NORTON BIZARELLO
ANIMAIS: SERES DIGNOS DE DIREITOS
IJUÍ (RS) 2019
NORTON BIZARELLO
ANIMAIS: SERES DIGNOS DE DIREITOS
Monografia final do curso de graduação em direito objetivando a aprovação no componente curricular monografia. UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS – departamento de ciência jurídicas e sociais.
Orientadora: Dra. Elenise Felzke Schonardie
Ijuí 2019(RS)
Dedico esse trabalho a todos os animais que sofrem ou já sofreram ante a ação humana.
Agradecimentos:
Agradeço nesse primeiro momento aos meus pais, meus pilares de sustentação, apoiadores do meu estudo e acima de tudo fonte imensurável de amor e amizade.
A minha namorada pela capacidade em me trazer paz nas horas necessárias, por ser minha sanidade mental e estar comigo também na insanidade.
E a minha orientadora Elenise Felzke Schonardie, que desde o começo abraçou o tema e com a paciência necessária me ajudou a desenvolver o presente assunto.
"Em relação a eles [animais], todos os humanos são nazistas. Para os animais, é uma eterna Treblinka." - Isaac Bashevis Singer, judeu e Nobel de Literatura em 1978.
RESUMO
O presente trabalho busca defender os animais como seres merecedores de direitos, para isso começa olhando para o passado estudando as religiões e os costumes antigos buscando entender o motivo desses direitos terem sido ignorados por tanto tempo. Percebe-se uma evolução no conhecer os animais partindo de uma visão antropocentrista para uma visão mais biocêntrica, a partir da noção de senciencia dos animais diferentes autores começaram a debater a respeito do tema. Nesse sentido, importante salientar que é um tema que não se esgota e pela força dos movimentos pró direito dos animais, torna-se pertinente. A defesa dos direitos dos animais começou com um debate ético que resultou em uma conscientização de um número ímpar de pessoas. Contudo, dentro da própria defesa dos animais há divergências entre os defensores trazendo uma riqueza de ideias que valorizam o debate. Outrossim, constata-se que o direito dos animais vem ganhando simpatia e o veganismo vem crescendo e sendo um dos movimentos que gera elogios por parte da sociedade por defender uma ideologia por meio de modos pacíficos, em que a não-violência é um dos princípios que norteiam a defesa dos animais. Contudo, conclui que um olhar ético apesar de se imprescindível deve ser completado por positivações do Estado que garanta a defesa dos direitos dos animais, frente a toda sociedade e não, apenas, a uma pequena parcela, percebe-se certa evolução na proteção dos animais e no seu reconhecimento como seres portadores de direitos; porém, ainda existe uma lerdeza para transpor o mundo das leis para o mundo empírico. Palavras-chave: Direito dos animais. Ética animal. Senciencia.
ABSTRACT
The present work seeks to defend animals as beings worthy of copyright, for this begins to look back on studying how religions and ancient customs seek to understand the reason for these rights that have been ignored for so long. An evolution in the knowledge of animals can be observed, starting from an anthropocentric view to a more biocentric view, from the notion of different animal therapy, authors who debate the respect for the theme. In this sense, it is important to emphasize that it is a theme that is not defined and by the force of animal rights movements, but becomes pertinent. Animal rights advocacy began with an ethical debate that resulted in awareness of an odd number of people. However, within the very defense of animals there are disagreements among defenders who bring a wealth of ideas that values the debate. Moreover, animal rights are gaining sympathy and veganism is growing and being one of the movements that generates praise by society for advocating an ideology through peaceful ways, in which it is not considered one of the driving factors. the defense of animals. However, conclude that an ethical look, although indispensable to be concluded by state positivities that guarantee the defense of animal rights, in front of the whole of society and not only a small portion, is perceived a certain form of protection of animals and in the environment. their recognition as rights bearers; however, there is still a reading for transporting from the world of laws to the empirical world. Keywords : Animal Ethics.Animal Law. Sentience.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 10
1 UMA VISÃO HISTÓRICA, TEOLÓGICA E CULTURAL DOS ANIMAIS NÃO HUMANOS ... 12
1.1 Antropocentrismo versus biocentrismo (ecocentrismo) ... 17
1.2 A cultura carnista ... 22
2. A ANIMAIS SERES DETENDORES DE DIREITOS POSITIVADOS ... 26
2.1 A evolução do direito dos animais: Declaração Internacional de Proteção aos Animais Não Humanos. ... 26
2.2 Direito animal no Brasil: a interpretação da CF/88 ... 28
2.3 O papel da sociedade para a real efetivação das normas do direito animal. ... 33
CONCLUSÃO ... 39
INTRODUÇÃO
Os animais por serem irracionais foram tratados como seres inferiores aos seres humanos, esse argumento por muito tempo serviu também como embasamento para várias atrocidades cometidas contra os mesmos. Contudo, apesar da noção de que os animais são seres sencientes, eles continuaram sofrendo diante da ação humana, que por meio de um pensar antropocentrista justifica suas ações ante os seres animais irracionais. O que percebe-se é que o desenvolvimento desse raciocínio não se deu do dia para a noite, muito pelo contrário, é resultado de um longo tempo de perpetuação de valores que buscam beneficiar única e exclusivamente o homem.
O primeiro fator que se ressalta para essa massificação de pensar antropocêntrico surge dos princípios da religião pregada no ocidente, particularmente o cristianismo que tem como seu principal fundamento o amor ao próximo, teve suas ideias voltadas para uma direção que apontava como o homem sendo a imagem de Deus e, portanto, sendo ele superior as demais espécies. Ademais, o segundo fator que deve ser ressaltado é que o lucro acima de tudo ajuda a perpetuar o homem no seu trono, a cultura carnista se vê soberana uma vez que suas maldades ficam camufladas por um véu invisível que impede os cidadãos de responder empaticamente ao que acontece.
Felizmente, com o avanço da tecnologia e estudo, mais informações a respeito dos animais são trazidas à tona e junto com elas a revolta de um grupo de pessoas que tenta conscientizar os demais grupos sobre a importância da não-violência e do veganismo. Isso se dá, porque em tempos em que a discussão sobre direito dos animais era ridicularizada e jogada para de baixo do tapete, pensadores, filósofos e professores se propuseram a pensar fora da caixa em prol de um mundo melhor, vemos que é exatamente isso que se faz pois nas ideias da maioria dos defensores dos direitos dos animais esses além de defenderem os animais em grande parte defendiam a igualdade e a dignidade como um todo, indiferente do ser em questão.
O trabalho não busca chocar, mas apenas trazer uma visão atual e realista no que se refere aos direitos dos animais no mundo e no Brasil, do ponto de vista da ética e da moral, a discussão se estende no sentido de tentar trazer até um certo desconforto com o intuito de fazer com que o leitor pense e ache o ponto de vista mais justo.
Também, percebe-se que defender os animais de um ponto de vista ético funciona até certo ponto, precisando, em um segundo momento, se fazer presente a força do estado garantidor de direitos para que sejam, efetivamente, reconhecidos e garantidos os direitos dos animais.
O trabalho monográfico foi elaborado com observância do método de abordagem hipotético-dedutivo, procedimento bibliográfico e interpretação jurídico sociológico. Para melhor desenvolver o tema o trabalho foi dividido em dois capítulos.
No primeiro capítulo, discorre-se sobre aspectos relacionados à historicidade, à teológica e à cultural que envolve os homens em face dos animais não humanos. O capítulo é dividido em dois subtítulos, ocupando-se o primeiro da apresentação e distinção das teorias antropocêntricas e biocêntricas e; o segundo, trata alguns aspectos da cultura carnista.
O segundo capítulo aborda os animais não humanos como seres detentores de direitos, demonstrando a evolução desse direito no cenário mundial, para que fique claro como ocorreu a evolução do direito dos animais e como ela tem uma luta similar com os direitos sociais almejados pelos humanos, tendo por base a Declaração Universal de Direitos dos Animais. Na sequência do capítulo, o direito Brasileiro também é pautado, tanto na sua evolução trazendo pontos de vista do passado e passando a analisar também o que dizem as leis atuais sobre o tema, diferentes documentos são usados para a formulação do que se pensa, contudo obviamente para se discutir a lei brasileira se tem como base a Constituição da República. Por fim, apresenta-se a utilização dessas leis no mundo empírico, ainda há muita diferença entre o tratamento dos animais domésticos e os animais de bens de consumo, algo que diz respeito a como o ser humano enxerga cada espécie de animal.
Por essas e outras razões se faz importante o trabalho, sendo seu tema atual, que deve ser debatido com mais frequência, tanto nos centros acadêmicos, quanto nos espaços sociais do dia a dia de nossas comunidades, para que se tenha uma melhora no que diz respeito aos direitos dos animais, gerando um mundo com mais igualdade e dignidade. Esse tema, certamente, demanda muita conversa e, sobretudo, muita empatia para/com o próximo, para garantir um mundo mais justo e igualitário.
1 UMA VISÃO HISTÓRICA, TEOLÓGICA E CULTURAL DOS ANIMAIS NÃO HUMANOS
Em um primeiro momento cabe uma breve introdução versando sobre a evolução dos direitos dos animais não humanos como seres pensantes e sencientes que são, os pensadores e as teorias que motivaram essa evolução, ressaltando o impacto que isso teve nas sociedades daquela época e na atual. Quando se percebe que houve uma forte influência social e cultural para que a noção de antropocentrismo se mantivesse no poder, fica fácil, também, entender porque hoje ela ainda é a predominante.
A noção a respeito da teologia nos ajuda a entender não só o direito dos animais, mas vários eventos que aconteceram na humanidade, a capacidade do ser humano ser considerado como a criatura preferida de Deus e usar as outras espécies a seu bel prazer é algo que reforça uma cultura de desigualdade não só entre as espécies, mas também entre os próprios humanos.
Esse olhar, do homem como dominante, sendo o preferido de Deus, é uma visão que vem em um segundo momento, com o cristianismo. Anteriormente a isso, tinha-se um respeito muito grande pelos animais e suas características positivas, como a boa audição, a velocidade, entre outras, eram ressaltadas e veneradas.
É notório que com a chegada do Cristianismo e sua perpetuação no ocidente, por volta do século III. E não só isso, por meio de interpretações arbitrárias o ocidente passa a ter uma visão deturpada quanto inclusive a capacidade dos animais, sendo eles considerados impulsivos ao ponto de não conseguirem controlarem o instinto. Esse prisma, compactuado com a racionalidade mais efetiva do ser humano, ante aos demais animais, ajudou a desigualar, tirando o homem ao lado dos animais e da natureza e o colocando acima dela.
Hoje, pode-se afirmar de um modo geral, mas não absoluto, que se tem um respeito religioso muito mais abrangente, mas em um período não muito distante, era praticamente, inviável a discussão acerca da religião e da proteção aos animais não humanos. A mesma possuía muita mais influência sobre o estado e a sociedade, portanto, a interpretação dada pelos escolhidos e os argumentos colocados pelo que versa na bíblia não podiam ser debatidos e eram tidos como verdades universais. Uma pena, pois isso fez com que frases fossem ditas fora de um contexto, uma vez que, apesar das observações separadas serem verossímeis, dentre de um contexto não era observada a premissa máxima do cristianismo, o amor e compaixão pelo próximo.
Ainda dentro do contexto religioso, um argumento utilizado pelos que dominavam e maltratavam os animais, era de que os animais não humanos eram seres que não tinham alma e que, portanto, o ser humano como detentor de uma alma, ser favorito de Deus deveria usar e dominar os animais que habitavam a terra. Conforme Genesis, capítulo 1, versículos 25 e 26:
[...] Deus fez os animais, cada um de acordo com a sua espécie: os animais domésticos, selvagens e os que se arrastam pelo chão, cada um de acordo com a sua espécie! Aí ele disse:
- Agora vamos fazer os seres humanos, que serão como nós, que se parecerão conosco. Eles terão poder sobre os peixes, sobre as aves, sobre os animais domésticos e selvagens e sobre os animais que se arrastam pelo chão. (BIBLIA SAGRADA, 2005, p.4)
O que se fez foi maquinizar os animais, os transformando-os em seres que não possuem direito algum desde a época da criação da narrativa do Livro de Gênesis, do Antigo Testamento. Essa condição dos animais não humanos advindas da cultura religiosa judaísta, seguiu com a ascensão do Cristianismo no mundo ocidental.
Percebe-se que a história se repete, e uma cultura de dominação com alegações parecidas a posteriori acabou por ecoar nos seres humanos, quando houve a dominação do povo europeu aos índios americanos ou negros africanos não havia um tratamento de igualdade, visto que, segundo o pensamento da época os índios e negros não tinham alma. Na Alemanha nazista, na primeira metade do século 20, a pauta da falta de alma dos judeus era algo corriqueiro servindo de embasamento para o seu extermínio, a comparação de pessoas judias com piolhos, também, era algo comum. Percebe-se que nos casos de extermínio em massa, uma constante, é a utilização de estratégias para transformar as vítimas em estatística, perde-se a noção do ser como sendo algo único e individualizado e passasse a olhar ele como um entre tanto outros, reduzindo-o a um mero número.
Aliás, no que diz respeito aos seres humanos que são cruéis com animais, percebesse que a violência apenas começa nos seres mais indefesos e frágeis, que não podem se defender e ainda tem precariedade de institutos que os defendam, os animais, não raro essa violência atinge seres humanos ou grupos humanos julgados inferiores ou subalternizados. Fato curioso é que isso não diz respeito apenas a maldade mas também a bondade, diversos pensadores como por exemplo Peter Singer e Marie Françoise Martin
defendiam simultaneamente causas sociais envolvendo os direitos humanos e os direitos dos animais, Tagore traz essa ideia Silva (2014 p. 153) desenvolve essa linha de raciocínio quando coloca que ambos defendiam os animais e os direitos das mulheres.
Outra linha de pensamento, que apesar de muito antiga, ainda hoje serve como argumento aos mais leigos é proposta por Aristóteles. Para o filósofo grego, os animais não logram da capacidade de raciocinar e por consequência não possuem interesse próprio, se não, o de servir aos seres humanos. Naquela época – na Antiguidade - não se cogitava a sensibilidade dos animais à dor, portanto, experiências são relatadas, no sentido de crueldade contra os animais devido ao desconhecimento, a ignorância, por exemplo nas pesquisas envolvendo o estudo da anatomia de caninos, os cachorros tinham as patas atadas e eram abertos vivos para estudo. Contudo, pela ignorância, eram considerados seus latidos e lamurios meros reflexos.
Essa teoria hoje em dia está obsoleta, o primeiro ponto a se rebater nesse caso, é a existência também de pessoas que possuem incapacidade de raciocinar plenamente, mas que obviamente possuem direitos. Caso levássemos a teoria de Aristóteles ao pé da letra, nos dias atuais, as pessoas com capacidade mental inexistente ou reduzida não teriam direitos. Outro ponto, é a história do direito dos animais e a percepção de que para garantir um tratamento digno aos animais não se deve levar em conta a capacidade de pensar, mas sim, a capacidade de sentir dor - senciente.
Nesse sentido, um pensador muito importante do seu tempo foi Jeremy Bentham, ele defende que a racionalidade não deve ser um fator primordial, Spanemberger e Lacerda (2015, p. 185) explicam que:
O filósofo inglês Jeremy Benthan, lança a base que até hoje é utilizada pelos defensores dos animais, quando fala que a questão não é saber se os animais são capazes de raciocinar ou se conseguem falar, mas se são passíveis de sofrimento e assevera que o que deve ser levado em consideração é a capacidade de sofrer e não de raciocinar.
No século 20, o movimento moderno pró direito dos animais mais importante dos últimos tempos, aconteceu em meados dos anos 70, e teve como pensadores Tom Regan e Peter Singer. Regan no ano de 1983 trouxe em pauta com o livro “The Case For Animal Rights’’ a ideia da senciencia ou seja a capacidade do animal de ter percepções conscientes a respeito do que lhe rodeia, dor, fome, e até mesmo o vislumbre da morte iminente nos abatedouros, apesar de ele utilizar em alguns pontos a ideia utilitarista, essa é mais apreciada por Singer, visto que para Reagan não importa se um número grande de
seres humanos está se beneficiando com a dor animal, ainda assim ele não deve sofrer, mesmo que a dor for mínima, não se trata de um questão prática e sim moral, se os animais não consentiram em sofrer não se tem o direito de infringir esse campo. Percebe-se a visão da vida animal como algo absoluto, detentora de direitos, outrossim, é visível que Reagan já tinha uma visão a frente do seu tempo, pois ele começa a tratar os animais não apenas como “coisa”, ou mais um ser de determinada espécie, mas como uma vida individual premissa é abordada por Naconecy (2014, p. 177)
Além disso, Regan utilizou-se da visão de pensadores mais antigos para afirmar que alguns animais deveriam ter direitos tal como humanos como sustenta Silva (2014, p. 102):
[...] os direitos morais dos humanos são baseados na possessão de certas habilidades cognitivas. Essas habilidades são compartilhadas pelo menos por alguns animais não humanos, sendo assim alguns animais deveriam ter os mesmos direitos morais que seres humanos. Segundo Reagan animais nessa classe tem um valor intrínseco como indivíduos, e não podem ser desrespeitados como meios para um fim.
A compreensão de outro filósofo, esse moderno, se faz necessária. Immanuel Kant, ao argumentar a respeito da dignidade da pessoa humana coloca-nos a ideia de que nenhum homem é um meio para algo, mas sim, um fim para si só. Essa visão tem sido utilizada atualmente como forte argumento em favor dos animais não humanos, devido aos conhecimentos que as ciências nos proporcionam, percebe-se a similaridade do animal homem e dos demais animais não humanos, ante a sensibilidade para com a dor. Contudo, Kant sempre usava essa visão apenas para a raça humana ele não admitia que os animais não humanos tivessem moralidade ou algo análogo, pensamento esse compreensível ao ler Nogueira (2012, p. 78)
Em se tratando de direito animal Singer foi um grande revolucionário, popularizando a expressão especismo e trabalhando o tema a partir da moral como expõem Sparemberger e Lacerda (2015, p. 186):
Já Singer, em sua obra Libertação Animal, tem um objetivo voltado especificamente para a condição moral dos animais, afirmando que o princípio ético sobre o qual assenta a igualdade humana nos obriga a ter igual consideração para com os animais, e descreve que “a defesa da igualdade não depende da inteligência, da capacidade moral, da força física ou características semelhantes. A igualdade é uma ideia moral, e não a afirmação de um fato.
qual ele expõe que somos obrigados a calcular os danos que vamos causar aos animais visto que o evitar o sofrimento deve se sobrepor a ter prazer, nesse entendimento por óbvio qualquer atividade que tenha por objetivo a morte de animais para a diversão humana, vestuário ou qualquer outra utilidade superficial que o ser humano só consegue por meio da exploração animal deve ser evitada entendimento esse evidenciado por Naconecy (2014, p. 173)
Vemos também que a capacidade do animal de ter direitos segundo Singer está relacionada a capacidade dele de interagir com as experiências ao seu redor, não seria justo, muito menos válido elencar uma série de direitos que apenas os seres humanos devem ter direito, obviamente levando em conta as preferências de cada espécie, impensável o direito de educação aos gatos, ou direito ao voto aos cachorros, não é nesse sentido, agora quando se fala a respeito de dignidade, o direito de não sofrer desnecessariamente, enfim, os direitos basilares deveriam ser garantidos a todos os seres sencientes.
Ele também fez duras críticas a produção de animais de bens de consumo apenas para fins benéficos a humanos descrevendo a situação e o grau de martírio a que eram expostos os animais antes do abate, isso incorreu no surgimento de um onde em prol dos animais fazendo crescer o número de vegetarianos e veganos ao redor do mundo, diante dessa informação vale ressaltar que princípios veganos dizem muito mais do que uma simples escolha gastronômica, pelo contrário muitos veganos afirmam que a carne é realmente aprazível ao paladar, mas diante do conhecimento do sofrimento das outras espécies que sofrem com o hábito carnista, não há para essas pessoas outra escolha ética se não a de se abster de comer ou usar produtos vindo de animais. (COWNSPIRACITY, 2019)
O veganismo e o vegetarianismo não são apenas linhas teóricas. Atualmente, ganharam muitos adeptos e são um modo de vida que tende a crescer por várias razões, dentre as quais, o fato de que mais informações a respeito da criação de animais de consumo feito em larga escala estão aparecendo, como dito anteriormente, outrossim, um aliado pertinente que luta contra a produção e a cultura carnista são os dados alarmantes a respeito de como a criação de gado e a indústria de leite influenciam no agravamento do efeito estufa e da desertificação do planeta.
1.1 Antropocentrismo versus biocentrismo (ecocentrismo)
Ainda há uma visão relativista a respeito da moral, no que consiste em defender o antropocentrismo, ou o biocentrismo constando que a moral depende de cada um, ela é um aglomerado de cultura e aprendizagem que foram concebidos ao longo de nossa vida e, portanto, que cada pessoa tem seu entendimento a respeito do que é certo e errado.
Isso não deixa de ser verdade, mas fica evidenciado que todos temos que ter cernes que moldam a nossa forma de pensar, ou seja como espécie (homo sapiens) temos que ter pensamentos éticos comuns para garantir que a civilização possa existir de forma tranquila, caso contrário, o respeito a toda e qualquer indivíduo ou objeto seria colocado em xeque e cada um poderia fazer o que bem entendesse. Até porque, não se pode esquecer que o mundo pertence aos presentes e, também, as futuras gerações e, atitudes éticas costumam direcionar para a criação de um mundo melhor para as gerações futuras de animais humanos e não humanos.
Contudo, percebe-se que a sociedade quando compara os humanos com as demais espécies de animais coloca aqueles em um pedestal. Assim entende Naconecy (2014, p. 63):
A ideia de superioridade humana está fortemente impressa na mentalidade da civilização ocidental, que tradicionalmente tem se limitado à autopromoção da excepcionalidade da nossa espécie. Agindo como cabotina, ela festeja euforicamente sua própria posição no Universo - no centro ou acima dele – legitimando-se a si mesma, narcisicamente e no seu próprio interesse.
São vários os argumentos que tentam de forma desesperada manter o ser humano em um pedestal quando comparado aos outros animais, fazendo assim com que a moral pouco se aplique a eles, dentre esses argumentos se apresenta a noção de que dentro da natureza o mais forte elimina o mais fraco. Vemos como é precário esse pensar uma vez que fica visível que o ser humano não é mais uma espécie dentre várias outras, ele é a única capaz de entender o mundo da sua forma singular e refletir a respeito do que faz, o modo como explora outras espécies é cruel e assustador, dentro da natureza quando um predador busca por comida há uma luta pela vida. No entanto, tal situação quando envolve o homem, inexiste competição, a outra espécie não possui nenhuma chance, isso fica explícito no escrever de Naconecy,(2014, p. 84):
Não é verdade que somos apenas mais um grupo de predadores. Nosso comportamento é especialmente pior do que qualquer um dos outros predadores da Terra. Matamos por mera conveniência, não apenas para comer,
mas por esporte, por curiosidade, por vaidade e por toda sorte de razões fúteis e motivos levianos.
Outrossim, a luta da evolução ocorre principalmente dentro da própria espécie sobrevivendo os mais adaptáveis aptos a melhorar sua linhagem no futuro, e sobrevivendo aos dispêndios do mundo. O embate que acontece entre espécies geralmente vem atrelado a uma necessidade de alimentação ou o predador busca matar para a sua sobrevivência, diretamente se alimentando da presa ou por meio da morte de outro animal garantindo que o recurso limitado da área específica fique a seu dispor.
Por outro lado, a dependência mútua e a cooperação entre as espécies existe em qualquer parte do planeta muito mais que um embate, a natureza é algo complexo e, a interdependência parece ser algo necessário não apenas entre os animais não humanos, o ser humano em seu pedestal inabalável percebeu a sua fragilidade por meio das mudanças climáticas e das mudanças do território em que vive, percebe-se que aquém de uma dominação é necessária uma coabitação, e quando o equilíbrio ambiental for comprometido, os seres que habitam aquele local tem suas vidas afetadas.
O ser humano, como afirmado anteriormente, é um ser social, e sua carga genética tem um importante papel, mas o ambiente no qual se desenvolve e cresce cria o seu modo de pensar. Há fortes razões para crermos que a crescente ascensão do veganismo vai ser, extremamente, benéfica para o direito dos animais, uma vez que quem tem esse estilo de vida tende a influenciar, causar curiosidade, bem como, trazer uma reflexão ímpar sobre a importância das vidas das demais espécies, entender que na vida há dor, e que todos vão passar por aborrecimento ou por situações adversas é uma coisa, mas causar dor sem necessidade a outra espécie é algo inimaginável para qualquer pessoa que eticamente defende uma linha que conduza a igualdade.
Por outro lado, existe ainda, quem diga que seria eticamente incorreto uma cultura de proteção aos animais, considerando eles dignos de direito, partindo desse ponto de vista ético que defendendo os animais, terá o ser humano que respeitar também as plantas tornando inviável a vida no planeta para a espécie humana, pois não teria mais como consumir recursos e, portanto, iria padecer. Veja, não é isso que está sendo arguindo, não se pode coibir uma pessoa de matar e consumir outro animal quando se faz estritamente necessário para a sobrevivência, ou de consumir a natureza de forma moderada quando não há outro caminho, contudo de pronto a vegetação é algo essencial para todas as espécies e deve ser respeitada outrossim a proteção no sentido de dignidade e qualidade de vida não se aplica da mesma forma aos animais e as plantas pelas diferenças existentes
entre eles.
Ao contrário do que um pensamento precipitado pode arguir, a dor sentida pelos animais não traz apenas malefícios, ela é um importante mecanismo de defesa que obriga os seres a gastarem energia e saírem da posição incômoda em que se encontram, constata-se que esconstata-se argumento é mais plausível quando constata-se obconstata-serva a interação entre dois animais não humanos, visto que, a dor causada pelos humanos não permite a defesa do animal, as fazenda que criam animais em larga escala possuem em sua maioria como objetivo principal diminuir os custos e aumentar os lucros, os animais não ficam em seu habitat natural e muitas vezes enclausurados não conseguem nem se mexerem com qualidade, esse tema será aprofundado no momento mais propício.
Retomando, as plantas por serem imóveis acabaram não adquirindo evolutivamente a capacidade de sentir dor da mesma forma como nós (homo sapiens) sentimos, isso porque para elas esse tipo de defesa seria apenas um martírio dada a sua imobilidade. Sobre isso Naconecy, (2014, p 120), coloca:
Uma cenoura não grita quando é arrancada do solo. Um pé de alface não corre quando nos aproximamos com uma faca para corta-lo. Animais fogem e lutam para não serem presos e para não serem mortos. Plantas e montanhas não. E isso faz uma grande diferença em termos morais.
Essa linha de argumentação mostra, também, como ainda se tem incrustado no âmago da sociedade as crenças do antropocentrismo. A ideia do homem como sendo um ser especial acima das demais espécies traz à tona o debate a respeito de uma ética que acha mais normal comparar os animais com as árvores do que aos seres humanos (animais racionais – na classificação evolucionista). É obvio que existem inúmeras diferenças entre os animais humanos (homens) e os demais animais não humanos; como também, existem diferenças entre as demais espécies de animais. Contudo, opta-se em nivelar macacos e moscas em um mesmo rol, o de animais, e, portanto, uma vez que a lei não os reconhece como sujeitos de direitos e, tampouco, faz quaisquer diferenciação de acordo com cada espécie, levando em conta a complexidade de cada organismo.
É compreensível um maior esforço na defesa dos direitos dos seres humanos quando comparado ao direito dos animais, principalmente em se tratando de animais que não temos tanta similaridade, o que dificulta nossa empatia. O estudo ético entende que as relações afetivas também devem ser levadas em consideração para que sejam validadas as teorias no mundo empírico, então é natural termos mais empatia com nosso semelhante, pessoa da mesma espécie amigo ou algo análogo.
Ademais as diferenças não devem ser vistas como algo maléfico, pelo contrário a diversidade de pessoas e seres é que torna nosso planeta tão rico, a respeito desse tema versa Tagore Trajano de Almeida Silva (2014, p.34):
Falar de pós humanidade, portanto é retratar o que está no limiar humano visando construir um panorama valorativo inclusivo, em que se consideram as diferenças não como um elemento distante, mas, ao contrário, como um elemento com o qual se possa celebrar a diversidade que constituem o todo.
Desse modo, nessa mesma linha de raciocínio percebe-se que o argumento de proximidade não pode ser o único a ser levado em consideração, caso contrário nada impediria de cada um priorizar seu grupo sem levar em conta um pensamento utilitarista, partindo para um preconceito. Uma vez que se prefere a espécie humana e as demais são irrelevantes, sendo esse o argumento rei, pessoas do sexo masculino poderiam fazer menção a esse princípio para justificar o machismo, ou algo que está mais em voga, o patriotismo exacerbado poderia negar direitos aos demais humanos sob prisma de que se está protegendo os cidadãos de determinado país, partindo para um viés xenofóbico justificável nesse contexto e, obviamente, moralmente reprovável.
A respeito da posição que aduz a falta de reciprocidade das ações morais dos animais para com o homem e de que por isso é justificável o desdém para com os direitos dos animais não humanos, poderia facilmente se rebater através do argumento de que na própria raça humana pessoas precisam de ajuda e o fazemos sem o vislumbre de receber nada em troca pelo simples fato de que seria de grande dissabor outro caminho senão o da solidariedade, bebês e deficientes são bons exemplos. Ademais, outro exemplo interessante é o da ajuda recebida por todos os moradores da cidade de Brumadinho, onde por causa da conhecida catástrofe ambiental, oriunda da ação antrópica, centenas de pessoas ficaram desamparados, necessitando de apoio de órgão institucionais e da solidariedade social.
Uma perspectiva contratualista, no entanto, admite que aqueles indivíduos incapazes de ações recíproca devem ser protegidos pelo fato de que os outros (humanos) se importam com eles. Crianças, por exemplo, são incapazes de compreender a reciprocidade e, assim, carecem de direitos. (Naconecy, 2014, p.140)
ignorância, teoria levantado por John Rawls, exposta por Naconecy (2014, p.143) onde por meio dessa ideia se faz o leitor refletir primeiro argumentando que os humanos são privilegiados por serem uma espécie inteligente e dominante. Em um segundo momento revelando seu pondo de vista, de que esse privilégio foi um mero acaso biológico e que para que a moralidade do ser humano fosse mais ímpia, em um mundo utópico escolher-se-ia as leis morais em que é regida a sociedade sem saber se nasceríamos humanos ou animais, homens ou mulheres, enfim ao ser humano seria vedado o conhecimento que proporcionam regalias e portanto a espécie humana seria mais justa
O respeito e o cuidado aos animais, para que a espécie humana possa usufruir deles, é justificar os meios com o fim. Entretanto, esse tipo de pensamento só protege um número baixo de animais, bem como, mostra o quanto a cultura humana ainda é antropocentrista, uma vez que apesar de no fim beneficiar as espécies em extinção não o faz por um caráter ecológico, mas sim egocêntrico.
É notório que, grande quantidade de animais só existe pelo fato de serem objeto de consumo dos seres humanos. Todavia, questiona-se se essa vida vale a pena se vivida, quando se percebe o sofrimento a que esses animais são submetidos, do nascimento e a posteriori uma vida de sofrimento não é uma benção, e sobre isso argumenta-se mais quando se trata da cultura carnista. A aniquilação do animal para o consumo humano nem deveria acontecer, contudo se ainda sim entendesse o homem como sendo superior, deveria ele pelo menos ter um mínimo de respeito e dignidade para com os animais que cultiva assim expõe Tagore Silva (2014, p. 45):
É que ao se falar em direitos inerentes, deseja-se construir um escudo protetivo contra os abusos do Estado e da própria sociedade. A proteção não deve ser apenas para alguns, sendo necessária uma interpretação que amplie essa noção para todos os sujeitos da experiência da vida. O reconhecimento de um valor inerente impossibilita o tratamento instrumental, de modo que aqueles que possuem valor intrínseco os têm igualmente, sejam eles humanos ou não.
Outro argumento que também é usado como apoio para a criação de animais de bens de consumo é o fato de que normalmente estes não correm risco de extinção e, portanto, seu uso para o bem-estar da humanidade é compreensível. No entanto será explorado mais à frente os malefícios que isso traz ao planeta.
Ademais, o que se busca não é simplesmente a perpetuação da espécie, mas também garantir que os animais tenham uma vida digna. O lucro e os hábitos humanos devem se adaptar para não mais terem prazer ao custo de uma vida animal, outrossim um
olhar mais apurado deve ser feito com o intuito de ver o animal com um ser único e não apenas como apenas mais um dentre sua espécie.
1.2 A cultura carnista
Quando se diz que uma pessoa é vegetariana, logo imagina-se uma pessoa que, além de não comer carne, tem uma mente mais aberta e, geralmente, é voltada para a defesa do meio ambiente. Ou seja, a escolha de não comer carne é só mais uma no rol de costumes, evidencia-se que a preferência não é simplesmente gastronômica, mas em regra acompanhada de uma opção que vai refletir a forma como vê o mundo.
Contudo, percebe-se que quando se fala de uma pessoa que come carne, difícil é a percepção similar à constada no parágrafo anterior, isso porque fomos acostumados a isso, o uso da palavra carnista que pressupõe a uma ideologia que justifica a matança das outras espécies em prol da espécie humana é pouquíssima utilizada, a respeito disso expõe Joy (2014, p.31):
Em contraposição, o termo “comedor de carne” isola a prática de consumir carne, com se ela não tivesse relação com as crenças e valores da pessoa. Sugere que a pessoa que come carne está agindo fora de um sistema de crenças. Mas será que comer carne é de fato um comportamento que existe independente de um sistema de crenças? Comemos porcos e não cachorros porque não temos um sistema de crenças quando se trata de comer animais?
A desvinculação do consumo de carne com a morte dos animais é essencial para que os seres humanos consumam a carne sem culpa, isso porque uma ligação empática com os animais causaria asco diante de tal ato. Isso fica mais notório quando comparado o tratamento que recebem os animais domésticos, pelos quais os humanos têm apego e carinho e os animais de bens de consumo onde não há tanto contato.
O sistema carnista busca por meio do uso da semântica amenizar os males que causam aos animais criados para um único propósito, morrer. Por isso é comum o uso de expressões como sacrifício, ou ceifar, ficou comprovada que expressões tal como carnificina são mal digeridas pelo público e por isso são evitadas. Contudo, palavras não diminuem a forma violenta as quais são tratados os animais que serão a posteriori consumidos pelos seres humanos.
O simples fato de serem criados apenas para morrer já é um motivo para colocar em xeque a criação maciça de animais para o consumo humano, contudo, esperava-se que pelo menos um tratamento digno fosse dado em vida a esses pobres animais o que não
ocorre. Qualquer ser humano detentor de empatia se sente mal ao ver outro ser sencientes sofrendo, esse é um dos motivos pelos quais apesar de grande parte das pessoas da nossa sociedade ainda consumir bens de consumo animal, a maioria, contudo não ter nunca visto uma vaca, ou um porco morrer ou sofrer em demasia. Vários autores concordam que essa experiência mudaria os hábitos alimentares dos seres humanos, não é à toa que pessoas que trabalham muito tempo em frigoríficos ou enfim, fazendo parte dessa carnificina, corram o risco de adquirir transtorno de estresse pós-traumático assim expõe Joy (2014, p. 35)
O carnismo contemporâneo está organizado em torno de grande violência. Esse nível de violência é necessário a fim de serem abatidos animais em número suficiente para a indústria de carne manter sua atual margem de lucro. A violência do carnismo é tal que a maioria das pessoas não se dispõe a testemunhá-la e aquelas que o fazem podem ficar seriamente perturbados.
Quando se fala em violência fica explícito que ela em se tratando do tratamento praticado em face do animal, é tanto física, quanto psicológica. O porco, um animal dócil e inteligente tem sua cauda cortada, isso porque ele necessita de espaço para caminhar e naturalmente quando fica enclausurado em espaços pequenos e por grande quantidade de tempo o mesmo fica tão estressado que acaba mutilando seus iguais.
Algo parecido acontece com as aves, sejam elas criadas com o intuito de se tornarem carne ou para a obtenção de ovos, as galinhas de um modo geral ficam confinadas em espaços pequenos e a elas é dada uma grande quantidade de comida para que ou cresçam muito rápido ou deem uma grande quantidade de ovos. Percebe-se que para não ter perigo de automutilação o bico é cortado ao meio e nesse processo muitas acabam por morrerem, outrossim, a grande quantidade de comida dada para as aves muito novas fazem com que por vezes elas cresçam de modo que as pernas não aguentem o seu peso e quebrem.
Aqui um agravante é o uso de hormônios para fazer com que as aves cresçam com maior agilidade, aumentando o lucro, similar também o mesmo método utilizado na criação bovina, fica nítido que se tem como sua principal preocupação o lucro e que ele acaba sendo tomado a qualquer custo.
A empatia existente pelo homem aos animais que ele tem contato já não se expande além dos animais domésticos, o que dirá aos animais aquáticos, o termo desertificação aquática tem sido utilizada com a intenção de alertar áreas que estão ficando sem animais marinhos, a pesca feita de forma predatória não pega apenas os peixes visados, golfinhos, moluscos e demais espécies que ficam no caminho acabam
sendo mortas junto. Vide Joy (2014, p 65):
A pesca comercial é responsável não apenas pela redução de 70% das espécies de peixe do mundo, mas também por sérios danos a outras espécies de animais. Um dos métodos usados na captura dos peixes é arrastar redes compridas sob a superfície do oceano.
Quando nos deparamos com a criação bovina percebemos que não só os animais sofrem em demasia com esse sistema que foi criado, como também o planeta. O documentário Cownspiracity: o segredo da sustentabilidade (2019), comenta que a produção de carne de gado prejudica o planeta em vários sentidos.
Primeiro porque o gás decorrente da digestão das vacas é mais prejudicial ao efeito estufa do que o CO2. Além disso, a criação de gado é tida como uma das principais causas do desmatamento no mundo juntamente com o plantio de soja. A extinção de animais também é atribuída a criação de gado, do modo como é feita, o consumo de pasto feito por animais de bens de consumo vem retirando o habitat natural de seres silvestres, percebe-se a catástrofe quando percebe-se uma inversão de população habitacional de espécies no sentido de que nos primórdios o homem era a minoria da população planetária enquanto a maioria era composta por animais silvestres, atualmente a grande maioria da população de animais do planeta é composta por animais de bens de consumo ou criados/domesticados pelo homem enquanto apenas uma quantidade muito pequena continua sobrevivendo na natureza, trazendo assim uma diminuição drástica no número de variedades de animais existentes na terra.
Ainda, dentro do ponto da poluição dos oceanos, e o uso da água para a subsistência dos animais que em um segundo momento serão abatidos também preocupa, somado a isso evidencia-se que a pesca ocupa cerca de 75% dos oceanos da terra, fazendo crer que em 2048 o planeta terá verdadeiros desertos aquáticos. Mais difícil ainda é falar aqui sobre o respeito a variedades de espécies, visto que uma vez jogada a rede na água a morte dos animais aquática a seguir não é seletiva. (COWNSPIRACITY, 2019)
A indagação que surge após tantas informações que apontam para um mesmo caminho é de que por que essa informação não é mais disseminada dentro do próprio rol ambientalista? A resposta é simples, a força desse nicho industrial é muito forte e poucas pessoas querem arrumar uma briga., Ademais, mesmo defendendo os animais e o planeta acabam achando levantar a pauta algo desnecessário visto que a cultura carnista está tão fortemente arraigada no âmago das pessoas que os esforços acabam sendo nulos. Todavia não se deve esquecer que vive-se no mesmo ambiente e o planeta vai ser o mesmo para veganos ou carnistas.
Mesmo não trabalhando na indústria frigorífica ou não comendo carne, não estamos imunes às consequências das práticas dos agronegócios com os quais compartilhamos o planeta. A produção de carne é uma das principais causas de cada forma significativa de dano ambiental: poluição do ar e da água, perda de biodiversidade, erosão, desmatamento, emissão de gases que aumentam o efeito estufa e esgotamento de água doce. (Joy, 2014, p. 84)
Outro ponto que evita a discussão a respeito da criação bovina é a violência com que os defensores do tema são combatidos, Dorothy Stang ambientalista e conhecida como sendo uma das defensoras do planeta acabou por ser assassinada quando seu ponto de vista começou a ganhar notoriedade, no nosso país infelizmente essa é a arma que usam para combater o diálogo, no Estados Unidos outra estratégia é mais comum, diante do forte potencial monetário as empresas do ramo soterram os defensores do planeta de processos, dificultando ou inviabilizando que continuem a falar o que pensam. (COWNSPIRACITY, 2019).
Em todos esses ideais o que se percebe é uma lacuna, enquanto o ser humano está tão voltado a resolver os seus problemas e preocupado com suas inquietações não percebe que tudo está interligado e que justamente por ter um raciocínio lógico aquém das outras espécies deveria estudar um meio de coexistir antes que o planeta entre em colapso. Tomando conhecimento sobre o assunto mudaria de ideia quanto ao argumento de que é viável uma vida sem o consumo exacerbado de animal como é feito hoje, perceberia pela senciencia, o mal que causa ao seu redor bem como entenderia que o discernimento para lidar com as questões ambientais também melhoraria o seu bem-estar.
2. A ANIMAIS SERES DETENDORES DE DIREITOS POSITIVADOS (página nova)
Evidente a necessidade de os animais terem leis que os protejam no mundo todo, de tal forma que imprescindível fazer uma análise de como a legislação referente aos direitos dos animais evoluiu. A diferença cultural faz com que cada região tenha uma visão diferente a respeito do tema, contudo alguns princípios devem se fazer presentes em todo o planeta, em especial o entendimento de que os animais sentem dor e que merecem uma vida digna.
Um enfoque também deve ser dado no Brasil para demonstrar como funcionam as regras no nosso quintal e como se deu a evolução delas, outrossim não há de se falar em lei sem a real efetivação das mesmas, tirando-as do papel para o mundo real.
2.1 A evolução do direito dos animais: Declaração Internacional de Proteção aos Animais Não Humanos.
A Inglaterra foi palco da transposição das ideias de direitos dos animais para a positivação das mesmas, influenciados pelos ensinamentos orientais, mais precisamente da Índia, de respeito a todas as espécies em 1822 Richard Martin conseguiu a aprovação da lei de anti-crueldade da Inglaterra, a ideia era punir penalmente por um curto período de tempo, de 1 semana a 1 mês, quem machucasse intencionalmente e imotivadamente animais de bens de consumo, algo constado por Silva (2014, p. 151)
Martin era um pensador muito à frente do seu tempo, entre os anos de 1801 a 1826 foi representante da câmera onde também defendeu causas humanitárias, sendo contra a pena de morte e alegando a necessidade de justiça gratuita aos pobres. Contudo, a causa em que mais encontrou dificuldade para prosseguir foi sem dúvida a pró animais não humanos, visto que as demais ainda tinham algum apelo, enquanto a última era ridicularizada na época. Diante disso criou a sociedade de proteção contra a crueldade com animais para que os interessados pudessem conversar sem pudor. Importante esse marco pois encorajou novos pioneiros a fazerem o mesmo em diferentes lugares do mundo.
Silva (2014, p.152) consta que na América do Norte Henry Berg criou fundação parecida ajudando com os avanços da época, na América latina os louros devem ser dados ao advogado Ignacio Lucas Albarracín, que na Argentina lutou contra os maus-tratos
sofridos pelos animais em face do divertimento humano, lutou contra a rinha de galo e touradas até que em 1891 foi promulgada a lei nacional de proteção aos animais da Argentina.
O Brasil começou a tratar mais seriamente do tema em 1895 reivindicando o que já possuíam nossos países vizinhos, contudo, apenas em 1934 foi promulgado o decreto 24.645, que era considerada a legislação anti-crueldade do Brasil. Apesar do atraso comparado a outros países a promulgação tardia fez com que a legislação amparasse de modo mais completo os animais, adquirindo de pronto o status de coisa e, portanto, mesmo naquela época já não eram mais tratos como o ser de uma espécie, mas sim como seres individuais passíveis de direitos resguardados pelo estado, dados esses transmitidos por Silva (2014, p. 152).
O decreto, da época, depois serviu como parâmetro para a evolução da legislação no que diz respeito a propriedade, não se precisa olhar para um passado tão distante para perceber como o preconceito dominava a sociedade, as mulheres solteiras por exemplo, tinham dificuldade em adquirir um animal pelo machismo predominante.
A luta pelo direito dos animais tinha tudo para evoluir de uma forma esporádica, todavia, ela acabou sendo deixada em segundo plano, visto que o mais importante para a época era discutir direitos relacionados aos homens, não há de retirar aqui a importância do tema, importantes avanços foram feitos no sentido de mais isonomia de direitos entre as pessoas. O ponto principal é que os assuntos não são opostos e poderiam ter sido discutidos de modo uniforme.
Aliás, importante ressaltar aqui, que diferentes temas poderiam ser relacionados e discutidos de forma comunitária, de forma que a discussão de um tema agregaria em outro, o preconceito é algo muito antigo e só recentemente tabus vem sendo quebrados no sentido de garantir uma igualdade. Contudo um grupo muito seleto da faculdade de Oxford já discutia sobre isso e criou o tema especismo que nada mais é o preconceito de acordo com as espécies, entre os membros estavam Richard Ryder e Singer, assim informa Silva (2014, p. 192).
Diversas são as convenções que trazem um amparo aos animais a nível, internacional, várias delas serão trazidas mais adiante onde se falará da evolução da lei brasileira. Contudo, pela sua importância de pronto já cabe destacar a Declaração Universal dos Direitos dos Animais. A ideia de um mundo mais igualitário, não tendo apenas o homem como ser merecedor de direitos começou a tomar forma em âmbito global, na data de 27 de janeiro de 1978, em Bruxelas na Bélgica.
Em seus artigos o que chama a atenção é a defesa que faz aos animais de um modo geral, sobretudo tomando um cuidado para incluir os animais de bens de consumo, isso fica claro observando o artigo 1º que diz “Todos os animais nascem iguais perante a vida e têm os mesmos direitos à existência ”, bem como no artigo 7º que diz “Todo o animal de trabalho tem direito a uma limitação razoável de duração e de intensidade de trabalho, a uma alimentação reparadora e ao repouso.
A declaração tinha como princípio a noção de que o respeito para/com os animais deve ser ensinado as crianças, fazendo com que o próximo seja tratado de forma digna, seja ele ser humano ou animal, perpetuando o entendimento que o mundo é um lugar que pertence a todas as espécies.
2.2 Direito animal no Brasil: a interpretação da CF/88
O código civil de 1916, quando conceituava a fauna foi diferenciado animais silvestres de animais domésticos, enquanto os primeiros não tinham valor nenhum, podendo ser usados a bel prazer dos humanos os segundos possuíam um valor pessoal para seu dono e, portanto, possuíam valor econômico.
Posteriormente, dentro do próprio direito ambiental, uma série de ambientalistas discutia o interesse da preservação da fauna e da flora e com isso vinha também a preocupação com a manutenção dos seres existentes, visto que começou-se a atentar-se quanto a possibilidade da extinção de espécies bem como o desequilíbrio que isso causaria ao ecossistema, como arguiu Silva (2014, p. 93).
Esse primeiro contato resultou em três acordos internacionais importantes que depois serviriam para embasar a constituição e leis que possuímos hoje. A primeira foi convenção para a proteção da flora, da fauna e das belezas cênicas dos países da américa de 1948, ficando acordado o combate contra a extinção de espécies bem como, foi dado um olhar mais apurado no sentido de regular o trânsito de espécies entre os países como meio de combater o tráfico animal.
A segunda feita em novembro de 1975 foi uma convenção em Washington, também falando a respeito do tráfico de animais e o cuidado com as espécies em extinção, já a terceira foi a convenção sobre diversidade biológica, argumentando que os países que tiveram seu meio ambiente devastado devem criar planos para suprir esse impacto ambiental e garantir um meio ambiente propício para as espécies conseguirem sobreviver. Com a volta da democracia ao Brasil, foi-se possibilitado novamente o debate de
diversos assuntos, apesar de vários grupos políticos e diferentes linhas de pensamentos o que prevalecia era uma noção de igualdade e dignidade. Nesse momento, defensores dos direitos dos animais também conseguiram seu espaço e por meio dos pedidos populares que já existiam na época o direito dos animais não humanos no Brasil começou a se tornar algo mais concreto.
Princípios como o de não-crueldade começaram a tomar forma, o princípio de não-crueldade vem a agregar no sentido de que para de se olhar o animal apenas como o ser de uma espécie, onde ele deve ser protegido para garantir um meio ambiente mais ecológico, esse é só um dos pontos. Começa-se a olhar para os animais também como seres individuais detentores de direitos que amparem pelo menos o direito a uma vida digna sem sofrimento desnecessário.
Dentre esse hiato de tempo dos tratados internacionais no Brasil foi criada a lei de proteção a fauna, número 5197/67, a qual em seu âmago constava que os animais silvestres que viviam fora de cativeiro agora pertenciam ao Estado, proibindo a caça e a perseguição de animais em seu habitat natural tendo a justiça penal e restaurativa como escopo.
Ademais além de princípios fundamentais em seu escopo buscou a constituição garantir uma menor volatilidade das leis, uma vez que nos anos anteriores com o poder sendo mais centralizado a discricionariedade era algo mais amplo e que incomodava. Em 1988 foi a primeira vez que a expressão ‘‘meio ambiente” esteve presente dentro de uma constituição brasileira com a adesão do artigo 225, parágrafo 1° inciso VII. CF/88:
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
§ 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao poder público: [...]
VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.
[...]
É verdade que em um primeiro momento o artigo e a discussão da sua inclusão estavam também ligados a valores sociais antropocêntricos ligados a pesquisa e a agricultura, outrossim um cuidado ímpar aqui se tinha com a degradação do meio ambiente feita de forma moderada, não com uma visão biocentrista mas sim com uma preocupação em garantir o bem estar das futuras gerações humanas. A ampliação do entendimento, em que o artigo em questão passou a defender os animais não humanos só
veio em um segundo momento.
O artigo 225º da Constituição Federal, deixa expresso que é vedada a crueldade contra os animais não humanos, dessa forma não há de se falar em mais cruel ou menos cruel, visto que a dignidade dos animais deve ser defendida em sua integralidade, assim expõe Trajano (2014, p.97):
Com efeito não se observa grau de generalidade ou abstração no comando constitucional, podendo a regra ter aplicação imediata e direta nas situações em que haja indício de maus tratos em desfavor dos animais. Esse foi o entender do próprio constituinte ao tratar do caso de maus-tratos acontecido na farra do boi.
Notório é que os novos olhares que caem sobre a constituição passam através da hermenêutica a vislumbrar leis mais ecológicas, quebrando a parede narcísica e cobrando do estado uma dupla proteção, sendo a primeira por meio do cumprimento das regras já existentes e a posteriori a criação de novas que garantam um país mais ecologicamente equilibrado.
Contudo, apesar de uma corrente majoritária defender a não crueldade contra os animais de forma plena, entende uma minoria que as normas que dizem respeito aos animais não humanos são de natureza imediata, porém exceções devem ser observadas visto que o direito animal se choca com outras áreas. O exemplo mais comum é o da continuidade de teste em animais, levando em conta um conceito utilitarista bem como exaltando a necessidade da continuidade para o progresso.
Nesse sentido, importantíssima a Lei. 11.794/2008 que regulamenta a utilização de animais para fins de pesquisa, ela tende a fazer as instituições se adaptarem garantindo que não haja crueldade desnecessária. Ademais traz uma discussão ética sobre a ética da utilização de animais para esses fins.
Os testes em animais hoje em dia ainda são considerados essenciais para a continuidade do progresso, principalmente em alguns campos como no da saúde, mas o que se vê é uma acomodação uma vez que só não se descobriu outro meio de realizar os testes porque se tem esse. Argumento parecido era usado no tempo da escravidão em que se alegava que caso fosse extinta a escravidão a falta de mão de obra barata geraria uma crise agrícola, vemos bem que soluções foram dadas para a resolução do impasse, mas apenas depois da proibição de possuir escravos. Nesse sentido a Lei. 11.794/2008 também tende a agregar pois, faz com que os pesquisadores comecem a pensar em novas maneiras de efetuar seus testes.
A discussão desse tema é algo bastante pertinente pela importância dos animais na evolução dos saberes humanos nos campos da ciência em especial no campo da medicina, os testes e o aprendizado desenvolvido tendo como encargo o sofrimento dos animais eram compreensíveis levando-se em conta que a cem ou duzentos anos atrás não se tinham as informações que se possui hoje, a empatia com os animais era muito menor visto que o entendimento do sofrimento era muito restringido.
Em se tratando do século XXI, porém, não se pode argumentar como Descartes por exemplo que achava que os uivos dos caninos que eram dilacerados na sua frente eram meros reflexos, aliás o filósofo Robert Boyle em meados de 1640, já argumentava que sendo os animais seres criados por Deus, seria um pecado maltrata-los e mesmo não possuindo estes a inteligência tão evoluída quando os humanos, deveriam ser respeitados e respeitada a sua dor, fato esse colocado por Nogueira (2012, p. 25).
A constituição pós humanista traz discussões nesse sentido, e isso enriquece ainda mais o tema, é notório a importância da pesquisa e evolução da tecnologia para o bem geral, agora deve-se também se atentar para que essa não seja feita ao custo da dignidade animal, visto que os mesmos não possuem mais o status de coisa que possa ser usada apenas como um meio e sim são portadores de uma vida, sujeitos seres de direito. O mandamento constitucional de não crueldade serve também para lembrar que os animais- não humanos não são capazes de reivindicar seus direitos ficando a encardo do ser humano a sua defesa. Ademias aqui a visão utilitarista da lugar para a moralidade, mesmo servindo para um bem maior, não podem animais serem forçados contra suas vontades a depredarem sua vida, como também não é possível fazer isso com humanos. O limite do utilitarismo é o bom senso.
Immanuel Kant trouxe a noção de dignidade da pessoa humana, não sendo a vida humana um mero objeto de uso e sim possuindo um valor intrínseco. Entendem agora os defensores do direito animal que essa concepção deve se alargar e adentrar o direito animal, ou seja todo animal deveria ser considerado um fim, e não um meio, tendo portanto valor intrínseco, e sendo seres merecedores de uma vida digna, ficando eles também a sombra do artigo 1º, inciso III da Constituição Federal.
Percebe-se que a constituição deixou espeço para o seu aperfeiçoamento por meio também da hermenêutica e que ao longo do tempo o legislador que vê a vida animal ser usada de forma arbitrária pela ação humana tem o dever de intervir, não podendo aqui se falar em exclusividade humana no artigo 1, inciso III uma vez que houve uma evolução no pensar, sendo assim necessária uma hermenêutica que garanta fazer a lei ser algo mais
empírico possível, suprindo os anseios do momento, a respeito disso fala Trajano (2014, p. 102)
1) Os preceitos constitucionais devem incidir sobre todas as relações sociais; 2) não existem normas sobrando no texto da carta de 1998, sendo todas vigentes e operativas, cabendo a intérprete tão-somente descobrir o âmbito de incidência de cada uma; e 3) Não há conflitos reais entre as normas da constituição, mas apenas conflitos aparentes seja porque elas foram promulgadas conjuntamente, seja porque não existe hierarquia nem ordem de precedência entre seus dispositivos.
Não é a primeira vez que o direito usa um parâmetro, nesse caso o direito das pessoas humanas, para utilizar a lei em sentido amplo. O direito animal por exemplo foi usado na ditadura de Getúlio Vargas como argumento dos advogados que tinham seus clientes presos, no sentido de que esses não poderiam ser ou ter menos direito do que um animal, como coloca Silva (2014, p. 104),
Assim como foi utilizado, na época da ditadura a transposição ou equiparação das leis animais para a defesa de humanos, percebe-se que a evolução da hermenêutica evidencia que os artigos da Constituição federal não podem abraçar apenas os humanos em um antropocentrismo cego quando se fala em presentes e futuras gerações devem ser incluídos nesse rol os animais como seres de direitos.
Os animais que em um primeiro momento eram considerados posse, passaram a posteriori a serem considerados um bem comum de todos, direito difuso a ser protegido, importante avanço, contudo, esse pensar olha os animais como seres coletivos e não como seres individuais merecedores de dignidade, de tal forma que na comunidade jurídica entende uma vertente que agora não mais o Estado ou um humano figuraria no polo da relação jurídica representando os animais, visto que eles mesmos deveriam poder aderir a esse papel
A verdade é que a tempo a relação jurídica não é mais apenas de humanos para humanos vários são os entes que já podem fazer parte de um negócio jurídico, a massa falida, condomínio edílico entre outros entes. Não poderiam ficar fora desse rol os animais, visto que ao olhar atentamente a Constituição Federal e com as informações que se tem hoje não podem mais os animais não terem leis que os amparam, mesmo que empiricamente isso ainda aconteça de maneira precária, o que se busca é uma evolução para no futuro terem os animais mais meio de defesa e não ficarem a mercê do ingresso no judiciário de seus donos ou do estado.
acobertam aos humanos, seja porque as pessoas estão acostumadas com isso ou porque simplesmente foi essa a intenção do legislador na hora da elaboração da lei. Contudo, não se pode esquecer que a lei não é estática, deve evoluir de acordo com os anseios da população e buscar espelhar a realidade. Diante disso vários são os artigos e os princípios que garantem o ingresso do ofendido ao judiciário, o direito a devida representação, o empenho por fazer ser cumprida a norma. Deste modo mais do que correto afirmar que os animais segundo a constituição têm o poder/dever de estar em um polo jurídico assim coloca Trajano (2014, p. 158)
Uma interpretação pós-humanista da Constituição Cidadã, permite entender que é um direito fundamental a livre apreciação dos interesses não humanos pelo poder judiciário tendo o art 5º, XXXV combinado com o art, 225º,1,VII, garantindo o aceso a justiça aos animais de forma individual. O animal é percebido como um ser individual, sendo papel do julgador analisar a proporcionalidade das demandas que o envolve.
2.3 O papel da sociedade para a real efetivação das normas do direito animal.
Como se pode perceber, o direito animal sofreu uma forte influência de acordo com a época em que se vivia, em um primeiro momento, com a adoração aos animais havia o respeito, a posteriori uma mudança no pensar religioso que colocou o homem acima dos demais seres do planeta fez com que essa visão deturpada justificasse os maus tratos aos animais e falta de regulamentos quanto a crueldade praticada contra os mesmos durante muito tempo.
Agora, porém a situação se inverte, veja bem, já existem leis no Brasil que amparam os animais, porém a dificuldade não fica apenas mais na positivação, mas sim na transformação da lei em algo empírico.
Quando se fala em direitos dos animais, é comum apegar-se a um olhar filosófico, ou do ponto de vista ético mais coerente, onde todas as espécies ou pela menos uma grande gama teria o direito a proteção mínima do estado, linha essa majoritária.
Todavia, chama a atenção a linha de raciocínio trazida por Steven Wise, professor, filósofo e advogado, Wise no ano de 2002 com seu livro drawing the Line defende que nem todos os animais devem ter direitos iguais inclusive elencando os direitos de acordo com a espécie de forma escalonada. Essa teoria de Wise não é bem aceita no meio, por ser considerada antropocêntrica por deixar os seres humanos no topo da tabela enquanto a maioria dos animais se encontram abaixo, os seja excluindo a ideia de igualdade de direitos.
Wise defende sua tese, no sentido que ela consegue facilmente trazer simpatizantes em defesa dos animais, vez que se assemelha mais ao pensamento comum do povo. Outrossim, para o filósofo se faz necessário também um escalonamento no sentido de defender seres mais complexos de outros, caso contrário simplicíssimo ato seriam moralmente errados, Vânia Marcia Damaceno Nogueira (2012, p. 51) direitos fundamentos dos animais, explica:
Ele entende que os homens e animais devem possuir direitos que variam em graus e não em categorias. A dificuldade é saber quais são esses direitos, que podem variar de acordo com a espécie a ser analisada. No livro Drawing the
Line, Wise monta uma escala de autonomia prática de níveis diferenciados
entre as espécies, baseada em estudos de etimologia, na qual os animais são classificados de acordo com sua capacidade de agir com consciência.
Paul W. Taylor (1986) professor norte americano é um dos principais contestadores dessa teoria, o estudioso vai além dos direitos dos animais, ele defende que qualquer ser vivo tem como seu interesse primeiro a vida e que, portanto, essa deve ser respeitada pelo simples fato de existir, devendo ser respeitado de animal ou planta o direito de sobreviver, de possuir bem-estar e perpetuar a espécie, como traz Nogueira (2012, p. 53)
Ainda dentro desse contexto, importante falar da teoria de Gaia, entende-se através dela que o planeta Terra é um organismo, vivo, pulsante, que tenta de forma desesperada sobreviver a raça humana, James Lovelock coloca que a intervenção do homem vem sendo prejudicial uma vez que desregula de forma muito rápida e invasiva as substâncias químicas e os organismos existentes no planeta, como se vê em Nogueira (2012, p. 37).
Diante de tal contexto, se observa que o estudioso trata o ser humana não só como uma praga ante as demais espécies de animais, mas para o próprio planeta, argumentando que a extinção de animais e o modo exacerbado com utiliza recursos finitos faz com que o planeta reaja por meio de catástrofes naturais, o que é conhecido no meio científico pelo termo a vingança de Gaia.
Se consta, portanto, que noção de proteção ao direito dos animais está atrelada ao cuidado com o meio ambiente e com o habitat dos mesmos, de tal forma que inviável falar de um sem o outro. Cientes dessa conscientização ecológica, que tem acontecido dentro da sociedade, as empresas se adaptaram as demandas da população, mascarando-se de empresas cidadãs utilizam de leis de fácil cumprimento para continuar poluindo ou