VIVÊNCIANDO AS TECNOLOGIAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL ATRAVÉS DE PROJETOS DE APRENDIZAGEM.
Marcelo Prates Ferreira 1 RESUMO
Esta pesquisa busca investigar possibilidades de como os recursos tecnológicos podem ser ressignificados e contribuírem para a construção de conhecimentos, partindo da análise de uma experiência educacional realizada com alunos da educação infantil. Também se buscou compreender a relevância de se trabalhar as tecnologias digitais nessa modalidade de ensino, de forma a contemplar as diretrizes curriculares e a importância de se trabalhar com projetos. Observando-se que as tecnologias digitais fazem parte do contexto cotidiano das crianças e sua curiosidade e familiaridade com relação a eles não pode ser ignorada no processo de ensino aprendizado. Pelo contrário ao se trazerem diferentes tecnologias para o contexto escolar é possível enriquecer a ampliar as possibilidades de ensino e descoberta de novos conhecimentos. Elas se mostram como poderosas aliadas na realização de processos pedagógicos de construção de saberes significativos e contínuos.
Palavras-chave: Tecnologia, Tecnologias Digitais, Projeto Pedagógico, Educação Infantil.
ABSTRACT
This research seeks to investigate the possibilities of redefining technological resources and contribute to the construction of knowledge, based on the analysis of an educational experience with students of early childhood education. It was also sought to understand the relevance of working with digital technologies in this modality of teaching, in order to contemplate the curricular guidelines and the importance of working with projects. Observing that digital technologies are part of the daily context of children and their curiosity and familiarity with them can not be ignored in the learning teaching process. On the contrary, if different technologies are brought into the school context, it is possible to enrich the possibilities of teaching and discovering new knowledge. They show themselves as powerful allies in the realization of pedagogical processes of constructing meaningful and continuous knowledge.
1 Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para titulação no Curso de Pós-graduação lato sensu em Ciências e Tecnologia, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Centro Tecnológico de Joinville, sob orientação do Prof.Dr. Modesto Hurtado Ferrer
² Formação Licenciatura Plena em Pedagogia pela Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), Professor de Educação Infantil na educação básica. Centro de Educação Infantil Adhemar Garcia –
Keywords: Technology, Digital Technologies, Pedagogical Project, Early Childhood Education.
1. INTRODUÇÃO
Atualmente é cada vez mais comum a utilização de tecnologias digitais e diferentes mídias pelas crianças, que interagem com esses recursos cada vez mais cedo que colocam os pequenos diante de uma infinidade de informações e possibilidades para um desenvolvimento mais autônomo e participativo. No contexto escolar eles trazem uma bagagem de saberes prévios que devem ser levados em conta durante seu processo de ensino e aprendizado, de forma a despertar nos alunos seu interesse em aprender.
A escola segundo Gadotti2 (2000, p. 38 apud BARBOSA, 2014, p. 3) precisa ser um centro inovador e tem como seu objetivo primordial “orientar, criticamente, especialmente as crianças e jovens, na busca de uma informação que os faça crescer e não embrutecer.”, a educação tecnológica também deve começar na educação infantil favorecendo na construção de conhecimentos, de maneira a serem auxiliadoras de um novo modelo de ensino. Não compreendendo as tecnologias como ferramentas, mas como propostas pedagógicas que contribuem em aprendizagens relevantes e socialmente significativas, que correspondem a um universo de elementos criados pelo cérebro humano.
A presente pesquisa procurou investigar a partir de uma experiência pedagógica realizadas com alunos da educação infantil, como os recursos tecnológicos podem ser ressignificados e contribuírem para a construção de conhecimentos, dentro de um contexto escolar através de um projeto de ensino que em conjunto com os alunos procurou entender melhor o processo de criação, evolução e utilização de diferentes tecnologias. De acordo com Ausubel (1980), para que ocorra a aprendizagem significativa, o relacionamento entre o novo item a ser aprendido e os itens relevantes de sua estrutura cognitiva, não seja arbitrário ou por acaso, possibilitando associações que sustente a efetiva apreensão e descoberta de novos saberes.
Utilizando a metodologia de estudo caso este trabalho apresenta primeiramente uma introdução histórica sobre a educação infantil e sua evolução, 2 GADOTTI, Moacir. Perspectivas atuais da educação. São Paulo em Perspectivas, 2000.
em seguida fundamenta-se a abordagem de ensino por projetos dentro desta modalidade educacional e o contexto das tecnologias digitais na aprendizagem das crianças pequenas. Ao final é apresenta-se uma análise da pesquisa de campo, com o relato das atividades e resultados obtidos das experiências proporcionadas pelo projeto.
2. BREVE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO INFANTIL NO CONTEXTO UNIVERSAL
A infância e a preocupação com os cuidados e desenvolvimento da criança são questões que foram se desenvolvendo ao longo da história da humanidade. Na Idade Média, “a criança era considerada um pequeno adulto, que executava as mesmas atividades dos mais velhos.” (ZÍLIO et al., 2008, p. 2). A expectativa de vida dos pequenos era baixa, devido às condições precárias de existência da época, por esse motivo era importante que as crianças crescessem rapidamente. Por volta dos sete anos as crianças, independentemente de sua classe social, eram postas aos cuidados de outra família, para aprenderem cuidados domésticos e valores humanos. O objetivo dessa troca de casa, era que a criança saísse do controle da sua família de origem, impossibilitando a criação de vínculos afetivos entre pais e filhos. Os colégios que existiam nessa época, estavam dirigidos a educação de um pequeno grupo de clérigos.
A partir da Revolução Industrial e as modificações sociais e intelectuais desta época, a visão sobre a criança começa a se modificar. A criança (burguesa) adquire o status de um ser que precisa ser protegido, e pelo qual se tinha “amor, piedade e dor” (ZÍLIO et al., 2008, p. 3). Surgem as primeiras propostas de educação infantil, os colégios abrem as portas para ensinar as crianças (primeiramente os meninos, as meninas só adquirem esse direito a partir do século XVIII) de diferentes classes sociais, mas sem misturá-las, surgindo a separação entre o ensino dos ricos e dos pobres. Nessa época também surgem as primeiras creches para cuidar dos filhos das mães que trabalham nas fábricas.
Segundo Paschoal e Machado (2009, p. 80) a Revolução Industrial modificou os hábitos e costumes das famílias. Pois, as mães que não tinham com quem deixar seus filhos, utilizavam o trabalho de outras mães que por optarem não por trabalhar nas fábricas, vendiam seus serviços para abrigar e cuidar dos filhos de outras
mulheres. Ainda de acordo com Rizzo3 (2003 apud PASCHOAL; MACHADO, 2009, p. 80) surgiram outras iniciativas mais formais de para o cuidado das crianças de famílias de operários. Estas eram organizadas pelas mulheres da comunidade, que não tinham uma proposta educativa formal, mas desenvolviam atividades como canto e memorização de rezas, objetivando a criação de bons hábitos e a internalização de regras morais. Porém, os riscos de maus tratos contra as crianças aumentaram, devido ao fato de um grande número de crianças estar aos cuidados de uma única mulher, despreparada para tal responsabilidade. “Tudo isso, aliado a pouca comida e higiene, gerou um quadro caótico de confusão, que terminou no aumento de castigos e muita pancadaria, a fim de tornar as crianças mais sossegadas e passivas. Mais violência e mortalidade infantil.” (RIZZO, 2003, p. 31 apud PASCHOAL; MACHADO, 2009, p. 81).
Dentro da lógica capitalista a criança é um ser “a-histórico, a-crítico, fraco e incompetente, economicamente não produtivo, que o adulto deve cuidar.” (ZÍLIO et al., 2008, p. 3). O primário é criado para a educação das classes populares, tendo curta duração, e um ensino prático voltado para a formação de mão-de-obra. O ensino secundário, configura-se com uma duração longa, e é direcionado a burguesia e a aristocracia, para a formação de eruditos, intelectuais e governantes.
De acordo com Zílio et al. (2008, p. 4) programas educacionais compensatórios começaram a ser criados no século XIX por Pestalozzi, Froebel, Montessori e MacMillian, sendo voltados às crianças das famílias humildes, eles acreditavam que a pré-escola era uma maneira de superar mazelas como a pobreza, a miséria e a negligência da família para com estas crianças. Embora em seu início os jardins de infância e as pré-escolas objetivarem o assistencialismo Kuhlmann Jr.4 (2001 apud PASCHOAL; MACHADO, 2009, p. 81) ressalta que já haviam algumas instituições que se preocuparam não apenas com o cuidado, mas com a educação destacando casos como a “Escola de Principiantes”, ou escola de tricotar, criada em meados de 1769 na França pelo pastor Oberlin, que tinha um programa que envolvia passeios, trabalhos manuais, contação de histórias, e o 3 RIZZO, Gilda. Creche: organização, currículo, montagem e funcionamento. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
4 KULHLMANN JR. O jardim de infância e a educação das crianças pobres: final do século XIX, início do século XX. In: MONARCHA, Carlos, (Org.). Educação da infância brasileira: 1875-1983.
ensino de tricô e da leitura da bíblia, através do trabalho de mulheres da comunidade, a crianças de dois a seis anos de idade. A escola de Robert Owen na Escócia, criada em 1816, é outro exemplo de instituição que foi concebida na perspectiva pedagógica, recebendo alunos de dezoito meses à vinte e cinco anos de idade, sua atividades abordavam a natureza, exercícios de dança e canto coral, os materiais didáticos possibilitavam às crianças o desenvolvimento do raciocínio lógico e do julgamento correto, através da resolução das situações propostas pelo professor.
No Brasil as creches e pré-escolas surgem primeiramente com um caráter puramente assistencialista (PASCHOAL; MACHADO, 2009; ZÍLIO, et al. 2008). Atendendo somente questões referentes à alimentação, higiene e segurança física, uma das primeiras instituições de atendimento à infância, e uma das mais duradoura, foi a roda dos expostos ou roda dos excluídos.
“Esse nome provém do dispositivo onde se colocavam os bebês abandonados e era composto por um forma cilíndrica, dividida ao meio por uma divisória e fixado na janela da instituição ou das casas de misericórdia. Assim, a criança era colocada no tabuleiro pela mãe ou qualquer outra pessoa da família; essa ao girar a roda, puxava uma corda para avisar a rodeira que bebê acabava de ser abandonado, retirando-se do local e preservando sua identidade.” (PASCHOAL; MACHADO, 2009, p. 82)
Três tendências, incentivaram a implantação das creches e jardins de infância no final do século XIX e início do século XX no Brasil, a jurídico-policial, a médico-higienista e a religiosa, visavam o combate ao abandono e o alto índice de mortalidade infantil. Em 1919, são criados algumas iniciativas com o objetivo de proteger e assistir as necessidades das crianças como o Instituto de Proteção à Infância do Rio de Janeiro, pelo médico Arthur Moncorvo Filho, sendo considerada uma das mais importantes do país por ter expandido seus serviços a todo o território nacional, também foi criado o Instituto de Proteção e Assistência à Infância que precedeu no mesmo ano o surgimento do Departamento da Criança, que tinha a função de fiscalizar as instituições de ensino e combater o trabalho das mães voluntárias, que cuidavam de maneira precária dos filhos das trabalhadoras. (KUHLMANN Jr., 1998 apud PASCHOAL; MACHADO, 2009, p. 83)5.
5 KUHLMANN JR., Moisés. Infância e educação infantil: uma abordagem histórica. Porto Alegre: Mediação, 1998.
A partir da promulgação da Constituição de 1988, a educação pré-escolar é vista como necessária e um direito de todos, sendo dever do Estado. Estando integrada ao sistema de ensino, a partir de uma concepção pedagógica, complementando a ação da família, e reconhecendo a criança como um ser social, histórico e pertencente a um contexto social e cultural singular. (ZÍLIO et al. 2008, p. 5). Paschoal e Machado (2009) destacam como incentivadores importantes da disseminação das instituições de educação os movimentos operários, que colocaram a educação de seus filhos como uma das pautas de sua luta por melhores condições de trabalho, e o movimento feminista que em meados da década de 1970, defendia que as creches e pré-escolas deveriam atender a todas as mulheres independente de sua necessidade de trabalho e condição econômica.
Em 1996, é sancionada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei 9.394/96 (BRASIL, 1996) ainda em vigor, que destaca a importância da educação infantil e a estabelece como a primeira etapa da educação básica, que objetiva seu desenvolvimento integral. Mais à frente em 1998 com base na LDB, o Conselho Nacional aprova as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), que tem coloca as competências para a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, norteando os currículos e garantindo a formação básica comum. Ainda neste ano é publicado o Referencial Curricular Nacional da Educação Infantil (RCNEI), que orienta didaticamente o desenvolvimento do trabalho nas instituições de ensino dessa modalidade, e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) que objetivam auxiliar os professores na realização de seu trabalho educativo. (MAGALHÃES; RIBEIRO; COSTA, 2016, p. 6).
3. ENSINO POR PROJETOS DE APRENDIZAGEM
O objetivo da escola é desenvolver um cidadão autônomo e participativo na sociedade, essa autonomia deve ser despertada desde a educação infantil. Segundo Deprá (2017) a “Pedagogia de Projetos encontra-se como um instrumento de fácil operacionalização dentre a gama de possibilidades para atingir tal intento.”, essa metodologia tem como objetivo construir conhecimento através de metas estabelecidas previamente e definidas de forma coletiva, entre professores e alunos.
Segundo Silva (2006, p.15) um projeto “é algo que ainda não é, que está por vir, que ainda não está presente, é algo que faz referência ao futuro, é uma
antecipação desse futuro, algo que será construído para se obter um produto final.” O projeto nasce de situações presentes na realidade cotidiana, e também das problemáticas que dele surgem, e da necessidade de solucioná-las. Dewey6 (1961 apud SILVA, 2006, p.16) diz que o projeto está ligado a resolução de um problema, nascendo das práticas e situações experienciadas, da adaptação às novas situações. O RCNEI (1998, p. 57) define que “Os projetos são conjuntos de atividades que trabalham com conhecimentos específicos construídos a partir de um dos eixos de trabalho que se organizam ao redor de um problema para resolver um produto final que se quer obter”.
O projeto é um recurso que auxilia as descobertas, criando situações que colocam os conhecimentos dentro de contextos de interesse dos educandos tornando a escola mais atraente, por abordar uma prática mais democrática. O professor se coloca como mediador e observador, estimulando o aprendizado através da criação de situações significativas. Para isso Deprá (2017) destaca algumas etapas que devem ser seguidas na elaboração do projeto:
Intenção - nesta etapa o professor deve estabelecer seus objetivos através das necessidades apresentadas pelos alunos, para depois elaborar e problematizar o assunto escolhido, de forma a direcionar a curiosidade das crianças no desenvolvimento da proposta.
Preparação e planejamento - aqui é importante que a turma em conjunto com o professor realize um diagnóstico para identificar os conhecimentos prévios da temática a ser trabalhada, as dúvidas com relação ao tema e definir onde e como será feita a pesquisa. Também é importante definir as questões pontuais de realização do projeto como “atividades principais, as estratégias, a coleta do material de pesquisa, a definição do tempo de duração do projeto, e como será o fechamento do estudo do mesmo.” (DEPRÁ, 2017).
Execução ou desenvolvimento - é onde ocorrem as atividades planejadas, estimulando a participação ativa dos alunos, para que eles desenvolvam autonomia na produção do saber, objetivando o encontrar as possibilidades para a construção do conhecimento. O relatório apresenta-se como um instrumento interessante para acompanhar a evolução do desenvolvimento da temática.
6 DEWEY, John. El Hombre y sus Problemas. Tradução de Eduardo Prieto. 2. ed. Buenos Aires: Editorial Paidós, 1961.
Apreciação final - é o momento de avaliar as atividades realizadas, sempre dando oportunidades às crianças de falarem sobre suas experiências e seus sentimentos com relação a proposta desenvolvida, “desse modo ao retomar o processo, a turma organiza, constrói saberes e competências, opina, avalia e tira conclusões coletivamente; o que promove crescimento tanto no âmbito cognitivo, quanto no social, afetivo e emocional.” (DEPRÁ, 2017).
Para Cortez (2013) o projeto visa dar sentido a aprendizagem do aluno, e isso ocorre desde o princípio do mesmo, observando as necessidades dos alunos. O professor apresenta-se como um mediador, que provoca novos sentidos e instiga a curiosidade, intervindo de acordo com a demanda dos alunos e da identificação dessa necessidade.
“A cada momento, o professor toma uma atitude que considera a curiosidade das crianças, as intenções da pesquisa, a possibilidade de intercâmbio de opiniões, a negociação conjunta durante os momentos de socialização (que, aliás, é uma intervenção permanente no projeto) e a oportunidade de sistematizar os conhecimentos construídos pelo grupo para serem retomados e discutidos ao longo do processo.” (CORTEZ, 2013)
O estabelecimento de um foco na fase de planejamento do projeto é fundamental para que os alunos possam ter uma experiência efetiva enquanto pesquisadores e protagonistas de sua aprendizagem. Quando o tempo e condições adequados são fornecidos para que haja continuidade do pensamento sobre um determinado assunto, as crianças aumentam as possibilidades de elaboração de novas conexões, envolvendo áreas do conhecimento diversas. O fator ambiental é um ponto importante que o educador deve estar atento, de forma que seja possível a criança desenvolver a interação dentro do contexto proposto guiando seu foco para a investigação e realçando a curiosidade, devido a isso é importante “colocar as crianças como protagonistas de suas aprendizagens, significa interagir com as suas narrativas e expressões, interpretá-las e sempre relacioná-las com a intencionalidade do projeto.” (CORTEZ, 2013).
De acordo com Silva (2006, p. 19) é preciso que se tenha noção de que nem sempre o resultado planejado na fase inicial do processo será obtido, devido ao alto grau de imprevisibilidade do mesmo. Pois estamos tratando de um âmbito de construção de conhecimento, onde podem surgir situações inesperadas, novos questionamentos, novas mediações. Cortez (2013) reafirma essa perspectiva ao
ressaltar que o planejamento do projeto dialoga constantemente com as intenções da aprendizagem e demanda flexibilidade nas intervenções pela impossibilidade de se prever tudo o que pode vir de questionamentos e relações dos alunos, após terem contato com as atividades e estímulos e socializações em grupo.
A educação infantil, ainda é vista pela escola e sociedade, como um espaço pouco privilegiado na educação, em que muitas vezes se considera perda de tempo desenvolver atividades pedagógicas, que requerem uma organização, qualidade, especificidade e compromisso, principalmente pelas crianças pequenas serem consideradas seres que possuem apenas desejos lúdicos, e que por necessitarem de cuidados essenciais dispensam uma educação intencional, planejada em um ambiente contextualizado e específico. (SILVA, 2006, p. 22).
Porém sabemos que o desenvolvimento de uma criança pode ser bastante diferenciado, se a ela foi dado a oportunidade de participar de um ambiente que estimule e valorize sua criatividade, curiosidade, dúvida, criticidade e cultura. Por isso a educação por projetos se apresenta como uma ferramenta pedagógica interessante que desenvolve a autonomia da criança na construção de seu próprio saber.
4. AS TECNOLOGIAS DIGITAIS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Quando discorremos sobre as tecnologias digitais na educação infantil devemos considerar que atualmente as crianças desenvolvem-se em ambientes repletos de informação e recursos tecnológicos, esses nativos digitais estão diante de contextos em que as diferentes mídias permeiam sua vivência social. Ao chegarem à escola esses alunos trazem uma série de conhecimentos prévios que devem ser considerados pelo professor na elaboração do projeto pedagógico.
De acordo com Barbosa et al. (2014) a escola encontra-se com o desafio de despertar o interesse dos alunos para o aprendizado, tendo em vista que as metodologias de ensino ainda estão voltadas para um modelo tradicional. As novas tecnologias então, apresentam-se como uma forma significativa de fomentar esse interesse, compreendendo-se que é preciso atender as expectativas destas crianças.
“O trabalho pedagógico com as TDICs (Tecnologias digitais de informação e comunicação), contribuirá para que os professores de Educação Infantil possam proporcionar às crianças não somente momentos de interação, mas, principalmente, o desenvolvimento de aspectos cognitivos, afetivos e sociais; possibilitando, assim, a criatividade, a atenção, a concentração, a percepção, a agilidade, a memória, a consciência crítica e reflexiva, atendendo às demandas sociais. “ (BARBOSA et al., 2014, p. 2.889).
Vale compreender que as tecnologias não estão relacionadas somente a aparelhos, mas sim, a um universo de elementos criados pela humanidade em épocas distintas, como por exemplo, a linguagem que foi criada para propiciar a comunicação entre os membros de uma sociedade, e que originou depois diversos idiomas que formam a identidade de um povo e sua cultura.
Gonçalves (2012) traz uma critica com relação aos aspectos negativos das novas tecnologias baseada na obra Geração Artificial de Carr (2011), segundo o qual começou a perceber as diferenças entre a influencia exercida sobre ele da internet em relação ao seu antigo computador. Segundo o autor da obra sua maior dependência de serviços virtuais, mudança de hábitos e o maior tempo desprendido em frente a uma tela, não são os aspectos mais graves da mudança causada sobre ele pelas tecnologias digitais, ele percebeu que seu cérebro não apenas se distrai mais facilmente com os apelos da internet, mas “fica faminto”, do consumo das informações que ele obtém através dela, e quanto mais ele é alimentado, mais faminto fica, gerando uma ansiedade no individuo quando não está online.
É importante destacar que essas mudanças e desejos pelas informações rápidas não começou apenas com as tecnologias digitais. Essa transformação vem ocorrendo na sociedade desde que as mídias elétricas foram incorporadas na vida das pessoas desde o século XX, porém com a internet obtivemos um meio mais potente para criar essa dispersão da atenção de maneira mais ampla e intensa.
(...) estudos de psicólogos, neurobiólogos, educadores e web designers indicam a mesma conclusão: quando se está on-line, se está em um ambiente que promove a leitura descuidada, o pensamento apressado e distraído e o aprendizado superficial. Neste aspecto mais uma vez toma-se necessário analisar os nativos digitais em seus hábitos que mostram um quadro preocupante. (CARR, 2011, p.161 apud GONÇALVES, 2012, p. 50)
Para Gonçalves (2012, p.51) está ocorrendo uma terceirização da memória humana para a máquina, fazendo com que se corra o risco de “definhar” a cultura, pois os nativos digitais, gastam a maior parte de seu tempo consumindo informação
rápida e de baixa qualidade, enviando mensagens de texto curtas e sem estrutura textual, e pouco tempo lendo um livro ou “escrevendo sentenças e parágrafos”, o que para autora pode significar o desenvolvimento de novas habilidades, mas também a perda de outras. Em contrapartida a autora afirma que é inevitável que as novas tecnologias adentrem o mundo acadêmico, e que elas podem e devem ser utilizadas como ferramentas importantes na expansão das oportunidades de aprendizado do estudante. “Esse tempo que vivemos traz para as sociedades modernas um novo modo de viver, de produzir e de ser, em que as habilidades técnicas e a especialização vão dando lugar às competências intelectuais e cognitivas vastas e às competências pessoais e sociais” (GONÇALVES, 2012, p. 52-53), por isso é importante que o professor enquanto educador e aliado com o novos meio tecnológicos redirecione sua forma de educar de um modelo que se propõe a ensinar conhecimentos que ele possui para um modelo de ensino em que o aluno aprenda a aprender, desenvolvendo sua autonomia na busca pelo conhecimento mediado pelo professor.
A LDB (BRASIL, 1996) ressalta que a educação infantil enquanto etapa inicial da educação básica deve acompanhar a nova concepção de sociedade. Assim, as transformações e inovações ocorridas e vivenciadas nas últimas décadas com o adventos das novas mídias e recursos tecnológicos devem ser exploradas como parte do processo pedagógico de aprendizagem trazendo novas perspectivas de ensino. Para Araujo e Reszka (2016, p. 179) é preciso também ter claro que embora se deva trabalhar com os recursos tecnológicos na escola, é preciso ter cuidado na articulação de uma proposta pedagógica efetiva, porque embora eles sejam importantes, é preciso saber utilizá-los de forma adequada para se gerar aprendizagens significativas..
5. CARACTERIZAÇÃO E ANÁLISE DO PROJETO DESENVOLVIDO
Procurando compreender melhor o trabalho da pedagogia de projetos e o desenvolvimento da temática das tecnologias dentro da educação infantil essa pesquisa coletou dados de uma experiência realizadas com crianças de uma turma do maternal 2, do Centro de Educação Infantil Adhemar Garcia, situado no município de Joinville (SC), os alunos têm entre 3 a 4 anos de idade. Para a escolha do tema foram enviados às famílias, uma pesquisa sobre a vivência das crianças em diversos
setores de seu cotidiano, na qual foi percebida a falta de percepção das crianças com relação a diferentes meios tecnológicos de seu cotidiano, com destaque para os relacionados a comunicação oral, escrita, visual, etc. Também foram observados durante o período de adaptação o interesse das crianças sobre a funcionalidade e uso de algumas ferramentas tecnológicas, verificando-se a necessidade de desenvolvimento deste projeto, construindo novos conhecimentos e fortalecendo novas metodologias.
O objetivo do projeto era “Propiciar às crianças uma experiência com o meio que as cercam, com temas relacionados a tecnologias voltadas a comunicação”*, as atividades foram planejadas para a ampliar os saberes dos alunos, com base em seus conhecimentos prévios adquiridos da sua percepção das tecnologias presentes em suas vivências, valorizando seu meio de forma a promover conhecimentos enriquecendo-os e tornando-os significativos. A comunicação teve destaque no trabalho pedagógico de forma que as crianças pudessem reconhecê-la através de diferentes linguagens, também foram propostas diferentes formas de interação com assuntos relacionados ao processo de comunicação e sua evolução. Outras atividades buscaram trabalhar a escrita através de traços, sons, formas e imagens, além de estimular a percepção e a comunicação das crianças em diversas maneiras de se expressar, como a fala, os gestos, pensamentos, imaginação e etc.
A organização do projeto foi elaborada em quatro etapas de desenvolvimento das atividades propostas: 1) Período das Cavernas; 2) Origem da escrita; 3) Os primeiros meios de comunicação com a evolução da escrita; 4) Experimentações com as tecnologias da informação atuais, em detrimento da evolução e necessidades do homem. A avaliação foi sendo realizada pelas observações do desenvolvimento do processo, sendo utilizado o relatório como ferramenta de registro, eles foram realizados diariamente e ao final de cada semestre foi construído um relatório avaliativo individual de cada aluno.
Durante a realização do projeto as atividades propostas em cada etapa foram desenvolvidas de acordo com os objetivos definidos na elaboração do projeto, para isso as crianças tiveram acesso a materiais diversos que pudessem oferecer a elas uma melhor percepção do tema a ser trabalhado, estimulando sua curiosidade em descobrir mais sobre o assunto colocado e levantar questionamentos e hipóteses a serem resolvidos individualmente e coletivamente. Na primeira etapa, por exemplo, os alunos foram instigados a conhecer e imaginar como era a vida dos homens das
cavernas, para isso partindo da apreciação de um filme de animação sobre o tema, os alunos dialogaram e realizaram diversas atividades e experimentações que propiciaram compreender um pouco sobre as tecnologias utilizadas nessa época e desenvolver outras possibilidades de conhecimento, como na fabricação de tintas com pigmentos diversos (café e urucum), ou na pintura com carvão na caverna de papelão.
Figura 2
Os resultados apresentados pelos alunos após a realização do projeto foram bastante significativos, a evolução apresentada pelas crianças foi notável, principalmente com relação ao entrosamento da turma e a criação de vínculos afetivos entre eles e os professores, as propostas do projeto cativaram os alunos gerando diversas experiências de aprendizado com as vivências individuais e do grupo. Os alunos traziam para sala seus conhecimentos prévios de forma espontânea conforme iam sendo estimulados pelos conteúdos e atividades. Através das discussões feitas em sala os alunos desenvolveram bem sua oralidade, conexão e capacidade de raciocínio. Em sua maioria a turma apresentou um alto nível de reconhecimento dos conhecimentos abordados, como por exemplo, os recursos tecnológicos, básicos, sua evolução, nome e função.
Figura 3
Figura 1
Um caso a ser destacado foi o desenvolvimento de um aluno com necessidades especiais presente na turma, o qual participou das atividades propostas pelo projeto sempre com adaptações de acordo com suas necessidades. Foi possível notar que suas experimentações tiveram retornos positivos em aspectos como sua socialização com os professores e colegas, além de que o manuseio de diferentes materiais contribuiu para a diminuição de uma hipersensibilidade que ele apresentava inicialmente nas mãos. Com os objetos tecnológicos que refletem luz, imagem e sons, além de diferentes brinquedos que foram construídos ao longo do processo, ele se mostrava bastante atento e curioso. Ao final do processo comparando os registros avaliativos foi possível notar um salto significativo em seu desenvolvimento cognitivo e interesse em aprender.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Trazer a realidade e contexto do aluno para seu ambiente de aprendizado é importante no enriquecimento do processo de ensino. Na sociedade atual em que as diferentes tecnologias permeiam o cotidiano das pessoas e principalmente das crianças que têm contato com os recursos tecnológicos antes mesmo de saber falar, é importante realizar propostas pedagógicas utilizando os diferentes recursos tecnológicos, de forma a trazer uma abordagem mais atraente de possibilidades de aprendizado.
Na educação infantil, trazer esses recursos para dentro da realização dos projetos de ensino ou mesmo colocá-los como objetos de investigação de um projeto, pode gerar muitas experiências enriquecedoras, além de se descobrirem novas contribuições das tecnologias para as metodologias de aprendizado. Na experiência contemplada nesse estudo, foi possível observar que, através da identificação das necessidades dos alunos, à criação de um projeto que se propôs investigar com as crianças desde o início das inovações tecnológicas, mostrando sua evolução até chegar ao contexto dos recursos atuais, trouxe possibilidades de conhecimento inesperadas, e contribuiu para que fosse possível a seus participantes contemplarem uma aprendizagem significativa.
AUSUBEL, D.; NOVAK, J.; HANENSIAN, H. Psicologia educacional. 2. ed. Rio de Janeiro: Interamericana, 1980.
BARBOSA, G. C. et al. Tecnologias digitais: possibilidades e desafios na educação infantil. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENSINO SUPERIOR A DISTÂNCIA, 11, Florianópolis. Anais... Florianópolis: UNIREDE, 2014. p. 2.888-2.899
BRASIL. LEI DE DIRETRIZES E BASES DA EDUCAÇÃO NACIONAL (Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996).
_____. Ministério da Educação. Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil. Brasília: MEC/ SEF, 1998. v.1.
DEPRÁ, F. S. R. A Pedagogia de Projetos no Processo Ensino-Aprendizagem da Educação Infantil. 2017. Disponível em:
http://www.sitededicas.com.br/art_pedagogia_projetos.htm Acesso em: 8/11/2017 GONÇALVES, C. L. D. Gerações, tecnologia e educação: análise crítica do emprego educativo de novas tecnologias da informação e comunicação na educação superior da Região Metropolitana de Campinas, SP. 65 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro Universitário Salesiano de São Paulo, Americana, 2012.
MAGALHÃES, A. P. F.; RIBEIRO, M. R.; COSTA, T. F. Tecnologia digital na
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PASCHOAL, J. D.; MACHADO, M. C. G. A história da educação infantil no Brasil: avanços, retrocessos e desafios dessa modalidade educacional. Revista
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ZÍLIO, A. L. et al. Educação Infantil: Relfexões sobre os desafios do fazer pedagógico. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 1, Cascavel. Anais... Cascavel: Unioeste, 2008.
ANEXO I
QUESTIONÁRIO PARA AS FAMÍLIAS COMO UM DOS INSTRUMENTOS UTILIZADOS PARA DESENVOLVER O PROJETO DE TURMA A SER TRABALHADO NO ANO DE 2017.
TURMA: MATERNAL 2 A. JOINVILLE, 13 DE FEVEREIRO DE 2017. PROFESSORES: MARCELO, LILIAN, ELISANDRA, E BEATRIZ.
NOME DA CRIANÇA:________________________________________________________________
1. QUAL A PROFISSÃO DA MÃE DA CRIANÇA? E SEU ÚLTIMO EMPREGO QUAL FOI?
2. E DO PAI?
3. A CRIANÇA POSSUI ALGUM EQUIPAMENTO ELETRÔNICO QUE UTILIZA COMO CELULAR, TABLET, OU MICROCOMPUTADOR POR EXEMPLO?
4. EM CASA QUAIS SÃO OS APARELHOS ELETROELETRONICOS QUE A FAMÍLIA POSSUI?
5. E QUAIS DELES A CRIANÇA MAIS SE RELACIONA? COMENTE.
6. COMO A FAMÍLIA SE RELACIONA COM AS TECNOLOGIAS ATUAIS EXISTENTES ESTENDENDO-AS AOS OUTROS FAMILIARES ASSIM COMO A PRÓPRIA CRIANÇA? COMENTE ESSAS RELAÇÕES
7. EM CASA A FAMÍLIA POSSUI ACESSO A INTERNET?
8. RETATE SEU PONTO DE VISTA EM RELAÇÃO AS TECNOLOGIAS EM DETRIMENTO A POPULAÇÃO DE CRIANÇAS E JOVENS POSSUEM ACESSO A ELA CADA VEZ MAIS CEDO, ONDE NO MUNDO ATUAL DESTACAMOS AS NECESSIDADES DE TER CONHECIMENTO SOBRE O TEMA ONDE O MUNDO DIGITAL DE CERTA FORMA TAMBÉM EXIGE CADA VEZ MAIS ESSE CONHECIMENTO DIGAMOS NATO POR PARTE DOS NOSSOS JOVENS E CRIANÇAS