UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
PAPEL DO TRABALHO, DECISÃO DE APOSENTARIAE SATISFAÇÃO DE VIDA
DOUTORADO
Samantha de Toledo Martins Boehs
Florianópolis 2017
SAMANTHA DE TOLEDO MARTINS BOEHS
PAPEL DO TRABALHO, DECISÃO DE APOSENTARIA E SATISFAÇÃO DE VIDA
Tese apresentada como requisito parcial à obtenção de grau de Doutora em Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia, na Área I (Psicologia das Organizações e do Trabalho), Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Santa Catarina.
Orientador: Prof. Dr. Narbal Silva
Co-orientadora: Profª Drª Marúcia Patta Bardagi
Florianópolis 2017
Dedico este trabalho ao meu filho Haico, fonte maior de amor e satisfação de vida.
AGRADECIMENTOS
Chegou o momento de agradecer e reconhecer a importância daqueles que se fizeram presentes durante a trajetória que trilhei nos anos de doutorado. Neste momento um filme se passa na minha cabeça ao resgatar lembranças de alguns momentos felizes e de outros permeados por desafios e superação.
Sou grata a Deus pela saúde e pela proteção nas idas e vindas semanais de Curitiba a Florianópolis, especialmente no primeiro ano de doutorado. Aos meus pais, Ana e Wagner agradeço a criação, o carinho, o amor e as palavras de incentivo que sempre me fizeram acreditar na minha capacidade de conseguir tudo aquilo que almejo na vida. Obrigado por me ouvirem e por me fazerem uma pessoa forte!
Ao Haico, meu parceirinho de todas as horas, agradeço a paciência, a companhia, os olhinhos sempre brilhantes e a alegria que fazem com que eu tenha cada vez mais a certeza de que os estudos e o trabalho são simplesmente papéis que compõem a nossa vida! Ao Gabriel, agradeço a parceria, a paciência e o apoio no caminho árduo configurado pela construção de duas teses de doutorado quase que simultaneamente. À Sharon, sou grata pelas conversas e por me fazer perceber que a minha trajetória na pós era relativamente leve se comparado a sua!
Às tias Nethy e Nane pela amizade e por terem me ensinado a ver sempre o lado bom das situações, a ter esperança, a dar valor ao esporte, a alimentação saudável e a busca pelo equilíbrio! A Jú e a Cácá, minhas irmãs de coração, sou grata pela amizade de sempre e por estarem, mesmo que de longe, disponíveis a compartilhar e acolher as boas notícias e as más também! Aos meus sogros Astrid e Lourival e ao Gusta, meu cunhado, agradeço a hospedagem, as trocas de idéias e o apoio com o Haico especialmente no primeiro ano do doutorado. Agradeço também a todos os outros (a) amigos (a) e familiares que em algum momento dessa trajetória me apoiaram e torceram por mim!
Ao Prof. Narbal Silva, sou grata pela confiança, pelas orientações e construção compartilhada de ideias. Agradeço também por ter me feito adentrar aos horizontes da Psicologia Positiva como ciência e ter me deixado trabalhar com autonomia e liberdade! À Marúcia Patta Bardagi, sou grata pelo exemplo e por todos os ensinamentos no decorrer do curso, que não foram poucos! Por tornar nossas aulas mais divertidas, pela disponibilidade de sempre e por ter aceitado ser minha co-orientadora! Sua ajuda foi fundamental na parte quanti!
Agradeço à coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSC, profª Carmen Leontina Moré, pela dedicação e competência em manter a qualidade de um programa da magnitude do nosso. A todos os professores de peso do PPGP com os quais tive o prazer de aprender, Andréia Steil, Carlos Nunes, Dulce Helena Soares, Iuri Luna, Susana Tolfo e, especialmente, Edite Krawulski, Marúcia Bardagi e Roberto Cruz, professores das disciplinas de metodologia que com seus muitos pitacos ajudaram a confirgurar o projeto de Tese. Agradeço a todos a qualidade das aulas, a disponibilidade em ajudar e o tratamento próximo, que me fizeram inclusive resgatar alguns valores importantes do que se configura o papel de “ser docente”! Ao Davi Baasch pela disponibilidade e paciência nas aulas de SPSS.
O que dizer das “meninas do mestrado”? Paloma Medina, Alice Jacinto, Talita Caetano, Priscila Gasperin, Aline Archer e Karla Oliveira! Foi um prazer conhecê-las! Muito obrigado pela amizade, pelos cafés na cantina, pelas boas risadas, pela divisão das angústias e pelo compartilhamento de todos os momentos intensos do primeiro ano de doutorado!
Durante o segundo ano de doutorado tive a oportunidade de conviver de perto com mais pessoinhas especiais. Querida Aline Bogoni, te admiro muito! Obrigado pela amizade, pelas trocas e claro pelas construções conjuntas sobre carreira e aposentadoria! Agradeço também por ter conhecido as meninas do LAPPOT (Laboratório de Psicologia Positiva nas Organizações e no Trabalho) e ter tido a honra de organizar o primeiro livro do nosso laboratório, Psicologia Positiva nas Organizações e no Trabalho: conceitos fundamentais e sentidos aplicados, lançado pela Editora Vetor. Sou grata em especial, pelos laços de amizade criados com as queridas Desa, Thaís e Vandinha. Obrigada pela parceria, sintonia e carinho de sempre meninitas! À Vanda Biavati, sou muito grata também por ter me apresentado o “Mindfullness”, que fez e continua fazendo muito sentido pra mim!
Sou grata à Universidade Federal do Paraná pela concessão dos dois anos de licença remunerada, especialmente ao apoio dos colegas Eliane Dias, Silvia Rocio e Mario Aguiar nos desenlaces para a licença na PROGEPE. Agradeço aqueles professores do DAGA que me apoiaram no pedido de licença na reunião de Departamento em especial aJane Ferreira Mendes, Eduarco Pécora Jr, e ao professor Roberto Cervi, por ter se disponibilizado a substituir minhas aulas da graduação, mesmo não sendo oficialmente da área de RH, e ao professor José Roberto Frega, chefe de departamento à época, pela rapidez na solicitação de um professor substituto que cobrisse o meu afastamento, o que não acarretou
em sobrecarga aos meus colegas de trabalho. Agradeço também à professora Simone Ramos que mal entrou na UFPR e já se prontificou a me apoiar no que fosse possível para a finalização da tese!
Agradeço aos membros da Banca de Qualificação, Andréia Steil, Iuri Luna e Maria Célia Lassance, pelas preciosas contribuições. Fico também muito feliz pelo privilégio em ter tido na banca de defesa da tese uma das principais “bibliografias” do Brasil sobre aposentadoria! Lúcia Helena de Freitas Pinho França foi muito bom poder ler e reler milhares de vezes tantos estudos de qualidade publicados por você! Andréa Steil, Dulce Helena Soares, Iuri Luna e Suzana Tolfo, obrigado pelo aprendizado proporcionado ao longo do curso, pela atenção de sempre e pela disponibilidade em participarem da banca! Agradeço também a participação dos professores Cristiano Cunha e Ana Cláudia Vazquez.
Por fim, e não menos importante, agradeço de coração aos representantes da empresa pesquisada que abriram as portas para a pesquisa de maneira muito gentil e humanizada, à responsável pelo setor de previdência privada da empresa que disponibilizou os contatos dos aposentados. Aos respondentes da pesquisa, especialmente aos participantes da fase qualitativa, minha eterna gratidão por terem confiado no meu trabalho e relatado com tantos detalhes as suas trajetórias de vida! Sem vocês, não teria sido possível!
Chega um momento na vida que você tem que tomar uma decisão, ou você vai para a direita ou você vai para a esquerda e você tem que tomar uma decisão, só que você só vê até um pedaço cada caminho (...) então a gente tem que confiar no instinto da gente. Se a gente tomou o caminho para cá, aquele será o melhor caminho, de acordo com a sua personalidade e estilo.
Boehs, Samantha de Toledo Martins. Papel do trabalho, decisão de aposentadoria e satisfação de vida. Florianópolis, 2017. Tese de Doutorado em Psicologia – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Universidade Federal de Santa Catarina. Orientador: Drº Narbal Silva Co-orientadora: Dr.ª Marucia Patta Bardagi - Data da Defesa: 28/04/2017. RESUMO
A presente tese, cujo objetivo foi investigar quais as relações entre o papel de trabalho durante a carreira com o tipo de decisão e a satisfação de vida na aposentadoria, foi desenvolvida a partir da pesquisa com aposentados de uma empresa multinacional cuja sede no Brasil está localizada na cidade de Curitiba/PR. A tese foi estruturada a partir da realização de cinco estudos subsequentes, dois teóricos (estudos 1 e 2), que propiciaram a aproximação da pesquisadora com o que havia sido publicado sobre o tema, e três aplicados. Em função da natureza do problema, dos objetivos e das perspectivas teóricas que orientaram a investigação, a pesquisa foi desenvolvida a partir da utilização do método misto sequencial explanatório, caracterizado pela coleta e análise quantitativa, seguida pela coleta e análise qualitativa. Na sequência foi realizada a triangulação dos dados com a finalidade de verificar as divergências e complementariedades encontrados nos resultados de ambas as partes. No estudo 3, de natureza quantitativa, foram verificadas as relações entre os aspectos relativos ao papel de trabalho durante a carreira, o tipo de decisão e a satisfação de vida na aposentadoria em 89 aposentados. Para tal utilizou-se a aplicação de um questionário Biossociodemográfico e de carreira, construído pela pesquisadora, e a escala de satisfação de vida validada anteriormente por outros pesquisadores. No estudo 4, de abordagem qualitativa e realizado a partir da utilização da técnica da trajetória sócio profissional e da entrevista semiestruturada foram investigadas as possíveis relações entre o papel do trabalho durante a carreira e a satisfação de vida/ajuste na aposentadoria em treze aposentados da mesma empresa. No quinto e último estudo, com averificaçãoconjunta dos dados coletados nos estudos 3 e 4 houve complementação e enriquecimento das análises realizadas. Os resultados da presente tese indicam uma ênfase prioritária conferida ao papel do trabalho durante a carreira em relação aos outros papéis da vida. Apontam também que quanto melhor a percepção da qualidade de vida durante a carreira, maior o nível de satisfação de vida na aposentadoria e maior o
desejo de não querer se desvincular do trabalho na aposentadoria. Foram encontrados alguns fatores que influenciam a satisfação de vida e o ajuste na aposentadoria, sendo eles: o fator financeiro, a rede social e familiar de apoio, a voluntariedade/involuntariedade da decisão de aposentar e a realização de trabalho voluntário. Aqueles que se aposentaram involuntariamente e não conseguiram emprego após aposentadoria eram justamente os que apresentaram menores níveis de satisfação de vida, enquanto que os que continuavam trabalhando na aposentadoria, mesmo que parcialmente, apresentaram indicativos de melhor ajuste. Entre aqueles que não exerciam trabalho remunerado na aposentadoria, mas gostariam de estar realizando, três motivos foram apontados como influenciadores na satisfação de vida: não ter conseguido emprego, não ter recebido propostas de trabalho com retorno financeiro justo, e o fato de não poderem ter flexibilidade de horário com menos horas dedicadas ao trabalho nessa etapa da vida. Entre os que não executavam atividade remunerada, mas estavam envolvidos com trabalho voluntário, parecia haver um melhor ajuste à condição de aposentados. No que tange a influência da participação do programa de preparação para o ajuste na aposentadoria, foi possível perceber que aqueles que participaram do programa de preparação por um período maior do que seis meses relataram informações que permitem inferir um melhor ajuste e satisfação de vida na aposentadoria. A partir dos resultados da presente tese aponta-se para a necessidade de que aponta-sejam criadas leis trabalhistas e políticas empresariais que propiciem a diminuição da jornada de trabalho para os que se encontram às vésperas da aposentadoria como estratégia de transição que possibilite a reorganização gradual para uma nova configuração de ocupação do tempo que contemple, além das responsabilidades de trabalho, atividades voluntárias, comunitárias, sociais, familiares, de lazer ou de estudo. Por fim, sugere-se que sejam criadas redes organizadas de prestação de serviço técnico à comunidade, que aproveitem a mão de obra de profissionais experientes e qualificados e que haja o acompanhamento psicossocial dos aposentados pelas empresas por um período após a efetivação do desligamento do trabalho, pois as maiores dificuldades de organização do tempo físico e social são enfrentadas justamente quando o trabalhador está efetivamente desligado das atividades de trabalho.
ABSTRACT
The present thesis aimed to investigate the relationship between roles that work played on general life during active years with types of decisions and level of life satisfaction during retirement. This work was developed based on research with retirees from a multinational company, whose Brazilian headquarters are located in Curitiba/PR. This thesis was structured with five subsequent studies, two of them theoretical (studies 1 and 2), that allowed the researcher to approximate with research already published about this topic, and three applied. Due to the nature of the problem, goals and theoretical perspectives that oriented the investigation, this research was developed using a sequential explanatory mixed method, characterized by data collection and quantitative analysis, followed by data collection and qualitative analysis. Thereafter, data triangulation was performed aiming to verify divergences and complementarities found in results from both segments. In study 3 (of quantitative nature), the relationships between career aspects and their role in general life during active years, decision type and life satisfaction during retirement were verified in 89 retirees. To this end, a bio-socio-demographic and career survey built by the researcher was applied, together with the life satisfaction scale validated before by other researchers. In study 4 (with a qualitative approach), performed using the socioprofessional trajectory technique and semistructured interviews, the possible relationships between roles that work played on life during active years and life satisfaction/adjustment to retirement were investigated in thirteen retirees from the same company. In the fifth and last study, that combines the verification of data collected in studies 3 and 4, the performed analysis was enriched and complemented. The results of the present thesis indicate a prioritization of work during career years in comparison with other life roles. They also indicate that a better perception of life quality during career years predicted a greater level of life satisfaction and a greater desire to not detach from work during retirement. Some factors that influence life satisfaction and adjustment to retirement were found. The main ones were financial factors, social and familiar support network, willingness/unwillingness to retire and performing volunteer work. People that went through involuntary retirement and could not get another job after retirement showed lower levels of life satisfaction, while people that kept working after retirement, even partially, showed indications of better adjustment. Between those subjects with no record of remunerated work during retirement, but
willing to do it, three reasons were told to influence life satisfaction: the absence of a job, the abscence of job offers with fair financial returns, and the fact that they could not have schedule flexibility with less hours dedicated to work at this life stage. Between those subjects not involved in remunerated activities, but participating in volunteer work, a better adjustment to the retirement condition was observed. Regarding to participation in the “Preparation to Adjustments in Retirement” program, it was possible to recognize that people who attended the preparation program for a period bigger than six months reported data that allow to infer a better adjustment and life satisfaction during retirement. The results from this thesis point to a necessary development of work laws and business policies that allow a reduction/flexibilization of working hours for those approaching retirement, as a transition strategy that would allow a gradual reorganization for a new time occupation configuration that contemplates volunteer and community work, study, social, familiar and leisure activities, besides job responsibilities. Ultimately, the development of organized networks for technical community service is suggested, in a way that manpower of experienced and qualified professionals can be applied. Also, the companies should provide psycho-social assistance for the retirees, for a period after real disconnection from work, because the greatest difficulties in organizing physical and social time are faced when the worker is effectively detached from work activities.
RESUMEN
Esta tesis tuvo como objetivo investigar cuáles son las relaciones entre el papeleo para la carrera por el tipo de decisión y la satisfacción con la vida en el retiro, se ha desarrollado a partir de la investigación con retiró una empresa multinacional con sede en Brasil se encuentra en Curitiba / PR. La tesis se ha estructurado de la forma de realización de cinco estudios posteriores, dos teóricas (Estudios 1 y 2), que condujo a la aproximación del investigador con lo que se había publicado sobre el tema, y tres aplicada. Dependiendo de la naturaleza del problema, objetivos y perspectivas teóricas que guiaron la investigación, la investigación se desarrolló a partir de la utilización del método mixto explicativo secuencial, caracterizado por la recogida y el análisis cuantitativo, seguido de la recogida y el análisis cualitativo. Después de los datos de triangulación con el fin de verificar las diferencias y complementariedades que se encuentran en los resultados de ambos lados se realizó. En el estudio 3, se encontraron cuantitativos, las relaciones entre los aspectos relacionados con el trabajo de papel durante la carrera, el tipo de decisión y la satisfacción de vida en la jubilación en 89 jubilados. Para ello se utilizó la aplicación de un cuestionario y de la carrera Biossociodemográfico, construido por el investigador, y la escala de satisfacción con la vida validado previamente por otros investigadores. En el estudio 4, un enfoque cualitativo y llevado a cabo por el uso técnico de la carrera profesional socio y entrevistas semiestructuradas se investigaron las posibles relaciones entre el papel del trabajo durante la carrera y la vida de satisfacción / ajuste en retiro en trece retirado de la misma compañía. En el quinto y último estudio, con el conjunto de verificación de los datos recogidos en el estudio fue de 03:04 complementar y enriquecer los análisis. Los resultados de esta tesis indican un énfasis prioridad a la función de trabajo durante la carrera en relación con otras funciones de la vida. También señalan que la mejor es la percepción de la calidad de vida durante la carrera, mayor es el nivel de satisfacción con la vida en el retiro y cuanto mayor sea el deseo de no querer desvincular del trabajo en el retiro. Encontraron algunos de los factores que influyen en la satisfacción con la vida y el ajuste en el retiro, a saber: el factor financiero, la red de apoyo social y familiar, la voluntad / falta de voluntad de la decisión de retirarse y realizar trabajo voluntario. Los que se retiró involuntariamente y fueron incapaces de trabajar después de la jubilación eran precisamente los que tienen niveles más bajos de satisfacción con la vida, mientras que los que aún trabajan en el
retiro, aunque sea parcialmente, mostraron indicios de mejor ajuste. Entre los que no realizan trabajo remunerado en el retiro, pero me gustaría estar haciendo tres razones por las que se identificaron como factores de influencia en la satisfacción con la vida: en su defecto al empleo, no han recibido ofertas de trabajo con retribución justa, y el hecho de que ellos no pueden tener programar la flexibilidad con un menor número de horas dedicadas a trabajar en esta etapa de la vida. Entre los que no se ha ejecutado el trabajo pagado, pero tenían que ver con el trabajo voluntario, no parecía ser un mejor ajuste a la condición de retirado. En cuanto a la influencia de la participación de la preparación para el ajuste en el programa de retiro, se reveló que las personas que participaron en el programa de preparación para un período superior a seis meses informó de información que permiten inferir una satisfacción mejor ajuste y la vida en el retiro . A partir de la presente tesis resultados apuntan a la necesidad de las leyes laborales y las políticas corporativas se crean que facilitan la reducción / flexibilidad de las horas de trabajo para los que están en vísperas de la jubilación como una estrategia de transición que permitirá la reorganización gradual a una nueva configuración de uso del tiempo que incluye, además de las responsabilidades del trabajo, actividades de voluntarios, comunidad, social, familiar, de ocio o estudio. Por último, se sugiere que se organizan redes creadas para proporcionar servicio técnico a la comunidad, a gozar del trabajo de profesionales experimentados y cualificados y existe la atención psicosocial de jubilados por las empresas durante un período después de la ejecución de la obra de apagado debido a las mayores dificultades de organización del tiempo físico y social se abordan precisamente cuando el trabajador se desconecta de manera efectiva de las actividades laborales.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1. Arco-íris de carreira ... 39 Figura 2. Projeto Misto Sequencial Explanatório ... 62
LISTA DE TABELAS CAPITULO II – Estrutura Metodológica da Tese Tabela 1. Categorias e subcategorias de análise da pesquisa
qualitativa... 70 CAPITULO III - Os estudos da Tese
Estudo 1. “Revisão da Literatura latino-americana sobre Aposentadoria e Trabalho: Perspectivas Psicológicas” Tabela 1. Distribuição dos artigos selecionados por tipo,
classificação e método de análise de dados... 83 Tabela 2. Distribuição dos artigos selecionados por áreas psicologia... 86 Estudo 3. “Trabalho, Aposentadoria e Satisfação de Vida em
aposentados de uma multinacional”
Tabela 1. Número de horas dedicadas e importância atribuída aos papéis no decorrer da carreira... 131 Tabela 2. Qualidade de vida na carreira e satisfação de vida na aposentadoria ... 134 Estudo 4. “Papel de trabalho, carreira, satisfação de vida e ajuste na aposentadoria”
Tabela1. Caracterização da amostra da pesquisa ...152 Tabela 2. Eixos temáticos e subcategorias de análise... 154 Estudo 5. “Satisfação de vida e aposentadoria: um estudo com métodos mistos”
Tabela 1. Caracterização dos Participantes... 186 Tabela 2. Voluntariedade/involuntariedade da decisão e Satisfação de vida...189
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento BET – Bem-estar no trabalho
BEP – Bem-estar psicológico BES – Bem-estar subjetivo
BVS-PSI – Biblioteca Virtual em Saúde - Psicologia Brasil CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior
DOI – Digital Object Identifier System CNS – Conselho Nacional de Saúde EBSCO – Host Online Research Databases ESV – Escala de Satisfação de Vida
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística ISSN – International Standard Serial Number
LILACS – Literatura científica e técnica da América Latina e Caribe MOW – Meaning of Ocupational Work
PANAS – Afetos Positivos e Negativos
PePSIC – Portal de Periódicos Eletrônicos de Psicologia PPA – Programa de Preparação para a Aposentadoria PPGP – Programa de Pós-Graduação em Psicologia
PR – Paraná
SC – Santa Catarina
SciELO – Scientific Electronic Library Online SPSS 22.0 – Statistical Package for the Social Sciences SSCI – Social Science Citation Index
SWBS – Escala de Bem-estar subjetivo
TCLE – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido UNIVERSO – Universidade Salgado de Oliveria
SUMÁRIO
Resumo. ... 13 Abstract ... 15 Resumen. ... 17 Apresentação ... 29 CAPÍTULO I - ASPECTOS TEÓRICOS ... 35 1.1 O papel do trabalho na vida ... 35 1.2 Aposentadoria ... 41 1.2.1 Aposentadoria como um processo de Ajuste ... 44 1.2.2 Aposentadoria como tomada de decisão ... 48 1.3 Psicologia Positiva, Bem-estar e Satisfação de Vida ... 51 1.3.1 Satisfação de Vida na Aposentadoria ... 55 CAPÍTULO II - ESTRUTURA METODOLÓGICA DA TESE ... 59 Aspectos Epistemológicos ... 59 Objetivos da Tese ... 60 Delineamento da Pesquisa ... 61 Caracterização do Campo - Fase exploratória ... 63 Definição da Amostra... 64 Procedimentos de Coleta dos Dados ... 65 Estudo Empírico Quantitativo ... 65 Estudo Empírico Qualitativo ... 67 A Análise dos Dados ... 69 Estudo Empírico Quantitativo ... 69 Estudo Empírico Qualitativo ... 69 Triangulação dos dados ... 70 Procedimentos Éticos ... 71 Os Estudos da Tese ... 72 CAPÍTULO 3 - OS ESTUDOS DA TESE ... 73 Estudo 1. “Revisão da Literatura latino-americana sobre
Aposentadoria e Trabalho: Perspectivas Psicológicas” ... 75 Resumo ... 75 Abstract ... 76 Resumen ... 76 Introdução ... 78 Método ... 80 Resultados ... 82 Discussão... 88 Referências ... 92
ESTUDO 2. “Bem-estar, Felicidade e Satisfação de Vida na
Aposentadoria: construindo reflexões”* ... 101 Resumo ... 101 Introdução ... 102 Aposentadoria como um processo de Ajuste ... 104 Bem-estar, felicidade e satisfação de vida ... 107 Possíveis relações entre bem-estar, felicidade e satisfação de vida na aposentadoria ... 110 Considerações Finais ... 114 Referências... 114 ESTUDO 3. “Trabalho, Aposentadoria e Satisfação de Vida em
aposentados de uma multinacional” ... 119 Resumo ... 120 Abstract ... 120 Resumen ... 121 Introdução ... 122 Método ... 127 Participantes ... 127 Instrumentos ... 128 Procedimentos ... 129 Análise dos Dados ... 130 Resultados ... 130 Discussão ... 135 Referências ... 140 ESTUDO 4. “Papel de trabalho, carreira, satisfação de vida e ajuste na aposentadoria”... 145 Resumo ... 146 Abstract ... 146 Resumen ... 147 Introdução ... 148 Método ... 151 Participantes ... 151 Instrumentos e Procedimentos ... 152 Resultados e Discussão ... 153 1. Trabalho e Carreira ... 154 2. A Aposentadoria ... 158 3. Satisfação de vida ... 164 Considerações finais ... 166 Referências ... 167 ESTUDO 5. “Satisfação de vida e aposentadoria: um estudo com métodos mistos” ... 173
Resumo ... 173 Abstract ... 174 Resumen ... 174 Introdução ... 176 Satisfação de Vida e Aposentadoria ... 178 Método ... 181 Participantes ... 183 Instrumentos ... 183 Procedimentos ... 184 Resultados ... 185 1. Programa de preparação e satisfação de vida na aposentadoria ... 187 2. Decisão de aposentadoria e satisfação de vida ... 188 3. Relação com o trabalho na aposentadoria e satisfação de vida ... 189 Discussão...190 Referências ... 193 CAPÍTULO 4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 201 Referências da Tese ... 207 Anexos... 227 Anexo A – Questionário Biossociodemográfico e de Carreira ... 227 Anexo B – Escala de Satisfação de Vida Versão Brasileira (ESV)... 232 Anexo C – Entrevista Semi-estruturada ... 232 Anexo D – Técnica da Trajetória Sócio Profissional ... 234 Anexo E – Carta de Apresentação e Autorização Institucional ... 236 Anexo F– Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – Estudo 1 ... 238 Anexo G – Termo de Consentimento Livre e esclarecido – Estudo 2 ... 241 Anexo H - Parecer do Comitê de Ética... 244
APRESENTAÇÃO
O tema de estudo da presente tese surgiu, inicialmente, da inquietação da pesquisadora para compreender as distintas percepções que um mesmo evento, “a aposentadoria”, gera em diferentes aposentados. Alguns apresentam sentimentos de desespero, tristeza e angústias com o desligamento do mundo laboral, enquanto outros vivem essa etapa da vida, com sentimentos de bem-estar, liberdade, satisfação e alegria.
O trabalho, conforme enfatizado de modo recorrente na academia, como também na vida organizacional, é central em nossa sociedade, criando padrões de referência e influenciando diretamente na forma como as pessoas se reconhecem e são reconhecidas. Se, para a sobrevivência, ele deveria satisfazer pelo menos as necessidades básicas diárias, na perspectiva psicológica é uma categoria central no desenvolvimento do autoconceito e uma fonte importante de autoestima (Schein, 1982; Zanelli, Silva & Soares, 2010). Portanto, constitui atividade fundamental para o desenvolvimento físico, mental e espiritual do ser humano e, por isso, se configura como uma das principais fontes de significados e de identificações para as pessoas, o que contribui para estabelecer suas aspirações e estilo de vida. Aliado a isso, proporciona ritmo, cronologia e frequência às etapas da vida, se tornando um forte componente para a construção psíquica da pessoa, que acredita e orgulha-se de si (Borges & Tamayo, 2001; Costa, 2009; MOW,1987; Tolfo & Piccinini, 2007; Zanelli, et al., 2010).
O trabalho, por ocupar papel central na vida das pessoas, acaba referenciando aspectos ligados à identidade e ao reconhecimento de si no mundo, e pode tomar o espaço de outros papéis na vida, tais como família, comunidade e tempo livre. Ser trabalhador é um dos papéis que o ser humano exerce ao longo do ciclo vital, invariavelmente acompanhado por papéis em outras esferas da vida. Super (1957, 1980) afirma que os papéis estruturam e fornecem significado para a vida, denominando como carreira a composição da sequência e integração entre os papéis ao longo da vida. De acordo com o estágio de vida em que se encontra, a pessoa pode conferir pesos diferentes ao desempenho destes papéis. Em relação a isso, conceitua-se saliência de papel como a importância que uma pessoa atribui a um papel, em relação a outros papéis que desempenha no seu contexto social (Lassance, 2010; Lassance & Sarriera, 2012; Super & Nevill, 1986). Ao se levar em conta tal argumento, parece ser importante refletir sobre os aspectos psicossociais envolvidos na aposentadoria, fase
em que acontece o desligamento formal do mundo laboral e em que, a princípio, o trabalho deixaria de ter um papel tão central.
A aposentadoria é um conceito revestido de ambiguidades, existindo múltiplos critérios pelos quais alguém pode ser considerado como aposentado, o que inclui a cessação da carreira, a redução do esforço de trabalho, o recebimento de uma pensão ou, simplesmente, o fato da pessoa reconhecer-se como aposentada (Ekerdt, 2010). No dicionário Aurélio (2017), o termo é definido como o Ato de aposentar, o estado do empregado ou funcionário (civil ou militar) que, tendo atingido certa idade, tempo de serviço ou por motivo de saúde, é posto em inatividade e passa a receber uma pensão. Por anos a fio ser aposentado esteve associado ao conceito de inatividade, mas recentemente tem ocorrido uma tendência a se pensar a aposentadoria de uma forma diferente, tendo em vista que na atualidade muitas pessoas se aposentam oficialmente e passam a realizar atividades profissionais após a aposentadoria, descaracterizando tal situação associada à inatividade. Com a finalidade de delimitar e conferir precisão, ao que significa “estar aposentado”, no presente estudo, foi utilizado o termo “aposentadoria” para caracterizar o início do período de recebimento do benefício pelo regime de previdência do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).
Os estudos com temáticas relacionadas à aposentadoria têm crescido a cada ano e sido objeto de pesquisa de diversas disciplinas, tais como economia, geriatria, psicologia, enfermagem, saúde coletiva, administração e seguridade social (Aguila & Zissimopoulos, 2013; Canizares & Jacob Filho, 2011; Leandro-França, Van Solinge, Henkens & Murta, 2016), entre outros. O aumento do interesse pela área pode estar relacionado à elevação da expectativa de vida, ao crescimento da população idosa e ao tempo que as pessoas têm permanecido vivas após o desligamento formal do trabalho. Segundo dados do IBGE (2013), a população com mais de 65 anos no Brasil deve praticamente quadruplicar nos próximos 50 anos, passando dos 14,9 milhões em 2013 para 58,4 milhões em 2060. Baseado em projeções nesse período, a expectativa média de vida do brasileiro deve aumentar de 75 para 81 anos. No âmbito mundial, nos países desenvolvidos, a população com 60 anos ou mais vem aumentando 1,0% ao ano, com previsão de chegar a 417 milhões de idosos em 2050. Nos países menos desenvolvidos, a população com 60 anos ou mais está aumentando no ritmo de 3,7% ao ano e, segundo as previsões, passará de 554 milhões em 2013 para 1,6 bilhões em 2050 e 2,5 bilhões em 2100 (United Nations, 2013,2014).
Pesquisadores de áreas distintas utilizam óticas diferentes para os estudos sobre aposentadoria. Por exemplo, segundo Shultz e Wang
(2011), nas diferentes subáreas de conhecimento da Psicologia, tais como, Psicologia do Desenvolvimento, Psicologia Organizacional/Trabalho e Psicologia Clínica/Aconselhamento, o tema pode ser compreendido a partir de diferentes perspectivas. Os autores afirmam que, sob a ótica da psicologia do desenvolvimento, o enfoque tem sido dado às histórias individuais, por meio das quais são examinados os antecedentes e os resultados da aposentadoria para os trabalhadores. Vários aspectos são considerados nessa perspectiva, como, por exemplo, os hábitos de trabalho e lazer (Burns & Abreu, 1997; Matthews, Swody & Barnes-Farrell, 2012), os padrões de participação da força de trabalho e preferências anteriores (Appold, 2004; Reitzes & Mutran, 2004), além das experiências em outras esferas da vida (Antunes, Soares & Silva, 2013; Muller & Litwin, 2011). Os psicólogos desenvolvimentistas também têm investigado como os aposentados se ajustam à vida após a aposentadoria (van Solinge & Henkens, 2008; Wang, 2007).
Na psicologia organizacional e do trabalho várias pesquisas têm sido voltadas para a influência dos fatores psicológicos da pré-aposentadoria no processo de pré-aposentadoria. A centralidade e a identificação com os papéis de trabalho têm sido relacionadas negativamente com os resultados de ajuste (Debetir, 2011; Quick & Moen, 1998), assim como o estresse e a insatisfação no trabalho (Lowis, Edwards & Singlehurst, 2011; van Solinge & Henkens, 2008; Wang, 2007) têm sido positivamente relacionados com a transição e ajuste na aposentadoria. Os antecedentes e resultados das decisões de bridge employment1 também têm sido foco de estudo na psicologia organizacional (Dingemans, 2012; Gobeski & Beehr; 2008; Menezes & França, 2012).
Na psicologia clínica e de aconselhamento a maior parte dos estudos se relaciona aos processos de preparação para a aposentadoria (Costa & Soares, 2009; França, Menezes & Siqueira, 2012; Murta et al., 2014; Zanelli et al., 2010), pois enquanto algumas pessoas têm dificuldade para realizar o desligamento oficial do mundo laboral, outras planejam sistematicamente, o que irão fazer após essa fase. Os programas de orientação/preparação para a aposentadoria costumam auxiliar nessa escolha, pois a possibilidade de desligamento do trabalho pode ser
1 O termo Bridge employment representa o período no qual a pessoa está aposentada formalmente, recebendo a pensão pelo regime de previdência, mas continua exercendo algum tipo de atividade profissional. Segundo Wang et al (2009), é a fase de transição na qual trabalhadores mais velhos estão começando a desengajar psicologicamente da força de trabalho, porém ainda não estão totalmente prontos para começarem a vida como aposentados, com a ausência das responsabilidades inerentes ao trabalho.
percebida como um acontecimento penoso ou se configurar como o início de uma nova etapa, com mudanças de hábitos, reconfigurações de papéis e de expectativas. Os psicólogos clínicos e de aconselhamento têm como propósito ajudar os trabalhadores a fazerem uma transição bem-sucedida, ampliando as discussões relacionadas à ausência do trabalho, para aspectos relativos ao planejamento financeiro (Hershey, Jacobs-Lawson, McArdle, & Hamagami, 2007), às relações familiares (Phua & McNally, 2008) e conjugais (Antunes, 2014; Rosenkoetter & Garris, 1998), entre outros.
Em geral a maior parte dos estudos sobre aposentadoria tem focado somente em uma etapa específica da aposentadoria. Em algumas pesquisas são enfatizados os antecedentes, a preparação para a aposentadoria e as expectativas das pessoas que ainda não estão aposentadas (Bressan, Mafra, França, Melo & Loretto, 2013; Costa, 2009; Leandro-França, et al., 2016; Murta et al.,2014), outras privilegiam a tomada de decisão no momento do desligamento formal (França, 2009; Menezes & França, 2012) e existem ainda os estudos que verificam como as pessoas estão no período após o desligamento oficial (Brajković et al., 2011; Nalin & França, 2015; Roesler, 2014).
Entretanto, Shultz e Wang (2011) ressaltam para a importância de se compreender e examinar a aposentadoria a partir de uma visão processual, onde as três fases sejam percebidas de forma interligada. Alguns estudos internacionais que utilizam recorte de pesquisa longitudinal têm utilizado uma abordagem mais processual para examinarem como a satisfação de vida se altera (o ajuste) em função da transição para a aposentadoria (Dingemans & Henkens, 2014; Hershey & Henkens, 2013; Pinquart & Schindler, 2007). Na presente pesquisa, apesar de não ser de caráter longitudinal, em função do período de tempo disponível para o desenvolvimento de uma tese, procurou-se compreender a aposentadoria de forma processual.
O estudo foi desenvolvido amparado nos conceitos e pressupostos da psicologia do desenvolvimento (papéis que o indivíduo desempenha no decorrer do ciclo de vida: trabalho, estudo, família, tempo livre e comunidade), da psicologia organizacional e do trabalho (antecedentes e consequentes da tomada de decisão de aposentadoria) e da psicologia positiva (satisfação de vida). A aposentadoria foi investigada partindo-se de uma perspectiva temporal, como um processo de ajuste que leva em conta três momentos subsequentes: aspectos da vida pregressa de trabalho (analisados a partir da compreensão do papel do trabalho), a decisão de aposentadoria (aposentadoria definitiva, continuar trabalhando de forma remunerada, realizar somente trabalho voluntário) e as questões
relacionadas ao ajuste/ conforto psicológico após a aposentadoria (mensurado a partir do construto satisfação de vida). Dessa forma, alinhado com os argumentos até aqui expostos, este estudo foi construído de modo a responder o seguinte problema de pesquisa: Quais as relações entre o papel de trabalho durante a carreira, o tipo de decisão e a satisfação de vida na aposentadoria?
Estudos nacionais e internacionais têm sido desenvolvidos sobre cada um dos temas centrais da presente tese: o papel de trabalho (Bendassolli, 2009; Borges & Yamamoto, 2014;Greer & Egan, 2012; Lassance & Sarriera 2012; Mow, 1987; Wolfram & Gratton, 2014), a aposentadoria (Alcover, Topa & Fernández, 2014; Dingemans & Henkens, 2014; Menezes & França, 2012; Hershey & Henkens, 2013; Pundt, Wöhrmann, Deller & Shultz, 2015) e a satisfação de vida (Clarke, Marshall & Weir, 2012; Diner, Emmons, Larsen & Griffin, 1985; Dingemans & Henkens, 2013; Gwozdz & Sousa, 2011; Hershey & Henkens, 2013; Zanon, Bardagi, Layous, & Hutz, 2013). Entretanto, percebe-se a ausência de estudos que além de compreenderem a aposentadoria a partir de uma perspectiva temporal, considerem também a relação entre o papel de trabalho durante a carreira (antes) com os tipos de decisão (durante) e a satisfação de vida na aposentadoria (depois). Especialmente no âmbito nacional, não foi encontrado nenhum estudo sobre aposentadoria e satisfação de vida, nem sobre a relação entre a voluntariedade/involuntariedade da aposentadoria com a satisfação de vida. Sobre a decisão de aposentadoria foram encontrados somente dois estudos realizados no Brasil (França, 2009; Menezes & França, 2012).
Dessa forma, a presente tese pode contribuir para a pesquisa sobre aposentadoria em pelo menos sete aspectos. Primeiro, considerando a aposentadoria de forma processual e temporal. Segundo, investigando as possíveis relações dos diferentes papéis da vida e especialmente o papel de trabalho com as decisões de aposentadoria. Em terceiro, analisando como essas diferentes decisões (tipos e voluntariedade) influenciam a satisfação de vida na aposentadoria. Em quarto, verificando se os motivos pelos quais as pessoas retornam ao trabalho após a aposentadoria se relacionam com a satisfação de vida. Em quinto, investigando se o fato das pessoas retornarem ao trabalho, após a aposentadoria em atividades na mesma área ou em área diferente da carreira regular, possui alguma relação com a satisfação de vida. Em sexto, investigando se o fato das pessoas retornarem ao trabalho após a aposentadoria em atividade remunerada ou não remunerada (voluntária) possui diferenças significativas em relação à satisfação de vida. Em sétimo, verificando se
a participação em um programa de preparação para a aposentadoria possui relação com a decisão de aposentadoria e a satisfação de vida.
Com o propósito de responder ao problema de pesquisa e de apresentar os pressupostos teóricos e metodológicos desta tese, o trabalho se encontra estruturado em quatro capítulos. No capítulo I, intitulado “Aspectos teóricos”, serão apresentados os conceitos que embasam a presente tese. No capítulo II, “A Estrutura metodológica da Tese”, serão apresentados os objetivos, o delineamento da pesquisa, o acesso ao campo, a definição da amostra, as fases da coleta e as considerações éticas. O terceiro capítulo, denominado “Estudos da Tese”, contempla cinco estudos independentes, mas que constitui de forma integrada o desenvolvimento da Tese. Cada um deles é composto por fundamentação teórica, método, resultados, discussões, considerações finais e referências. No quarto capítulo, denominado de “Considerações Finais”, foi realizado um fechamento interligando os estudos da tese e também os apontamentos das limitações e das sugestões de novas possibilidades de pesquisas na área. Por fim, apresentam-se as referências gerais equivalentes aos capítulos I, II, e IV, tendo em vista que no capítulo III, por serem apresentados artigos completos, as referências são apresentadas dentro de cada um deles de maneira independente.
CAPÍTULO I ASPECTOS TEÓRICOS
1.1 O papel do trabalho na vida
Borges e Yamamoto (2014) afirmam que nos dois últimos séculos o trabalho vem ocupando um lugar privilegiado no espaço da reflexão teórica, mas que nem sempre foi considerado como algo central na vida das pessoas. Na Antiguidade, filósofos gregos clássicos como Platão e Aristóteles exaltavam a ociosidade, enquanto o trabalho era visto como algo degradante, inferior e desgastante, que competia aos escravos. Enquanto na Antiguidade a importância maior estava na vida contemplativa-filosófica, na Idade Média ocorreram mudanças na sociedade que permitiram uma forte influência da religião, onde as coisas do mundo (entre elas o trabalho) eram entendidas como subordinadas às questões do espírito. Somente com o advento do modo de produção capitalista o trabalho tornou-se um tema de relevância, que o exalta como central na vida das pessoas e como o único meio digno de ganhar a vida (Bendassolli, 2009; Borges & Yamamoto 2014).
Segundo Bendassolli (2009, p. 11), “a centralidade do trabalho é uma construção discursiva que emerge à medida que o capitalismo cria novas necessidades de integração do trabalho. Consiste na elevação deste à categoria-chave na definição do humano”. Ainda para este autor, a idea hoje tão disseminada de que o trabalho tem um poder capaz de nos definir melhor do que qualquer outra coisa foi uma construção necessária ao capitalismo, para que as pessoas se engajassem nas várias exigências do sistema produtivo. A partir diso, com o trabalho passando a ser considerado como central na vida das pessoas, muitos estudos começaram a ser desenvolvidos sobre a centralidade e o significado do trabalho na vida.
Os estudos sobre a centralidade do trabalho têm sido desenvolvidos como parte do conceito de significado do trabalho. Segundo Borges e Yamamoto (2010), a compreensão do significado do trabalho deve levar em conta a multi e interdisciplinaridade do tema. Os autores afirmam ainda que o significado do trabalho tem sido estudado em dois níveis principais de análise: um societal (ou macro) e outro que segue do nível pessoal para o ocupacional, e que, especialmente na
Psicologia, observa-se o predomínio de pesquisas que transitam do nível individual para o ocupacional.
Os estudos pioneiros sobre significado do trabalho foram desenvolvidos nos anos 1980 por pesquisadores do grupo MOW - Meaning of Ocupational Work (MOW, 1987), que desenvolveram uma pesquisa de levantamento com amostras de oito países e estruturaram os dados em 12 fatores que foram, a princípio, agrupados em quatro dimensões: Centralidade do trabalho; normas societais, resultados e objetivos valorados e identificação das regras do trabalho. Entretanto, após avaliações estatísticas, a última dimensão apresentou pouca consistência interna, sendo excluída da estrutura geral do construto (Tolfo & Piccinini, 2007). O conceito de significado passou a ser compreendido, então, a partir de três dimensões principais: A centralidade, que está relacionada ao grau de importância atribuído ao trabalho frente às demais esferas da vida (família, religião, lazer e comunidade); as normas societais, que se referem às características do trabalho que exprimem o balanço das obrigações individuais para a sociedade e vice-versa, e os resultados e objetivos valorados do trabalho, que são as metas que os seres humanos esperam alcançar por intermédio do seu trabalho e na valorização atribuída aos resultados esperados (Mow, 1987).
Segundo Borges, Tamayo e Alves-Filho (2005), podemos considerar duas tendências teórico-metodológicas distintas nos estudos sobre o tema, uma empírico-descritiva, de base humanista, que visa a identificar e classificar as dimensões do significado do trabalho, pressupondo a existência do fenômeno em si (pressuposto idealista), e outra tendência que leva em conta as ações das pessoas, sendo construídas de forma sócio-histórica, considerando a dinamicidade processual dos significados e os nexos existentes entre as dimensões do significado do trabalho e destas com o mundo vivencial. Os autores anteriormente citados classificam os estudos do grupo MOW como exemplo da primeira tendência, reconhecendo seu destaque no âmbito internacional e sua importância para popularizar na psicologia o conceito de significado do trabalho. Entretanto, argumentam que o fato de utilizarem questionários estruturados e técnicas quantitativas de análise acaba por deixar de explorar aspectos não elucidados anteriormente, restringindo a amplitude da análise por não considerarem também metodologias mais qualitativas.
Para Borges et al. (2005), a segunda tendência não rejeita a primeira, mas sim avança a partir dela em direção a uma visão mais existencialista, inter-relacionando os conceitos do cognitivismo com os do existencialismo/humanismo. Nessa perspectiva é levado em conta o fato dos componentes do significado do trabalho estarem em permanente
processo de construção e terem passado a ser entendidos a partir de pesquisas realizadas com métodos qualitativos e quantitativos. No presente estudo parte-se da perspectiva que considera o significado do trabalho como algo construído pelas interpretações sobre a realidade e interações do sujeito com o mundo, sendo que este sujeito ativo influencia e é influenciado pelo contexto sócio-histórico no qual está inserido.
Todas as dimensões do conceito de significado do trabalho identificadas pelo grupo MOW e reelaborados por outros autores brasileiros (Borges & Tamayo, 2001; Borges, Tamayo e Alves-Filho, 2005; Schweitzer, Gonçalves, Tolfo, & Silva, 2016; Tolfo & Piccinni 2007) são relevantes e têm sido objeto de numerosos estudos, sendo que a faceta centralidade do trabalho é a mais consolidada entre as dimensões do significado do trabalho. A centralidade pode ser compreendida a partir do grau de importância que o trabalho tem na vida de uma pessoa em determinado momento e inclui dois componentes: um valorativo, a centralidade absoluta do trabalho, que mede o valor atribuído pelos sujeitos considerando a importância do trabalho na vida e outro sobre a centralidade relativa do trabalho, comparada a outras esferas importantes na vida (Borges & Tamayo, 2001; Mow, 1987; Tolfo & Piccinni 2007). Para compreender a centralidade relativa do trabalho em relação aos outros papéis que a pessoa desempenha na vida, estudos têm sido desenvolvidos a partir do conceito de Saliência do papel de trabalho, o qual faz parte da Teoria Life-span, Life-spacedo desenvolvimento de carreira (Super, 1980, 1990, Super, Savickas & Super, 1996) que considera que o ser humano participa e desempenha diferentes tipos de papéis durante a vida. Ao nascer torna-se filho e com a passagem dos anos outros papéis vão sendo desenvolvidos, ora atribuídos por fatores e demandas externas, ora criados e representados pelas próprias pessoas. Irmão, amigo, neto, sobrinho, estudante, esportista, namorado, trabalhador, pai/mãe, marido/esposa, participante de grupo comunitário, entre outros, são exemplos de papéis desempenhados pelos seres humanos ao longo da vida.
Na presente tese, para compreensão dos papéis que as pessoas desempenham ao longo da vida, foi utilizada a perspectiva desenvolvimentista baseada nos conceitos de Super (1957, 1980, 1982), Super et al. (1996), Savickas (2002), Duarte et al. (2010), que relacionam os diversos papéis que o ser humano desenvolve ao longo do ciclo de vida, relacionando-os ao conceito de carreira. A preocupação em compreender a carreira a partir do estudo de outros papéis, além do de trabalhador, é um ponto central para a Psicologia contemporânea, uma vez que a sociedade moderna possibilita a participação das pessoas em múltiplos
papéis sociais, cabendo ao ser humano gerenciar sua participação nestes papéis, de modo a encontrar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional (Oliveira, Melo-Silva & Coleta, 2012).
A partir da teoria Life-Span, Life-Space, criada por Super (1980) e Super et al. (1996), o desenvolvimento da carreira pode ser compreendido considerando duas dimensões conceitual e teoricamente distintas, mas estreitamente relacionadas: uma dimensão longitudinal, Life-span (ciclo de vida), e uma dimensão transversal, o Life-space (espaço de vida) (Lassance & Sarriera, 2009). A dimensão longitudinal diz respeito ao desenvolvimento da vida e é caracterizada por cinco maxi-ciclos, também denominados de estágios de carreira: Crescimento (infância), Exploração (adolescência), Estabelecimento (adultez jovem), Manutenção (maturidade) e Desengajamento (velhice) (Super, 1980; Super et al., 1996). A segunda dimensão, denominada de transversal, está relacionada aos papéis que são desempenhados pelas pessoas ao longo da vida (filho, estudante, trabalhador, serviço comunitário, casa/família, tempo livre). Segundo Savickas (2002), o termo life space (espaço de vida) significa o conjunto de papéis sociais desempenhados por uma pessoa, considerando os cenários culturais nos quais estes papéis são exercidos. Os papéis são aglutinados em centrais e periféricos, criando uma estrutura (“life structure”) e dando significado para a vida, o que organiza e canaliza o engajamento da pessoa na sociedade, incluindo a escolha ocupacional (Super, 1957, 1980; Savickas, 2002).
No que se refere à carreira, Super (1980) a define como a seqüência e integração entre papéis que as pessoas desempenham no decorrer da vida. O mesmo autor propõe um modelo denominado Arco-íris de Carreira, que pode ser visualizado por meio da figura. 1, no qual a dimensão longitudinal (ciclo de vida) é representada na extensão do arco e a dimensão transversal (papéis sociais) é expressa por meio das subdivisões, de cada um dos papéis que as pessoas possuem na vida.
Figura 1 - Arco-íris de carreira.
Fonte: Super e al., (1996, p. 127) retirado de (Lassance & Sarreira, 2009)
Com o intuito de responder às mudanças sociais ocorridas na sociedade, Super propôs, por meio da Teoria Life-Span, Life-Space, a inclusão de uma gama de papéis sociais na compreensão do desenvolvimento de carreira, ao invés de concentrar-se apenas no papel de trabalhador (Oliveira, et al., 2012). Tal inclusão vem ao encontro de Savickas (2002), quando afirma que para compreender a carreira de uma pessoa é importante conhecer e avaliar a rede de papéis de vida que o conectam à sociedade.
Na perspectiva desenvolvimentista de carreira, de acordo com os estágios da vida, a pessoa pode conferir pesos diferentes ao desempenho destes papéis, geralmente dois ou três papéis principais tomam um lugar central e outros se tornam periféricos ou ausentes. Dessa forma, de acordo com a fase da vida, alguns papéis irão receber mais investimento emocional e dedicação do que outros. Em 1982, Super cunhou o termo saliência de papel para representar a idéia de que, todas as funções da vida não têm necessariamente a mesma importância para uma pessoa. Nesta ótica, saliência de papel se refere à importância que uma pessoa atribui a um papel em relação aos outros papéis que desempenha no seu contexto social (Lassance, 2010; Lassance & Sarriera, 2012; Super, 1982; Super & Nevill, 1986;).
No presente estudo, ao se investigar a relação entre o papel de trabalho e os outros papéis da vida, foi utilizada a seguinte divisão de papéis propostas por Super e Nevill (1986): Estudo, Trabalho, Serviço Comunitário, Casa e Família, Tempo Livre. O papel referente ao Estudo
está relacionado a fazer cursos, frequentar a escola (aulas, palestras ou trabalho em laboratório), preparar-se para a aula, estudar em uma biblioteca ou em casa, além do estudo independente, formal ou informal. O papel relativo ao Trabalho está ligado a trabalhar para alguém ou para si mesmo em troca de remuneração ou algum outro benefício. O papel Serviço Comunitário compreende atividades em organizações ou entidades comunitárias, tais como, grupos recreativos, escoteiros, agências de assistência social, associações de moradores ou pais e mestres, partidos políticos e sindicatos. O papel relacionado à Casa e à Família compreende atividades como arrumar o quarto, a casa ou o apartamento, preparar refeições, lavar a louça, fazer compras e cuidar de dependentes como crianças ou pais idosos. Por último, o papel relativo a Tempo Livre refere-se a atividades relacionadas a participação em atividades esportivas, assistir TV, praticar hobbies, ir ao cinema, teatro ou shows, ler, relaxar ou não fazer nada, passar tempo com a família e amigos (Lassance, 2010; Super & Nevill, 1986).
Neste contexto de compreensão, o papel de trabalhador é apenas um dentre os papéis que os indivíduos podem desempenhar, pois, enquanto ganham a vida, as pessoas acabam simultaneamente representando papéis em outras esferas de suas existências (Super, 1980; Savickas, 2002). Além disso, existem diferenças interpessoais a respeito de como as pessoas combinam e enxergam os papéis que desempenham na vida. Alguns percebem os papéis como complementares, outros entendem como conflitantese muitos os percebem como complementares e conflitantes ao mesmo tempo. Segundo Savickas (2002), os papéis centrais interagem de forma a se construírem uns aos outros, sendo assim, as pessoas tomam decisões sobre o papel de trabalhador de acordo com as outras circunstâncias e papéis sociais que dão significado e foco às suas vidas (estudo, família, tempo livre e comunidade).
Com o propósito de estabelecer um novo paradigma para entender a carreira no século XXI, Duarte et al. (2010) concebem o desenvolvimento da carreira relacionado à construção da própria vida. Esta abordagem reconhece a importância dos papéis de trabalhador e de estudante. Aliado a isso, também são ressaltados, e devem ser levados em conta, outros importantes papéis de vida, tais como, membro da família, cidadão ou ter uma intensa atividade nos tempos livres. Ou seja, “as pessoas que se envolvem na construção de suas vidas devem ser encorajadas a considerar simultaneamente todos os papéis de vida salientes ao engajar-se na construção de suas carreiras” (Duarte et al., p. 210). Também relacionado a isso, para Lassance (2015), ao longo da vida, o papel de trabalhador acaba por complementar, entrar em conflito ou até
mesmo excluir outros papéis, sendo esta uma relação que muda em função de eventos típicos, conforme as etapas de vida ou eventos inesperados, exigindo da pessoa uma constante capacidade de adaptação.
A respeito disso, estudos realizados sobre o conceito de saliência do papel (Lassance, 2010; Lassance & Sarriera 2012; Super & Nevill, 1986), têm comparado o papel de trabalho com os outros papéis da vida. Alguns estudos, por exemplo, têm investigado o equilíbrio/conflito entre os papéis de trabalho e de família (Marin, Infante & Rivero, 2002; Reitzes & Mutran, 2002; Winkel & Russel, 2010; Wolfram & Gratton, 2014). Entre os papéis exercidos pelas mulheres (Holloway, Suzuki, Yamamoto & Mindnich, 2006; Noor, 2004; Silva, 2015) e as diferenças de papéis entre homens e mulheres (Quick & Moen, 1998). Alguns autores ainda como Greer e Egan (2012) ressaltam a importância dos gestores levarem em consideração, nas políticas e práticas de recursos humanos, a compreensão integrada da saliência dos papéis que os empregados representam em suas vidas.
Até o momento, foram feitas considerações a respeito do papel do trabalho na vida dos indivíduos, de como ele é base para a criação dos padrões de referência e sua influência direta na forma como as pessoas se reconhecem e são reconhecidas. Em síntese, além de propiciar ganhos monetários, que permitem a sobrevivência, o trabalho se caracteriza também na perspectiva psicológica, como uma categoria de alta importância, influenciando diretamente na forma como as pessoas organizam a vida e se reconhecem (Zanelli, et al., 2010). Por isso, a ausência da realização de atividades laborais, entre outros aspectos, poderá repercutir em percepções e sentimentos de “vazio existencial”. Por conseguinte, na sequência serão abordadas questões ligadas ao papel do trabalho com a chegada da aposentadoria.
1.2 Aposentadoria
No Brasil existem cinco modalidades de aposentadoria previstas em lei, sendo elas: aposentadoria por tempo de contribuição, aposentadoria por idade, aposentadoria especial, aposentadoria compulsória e por incapacidade ou invalidez. A condição necessária para o trabalhador se aposentar por tempo de contribuição é ter recolhido o valor mensal ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) por 30 anos, se mulher, ou 35 anos, se homem. A aposentadoria por idade pode ser requerida quando tiver completado 60 anos de idade, se mulher, e 65 anos, se homem. Já na aposentadoria especial, além do tempo de trabalho, a pessoa precisa comprovar a efetiva exposição a agentes nocivos
químicos, físicos, biológicos ou associação de agentes prejudiciais pelo período exigido para a concessão do benefício (15, 20 ou 25 anos), exposição esta que deverá ter ocorrido de modo habitual e permanente, não ocasional nem intermitente. A aposentadoria compulsória é aquela que a empresa pode requerer ao INSS quando o funcionário cumpre o requisito de carência e idade (70 anos de idade para homens e 65 anos de idade para mulheres). A aposentadoria por invalidez é um direito dos trabalhadores que, por doença ou acidente, foram considerados pela perícia médica da Previdência Social incapacitados para exercer suas atividades ou outro tipo de serviço que lhes garanta o sustento (INSS, 2014).
Vale ressaltar que atualmente o país está passando por um período de transição no que se refere às regras da aposentadoria, pois o governo federal propôs uma reforma de emenda à constituição (PEC) 287/2016 relativaà Previdência Social, que, se aprovada no Congresso, vai criar novas regras de idade, de tempo de contribuição, além de acabar com as diferenças entre o regime de previdência geral e público, ou seja, os servidores públicos passarão a seguir as mesmas regras que os trabalhadores dos setores privados. Com a aprovação dessas novas regras, a aposentadoria será concedida somente para homens e mulheres a partir dos 65 anos, cujo tempo mínimo de contribuição passará de 15 para 25 anos. Com essa medida, deixa de existir a aposentadoria exclusivamente por tempo de contribuição e para que o trabalhador receba aposentadoria integral será necessário contribuir para o regime de previdência por 49 anos.
Conforme referido anteriormente na introdução deste projeto, pesquisadores de diversas áreas compreendem a aposentadoria sob óticas distintas. No campo da contabilidade e da economia são privilegiados os aspectos atuariais e previdenciários (Garcia Padrón & Garcia Boza, 2007; Santos, Silva Jr., França, Cavalcanti & Fernandes, 2012). Estudiosos da área da saúde pública, geriatria e gerontologia têm desenvolvido pesquisas que enfatizam o envelhecimento, as perdas funcionais e os processos adaptativos na aposentadoria (Alavinia & Burdorf, 2008; Canizares & Jacob Filho, 2011; Trentini, Silva, Valle &Hammerschmidt, 2005). Na administração, os estudos sobre aposentadoria têm sido relacionados à influência dos agentes sociais, econômicos, políticos e culturais nas práticas de recursos humanos que, dependendo da situação, em alguns casos, resultam no incentivo à aposentadoria antecipada (Feldman, 2003) e, em outros, em práticas de manutenção dos trabalhadores com mais experiência.
Ainda em relação a isso, Wang e Shultz (2010) realizaram um levantamento em três bases de dados internacionais (PsycInfo, SSCI e EBSCO), buscando pesquisas que tratassem do tema “aposentadoria dos funcionários” (employee retirement). Ao analisarem os artigos publicados desde 1986, classificaram os estudos em quatro grandes perspectivas: aposentadoria como tomada de decisão, como processo de ajuste, como fase do desenvolvimento de carreira e como componente da administração de Recursos Humanos.
A abordagem da aposentadoria como tomada de decisão pressupõe que os trabalhadores mais velhos avaliem a utilidade de se aposentarem e tomem suas decisões com base em fatores relacionados às suas próprias características e aos antecedentes do ambiente de trabalho e não-trabalho (Shultz & Wang, 2011; Wang & Shultz, 2010). Na aposentadoria como processo de ajuste são investigadas as alternativas criadas pelos aposentados para tentarem se acostumar com as mudanças de vida na transição do trabalho para a aposentadoria e com o alcance do conforto psicológico nessa etapa (Shultz & Wang, 2011; van Solinge & Henkens, 2008; Wang, 2007).
Nos estudos da aposentadoria como um estágio do desenvolvimento de carreira é reconhecido o potencial de continuidade da carreira na aposentadoria (Shultz, 2003), o que supõe reconhecer os aspectos relacionados com a eficácia em manter e prosseguir o crescimento e a renovação das habilidades nessa etapa (Shultz & Wang, 2011). A aposentadoria, como parte da gestão de recursos humanos, não só promove a influência das políticas e das práticas organizacionais no planejamento individual e nas decisões de aposentadoria do funcionário, mas também facilita o exame das mudanças causadas por ações que preparem para a aposentadoria, tais como os incentivos para o desligamento antecipado e a oferta de redução e flexibilidade de horário (Kim & Feldman, 1998).
No presente estudo, desenvolvido sob a ótica da Psicologia, para a compreensão dos aspectos relacionados à aposentadoria, foram considerados tanto os conceitos da psicologia do desenvolvimento (papéis que o indivíduo desempenha no decorrer do ciclo de vida: trabalho, estudo, família, tempo livre e comunidade) quanto da psicologia organizacional e do trabalho (antecedentes e consequentes da tomada de decisão da aposentadoria considerando a vida pregressa de trabalho). Para compreender quais fatores influenciam a decisão e a satisfação de vida na aposentadoria considerada duas abordagens teóricas sobre o fenômeno, as quais são citadas por Wang e Shultz (2010) de maneira interligada: a
aposentadoria como um processo de ajuste (ajuste representado pela satisfação de vida) e a aposentadoria como tomada de decisão.
1.2.1 Aposentadoria como um processo de Ajuste
Na concepção da aposentadoria como ajuste são investigadas as características do processo de transição incorporadas na decisão de aposentadoria, fornecendo uma abordagem psicológica mais ampla e dinâmica, a qual busca compreender, tanto a fase de transição do trabalho para a aposentadoria, quanto à trajetória de desenvolvimento individual na pós-aposentadoria (Shultz & Wang, 2011, van Solinge & Henkens, 2008; Wang et al., 2009). De acordo com essa visão, a decisão de se aposentar pode ser a mesma, mas os fatores influenciadores, a preparação prévia, os recursos associados com a decisão e a situação após a aposentadoria podem variar.
Ao conceituar a aposentadoria como um processo de ajuste, é natural para os pesquisadores conduzirem suas investigações, contando com referenciais teóricos que sejam capazes de descrever o processo de ajuste longitudinal, informando os antecedentes e os resultados deste processo (Wang & Schultz, 2010). Internacionalmente, a maior parte dos estudos sobre aposentadoria como um processo de ajuste tem sido realizado sob uma perspectiva longitudinal e quantitativa. Entretanto, segundo Van Solinge (2013), apesar dos estudos longitudinais e quantitativos serem mais adequados para investigar o processo da aposentadoria, a realização de estudos transversais pode contribuir com a investigação de aspectos específicos da transição em si. Entretanto, mesmo nos estudos transversais, não se deve perder o foco da caracterização do processo, considerando os antecedentes e os resultados.
Segundo Wang e Shultz (2010), três linhas teóricas têm sido utilizadas por pesquisadores nos estudos que compreendem a aposentadoria como processo de ajuste: a perspectiva do curso de vida (Elder, 1996), a teoria da continuidade (Atchley, 1989) e a teoria do papel (Ashforth, 2001). A seguir será apresentada cada uma dessas perspectivas teóricas.
Na perspectiva do curso de vida, os estágios do ciclo de vida (infância, adolescência, fase adulta e velhice) são considerados nos seus aspectos temporais, contextuais e processuais como uma das formas de compreender as mudanças que ocorrem no desenvolvimento humano. Sob essa ótica, as pessoas são vistas como agentes ativos de mudança, capazes de adquirirem significados próprios do seu contexto histórico e das experiências de outros, fazendo escolhas baseadas nas experiências