria ser protagonista”. Ao longo do memorial, ela faz emergir sua percepção da condição feminina nos encontros com as representações de si como “mãe solo”, mãe casada, mãe separada, mãe com um companheiro, mãe viúva.

É claro que tenho noção que tudo começou bem antes de minha chegada à Natal, talvez quando minha mãe se foi.

Talvez quando mudei de curso. Talvez quando engravidei de Sarah e decidi tê-la só. Talvez quando decidi tomar o rumo de minha vida e de Sarah e Sofia, desacompa- nhada. Talvez quando me deparei com a minha condição de mulher trabalhadora. Talvez quando autorizei a mim mesma a dominar o conhecimento. Não sei. Essa cons- trução do feminino independente e de autoconhecimento é uma estrada complexa e múltipla. Lembro do texto de

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Clarissa Estés15, e seu estudo sobre o mito do arquétipo da mulher selvagem, a quem fui apresentada, mais ou menos, nessa época. Me ajudou a entender as diferentes dinâmicas do feminino (Grifos meus).

Os encontros com a ciência na academia, mediados pela teoria das representações sociais, e os convites para assumir cargos de direção, coordenação de cursos de formação de professores da educação básica ao ensino superior, coorde- nação de projetos de grande impacto acadêmico e social, entre tantos outros, são desafios e realizações serenamente analisados. Gleiser (2016), que compara a atitude do cientista à do pescador, considera que ambos aprendem a lidar com frustrações e fracassos constantes, e o que os mantêm na mesma atitude perseverante é a possibilidade, ainda que remota, de fisgar um peixe ou descobrir algo novo. É ela que, contrariando os fracassos, ensina a paciência, a humildade, a insistência, necessárias no cotidiano, na vida profissional e nas ciências.

Também é assim que me parece caminhar Erika, agora na direção de mais dez anos de vida na universidade como titular, iniciados pelo pós-doutorado na Federal de São Carlos, no campus de Sorocaba, com um projeto de pesquisa: “Ser

15 ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

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professor no Ensino Superior: Representações Sociais sobre o ensinar e seu campo científico”. Seu objeto de estudo retoma as inquietações experienciadas na UFRN ao longo dos dezesseis como professora, pesquisadora, gestora. Sua escolha toma como desafio

“avançar na compreensão sobre a formação do professor universitário, tendo como objetivo geral compreender quais as representações sociais sobre o ensinar e sobre seu campo científico de ensino para docentes do ensino superior”.

É inegável que nós, professores universitários, estivemos sempre voltados, em nossos estudos, para a formação de professores da Educação Básica, cujos avanços são inegáveis, mas me parece que ainda não investimos suficientemente na formação de formadores, que é o que nos caracteriza enquanto professores e pesquisadores das licenciaturas. O que ainda não sabemos sobre as condições do ser e do fazer docente, hoje, da Educação Infantil ao Ensino Superior? Como os professores têm vivido, no cotidiano, as condições de trabalho que se deterioram a cada dia e se tornam cada vez mais precárias com a “pejotização” do magistério, os empregos temporários, intermitentes? Como, em igual condições, os professores enfrentam consequências da vulnerabilidade social, vividas pela imensa maioria de estudantes da educação básica, e que se tornam ainda mais evidentes no Ensino Médio? A

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Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua, 2019) revela que a taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos de idade, ou mais, no Brasil em 2019, é estimada em 6,6%, correspondendo a 11 milhões de anal- fabetos, concentrados prioritariamente no Nordeste. Ainda segundo a Pnad, quase 30% dos jovens entre 15 e 17 anos de idade, no país, estão fora do ensino médio, 40% na região Norte. A desigualdade aumenta quando se trata de pretos e pardos. A gravidade dessas condições, como lembra Erika, cresce diante da “ultradireita e o recrudescimento de um pensamento ultraliberal como proposta econômica para o país, embasado em teorias criacionistas e anticientíficas”. Por outro lado, o legado da “era Lula” permitiu uma mudança importante no perfil de professores das escolas públicas. Em 201516, a grande maioria se constituía de professores que eram os primeiros da família a ter acesso ao ensino superior; 51%

de negros; 61,2% com renda de até três salários mínimos.

Como formamos esses jovens? Em padrões anteriores à “era Lula”? Quais os desafios atuais para as políticas públicas

16 Conferência da Professora Patrícia Cristina Albieri de Almeida, da Fundação Carlos Chagas, em que destacou a mudança de perfil dos professores em 2015, com base na pesquisa coordenada pela Professora Bernadete Gatti (Cf. GATTI, B.A.; BARRETTO, Elba Siqueira de Sá’ ANDRÉ, Marli Eliza Dalmazo Afonso; ALMEIDA, Patrícia Cristina Albieri de. Professores do Brasil: novos cenários de formação. Brasília: UNESCO, 2019).

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na formação de professores? Quais os mais prementes na formação de formadores? Erika aponta o seu caminho:

Entender que os entraves no ingresso de grupos populares no ensino superior, vão além da qualidade do ensino a que estão submetidos, mas tem muito mais razões nas questões de autoestima, pertencimento, sentir-se adequado ao contexto da academia e compreensão do ethos e héxis acadêmica (BOURDIEU, 2007), me permitiu aproximar mais do universo de nossos estudantes universitários e compreender como as nossas dinâmicas internas de funcionamento desfavorecem seu ingresso, permanência e êxito nas instituições.

É com o olhar voltado para essas premências, alicerçado no capital biográfico construído no “chão da universidade”, que Erika vislumbra os próximos anos na UFRN. O balanço que ela faz de sua gestão na Pró-Reitoria de Graduação (Quarto inesperado) mostra que os avanços resultam de sua atuação anterior como gestora e pesquisadora, que “sempre [teve] o espaço escolar público como contexto de práticas”. Por essa razão, entende “ser este, um lugar de interlocução genuína e constante com a comunidade e com a diversidade social, além de ser um difusor de ideias e debates sobre o cotidiano da vida das pessoas”.

Esses encadeamentos se projetam igualmente nas ações previstas em seu Plano de Atuação Docente para os

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próximos dez anos. Alegra-me que tenha reativado, junto à Pró-Reitoria de Pesquisa, o Grupo de Estudos em Educação e Representações Sociais, antigo NEPERS, pelo trabalho pioneiro de seus líderes, incluindo a realização, em Natal, na UFRN, da I Jornada Internacional de Representações Sociais (I JIRS), hoje, em sua XI edição, realizada em 2019, na UFRGS.

Há muito ainda o que dizer sobre as múltiplas leituras do memorial da Professora Erika dos Reis Gusmão Andrade, mas devo concluir. Sabemos que um dos grandes avanços do memorial em termos de instrumento de avaliação é o de permitir uma avaliação qualitativa e processual das ações e percepções de quem narra, diferentemente da avaliação do Curriculum Vitae, eminentemente quantitativa e pontual.

Numa perspectiva didática, o memorial ajuda a compreender a caminhada humana: existencial, intelectual, espiritual, profissional de professores universitários. Do ponto de vista político, é a singularidade do percurso que é valorizada.

Para os pesquisadores da nova geração de titulares, não seria a perspectiva adotada por Erika, que retoma no seu Memorial o Plano de Atuação Docente (MPAD), previsto nas Resoluções anteriores a 2012, a mais adequada? O fato de os jovens titulares acederem ao último nível da carreira em plena marcha me parece levar a dividir a escrita do memorial nestes dois movimentos, retrospectivo e prospectivo, entre os quais

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o humano vive sua vida, no seu aqui-agora. Por essa razão, apagar o Plano de Ação seria negligenciar a grande riqueza crítica e reflexiva sobre o hoje e o amanhã. Admito que não narramos nossa história para nos enclausurarmos no passado, mas para projetar nosso vir-a-ser. É o que afirma Delory- Momberger (2008) na epígrafe que abre este prefácio, para quem “Só pode haver sujeito de uma história a ser feita”. Para um olhar menos avisado, o memorial, como toda narrativa autobiográfica, tende a ocultar essa visão prospectiva que lhe dá vida, corpo, sangue e espírito. Esse gênero discursivo se conclui quando o ponto final coincide com o presente de quem narra, deixando aberto o horizonte para novas histórias a serem narradas. A vida é uma história a ser narrada. Ou como diria Ricœur (2010, p. 197)17, quando interroga a relação entre a vida e a narração: “A vida: uma narrativa em busca de narrador”. É isso que faz o encantamento dos memoriais para mim. Com Delory-Momberger (2008, p.65), admito que é “nessa direção primeira de um ser-a-vir e de um ser-para que o eu se constrói como tendo-sido”. E acrescentaria, como ser-sendo-e-estando-aqui-e-agora, na incessante e complexa permanência efêmera do ser.

17 Ricœur, Paul. Escritos e conferência I. Em torno da psicanálise. Trad. Catherine Goldenstein; Jean-Louis Schlegel. São Paulo: Loyola, 2010.

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Devo finalizar. Para isso, retomo a figuração que Erika faz dela mesma como “filha de Iansã”, que “sobre os abismos, passa e vai em frente. Ela não busca a rocha, o cabo, o cais.

Mas faz da insegurança a sua força e do risco de morrer, seu alimento”. Iansã anda na direção do futuro, como faz Erika na direção de um futuro próximo e que desejo cada vez mais pleno:

É com essas propostas de trabalho para a continuidade de minha atuação profissional que finalizo este texto memorial, tendo ciência das inúmeras lacunas que possa ter deixado ao longo de sua construção; circunscrita à possibilidade temporal de escrita em dois meses, tendo em vista à eminência de meu afastamento para o estágio pós-doutoral e o contexto político/administrativo que ronda o serviço público federal; mas convencida de que valeu cada passo e aprendizagem inesperada, nessa tra- jetória de uma moça malcomportada.

Natal, primavera de 2020.

Maria da Conceição Passeggi

Professora Titular Universidade Federal do rio Grande do Norte Universidade Cidade de São Paulo

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SUMÁRIO

1 A feitura do memorial, um grande desafio de reflexão sobre o inesperado. ...36

2 Primeiro inesperado: de classe média burguesa à trabalhadora da educação ... 44

3 Segundo inesperado: a mudança de estado e realidade sociocultural e o encontro com a academia e com a Teoria das Representações Sociais ...65

4 Terceiro inesperado: ser professora concursada numa universi- dade federal ... 94

5 Quarto inesperado: a Pró-Reitoria de Graduação – ser adjunta de uma pasta complexa ... 126

6 Quinto inesperado: Ser professora titular no contexto atual, uma proposta de trabalho para mais 10 anos de carreira ...151

7 Referências ...166

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A feitura do memorial, um grande desafio de reflexão sobre o inesperado

A memória é um resto. Um resto do que já não é mais: esta é sua própria condição. [...] o memorial provém de duas dinâmicas apa- rentemente contraditórias, mas na

realidade, complementares, uma sendo feita da memória provedora de configurações identitárias, ao passo que a segunda as cons-

titui em receptáculo. (p. 267) Véronique Marie Braun Dahlet18

Este texto tem como objetivo descrever minha trajetória acadêmica na Universidade Federal do Rio Grande do Norte,

18 DAHLET, Véronique Marie Braun. Memorial e a formação da memória. IN PASSEGGI, Maria da Conceição; BARBOSA, Tatyana Mabel Nobre. (orgs.) Memórias, memoriais: pesquisa e formação docente. Natal, EDURFN; São Paulo: Paulus, 2008. P. 267-275.

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como parte dos requisitos para a progressão vertical para Professora Titular, tendo em vista o que dispõe o Plano de Carreira (Portaria MEC número 982, de 07 de outubro de 2013) e também as normas da UFRN (Resolução número 067/2017- CONSEPE, 13 de junho de 2017). Nesse sentido, apresento as atividades desenvolvidas desde a minha inserção profissional na Universidade, no âmbito do ensino, da pesquisa e da extensão, bem como meu percurso pela minha formação acadêmica e de vida, que me fizeram chegar até aqui.

Conforme a resolução número 067/2017- CONSEPE, de 13 de junho de 2017, Art. 28, o memorial deverá, de forma discursiva e circunstanciada, demonstrar excelência e especial distinção nos seguintes aspectos:

I. descrição e análise das atividades de ensino, pesquisa e/ou extensão desenvolvidas pelo docente, incluindo sua produção científica;

II. descrição de outras atividades, individuais ou em equipe, relacionadas à sua área de conhecimento;

III. descrição de outras atividades acadêmicas e

institucionais complementares, incluindo atividades administrativas e/ou representações institucionais de cunho acadêmico, dentro ou fora da UFRN.

Assim, me é posto o desafio de fazer uma reflexão sobre como chego, hoje, a ser uma professora na UFRN, mas só posso

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fazê-lo olhando a trajetória que trilhei para chegar até aqui.

Eis um desafio ainda maior: olhar como fui me constituindo acadêmica das ciências humanas na trajetória construtiva de mim mesma, sendo que não sou mais aquela pessoa naqueles diferentes momentos; olhar para um eu que já não existe, pois se transformou no que sou hoje. Como afirma a professora Passeggi (colega que fez parte de minha trajetória), em seu texto Memoriais auto-bio-gráficas: a arte profissional de tecer uma figura pública de si, construir esse documento

“é aparar a si mesmo com suas próprias mãos [...], aparar é ajudar a nascer” (PASSEGGI, 2008, p. 27).

Costumo brincar com os estudantes que frequentam meus componentes ou são meus orientandos de iniciação científica, mestrado ou doutorado: digo que tive muitas vidas e muitas histórias. Algumas delas não caberiam em um memorial dessa natureza, claro, mas outras sim, pois só por elas pude chegar a minha vida atual. Por isso, o meu percurso reflexivo fará um esforço de, com meus olhos atuais, com as possibilidades que a Teoria das Representações Socias (referente teórico ao qual me filio e construo minha atuação acadêmica) pôde me dar, retomar a minha trajetória de formação articulando as vivências, aprendizagens de vida e acadêmicas.

Como defende Severino (2001, p.175),

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[o memorial] é uma autobiografia configurando-se como narrativa, simultaneamente histórica e reflexiva. Deve então ser composto sob a forma de relato histórico, ana- lítico e crítico, que dê conta dos fatos e acontecimentos que constituíram a trajetória acadêmico-profissional de seu autor.

Outro grande desafio que se me apresenta é fazer tal reflexão em momento tão difícil para quem trabalha com educação básica e superior, no nosso país. Desde 2016, mas mais acirradamente desde o final de 2018, o campo da edu- cação no Brasil tem sido desqualificado e perseguido pelos defensores da política ultraneoliberal e contrária à ciência e academia. Movimento esse que atinge a todos, professores e professoras, acadêmicos e acadêmicas, cientistas, que são comprometidos com a construção e democratização dos conhecimentos nas diferentes áreas e que colaboram para que a população possa ter acesso ao conhecimento e por meio dele possa se posicionar socialmente.

Sendo assim, já assumo o meu lugar epistemológico, mas também social e político, de me colocar ao lado das concepções formativas que propõem a defesa da educação pública, laica, de qualidade e sócio referenciada para todos os brasileiros, em especial, para aqueles que, em suas trajetórias históricas nesse país, foram excluídos do acesso ao conhecimento, ao trabalho digno e à saúde de qualidade.

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Ao estruturar o texto do memorial me deparei, ao pensar em minha trajetória, com a sua constituição em vários ines- perados. Não acredito que existe um ser escrevendo nossos caminhos, alheio ao que fazemos, por isso, falo de inesperados.

Tenho a certeza de que foram as respostas que pude dar, em cada momento, a cada um deles, que me fizeram chegar aqui.

Tomo esse termo “inesperado” de empréstimo do título do livro de Marcelo Gleiser (2016), A simples beleza do inespe- rado: um filósofo natural em busca de trutas e do sentido da vida, que me foi recomendado pela professora Conceição Almeida, muito importante para minha aprendizagem de ser mulher acadêmica, quando soube que ingressaria nesta tarefa de escrever meu memorial. Esse termo me caiu muito bem.

Outro texto que foi de grande impacto em minha vida foi de Simone de Beauvoir, sua biografia, que li pela primeira vez em 1987, logo que entrei no curso de Pedagogia, por indicação de uma colega feminista (eu ainda sabia muito pouco sobre isso) num exemplar impresso pelo Clube do Livro. Entender a trajetória de uma grande mulher e pensadora do século XX foi impactante. Muita coisa só compreendi muito mais tarde, depois de outras tantas leituras, mas o título Memórias de uma moça bem-comportada me inquietava. Sempre pensei, se eu, um dia, fosse escrever algo sobre mim, seriam memórias de uma moça mal comportada.

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É com a articulação dessas duas influências que titulei este memorial: Memórias de uma moça mal comportada:

uma vida inesperada. Divido o texto em cinco inesperados que foram determinantes em minha trajetória formativa, mais ainda para a construção da acadêmica que sou hoje na UFRN.

Em o Primeiro inesperado: de classe média burguesa à trabalhadora da educação, trato sobre uma menina que, nascida na classe média burguesa em 1966, neta de um coronel da polícia militar, pelo lado de mãe e de uma matriarca batista, pelo lado do pai, chega à trabalhadora da educação e mãe solo aos 21 anos de idade. Experiências e marcadores que transformam o meu olhar sobre a educação brasileira e suas formas de exclusão, o universo feminino, e principalmente, o país onde eu estava vivendo.

No Segundo inesperado: a mudança de estado e de realidade sociocultural e o encontro com a academia e com a Teoria das Representações Sociais, trato de como a mudança de estado e o contato com a universidade pública, mais especificamente com a Teoria das Representações Sociais e os programas de formação de professores, me ajudaram a qualificar o meu pensar, com isso as minhas propostas de investigação e a minha compreensão crítica do fenômeno educativo, em especial no Nordeste brasileiro.

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Em o Terceiro inesperado: ser professora concursada numa universidade federal, procuro fazer uma reflexão crítica sobre a finalização de meu doutoramento e o desemprego que assola tão alta formação, a busca de oportunidade no sudeste do país, o confronto com a realidade do ensino superior privado e o retorno ao universo público, possível devido às mudanças de perspectivas políticas do novo governo, a partir de 2003. A partir de 2004, já como professora concursada do quadro efetivo da UFRN, na área de Fundamentos da Educação e Didática, circunstancio a minha consolidação como professora, pesquisadora e gestora no Departamento de Educação do Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFRN e, em seguida, no Departamento de Fundamentos e Políticas da Educação do Centro de Educação.

O Quarto inesperado: a Pró-reitoria de Graduação – ser adjunta de uma pasta complexa me remete a uma experiência mais recente (2015-2019), mas profundamente impactante para pensar a universidade pública como um todo, mais especificamente a UFRN, suas decisões e encaminhamentos no que se refere ao ensino de graduação, aos seus dilemas, dificuldades, desafios e busca de soluções. Essa experiência mais profundamente me possibilitou uma reflexão sobre a formação do professor e seu impacto na formação geral e profissional dos graduandos, bem como sobre as diferentes

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concepções formativas que povoam as práticas pedagógicas dentro da universidade pública.

Para finalizar, busco em o Quinto inesperado: Ser pro- fessora titular no contexto atual, uma proposta de trabalho para mais 10 anos de carreira fazer uma reflexão sobre como, a partir de agora, sendo aprovada ou não como professora titular, pretendo configurar as linhas de continuidade na construção da minha trajetória como professora universitária em uma universidade pública diante do contexto sociopolítico no qual estamos inseridos, que deverá durar no mínimo mais três anos. Desta forma, atendo também ao proposto na legislação, anunciada no início desta introdução como Plano de Trabalho.

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Primeiro inesperado: de classe média burguesa à trabalhadora da educação

É vista quando há vento e grande vaga. Ela faz um ninho no enrolar da fúria e voa firme e certa como bala. As suas asas empresta à

tempestade. Quando os leões do mar rugem nas grutas. Sobre os abismos, passa e vai em frente.

Ela não busca a rocha, o cabo, o cais. Mas faz da insegurança a sua força e do risco de morrer, seu alimento. Por isso me parece imagem e justa. Para quem vive e canta num mau tempo.

Paulo Cézar Pinheiro e Pedro Caminha e Dorival Cayme 19

Nasci em 10 de abril de 1966, outono no Brasil. Estávamos no começo da ditadura militar, mas já tínhamos editados

19 Música O Vento - Procelaria - A Dona do raio e do vento, cantada/recitada por Maria Bethânia em seu disco Carta de Amor – Ato I. 2006.

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os Atos Constitucionais 1, 2 e 3. Só vim a saber o que isso significava muitos anos depois. Primeira filha de um casal, para época já balzaquiano, minha mãe tinha 30 e meu pai 35 anos; depois de mim vieram minha irmã e meu irmão.

Nasci em tempos de ventania! Fui batizada aos três meses, em nome de Nossa Senhora das Graças, aquela que pisa em uma serpente e emana raios de graças pelas mãos. Era um costume na época, mas se deu devido a um encontro entre ela (uma pequena imagem que tenho até hoje) e minha mãe, na praia do Rio Vermelho, no dia de Yemanjá, quando ainda grávida de mim. Só em 2015, ao arrumar caixas de fotografias para mais uma mudança, foi que me dei conta que era esperado um menino, pelas roupas azuis das primeiras fotos. Engraçado, isso nunca me foi uma questão problemática.

Família de classe média, ambos migrantes do interior do estado da Bahia para a capital. Minha mãe era dona de casa, ‘do lar’, como se dizia. Era apaixonada por livros e por estudos, mas fez apenas até o início do secundário, pois meu avô, coronel da polícia militar, entendia que mulheres não precisavam de estudos. Meu avô era um caboclo, filho de índia com mestiço, que ascendeu socialmente graças à entrada precoce na Polícia Militar ainda na região de Itabuna (Velha Boipeba) e seu tino para negociações. Casou-se com minha vó, uma branca loura, filha de portugueses. Produto das relações

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mestiças, elitistas e paradoxais do Brasil. Minha mãe nasceu em Ilhéus, penso que devido ao trabalho de meu avô no quartel; foi a segunda filha (o primeiro foi homem). Vieram para Salvador depois que meu avô entrou para reforma.

Meu pai, filho de uma batista ortodoxa e comerciante de secos e molhados (como se dizia), da cidade de Vitória da Conquista, arrimo da família desde muito jovem, veio para Salvador quando seus irmãos mais novos precisaram fazer faculdade. Meu pai não fez, se tornou um administrador por intuição e foi cuidar de uma empresa de construção civil da família, pois seu irmão caçula se formou em engenheiro civil.

Não sei bem como se conheceram. Alguns familiares dizem que foi em uma festa de clube, na qual minha mãe foi escondida de meu avô, sob a proteção de uma madrinha. Aí começou uma desavença entre as famílias. O casamento foi muito tenso. Só quando eu nasci (10 meses após a cerimô- nia) as coisas se acalmaram. Cresci nesse ambiente familiar onde parecia estar tudo perfeito. Apesar de sempre termos morado de aluguel, tínhamos conforto, colégio particular, frequentávamos clubes, meus pais faziam parte do Lions Club. Só muito mais tarde, eu descobri que não tínhamos casa própria porque meu pai pagava os desfalques que seu irmão engenheiro dava na empresa e nada dizia para não perturbar minha vó; que meu avô praticou por muito tempo agiotagem

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e quase foi expulso da corporação correndo o risco de perder os rendimentos. Uma família perfeita de classe média em plena ditadura.

O período mais difícil para mim foi o final da década de 1970 e início de 1980. Em 1978, descobrimos que minha mãe tinha câncer e toda a economia possível da família foi empregada em seu tratamento, mas com a morte de meu pai, em junho de 1979 (no dia de seu aniversário de casamento), de um enfarte fulminante, a doença se agravou e ela também se foi, em dezembro de 1980. Penso que o sofrimento com o com- portamento do irmão e o fato de ser um fumante contumaz desde os 13 anos o levou ao infarto, e isso abalou fortemente a minha mãe, fragilizando-a. Era um casal extremamente unido. É aqui que tudo muda!

Eu com 14 anos, quase 15, agora em 1981, junto com minha irmã, morávamos com minha vó paterna batista. Eu, católica, criada por minha mãe muito próxima do ecumenismo religioso, como dizíamos na Bahia. Meu pai não se metia nessa questão, acho que não se indisporia nem com minha mãe, nem como minha vó. Esta, por sua vez, muito ferida por ter perdido o filho mais velho, seu companheiro de vida (é uma leitura que faço hoje depois de muita terapia). Ela própria enviuvou aos 27 anos e nunca se casou de novo. Eu e minha irmã mudamos de escola. Já havíamos saído do Colégio

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Antônio Vieira, confessional jesuíta, no qual estudamos desde o ensino fundamental; naquela época chamava-se ensino primário, devido a um aborrecimento entre o padre diretor e minha mãe, pois ele não aceitava nossa queda de rendimento mesmo com a morte de meu pai e a doença materna.

Fomos para escolas de bairro, com baixa qualidade20, mas era o possível naquele momento, além de que havia muita confusão familiar devido ao tratamento difícil a que minha mãe se submetia, indo e voltando de São Paulo para cirurgias e orientações. Até então, vivíamos em um mundo extremamente cercado, sem nenhuma agrura e desfrutando de fazer parte de um grupo privilegiado em nosso país. Apesar de não sermos ricos, hoje entendo, fazíamos parte de um grupo de classe média que se sentia em ascensão por desfrutar de algumas benesses das elites, mas que vivia do seu trabalho e sem ele, não se adequava mais à vida da classe média (SOUZA, 2019).

Ao entrar nessa nova escola, Nossa Senhora de Lourdes, o Lourdinha, que nada tinha de católico a não ser o nome, tive o primeiro impacto desse abismo social. Agora eu já estava no Ensino Médio, naquela época ainda Segundo Grau.

20 Mesmo entendendo que esse termo, qualidade, seja polissêmico, o usamos aqui para nos referir a uma escola com pouca atenção aos processos de aprendizagem dos estudantes, muito mais preocupada com o lucro que eles davam. Infelizmente ainda temos essa realidade no país.

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Era uma escola privada, de certo, mas apenas voltada para a certificação dos que ali ingressavam. Praticamente não tínhamos aulas de verdade. Pessoalmente, foi uma experiência bastante interessante. Ninguém controlava nossa frequência e é claro que ganhávamos a rua. Foi um ano improdutivo escolarmente, mas absolutamente rico de aprendizagens.

Sempre fui uma criança calma, mas não tímida, sempre fui ousada, mas nunca me meti em nada sem avaliar os riscos.

Tendo ido morar com minha vó, não poderia mais ficar nessa escola, era demais para ela. Ela nos queria sob seu olhar atento. Então fomos para outra escola, Colégio São Paulo, cujo dono/diretor era um reverendo da Igreja Presbiteriana. Era uma escola mais laica, é verdade. Melhor conceituada que o Lourdinha e não era católica, além de ser na mesma rua em que morávamos. Acho que isso atendia aos requisitos.

Esse ano de 1981 foi riquíssimo em descobertas! Além das desconfianças de que o que estávamos passando não era apenas um infortúnio familiar, embora também o fosse, ao entrar na nova escola conheci um novo mundo de amizades.

Aquelas do Lourdinha não perduraram. As amizades da infância, com tantas altercações socioeconômicas, não vin- garam. Embora fossem todos estranhos, fiz queridos amigos, relevantes para minha vida até hoje. Nunca fui de muitos, é verdade, acho que sempre pude contar como amigos próximos,

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um número que cabe numa mão. Mas nunca fui inibida ou fechada. Apenas era assim. Um desses amigos, Iúri, se tornará mais tarde meu marido, um pequeno inesperado.

Também nesse momento conheço alguém fundamental para minha formação. Nem sei se um dia ele soube do impacto que teve em mim. O professor Zé Carlos, de história. Militante contra a ditadura militar, participou de diversos movimentos, foi preso e torturado. Sinceramente, acho que ele conseguiu aquela vaga de professor com ajuda de alguém que o queria proteger. Acho que minha vó também não conhecia muito bem o Reverendo, diretor da escola. Em suas aulas ele nos falou de uma história que nunca havíamos escutado, e de forma lúdica e verdadeira, mas sem se expor demais. Ele nos falava do que de fato havia acontecido em nosso país nessas duas décadas; que a ditadura era uma constante em nossa história e a defesa da democracia era muito difícil, pois, no Brasil, ela tinha uma marca muito forte da tradição escravocrata.

Zé Carlos foi responsável pela leitura de dois livros que me fizeram mudar a forma de ver o mundo: As veias abertas da América Latina (GALEANO, 1978) e Se me deixam falar... Domitilla: depoimento de uma mineira boliviana (VIEZZER, 1981). O primeiro desvelou a realidade da América Latina, incluindo o Brasil, na dolorida história de violên- cias a que seu povo foi submetido e o segundo, através do

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depoimento dessa corajosa boliviana, me apresentou não só a dimensão da luta de classes, mas o lugar assumido pelas mulheres e imposto a elas, principalmente trabalhadoras, nesse contexto. Foi como se uma bomba caísse em minha frente e tudo se tornasse outra coisa. Onde eu estava que nada disso vi? Na bolha!

Eu, que sempre fui uma criança gordinha e de óculos, agora já enfrentava uma obesidade mais severa. Juntando as turbulências e novas aprendizagens desses anos, as mudanças hormonais decorrentes da puberdade e adolescência, tudo se descontrolou. Ventania de novo. Mas agora eu queria ser protagonista. Nesse período, comecei a buscar alternativas de como ajudar as pessoas. Conheci alguns colegas católicos que faziam parte de grupos de jovens e comecei a participar de alguns eventos, muito mais de louvação que de ação e isso me incomodava. Até que conheci um grupo que se reunia na casa pastoral da Igreja de Nossa Senhora da Vitória, na qual fui batizada, para reflexões sobre a bíblia, mais especificamente sobre o novo testamento e organização de ações comunitárias, como atendimento médico/odontológico por voluntários para as comunidades carentes em torno. Me entusiasmou.

Quem conhece Salvador sabe que sua organização urbana é muito peculiar. Embora a Vitória seja um bairro de classe média/alta, em seus entremeios se configuram comunidades

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carentes, e em bairros circundantes também. Essa é uma configuração comum em Salvador. Embora esse trabalho e o conhecimento mais aprofundado da Bíblia tenham sido importantes para minha formação e compreensão do papel da religião na vida das pessoas, por si só, esse assistencia- lismo não me parecia ajudar muito, serviam como unguento num momento de emergência, mas não resolvia. Ainda não sabia nada sobre a Teologia da Libertação e suas ações nas comunidades.

Salvador é uma cidade cheia de credos que vão se ema- ranhando uns nos outros. Naquela época, não tínhamos ainda o movimento negro tão sistematizado e forte, então as religiões de origem africana existiam meio que submer- sas, mas vibrantes na cidade. Também não tínhamos ainda a ascendência das religiões pentecostais e neopentecostais como hoje, nem os movimentos católicos carismáticos eram tão fortes. Chamo a atenção sobre esse aspecto, pois com o contato com as comunidades mais carentes, de maioria negra e com muitas referências no candomblé ou umbanda, passei a me interessar em conhecê-las melhor. Por outro lado, minha mãe, de certa forma, já havia nos aproximado do sincretismo, com seu pequeno altar doméstico, onde era possível encontrar as imagens católicas de São Francisco, Sagrada Família e Santa Bárbara (no sincretismo, Iansã) e

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