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A expansão do ensino superior privado no Brasil

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Academic year: 2021

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A EXPANSÃO DO ENSINO SUPERIOR PRIVADO NO BRASIL

Orientador: Prof. Dr. Paulo Zarth

Ijuí (RS) 2009

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PEDRO STIELER

A EXPANSÃO DO ENSINO SUPERIOR PRIVADO NO BRASIL

Dissertação de Mestrado apresentada ao Curso de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação na Ciência como requisito para obtenção do título de Mestre.

UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.

Orientador: Prof. Dr. Paulo Afonso Zarth

Ijuí (RS) 2009

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A EXPANSÃO DO ENSINO SUPERIOR PRIVADO NO BRASIL

PEDRO STIELER

Dissertação de Mestrado defendida e aprovada pela banca examinadora constituída pelos doutores abaixo assinados.

Data de aprovação: 22/12/2009.

Composição da Banca Examinadora:

Prof. Dr. Paulo Afonso Zarth Orientador - Unijuí Prof. Dr. José Pedro Boufleuer Unijuí

Prof. Dra. Rosane Carneiro Sarturi UFSM

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Dedico esta dissertação a Deus, e a tudo o que ele representa.

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AGRADECIMENTOS

...à Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), e ao Colegiado do Curso pela oportunidade de realização deste mestrado; ...ao Prof. Dr. José Pedro Boufleuer, coordenador do curso, pela paciência, compreensão e contribuição para a objetivação desta pesquisa. Suas orientações, tanto na banca de qualificação do projeto de pesquisa, quanto na banca de qualificação da pesquisa, trouxeram muita luz para o trabalho; ...ao Prof. Dr. Paulo Afonso Zarth, orientador desta dissertação, por todo empenho, sabedoria, paciência, compreensão e, acima de tudo, exigência. Foram muitas discussões, correções, sugestões que contribuíram para o êxito deste trabalho, mas muito além disso, foi um porto tranqüilo, sereno e seguro. ... ao Prof. Dr. Walter Frantz, integrante da banca de qualificação, pelo tempo dedicado à leitura desta dissertação e pelas importantes contribuições; ... a Profa. Dra. Rosane Carneiro Sarturi, pela atenção e gentileza com que aceitou o convite para a banca examinadora e pela avaliação desta pesquisa.

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―A educação e a elevação cultural balizarão a sociedade do século XXI. Não há como esperar uma sociedade de relações na qual os valores e significados não estejam firmemente ancorados na educação‖.

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RESUMO

Este trabalho aborda o tema, expansão do ensino superior no Brasil, com foco no ensino superior privado. Em face do ensino superior historicamente insuficiente, no contexto atual da expansão evidenciada, principalmente através da rede privada, questiona-se: quais idéias, concepções e interesses estão em jogo na expansão do ensino superior no Brasil, num contexto da educação como um mercado em rápida ascensão. Para solucionar está questão estabeleceram-se como objetivos desta pesquisa, contextualizar a questão da educação no mercado global e a discussão que a leva a se configurar dentro de um mercado; examinar a visão de empresários, professores e sindicatos sobre a expansão do ensino superior privado, a partir de documentos e publicações; e refletir sobre possíveis pontos frágeis na expansão do ensino superior privado no Brasil. A metodologia utiliza a pesquisa bibliográfica e a análise documental e reflexiva. Considerando-se a investigação do tema no momento atual, foi contextualizada a educação no mercado global, e apresentada à visão dos empresários da educação, dos professores e dos sindicatos dos docentes, examinando as relações do triângulo expansão, mercantilização e qualidade do ensino superior brasileiro. Os resultados obtidos evidenciaram a existência de pontos frágeis na expansão do ensino, tais como a formação dos professores, o controle e fiscalização, tanto por parte do Governo como dos Sindicatos.

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ABSTRACT

This work approaches the theme, expansion of the higher education in Brazil, with focus in the private higher education. In face of the higher education historically insufficient, in the current context of the evidenced expansion, mainly through the deprived net, it is questioned: which idealize, conceptions and interests are in game in the expansion of the higher education in Brazil, in a context of the education as a market in fast ascension. To solve it is subject they settled down as objectives of this research, contextualized the subject of the education in the global market and the discussion that the group configuring inside of a market; to examine the entrepreneurs' vision, teachers and unions on the expansion of the private higher education, starting from documents and publications; and to contemplate on possible fragile points in the expansion of the private higher education in Brazil. The methodology uses the bibliographical research and the documental and reflexive analysis. Being considered the investigation of the theme in the current moment, it was contextualized the education in the global market, and presented to the entrepreneurs' of the education vision, of the teachers and of the teachers' unions, examining the relationships of the triangle expansion, commodification and quality of the Brazilian higher education. The obtained results evidenced the existence of fragile points in the expansion of the teaching, such as the teachers' formation, the control and fiscalization, so much on the part of the Government as of the Unions. Key-words: Private higher education; Expansion; Quality.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 1 CONTEXTUALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO MERCADO GLOBAL... 1.1 A configuração do mercado da educação...

1.1.1 Economização na educação... 1.1.2 Aumento do poder de controle do Estado frente os IES... 1.1.3 Subordinação do trabalho de professores e gestores às exigências da avaliação do governo... 1.1.4 Finalidade da educação: formação do cidadão e desenvolvimento social vinculados às avaliações institucionais externas...

1.2 Conhecimento e informação na sociedade atual...

1.2.1 Conceito de informação e de conhecimento... 1.2.2 Consolidação da sociedade da informação e do conhecimento e

implicações para a educação...

1.3 A educação sob a mira dos investidores...

2 A VISÃO DOS EMPRESÁRIOS, PROFESSORES E SINDICATOS SOBRE

A EXPANSÃO DO ENSINO SUPERIOR... 2.1 O que dizemos empresários da educação...

2.1.1 Expansão do ensino superior... 2.1.2 Pensamento pedagógico empresarial...

2.2 O que discutem os professores...

2.2.1 Políticas públicas de educação, formação e qualidade...

2.3 O que discutem os sindicatos dos docentes...

2.3.1 Políticas públicas de educação e reflexos no trabalho dos professores... 2.3.2 O Sindicato dos Professores...

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS... REFERÊNCIAS... ANEXOS... 9 12 20 26 27 29 31 34 36 38 46 51 60 62 76 85 85 107 107 122 126 148 171

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INTRODUÇÃO

Este trabalho trata do tema da expansão do ensino superior no Brasil, com foco no ensino superior privado, voltado para a visão dos empresários, professores e sindicatos.

A educação é um bem público, e o direito à mesma é assegurado a partir do advento da Constituição Federal de 1988, garantindo o acesso e permanência em instituições públicas e privadas de ensino, como também a exigência de um padrão mínimo de qualidade. O acesso ao ensino superior, historicamente insuficiente no Brasil, levou o governo brasileiro, nos anos 90, a buscar sua expansão, principalmente através da rede privada, gerando, em conseqüência, a mercantilização da educação. Estas são algumas razões para se investigar o tema, porque além da relevância e complexidade, a expansão do ensino superior esbarra na preocupação dos professores e sindicatos dos docentes com o nível de qualidade do ensino.

A educação, definida constitucionalmente como bem público e direito de todos, vem sendo considerada hoje pelo setor privado, um serviço como qualquer outro, valorizado pela quantificação da oferta e procura no mercado mundial. O foco dos investidores está à mercê do jogo da concorrência, das estratégias e da oferta de vantagens imediatas: cursos de curta duração, alguns com denominações apelativas, e distantes da realidade do mercado de trabalho.

A configuração da educação como um mercado em rápida ascensão, fez surgir a necessidade de se conhecerem os pontos frágeis na expansão do ensino superior no Brasil. Com foco no ensino superior privado, a presente pesquisa exclui as instituições de ensino superior comunitárias e confessionais, ainda que privadas, porque estas possuem discursos, posições e objetivos que as diferenciam, tanto nos

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compromissos e relações que possuem com as comunidades onde estão inseridas, quanto nas relações comerciais que estabelecem.

O problema da pesquisa trata de entender quais idéias, concepções e interesses estão em jogo na expansão do ensino superior no Brasil, num contexto da educação como um mercado em expansão.

Para responder a esta questão partiu-se da hipótese de que a necessidade de ampliação do acesso e democratização do ensino superior, através de políticas públicas, traz uma intencionalidade mercantil, dando origem a um novo segmento empresarial, o qual tem como interesse o resultado financeiro, rompendo relações histórica e socialmente constituídas no campo da educação brasileira.

Para tanto, estabeleceu-se como objetivos desta pesquisa: contextualizar a questão da educação no mercado global e a discussão que a leva a se configurar dentro de um mercado; examinar a visão de empresários, professores e sindicatos sobre a expansão do ensino superior privado, a partir de documentos e publicações; e refletir sobre possíveis pontos frágeis na expansão do ensino superior privado no Brasil.

Do ponto de vista metodológico, este estudo utiliza a pesquisa bibliográfica, envolvendo um grande número de leituras e coleta de dadosem livros e publicações avulsas, revistas científicas, e dissertações de autores que estudaram assuntos relacionados com o tema de pesquisa, bem como artigos e resenhas. Entre os principais autores que fundamentam este trabalho destacam-se Casttels (1998), Rodrigues (1998), Frigotto e Ciavatta (2001), Laval (2004), Peters (2004), Chaves (2005), Conforto (2008) e Duarte (2008), dentre outros. A leitura de documentação foi um critério preponderante para a escolha dos autores, com foco no atendimento ao tema, aos objetivos do trabalho e na perspectiva de oferecer subsídios para a compreensão de questões julgadas importantes no decorrer da investigação.

Também foram utilizadas publicações em bibliotecas eletrônicas que disponibilizam seu acervo via Internet, em bases de dados como Scielo, MEC, INEP, ANPED, ADUnB, UFRGS, UNIMEP, ANDIFES, ANDES, SINPRO, Google Acadêmico, dentre outras.

No percurso investigativo, também foi utilizada a análise documental com o intuito de reunir informações sobre a história do Sindicato dos Professores, e para caracterizá-lo em âmbito nacional, regional e local. Como procedimento de análise utilizou-se a análise reflexiva.

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Para atender aos objetivos propostos, o trabalho foi estruturado em dois capítulos. O primeiro contextualiza a educação no mercado global, destacando a configuração do mercado da educação, o conhecimento e informação na sociedade atual e a educação sob a mira dos investidores. O segundo trata da visão dos empresários, professores e sindicatos sobre a expansão do ensino superior.

As considerações finais configuram-se pelas reflexões sobre os aspectos considerados mais relevantes das investigações levadas a efeito no decorrer do 1º e 2º capítulos, destacando-se, sobretudo, os pontos frágeis na expansão do ensino superior privado no Brasil, tais como a formação de professores, o controle e fiscalização, tanto por parte do Governo para a garantia da qualidade do ensino, como dos Sindicatos para as relações de trabalho dos docentes, e os indicadores de desempenho utilizados para medir a qualidade do ensino.

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1 CONTEXTUALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO NO MERCADO GLOBAL

Este capítulo objetiva contextualizar a questão da educação no mercado global e a discussão que a leva se configurar dentro de um mercado.

As transformações que vêm ocorrendo na educação e no ensino superior, nos últimos anos, estão relacionadas às mudanças econômicas e culturais que afetam a sociedade monopolizada pelos neoliberais.

As políticas visando à reorganização da educação foram desenvolvidas no contexto das políticas neoliberais ao final de décadas de expansionismo do capital mundial, chamadas por Hobsbawm (1995) de Era de ouro, cuja fase de maior expansão ocorreu por volta de 1945, estendendo-se por mais de três décadas. Nos países desenvolvidos gerou-se uma profunda crise de acumulação, nos anos 70, combinada com o crescimento populacional, inflação e desemprego.

Essa crise é ―o resultado das demandas excessivas feitas pelos sindicatos ao Estado‖ (SCHILLING, 1999, p. 3). O Estado sobrecarregado com a política previdenciária e assistencial, progressivamente ampliou os tributos, sobrecarregando as empresas e os ricos, que tiveram reduzidos seus lucros e, como consequência, estes preferiram diminuir os investimentos internos e investir no exterior. Ao excesso de regulamentação da economia somaram-se também a crescente burocratização do Estado, sobrecarregando os custos.

Esse período, também chamado de anos dourados da reintegração do capitalismo, encerra acontecimentos ocorridos na economia pós-guerra (1945-1972). A produção mundial de bens, ao ganhar configuração territorial, deu lugar a um sistema de produção de massa hierárquico, do ponto de vista da concentração, localização espacial, divisão internacional do trabalho e da presença de recursos, contrapondo-se às formações sócio-territoriais que são diferenciadas (CASTRO, 2007).

O modelo de produção em massa, de Henry Ford, se ampliou para novos tipos de produção. Nessa perspectiva, bens e serviços são produzidos para as massas, e dão lugar ao surgimento de outros mercados, como por exemplo o do turismo. Enquanto isso, o impulso econômico gerado pela revolução tecnológica deu-se de maneira impressionante, operando a multiplicação de produtos de melhor qualidade, e com novas utilidades para o mercado, como a televisão e a gravação magnética.

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A acumulação do capital recebe diversas denominações, desde transnacional, ou mundializado, até flexível e desregulado. Mas o termo mais adequado para expressar a forma que o capital assume nessa nova fase é ―mundialização do capital‖, conforme Chesnais (1996 apud FRIGOTTO, 2001, p. 28).

Um elemento importante dessa fase é a explosão tecnológica da eletrônica moderna ―e seu papel como principal fonte de lucro e inovação; o predomínio das corporações multinacionais [...]; e a ascensão dos conglomerados de comunicação [...] ultrapassando as fronteiras‖ conforme explicita Jameson (1996, apud FRIGOTTO, 2001, p. 28).

Além da inovação tecnológica, houve uma reestruturação e reforma do capitalismo, avanço na globalização e internacionalização da economia. A reestruturação produziu uma economia mista, tornando fácil aos Estados planejar e administrar a modernização econômica, aumentando a demanda. O sucesso adveio da industrialização sustentada, em países como a França, Espanha, Japão, Cingapura e Coréia do Sul, e o compromisso dos governos com a redução da desigualdade econômica. Mas, segundo Hobsbawn (1995), todo esse sucesso dos países industrializados com o uso das novas tecnologias foi obtido através do jogo ideológico do mercado, que submete os pobres ao consumo de seus produtos.

A reestruturação do capitalismo e o avanço na internacionalização da economia foram fundamentais para o desenvolvimento das economias de mercado. Seu impacto na demografia do Terceiro Mundo foi imediato, embora os efeitos culturais fossem lentos.

O capitalismo, reformado no pós-guerra, representa a aliança entre liberalismo econômico e democracia social. Economistas como Frederich von Hayek, acreditavam que o livre mercado era igual à liberdade do indivíduo, por isso condenavam qualquer desvio dessa equação. Além disso, atacavam os sindicatos, os impostos sobre a fortuna e o Estado de Bem-Estar Social, em defesa da liberdade econômica (SALVADOR, 2008).

Outra vertente do neoliberalismo surgiu nos Estados Unidos, e se concentrou na Escola de Chicago, tendo como precursor Milton Friedman (SCHILLING, 2008). Essa corrente era contra qualquer regulamentação que inibisse a produção empresarial.

A era de prosperidade do mundo ocidental após a Segunda Guerra Mundial teve o apoio das políticas keynesianas e social-democratas, deixando os neoliberais

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fora de cena. Mas, com a crise do petróleo de 1973, e a onda inflacionária enfrentada pelos Estados de Bem-Estar Social, o neoliberalismo voltou à cena. De 1973 a 1987 os países ocidentais viveram a segunda grande depressão mundial, período que se caracterizou como um ―estagflacionário de reestruturação e constituição do processo de globalização‖ (DUNFORD; KAFKALAS apud CASTRO, 2007, p. 3), e ―de oscilação da vantagem competitiva das nações‖ (PORTER apud CASTRO, 2007, p. 3). Para os neoliberais, a inflação era resultante do Estado demagógico pressionado pelos sindicatos e associações. Os impostos elevados e os tributos excessivos, assim como a regulamentação das atividades econômicas, foram responsabilizados pela queda da produção.

Para romper com a aliança entre o Estado de Bem-Estar Social e os sindicatos, os neoliberais projetaram o Estado Mínimo. A reforma do Estado passa por seu desmonte e a repressão dos sindicatos (SCHILLING, 1999). A reforma começa pela diminuição dos tributos e a privatização das empresas estatais, o esvaziamento dos sindicatos e a retomada da política de desemprego, em contraposição à política keynesiana do pleno emprego. Mas os neoliberais entendem que é do Estado intervencionista que partem as políticas restritivas à expansão das iniciativas:

O Estado [...] ao intervir como regulador ou mesmo como estado-empresário, se desvia das suas funções naturais, limitadas à segurança interna e externa, a saúde e à educação. O estrago maior ocorre devido a sua filosofia intervencionista. [...] O Estado deve, pois, ser enxugado, diminuído em todos os sentidos. Deve-se limitar o número de funcionários e desestimular a função pública (SCHILLING, 2008, p. 3).

Enfraquecendo a classe trabalhadora, e diminuindo ou neutralizando a força dos sindicatos, haveria novas perspectivas de investimento, e os capitalistas seriam novamente atraídos de volta ao mercado, que para os neoliberais é um local divino.

As mudanças de configuração do Estado trazidas pela crise de acumulação, podem ser melhor entendidas se examinadas a partir do conhecimento das estratégias adotadas pelo capitalismo para sua superação, tais como o neoliberalismo, a reestruturação produtiva, a globalização e a Terceira Via.

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O liberalismo1, depois de um tempo em baixa por causa do fortalecimento do Estado, ressurge com o nome de neoliberalismo, após o Consenso de Washington, em 1989. Nessa reunião, com o objetivo de discutir a economia do continente americano, foram sistematizados os dez pontos básicos do projeto neoliberal:

[...] ajuste fiscal; redução do tamanho do Estado (redefinição do seu papel; menor intervenção na economia); privatização; abertura comercial; fim das restrições ao capital externo; abertura financeira; desregulamentação (redução das regras governamentais para o funcionamento da economia); reestruturação do sistema previdenciário; investimentos em infra-estrutura básica; fiscalização dos gastos públicos e fim das obras faraônicas (ARRUDA e PILETTI, 1997, p. 403).

A tese central do neoliberalismo continuou sendo a do liberalismo, ―o menos de Estado e de política possível‖ (FIORI, 1997, p. 202), isto é, o Estado deve intervir o mínimo possível na economia.

O neoliberalismo penetrou no Brasil por duas vias: a econômica e a política. A primeira representada pelo ―contexto de renegociação da dívida externa‖; e a segunda tendo como via ―a aceitação das condições e das políticas e reformas econômicas impostas pelo credor‖, o FMI (CYRINO, 2001, p. 3).

No âmbito interno, serve de ilustração a eleição de Fernando Collor de Mello. No âmbito internacional, dois partidos incluíram em seus programas a proposta neoliberal: o Partido Conservador, da Grã-Bretanha, e o Partido Republicano, dos Estados Unidos.

Segundo Bresser Pereira (1997), o Estado, ao entrar em crise fiscal, perde o crédito público, na mesma medida em que a poupança pública vai se tornando negativa. A crise do Estado está associada tanto ao caráter cíclico da intervenção estatal, como ao processo de globalização, fazendo com que a autonomia das políticas econômicas e sociais dos Estados nacionais fosse reduzida.

No Brasil, e em vários países latino-americanos, assim como no Leste Europeu (União Soviética), a crise começou a se desencadear no final da década de

1 ―[...] em termos econômicos ‗prega‘ a não interferência do Estado na economia. Esta deve ter como

base o livre jogo das forças do mercado: os preços das mercadorias são definidos pela concorrência entre os agentes econômicos e pela lei da oferta e da procura. Nesta perspectiva o esperado é que o aumento da oferta seja causa da diminuição dos preços e vice-versa. Alguns pontos essenciais do liberalismo são: a livre iniciativa de indivíduos e grupos; a livre concorrência entre eles e o livre acesso à propriedade e ao lucro‖ (CYRINO, 2001, p. 2).

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80, com mais violência do que ocorrerá em países como o Japão, e continua até os dias atuais.

Com Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso o Brasil ampliou as recomendações do Consenso de Washington: a) adotou uma ampla abertura comercial, que teve efeitos desastrosos, sobretudo em função da sobrevalorização do real e da alta taxa de juros; b) desregulamentou os fluxos financeiros, tornando-se presa fácil dos capitais especulativos; c) privatizou uma grande parte do patrimônio público; d) realizou ampla reforma administrativa, acabando com a estabilidade dos servidores públicos, e abrindo ainda mais os serviços públicos para a iniciativa privada; e) iniciou a retirada dos direitos trabalhistas e previdenciários (FIORI, 1997).

Na década de 90, o neoliberalismo ainda se encontrava em estágio atrasado no país. Várias reformas propostas pela Constituição Federal de 1988 – da Previdência Social, Trabalhista e Administrativa – só tiveram início neste século.

O período de 1988 a 1994 é ―de reconfiguração da ordem mundial e de reestruturação industrial em escala global, conduzido pela emergência de inovações desencadeadas pelo novo paradigma técnico-econômico da microeletrônica‖ (CASTRO, 2007, p. 4).

A segunda geração das reformas neoliberais iniciou-se com a Reforma da Previdência Social. A proposta central das elites deu-se de maneira orientada para a previdência privada (ARAÚJO, 1998).

No entanto, no Brasil o sistema público continua predominante e à previdência privada é atribuído um papel suplementar (SILVA, 2008, p. 13). O modelo de previdência brasileiro está alicerçado em dois pilares:

[...] O primeiro, formado pelo Regime Geral de Previdência Social (RGPS), para os trabalhadores do setor privado, e pelo Regime Próprio de Previdência Social (RPPS), para os servidores públicos. Em ambos, o Estado é fator preponderante para a sustentabilidade do modelo. O outro é a Previdência Complementar. [...] O modelo brasileiro permite que os trabalhadores complementem seus benefícios por meio da Previdência Complementar, que tanto pode ser fechada, voltada para os trabalhadores das empresas, ou aberta, à qual quem desejar pode aderir por meio de um fundo comercializado no mercado financeiro (EM QUESTÃO, 2008, p. 2).

A regulamentação da Lei 109/2001 criou uma nova modalidade de complementação, a Previdência Associativa, instituída por categorias de

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profissionais liberais como advogados e trabalhadores vinculados a entidades de classe.

Outra das reformas neoliberais na América Latina, para recompor o capitalismo e o capital em crise estrutural foi a Reforma Sindical e Trabalhista. Essa reforma, em curso no Brasil desde 1989, teve como objetivo reduzir o custo Brasil2, através da reestruturação do mundo do trabalho.

Para os neoliberais, a regulamentação do trabalho é um entrave à expansão do capital. Mas, como a desregulamentação dos direitos sociais e trabalhistas constitucionalmente conquistados pelos brasileiros representaria um retrocesso na democracia sindical, a flexibilização dos direitos sociais dos trabalhadores consagrados na Constituição Federal de 1988 (art. 7º) e na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) continua, ainda hoje, em discussão.

Com a introdução da negociação coletiva, o negociado vem se sobrepondo ao legislado (ZANUTTO et al, 2005), mas os direitos sociais, tais como o salário-maternidade, estabelecido no inciso XVIII do art. 7º da Constituição Federal, está incluído entre os direitos e garantias individuais. Como direitos e garantias individuais gozam da proteção constitucional e ―[...] aproximam-se da proteção dos direitos fundamentais quando se exige, em face das intervenções limitativas do legislador, salvaguarda do mínimo essencial (núcleo essencial) das instituições‖ (OLIVEIRA, 1996, p. 533-534).

A terceira reforma na mira das elites é a reforma administrativa. Busca-se, através dela, transferir grande parte dos serviços públicos para a iniciativa privada (ARAÚJO, 1998). Foram criadas organizações sociais, e lançadas as bases jurídico-legais para a transferência às pessoas jurídicas de direito privado de grande parte dos serviços prestados pelo Estado, nas áreas de Educação, Saúde, Cultura, Esportes, dentre outras. Essas organizações ―públicas não-estatais‖, nas mãos da iniciativa privada, vêm diminuir a atuação do Estado, pois para os teóricos neoliberais ―não é o capitalismo que está em crise, mas o Estado‖ (PERONI; ADRIÃO, 2004, p. 2).

Aspecto também importante da reforma administrativa é a modificação na previdência dos servidores públicos. Atualmente, as discussões giram em torno da

2

O ‗Custo Brasil‘ é uma medida hipotética de análise do Brasil, relacionada com o investimento financeiro e com o investimento produtivo, em comparação com o resto do mundo. [...] o ‗Custo Brasil‘ é o custo de se produzir no Brasil. É uma medida facilmente compreendida, porque existe de fato internamente e é sentida claramente por todos os empreendedores (DOMINIK, 2005, p. 1-2).

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aposentadoria especial. A Emenda 47/2005 introduziu alterações no § 4º do art. 40, da Constituição Federal de 1988, ressalvando que a vedação de adoção de requisitos e critérios diferenciados para a aposentadoria aos servidores não se aplica àqueles ―que exerçam atividade de risco‖ (inc. II). Como ainda não há regulamentação legal para este inciso, criou-se ―uma injusta situação aos servidores que exercem atividades de risco‖ (ALVES, 2008, p. 1).

Uma quarta reforma no plano das elites, apontada por Araújo (1998), é a reforma tributária. Essa reforma envolvia a recentralização dos tributos na União, em prejuízo dos municípios e estados e, principalmente, a reforma tributária das contribuições sociais que financiam a previdência, saúde, assistência social, seguro-desemprego e outros programas sociais, com a supressão de contribuições e a desvinculação das políticas sociais. Também tratava ―da tributação da renda [...], do consumo, do patrimônio, da criação de um imposto sobre transações financeiras e da questão previdenciária, além de assuntos pertinentes ao gasto‖ (VIOL, 2000, p. 30), mas foi interrompida com o impeachment de Fernando Collor. Nos últimos anos, têm sido apresentadas propostas mais restritas, mas estas vêm enfrentando dificuldades para serem aprovadas.

Por fim, a reforma política coleciona um rol de proposições, e é pensada como o estabelecimento de novas regras para as instituições políticas. Os novos desafios da reforma política apontam para a necessidade de avaliação do sistema eleitoral, do financiamento de campanhas, da fidelidade partidária, da cláusula de barreiras e das coligações eleitorais ou federação de partidos (CARDOSO, 2009; REFORMA POLÍTICA, 2009; LEAL, 2008).

Constata-se que as reformas neoliberais da década de 1990, no Brasil, atingiram principalmente o mundo do trabalho, pois as políticas neoliberais para fazer face à crise do capitalismo procuravam sedimentar o processo de reestruturação produtiva3, embora retardatário. O objetivo dessa reestruturação é a acumulação flexível4, que deve ocorrer através da descentralização produtiva5. Esta,

3

Reorganização dos processos de produção. ―O processo de reestruturação produtiva e industrial representa um contraponto lógico à crise capitalista, também chamado de contratendência a queda das taxas de lucro, trata-se de uma reação lógica do sistema de produção capitalista para restaurar e reestruturar as estruturas sociais e territoriais de acumulação‖ (CASTRO, 2007, módulo 2).

4

"A acumulação flexível [...] se apóia na flexibilidade dos processos de trabalho, novos mercados de trabalho, dos produtos e padrões. [...]‖ (HARVEY, 1992, p. 140). O ―[...] modo de acumulação flexível de capital decorre de necessidade do capitalista, superar a crise e manter ou alcançar a maior taxa de lucros, que é o elemento motriz de todo o sistema‖ (RAMOS, 2009, p. 4).

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segundo Antunes (1997), é caracterizada pelo processo de terceirização, que traz, dentre outras vantagens para o capital, a redução dos custos administrativos, maior concentração das empresas em atividades estratégicas (logística da produção, planejamento, marketing, vendas), assim como a migração de trabalhadores para os setores informais da economia, contribuindo para a redução da importância organização sindical.

Essas tendências, aprofundadas pelo Plano Real, nos últimos anos da década de 1990, levaram os sindicalistas a dedicarem maior atenção à questão do emprego, e a ganharem espaço nas discussões em torno da participação nos resultados e lucros da empresa, flexibilização da jornada de trabalho, redução de benefícios sociais, mais qualidade e eficiência no processo produtivo e, consequentemente, na formação profissional (ANTUNES, 1997). Nesse contexto, surge um novo sindicalismo, preocupado em tornar os sindicatos ―centros de organização da classe‖ (ALVES, 2009, p. 4), tendo como elementos estratégicos da sua prática a formação sindical, política e humana.

A nova ordem de mercado6, introduzida pela aplicação do ajuste neoliberal aos países devedores, caso do Brasil, que devia ao Fundo Monetário Internacional (FMI), incluiu privatizações, enfraquecimento da capacidade arrecadadora do Estado e a desregulação (abolição de normas e procedimentos de determinados serviços para agilizá-los e reduzir custos, a exemplo da terceirização). No mesmo sentido, Van Der Burg (2007, p. 1) também fala na ―aplicação de tecnologias de informação para a modernização dos serviços públicos‖.

A inovação no processo de reestruturação produtiva mostrava a necessidade de se ―entender o caso brasileiro a partir de suas especificidades na articulação com a economia internacional‖ (RAMALHO, 1997, p. 86).

A globalização da economia, como uma consequência do desenvolvimento do capitalismo, gerou o aumento da concorrência entre empresas, exigindo mais qualidade e eficiência no processo produtivo. Também gerou o desemprego e as investidas das empresas contra a legislação trabalhista, para flexibilizar a força de trabalho, acentuando a sua precarização.

5

Forma ―de organizar o funcionamento interno da empresa através da subcontratação de certas fases do processo de produção‖ (UCHÔA, 2006, p. 1).

6 Segundo Feijó (2000, p. 162), ―o mercado é comparado a um jogo, por Hayek que utiliza a

expressão ‗jogo de cataláxia‘: uma competição disputada segundo normas e decidida por maior habilidade, força ou boa sorte [...]. O principal sinal emitido pelos mercados que permite a coordenação das ações é o sistema de preços‖.

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Segundo Pires e Reis (1999, p. 36), ―o desemprego, a desigualdade e a dominação, [...] consequências do processo de globalização neoliberal‖, fazem com que os problemas sociais se tornem mais visíveis e agudos. Não somente as empresas capitalistas são atingidas, mas também o setor público, através da reforma do Estado, passa a enfrentar problemas e carências de recursos, pela desobrigação do Estado com o setor de serviços.

Importantes direitos sociais são tratados como serviços, e transformados em mercadoria, como vem ocorrendo com a Educação, especialmente o ensino superior. A análise do complexo quadro da educação no jogo das relações internacionais indica que ―a internacionalização da prestação de serviços permite que o ensino seja tratado como commodity‖ (SPADORO apud D‘AMBRÓSIO, 2005, p. 2), o que constitui uma ameaça para os setores que consideram a educação um bem público.

O papel da educação no projeto neoliberal é estratégico. Por meio dela o neoliberalismo busca a ampliação de mercados em todos os países, visando manter a competição, o individualismo e a busca da qualidade, através da preparação para o trabalho, garantia da formação do trabalhador sob a base técnica da automação e do multifucionalismo, bem como a consolidação da educação, com função ideológica de transmitir as ideias liberais (PIRES; REIS, 1999, p. 36).

A preocupação com a abertura do setor educacional aos grupos privados (nacionais e estrangeiros) atinge os educadores e os sindicatos dos docentes, pois envolve a formação profissional, e a qualidade da educação.

Esse impasse que a educação brasileira vem enfrentando, principalmente no ensino superior privado, exige um aprofundamento da discussão que leva sua configuração dentro de um mercado, assim como uma revisão sobre conhecimento e informação na sociedade atual, e da educação sob a mira dos investidores, pois a própria Constituição Federal de 1988 dispõe que, o ensino é livre à iniciativa privada, desde que atendida, dentre as suas condições, a de ―autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público‖ (art. 209).

1.1 A configuração do mercado da educação

O novo modelo de intervenção estatal, baseado na redução da responsabilidade do Estado pelas políticas sociais, trouxe embutido um extenso

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programa de cunho político e econômico. A inflação, denunciada pelos neoliberais como responsável pelo aumento da oferta de moeda pelos bancos centrais, precisava ser controlada. Os impostos elevados e os tributos excessivos precisavam ser atacados, e, da mesma forma, a regulamentação das atividades econômicas, pois causariam a queda da produção e o aumento da inflação (DEITOS, 2002).

As soluções para a crise do capital, propostas pelos neoliberais representados por Friedman, incluem a redução do poder do Estado, com a diminuição de tributos, a privatização das empresas estatais, e a redução do seu poder sobre a economia. Para os neoliberais a economia mundial voltaria a se equilibrar quando os governos deixassem de intervir nela.

Para conseguir esses objetivos e desonerar o Estado das questões que dificultavam o incremento da livre economia, foi montado um arcabouço, tendo na ideologia e na administração os principais veículos para a criação do Estado Mínimo7, ou seja, um ―Estado empenhado em garantir a reprodução da sociedade capitalista‖ (MENDES, 2002, p. 1). Dessa forma, quanto mais se aprofundam e aguçam as contradições e as desigualdades sociais, mais o neoliberalismo cria argumentos para justificar e sustentar a realidade capitalista.

Criam-se teorias e ideologias, dando roupagem nova a velhos conceitos e categorias. Objetos, coisas, disciplinas de ensino ganham novos significados, gerando confusão e incerteza. Essa forma de atuação do neoliberalismo impediu por décadas que o povo e, mesmo os intelectuais, compreendessem a perversidade da crise econômica, social, ideológica, política e ética produzida pelo capitalismo no final do século XX (FRIGOTTO, 1995).

Os discursos e as práticas das políticas públicas são formas utilizadas pelo Estado para legitimar os novos modelos de administração científica e gerencial, pois o objetivo da ideologia presente nas políticas públicas é envolver os agentes sociais na realização das tarefas concebidas pelos tecnocratas, de modo que eles coloquem em prática as novas teorias de administração, e convencê-los de que fazem parte desse processo de mudanças (MENDES, 2002).

Em meio a essas transformações na forma de gerir a economia e a sociedade, o processo de globalização é tornado imprescindível, ―na organização das ações e no controle das atitudes dos sujeitos envolvidos‖ (2002, p. 2). Nessa

7 Um Estado ―reduzido em estrutura, gastos, e orientado para incremento das relações predominantes

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perspectiva a ideologia, ao mesmo tempo em que explica, produz práticas que colocam todos dentro da lógica do mercado. As pessoas e as instituições, e em particular a escola, devem pensar e agir segundo o modo capitalista.

É assim que vai se formando a nova configuração do mercado da educação. A educação é o meio mais adequado para criar, fortalecer e moldar as práticas necessárias ao desenvolvimento dos interesses políticos e econômicos do bloco capitalista no poder. Exemplos dessa trajetória estão bem vivos na memória de muitos brasileiros, que vivenciaram as mudanças transcorridas na década de 1990, dentre as quais, no âmbito internacional, o surgimento de novos blocos econômicos (NAFTA, Mercado Comum EUROPEU, MERCOSUL, dentre outros), conforme Frigotto e Ciavatta (2001, p. 34), e no âmbito nacional, o amplo programa de privatizações, atingindo empresas estatais desde a siderurgia às telecomunicações, dentre as quais a USIMINAS, a EMBRAER, a TELEBRÁS e a EMBRATEL. Essas mudanças estão relacionadas aos apelos à ―abertura dos mercados e a redefinição do papel do Estado‖ (FASUG, 2007, p. 2).

Nessa trajetória, Rigotto e Ciavatta (2001, p. 34) ressaltam que:

O capital desregulamentado e mundializado concentra nas mãos de um número cada vez menor de grupos econômicos o conhecimento, a tecnologia, a riqueza e o poder sobre a vida humana, ampliando de forma escandalosa o apartheid social entre as nações e dentro delas. [...] a crise não atinge apenas sociedades do capitalismo periférico. [...] na Europa, conforme Boaventura Santos (1999), 18 milhões de desempregados e 52 milhões de pessoas [...] vivem no limiar da pobreza [grifo do autor].

No novo cenário redesenhado após o fim do socialismo burocrático, o que se vê é a defesa pelo modelo neoliberal da ―[...] existência do Estado Mínimo, e a adoção de critérios empresariais na organização da gestão escolar‖ (FASUG, 2007, p. 2). Esse novo Estado torna secundária grande parcela dos serviços essenciais. O discurso neoliberal enfatiza a mercadorização da Educação. Esta passa a ser um serviço de compra, venda e consumo. Nesse novo modelo, a figura principal é a do gestor e, em torno da significação de gestão pública, vários outros conceitos e categorias relevantes ao discurso progressista e ao liberalismo são reformulados, a exemplo das noções de igualdade de oportunidades, que é substituída pelo de equidade.

Os pressupostos neoliberais lançam-se sobre aspectos diversos da vida humana. O neoliberalismo além de utilizar as inovações tecnológicas, também impõe

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o uso intenso das informações que circulam pela Internet, fazendo com que os sujeitos estejam em contato e lidem frequentemente com os novos dados e reconheçam com rapidez os caminhos de raciocínio propostos pelos usuários da rede. Em outras palavras, significa que a realidade sócio-econômica hegemônica contemporânea ―instiga os sujeitos a processar muitas e variadas informações em tempo recorde e, ao mesmo tempo cobra deles uma formação de qualidade máxima em tempo mínimo‖ (XAVIER, 2007, p. 3).

A nova construção político-ideológica e de gestão econômica, que emergiu com a reestruturação da economia mundial, trouxe profundas consequências para a educação. Dentre estas consequências estão as novas formas de gerência do trabalho, desenvolvidas através de técnicas, como a Gestão da Qualidade Total (GQT), enquanto um dos pilares mais importantes do projeto neoliberal para a educação (MENDES, 2002).

Como parte do movimento neoliberal, passa-se a exigir novos requisitos educacionais, e a articular novos processos de reestruturação educativa. Paulatinamente, o Estado brasileiro começou a delegar a responsabilidades pelas atividades de educação, assim como de saúde e assistência social, às esferas do poder local, por meio da descentralização das atividades, e também a contratar os serviços de organizações públicas não-estatais e entidades privadas, para realizar essas atividades. Com essa descentralização objetiva garantir eficiência na oferta dos serviços (PIMENTA, 1996; PEREIRA, 1996).

A reforma administrativa brasileira se insere nas soluções adotadas pelo governo para ajustar o país às exigências dos modelos econômicos e políticos, para viabilizar o processo de acumulação. Como principais características dessa reforma, Pereira (1996, p. 272) relaciona:

a) descentralização política através da transferência de recursos e atribuições para os níveis políticos regionais e locais;

b) descentralização administrativa por meio da delegação de autoridade aos administradores públicos, que se transformam em gerentes progressivamente autônomos;

c) estabelecimento de organizações com poucos níveis hierárquicos, flexíveis, impondo as idéias de multiplicidade, competição administrativa, conflito e o pressuposto de confiança limitada;

d) definição dos objetivos como indicadores de desempenho, quantitativos; e) controle por resultados, a posteriori, dos processos administrativos; f) administração voltada para o atendimento do cidadão.

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Através desses ajustes, procura-se estabelecer no país um novo planejamento institucional baseado nos pressupostos da qualidade total. Esse modelo gerencial privilegia a administração por projetos, com objetivos estabelecidos previamente, de base local, e altamente competitiva.

A descentralização também é usada como no discurso neoliberal, ―como delegação de tarefas e decisões periféricas às esferas locais (escolas), sob rígida fiscalização e controle‖ (MARQUES, 2003, p. 3). Nessa perspectiva as reformas do Estado atingem o campo da educação, operando a descentralização do setor por meio da democratização da gestão escolar e da autonomia da escola.

Na construção dessa escola pública democrática são utilizados como instrumentos os projetos político-pedagógicos e os Conselhos Escolares. Um Conselho Escolar é conceituado por Marques (2003, p. 3) como:

[...] uma instância de decisão colegiada com a função de gerir a escola democraticamente, representando os diferentes segmentos da comunidade escolar, com papel ativo na construção de seu projeto político-pedagógico, em sua implantação, acompanhamento e avaliação sistemática.

Embora a implantação da descentralização da educação tenha por base os pressupostos neoliberais, nos quais não se observa a preocupação com a criação de mais direitos sociais, ela traz consigo a possibilidade do surgimento de diferentes relações no interior da escola. Servem de ilustração: a discussão coletiva sobre a sua função, a participação dos diferentes segmentos em sua gestão (diferentes grupos da comunidade escolar), e a busca de uma escola pública de qualidade e que atenda os interesses da maioria da população (BARONE, 1999).

Como no sentido do discurso neoliberal, não há uma preocupação maior com as demandas sociais, mas requer-se otimização dos recursos e eficiência. O governo repassa a responsabilidade às escolas para que elas cumpram sua finalidade de oferecer educação de qualidade à população. Sendo esse movimento de cima para baixo, sem uma redistribuição de poder no interior do sistema escolar, ele resulta em numa participação controlada e uma autonomia operacional. Mas, de acordo com Hill (2003, p. 25), ―a mercantilização da educação deformou-se em vários aspectos: em suas metas, motivações, padrões de excelência e padrões de liberdade‖.

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Logo, a nova escola pública democrática não é autônoma (BARROSO, 1998). A autonomia da escola passa a ser uma conquista dos elementos que compõem o seu coletivo cotidiano, com aspirações, desejos, vontades, experiências, que se conformam em sua instância representativa, o Conselho Escolar, e poderá seguir rumo diferente do proposto pela política educacional e os fazedores de política (MARQUES, 2003).

Em virtude da existência dessa dicotomia, para que se tenha uma escola pública de qualidade, o governo federal, seguindo a agenda neoliberal, mantém o controle das instâncias decisórias. Dentro da lógica processual do controle, a avaliação é um instrumento fundamental da reforma do Estado (DIAS SOBRINHO, 2003). Como a administração pública passa a ser feita sob forte controle do Estado – a avaliação é o instrumento de diagnóstico interno (auto-avaliação) e externo – cobrado por meio de resultados.

Em decorrência dessa orientação, isto é, dos processos avaliativos não se encontrarem mais sob o domínio da avaliação escolar, a ciência e o conhecimento adquirem um caráter político, e seus efeitos passam a integrar o âmbito dos interesses públicos. Portanto, através da desconcentração administrativa em que a gestão pública utiliza-se da concessão de contratos precários para a legitimação, há uma reconfiguração da educação superior através de sua separação do Estado. Nesse sentido, Dourado, Oliveira e Catani (2003, p. 17) colocam que:

A educação em geral, mais em particular a educação superior, foi reconfigurada com muita intensidade pela própria reforma do Estado, na qual está presente à transformação das instituições de educação superior em organizações sociais - fundações públicas regidas pelo direito privado.

Conforme Gentili (1995), as propostas neoliberais para a educação podem ser identificadas a partir dos seguintes eixos de análise:

a) princípio da competência do sistema escolar – que inclui mecanismos de controle de qualidade externos e internos à escola, subordinando o sistema educativo ao mercado e propondo modelos de avaliação do sistema;

b) programa combinado de centralização e descentralização: aspectos de centralização – controle pedagógico centralizado através de mecanismos de avaliação nacional (provas etc.);

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d) programas de formação e atualização de professores (tele-ensino, p. ex.); aspectos de descentralização – transferências das instituições públicas das esferas maiores (federal e estadual) para esferas locais (municipais); do poder público para comunidades locais; e propostas de autonomia da gestão financeira.

Essa reestruturação educativa, e o empenho do governo em dar complementação ao sistema de avaliação através de regulamentações legais, a exemplo do Decreto 2.026/96, que estabelece procedimentos para o processo de avaliação dos cursos e instituições de ensino superior, e da Lei 9.394/96, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que estabelece o critério de periodicidade/validade das avaliações processadas nas IES, não só confere ao sistema de avaliação certa consistência, como não escondem alguns pressupostos neoliberais para a educação superior (DOURADO; CATTANI; OLIVEIRA, 2003).

Os pressupostos neoliberais para a educação superior dizem respeito à economia na educação, ao controle do Estado, à subordinação do trabalho dos professores e gestores à avaliação do governo e à finalidade, à formação do cidadão e ao desenvolvimento social a partir das avaliações institucionais externas, conforme análise, a seguir.

1.1.1 Economização na educação

O primeiro pressuposto neoliberal para a educação superior, distinguido por Dourado, Cattani e Oliveira (2003), é a economia na educação. No entendimento daqueles autores ―as prerrogativas de caráter mercadológico ditam as normas para uma espécie de conceitualização das IES‖ (2003, p. 106). Dessa forma, para atender ao conceito de IES, só pode funcionar aquela instituição de ensino superior que atenda aos requisitos de qualidade aceitos pelo governo federal junto aos organismos financeiros mundiais.

O entendimento que sobressai desse pressuposto é o de que as instituições de ensino superior devem tornar-se empresas; é o surgimento do empreendedorismo educacional, tornando o saber um produto.

Percebe-se que a ênfase do discurso neoliberal gira em torno da educação, e sua transformação em um serviço/produto de compra, venda e consumo, sendo este o novo paradigma da gestão pública, e tem no gestor a figura central, conforme já mencionado por Ball (2001).

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De acordo com Laval (2004, p. XI), ―a escola neoliberal designa certo modelo escolar que considera a educação como um bem essencialmente privado e cujo valor é, antes de tudo, econômico‖. Dentro desse entendimento não é a sociedade que garante a todos os seus membros um direito à cultura, ―são os indivíduos que devem capitalizar recursos privados, cujo rendimento futuro será garantido pela sociedade‖ (2004, p. XI-XII).

Esse novo modelo de escola coloca a responsabilidade pela busca da autonomia plena no próprio indivíduo, enquanto as instituições de ensino parecem não ter outra razão de existir do que estar a serviço dos interesses particulares. Ou seja, conforme Laval (2004, p. XII), a concepção dominante da educação tem uma dupla dimensão:

É ao mesmo tempo utilitarista, segundo a idéia de que ela dá saber, e liberal, no modo de organização da escola. Se a escola é um instrumento de bem-estar econômico é porque o conhecimento é visto como uma ferramenta que serve um interesse individual ou uma soma de interesses individuais. A instituição escolar parece só existir para fornecer às empresas o capital humano que essas necessitam. [...]. Se o conhecimento é primeiramente [...] um recurso privado que engendra rendas mais importantes e proporciona posições sociais vantajosas, deduz-se facilmente que a relação educativa deve ser regida por uma relação do tipo mercantil ou deve ao menos imitar o modelo do mercado.

Essa concepção evidencia que duas tendências se misturam para fazer da escola um fator de atratividade na sociedade globalizada, porque aposta capital nas capacidades de inovação e de formação de mão-de-obra. Na medida em que a eficácia da economia supõe um domínio científico crescente, e uma elevação do nível cultural da mão-de-obra, a educação torna-se um elemento de acumulação, crescendo em importância nas estratégias globais das empresas e nas políticas de adaptação dos governos. Nessa perspectiva, a educação passa a ser vista como um ―indicador de competitividade‖ do sistema econômico e social (LAVAL, 2004, p. XIII).

Dentro dessa ótica, as instituições educativas estão sendo orientadas para objetivos de competitividade que prevalecem na economia globalizada. Essa é uma tendência: a redução da escola à produção de ―capital humano‖, para manter a competitividade das economias regionais e nacionais, mas que vem sendo questionada, o que permite que se relacionem as avaliações e políticas concretas, e se resgate o sentido de práticas e de políticas, a priori, contraditórias.

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1.1.2 Aumento do poder de controle do Estado frente às IES

O controle do Estado ―perpassa o conteúdo curricular dos cursos de graduação, sobretudo no tocante ao sentido funcional, operacional‖ (DOURADO; CATTANI; OLIVEIRA, 2003, p. 107).

Esse controle do Estado sobre as instituições de ensino superior ocorre porque a educação se transformou em um serviço público de valor. Na Declaração

Mundial sobre a Educação Superior no Século XXI: Visão e Ação, aprovada em

Paris, em 1998, foi indicado que a educação deve basear suas orientações de longo prazo em objetivos e necessidades sociais. Essa declaração enfatizava em seu preâmbulo que um país só pode assegurar um desenvolvimento interno próprio, e reduzir a distância que separa os países pobres e em desenvolvimento dos países ricos, com uma educação superior e instituições de pesquisa adequadas para formar pessoas críticas e qualificadas (DIAS, 2002).

A mesma declaração, em seu parágrafo 172, explicita que:

As conferências regionais concordam em ressaltar as obrigações do Estado em relação à educação geral e ao ensino superior em particular. ‗Cabe aos governantes garantir o respeito ao direito à educação [...] eles devem assumir seu financiamento, de acordo com as condições e exigências específicas de cada sistema educativo‘ (Havana, Plano de Ação, Com. 3, par. 1). O ‗apoio público continuará indispensável ao ensino superior. Os desafios que ele enfrenta constituem investimentos no futuro de toda a sociedade‘ (Havana, Declaração, par. 15). ‗Os governos e os parlamentos devem se comprometer com o ensino superior e prestar contas dos compromissos assumidos nas décadas passadas, nas conferências regionais e mundiais, no que se refere à dotação dos recursos humanos e financeiros‘ (Tóquio, par. 10 e Beirute, par. 24) (DIAS, 2002, p. 3-4).

Nesta perspectiva, alguns cursos passam a ser elencados como constituintes de um conjunto que mais serve à política do governo, tanto que este os administra as indústrias de conhecimento com o ―provão‖ (DOURADO; CATTANI; OLIVEIRA, 2003).

O surgimento do ―provão‖ dá lugar ao ranqueamento das IES. A entrada das IES no ranking daquelas instituições que produzem os melhores resultados (acadêmicos [notas] e econômicos), enquadrando-se nos valores considerados pelo Estado (DOURADO; CATTANI; OLIVEIRA, 2003).

O ranking está dentro da lógica da competitividade, faz parte do mercado e não propriamente da educação como bem púbico. De acordo com Dias Sobrinho

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(2003, p. 1-2), o ranqueamento das IES trazido pelo ―provão‖ coloca em questão dois argumentos: ―o conceito de regulação, controle, fiscalização‖ que se relaciona com a autorização de funcionamento; e o ―credenciamento/recredenciamento das instituições de ensino superior‖, que diz respeito ao aspecto legal, constituindo uma função do Estado.

Nessa ordem, o dever do Estado no mercado global é regular não só para manter o sistema educacional de acordo com parâmetros mínimos de aceitabilidade, mas também induzir práticas de qualidade. A avaliação tem outro significado:

É construção, melhoramento, conhecer os problemas para superá-los e fazer melhor. Isto é avaliação educativa. Se não for isto, é só controle. Agora, existe, é claro, uma conexão entre as duas coisas: regulação e avaliação (DIAS SOBRINHO, 2003, p. 1).

Sendo assim, o teste para funcionar como um mecanismo de avaliação deve estar associado a outros instrumentos e procedimentos. Por sua vez, ―o desempenho diz respeito à capacidade de um estudante responder a uma dada pergunta num determinado momento, mas não necessariamente prova que esse estudante realmente aprendeu o que o exame está cobrando‖ (2003, p. 2).

A regulação das IES pelo Estado apresenta-se como um controle com caráter punitivo, que se evidencia como algo para dizer: ―você pode funcionar, você não pode; você é melhor que o outro, e assim por diante‖, argumenta o mesmo autor.

A avaliação não é concebida dentro de uma lógica de melhoramento do processo educacional. Se assim fosse, haveria uma divulgação dos resultados. A sociedade precisa saber tudo a respeito das instituições, mas a divulgação deveria ser feita de forma que não produzisse hierarquizações das instituições. A lógica seria ―a de uma construção coletiva pela comunidade educativa articulada com a regulação e a avaliação feitas pelo Estado, de acordo com um projeto de educação superior‖ (DIAS SOBRINHO, 2003, p. 2).

1.1.3 Subordinação do trabalho de professores e gestores às exigências da avaliação do governo

Para Dourado, Cattani e Oliveira (2003), o programa neoliberal instituiu conceitos de produtividade, desempenho acadêmico e modelagem de formação

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profissional, cuja remuneração, gratificação e financiamento são relacionados ao que se pode quantificar a partir das avaliações. Desse ponto de vista, não existe autonomia, tudo o que é feito em um Estado nacional passou a ser vigiado, controlado, e até mesmo denunciado. A preocupação pedagógica cede lugar à preocupação mercadológica; ao qualitativo, ao quantitativo.

insaciável pelo lucro, não pela riqueza, o bem público social ou comum‖. Os governantes que se submetem a essas idéias colocam toda a sociedade como força de trabalho, atribuindo aos professores e aos gestores escolares além da responsabilidade pela formação humana e científica do aluno, a produção de valor, ou seja, a qualificação urgente do capital humano.

Em busca do lucro, o capitalismo é contraditório e profundamente ideológico. Os professores ―porque têm um papel especial na formação, no desenvolvimento e na força da única mercadoria sobre a qual depende o sistema capitalista – a força de trabalho –‖ (HILL, 2003, p. 27), são considerados os mais perigosos dos trabalhadores.

Os professores são perigosos porque estão intimamente ligados à produção social da força de trabalho,

[...] fornecendo aos estudantes técnicas, competências, habilidades, conhecimentos e atitudes e qualidades pessoais que podem ser expressas e utilizadas no processo de trabalho capitalista. Os professores são os guardiões da qualidade da força de trabalho! Este potencial, este poder latente que têm os professores é a razão pela qual os representantes do Estado perdem o sono preocupando-se sobre seu papel em assegurar que os futuros trabalhadores sejam entregues aos locais de trabalho pelo capital nacional e que disponham da mais alta qualidade possível (HILL, 2003, p. 28) [grifos do autor].

Para Rikowski (apud HILL, 2003, p. 28) ―[...] o Estado precisa controlar esse processo por duas razões. Primeiro, para tentar assegurar que ele ocorra. Segundo, para tentar assegurar que os tipos de pedagogia opostos à produção da força de trabalho não existam e não possam existir‖.

É o medo de que os professores formem consciências críticas próprias como futura força de trabalho, que implica no rígido controle dos professores, dos gestores e da própria educação pelo Estado, que os passa a submeter, isto é, subordina seu trabalho à avaliação do governo. Exemplo desse controle pelo Estado é encontrado

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no currículo para a formação e capacitação do professor, do ensino, e da pesquisa em educação.

Esse processo de controle vai mais além, também se traduz em ―uma estrita regulamentação e auto-regulamentação dos professores com relação à sua própria pedagogia‖ (BOXLEY apud HILL, 2003, p. 29). Os professores passam a ter a consciência de que seu relacionamento com os estudantes é restringido pela expectativa do potencial de medição de desempenho.

Em face dessa subordinação, surge a pergunta: estão os professores se tornando orientadores da avaliação padronizada de tarefas?

1.1.4 Finalidade da educação: formação do cidadão e desenvolvimento social vinculados a avaliações institucionais externas

Com último pressuposto coloca-se a questão do sentido da educação a partir de avaliações institucionais externas. Dourados, Cattani e Oliveira (2002), citados por Oliveira (2007, p. 9) explicitam:

[...] as medidas de avaliação institucional fundamentadas no aspecto regulador, controlador parecem contribuir ainda mais para a manutenção de um sistema cujo panorama enfatiza a divisão de classes, a concentração de renda, a estabilização de um capitalismo globalizado, afetando de maneira cruel e avassaladora um setor de extrema importância para o desenvolvimento social: a educação.

Aqueles que têm capital econômico ou cultural conseguem melhores vantagens nos quase-mercados das escolas locais. Aqueles sem capital não conseguem ascender ao conhecimento e por isso as portas do trabalho se fecham para eles. Para reforçar esse poder do capital, a ideologia os transforma em culpados e marginalizados do sistema, porque não produzem lucro.

Segundo Kagarlisky (apud HILL, 2003, p. 29), ―a globalização não quer dizer a impotência do Estado, mas a rejeição deste de suas funções sociais, em favor de funções repressivas, e o final das liberdades democráticas‖.

Entre os mecanismos repressivos utilizados pelos neoliberais em termos globais estão as avaliações realizadas pelas organizações internacionais. A educação tem por finalidade formar mão-de-obra produtiva de qualidade. Mas, as escolas sem recursos tecnológicos e humanos altamente capacitados, não

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conseguem formar pessoas com as qualidades exigidas pelo mercado. O resultado da disparidade entre escolas ricas e pobres é o aumento das desigualdades econômicas e sociais. Com esse tipo de política, os Estados nacionais perdem em competitividade, porque a formação do cidadão e o desenvolvimento social do país estão submetidos ao fim da educação que é o lucro.

Examinando a mercantilização da educação, Hill (2003, p. 31) coloca que um de seus resultados ―é o aumento da ‗escolha familiar‘ [...] de escolas e/ou a criação de novos tipos de escolas, que aumentam, efetivamente, as escolhas familiares e, portanto, estabelecem ou agravam as hierarquias raciais escolares‖. O que significa que os mercados aumentam as desigualdades existentes.

As avaliações em âmbito interno evidenciam pelos resultados do desempenho dos alunos em um determinado momento, quais as instituições universitárias subiram ou caíram no ranking nacional. Estas avaliações servem de medida para as avaliações institucionais externas. Os investimentos são proporcionais aos resultados dessas avaliações, sendo a qualidade das IES medida pelo desempenho do estudante. Aquelas instituições universitárias que não conseguem boa colocação nesse ranking, pelos mandamentos do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, perdem o interesse, em função do custo sem retorno. É assim que os pobres são expelidos para fora do sistema.

É assim que vem se formando o mercado da educação. Na sua configuração e de outros serviços públicos, estão envolvidos os valores e interesses empresariais, em substituição à responsabilidade do Estado e a voz da coletividade.

A antidemocratização dos serviços educacionais faz crescer a subordinação da educação às demandas do capital, e questões fundamentais como valor, capital, trabalho, força de trabalho, criação de valor e acumulação de capital, passem a gerar contradições e tensões, em vez da crítica da sociedade e da busca de alternativas e da criação de novos saber. Na medida em que se reduz o espaço crítico na educação formal, a pesquisa educacional é encaminhada sob uma visão tecnicista e acrítica, porque as necessidades econômicas ditam as principais metas da educação e o capital privado fornece o modelo de como esta deve ser fornecida e gerida.

Entre as medidas adotadas pelo Estado brasileiro para consolidar sua nova relação com a sociedade civil nos primeiros anos do século XXI, estão incluídas várias ações desenvolvidas pelo governo neoliberal na década de 1990.

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A primeira dessas medidas foi reduzir os gastos públicos com as instituições superiores públicas que demonstravam pouca expressividade nas matrículas. Isso influiu para o desmonte das universidades federais, importante mecanismo de desmobilização política, considerando-se que historicamente as instituições federais vinham formando especialistas e dirigentes, dotados de valores, ideais e propostas que influíam nas forças políticas democráticas de massa. Hoje, na produção do conhecimento o que se vê é a submissão da educação superior aos interesses empresariais e do Brasil às grandes potências (NEVES, 2002).

Essa prática de subordinação ao capital se traduz em perda de identidade e autonomia das agências governamentais e, em conseqüência, das instituições educacionais de ensino superior brasileiras.

Outra medida neoliberal adotada pelo Estado brasileiro foi o aumento da participação da rede estadual no conjunto das instituições públicas de ensino superior, desconcentrando a expansão da oferta nessa rede de ensino. A configuração do mercado da educação é visualizada através de uma educação teoricamente posicionada em relação com a economia e com as políticas do Estado em geral, sendo assim explicada:

Nas universidades e estabelecimentos de cursos superiores vocacionais a linguagem da educação seja amplamente substituída pela linguagem do mercado, aonde os professores universitários ‗entregam o produto‘, ‗operacionalizam a entrega‘ e ‗facilitam o aprendizado dos clientes‘, dentro de um regime de ‗gestão de qualidade‘ em que os estudantes viram fregueses selecionando módulos ao acaso aonde, nas universidades, ‗o desenvolvimento da ‗habilidade técnica‘ ganha importância em detrimento do desenvolvimento do pensamento crítico (HILL, 2003, p. 34).

A gestão financeira descentralizada com a crescente desobrigação do Estado com a educação pública (políticas de municipalização e adoção de escolas por empresas, por exemplo), foi um dos principais critérios adotados para ―melhorar‖ a qualidade e a eficiência do sistema de ensino; daí, então, a implantação do modelo baseado naquilo que é ―eficiente‖ e obtém ―sucesso‖, ou seja, o mercado. Segundo Ramos (1994), por essa lógica, a transferência dos pressupostos da organização das empresas exitosas, para a escola é uma questão de bom senso e necessidade. Nessa perspectiva, o modelo de organização escolar deve estar baseado no modelo

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