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A SPECTOS DO DIREITO À PROPRIEDADE EM T HOMAS
H OBBES E J OHN L OCKE
LUCAS ROMERO MONTENEGRO*
Resumo: A construção histórica de um direito, até que se chegue à conformação que hoje temos, passa pela concepção que dele tiveram diversos pensadores. Diante disso, este trabalho busca compreender de que forma Hobbes e Locke contribuíram nesse sentido, no que se refere ao direito à propriedade. A escolha desses autores se motiva na profunda contribuição dada por ambos no âmbito da filosofia do direito, bem como por estarem inseridos num mesmo contexto político, qual seja, a conturbada Inglaterra do século XVII.
Em Hobbes, a propriedade surge de um conjunto de elementos indissociáveis oriundos da construção estatal, tais como os conceitos de Estado, justiça e injustiça. Locke entende a propriedade como antecessora da sociedade civil e amplia seu conceito de modo a açambarcar também a vida e liberdade. A pesquisa, em face da metodologia de caráter bibliográfico adotada, se fundamenta, sobretudo, na leitura das principais obras políticas desses autores (de Hobbes, O Leviatã e Do Cidadão; e Dois Tratados Sobre o Governo, de Locke), mas também não dispensa o auxílio de comentadores. Portanto, a partir da abordagem de aspectos teóricos do direito à propriedade, revela-se o relacionamento da propriedade a elementos recorrentes no pensamento dos autores (estado de natureza, direito natural, lei natural etc.), expõe-se a fundamentação dada por eles a esse direito, bem como se ressalta a função propriedade no âmbito geral da filosofia política de ambos. Este trabalho foi possível graças ao suporte de financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Palavras-chave: Propriedade. Hobbes. Locke.
Abstract: The historical construction of a right until it reaches the conformation it has today passes by the conceptions that many thinkers had of it. In this context, this article researches how Hobbes and Locke helped in this process, referring to property’s right. The choice for these authors has explanation in the deep contribution given by them to philosophy of law and also because they are included in the same political context: the troubled 17th century England. For Hobbes, property comes from a group of inseparable elements of state´s construction, like the concepts of State, justice and injustice. Locke understands the property like been the civil government’s predecessor and expand the property’s concept in order to include the life and liberty. The research, in light of bibliographical methodology adopted, is based primarily on reading of the autors’ main political works (Hobbes, the Leviathan and De Cive; and Two Treaties of Government, Locke), but also does not relieve the aid of reviewers.
Therefore, from the approach of theoretical aspects of the right to property, shows up the relation between property and repeated author's elements of thought (state of nature, natural law etc.), is exposed their reasons to this law, as well as it is standed up the function of property among both's political philosophy. This article was possible due to the financial support of Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Keywords: Property. Hobbes. Locke.
* Aluno da Graduação em Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC). Bolsista de Iniciação Científica do CNPq. Membro do Grupo de Pesquisa “Filosofia dos Direitos Humanos” (UFC/CNPq).
31 1 INTRODUÇÃO
O direito à propriedade é notadamente reconhecido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, de tal forma que insere, no seu art. XVII, o seguinte texto: “1. Todo ser humano tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros. 2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade”1.
No entanto, abaixo da simples positivação, esconde-se um longo desenvolvimento teórico, no sentido de assentar-lhe as bases e dar-lhe a conformação que hoje temos. Constitui um duradouro processo de afirmação de um direito, sem o qual restaria inócua e inconsistente sua inclusão na declaração acima referida.
Nesse sentido, este trabalho busca compreender como Thomas Hobbes e John Locke compreenderam e justificaram o direito à propriedade, ressaltando alguns aspectos interessantes em suas construções teóricas, bem como de que forma estes aspectos se inserem num contexto maior de sua filosofia política. Intenta mostrar, a partir de suas principais obras políticas – O Leviatã e Do Cidadão, de Hobbes; e Dois Tratados Sobre Governo Civil, de Locke – a contribuição desses autores no caminhar que culmina na suposta eleição deste direito como um direito humano em espécie.
Propício é o cotejo entre os dois autores, dada a sua proximidade histórica2, o que permite maior visibilidade ao rumo percorrido por elementos recorrentes na filosofia política de ambos e tão caros à história da filosofia do direito, tal como o estado de natureza e o direito natural, que guardam íntima relação com a propriedade, mas de modo diverso em cada autor, conforme a própria configuração dada por eles a esses elementos.
Além disso, é pertinente a retomada à filosofia política moderna, já que é responsável por suscitar um longo debate acerca da necessidade e dos limites da propriedade – ora demonizada pela criação das desigualdades, ora sacralizada pela realização do progresso – que persiste nos dias atuais.
Quanto à metodologia de pesquisa adotada, em face do caráter hermenêutico do trabalho, constitui pesquisa eminentemente bibliográfica, baseada no levantamento, na leitura e na elaboração de fichamentos da obra Leviatã e Dois Tratados Sobre o Governo, bem como na leitura dos demais livros presentes na bibliografia.
1 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direito Humanos. Disponível em:
<http://www.onu-brasil.org.br/documentos_direitoshumanos.php>.
2 Hobbes morreu apenas onze anos antes da publicação da primeira edição de Dois Tratados Sobre o Governo.
32 2 A PROPRIEDADE EM THOMAS HOBBES 2.1 A propriedade e o estado de natureza
A propriedade hobbesiana é completamente excluída da configuração seu estado de natureza, o que não significa, entretanto, que sua compreensão independa deste, pois podemos, a partir da compreensão do seu estado de natureza, chegar à noção de propriedade proposta pelo autor.
A inexistência da sociedade civil, capaz de prescrever normas de regulação das condutas e assegurar o cumprimento dos pactos realizados, concentra no homem toda a permissividade do direito de natureza:
El derecho de naturaleza, lo que los escritores llaman comúnmente jus naturale, es la libertad que cada hombre tiene de usar su propio poder como quiera, para la conservación de su propia naturaleza, es decir, de su propia vida; y por consiguiente, para hacer todo aquello que su propio juicio y razón considere como los medios más aptos para lograr ese fin.3
O direito é dissociado da lei. A lei natural limita as ações humanas no sentido de garantir a conservação de sua vida e dos meios que dispõe para preservá-la. São derivadas da reta razão, o que em si justifica a precedência do direito à lei, pois segundo prescreve a primeira lei natural, “cada hombre debe esforzarse por la paz, mientras tiene la esperanza de lograrla; y cuando no puede obtenerla, debe buscar y utilizar todas las ayudas y ventajas de la guerra”4. Manda a reta razão que, caso não sejam obedecidas as leis naturais – o que resultaria na construção da sociedade civil, pois a segunda lei prescreve a celebração de um pacto, por meio do qual cada um renuncia a parte de seu direito natural – é necessário e legítimo que cada homem aja de acordo com suas paixões e interesses pessoais, prepare-se para guerra e exerça seu direito natural sobre todas as coisas.
Como se vê, Hobbes elege como valor fundamental a sobrevivência humana, é com isso que se preocupa primordialmente, a tal ponto que, para tanto, outorga a todos os homens, em sua condição natural, o direito sobre todas as coisas. É exatamente esse o ponto que explica a inexistência da propriedade no estado de natureza. Antes do direito de propriedade está o direito de conservar-se. E assim o é de tal forma que há de se questionar inclusive a propriedade sobre o próprio corpo: “A um tempo clama direito a tudo, e todos reclamam o
3 HOBBES, Thomas. Leviatán: o la matéria, forma y poder de uma república, eclesiástica y civil. 2. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2007, p. 106.
4 Idem, p. 107.
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que ele ocupa, até o seu corpo; nada é próprio, tudo comum”5. A outorga do direito deve consequentemente por à disposição de seu titular os meios necessários ao seu exercício, pois
“é vão alguém ter direito ao fim se lhe for negado o direito aos meios que sejam necessários”6. Quais meios propiciam o exercício do direito sobre todas as coisas? A resposta é simples, todos aqueles que o homem for capaz de lançar mão, ou seja, sequer o corpo de um homem está imune à utilização legítima por outro.
Tamanha permissividade7 torna inviável a aplicação dos conceitos de justiça e injustiça ao estado de natureza. Esses conceitos se destacam da instituição do poder soberano, por meio do contrato e das leis civis. A justiça de Hobbes está vinculada à noção de propriedade, segundo se depreende de sua interpretação a contra senso do conceito de Ulpiano de justiça:
[...] justicia es la voluntad constante de dar a cada uno lo suyo. Por tanto, donde no hay suyo, es decir, donde no hay propriedad, no hay injusticia. Todos los hombres tienen derecho a todas las cosas, y por tanto donde no hay Estado, nada es injusto.8
Interessante notar que aqui Hobbes abrange o conceito de propriedade para além da posse de um bem, “vincula-a à Justiça, e portanto, a todas as ações que são próprias do homem, àquelas que é direito seu (e, talvez, exclusivamente seu) praticar: designa assim o agir do homem, a dimensão em que é lícito o seu fazer”9.
Fica claro, assim, que a propriedade surge com instituição característica singular da sociedade civil. Incompatível o direito sobre todas as coisas e a posse exclusiva de uma delas.
Onde não há o “teu” e o “seu”, não há que se falar em “meu”. Essas são categorias fundadas pelo poder soberano, pois se veem inviabilizadas frente ao individualismo do homem natural hobbesiano.
2.2 A justificação da propriedade
5 RIBEIRO, Renato Janine. Ao leitor sem medo: Hobbes escrevendo contra o seu tempo. 2. ed. Belo Horizonte:
UFMG, 1999, p. 83.
6 HOBBES, Thomas. Do cidadão. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 31.
7 Autores há que consideram que a permissividade do estado de natureza é mitigada pelo caráter divino das leis naturais. Desobedecê-las seria desobedecer ao próprio Deus. Assim, o medo dos seus semelhantes, aliado ao da repreensão divina, compeliria o homem à sociedade civil. Ver, nesse sentido, POGREBINSCHI, Thamy. O problema da obediência em Thomas Hobbes. Bauru: EDUSC, 2003.
8 HOBBES, Thomas. Leviatán: o la matéria, forma y poder de uma república, eclesiástica y civil. 2. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2007, p. 119.
9 RIBEIRO, Renato Janine, op. cit., p. 81.
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O direito a todas as coisas gera a guerra de todos contra todos, comporta a condição natural da humanidade. Nesse sentido, é imprescindível romper com esse direito, delimitar a esfera de ação, e, portanto, instaurar a propriedade: sua existência nos leva à paz. A justificação da propriedade hobbesina deita raízes no rompimento com o estado de guerra e na necessidade que os homens têm de sobreviver. A propriedade, em Hobbes, significa paz, significa vida.
Mediante o pacto realizado entre súditos, seguindo a determinação da segunda lei natural, é instituído o poder soberano, incumbido de prescrever leis, o que significa instaurar o justo e o injusto na vida social. Se justiça é dar a cada um o que é seu, e a criação do justo segue a conformação dada pela vontade soberana, logo, cabe exclusivamente ao soberano a distribuição da propriedade entre os súditos (dar a cada um o que é seu), que deve ser feita segundo o julgamento daquele sobre o que é mais propício para assegurar a paz pública e a obediência. Constitui um direito do soberano por instituição.
Assim, por meio das leis instauradas pelo poder soberano, o súdito tem sua propriedade resguardada das investidas dos demais concidadãos, ou seja, é “aquilo que ele pode conservar graças às leis e ao poder da cidade como um todo, isto é, daquele a quem está conferido o mando supremo sobre ela”10. Seu direito exclui os de todos os outros súditos, mas não exclui o direito do soberano. Isso porque, se excluído também esse direito ao soberano, fica ele impedido de utilizar os meios necessários à consecução dos fins para o qual foi instituído, a saber, defender os súditos das injúrias mútuas e dos ataques estrangeiros.
Além disso, o soberano não se subordina ao pacto instaurador do Estado, que é feito apenas entre súditos, “a propriedade é menos que o poder do Estado: ele a deu, ele a tira”11.
Hobbes, no entanto, em O Leviatã12, aventa a possibilidade de se considerar nula a distribuição feita pelo soberano, se realizada a despeito da paz e segurança comum que tem como missão, o que, na verdade, contraria a vontade de cada súdito, depositada na figura de seu representante supremo13. Nesse sentido, o Estado deve perseguir os fins para o qual foi proposto, sob pena de nulidade dos atos que os afrontam.
Assim sendo, a propriedade existe em Hobbes porque tem como consequência inevitável o rompimento com o estado de natureza. Está umbilicalmente ligada à prescrição
10 HOBBES, Thomas. Do cidadão. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 111.
11 RIBEIRO, Renato Janine, op. cit., 2004, p. 88.
12 As obras políticas de Hobbes parecem seguir um aprimoramento teórico, que atinge sua maturidade em O Leviatã. Portanto, há aspectos que são concretamente considerados apenas nessa última obra, tal como a hipótese acima reputada. Ver, nesse sentido, POGREBINSCHI, Thamy. O problema da obediência em Thomas Hobbes. Bauru: EDUSC, 2003.
13 HOBBES, Thomas. HOBBES, Thomas. Leviatán: o la matéria, forma y poder de uma república, eclesiástica y civil. 2. ed. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2007, p. 204.
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de leis e identifica-se com a Justiça. E tudo isso reside na composição do Estado e na instituição do soberano.
2.3 Propriedade e domínio
Propriedade e domínio são termos cujos sentidos, ora se confundem – de modo a compor uma monarquia patrimonial, tal como a proposta por Robert Filmer, contra a qual se opôs Locke em seu Primeiro Tratado14 – ora mostram-se distintos, como o propõe Hobbes.
Justifiquemos e esclareçamos, então, a partir do escritos de Hobbes, a que se deve tal diferença.
Em Do Cidadão, ao dissertar sobre as características de um aglomerado de pessoas ainda em estado de natureza, consta a seguinte afirmação:
Além disso, numa multidão que ainda não tenha sido reduzida a uma pessoa única, da maneira que acima expusemos, continua valendo aquele mesmo estado de natureza no qual todas as coisas pertencem a todos, e não há lugar para o meum e o tuum, que se chamam domínio e propriedade.15
Daqui se depreende que Hobbes imprime à noção de domínio, assim como à de propriedade, o sentido de posse e autoridade sobre algo. O direito que tem sobre aquilo exclui o direito dos demais que estão em iguais condições. E assim o é de tal forma que se torna impossível sua existência no estado de natureza, pois qualquer homem tem direito sobre todas as coisas. A suposta equivalência dos termos é acentuada ainda, pelas afirmações de que o domínio que se tem sobre os servos dá ao senhor o direito de vendê-los, dá-los em penhor ou transferi-los por testamento, tal como as coisas de sua posse.
Em seguida, o autor diz haver apenas três vias para se adquirir domínio sobre uma pessoa. A primeira delas resulta de um pacto mútuo e voluntário entre homens, a fim de instituir um poder soberano, tornando-se súditos. A segunda ocorreria quando o derrotado ou aprisionado de guerra tem de se submeter às ordens do vencedor, tornando-se seu servo ou escravo. E a terceira, por fim, seria o domínio paterno.
Com relação à primeira via, os súditos transferem sua vontade ao soberano, para que este lhes proteja a vida e a integridade física, antes sob o contínuo risco do estado de guerra.
14 Filmer afirma, considerando o reino como propriedade privada do soberano, que Adão recebeu de Deus o
“domínio sobre todas as criaturas, fez-se, com isso, monarca do mundo todo e ninguém entre seus descendentes tinha o direito de possuir o que quer que fosse salvo por sua concessão ou permissão, ou ao sucedê-lo”.
LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. 2. ed. São Paulo: Marins Fontes, 2005, p. 219.
15 HOBBES, Thomas. Do cidadão. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 102.
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Como meio, pois, de garantir a satisfação dos fins para os quais foi instituída a sociedade civil, fica o homem adstrito à obediência para com aquele que detêm o poder soberano, ou, em outras palavras, o domínio. É de se ressaltar, entretanto, que seja qual for o estágio de desenvolvimento das leis civis de uma sociedade, há sempre um direito natural residual, que garante a salvaguarda dos bens humanos considerados mais valiosos considerados por Hobbes, quando diretamente ameaçados. Ouçamos o próprio autor:
Assim, da mesma forma que nenhum homem pode estar obrigado a consentir em ser morto, menos ainda estará preso àquilo que para ele seja pior que a morte.
Portanto, se me mandam matar-me, não estou obrigado a fazê-lo.16
Concorre para isso também o direito de resistir a ferimentos e aprisionamentos, bem como a se abster do serviço militar, afirmados por Hobbes. São situações em que os indivíduos têm seus bens supremos ameaçados pelo Estado, responsável instituído para protegê-los.
A segunda via consiste na relação senhor-servo e surge da seguinte maneira:
[...] um homem, aprisionado de guerra, ou derrotado, ou ainda descrente de suas próprias forças (para evitar a morte) promete ao conquistador ou ao partido (party) mais forte o seu serviço, ou seja, promete fazer qualquer coisa que aquele lhe ordene.17
Origina-se, portanto, da submissão do vencido, tendo em vista a sua sobrevivência, que pertencia ao vencedor, segundo o direito de natureza vigente entre ambos no estado de guerra. O rompimento com o estado de natureza só se faz mediante a instauração de autoridade, aqui prometida pelo servo ao seu senhor18.
A terceira via constitui o domínio paterno que, em geral, os pais têm sobre os filhos.
Para Hobbes, todavia, esse domínio não decorre da geração, mas do cuidado e da nutrição.
Não há direito que não persiga um fim. Além disso, a geração é feita conjuntamente, pais e mãe concorrem para isso, o que geraria dupla autoridade sobre a mesma pessoa, que para Hobbes é impossível. A mãe, enquanto tem os filhos sobre seus cuidados, possui domínio
16 Idem, p. 109.
17 Idem, p. 136.
18 A escravidão, para Hobbes, remete sempre a uma submissão não consentida (e nisso se diferencia da servidão, que pressupõe o consentimento do servo), onde o escravo está permanentemente preso ou ligado a correntes. Estão ambos em estado de guerra; obedecem em virtude de coação física e não possuem qualquer dever perante seus senhores, pois “ligar um homem é um sinal óbvio, por parte de quem o acorrenta, de não o supor suficientemente ligado por qualquer outra obrigação”. Idem, p. 137.
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sobre a criança; pode, entretanto, abandoná-la aos cuidados de outrem, que possuirá o domínio paterno e merecerá sua obediência e respeito.
Infere-se daí que o domínio existe em virtude de um fim para o qual foi instituído;
existe para alcançar a consecução de determinados efeitos. Encontra-se, pois, em estreita relação com ética utilitarista hobbesiana, que guarda, como instrumento assegurador de sua eficácia, a autoridade. Os pactos só valem se garantidos por uma autoridade superior às partes contratantes. Assim, uma autoridade que ataque frontalmente o objeto que deveria assegurar, faz-se nula para quem a institui.
Diante daqueles a que estão sujeitos, súditos, servos e filhos não são proprietários de seus bens materiais. Pertencem todos a seus respectivos senhores. É nesse sentido que cabe ao soberano a distribuição da propriedade entre os súditos. Eles apenas detêm a posse de bens quando esse direito é delegado pelo soberano. O reino se estrutura a partir do domínio soberano sobre as pessoas, e não sobre a propriedade, que decorre daquele. Daí a precedência do Estado à propriedade, o que não se verifica em Locke, como veremos em seguida.
3 A PROPRIEDADE EM JOHN LOCKE 3.1 Propriedade a partir da imitação divina
Proclama Locke no Segundo Tratado:
todos os homens são obra de um único Criador todo-poderoso e infinitamente sábio, todos servindo a um único senhor soberano, enviados ao mundo por sua ordem e a seu serviço; são portanto sua propriedade, daquele que os fez e que os destinou a durar segundo sua vontade e de mais ninguém.19 (grifo nosso)
Os homens são fruto do trabalho divino, da vontade do Criador. São consequentemente sua propriedade e a Ele devem sua vida e existência. Na condição de criaturas, estão todos submetidos à vontade de Deus, traduzida pelo direito natural. Privados estão de aniquilar a própria vida, pois este é um valor que não lhes pertence, e dele só pode dispor seu Criador. Assim também o é com relação à liberdade. Opondo-se diametralmente a Robert Filmer, para quem nenhum homem goza de liberdade, exceto o herdeiro de Adão, Locke afirma ser ela também inviolável, de tal modo que a escravidão consentida vai de encontro às leis naturais. Impossível a propriedade sobre outro homem, sendo, todavia,
19 LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil e outros escritos: ensaio sobre a origem, os limites e os fins verdadeiros do governo civil. 4. ed. Bragança Paulista: Universitária São Francisco ; Petrópolis: Vozes, 2006, p. 84.
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justificada a escravidão quando resulta de estado de guerra iniciado pelo cativo, o qual deve escolher a vida ou a liberdade.
Em Locke, o termo propriedade comporta dois sentidos. O primeiro (estrito) refere-se apenas aos bens; é o utilizado por ele no Segundo Tratado, em capítulo intitulado Da propriedade. O segundo sentido (lato) é ampliado de modo a abranger vida, liberdade e bens20. Podem eles, entretanto, dispor destes últimos, pois, como se verá, possuem-no por delegação divina.
Assim como fez os homens, o Todo Poderoso teria feito o mundo e tudo que nele está contido. Deu então aos homens a posse comum sobre todas as coisas, para que delas pudessem desfrutar. Originalmente não há domínio privado, os bens em estado natural estão à disposição de todos os homens. Como bem sugere Renato Janine Ribeiro, Locke põe num contexto diferente o princípio de que a natureza deu tudo a todos21 do exposto por Hobbes.
Neste o princípio serve para compor o direito natural irrestrito no estado de natureza.
Naquele, para a posse comum das coisas do mundo outorgada por Deus dentro dos limites por Ele mesmo impostos.
Locke depara-se então com o seguinte problema: como justificar a propriedade particular sobre a aquilo que era de domínio comum, outorgado por Deus aos homens, ou nas palavras do próprio Locke, “como os homens podem ter adquirido uma propriedade em porções distintas do que Deus deu à humanidade em comum, mesmo sem o acordo expresso de todos os co-proprietários”22.
A primeira resposta à tal indagação se refere ao direito à autopreservação, podendo ser deduzida já no Primeiro Tratado, quando Locke aborda o uso das criaturas inferiores pelo homem, “fundamentado no direito que tinha ele fazer uso das coisas necessárias ou úteis à sua existência”23. A apropriação é que permite o usufruto das coisas oferecidas por Deus aos homens, tal como uma fruta que, pertencendo a todos, não pode ser útil a ninguém. Está de acordo com o direito natural, portanto, a apropriação individual daquilo que pertencia a todos, quando legitimada pelo fim de garantir sua sobrevivência (coisas necessárias) e satisfação de suas conveniências (coisas úteis).
20 “[...] e não é sem razão que ele solicita e deseja se unir em sociedade com os outros, que já estão reunidos ou que planejam se unir, visando a salvaguarda mútua de suas vidas, liberdades e bens, o que designo pelo nome geral de propriedade”. Idem, p. 157. Não poderia Locke referir-se aqui apenas aos bens, pois, no mesmo capítulo ainda, o autor elege a preservação da propriedade como fim para a fundação do Estado e, como se vê do trecho acima, vida, liberdade e bens concorrem para estatuir a vida em sociedade.
21 Natura dedit omnia omnibus
22 Idem, p. 97.
23 LOCKE, John. Dois tratados sobre o governo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 294.
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A segunda resposta motiva-se no trabalho e guarda íntima relação com a imitação divina. O homem, imagem e semelhança que é do Criador, imita-o ao transferir algo de si àquela coisa, retira-a do estado natural e exclui os direitos de outrem sobre aquilo: o trabalho humano, por mínimo que seja, compõe o direito sobre a coisa. No entanto, assim o é unicamente por delegação divina. Deus confere ao homem o direito natural de posse mediante o trabalho. Os homens o têm por confiança divina. Ao aplicar trabalho sobre a natureza, deposita ali algo de seu, transforma o objeto imprimindo-lhe utilidade.
Reforça essa justificação a argumentação desenvolvida pelo autor, segundo a qual aquele que se apropria da terra para cultivá-la não reduz as provisões da humanidade, mas as incrementa; na medida em que um lote terra cultivada produz dez vezes mais do que o mesmo lote, se este pertencesse ao domínio comum.
3.2 A introdução da moeda e a suposta legitimação da apropriação ilimitada.
Há, no entanto, limites naturais a esse direito de apropriação. Além do consequente dever entre os homens, pois a existência da propriedade de um implica o reconhecimento e o respeito dos demais (só há o “meu”, se houver “teu” e o “seu”), há aquele dever supremo para com Deus. O Criador nos delega a posse sobre aquilo onde aplicamos trabalho, mas desde que respeitemos os limites da lei natural. Infringir tais limites significa penetrar na via de ação divina, naquela esfera cuja autoridade pertence a Deus, como proprietário absoluto de todas as coisas.
Assim sendo, toda propriedade é delimitada na medida do usufruto. Ao homem é dado o direito de se apossar de tudo aquilo que é capaz de utilizar. O trabalho aplicado sobre a coisa, adicionado à capacidade de usufruto, legitima a posse.
A mesma lei da natureza que nos concede dessa maneira a propriedade, também lhe impõe limites. ‘Deus nos deu tudo em abundância’ (1Tm 6, 17) , e a inspiração confirma a voz da razão. Mas até que ponto ele nos fez a doação? Para usufruirmos dela.24
A expansão para além do limite estabelecido, ou seja, para além possibilidade de utilização, constitui desperdício e consequentemente dá aos outros homens direito sobre aquilo, pois “tudo o que excede a este limite é mais que a sua parte e pertence aos outros.
24 LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil e outros escritos: ensaio sobre a origem, os limites e os fins verdadeiros do governo civil. 4. ed. Bragança Paulista: Universitária São Francisco ; Petrópolis: Vozes, 2006, p. 100.