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A pintura de Glauco Rodrigues e a memória nacional

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Academic year: 2021

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A pintura de Glauco Rodrigues e a memória nacional

Roberta Ribeiro Prestes1

RESUMO: As pinturas, do início da década de 1970, de Glauco Rodrigues, destacam-se por

problematizarem a identidade nacional brasileira ao longo da sua formação, abrangendo a história do país. Para tanto, o artista faz uma de uma memória nacional, de seu passado e presente, dos elementos que fizeram e fazem parte do referencial existente sobre Brasil. Por meio de suas obras questiona, indaga, denuncia as características que representam a cultura nacional. Desta forma, o objetivo central deste trabalho é relacionar a obra de Glauco com alguns elementos que fazem parte do imaginário nacional e são formadores desta identidade, sobretudo aqueles resgatados do Romantismo Brasileiro.

Palavras-chave: Glauco Rodrigues; Identidade Nacional; Primeira Missa do Brasil.

ABSTRACT: Glauco Rodrigues’ paintings, from 1960’ and 1970’, are important due to the

questions the artist asks about Brazilian’s national identity and cultural history through the images. Therefore, the article’s main point is to relate Glauco’s works with some elements that are part of Brazilian’s national imaginary and compose this identity, especially the one’s from Brazilian’s Romanticism.

Key-words: Glauco Rodrigues; Nacional Identity, Brazilian´s Fist Mass.

As obras do artista plástico gaúcho Glauco Rodrigues, que compõem a série Carta de Perto Vaz de Caminha (1971), possuem uma característica peculiar diante de seu contexto histórico-cultural2, pois apresentam uma discussão acerca da identidade nacional brasileira. Para tanto, em suas pinturas encontra-se uma série de relações com os principais artistas que representaram a cultura brasileira desde o século XIX até o XX.

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Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História pela PUCRS, bolsista CNPq. 2

A partir de meados da década de 1960 e ao longo da de 1970 o Brasil foi governado pelos militares, os quais administravam o país num regime autoritário. Neste contexto político, o setor cultural teve significativa intervenção após 1968 com o Ato Institucional de número 5 (AI-5). Porém, de 1964, quando os militares tomaram o poder, até aquele momento, os intelectuais muito questionaram e problematizaram a cultura brasileira. Este pensamento fez parte de toda uma geração, não deixando nenhum setor cultural de fora da discussão. (PRESTES, 2008).

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O diálogo presente em suas obras representam uma série de questionamentos relacionados ao nacionalismo, estes, foram levantados pelos intelectuais, com os quais estava convivendo na década de 1970. Seu diálogo com as principais vanguardas artísticas, internacionais e nacionais, proporcionaram a ele um estilo próprio na sua pintura. Assim, as relações e resgates que realizou de diferentes períodos da História Cultural do Brasil possuem uma harmonia estética e também uma coerência cultural.

Deste modo, tenho como objetivo central neste artigo, realizar uma breve discussão relacionando a identidade nacional brasileira proposta pelo movimento cultural Romântico (século XIX) no Brasil e a problematização que Glauco Rodrigues apresenta sobre este mesmo assunto a partir de sua obra A Primeira Missa no Brasil (1971).

O Romantismo foi, segundo Coutinho, um amplo movimento internacional que possuía aproximações em suas características estilísticas, sendo um “estilo artístico – individual e de época” (COUTINHO, 1999:4). Isso é, este movimento possuía muitas semelhanças em decorrência do diálogo cultural e por pertencerem ao mesmo período histórico (meados do século XIX). Entretanto, as peculiaridades de cada país foi significativa para a formação das características do movimento, tornando-o assim singular em cada realidade política e cultural, possuindo algumas variações e especificidades.

No Brasil, a maior repercussão ocorreu no setor literário, que obteve a sua independência nacional, com uma verdadeira revolução cultural, tanto na poesia como no romance, e em paralelo, na política e no social (COUTINHO, 1999: 14-15). Porém não foi apenas nas letras que o setor cultural expandiu, nas artes plásticas também. Neste, as características brasileiras foram bem peculiares, apesar de seguirem o viés do Romantismo francês, a presença da paisagem foi fundamental, mesmo quando a temática eram quadros históricos. A natureza marcava a diferença entre o velho e o novo mundo, pois a língua oficial, o português, era a dos antigos colonizadores (ROUVANET, IN Jobim, 1999: 27). Logo, buscava-se, através da arte, uma diferenciação da antiga metrópole, Portugal, para se obter uma maior aproximação da sociedade brasileira.

Assim, outra característica presente no Romantismo foi a exaltação do nacionalismo, presente naquele período, o que proporcionou uma arte com elementos de individualidade e de coletividade (COUTINHO, 1999: 23). Mais precisamente, os setores culturais, por incentivo do então governo Imperial, representou, através de elementos históricos, a nação, logo o coletivo, e ao mesmo tempo, as individualidades desta sociedade, no caso brasileiro,

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sobressaiu a natureza tropical e diversificada. Deste modo, “no Brasil, a valorização da história e do passado nacional constituiu uma das mais importantes atividades durante o Romantismo”, destaca-se a fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e a difusão de mitos, do folclore e de tradições nacionais (COUTINHO, 1999: 25).

As propostas e elementos desenvolvidos pelos literatos e pelos artistas plásticos aproximavam-se muito, pois a literatura buscava alcançar o caráter ilustrativo que a pintura possuía, para tanto, os autores descreviam a natureza (ROUANETE, IN Jobim, 1999: 21-22). Nesta natureza descrita através da palavras e ilustrada através de cores que se representou a nação brasileira no século XIX. Período do qual a formação do Estado-Nação e de uma identidade nacional faziam parte do projeto do governo Imperial.

Neste contexto cultural que a obra do artista plástico Victor Meirelles se insere. Entre as suas diversas pinturas, destaco A Primeira Missa no Brasil (1861), a qual é uma das mais emblemáticas representações da nação brasileira. Esta imagem, da primeira missa rezada em solo brasileiro fez parte de um projeto de construção da nação e da identidade. Como afirma Jorge Coli:

a descoberta do Brasil foi uma invenção do século XIX. Ela resultou das solicitações feitas pelo romantismo nascente e pelo projeto de construção nacional que combinavam então. Como ato fundador, instaurou uma continuidade necessária, inscrita no vetor dos acontecimentos. Os responsáveis essenciais encontravam-se, de um lado, no trabalho dos historiadores, que fundamentavam cientificamente uma ‘verdade’ desejada; e, de outro, na afetividade dos artistas, criadora de crenças que se encarnavam num corpo de convicções coletivas. (COLI, 2005: 23)

Desta forma, juntamente com a formação de instituições, como IHGB, o setor cultural trabalhou a favor da construção da identidade nacional e a pintura, mais especificamente, souber articular o estilo acadêmico e realista com o imaginário, dando ao mito uma representação real. A pintura de Meirelles consegue transferir “ao espectador um sabor romântico, uma coloração espontânea, enfim, mais massa do que linhas, mais vibração do que contornos” (KELLY, 1979: 25).

A Primeira Missa do Brasil (1861) representa, acima de tudo, o nascimento da nação brasileira, da nação católica. A natureza ao fundo apresenta a peculiaridade e riqueza nacional. O mito de origem, do índio “bom selvagem”, tão discutido na literatura por José de Alencar, entre outros, da colonização e da civilização sem lutas nem resistências, formam o

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imaginário, representa aquilo que posteriormente foi trabalhado e discutido por diferentes interpretes do Brasil.

O quadro de Meirelles possui uma [suposta] veracidade acerca da chegada dos portugueses. A sua base para a produção desta imagem, sem entrar no mérito da obra de Vernet, foi a Carta de Pero Vaz de Caminha (1500), na qual o autor narra a Primeira Missa celebrada no Brasil. Logo, para o período em que estava situado, século XIX, possuir um documento oficial como referencia pra a sua produção imagética significava aproximar-se ao máximo da realidade daquele dia vinte e sete de abril de 1500.

Assim, quando Glauco Rodrigues propôs, mais de um século depois, em 1971, uma releitura da pintura de Meirelles, ele não está simplesmente criticando as representações da sociedade brasileira apresentadas pelo regime militar. Ele está, principalmente, problematizando a formação e a representação da cultura brasileira ao longo de sua história, desde os primórdios até aquele momento.

A Primeira Missa do Brasil (1971), de Glauco Rodrigues, não possui a paisagem romântica do século XIX e tão pouco a mesma quantidade de índios. Em sua tela, deparamo-nos com índios, banhistas, passistas de escola de samba, araras e o mesmo altar de Meirelles. A sua missa é mais diversificada e mais harmônica, não há ninguém em árvores ou assistindo de longe, apenas espectadores, prestando ou não atenção no que se passa no centro da imagem.

Entre alguns críticos que escreveram sobre a produção plástica de Glauco do início da década de 1970, Walmir Ayala afirmou que a pintura do artista “exige antes, de tudo, do espectador, é a aceitação irreprimida do que nela pode haver de mais óbvio e até desconcertante”, entretanto, “esta simplicidade nada tem de gratuito” (AYALA, 1970: 148). Enquanto, segundo Roberto Pontual, o artista era um “carnavalesco de apito-bisturi em punho” que “tirou do baú as roupas e os adornos do índio e do folião; somou as memórias do nu e do vestido, do ‘cru’ e do ‘cozido’, da tribo e da metrópole; e se pôs a criar sambas-enredos em séries quase anuais” (PONTUAL, 1987: 359).

Podemos observar que a sua pintura possuía peculiaridades, mesmo para aqueles acostumados com a arte de vanguarda, como Roberto Pontual. Entretanto, outras questões são também relevantes nas telas do artista, como o frequente uso de ironias e metáforas, assim

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como da sátira e do riso3. O fundo das telas completamente branco destaca-se a partir de então, sugerindo uma atemporalidade de seus personagens, que transitam livremente desde 1500 até 1971.

A pintura de Rodrigues, que tem como referencial imagético a de Meirelles, articula uma série de questões sobre identidade nacional, as quais são desenvolvidas pelo artista com o uso de elementos característicos da carnavalização. Esta é mais uma das especificidades de suas telas, pois são os artifícios utilizados pelo pintor que tornam possível os questionamentos levantados sobre o país.

Ao mesmo tempo em que se apropriou de imagens emblemáticas e de símbolos que constituem o imaginário social, Glauco buscou desconstruir a representação simbólica da nação brasileira. Dialogam em suas obras personagens de tempos distintos, mas que abordam a mesma temática: o ser Brasil. Entretanto, este “ser Brasileiro” de suas telas mostravam uma realidade diferente daquela discutida anteriormente pelos interpretes do Brasil, pois não era um país homogêneo, desenvolvido e culto. O seu país era composto por brancos e negros e índios, sem distinção, pelo samba, pelo carnaval, pelo futebol, pelos portugueses, pelas cores: verde, amarelo, azul e branco, pela praia carioca, pelas araras. Na reconstrução que Glauco propõe, ou melhor, no questionamento que faz, não são alguns elementos que simbolizam o país, são todos, não é o século XIX, ou o início do XX, ou ainda aquele período, são todos eles, num conjunto organizado harmonicamente em suas telas.

Essa harmonia nada tem além de estética, a qual o pintor soube utilizar muito bem o contato com os movimentos de vanguarda e o que estava a sua disposição de técnicas. Pois a sua ordem estava na tela, na imagem idealizada, pois o país nada tem de uma construção cultural homogênea e ordeira. Ele soube usar com cautela as cores, as formas e os personagens do Brasil, pondo um pouco de tudo, um pouco de todos.

Desta forma, podemos concluir que a pintura A Primeira Missa do Brasil de Glauco Rodrigues é uma releitura que sugere ao espectador um país novo, uma identidade nacional diferente, onde há espaço para todos, algo que foge à realidade, sobretudo, do período em que

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A ideia de sátira e de riso, que faço referência, tem como base as definições de Mikhail Bakhtin, os quais são aspectos da cultura popular. Apesar do autor se referir à Idade Média, os argumentos apresentados sobre isso, estão relacionados às festividades não oficiais; ambas possuem um diálogo também com a carnavalização, que está presente na obra de Glauco. Esta, por sua vez, apresenta uma série de variações, mas resumidamente, pode-se dizer que o carnaval é “a festividade da vida”, onde pode-se inpode-sere o cômico, o riso, a sátira, etc. (BAKHTIN,1984).

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estava inserido. Assim, utilizando os mesmos símbolos exacerbados pelo governo militar, ele soube, metaforicamente, criticar de maneira tão sutil a construção que vinha sendo feita da identidade nacional brasileira desde o século XIX, que muitas vezes nem foi percebido. Entretanto, seu índio já estava civilizado, andando no meio dos brancos, porém, seu homem branco regressava à barbárie, portando cocar.

Imagens:

Victor Meirelles. Primeira Missa no Brasil, 1861. Tinta a óleo sobre tela, 268x356cm.

Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

Glauco Rodrigues. A Primeira Missa no Brasil, 1971.

Tinta acrílica sobre tela, 81x100c,

Coleção Gilberto Chateaubriand, Rio de Janeiro

Referências Bibliográficas:

AYALA, Walmir. A criação plástica em questão. Petrópolis: Vozes, 1970.

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COLI, Jorge. Como estudar arte brasileira do século XIX? São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2005.

COUTINHO, Afrânio. O Movimento Romântico (p. 4-36). IN: A Literatura no Brasil: A era romântica. volume 3, parte II. São Paulo: Global, 1999.

JOBIM, José Luís (org). Introdução ao Romantismo. Rio de Janeiro: EdUFRJ, 1999.

KELLY, Celso. A Pintura do Romantismo. (p. 13 – 26). IN: Ciclo de conferências promovido pelo Museu Nacional de Belas Artes. Século XIX: O Romantismo. Rio de Janeiro: Museu Nacional de Belas Artes, 1979.

PRESTES, Roberta Ribeiro. Ditadura Militar, nacionalismo e as representações simbólicas na pintura de Glauco Rodrigues. (Trabalho de Conclusão de Curso). Porto Alegre: PUCRS, 2008.

Referências

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