• Nenhum resultado encontrado

Cidade e significado: a percepção do usuário dos espaços livre públicos do bairro Camobi, em Santa Catarina

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Cidade e significado: a percepção do usuário dos espaços livre públicos do bairro Camobi, em Santa Catarina"

Copied!
211
0
0

Texto

(1)

Paula Gabbi Polli

CIDADE E SIGNIFICADO.

A percepção do usuário dos espaços livres públicos do bairro Camobi, em Santa Maria.

Dissertação submetida ao Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do Grau de mestre em Arquitetura e Urbanismo.

Orientadora: Prof ͣ. Dr ͣ: Vanessa Casarin.

Florianópolis 2018

(2)
(3)
(4)
(5)

AGRADECIMENTOS

Muitos fizeram parte da caminhada para a construção deste mestrado, tornando possível a realização desta dissertação. O apoio e as amizades cultivadas neste percurso, foram, sem dúvida, o melhor fruto dessa experiência. À todos que estiveram comigo, meu muito obrigada.

Em específico, agradeço primeiramente à Universidade Federal de Santa Catarina, assim como ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo pela oportunidade concedida e a CAPES pelo apoio financeiro durante os dois anos de realização deste curso.

Agradeço à minha orientadora, professora Vanessa Casarin, pelo apoio durante esta caminhada e pelos ensinamentos e o incentivo para a realização deste estudo.

Às professoras Alicia Norma González de Castells, Alina Gonçalves Santiago e ao professor Luis Guilherme Aita Pippi pelas contribuições feitas nas bancas de qualificação e defesa, assim como o apoio dado para a realização e conclusão desta pesquisa.

Agradeço aos amigos que desde sempre me acompanharam nas diversas jornadas enfrentadas, aos colegas de arquitetura e urbanismo da UFSM, às amigas que desde a infância estão ao meu lado, e aos demais que tive o prazer de cultivar a amizade nos anos percorridos.

Também ofereço a minha gratidão aos colegas e amigos que a experiência do mestrado me apresentou. Obrigada pelos momentos de apoio e descontração, vocês são a melhor herança desses dois anos.

Por fim, agradeço à minha família, tio Luiz, meus irmãos, pai e mãe, este trabalho é para vocês.

(6)

“Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória”.

(7)

RESUMO

A busca pela compreensão do papel dos espaços públicos na relação do sujeito com a cidade se apresenta como principal foco deste estudo. Pretende-se, através da percepção dos usuários, compreender os diferentes significados que a cidade possa adotar no imaginário dos habitantes a partir das diferentes relações estabelecidas entre o indivíduo e os espaços livres públicos existentes. O bairro Camobi, localizado na cidade de Santa Maria, RS, foi adotado como objeto empírico desta pesquisa a fim de contribuir para os estudos urbanos em cidade de médio porte. Como prática metodológica aplicada, optou-se por adotar uma abordagem qualitativa envolvendo levantamento teórico-documental, assim como observações assistemáticas sobre o comportamento dos usuários nos espaços da cidade. Juntamente, foram aplicadas entrevistas semi estruturadas com moradores do bairro de forma a evidenciar as diferentes relações que os usuários estabelecem com a cidade. Ao realizar a categorização das informações obtidas, associada aos dados adquiridos através do levantamento histórico e o estudo do referencial teórico, foi possível compreender os diferentes significados que os espaços públicos adotam na percepção dos usuários. Desse modo, verificou-se uma série de razões que influenciam a utilização dos lugares e a aproximação entre o sujeito e a cidade. Destaca-se que a presença e a qualificação dos aspectos físicos do espaço, aliados à diversidade de uso, concentração de pessoas e representatividade dos lugares influenciam a relação dos habitantes com os espaços públicos da cidade. Da mesma forma, verificaram-se diversas razões de ordem sensível e simbólica que contribuem na identificação do usuário com o espaço habitado. São exemplos desse caso a presença de relatos nostálgicos, a sensação de segurança, de sentir-se acolhido ou de pertencimento a uma certa comunidade. Por fim, foi possível aferir que a cidade é capaz de adotar diversos significados na percepção dos usuários através das diferentes experiências individuais que o sujeito vivencia nos e com espaços públicos existentes.

(8)
(9)

ABSTRACT

The search for understanding the role of public spaces in the relationship between the individual and the city is the main focus of this study. It is intended, through the perception of the users, to understand the different meanings the city can adopt in the imaginary of the inhabitants from the different relations established between the individual and the existing public spaces. The Camobi district, located in the city of Santa Maria, RS, was adopted as the empirical object of this research in order to contribute to urban studies in a medium-sized city. Concerning the applied methodological practice, it was adopted a qualitative approach involving a theoretical-documentary survey, as well as unsystematic observations on the behavior of users in the city spaces. Along with this, semi-structured interviews were conducted with residents of the district in order to highlight the different relationships that users establish with the city. By categorizing the information obtained, combined with the data acquired through the historical survey and the study of the theoretical reference, it was possible to understand the different meanings that the public spaces obtain in the perception of the users. In this way, a series of reasons have been verified that influence the use and approach between the person and the city. It is highlighted that the presence and qualification of the physical aspects of space, combined with the diversity of use, concentration of people and representativeness of the places influence the relationship between the inhabitants and the city public spaces. In the same way, there were several reasons of a sensitive and symbolic order that contribute to the identification of the user with the inhabited space. Examples of this are the presence of nostalgic narratives, the sense of security, of being welcomed or of belonging to a certain community. Finally, it was possible to verify that the city is capable of obtain different meanings in the users' perception through the different individual experiences that the person lives in and with existing public spaces. Key Words: Public space, meaning, Camobi.

(10)
(11)

LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Expansão urbana de Santa Maria a partir de 1800. ... 67 Figura 2a; 2b. Localização do bairro Camobi no contexto municipal, estadual e nacional. ... 68 Figura 3. Principais vias de desenvolvimento do bairro. ... 71 Figura 4a; 4b. Universidade Federal de Santa Maria no ano de 1970; Base Aérea de Santa Maria. ... 73 Figura 5. Expansão do uso do solo residencial em Camobi a partir de 1950. ... 74 Figura 6. Etapas da obra de duplicação da RS 509. ... 75 Figura 7. Número de habitantes dos bairros de Santa Maria. ... 77 Figura 8. Identificação dos elementos estruturantes no contexto urbano do bairro. ... 79 Figura 9. Implantação e fotografias: RS 509, centro comercial do bairro. ... 80 Figura 10. Implantação e fotografias: Antiga estação férrea de Camobi; Praça e Igreja Matriz do bairro. ... 81 Figura 11. Implantação e fotografias: BASM. Trevo de acesso à Santa Maria com identificação da presença da Base Aérea através de marco turístico; Mateada beneficente nas dependências da base aérea durante realização de evento aberto ao público. ... 83 Figura 12. Implantação e fotografia: Cidade Universitária Professor José Mariano da Rocha Filho. ... 84 Figura 13. Eventos realizados nos finais de semana atraindo a população da cidade à utilizar as áreas livres do campus. ... 85 Figura 14. Utilização das áreas livres do campus universitário nos para a realização de atividades de lazer e recreação. ... 86 Figura 15. Mapa localizando os espaços públicos de uso coletivo do bairro Camobi. ... 87 Figura 16. Implantação e fotografias: RS 509; BR 287. ... 88 Figura 17. Implantação e fotografias: Avenida João Machado Soares; Avenida Roraima. ... 89 Figura 18. Implantação e fotografias da Praça da Igreja da Glória, antes e depois da reforma, em 2013 e 2017 ... 90 Figura 19. Implantação e fotografia da antiga estação férrea de Camobi. ... 91 Figura 20. Implantação e fotografia da Praça Miguel Meireles; Primeiramente foto registrando o uso normal do espaço da praça em dia de semana; posteriormente realização do evento “Lazer na cidade”, em 2014. ... 92

(12)

Figura 21. Implantação e fotografia: Praça do Poeta; Praça Fiori D’Itália. ... 93 Figura 22. Implantação e fotografia: Praça Ademar Antonio Cantareli; Praça Manoel Barcelos Braga. ... 94 Figura 23. Implantação e fotografia: Praça Vergílio Zampieri; Praça Cohab Fernando Ferrari. ... 96 Figura 24. Relação entre faixa etária média dos moradores de Camobi e faixa etária da amostragem obtida a partir das entrevistas ... 98 Figura 25. Identificação do número de entrevistados área de aplicação no bairro, Norte (5), Centro (5), Sul (12), Leste (8), Oeste (14). ... 99 Figura 26a; 27b. Relação entre os locais mais utilizados para a realização de atividades físicas, de lazer e recreação dos entrevistados. ... 101 Figura 27a; 28b. Espaço público mais representativo do bairro segundo entrevistados. ... 103 Figura 28a; 29b; 29c. Realização de atividades diversas no espaço da Avenida Roraima. ... 107 Figura 29. Localização de 225 ocorrências de assalto a pedestres registrados em Santa Maria de junho à agosto de 2015. ... 113 Figura 30a; 31b. Apropriação dos usuários nos espaço do bairro, primeiramente no campus da UFSM; Segundo, imagem demonstrando crianças brincando junto ao eixo viário devido à desqualificação da pracinha do bairro, localizado em região com predomínio de população de baixa renda. ... 134

(13)

LISTA DE QUADROS

Quadro 1. Dados referentes àurbanizaçãono bairro Camobi entre os anos de 1966 e 1992. ... 71 Quadro 2. Progressão das categorias iniciais para categoria intermediária 1. ... 156 Quadro 3. Progressão das categorias iniciais para categoria intermediária 2. ... 157 Quadro 4. Progressão das categorias iniciais para categoria intermediária 3. ... 158 Quadro 5. Progressão das categorias iniciais para categoria intermediária 4. ... 158 Quadro 6. Progressão das categorias iniciais para categoria intermediária 5. ... 159 Quadro 7. Progressão das categorias iniciais para categoria intermediária 6. ... 160 Quadro 8. Quadro síntese da progressão das categorias. ... 173

(14)
(15)

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS BASM - Base Aérea de Santa Maria

COHAB - Conjunto Habitacional CTG - Centro de Tradições Gaúchas DF – Distrito Federal.

DNIT - Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes ENEM – Exame Nacional de Ensino Médio.

IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística MEC - Ministério da Educação

PDDDUA – Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Ambiental. PRE – Pró Reitoria de Extensão

REUNI - Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais

RS – Rio Grande do Sul SP – São Paulo

SEL – Sistema de espaços livres

UFSM - Universidade Federal de Santa Maria VFRGS – Viação Férrea do Rio Grande do Sul

(16)
(17)

SUMÁRIO PREFÁCIO ... 19 1 INTRODUÇÃO ... 21 1.1 OBJETIVOS... 24 1.1.1 Objetivo geral ... 24 1.1.2 Objetivos específicos ... 24 1.2 ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO... 24 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 27

2.1 O ESPAÇO PÚBLICO NA ESFERA DAS CIDADES...27

2.2 MEMÓRIA E IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO NA CIDADE...41

3 METODOLOGIA ... 59

3.1 APRESENTAÇÃO... 59

3.2 ETAPAS DA PESQUISA... 60

3.2.1 Análise documental – Contextualização da área ... 61

3.2.2 Análise de uso e apropriação dos espaços - Observações assistemáticas ... 61

3.2.3 Análise do discurso – Entrevistas ... 63

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES ... 65

4.1 CONFIGURAÇÃO ESPACIAL DO BAIRRO E APROPRIAÇÃO DOS ESPAÇOS LIVRES PÚBLICOS... 65

4.1.1 Situação histórica do bairro ... 65

4.1.2 Situação atual do bairro - SEL ... 75

4.2 ANÁLISE DO DISCURSO – Entrevistas... 97

4.2.1 Categorias iniciais ... 105

4.2.2 Categorias intermediárias ... 155

4.2.3 Categorias finais ... 160

4.2.4 Síntese da progressão das categorias ... 171

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 175

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 181

(18)
(19)

PREFÁCIO

As motivações para se realizar este trabalho surgiram a partir da experiência pessoal de vivência na cidade. Com o decorrer das situações vividas, assim como da elaboração deste estudo, foram surgindo diversos questionamentos e inquietações quanto à dimensão da influência do espaço da cidade na vida particular de cada indivíduo. O trajeto até aqui consistiu em dois momentos marcantes de mudança, onde a experiência em cada uma das três cidades que passei, apesar de apresentar aspectos particulares, sempre me conduziram a um questionamento comum: o que fez possível para eu me sentir em casa? Para eu sentir que pertenço a este lugar? A partir destes questionamentos, que insistiam em permear meus pensamentos, surgiu, talvez aí, a faísca inicial para a realização deste estudo.

Passou-se, então, a se pensar a cidade não apenas como um conjunto de elementos físicos e construídos que ao se sobrepor constituem um cenário no qual habitamos cotidianamente. Por outro lado, pretendeu-se aqui, entender, mesmo que como uma primeira gota que compõe um vasto oceano, quais as reais significações que o espaço da cidade pode vir a adotar no imaginário de cada sujeito, e dessa forma, a partir da relação do corpo com o espaço, contribuir para estabelecer um sentimento de pertencimento a um certo lugar, a um certo grupo social, uma comunidade, uma vizinhança.

Como forma de buscar respostas para esses questionamentos que aos poucos foram surgindo quando inicialmente se propôs a elaboração deste tema de pesquisa, optou-se a se voltar os olhos para o primeiro contato que tive com o viver urbano, a experiência da cidade natal, o bairro onde cresci, a rua onde sempre morei. Seguem, aqui, reflexões a cerca desse tempo/espaço.

(20)

Me coloco no mundo. Paro. Penso. Sinto a cidade? Reconheço minha vizinhança, minha história? Cresci sem saber o que o tempo causou, memórias perdidas em edificações abandonadas, espaços esquecidos na cidade.

Na correria do dia a dia escolho viver o hoje, o atual. Sigo a rotina e a rotina me persegue. Percorro sempre as mesmas ruas, mesmas edificações, mesmas pessoas. Paro. Me pergunto. Reconheço esse local que me encontro todo os dias? Vivo o espaço? Ou deixo que ele viva sem mim?

A partir do meu olhar sobre o mundo me permeio em dúvidas quanto ao que sinto na cidade. Talvez certas circunstâncias me penetrem com uma sensação de bem estar, muitas vezes de fraqueza. O passar inquietante do relógio parece não permitir que separemos um tempo para pensar os espaços que nos fazem bem, qual a cidade que me faz feliz?

A rotina segue passando e deixamos de lado o porquê de se gostar de tais locais sobre outros, talvez como uma simples reflexão para se replicar no futuro as pequenas sensações de bem estar. O mundo que nos rodeia muitas vezes é aquele limitado pelo que nós nos permitimos sentir, a cidade que vivemos vai além de configurações viárias ou conjuntos de edificações distribuídas. Talvez esteja naquela sensação de uma manhã quente de vento norte em pleno inverno, no barulho dos skatistas rodopiando toda vez que adentro a universidade, ou simplesmente no sentimento de adentrar àquela mesma rua que desde criança sempre coube chamar de minha.

Diário de campo.

(21)

1 INTRODUÇÃO

A presente pesquisa insere-se na reflexão à respeito do estudo das cidades, tendo como foco a percepção dos usuários frente aos espaços públicos existentes do bairro Camobi, localizado na cidade de Santa Maria - RS. Considerando as diversas possibilidades de se abordar o estudo do fenômeno urbano, busca-se adotar a compreensão das cidades a partir da sua capacidade de estabelecer significados através da experiência pessoal dos usuários com os espaços públicos existentes. Neste contexto, parte-se em busca do olhar individual e das diferentes percepções que os moradores apresentam em relação aos espaços públicos habitados no cotidiano, representados, nesta pesquisa, através dos lugares coletivos do bairro habitado.

O conceito de espaço público é lido neste trabalho a partir das diferentes possibilidades de uso, de forma que as experiências individuais dos usuários possam resultar no estabelecimento de laços de memória, assim como de identificação do sujeito com a cidade em que se habita. Evidencia-se, desse modo, a compreensão da cidade a partir das diversas relações estabelecidas entre o indivíduo e o lugar. A busca pelas significações dos espaços urbanos se dão, neste estudo, a partir da observação da situação atual dos lugares na vida coletiva e cotidiana das cidades. Aliado à isso, pretende-se, através da fala e visão do usuário, entender quais as significações que motivam e influenciam no uso e apropriação dos espaço público, enquanto palco da vida cotidiana, originalmente destinado à pratica da vida social e facilitador da vitalidade das cidades contemporâneas.

Compreender as razões que influenciam um indivíduo a se aproximar e se apropriar dos espaços públicos da cidade é bastante complexo e envolve inúmeras variáveis. Este estudo assume como foco de pesquisa compreender as diferentes questões de ordem subjetiva que possam vir a influenciar no sentimento de aproximação e utilização dos lugares públicos. Reconhece-se, inicialmente, que os espaços da cidade apresentam uma diversidade de possibilidades de usos a partir da sua configuração espacial aliada à presença e qualidade de infraestrutura urbana. No entanto, cabe ressaltar que além das diferentes formas de se utilizar um espaço para realização de atividades funcionais, este apresenta, também, outra gama de possibilidades e situações que permeiam a relação do sujeito com os espaços.

A partir de uma visão mais subjetiva, adota-se como foco um olhar sensível sobre as diversas possibilidades que o viver urbano, através da relação do sujeito com os espaços públicos, apresenta na concepção da

(22)

cidade vivenciada. Busca-se a compreensão do espaço assumindo a capacidade de promover o reconhecimento do usuário como indivíduo autônomo, da mesma forma que permite sua identificação enquanto integrante de um certo grupo social. A acessibilidade dada ao espaço urbano, neste caso, não se caracteriza somente de forma física, mas também simbólica e social, a apropriação dos espaços públicos tem implicações que ultrapassam o desenho urbano.

Abordando como objeto de análise o bairro Camobi, localizado na cidade de Santa Maria - RS, a intenção deste estudo surgiu a partir da observação da situação atual do bairro. A partir do desenvolvimento histórico foram verificadas transformações sócio espaciais sofridas pela malha urbana caracterizadas através do deslocamento do centro social e econômico do bairro e a redução do caráter de centralidade voltado à sociabilização dos moradores. A partir dessa constatação, busca-se compreender os efeitos que a transformação do espaço e a nova consolidação dos espaços públicos do bairro Camobi afetou no sentimento de identificação do usuário com a cidade, surgindo, assim, como fatores que impulsionaram essa pesquisa. Da mesma forma, a subutilização do conjunto de oito praças existentes no sistema de espaços livres do bairro mostra-se como fator de interesse a fim de verificar se há relação direta entre os fatores identificados.

Adota-se, então, como pressuposto para este estudo, a identificação de um afastamento entre os sujeitos que habitam o bairro Camobi e a sua contextualização histórica a partir do abandono do antigo centro social e econômico do bairro (após o encerramento das atividades ferroviárias) e a instalação de novos equipamentos estruturadores da economia local, como a universidade federal e a base aérea do município. Acredita-se que tal situação tenha afetado na forma como os habitantes se relacionam com os espaços do bairro. Aliado à isto, considera-se que, apesar de assumir a falta de uso e reconhecimento dos espaços públicos configurados pelas praças existentes, isso não implica que demais espaços coletivos do bairro não sejam utilizados. Da mesma forma, estes espaços passam, assim, a adotar novos significados e representatividade na relação do sujeito com a cidade habitada de forma a colaborar no estabelecimento de uma nova identidade ao bairro.

A razão pela utilização de um recorte de bairro no estudo da relação do homem com o espaço urbano se dá através da importância de se ler os fragmentos, de forma que não é possível ler a cidade no seu conjunto (FERRARA, 2000). Do mesmo modo, adotando como foco deste estudo a compreensão da cidade enquanto suas características sensíveis e sua capacidade de estabelecer significados no imaginário dos

(23)

seus habitantes, o bairro é o espaço capaz de se inscrever na histórico do sujeito, se configurando como referência quando se faz relação ao reconhecimento e a apropriação do espaço como lugar da vida cotidiana (CERTEAU, 1996).

Para analisar a problemática e garantir a investigação do tema proposto, a dissertação está organizada em quatro capítulos onde, primeiramente, será abordada a temática em foco e os referenciais teóricos que servirão de embasamento para o estudo. Na sequência serão apresentados os passos metodológicos adotados de forma a compreender o tema proposto e a obtenção de uma resposta para as inquietações que permeiam a pesquisa. Por fim, serão apresentados os resultados obtidos abordando a contextualização da área em estudo, assim como a coleta e análise dos dados adquiridos com o trabalho de campo. Para fechamento da pesquisa, são apresentadas reflexões quanto aos resultados adquiridos e a perspectiva de etapas futuras para aprofundamento e extensão do estudo.

Quanto à metodologia proposta, adotou-se como foco uma investigação de ordem qualitativa tendo como principal ferramenta a utilização do método do estudo de caso. O trabalho de campo se configura a partir de três categorias de abordagem, onde inicialmente, propõe-se a realização de uma análise documental da área em estudo. A segunda etapa constitui no levantamento da situação atual e apropriação dos espaços públicos do bairro. Por fim, propõe-se a análise do discurso, onde serão apresentadas os dados obtidos a partir de entrevistas realizadas com moradores do bairro. A observação assistemática, assim como a fotografia, surgem como ferramentas a contribuir para uma maior compreensão do objeto em análise.

Em vista disso, por fim, esta pesquisa propõe-se a contribuir para os estudos urbanísticos de bairros localizados em cidade de médio porte, colaborando com a compreensão dos processos de apropriação dos espaços públicos, assim como da experiência da vida nas cidades. Pretende-se, também, agregar conhecimento ao estudo dos espaços livres públicos inseridos no contexto urbano das cidades contemporâneas, reconhecendo a diversidade de fatores e elementos que influenciam direta e indiretamente na relação destes lugares com os usuários. Assim, a partir da identificação da problemática desta pesquisa, são apresentados os principais objetivos propostos neste estudo.

(24)

1.1 OBJETIVOS 1.1.1 Objetivo geral

Compreender o papel do espaço público na relação do sujeito com a cidade habitada, em Santa Maria - RS.

1.1.2 Objetivos específicos

 Identificar a evolução histórica do bairro Camobi, como se deu seu desenvolvimento social e econômico desde seu surgimento até a situação atual.

 Identificar os espaços públicos mais apropriados pela população residente no bairro Camobi.

 Analisar o olhar e sentimento dos usuários (afeições e aversões) em relação aos espaços públicos do bairro.  Avaliar como se dá a relação entre o sujeito e a cidade,

através do uso e percepção dos espaços públicos do bairro. 1.2 ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO

Capítulo 1. Introdução

Apresenta a delimitação do tema proposto, expondo os objetivos do trabalho, assim como a pergunta, justificativa e a problemática que se pretende investigar através do estudo.

Capítulo 2. Fundamentação teórica.

Consiste na revisão de literatura, onde são apresentados os fundamentos teóricos que permeiam a pesquisa, formando a base conceitual para a investigação proposta.

Capítulo 3. Metodologia

Apresenta os processos metodológicos utilizados para a realização do estudo. Também são identificados os procedimentos e as formas de tratamento dos dados obtidos na pesquisa de campo.

Capítulo 4. Resultados e discussões

O terceiro capítulo apresenta os resultados obtidos com a pesquisa, incluindo discussões e reflexões à respeito do conteúdo analisado.

(25)

Capítulo 5. Considerações finais.

Aborda as considerações frente às etapas do estudo assim com as reflexões acerca da adequabilidade dos resultados à proposta inicial da pesquisa. São verificadas as contribuições do estudo, assim como suas limitações e sugestões para continuação de pesquisas futuras.

(26)
(27)

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 O ESPAÇO PÚBLICO NA ESFERA DAS CIDADES

A compreensão do termo espaço público enquanto seu conceito e entendimento na estrutura da cidade é definida, nesta pesquisa, como aquele espaço da vida social urbana por excelência, o lugar da sociabilização na cidade (NARCISO, 2009). Não se resumindo unicamente aos espaços configurados espacialmente e já tradicionais, como parque, praças e largos, mas estende-se também aos espaços de circulação, como calçadas e vias. Adota-se aqui o entendimento de espaço urbano identificado por Jacobs (2014) como gerador de contato entre as pessoas, elemento indissociável da cidade onde se combinam os diversos desejos individuais com os múltiplos coletivos.

Santos e Vogel (1985), defendem a diversidade da vida urbana como o princípio que as torna cidades. Segundo os autores, a real compreensão do que é a cidade se dá a partir da “busca na experiência das ruas, dos bairros, dos variados ambientes urbanos que compõem uma cidade, as condições que a tornam viável” (SANTOS; VOGEL, 1985, p. 78). Estudar o espaço urbano trata-se, então, de falar da cidade a partir da visão dos seus usuários. Por esse motivo, adota-se como foco, o estudo do cotidiano, este, “com sua inevitável mistura, com suas combinações complexas variáveis e cambiantes, devia ser a verdadeira fonte do conhecimento urbano” (SANTOS; VOGEL, 1985, p. 78).

Abordando o entendimento do espaço público enquanto palco do da vida urbana, parte-se para a compreensão do conceito de sistema de espaços livres públicos que constituem a cidade contemporânea. Inicialmente, o sistema de espaços livres (SEL) é compreendido enquanto a soma de todos os espaços livres urbanos existentes em um determinado recorte territorial, independente de dimensão, qualificação estética, funcional e localização, sejam públicos ou privados (QUEIROGA, 2011). Este estudo assume a ideia de que toda cidade possui um sistema de espaços livres que é produzido durante seu processo de formação, sendo influenciado tanto pelo poder público quanto pela iniciativa privada, “este sistema está em constante processo de transformação e adequação às novas demandas da sociedade (empresas, instituições e grupos sociais)” (MACEDO, 2010).

Da mesma forma, é entendido que a configuração física dos espaços livres públicos remete-nos automaticamente à distribuição das edificações e dos espaços livres. A ocupação de um mesmo espaço pelas mesmas edificações em diferentes arranjos correspondem à diferentes

(28)

configurações físicas do espaço livre, e essas diferentes configurações, por sua vez, correspondem às diferentes oportunidades e alternativas que os espaços vão proporcionar aos habitantes da cidade (CUSTÓDIO et al, 2011).

Adotando como foco desta pesquisa os espaços livres públicos que compõe a malha urbana, compreende-se que estes formam um subsistema dentro do sistema de espaços livres, onde esses são, pela definição, todos aqueles livres de edificação, ou seja, todos os espaços descobertos, sejam eles urbanos ou não, vegetados ou pavimentados, públicos ou privados (MAGNOLI, 1982). Adotando como foco deste estudo os espaço públicos, a rua surge enquanto elemento fundamental de conexão na cidade, por onde ocorre grande parte da vida cotidiana da sociedade urbana (MACEDO, 2010). É o espaço livre associado às edificações; o espaço do cotidiano, o que afeta diariamente nossas vidas, dentre os demais espaços livres, é o que tem maior grau de intervenção antrópica. (CUSTÓDIO et al, 2011). Parques, praças, mirantes, calçadões, promenades, florestas urbanas, reservas municipais e estaduais, lagoas, praias, etc, se constituem nos demais elementos desse sistema (MACEDO, 2010).

Destaca-se aqui a definição de praça e parques enquanto os tipos mais comuns de espaços livres urbanos públicos do Brasil. Magnolia (2006), complementa

As praças se formam onde confluem duas ou mais ruas ou, onde dois ou mais contextos se entrecruzam, por esse motivo, as praças são contextos em geral mais complexos que aqueles que as formam. (...) Sua qualidade depende, de um lado, do nível de correspondência entre o ‘cheio e o vazio’; por outro lado, da energia das atividades humanas que contenham ou que as atravessam. São então, as praças, coletoras e geradoras, simultaneamente, no sentido de recolherem energia das ruas (e dos edifícios) que a elas convergem e ao mesmo tempo distribuem às ruas (e aos edifícios) que nelas nascem. (...) Nessa acepção, as cidades são tramas de diferentes contextos. A diversidade é intrínseca às relações, (...) a condição ‘ligante’ adquire atributos; qualifica-se na diversidade, na complementaridade, na interação espaço – vida social – existência humana (MAGNOLIA, 2006, p. 153).

(29)

Dessa forma, é possível concluir que a vida pública tem nos espaços livres, sobretudo nos espaços livres públicos, seu maior suporte físico-material para acontecer, são eles os espaços de maior acessibilidade, com maior capacidade para receber a diversidade, a pluralidade e o imprevisto, características de uma esfera pública mais rica (QUEIROGA, 2011). Assim, esse estudo assume como foco a compreensão do papel dos espaços público não apenas resultante da sua configuração morfológica na cidade, mas também enquanto lugar capaz de promover as relações e atribuições de significados na vida do indivíduo.

É através da possibilidade de identificação do sujeito com a cidade, onde encontra no contato com seus diferentes a possibilidade de se reconhecer, de refletir, de analisar, de descobrir e experimentar sua essência de ser coletivo (ASSEN DE OLIVEIRA, 2010). Da mesma forma, o espaço público é lido enquanto a possibilidade de estabelecer laços de aproximação do sujeito com a cidade, capaz de ser carregado de sentido e memória (BORJA, 2013). Corroborando com a ideia dos autores, este trabalho apresenta como foco de estudo o espaço público enquanto fator de aproximação e identificação entre o usuário e a cidade em que se habita.

São nestes espaços das cidades, onde, juntamente à realização de trocas sociais e econômicas, se dão outros tipos de relações, “trocas afetivas e de significados (pertencimento e imprevisibilidade, sentido de coletivo, identidade cultural, coletiva e individual, aceitação da diferença) próprias da urbanidade e do processo de socialização” (ASSEN DE OLIVEIRA, 2010, p. 23). A autora ainda complementa, são nestes espaços públicos, por vezes com caráter de centralidade, importância histórica, que se verifica a existência de um espaço simbólico e de referência a identidade de todos que habitam a cidade. Por fim, são espaços capazes de evocar a sensação de pertencimento e as elaborações imaginárias que produzem coesão social e reconhecimento individual (ASSEN DE OLIVEIRA, 2010).

Segundo Borja (2013), “o espaço público é também, e antes de tudo, espaço de uso coletivo, livre, heterogêneo, multifuncional, de convivência, integrador, carregado de sentido, de memórias, de identidade”. Para o autor, são nos espaços públicos das cidades onde os indivíduos se reconhecem mutualmente como tal, sujeitos a direitos, livres e iguais. “Neste espaço, afirma-se, por sua vez, a individualidade de cada um e a existência de uma comunidade de pessoas que mantém os laços solidários e valores contraditórios” (BORJA, 2013).

(30)

Yi Fu Tuan (1983) sugere que os conceitos de espaço e lugar não podem ser definidos separadamente um do outro. Abre-se, aqui, a lacuna para uma nova discussão, onde, na experiência, o significado de espaço frequentemente se funde com o de lugar. “‘Espaço’ é mais abstrato do que ‘lugar’. O que começa como espaço indiferenciado transforma-se em lugar à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor” (TUAN, 1983, p. 6).

Surge em Marc Augé (1994) o termo “lugar antropológico” se opondo ao conceito de espaço, como aquele abstrato e vazio de significado. Segundo o autor, o lugar se define como sendo a construção concreta e simbólica do espaço, dotado de sentido e que exprime a identidade de um grupo. “O lugar antropológico, é simultaneamente princípio de sentido para aqueles que o habitam e princípio de inteligibilidade para quem o observa” (AUGÉ, 1994, p. 51). Dando continuidade a este pensamento, o conceito oposto, a ideia do não-lugar, surge como o espaço que não pode se definir nem como identitário, nem como relacional, nem como histórico. “O espaço do não-lugar não cria nem identidade singular nem relação, mas sim solidão e similitude” (AUGÉ, 1994, p. 95).

Estabelecendo uma relação com a situação da cidade contemporânea e o papel do espaço público na vida social dos seus usuários, a redução do contato entre os indivíduos, identificada a partir dos processos de modernização das cidades, assim como expansão dos meios de comunicação, gera um deslocamento da vida social, diluição dos contatos sociais e perda do sentido do espaço urbano (JODELET, 2002). Hall (2011), considera que a partir da modernidade tardia, locais que antes possuíam relações históricas e políticas com a cidades foram degradados, passando a perder suas características antropológicas e, assim, tornando-se não-lugares, ou em uma “ausência de lugares” como descrito por Michel de Certeau (1994).

David Harvey (2005), caracteriza como destruição do espaço através do tempo, os efeitos da modernização sobre a concepção do tempo espaço na vida urbana das cidades. Para o autor, os lugares permanecem fixos, é neles que se criam raízes, no entanto, o espaço, este pode ser cruzado num piscar de olhos, facilmente se ultrapassa, não se percebe. Giddens (1990), expõe em outras palavras, o contraste entre as ideias de lugar e espaço a partir dos impactos da modernidade:

Nas sociedades pré-modernas, o espaço e o lugar eram amplamente coincidentes, uma vez que as dimensões espaciais da vida social eram, para a

(31)

maioria da população dominadas pela presença – por uma atividade localizada. A modernidade separa, cada vez mais, o espaço do lugar, ao reforçar relações entre outros que estão ‘ausentes’, distantes (em termos de local), de qualquer interação face a face. Nas condições da modernidade, os locais são inteiramente penetrados e moldados por influências sociais bastante distantes deles. O que estrutura o local não é simplesmente aquilo que está presenta na cena. A ‘forma visível’ do local oculta as relações distanciadas que determinam sua natureza (GIDDENS, 1990, p.18 apud HALL, 2011, p. 72). Ainda sobre a noção do termo espaço, a partir da visão de Certeau (1994), este pode ser compreendido como um lugar praticado. Defende a ideia de que é através dos relatos dos indivíduos, os usuários, que se pode transformar lugares em espaços ou espaços em lugares. Da mesma forma, defende a importância da ação e do movimento para se atribuir significação à um espaço, “a rua geometricamente definida por um urbanismo é transformada em espaço pelos pedestres” (CERTEAU, 1994, p. 202).

Yi Fu Tuan (1983), identifica a experiência como principal ferramenta de reconhecimento e apreensão da vivência na cidade. Da mesma forma que “praticar o espaço, escreve Michel de Certeau, é ‘repetir a experiência jubilosa e silenciosa da infância” (AUGÉ, 1994, p. 78). Segundo Tuan (1983, p. 10), “A palavra ‘experiência’ provém da mesma raiz latina de ‘experimento’, ‘experto’ e ‘perigoso’. Para experienciar no sentido ativo, é necessário aventurar-se no desconhecido e experimentar o ilusório e o incerto”. Dessa forma, à medida que o indivíduo se permite à experiência e à vivência de um espaço, dia após dia, ano após ano, este pode vir a transformar-se em um lugar, adquirindo, assim, significação e sentido.

Nesse contexto, compreende-se o conceito de espaço público enquanto ambiente da socialização na cidade, espaço de trocas coletivas e individuas, próprias da ideia de urbanidade. (NARCISO, 2009; ASSEN DE OLIVEIRA, 2010; JACOBS, 2014). Da mesma forma, surge enquanto fator de aproximação, pertencimento e identificação do sujeito com a cidade. Identificação essa marcada pela possibilidade de se reconhecer enquanto indivíduo e, por vezes, um ser coletivo (ASSEN DE OLIVEIRA, 2010; BORJA 2013). Dessa forma, o espaço público, à medida em que agrega significado, através da presença e do discurso

(32)

presente no imaginário dos seus usuários, transforma e cria cidade (TUAN, 1983; CERTEAU, 1994; AUGÉ, 1994).

Ainda sobre a abordagem do estudo do fenômeno urbano, reforça-se a importância de reforça-se compreender a cidade do modo como a percebem seus habitantes, aliado ao estudo do espaço e da cidade em si (LYNCH, 2010). Segundo o autor, a imagem da cidade é produto tanto da sensação imediata quanto da lembrança de experiências passadas, de forma que a identificação do indivíduo com o espaço surge como fator indispensável no estudo das cidades. Da mesma forma, a identificação dos usuários em relação aos lugares se dá através do reconhecimento dos espaços enquanto a sua individualidade, à medida que assume a identidade construída por diferentes pessoas ou grupos (LYNCH, 2010).

Analisando a concepção do espaço enquanto sua capacidade de promover o sentimento de identificação entre o sujeito e a cidade, destaca-se o conceito de identidade enquanto aquela construída através da interação do eu com a sociedade (HALL, 2011). A identidade é algo formado, ao longo do tempo, através de processos, e não algo inato. Existe sempre algo imaginário sobre sua unidade, ela permanece sempre incompleta, está sempre sendo formada (HALL, 2011). O autor ainda utiliza das palavras de Roger Scruton (1986) a fim de justificar a importância do papel da identificação dos usuários enquanto seu reconhecimento na sociedade:

A condição do homem exige que o indivíduo, embora exista e aja como um ser autônomo, faça isso somente porque ele pode primeiramente identificar a si mesmo como algo mais amplo – como um membro de uma sociedade, grupo, classe, estado ou nação, de algum arranjo, ao qual ele pode até não dar um nome, mas que ele reconhece instintivamente como seu lar (Scruton, 1986, p.156 apud HALL, 2011, p. 48).

A identidade ainda pode ser definida como meio estabilizador entre o indivíduo e o mundo cultural em que se habita (HALL, 2011). “A sociedade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o ‘interior’ e o ‘exterior’ – entre o mundo pessoal e o mundo público. [...] A identidade, então, costura [...] o sujeito à estrutura, [...] tornando ambos reciprocamente mais unificados” (HALL, 2011, p. 12). Assim, evidencia-se a necessidade de evidencia-se abordar o conceito de identidade não como algo

(33)

acabado, definido, deveríamos falar, então, de identificação, e vê-la como um processo em andamento (HALL, 2011).

Abordando novamente os impactos da modernização sobre a concepção e o uso dos espaços públicos das cidades, David Harvey (2005, p. 22), descreve a modernidade como uma “ruptura com todas e quaisquer condições históricas precedentes”. Juntamente a essa ideia, a caracteriza como “um interminável processo de rupturas e fragmentações internas inerentes” (HARVEY, 2005, p. 22). Não apenas, os impactos da globalização apresentam efeitos na concepção do sujeito pós moderno enquanto sua identificação na sociedade, “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado” (HALL, 2011, p. 7).

Compreende-se, por fim, o conceito de identidade como algo mutável e em processo constante de transformação no contexto da sociedade pós-moderna, sendo abordado, desse modo, como processo de identificação (HALL, 2011). A principal característica a se considerar nesse estudo se dá através da capacidade de se estabelecer vínculos afetivos de aproximação entre o indivíduo e o contexto urbano em que se vivencia através do sentimento de pertencimento (LYNCH, 2010; HALL, 2011). É a partir da identificação do usuário com a cidade que surgem as diferentes formas de apropriação do indivíduo com os espaços públicos. À medida que a pessoa, enquanto habitante da sua cidade, do seu bairro, da sua rua, reconhece esse espaço como sendo seu, estabelece laços simbólicos e de sentido, sejam estes relacionados à fatos históricos ou à própria memória individual. O sujeito passa, dessa forma, a reconhecer e se apropriar desses espaços de diversas maneiras visando agregar qualidade de vida ao seu cotidiano.

A relação do indivíduo com a cidade em que se habita pode ser abordada sobre diferentes sentidos os quais resultam em diferentes formas de apropriação dos espaços urbanos:

Os caminhos que escolhemos passar por algum motivo que não seja o simples trajeto mais prático ou mais curto, equivale aos recantos que elegemos como nossos em algum ponto específico da cidade. Às vezes o resgate de uma memória, de um encontro, ou o desejo futuro, são motivos que ficam marcados e são resgatados em algum lugar. A cidade oferece qualidades que possibilitam um sentido de posse: meu canto, minha árvore, meu

(34)

muro, independente da realidade do espaço ser público e de todos (VIEIRA E SILVA, 2011). Destaca-se a importância de se compreender as diferentes formas de apropriação dos espaços de uso coletivo por estes corresponderem aos reais processos de desenvolvimento da cidade, “acreditamos que a análise das situações locais permita extrapolações de grande alcance, já que as relações entre áreas cêntricas e os espaços urbanos dependentes se constituem em um problema crucial para o planejamento das grandes cidades do país” (SANTOS; VOGEL, 1985, p. 10). Da mesma forma, reforça-se a importância de se pensar os espaços públicos enquanto sua utilização no dia a dia das cidades, de forma que os deslocamentos diários podem vir a proporcionar diversas atividades agregando, assim, qualidade de vida ao cotidiano dos moradores, “planejar espaços para fins de lazer [...] é cultivar um meio urbano cujas ruas permitam jogar uma pelada, andar de bicicleta, ou simplesmente passear à sombra” (SANTOS; VOGEL, 1985, p. 142).

A rua surge, neste contexto, como o principal espaço público de representação das estruturas sócio espaciais de uma sociedade, “uma rua é um universo de múltiplos eventos e relações” (SANTOS; VOGEL, 1985, p. 24). É nela que se dão os deslocamentos a pé pelo bairro, os quais surgem como maior expressão da apropriação de uma cidade por seus usuários, “é andando que se fica sabendo das coisas, [...] andar pelo bairro une o útil ao agradável. As caminhadas que se destinam à resoluções funcionais são ao mesmo tempo, passeios. Tem um dimensão ritual” (SANTOS; VOGEL, 1985, p. 81). Assim, pode-se concluir que são através das caminhadas pelos espaços da cidade que se efetiva o contato permanente entre as pessoas e os eventos do seu universo social mais imediato.

Logo, o conceito de apropriação pode ser compreendido através da leitura das atividades diárias e relações das pessoas com o espaço da vida cotidiana (CARLOS, 2001). Paralelamente a isso, as reais manifestações de apropriação do espaço público se expressam a partir da relação do corpo na cidade, através do evento da vida cotidiana (SANTOS E VOGEL, 1985).

A apropriação se revela em atos e situações que podem ser o andar pela rua do bairro, onde aparece a calçada como o trajeto diário (até o ponto do ônibus, onde se toma a condução para o trabalho, por exemplo); pode ser o caminhar que todos os

(35)

dias leva as pessoas às compras; pode ser o passo dos estudantes que se dirigem à escola. Pode ser o ato de andar de bicicleta ou o uso da rua como lugar para as brincadeiras infantis; pode ser a prosa com o vizinho que passa, ou que está em sua porta, ou olhando pela janela. Essas possibilidades se ligam ao acontecer diário, e são marcadas por um tempo determinado, em espaços circunscritos. O uso se realiza por meio do corpo (o próprio corpo é extensão do espaço) e de todos os sentidos humanos, e a ação humana se realiza produzindo um mundo real e concreto, delimitando e imprimindo os ‘rastros’ da civilização (CARLOS, 2001, p. 213).

Ainda, são nas condições banais e acidentais da vida cotidiana, expressas através dos diferentes usos do espaço no dia a dia, que surge a expressão verdadeira da relação dos indivíduos com o espaço habitado (CARLOS, 2001). É no contexto urbano que os espaços se mostram passíveis de serem sentidos, pensados, apropriados e vividos pelo indivíduo por meio do corpo, “pois é com todos os seus sentidos que o habitante usa o espaço, cria/percebe os referenciais, sente os odores dos lugares, dando-lhes sentido” (CARLOS, 2001, p. 35). Dessa forma, o uso do espaço envolve o indivíduo, assim como seus sentidos “é por ele que marca sua presença, é por ele que constrói e se apropria do espaço e do mundo no plano do lugar, no modo como usa o espaço e emprega o tempo da vida cotidiana” (CARLOS, 2001, p. 35).

Cabe, aqui, destacar uma diferenciação entre as ideia de uso e apropriação do espaço.

Podemos utilizar determinados elementos urbanos, mas nunca nos apropriarmos deles, haja vista que na apropriação, ao contrário da simples utilização, tem como base uma identificação do ser humano com o meio. A apropriação diz respeito, sim, ao imaginário urbano, à imagem da cidade com a qual o indivíduo se identifica. Essa identidade comum propicia o reconhecimento e [...] significados dos espaços, bem como a consolidação dos laços locais e a criação do lugar (PEDROSO, 2007, p. 56). A partir dos conceitos e ideias defendidas pelos autores, este trabalho aborda a questão da apropriação relacionada, principalmente, ao

(36)

papel de identificação do sujeito com o meio habitado (CARLOS, 2001; PEDROSO, 2007). A real apropriação dos lugares da cidade, sejam estes praças, parques, ruas, calçadas, se dá através dos diferentes usos do espaço no cotidiano, através da leitura das atividades diárias (SANTOS e VOGEL, 1985; CARLOS, 2001). A apropriação só ocorre quando os usuários consideram um lugar como sendo seu, quando se sentem à vontade, seguros e dessa forma têm a possibilidade de se identificar com o universo de significados que o espaço possa lhes transmitir. Como principal exemplo desse universo de relações, a rua surge como o palco de maior expressão de apropriação do sujeito com a cidade (SANTOS e VOGEL, 1985; CARLOS, 2001).

Segundo Lynch (2010, p. 5), “uma boa imagem ambiental oferece a seu possuidor um importante sentimento de segurança emocional. Ele pode estabelecer uma relação harmoniosa entre ele e o mundo à sua volta”. O autor defende aqui, a ideia de que a qualidade visual da cidade se relaciona diretamente ao sentimento de aproximação entre o indivíduo e o meio em que se habita. Da mesma forma, é através da aproximação dos usuários com a cidade que se promovem condições favoráveis à sentimentos como a segurança, liberdade, sentimento de lar, estabilidade, noção de território e interação social (KOHLSDORF. 1996). A ideia de afetividade surge na identificação emocional das pessoas com os lugares, como por exemplo o sentimento de lar, ou de sentir-se forasteiro.

Da mesma forma, torna-se importante reconhecer as reais motivações que permitem à um espaço urbano suscitar reações emocionais, assim como invocar reminiscências e experiências em seus usuários (CULLEN, 2009). Para o autor, elementos como “abrigo, sombra, conveniência e um ambiente aprazível são as causas mais frequentes da apropriação do espaço, as condições que levam a ocupação de determinados locais” (CULLEN, 2009, p. 25). Logo, é possível concluir que é no conjunto de diversos fatores que se identificam as razões e motivações que influenciam de forma direta na apropriação efetiva dos espaços das cidades por seus habitantes.

Dessa forma, ainda que se tenha como foco desse estudo as relações simbólicas e significações dos espaços públicos no imaginário dos seus habitantes, reconhece-se a importância que os atributos físicos do espaço promovem tanto na percepção quanto na apropriação dos usuários com os espaços públicos da cidade. Neste ponto, destaca-se a importância de conceitos como a acessibilidade, sentimento de segurança, qualidade visual, permeabilidade, presença de infraestrutura urbana, etc, como influenciadores da vida urbana nas cidades contemporâneas.

(37)

Segundo Kohlsdorf (1996, p. 31), “é preciso que se observe os lugares como composições plásticas, isto é, elementos relacionados em conjuntos, ou, ainda, totalidades”. Para a autora, os juízos de utilização dos lugares podem estar relacionados à diversos fatores e características do espaço, podendo estar vinculados à “uma combinação satisfatória de atividades, porque as otimiza; condições confortáveis de ventilação ou insolação das áreas livres; barreiras que inviabilizam o desejo de se deslocar de um lugar para outro; a emoção de beleza ou fealdade diante de uma praça, monumento, rua, etc” (KOHLSDORF, 1996, p 26). Assumindo a existência de diversos fatores que influenciam direta e indiretamente na apropriação dos usuários em relação ao espaços públicos, este trabalho se concentra na significações afetivas e emocionais, preocupando-se com a apreensão da cidade através da fala dos seus usuários.

Dando continuidade ao entendimento da relação entre o indivíduo e o espaço da vida cotidiana, a importância da vivência na cidade, da experiência do corpo no espaço, pode ser entendida como apropriação que se traduz em territorialidade (TUAN, 1983). O conceito de território nasce, aqui, com uma dupla conotação, podendo se apresentar de forma material ou simbólica (HAESBERT, 2004). Tendo como foco o caráter subjetivo adotado neste estudo, segundo o autor, “todo território é, ao mesmo tempo e obrigatoriamente, em diferentes combinações, funcional e simbólico, pois exercemos domínio sobre o espaço tanto para realizar ‘funções’ quanto para produzir ‘significados’” (HAESBERT, 2004). “Ao mesmo tempo, por extensão, podemos dizer que [...] o território inspira a identificação (positiva) e a efetiva ‘apropriação’” (HAESBERT, 2004).

Bordo et al (2006), define a ideia de território a partir de três diferentes enfoques. Primeiramente, estabelece relação com a característica jurídico-política, onde um certo espaço é controlado e sobre ele se exerce um certo poder (especialmente de caráter estatal). A segunda concepção se dá a partir do entendimento de território enquanto produto espacial do embate entre classes sociais e da relação capital-trabalho. Por fim, a abordagem culturalista do conceito de território, apresentada com destaque neste estudo, prioriza as dimensões simbólicas e subjetivas, onde o território é visto como produto da apropriação feita através do imaginário e/ou identidade social sobre o espaço (BORDO, et al, 2006).

Para Kohlsdorf (1996), a possibilidade de informação, contida na configuração dos lugares, divulgou-se principalmente por meio da abordagem do espaço como estrutura de signos. “Quando os conceitos de territorialidade e bairro passaram a adquirir sentido simbólico, esse processo se identificou como a formação social da imagem do espaço, ou

(38)

seja, a maneira como o espaço físico torna-se espaço social, e, portanto, espaço simbólico” (KOHLSDORF, 1996, p. 37).

Segundo Little (2011), o fato de um grupo social reconhecer um território como sendo seu desempenha um importante papel na configuração da memória e nas representações sociais destes grupo nos espaço das cidades. Tendo em vista a cultura como elemento central, é através da criação de símbolos, discursos e práticas sociais que se consolida a ideia de uma territorialidade que, por fim, interfere nas configurações sócio espaciais do espaço urbano (LITTLE, 2011).

Dessa forma, a ideia de territorialidade, se entende como o resultando da apropriação do espaço pelo seu usuário (TUAN, 1983). Ao reconhecer o lugar como seu, o indivíduo o territorializa, se identifica, estabelece vínculo (HAESBERT, 2004; LITTLE, 2010). Conforme identificado pelos autores, esse processo se dá através da prática diária, da vivencia dos espaços da cidade, “sentir um lugar leva mais tempo: se faz das experiências, em sua maior parte fugazes e pouco dramáticas, repetidas dia após dia e através dos anos” (TUAN, 1983, p. 203).

O recorte territorial do bairro, objeto de estudo desta pesquisa, surge como princípio de identificação e territorialização do usuário com a cidade. A aproximação do sujeito com o contexto urbano exige a identificação com certos locais a fim de garantir-lhes significado (TUAN, 1983). Para o autor, é no espaço do bairro, da rua onde se mora, que se encontra a parte da experiência íntima de cada pessoa. “O espaço transforma-se em lugar à medida que adquire definição e significado. Já observamos como o espaço conhecido se transforma em bairro” (TUAN, 1983, p. 6).

Adota-se como princípio a ideia de que o usuário da cidade não à habita em sua totalidade, mas sim fragmentos dela. São nestes lugares onde se concentra a esfera social da vida pública, onde se realizam os encontros e a sociabilidade na vida cotidiana, independentemente das condições de infraestrutura e qualidade do espaço (CARLOS, 2001). O recorte do bairro se apresenta, então, como elemento fundamental para a análise do uso e apropriação dos espaços públicos da cidade.

Segundo Lynch (2010), os bairros podem ser identificados conforme suas características no contexto da cidade que integram. Para o autor, os bairros podem ser classificados conforme sua formação étnica, diferentes níveis de classes, assim como reconhecido por suas associações históricas e configurações topográficas. Segundo o autor “os bairros continuavam sendo uma parte importante e satisfatória da experiência de viver na cidade” (LYNCH, 2010, p. 75). Desse modo, é possível

(39)

compreender o papel do bairro como elemento estruturante da experiência do urbano.

Ainda sobre a perspectiva de Lynch (2010), os bairros apresentam diversas características que, ao se mostrarem predominantes na concepção do espaço, podem contribuir para o reconhecimento e identificação do bairro no contexto da cidade. Estas características podem surgir através de atributos físicos, assim como elementos de ordem subjetiva, como explica o autor ao utilizar como exemplo a cidade de Boston:

As características físicas que determinam os bairros, são continuidades temáticas que podem consistir numa variedade de componentes: textura, espaço, forma, detalhe, símbolo, tipo de construção, usos, atividades, habitantes, estados de conservação, topografia. Numa cidade edificada de modo tão fechado e compacto, como Boston, as homogeneidades de fachada – material. Modelos, ornamentação, cores, a linha do horizonte, e em especial, o modo de dispor as janelas – eram, todas, indicações básicas para a identificação dos bairros principais. (...) Os indicadores não eram apenas visuais: o barulho era igualmente importante. Na verdade, às vezes a própria confusão podia ser um indicador, como no caso de uma mulher para quem o fato de começar a sentir-se perdida era um sinal de que estava em North End (LYNCH, 2010, p. 75).

Dessa forma, o autor reforça a ideia de que são necessários certos indicadores predominantes e característicos para a promoção de uma imagem forte do bairro. Ainda, a importância das fronteiras entre os diferentes bairros que compõem o tecido da cidade, também surgem como fator que reforça a identidade desse recorte territorial (LYNCH, 2010).

Certeau (1996), define o bairro como lugar de engajamento social. Do mesmo modo que Tuan (1983) evidencia a importância da vivencia e experiência no espaço como forma de reconhecimento e identificação entre o usuário e o espaço, Certeau (1996) identifica o sentimento de territorialidade do bairro como sendo o espaço onde o usuário se sente reconhecido no espaço da cidade, assim como em relação aos demais habitantes (vizinhos e comerciantes). Essa rede de indivíduos que habita um mesmo meio social se caracteriza por estar conectada através da

(40)

proximidade, da repetição, da coexistência concreta em um mesmo território (CERTEAU, 1996).

É através da repetição do corpo do usuário no espaço que se estabelece o sentimento de apropriação das áreas livres das cidades. “O bairro pode ser considerado como a privatização progressiva do espaço público. Trata-se de um dispositivo prático que tem por função garantir uma solução de continuidade entre aquilo que é mais íntimo (o espaço privado da residência) e o que é mais desconhecido (a cidade)” (CERTEAU, 1996, p. 42).

Certeau (1996), ainda identifica o papel do bairro como um intermédio entre o conceito de dentro (casa) e fora (urbano), onde explica:

Assim, o limite público/privado, que parece ser a estrutura fundadora do bairro para a pratica de um usuário, não é apenas uma separação, mas constitui uma separação que une. O público e o privado não são remetidos um de costas para o outro, como dois elementos exógenos, embora coexistentes; são muito mais, são sempre interdependentes um do outro, porque, no bairro, um não tem nenhuma significação sem o outro (CERTEAU, 1996, p. 43). David Harvey (2005) apresenta as concepções do espaço tempo como criadas necessariamente através de práticas e processos matérias que apresenta como serventia a reprodução da vida social. Para Certeau (1996), o bairro surge como o domínio onde a relação espaço-tempo é a mais favorável para um usuário que deseja deslocar-se por ele a pé pela vizinhança. “É o pedaço de cidade atravessado por um limite, distinguindo o espaço privado do espaço público: é o que resulta de uma caminhada, da sucessão de passos numa calçada, pouco a pouco significada pelo seu vínculo orgânico com a residência” (CERTEAU, 1996, p. 41).

Certeau (1996), por fim, apresenta a prática do bairro como fuga da repetição de trajetos funcionais que permeiam o cotidiano da vida urbana. “A caminhada de quem passeia pelo seu bairro é sempre portadora de diversos sentidos: sonho de viajar diante de uma certa vitrine, breve sobressalto sensual, excitação do olfato sob as arvores do parque, lembranças de itinerários enterrados no chão desde a infância” (CERTEAU, 1996, p. 44). Os espaços da memória, a rememoração do passado, o ato das pessoas olharem para trás se dá a partir de diversas razões, mas uma é comum a todos: a necessidade de adquirir um sentido

(41)

do eu e da identidade pertencente a um grupo social inserido em um contexto espacial (TUAN, 1983).

Portanto, pode-se concluir, a partir da fala dos autores, a relação entre o sentimento de pertencimento que o recorte territorial do bairro influencia na identificação da pessoa com a cidade em que se habita. É nesta parcela do tecido urbano onde identifica-se, primeiramente, a ideia de territorialidade, onde o usuário se sente reconhecido na cidade, assim como em relação aos demais habitantes (CERTEAU, 1996; LYNCH, 2010). Da mesma forma, os bairros surgem enquanto parte importante da sociabilidade na vida cotidiana, onde se efetivam as experiências do viver na cidade, permitindo-se, a partir daí, estabelecer significados (TUAN, 1983; CARLOS, 2001; LYNCH, 2010).

Assim, a cidade pode ser entendida através de um processo de utilização, apropriação e significação, resultante da aproximação do usuário com os espaços público existentes. A proposta de se buscar, neste estudo, as diversas significações e características que um lugar possa adotar no imaginário e percepção dos seus usuários, se justifica através da possibilidade com que a interpretação da apropriação dos espaços do cotidiano permite expressar as principais relações de identificação do sujeito, enquanto ser individual e coletivo.

São nos espaços de uso público que se encontram as relações entre as diferentes formas de sociabilização que resultam na aproximação entre o indivíduo e o meio. Compreende-se que são nestes lugares que se estabelecem os discursos do espaço, capazes de transformar e criar as cidades como processos que vivenciamos hoje.Destaca-se aqui o papel de fatores como a memória de experiências vividas em épocas passadas, sentimento de pertencimento e identificação com um grupo social, como responsáveis pelo estabelecimento de significações simbólicas e afetivas dos espaços da cidade habitada.

2.2 MEMÓRIA E IDENTIFICAÇÃO DO SUJEITO NA CIDADE. À medida que a maré sobe, as rochas ficam submersas, e à medida que desce, deixa em seu lugar apenas pequenos e esparsos lagos entre as formações rochosas. O mar avançando representa a memória viva, que em seu refluxo deixa pequenos lagos e rochas, ou seja, os lugares da memória, que moldam e contém o que restou da memória viva (HUTTON in DOS SANTOS, 1998, p. 9).

(42)

Abordando a relação entre cidade e memória, cidade e passado, cidade e história, nesse item serão estudados conceitos como memória (individual e coletiva), identidade, significação, história e corporeidade. Corroborando com o pensamento da filósofa Denise Jodelet (2002), torna-se indispensável ao estudos das cidades, compreender a relação entre os papeis da memória, significação e identidade dos lugares. A partir de diferentes abordagens apresentadas pelos autores, pretende-se compreender como estes conceitos se configuraram no decorrer da história, desenvolvimento e concepção das cidades. Adota-se como referência a ideia de que “a significação dos espaços é marcada pela cultura e pela história, e que as significações subjetivas que lhes emprestam seus ocupantes têm a ver com a biografia e a história de seu grupo” (JODELET, 2002, p. 32).

Pierre Nora (1993), apresenta o período da globalização como processo de esfacelamento da memória urbana. As consequências que vieram com a modernização das cidades acarretou numa ruptura com o passado “valorizando, por natureza, mais o novo do que o antigo, mais o jovem do que o velho, mais o futuro do que o passado” (NORA, 1993, p. 13). A ideia de que a memória urbana foi gradualmente sendo transformada em história das cidades, onde ao invés de se mostrar de forma voluntaria e deliberada, esta “passa a ser vivida como um dever e não mais espontânea; psicológica, individual e subjetiva e não mais social, coletiva, globalizante” (NORA, 1993, p. 14). Com o desenvolvimento de novas tecnologias de mídias, a memória, que antes se mostrava voltada para a herança de sua própria intimidade, passa a ser substituída pela película da atualidade (NORA, 1993, p. 8).

O impacto do processo de globalização sobre o sentimento de identidade dos habitantes, no contexto das cidades também resultou em mudanças e alterações na sua concepção. Através do desenvolvimento da independência individual, do enfraquecimento dos laços comunitários por meio das relações cada vez mais rápidas de troca e conexão com outros grupos, a cidade passa a favorecer o individualismo e a abstração coletiva (JODELET, 2002). Dificulta-se, assim, a criação dos laços sociais e o estabelecimento de relações simbólicas com os outros e com os espaços. Além disso, constata-se também uma aceleração do ritmo de vida, um intensificação das estimulações nervosas e sensoriais, um desfile rápido de imagens mutantes, que contribuem para criar uma mentalidade citadina característica, marcada pelo

(43)

desenraizamento, pelo ceticismo e pelo intelectualismo (JODELET, 2002, p. 32).

Uma vez que se reconhece os problemas de identidade como centrais na abordagem do urbano, deve-se pensar as relações dos indivíduos e dos grupos sociais nos seus espaços de vida. Recomenda-se, também, compreender de que forma é dado o sentido ao espaço por meio da construção operada pelos sujeitos sociais (JODELET, 2002). Segundo a autora, essas abordagens estão vinculadas às representações sócio espaciais e à memória dos lugares, que envolve a identidade dos indivíduos e dos grupos.

Retomando o conceito de identidade, já apresentado no item anterior, o termo faz referência aos aspectos comuns capazes de associar ou dar sentido a um grupo de pessoas ao longo de tempo e do espaço que se habita, “os indivíduos constroem suas identidades e que a manutenção destas identidades depende do processo resultante das interações mantidas por estes indivíduos no processo de compreensão de si próprios e de suas intervenções na realidade” (DOS SANTOS, 1998, p. 1).

É possível destacar como elemento determinante da identidade de um grupo ou indivíduo, o contexto social e o espaço da cidade que se encontra inserido. “A questão da copresença é um pré-requisito de constituição de identidade” (DOS SANTOS, 1998, p. 4). Da mesma forma, pode-se evidenciar o papel da informação como mediadora do processo de construção do sentimento de identificação (DOS SANTOS, 1998). A partir do avanço das mídias digitais e do acesso a informação, os conteúdos são compartilhados de forma muito mais rápida e eficaz, influenciando diretamente na conformação da identidade do homem contemporâneo.

Segundo Jodelet (2002), a perspectiva sobre a identidade resultará na apreensão do papel da memória na construção do sentido do urbano. O ambiente construído tem um papel significativo na constituição da identidade pessoal e social dos espaços da cidade. A identidade dos lugares se refere a dois aspectos importantes quando abordadas nesse contexto,

Por um lado ele concerne ao passado ambiental do sujeito, que retomando uma expressão de memória é completado pelo fato de que a identidade dos lugares vem trazer um elemento de bem estar do indivíduo, que pode encontrar frequentemente ambientes causadores de medo, sofrimento ou

Referências

Documentos relacionados

de lôbo-guará (Chrysocyon brachyurus), a partir do cérebro e da glândula submaxilar em face das ino- culações em camundongos, cobaios e coelho e, também, pela presença

A sociedade local, informada dos acontecimentos relacionados à preservação do seu patrimônio e inteiramente mobilizada, atuou de forma organizada, expondo ao poder local e ao

No primeiro livro, o público infantojuvenil é rapidamente cativado pela história de um jovem brux- inho que teve seus pais terrivelmente executados pelo personagem antagonista,

Estudos sobre privação de sono sugerem que neurônios da área pré-óptica lateral e do núcleo pré-óptico lateral se- jam também responsáveis pelos mecanismos que regulam o

Os principais resultados obtidos pelo modelo numérico foram que a implementação da metodologia baseada no risco (Cenário C) resultou numa descida média por disjuntor, de 38% no

Finally,  we  can  conclude  several  findings  from  our  research.  First,  productivity  is  the  most  important  determinant  for  internationalization  that 

A democratização do acesso às tecnologias digitais permitiu uma significativa expansão na educação no Brasil, acontecimento decisivo no percurso de uma nação em

O desenvolvimento experimental consistiu na determinação dos hormônios naturais estrona (E1), 17β-estradiol (E2), estriol (E3), do hormônio sintético 17α-etinilestradiol