UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
FACULDADE DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO, ATUÁRIA E CONTABILIDADE DEPARTAMENTO DE ADMINISTRAÇÃO
CURSO DE ADMINISTRAÇÃO
FRANCISCO EDSON COÊLHO AZEVEDO
A PARTICIPAÇÃO FEMININA NO PROGRAMA MICROEMPREENDEDOR INDIVIDUAL: UMA ANÁLISE EM UM POSTO DE ATENDIMENTO SEBRAE
FORTALEZA 2019
FRANCISCO EDSON COÊLHO AZEVEDO
A PARTICIPAÇÃO FEMININA NO PROGRAMA MICROEMPREENDEDOR INDIVIDUAL: UMA ANÁLISE EM UM POSTO DE ATENDIMENTO SEBRAE
Monografia apresentada ao Curso de Administração do Departamento de Administração da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Administração.
Orientadora: Profa. Dra. Kilvia Souza Ferreira.
FORTALEZA 2019
A987p Azevedo, Francisco Edson Coêlho.
A participação feminina no Programa Microempreendedor Individual : uma análise em um posto de atendimento Sebrae / Francisco Edson Coêlho Azevedo. – 2019.
80 f. : il. color.
Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade, Curso de Administração, Fortaleza, 2019.
Orientação: Profa. Dra. Kilvia Souza Ferreira.
1. Empreendedorismo. 2. Microempreendedor Individual. 3. Mulher empreendedora. I. Título. CDD 658
FRANCISCO EDSON COÊLHO AZEVEDO
A PARTICIPAÇÃO FEMININA NO PROGRAMA MICROEMPREENDEDOR INDIVIDUAL: UMA ANÁLISE EM UM POSTO DE ATENDIMENTO SEBRAE
Monografia apresentada ao Curso de Administração do Departamento de Administração da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Administração.
Aprovada em: ___/___/______.
BANCA EXAMINADORA
________________________________________ Profa. Dra. Kilvia Souza Ferreira (Orientadora)
Universidade Federal do Ceará (UFC)
_________________________________________ Profa. Dra. Márcia Zabdiele Moreira
Universidade Federal do Ceará (UFC)
_________________________________________ Prof. Dr. André Vasconcelos Ferreira
À minha vó, Maria da Luz, responsável por iluminar os meus passos.
AGRADECIMENTOS
Sou grato à minha família que, mesmo não sabendo o motivo por qual passava horas a escrever, me apoiou e ofereceu todo o conforto necessário para que pudesse avançar nos estudos e, sobretudo, na vida.
Às mulheres que me inspiram a continuar crescendo: Maria da Luz e Lucivanda Coêlho, as quais cumprem o papel de mães com ternura e amor, mesmo em meio à simplicidade. Sem vocês seria dificultoso trilhar os caminhos que escolhi para o alcance dos meus sonhos.
Às mulheres que me ofereceram uma segunda família: Conceição Oliveira e Carine Oliveira, as quais, com os conselhos, críticas, elogios e companheirismo moldaram o meu caráter e me fizeram ver novas oportunidades e caminhos a serem percorridos. Muito obrigado por terem me ajudado e me motivado nos momentos em que mais precisei.
Às mulheres que me proporcionaram a execução deste trabalho: Raimunda Alves e a todas as entrevistadas, as quais, conscientizando-se da importância da pesquisa, se dispuseram e disponibilizaram um tempo – precioso – para que este trabalho fosse possível.
À mulher que me orientou e guiou para a conclusão do trabalho: Kilvia Souza. Sem seu empenho, colocações, sugestões e críticas valiosas este trabalho não teria sido executado.
Aos professores participantes da banca examinadora Márcia Zabdiele e André Vasconcelos pelo tempo, pelas valiosas colaborações e sugestões.
A todos os meus amigos que, ciente do tempo que deveria dispor para a confecção desta monografia, entenderam meus momentos de ausência e me apoiaram na medida do possível.
A todos que, de alguma forma, contribuíram de maneira direta ou indireta para a conclusão deste trabalho. Meu muito obrigado!
“Foi pelo trabalho que a mulher cobriu em grande parte a distância que a separava do homem; só o trabalho pode assegurar-lhe uma liberdade concreta (BEAUVOIR, 1967, p. 449).”
RESUMO
O empreendedorismo feminino apresenta-se como um campo de conhecimento em ascensão, procurando conhecer as maneiras de gerir e as principais atividades assumidas pelas mulheres. Abordando a inserção feminina através do Programa Microempreendedor Individual (MEI), o presente trabalho objetivou caracterizar e analisar tal participação, no intuito de traçar-se um perfil da mulher formalizada. Para tanto, realizou-se uma pesquisa bibliográfica, a qual possibilitou um maior conhecimento de conceitos relacionados às especificidades do gênero feminino no mercado laboral, bem como a análise da Lei 128/2008, a qual ofereceu subsídios para o entendimento dos requisitos, características e benefícios da pessoa formalizada. Empreendeu-se uma pesquisa de campo em um Posto de Atendimento Sebrae, local esse conhecido pelo grande fluxo de microempreendedores. Tendo como público-alvo mulheres que se encontravam formalizadas como MEIs, as entrevistas foram auxiliadas por um formulário, o qual foi capaz de coletar os dados necessários para os propósitos do estudo, tendo sido aplicado com 33 mulheres. Através da utilização de técnicas quanti-qualis, foi possível o alcance da configuração feminina como participante do Programa MEI, destacando-se as seguintes conclusões: socio demograficamente, as mulheres consultadas apresentam, de maneira geral, características já observadas em outros estudos. Tratando exclusivamente de informações relativas à modalidade de formalização tema desta pesquisa, constatou-se que o perfil da mulher pouco diverge do Perfil Geral do Microempreendedor, no entanto apresenta características adicionais quando se privilegia o componente feminino, tais como uma maior informalidade da mulher antes de registrar-se e os benefícios previdenciários como fortes motivadores para a inscrição da mulher no programa MEI. Considerando os motivos e barreiras para atuarem como microempreendedoras em tal programa, percebeu-se o forte desejo por independência, tendo como aspecto negativo a multiplicidade de papéis sociais: esposa, mãe e dona de um negócio.
Palavras-chave: Empreendedorismo. Microempreendedor Individual. Mulher empreendedora.
ABSTRACT
Female entrepreneurship presents itself as a field of knowledge on the rise, seeking to know the ways of managing and the main activities undertaken by women. Approaching the female insertion through the Individual Micro-entrepreneur Program (MEI), the present work aimed to characterize and analyze this participation, in order to draw a profile of the formalized woman. To do so, a bibliographical research was carried out, which enabled a greater knowledge of concepts related to the specificities of the female gender in the labor market, as well as the analysis of Law 128/2008, which offered subsidies for the understanding of the requirements, characteristics and benefits of the formalized person. A field research was carried out at a Sebrae’s service station, a place known for the presence of many micro-entrepreneurs. The research had as a target audience, women who were formalized as MEIs, the interviews were aided by a form, which was able to collect the necessary data for the purposes of the study, and was applied in 33 women. Using quanti-qualis techniques, it was possible to reach the female configuration as a participant in the MEI Program, highlighting the following conclusions: socio demographically, the women consulted present, in a general way, characteristics already observed in other studies. Only dealing with information related to the formalization modality theme of this research, it was verified that the profile of the woman slightly diverges from the General Profile of the Micro-entrepreneur, however presents additional characteristics when the female component is favored, such as a greater informality of the woman before registration and social security benefits as strong motivators for the enrollment of women in the MEI program. Considering the reasons and barriers to act as micro-entrepreneurs in such a program, the strong desire for independence was perceived, having as negative aspect the multiplicity of social roles: wife, mother and businesswoman.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 − Estrutura de descrição do surgimento de um novo empreendimento... 25 Figura 2 − Motivações das microempreendedoras individuais... 65
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 − Faixa etária das microempreendedoras individuais... 52
Gráfico 2 − Estado civil das microempreendedoras individuais... 52
Gráfico 3 − Lucro da atividade – MEI... 53
Gráfico 4 − Escolaridade das microempreendedoras individuais... 54
Gráfico 5 − Tempo de formalização... 55
Gráfico 6 − Atividades desempenhadas pelas MEIs... 56
Gráfico 7 − Local de funcionamento do negócio... 57
Gráfico 8 − Ocupação antes da formalização... 57
Gráfico 9 − Tempo na informalidade... 58
Gráfico 10 − Formalização e aumento do número de vendas... 59
Gráfico 11 − Relação fornecedor e MEI... 60
Gráfico 12 − Empréstimos... 60
Gráfico 13 − MEI e renda complementar... 61
Gráfico 14 − Motivo para formalização... 62
Gráfico 15 − Auxílio na formalização... 63
Gráfico 16 − Nota de recomendação MEI... 64
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 − As três principais correntes de pesquisa do empreendedorismo... 22 Quadro 2 − Perfil da mulher empreendedora... 38
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
Abase Associação Brasileira dos SEBRAE/Estaduais
CCMEI Certificado de Condição de Microempreendedor Individual CF Constituição Federal
CNAE Cadastro Nacional de Atividades Econômicas CNPC Cadastro Nacional de Peritos Contábeis CNPJ Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica
Cofins Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social CPP Contribuição para a Seguridade Social da pessoa jurídica DAS Documente de Arrecadação do Simples Nacional
GEM Global Entrepreunership Monitor
IBAMA Instituto Brasileiro de Amparo ao Meio Ambiente IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBQP Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade ICMS Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços ILO International Labor Organization
INMETRO Instituto Brasileiro de Metrologia, Qualidade e Tecnologia INSS Instituto Nacional do Seguro Social
IPI Imposto sobre Produtos Industrializados IRPJ Imposto de Renda Pessoa Jurídica ISS Imposto Sobre Serviço
LC Lei Complementar
MEI Microempreendedor Individual MTE Ministério do Trabalho e Emprego
PASEP Programa de Formação do Patrimônio do Servidor PEA População Economicamente Ativa
PEC Proposta de Emenda Constitucional PIS Programa de Integração Social
PNAD Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
LISTA DE SÍMBOLOS
R$ Real
% Porcentagem § Parágrafo
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 17
2 O EMPREENDEDORISMO... 20
2.1 Breve evolução histórica do termo... 20
2.2 Linhas de pensamento do empreendedorismo... 22
2.2.1 Economistas ... 23
2.2.2 Comportamentalistas ... 24
2.2.3 Estudos gerenciais ... 24
2.3 Definições e perspectivas atuais ... 26
3 BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DA CONDIÇÃO FEMININA NO TRABALHO ... 27
3.1 Desempenho da mulher no mercado de trabalho - conjuntura global e nacional ... 29
3.2 Problemas enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho ... 32
4 A MULHER EMPREENDEDORA... 33
4.1 Perfil da mulher empreendedora... 33
4.2 Motivações para empreender... 35
4.3 Conflitos e dificuldades da mulher empreendedora... 36
5 LEIS DE INCENTIVO AO MICROEMPREENDEDOR INDIVIDUAL E O PROGRAMA MEI... 39
5.1 Breve panorama do surgimento e evolução histórica da legislação do MEI 40 5.2 A Lei 128/2008 e o Microempreendedor Individual... 41
5.2.1 Comodidades e benefícios da lei... 44
5.2.1.1 Benefícios previdenciários... 44 5.2.1.1.1 Para o optante... 45 5.2.1.1.2 Para os dependentes... 45 5.2.1.2 Benefícios tributários... 45 5.2.1.3 Benefícios creditícios... 45 5.2.1.4 Benefícios auxiliares... 46 6 METODOLOGIA... 47 6.1 Classificação do estudo... 47 6.2 Ambiente estudado... 49
6.3 Amostragem... 49
6.4 Instrumentos para coleta de dados... 50
7 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS... 51
7.1 Perfil sociodemográfico... 51
7.2 Participação feminina no Programa Microempreendedor Individual... 55
7.3 Motivações para empreender e desafios encontrados... 65
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 67
REFERÊNCIAS ... 69
APÊNDICE A – INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS ... 77
1 INTRODUÇÃO
O empreendedorismo tem sido constantemente objeto de debates e variados estudos. Pesquisadores ao redor do mundo têm se esforçado em avaliar o perfil, características, bem como as razões por que homens e mulheres decidem criar um empreendimento. Como consequência do interessante incremento de empresas criadas e geridas por mulheres, as atenções se voltam para um segmento particular dentro do estudo do empreendedorismo: o empreendedorismo feminino (CASSOL; SILVEIRA; HOELTGEBAUM, 2007). Consoante ao aumento do interesse por esse campo de estudo, o número de mulheres empreendedoras no Brasil, conforme dados da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), subiu de 16,2% em 2010 (GRECO et al, 2010) para 35,0% (IBQP, 2017).
Um importante incentivador de tal resultado pode estar atrelado ao Programa Microempreendedor Individual (MEI), ferramenta do Governo Federal que atua no sentido de reduzir a informalidade no Brasil. Sob a forma da Lei 128/2008, o regulamento faz parte de um esforço do Estado em incentivar a criação de empresas formais e o incentivo à criação de empregos baseados na formalidade (CORSEUIL; NERI; ULYSSEA, 2014). Conforme Sebrae (2017), o programa tem sido responsável por um grande e importante fenômeno para o empreendedorismo brasileiro, obtendo desde julho de 2009 até dezembro de 2016 o total de 6.649.896 pessoas formalizadas, representando uma média de quase 1 milhão de registros por ano.
Analisando o perfil do empreendedor MEI, o Sebrae (2017) constatou que, do total de registros realizados no Brasil, 47,6% deles pertenciam ao gênero feminino, o que representa aproximadamente, em números absolutos, 3.165.351 mulheres formalizadas, sendo maioria em atividades industriais (55%), serviços (52%) e comércio (51%).
Abordando números locais, o município de Fortaleza, conforme o Portal do Empreendedor (2019a), possui o total de 107.503 indivíduos formalizados como Microempreendedor Individual dos quais, segundo apurado por Diário do Nordeste (2019), aproximadamente 55.000 são do sexo feminino. Ainda conforme o periódico, as mulheres procuram concentrar sua participação no comércio varejista de artigos do vestuário e acessórios e serviços de cabeleireiros.
Conforme observado, os números sugerem um comportamento positivo das mulheres no que tange à sua participação no Programa Microempreendedor Individual. No entanto, apesar do cenário aqui disposto, há uma escassez de trabalhos que se esforçam em conhecer o perfil, características, motivações e dificuldades da mulher em tal programa. Os
poucos trabalhos encontrados possuem em seu conteúdo apenas análises dos relatórios produzidos pelo Sebrae, ou que abordam setores específicos da economia. Dessa forma, torna-se interessante o surgimento de pesquisas que objetivem um contato maior e mais amplo com o público feminino.
Avaliando esse cenário, questiona-se: como se dá a participação feminina no Programa Microempreendedor Individual?
Diante de tal indagação, estabelece-se como objetivo geral desta pesquisa: analisar e caracterizar a participação feminina no Programa Microempreendedor Individual, tendo como base de estudo um Posto Sebrae de Atendimento. Quanto aos objetivos específicos a serem perseguidos, tem-se: verificar a inserção e o protagonismo feminino na atitude empreendedora; avaliar os aspectos legais para a formalização do Microempreendedor Individual; analisar o perfil sociodemográfico da mulher formalizada, sua área de atuação e outras informações pertinentes ao Programa Microempreendedor Individual; e avaliar as motivações e desafios percebidos por parte das mulheres formalizadas.
Tendo os objetivos elencados acima como princípios norteadores, realizou-se uma pesquisa que busca apreender informações relativas à participação feminina dentro do Programa MEI, utilizando de análises tanto quantitativas (avaliando frequência absoluta e porcentagens), bem como qualitativas (através da análise do discurso, linguagem corporal e comportamentos no momento da entrevista). Aliado à pesquisa documental, o presente estudo realizou uma pesquisa com mulheres atendidas por um posto do Sebrae, as quais responderam um formulário com perguntas relacionadas ao seu perfil pessoal e relativos ao referido programa. Maiores detalhes da pesquisa serão apresentados posteriormente, em uma seção própria desta monografia.
O presente trabalho divide-se em cinco seções. A primeira delas trata-se desta Introdução, a qual é responsável por realizar uma contextualização do tema a ser pesquisado, apresentar os objetivos gerais e específicos, o resumo metodológico empregado bem como a organização e estruturação do trabalho. A segunda seção será responsável por destrinchar todos os conceitos pertinentes ao tema. O Referencial Teórico possui o total de quatro tópicos os quais serão responsáveis por discorrer sobre tais conceitos. A terceira seção fica a cargo da Metodologia, a qual conferirá melhor detalhamento aos instrumentos e mecanismos utilizados para a coleta de dados. A quarta seção é a Análise dos Dados, a qual irá discorrer sobre os achados da pesquisa e das informações obtidas com o público. A quinta e última seção será as Considerações Finais, a qual realizará o fechamento da presente pesquisa.
Ao final do trabalho são apresentadas as fontes e as referências consultadas para a elaboração deste estudo e, a seguir, o material que foi utilizado para que fosse possível a coleta dos dados e demais informações, bem como a declaração de anuência do responsável pelo local em que a pesquisa foi desenvolvida, o qual tomou ciência da temática a ser abordada, conferindo respaldo e autorização para que o autor pudesse realizar a sua aplicação.
2 O EMPREENDEDORISMO
Atualmente o empreendedorismo tem sido um tema amplamente discutido pelos inúmeros atores que compõem a sociedade. É significativa a quantidade e a qualidade de trabalhos e pesquisas acadêmicas sobre o assunto, bem como as políticas públicas criadas para o seu incentivo. O mundo dos negócios já o conhecia de longa data, no entanto, acompanhá-lo se torna necessário para a identificação de oportunidades e melhorias que seu conceito pode proporcionar. Para os propósitos desta pesquisa, faz-se necessária uma breve contextualização histórica do desenvolvimento de seu conceito e de sua caracterização durante o passar dos anos.
2.1 Breve evolução histórica do termo
Abordando uma perspectiva etimológica, Landström (2005, apud FRANCO; GOUVÊA, 2016) esclarece que o termo empreendedor deriva do francês entrepreuner, tendo sido documentado pela primeira vez no ano de 1437, sendo designado para aquele que se compromete com algo, assumindo riscos e iniciando algo novo (DORNELAS, 2001). Não há, atualmente, um denominador comum quando a questão é a definição da palavra, porém, observando a tradução literal do termo em sua língua materna, tem-se o significado de estar no meio, ser intermediário (HISRICH; PETERS, 2002; BARON; SHANE, 2007).
Conforme afirma Dornelas (2001) o primeiro exemplo de empreendedor que se tem registro foi o mercador veneziano Marco Polo. O autor conta que, ao firmar contrato de financiamento com certos indivíduos para a venda de suas mercadorias, o mercador assumia os riscos físicos e emocionais da empreitada, responsabilizando-se, assim, por eventuais adversidades.
Na Idade Média, conforme explicado por Hisrich e Peters (2002), a figura do empreendedor era caracterizada como a de um indivíduo que atuava somente administrando recursos financeiros, geralmente governamentais, para a execução de projetos arquitetônicos. Por apenas operar no gerenciamento de ativos não lhe cabia, na época, a atribuição de riscos.
A ideia de risco e empreendedorismo começou a tomar forma apenas no século XVII, sobretudo nos contratos pactuados pela relação empreendedor-governo, nos quais este atribuía valores fixos para a execução de projetos, responsabilizando aquele pelo eventual ônus ou bônus do negócio. O século seguinte, marcado pela revolução industrial, ficou caracterizado como o período em que houve a clara distinção entre os indivíduos que cediam
capital - o capitalista da época, hoje conhecido como investidor de risco - e o indivíduo que precisava de capital - o empreendedor (HISRICH; PETERS, 2002).
Chiavenato (2007), no entanto, opta por defender que o termo surgiu em um período mais recente, entre os séculos XVIII e XIX, a partir das reflexões de pensadores econômicos liberais da época. Tais economistas, conforme explicado pelo autor, defendiam que as forças livres do mercado e da concorrência eram reflexos da ação da economia.
O pioneirismo dos estudos em empreendedorismo é creditado ao economista franco-irlandês Richard Cantillon, o qual desenvolveu uma das primeiras teorias sobre o empreendedor (FILION, 1999; HISRICH; PETERS, 2002; LANDSTRÖM, 2004). Para Cantillon, a ideia de correr riscos fazia parte da essência da ação empreendedora, pois observou que comerciantes, fazendeiros e outros proprietários individuais compravam a preços certos e vendiam a preços incertos, operando com risco (HISRICH; PETERS, 2002; STEVENSON; JARILLO, 1990). De maneira resumida, o empreendedor assume riscos e pode, de maneira legítima, se apropriar dos eventuais benefícios e lucros (BRUYAT; JULIEN, 2000).
Outro importante autor a contribuir nos passos iniciais da formação do empreendedorismo como campo de pesquisa foi o francês Jean-Baptiste Say (LANDSTRÖM, 2004), o qual defendia que o desenvolvimento econômico era propiciado pela criação de novos empreendimentos (FILION, 1999) e que o papel do empreendedor se distinguia do capitalista, pois assume riscos e incertezas (BRUYAT; JULIEN, 2000).
Tecendo um paralelo entre os pensamentos e ideias dos percursores do conhecimento sobre o empreendedor, percebe-se que a ideia de risco está intrinsicamente relacionada à sua ação, uma vez que opera com a esperança de obter resultados favoráveis.
Apesar das tratativas e discussões iniciais, somente a partir das décadas de 1970 e 1980 os esforços em pesquisas e estudos sobre o tema emergiram de forma significativa. Tal movimento se justifica tanto por fatores externos, a respeito de políticas públicas (FRANCO; GOUVÊA, 2016), como pela atmosfera de mudanças tecnológicas ocorridas na época.
Analisando a perspectiva histórica aqui explanada, percebe-se uma clara inclinação econômica nas diferentes épocas em que se tentou descrever a atuação do empreendedor. No entanto, sobretudo a partir dos anos 1980, o campo de estudo do empreendedorismo passou a expandir-se e espalhar-se para diversas disciplinas, com destaque para as ciências comportamentais e gerenciais (FILION, 1999).
O detalhamento das linhas de pensamento do empreendedorismo será explorado no tópico a seguir.
2.2 Linhas de pensamento do empreendedorismo
Como explicado anteriormente, não é tarefa fácil a eleição de um conceito fechado que possa definir e delimitar o campo de estudo do empreendedorismo. Analisando a vasta produção literária acerca do assunto, Filion (1999) relata que os pesquisadores tendem a descrever o empreendedor de acordo com as premissas de suas próprias disciplinas, ocasionando diferentes pontos de vista sobre o que vem a ser o empreendedor, tornando o assunto mais amplo e multidisciplinar.
Franco e Gouvêa (2016) veem essa confluência de áreas em torno do termo com bons olhos, atentando para a colaboração do aperfeiçoamento constante do campo e a consequente atração de pesquisadores e futuros estudos em diversas áreas do conhecimento.
Os autores Stevenson e Jarillo (1990), visando facilitar o processo de análise dos futuros estudos, dividem as abordagens do empreendedorismo em três grandes categorias, as quais podem ser ilustrados conforme Quadro 1 abaixo:
Quadro 1 – As três principais correntes de pesquisa do empreendedorismo
Categoria Definição
O que acontece quando o empreendedor age (what)?
Concentra-se nos resultados da ação empreendedora, e não apenas no empreendedor ou em suas ações. Trata-se do ponto de vista dos economistas.
Por que o empreendedor age (why)?
Abordagem composta por psicólogos e sociólogos, possui ênfase no empreendedor como indivíduo, analisa o ambiente em que atua, seus objetivos, experiências, valores e motivações. Conta como expoente os comportamentalistas McClelland, Collins e Moore.
Como o empreendedor age (how)?
Concentra-se em analisar as características gerenciais do empreendedorismo, buscando avaliar como os indivíduos, independentemente de razões pessoais ou ambientais, estão dispostos a alcançar seus objetivos.
Fonte: Stevenson e Jarillo (1990, p. 18, tradução nossa).
Por possuir o caráter plural e multidisciplinar, sendo seu estudo comum a inúmeros campos científicos, conforme observado no quadro acima, antes de se buscar uma definição consensual, é mister analisar as diferentes definições das principais correntes, visando observar o significado apresentado por cada uma delas. No entanto, para os efeitos da presente pesquisa, optou-se por abordar apenas os autores expoentes de cada área, os quais contribuíram de maneira substancial para o entendimento do tema em questão.
2.2.1 Economistas
Conforme explorado em tópico anterior, Cantillon e Say foram os primeiros autores a estudar o empreendedorismo e conhecer as suas implicações para o desenvolvimento econômico. Dessa forma, as ideias surgidas a partir deles, como a noção de atuação sob risco e a incerteza, tornaram-se base para pesquisadores como Schumpeter e Kirzner.
Conforme defende Filion (1999), o economista Joseph Alois Schumpeter foi o primeiro autor a introduzir o campo do empreendedorismo, relacionando-o à inovação. Sobre isso, escreve
A essência do empreendedorismo está na percepção e no aproveitamento das novas oportunidades no âmbito dos negócios (...) sempre tem a ver com criar uma nova forma de uso dos recursos nacionais, em que eles sejam deslocados de seu emprego tradicional a novas combinações (FILION, 1999, p. 07).
Oferecendo um ponto de vista mais detalhado e oferecendo uma visão mais específica acerca do tema, Schumpeter considera o empreendedorismo como o processo pelo qual toda a economia se desenvolve (STEVENSON; JARILLO, 1990; FILION, 1999). Para ele, o produtor (leia-se aqui empreendedor), inicia o ciclo de mudança econômica, cabendo aos consumidores educarem-se ao novo ambiente e desejarem novas coisas (SCHUMPETER, 1997).
Devido à capacidade de inserir novas configurações ao mercado, inovando através da introdução de novos produtos, métodos de produção, mercados, ou a melhoria de um produto ou método já existente, Schumpeter acreditava que o empreendedor possuía a tendência de desestabilizar o equilíbrio econômico, fato denominado pela literatura como “destruição criadora” (LANDSTRÖM, 2004; STEVENSON; JARILLO, 1990; BRUYAT; JULIEN, 2000).
A visão do desequilíbrio econômico preconizada por Schumpeter é confrontada pelo economista Israel Kirzner, importante pesquisador austríaco. O autor concebia que a ação empreendedora, ao invés de alterar a dinâmica econômica, era responsável por estabelecer equilíbrio, uma vez que ao observar imperfeições, o empreendedor procurava constantemente desenvolver recursos mais eficientes para contorná-las (LANDSTRÖM, 2004; STEVENSON; JARILLO, 1990). Tal capacidade advém do seu conhecimento apurado em descobrir pontos de melhoria (LANDSTRÖM, 2004) e oportunidades no mercado (FILION, 1999).
Apesar das divergências apresentadas, a imagem do empreendedor vista sob o prisma econômico é a de um indivíduo que, ciente dos riscos incorridos durante o processo,
desenvolve a economia através da inserção de combinações inovadoras e visualização de oportunidades percebidas no mercado.
2.2.2 Comportamentalistas
De acordo com as linhas de pesquisa estabelecida pelos indivíduos integrantes dessa abordagem, o empreendedor é impulsionado por certas forças - necessidade de alcançar objetivos e metas, realização, entre outros (HISRICH; PETERS, 2002). Dessa forma, a abordagem procura conhecer o empreendedor e as motivações pelas quais ele decide empreender.
O pesquisador mais conhecido entre os comportamentalistas é o americano David McClelland, sendo o primeiro indivíduo a estabelecer certa relação entre a ciência behaviorista e o campo do empreendedorismo (LANDSTRÖM, 2004). McClelland foi o precursor da ideia de que o comportamento empreendedor dependia de motivações pessoais, as quais, por sua vez, dependiam das características ambientais – o ambiente como motivador (STEVENSON; JARILLO, 1990).
O americano acreditava que o desejo, quando controlado pela razão, transformava-se em força realizadora (BAGGIO; BAGGIO, 2014). Para ele, o desenvolvimento social, econômico e a criação de novos empreendimentos dependem de indivíduos que possuem necessidade de realização, característica atribuída por ele aos empreendedores (FILION, 1999; CHIAVENATO, 2007). Estabelecendo uma relação, pode-se dizer, assim, que a motivação para ação empreendedora é proveniente de certa necessidade de realizar-se do indivíduo.
Ao lado de McClelland surgiram nomes como o de Collins e Moore, os quais concentraram suas pesquisas em conhecer o perfil do empreendedor. Conforme atesta Landström (2004), os autores perceberam que os indivíduos que decidiam empreender imaginavam-se presos pelo sistema hierárquico tradicional e ansiavam por libertar-se dele. Trata-se de um desejo por independência (STEVENSON; JARILLO, 1990).
2.2.3 Estudos gerenciais
De acordo com Stevenson e Jarillo (1990), os estudiosos dessa abordagem procuram explicar o modus operandi do empreendedor, observando, assim, seu comportamento gerencial.
As pesquisas dessa corrente, conforme atestado por Bruyat e Julien (2000), estão divididas em duas tendências que se apresentam, na comunidade científica, opostas uma à outra. A primeira delas considera o empreendedor a pessoa que cria e desenvolve novos negócios, não importando sua natureza, enquanto a outra defende que o empreendedor é um ser inovador, o qual se apresenta como indivíduo capaz de alterar a dinamicidade de economia de alguma forma.
No tocante ao estudo da criação de novos empreendimentos, Gartner (1985) descreve quais são as variáveis envolvidas em seu processo (FIGURA 1). Para ele, a criação de um novo negócio é formada pelo indivíduo envolvido na criação (individual); o tipo de organização a ser criada (organization); a configuração da conjuntura ambiental, a qual interage com o novo empreendimento (environment); e as ações realizadas para se iniciar o novo negócio (process).
Figura 1 – Estrutura de descrição do surgimento de um novo empreendimento.
Fonte: Gartner (1985, p. 698).
Dentro do processo de criação de novos empreendimentos, alguns autores enfatizaram a existência das oportunidades como elemento capaz de impulsionar a ação empreendedora. Definindo o empreendedorismo, Venkataraman (1997, p. 120, tradução nossa) define: “o empreendedorismo como campo acadêmico busca entender como as oportunidades para trazer à existência bens e serviços “futuros” são descobertas, criadas, exploradas, por quem, e com quais consequências1”. Shane e Venkataraman (2000, p. 218, tradução nossa) complementam: “consequentemente, o campo envolve o estudo das fontes de
1 […] entrepreneurship as a scholarly field seeks to understand how opportunities to bring into existence “future” goods and services are discovered, created, and exploited, by whom, and what consequences.
oportunidade; seu processo de descobrimento, avaliação e exploração; bem como o conjunto de indivíduos que as descobrem, avaliam e as exploram2”.
Levando-se em consideração as diferentes perspectivas tratadas pelos autores, a abordagem do ponto de vista gerencial pode ser visualizada como aquela que se concentra em entender a maneira como os empreendedores materializam sua intenção, criando novos empreendimentos, produtos e serviços para disponibilizá-los no mercado. No entanto, anteriormente a essa materialização, o indivíduo visualiza condições ambientais favoráveis para agir ativamente no mercado, observando as oportunidades em seu entorno.
2.3 Definições e perspectivas atuais
Objetivando maior clareza para o desenvolver da presente pesquisa, optou-se por oferecer um conjunto de definições recentes acerca do que é o empreendedorismo e a figura do empreendedor.
Avaliando as diferentes abordagens trabalhadas em tópicos anteriores, Hisrich e Peters (2002) reúnem as noções que as tornam comuns entre si, tais como a inovação, organização, criação, riqueza e risco. No entanto, ao notar certa restrição entre elas para a criação de uma definição mais objetiva, definem a sua ideia de empreendedorismo como
Empreendedorismo é o processo de criar algo novo com valor dedicando o tempo e o esforço necessários, assumindo os riscos financeiros, psíquicos e sociais correspondentes e recebendo as consequentes recompensas da satisfação e independência econômica e pessoal (HISRICH; PETERS, 2002, p. 29).
Estudando as diversas significações dadas ao empreendedor, Filion (1990, p. 19), através de recortes, lança a sua definição sobre o empreendedor:
O empreendedor é uma pessoa criativa marcada pela capacidade de estabelecer e atingir objetivos, e que mantém alto nível de consciência do ambiente em que vive, usando-a para detectar oportunidades de negócios. Um empreendedor é uma pessoa que imagina, desenvolve e realiza visões.
Colaborando com a ideia do autor, Chiavenato (2007) acrescenta que o empreendedor é um indivíduo dotado de sensibilidade para os negócios, possuindo habilidades financeiras e capacidade de identificar as oportunidades, sendo, assim, capaz de fazer as coisas acontecerem.
2 Consequently, the field involves the study of sources of opportunities; the process of discovery, evaluation, and exploitation of opportunities; and the set of individuals who discover, evaluate, and exploit them.
Realizando um comparativo entre diversas definições, o escritor brasileiro Dornelas (2001) pontua os seguintes aspectos referentes ao empreendedor: possuem iniciativa para a criação de novos negócios, tendo paixão pelo que fazem; utilizam recursos à sua disposição com criatividade para transformar o seu entorno; e aceita assumir os riscos e a possibilidade de fracassar.
3 BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DA CONDIÇÃO FEMININA NO TRABALHO
A caracterização de qualquer objeto de estudo se torna mais clara e completa à medida que se realiza uma exploração dos acontecimentos e circunstâncias que o levaram a apresentar as configurações e estados atuais. No caso da figura feminina, tal constatação apresenta notável validade, uma vez que, através de sua trajetória, é capaz de descrever, significar e apresentar as razões de sua condição e seu papel na sociedade contemporânea.
Historicamente, quando comparadas ao sexo oposto, as mulheres sempre atuaram em pé de desigualdade e desvantagem. No entanto, apesar do que se convencionou pensar durante muito tempo, as mulheres, principalmente as que ocupavam as camadas mais inferiores da sociedade, nunca foram alheias ao trabalho, pois se faziam presentes nas atividades de subsistência da família e na criação de riqueza social. As atividades desempenhadas por elas eram variadas: exerciam função importante no campo e na manufatura, atuavam no comércio, nas minas, teciam e fiavam, entre outras tarefas (SAFFIOTI, 1976).
Tratando da unidade familiar, Burns (1955) a define como uma das mais antigas instituições humanas, a qual, dentre outras funções, caracteriza-se pela divisão de tarefas entre os indivíduos que a compunha. Dessa forma, homens e mulheres guardavam entre si relações sob a forma de papéis, os quais se externalizavam no convívio social.
Conforme tratado por Giddens (2001), as atividades realizadas no interior do lar ou em suas dependências eram levadas a cabo por todos os membros da família, sem exceção, seja nos tratos com a terra ou com o artesanato. No entanto, existia a noção de que a figura masculina e a feminina exerciam influência em diferentes ambientes da esfera social. Conforme relata, as mulheres possuíam certa representatividade quando se tratava da administração do lar, enquanto os homens, da política e da guerra. O peso relevante da atuação dos gêneros em qualquer um desses campos implicava em exclusão do outro.
Sobre esses papéis representativos, Gomes (2005) defende que as atividades externas assumidas pelos homens eram decorrentes do seu aspecto físico, visto que exigiam maior desempenho e esforço, bem como maior disposição para o enfrentamento de perigos, a
exemplo da caça e da guerra; enquanto a mulher, caracterizada pela sensibilidade e capacidade reprodutora, responsabilizava-se por atividades monótonas e sedentárias, limitando-se às atividades domésticas.
No decorrer dos anos, no entanto, apesar da predominância de algum gênero na execução de uma determinada atividade, tal demarcação de papéis não se apresentou em caráter absoluto e taxativo. Tratando do trabalho feminino, Saffioti (1976) conta que nos burgos medievais ingleses e franceses, às mulheres era permitido e considerado comum o engajamento no comércio varejista e atacadista, vindo a conquistar, no caso inglês, o monopólio da fiação têxtil. Apesar disso, a participação da mulher, seja na vida social, religiosa, laboral ou ociosa, sempre era acompanhada da tutela de um homem, marido ou não, representando certa submissão ao gênero masculino.
Todavia, sobre essa submissão, a autora esclarece
A tradição de submissão da mulher ao homem e a desigualdade de direitos entre os sexos não podem, contudo, ser vistas isoladamente. Sendo a família a unidade econômica por excelência nas sociedades pré-capitalistas, a atividade trabalho é também desempenhada pelas mulheres das camadas menos privilegiadas. Embora não se possa falar em independência econômica da mulher [...], pois o trabalho se desenvolvia no grupo familial e para ele, o mundo econômico não era estranho à mulher (SAFFIOTI, 1976, p. 08).
Desse modo, tendo o acesso facilitado pelos homens ou não, a mulher sempre se via compelida ao trabalho, devido a inúmeras necessidades que possuía, seja esse executado no seio familiar ou fora dele.
Não obstante a identificação da mulher às atividades laborais fora do ambiente doméstico, a divisão de tarefas estabelecida ainda nas sociedades primitivas marcou o início de uma rígida divisão de tarefas entre os sexos, vedando o maior acesso ao conjunto de atividades existentes na sociedade (GOMES, 2005). Esse quadro passou a ser mais evidenciado e intensificado com a Revolução Industrial.
Sobre esse período de transformações dos meios de produção e marcado pelo regime de trabalho assalariado e especializado, Giddens (2001) mostra que os gerentes das fábricas passaram a utilizar-se da mão-de-obra, sobretudo masculina, deixando as famílias de fora. Com o tempo, a divisão entre casa e local de trabalho passou a se tornar mais extrema, criando dois ambientes distintos na sociedade: o espaço público, ocupado pelo homem e compreendido pela fábrica, onde se desenvolviam os aspectos sociais e econômicos; e a esfera privada, ocupada pela mulher e baseada nos cuidados com o lar, colaborando na manutenção do sistema capitalista, o qual necessitava de trabalhadores dispostos para as atividades nas fábricas.
Por estar em contato direto com os assuntos e as informações mais relevantes da sociedade nas quais está inserido, é perfeitamente compreensivo que o homem teria maiores possibilidades e oportunidades no que tange ao mercado de trabalho (GIDDENS, 2001). Dessa forma, a proximidade do homem com a vida pública proporciona maiores vantagens, as quais, apoiadas pela imposição de tradições desenvolvidas pela sociedade, foram responsáveis por estabelecer condições desiguais entre os gêneros.
Todavia, a mesma revolução que efetuou a cisão destas duas esferas, foi a que preparou terreno para o aumento da participação feminina no mercado de trabalho. No entanto, conforme será demonstrado em tópicos posteriores, o mero aumento do número de mulheres nos postos de trabalho não indica interrupção da desigualdade verificada desde os primórdios.
3.1 Desempenho da mulher no mercado de trabalho - conjuntura global e nacional
Abordando uma perspectiva mais atual, Standing (1989) afirma que a década de 1980 pode ser classificada como o período em que se houve uma verdadeira desregulação do trabalho. Tal constatação, no ponto de vista do autor, decorre de uma verdadeira feminização do mercado de trabalho, da queda do número de empregos para os homens e da transformação de trabalhos onde antes predominava a mão-de-obra masculina.
Em termos globais, Castells (2009) afirma que no ano de 1990 as mulheres economicamente ativas somavam 854 milhões, número que representa 32,1% da força de trabalho mundial. Ainda conforme o autor, abordando o mercado de trabalho americano, o número de participantes femininas saltou de 51,1% em 1973 para 70,5% em 1994, totalizando um incremento de quase 20%.
Apoiadas pelo processo de urbanização e industrialização brasileira, observada entre os anos de 1920 e 1980, notou-se uma crescente participação feminina no mercado de trabalho. No entanto o período foi marcado por ausência de proteção social, baixas remunerações e condições precárias de trabalho para as mulheres (HASHIMOTO; SIMÕES, 2012).
O novo comportamento feminino no mercado laboral, conforme apresenta Bruschini (1994), estabeleceu-se, sobretudo, a partir dos anos 1970. Segundo a pesquisadora, a crescente deterioração dos salários dos trabalhadores fizeram as mulheres das classes menos instruídas e médias se lançarem no mercado, procurando complementar a renda familiar. Conforme explica, a expansão econômica observada no período, caracterizada por um momento de grande urbanização e ritmo de industrialização acelerado, proporcionou um
ambiente favorável à incorporação de novos funcionários, nos quais o componente feminino acabou por se inserir.
Tal inserção, ao contrário do que se possa imaginar, não se limita apenas a razões econômicas ou a oportunidades oferecidas pelo mercado, cabendo frisar também as transformações demográficas, sociais e culturais pelas quais o país vem passando desde os anos 1970, afetando todos os indivíduos das famílias brasileiras, nas quais se incluem as mulheres (BRUSCHINI, 1998).
Lindo et al (2007) colabora com as ideias pontuadas pela autora, concordando que a década de 1970 foi de vital importância para uma maior conquista da mulher no mercado de trabalho brasileiro. Analisando os dados da População Economicamente Ativa (PEA) no Brasil, do período compreendido entre os anos 1976 e 1998, os pesquisadores perceberam um incremento de 31,3 milhões de mulheres participantes, representando um acréscimo de 174% em apenas 14 anos.
Ao analisar a evolução da taxa de ocupação feminina no Brasil, Hoffman e Leone (2004) constataram que, no intervalo que compreende os anos 1981 e 2002, a participação feminina no mercado de trabalho cresceu de 32,2% para 46,4%, apresentando um acréscimo de 13,7% em pouco mais de duas décadas.
Relatórios recentes colaboram com a tendência, informando que a taxa de desocupação feminina sofreu significativas reduções quando comparadas ao sexo masculino. Dados do IBGE (2014) afirmam que, entre os anos 2004 e 2013, houve um decréscimo de 11,5% para 8,3% nas taxas de desocupação feminina no mercado de trabalho, apresentando uma queda de 3,2 pontos percentuais. Comparativamente, a taxa masculina caiu de 6,6% para 4,9%, representando queda de apenas 1,7%. Conclui-se, dessa forma, que houve maior incremento da força de trabalho feminina no período considerado.
Realizando um apanhado das informações, bem como as constatações auferidas nas últimas três décadas, é razoável concluir que a presença das mulheres no mercado de trabalho brasileiro é marcada mais pela continuidade do que por mudanças (BRUSCHINI, 1998), levando a crer que o aumento das taxas do contingente da mulher no mercado de trabalho possa se estender ainda por mais alguns anos.
Observando os motivos pelos quais as mulheres, avaliando a conjuntura ambiental e econômica proporcionados pela globalização, optaram por lançarem-se para o mundo do trabalho, Carnoy (1999) afirma que o processo é de longa data. Segundo ele, as mulheres progressivamente vêm resistindo ao papel de únicas responsáveis pela educação da prole,
passando a ter maior controle da natalidade, negando a alcunha de “donas de casa” atribuídas pela sociedade industrial, o que ainda pode ser observado nos dias atuais.
Conforme atestam Hashimoto e Simões (2012), a prorrogação ou até mesmo a desistência do sonho da maternidade, bem como a diminuição do número de filhos, foram fatores positivos para a permanência das mulheres no mercado de trabalho por mais tempo.
Além dos pontos acima observados pelos autores, sobre o aumento do número de trabalhadoras, Bruschini (1994) confere destaque às contribuições promovidas pelos movimentos feministas, os quais foram importantes formadores da consciência de gênero e condição feminina, e às maiores porcentagens de escolaridade e acesso a universidades e instituições de ensino por parte das mulheres.
O aspecto escolar é um fator interessante na comparação entre os sexos. Informações coletadas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD Contínua de 2016 constatam que, na faixa etária entre 25 a 44 anos, as mulheres superaram os homens em 37,9% quando se observa o nível educacional “superior completo”. Tal número pode ser explicado pela entrada precoce do homem no mercado de trabalho, o que facilita a interrupção de seus estudos (IBGE, 2018). A avaliação dos dados encontrados na pesquisa permite inferir que as mulheres são as que mais têm procurado a capacitação e a profissionalização através da educação formal.
Detalhando as razões que propiciaram o aumento do ingresso da mulher no mercado, Castells (2009, pp. 194,197) pondera que o incremento se deve
[...] à informatização, integração em rede e globalização da economia e [...] à segmentação do mercado de trabalho por gênero, que se aproveita de condições sociais específicas da mulher para aumentar a produtividade, o controle gerencial e, consequentemente, os lucros.
Do ponto de vista da globalização, o autor demonstra que o acréscimo do número de mulheres coincide com o crescimento do setor de serviços, sobretudo entre as décadas de 1980 e 1990. Conforme explica, considerando o número de mulheres economicamente ativas espalhadas pelo globo, a concentração do contingente no setor terciário gira em torno de 50% (CASTELLS, 2009).
Entretanto, apesar das conquistas e consequente melhoria de vida observada pelas mulheres no decorrer dos anos, perduram problemas observados desde os primórdios, os quais insistem em dificultar a melhoria do desempenho econômico feminino, visando a obtenção de uma vida digna e socialmente justa.
3.2 Problemas enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho
O presente tópico realizará um estudo sobre algumas barreiras enfrentadas pelas mulheres ao adentrarem no mercado de trabalho, enfatizando dados nacionais.
De acordo com Costa (2014), as mulheres, mesmo exercendo a mesma função e pertencentes à mesma categoria profissional dos homens, possuem uma remuneração menor que a deles. A explicação disso, segundo a autora, advém de uma lógica dominante na sociedade, a qual percebe o salário da mulher como apenas um complemento da renda do marido, visto que o homem construiu um papel social de verdadeiro responsável pela manutenção familiar.
Avaliando o mercado de trabalho como um todo, observa-se que a discrepância salarial desfavorece o gênero feminino. Conforme levantamento realizado pela International Labor Organization – ILO (2017), ao analisar a disparidade salarial entre países europeus, constatou-se relativa queda do índice entre os anos 2002 e 2010. Apesar disso, conforme afirma a organização, a diferença salarial entre os sexos segue sendo positiva, pois ao avaliar-se a média salário/hora, as mulheres recebem 20% a menos que o avaliar-sexo masculino.
No Brasil, os rendimentos médios do trabalho seguem a tendência observada acima. Estudo realizado pelo IBGE (2018) constatou que o salário médio feminino gira em torno de R$ 1.764,00 (mil setecentos e sessenta e quatro reais), enquanto os homens recebem, em média, R$ 2.306,00 (dois mil trezentos e seis reais). Desse modo, percebe-se que a mulher possui um rendimento médio em torno de 25% a menos que o homem. A explicação para essa diferença, de acordo com o instituto, deve-se ao trabalho parcial, atividades executadas em maior proporção pelas mulheres.
O trabalho parcial é notadamente conhecido por oferecer maior flexibilidade de horários quando comparados com os empregos com jornadas completas. Desse modo, torna-se uma opção bastante atrativa para as mulheres, as quais procuram conciliar obrigações domésticas e a atividade laboral. No entanto, conforme sinalizam os dados disponibilizados logo acima, esse tipo de atividade caracteriza-se pela baixa remuneração, bem como pela precarização do trabalho e por oferecer oportunidades limitadas de carreira (GIDDENS, 2001).
Ainda sobre a baixa remuneração, Castells (2009) defende que, aliado à maior capacitação formal das mulheres, tornam-se fatores atrativos para a contratação por parte dos empregadores. Explicando o crescimento do número de mulheres nos postos de trabalho, o autor destaca o trabalho flexível preterido pelas mulheres, importante em uma economia
informacional, bem como o número de mulheres que procuram o trabalho autônomo, o qual observa um crescimento contínuo.
Um aspecto preocupante que se percebe ao avaliar a atuação feminina no mercado de trabalho é o seu grande percentual quando se avalia a informalidade. Conforme recentes informações, o Brasil apresenta 40 milhões de pessoas que vivem à margem da formalidade. Apesar de ter tido uma melhoria significativa em relação ao ano de 2004 (quando possuía 52,6% de trabalhadoras nesse segmento), as mulheres têm representado 42,7% desse total (IBGE, 2018).
Conforme Hoffman e Leone (2004), esse número significa que as mulheres estão desprotegidas de qualquer regulamentação que lhe garantam direitos sociais, tais como licença-maternidade, acesso à creche, além da própria carteira assinada.
Aos problemas até aqui descritos soma-se a condição do trabalho doméstico, ainda relegado às mulheres. Costa (2014) afirma que, mesmo com a procura da mulher por postos de trabalho e consequente conquista, essa ainda não conseguiu livrar-se totalmente de sua condição de dona de casa. Por isso, a conquista de um emprego fora de casa constitui-se em mais uma jornada na qual a mulher deve desempenhar suas atividades.
A partir das adversidades verificadas, as quais apresentam grandes entraves para a mulher na procura de igualdade entre oportunidades de trabalho, torna-se interessante realizar uma análise sobre as formas como essa mulher tem lidado e tentando superar essas barreiras sociais. Uma das alternativas para criar-se uma maior emancipação das mulheres no mercado de trabalho está o empreendedorismo.
4 A MULHER EMPREENDEDORA
Uma vez realizada uma caracterização geral da configuração feminina no mercado de trabalho, para o alcance dos objetivos da pesquisa faz-se importante dissertar sobre a condição feminina na atitude empreendedora, expondo a visão de inúmeros estudos, nacionais e estrangeiros, sobre o perfil, os entraves vivenciados e as motivações da mulher empreendedora.
4.1 Perfil da mulher empreendedora
Conforme apontado por Machado et al (2003) Gouvêa, Silveira e Machado (2013), os inúmeros estudos que permeiam o empreendedorismo feminino estão expressivamente orientados em procurar conhecer o perfil geral e gerencial das mulheres. Tal
destaque às características da mulher empreendedora torna-se um comportamento compreensivo na literatura, dado o incremento da participação feminina no mercado de trabalho, conforme detalhado em tópicos anteriores.
Recente estudo realizado pela Global Entrepreneurship Monitor analisados pelo IBQP (2017) revela dados sobre a configuração sociodemográfica da mulher empreendedora. No Brasil, o número de empreendedores do sexo feminino apresenta uma sutil diferença em relação aos homens, apresentando 35,0% e 37,9% respectivamente.
Apesar do crescimento feminino na atuação empreendedora ainda ser considerado significativamente menor do que o de sua contraparte, é inegável o fato de que o mesmo tem sido um importante recurso de emprego para inúmeras mulheres ao redor do mundo (LANGOWITZ; MINNITI, 2007).
Diante de tais constatações, resta a pergunta: qual o perfil apresentado pela mulher que vê no empreendedorismo uma forma de atuação e inserção no mercado de trabalho?
Realizando um estudo geral sobre o perfil da mulher empreendedora no Reino Unido, Dhaliwal (2006) encontrou importantes achados que guardam estreita relação com países como Canadá, Austrália e Sérvia. O autor, através da aplicação de 106 questionários, constatou os seguintes aspectos: (1) as mulheres possuem uma tendência em iniciar e atuar no negócio principalmente entre os 20 e 40 anos de idade; (2) para o início do negócio, as razões foram: financeiras, independência, flexibilidade, estilo de vida, trabalhos que proporcionam maior comodidade para se dedicar às crianças; (3) as atividades preferidas pelas mulheres se concentram, de maneira geral, no setor de serviço e comércio; (4) possuir graduação ou pós-graduação foi uma característica pontuada por grande número de mulheres; e (5) a maioria das respondentes declarou possuir crianças em idade que se demanda maiores cuidados.
Estudo conduzido por Machado et al (2003), ao analisar o processo de criação de empresas por mulheres em regiões do Brasil, Canadá e França, constatou que a maioria das mulheres consultadas era casada, estava inserida em uma faixa etária de 31 a 50 anos, possuía elevado nível de escolaridade, era mãe e participava de maneira integral e parcial no orçamento familiar.
Analisando as características demográficas da mulher empreendedora, a pesquisa realizada por Buttner e Moore (1997) atribui respaldo a algumas informações prestadas pelos autores supramencionados. Na amostra analisada, fatores como ser casada, possuir filhos, apresentar nível elevado de formação escolar e atuar no setor de serviços foram significativamente observados pelas respondentes.
Desse modo, conforme as pesquisas sugerem, as mulheres empreendedoras são, em sua maioria, indivíduos que possuem uma relação matrimonial estabelecida, apresentando a condição materna, voltam suas atividades, predominantemente, para o setor terciário da economia (fato explicado em tópicos anteriores), apresentam alto nível de escolaridade e encontram-se na faixa etária que varia entre 20 e 50 anos.
4.2 Motivações femininas para empreender
Ao abordar as predisposições empreendedoras entre os gêneros, Boden (1999), constatou que as mulheres, especialmente aquelas que possuíam filhos pequenos, contavam com uma maior probabilidade de procurar trabalhos autônomos. Conforme refletido pelo autor, ter filhos em idade em que se demande maior atenção motiva a mulher a procurar formas de trabalho não relacionados ao emprego formal assalariado, privilegiando negócios que conferem maior flexibilidade.
Pesquisa realizada por Buttner e Moore (1997) sugere que as mulheres, no ato de abertura de seus próprios negócios, priorizam aspectos como autodeterminação, busca de novos desafios e oportunidades como fatores motivadores. Informação semelhante foi observada em um estudo realizado com 197 mulheres australianas, o qual constatou que necessidades internas como realização, independência, satisfação pessoal e qualidade de vida são desejos comuns para o sexo feminino quando do início de um negócio, conferindo destaque à vontade de serem suas próprias chefes, satisfação com o trabalho e ganho financeiro (BENNET; DAN, 2000).
Estudo realizado por Manolova, Brush e Eldeman (2008) apresenta dados que colaboram com o perfil motivacional feminino retratado pelos autores acima mencionados, acrescentando, no entanto, motivações como o alcance de status desejados e maior autonomia. Machado et al (2003) também observaram que a realização social é um dos principais motivos para a abertura de empresas por parte das mulheres, bem como sua insatisfação com os limites impostos por atividades desempenhadas anteriormente por elas. Além disso, Shane, Kolvereid e Westhead (1991), ao fazerem um comparativo entre as razões empreendedoras de homens e mulheres, concluíram que o alcance de objetivos e o consequente reconhecimento que esses podem proporcionar, representam grande papel motivacional para o sexo feminino.
Nesse sentido, pode-se afirmar que o conceito de sucesso profissional feminino em seus empreendimentos relaciona-se mais a ganhos pessoais, tendo a auto-realização como maior conquista, relegando o lucro financeiro a um plano secundário (BUTTNER; MOORE, 1997). Desse modo, pode-se concluir que, em suas decisões, as mulheres comumente
procuram atribuir maior destaque a aspectos não pecuniários em seus trabalhos autônomos (BODEN, 1999).
Esquema desenvolvido por Patel (1987, apud DAS, 1990) classifica as motivações de empreendedoras femininas em três categorias: por casualidade, por imposição e por criação. De acordo com o autor, empreendedoras por casualidade são indivíduos que iniciam suas atividades sem objetivos claros e específicos, assumindo seu trabalho como uma espécie de hobby; ao contrário dessa, as empreendedoras por imposição iniciam seus negócios forçadas por inúmeros fatores como a morte do esposo, problemas familiares e financeiros entre outras circunstancias adversas; e, por último, as empreendedoras por criação são aquelas que, através de programas de desenvolvimento para o empreendedorismo, procuram encorajar-se e motivar-se, de maneira espontânea, a abrir um novo negócio.
De acordo com o que se pode perceber, a literatura sugere que as razões femininas para empreender conferem destaque maior para aspectos pessoais do que puramente financeiros, apesar de esses possuírem sua importância. Através da criação de um novo negócio e da atividade empreendedora, a mulher pode compatibilizar questões familiares e trabalho, além de procurar alterar as caracterizações histórica e social em torno de seu gênero. 4.3 Conflitos e dificuldades da mulher empreendedora
Tópicos anteriores abordaram alguns problemas pelos quais as mulheres encontram ao participarem de um mercado de trabalho em uma sociedade ainda considerada vantajosa ao sexo masculino. Desse modo, as adversidades percebidas são comuns a todas elas, sejam participantes de empregos formais assalariados ou mulheres autônomas. No entanto, para os efeitos do seguinte tópico, tornou-se interessante evidenciar alguns aspectos percebidos pelas mulheres ao adentrarem no mercado como empreendedoras e proprietárias de seus negócios.
Avaliando os principais desafios apresentados por um grupo de mulheres participantes de sua pesquisa, Dhaliwal (2002) obteve seis tipos de problemas enfrentados pela mulher ao iniciarem seus negócios: falta de confiança, problemas financeiros, horas trabalhadas, recursos disponíveis, falta de suporte e burocracia e legislação. O autor chama a atenção pelo fato de o aspecto discriminação não ter sido mencionado como um grande empecilho por parte das mulheres consultadas.
A respeito da falta de credibilidade e problemas financeiros, Dhaliwal (2002, p. 19, tradução nossa) escreve:
[...] as mulheres enfrentam problemas para acessar algumas das formas mais tradicionais de apoio. Em particular, as mulheres podem enfrentar uma falta de credibilidade junto das instituições de crédito tradicionais e podem sofrer com a falta de acesso a redes empresariais tradicionalmente masculinas.3
Sobre essa menor assistência financeira para as mulheres, Gupta et al (2005), ao verificarem se as características de um empreendedor se encaixavam mais com a figura masculina, reforçando os estereótipos, argumentam que, devido ao fato de os indivíduos que controlam os recursos demandados pelos empreendedores serem em sua maioria homens, há uma maior possibilidade de as mulheres que buscam recursos não se encaixarem dentro do conceito e característica estereotipada que tais indivíduos têm da figura do empreendedor, ocasionando uma redução na quantidade disponibilizada ao gênero feminino.
De maneira geral, para custearem o início e o desenvolvimento de suas atividades em um empreendimento, as mulheres costumam usar principalmente suas próprias economias, podendo conseguir também empréstimos com membros familiares, esposos e amigos (DHALIWAL, 2006; DAS, 1990; MACHADO et al, 2003).
Sobre esse assunto, Machado et al (2003), realizando um estudo conjunto entre países como Brasil, Canadá e França, observaram que neste último as mulheres não apresentaram problemas quanto a contrair empréstimos de instituições financeiras. Bennet e Dan (2000) esclarecem que uma das explicações possíveis para esse fenômeno reside na ideia do aumento da participação feminina em setores historicamente masculinos, estabelecendo empreendimentos que necessitam de uma maior quantidade de capital.
Abordando o conflito trabalho-família, Das (1990) observou que as mulheres não reclamavam que ter seu próprio negócio interferia e criava problemas com seus esposos e parentes, pois contavam com a ajuda de alguém nos cuidados com a casa.
Sobre a multiplicidade de papéis assumidos pela mulher e visando avaliar seu o bem-estar psicológico, Possatti e Dias (2002) realizaram uma pesquisa com 132 mulheres a qual demonstrou que a acumulação de papéis, ao contrário do que se possa imaginar, colabora com o bem-estar feminino na medida em que as recompensas obtidas na execução dos papéis superam as preocupações.
Visando condensar as características da mulher empreendedora verificadas pelos autores em suas respectivas pesquisas, as quais foram descritas na presente seção,
3 [...] women face problems n accessing some of the more traditional forms of support. In particular, women can face a lack of credibility with mainstream lending institutions and can suffer from a lack of access to traditionally male business networks.
confeccionou-se um quadro-resumo (QUADRO 2), o qual destaca as principais percepções trazidos em seus estudos.
Quadro 2 – Perfil da mulher empreendedora
Faixa etária Predominantemente entre os 20 e 40 anos (DHALIWAL, 2006),
observado também entre os 31 e 50 anos (MACHADO et al, 2003).
Setor econômico Serviços e comércio (DHALIWAL, 2006).
Escolaridade
Graduação ou Pós-graduação (DHALIWAL, 2006), elevado nível de escolaridade (MACHADO et al, 2003; BUTTNER; MOORE, 1997).
Crianças Sim, em fase de atenção (DHALIWAL, 2006; MACHADO et al,
2003; BUTTNER; MOORE, 1997).
Estado Civil Casadas (MACHADO et al, 2003; BUTTNER; MOORE, 1997).
Motivações
Razões financeiras, independência, flexibilidade, estilo de vida (DHALIWAL, 2006), autonomia, flexibilidade e aspectos não monetários (BODEN, 1999), autodeterminação, busca de novos desafios e oportunidades (BUTTNER; MOORE, 1997), realização, independência, satisfação pessoal e qualidade de vida (BENNET; DAN, 2000), status desejado e autonomia (MANOLOVA; BRUSH; ELDEMAN, 2008), realização social, insatisfação com limites impostos (MACHADO et al, 2003), reconhecimento (SHANE; KOLVEREID; WESTHEAD, 1991).
Conflitos e Dificuldades
Problemas com confiança, ausência de suporte, finanças, horas trabalhadas, burocracia e legislação, falta de credibilidade frente à bancos e financeiras (DHALIWAL, 2002) Multiplicidade de papéis e conflito trabalho-família não são empecilhos (POSSATTI; DIAS, 2002; DAS, 1990).
Fonte: Elaborado pelo autor.
Evidenciar os traços característicos das mulheres sob a forma de um quadro tornou-se importante para a presente pesquisa, uma vez que possibilita uma maior simplicidade e facilidade no sentido de se realizarem eventuais comparações com os dados a serem detalhados no decorrer deste trabalho.