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Guia de Regras
2 ÍNDICE: 1. AMBIENTAÇÃO p.3 2. REGRAS GERAIS p.3 2.1 Turnos p.3 2.1.1 Carta de ação p.4
2.1.2 Quem pode usar a carta de ação? p.4 2.1.3 Trabalho da imprensa p.4
2.1.4 - Momento de Pausa p.4
2.2 Dinâmica de discussão em sala p.5
2.2.1 Sala Conselho de Segurança (CS) - Regra de Debate p.5
2.2.1.a Início de Sessão ____p.5 2.2.1b Moção p.5
2.2.1c Questões p.6
2.1.2 Salas Táticas e de Guerra - (Gabinete dos EUA, Sala Tática Europa e Sala Tática “Vermelha”) - Regras de Debate p.6
2.1.2 a Comunicação p.7
2.1.2b Armageddon p.7
2.1.3 Sala Submarino Nuclear - Regras de debate p.7 3. O GABINETE VERMELHO p.8
3.1 Principais funções p.8
3.2 Ambientação e Objetivos p.8
3.3 Modelo de resolução do Conselho de Segurança p.8
3.4 Posição dos países envolvidos no Conselho de Segurança p.12 4. TEXTO DE APOIO p.14
3 O FEP, neste ano, terá como tema a crise na península coreana. Serão seis salas totalmente interligadas, ou seja, as ações de um comitê afetarão os demais em maior ou menor grau, dependendo da situação. As salas são as seguintes:
● Conselho de Segurança (28 - 60 membros); ● Gabinete dos EUA (Inglês) (6 - 12 membros);
● Sala Tática Europa (Reino Unido, França e Alemanha) (6 - 12 membros); ● “Gabinete Vermelho”: Rússia/China/Coreia do Norte (6-12 membros); ● Submarino: (10- 20 membros);
● Sala de imprensa: (0-8 membros);
1. AMBIENTAÇÃO
2. Em 15 de Janeiro de 2018, Um submarino, o GORAE choego jidoja (Líder Supremo), afundou o destróier americano USS Fitzgerald, alegando que este estava em suas águas territoriais, causando 32 mortes e 15 desaparecidos. Tal incidente fez crescer as pressões contra o regime de Kim Jong Un. Horas após o incidente, o governo chinês deslocou o seu porta-aviões “Liaoning” para as águas norte-coreanas, para garantir uma resolução pacífica e evitar o conflito. O Pentágono reagiu à manobra, acusando a China de proteger o governo de Pyongyang. Em sua página no Twitter, Donald Trump chamou o líder norte-coreano de morto-vivo e exigiu uma retratação e a entrega do submarino. Chamou também o líder chinês Xijimping de fraco e otário. No dia 16, um avião chinês, ao fazer um voo rasante perto de uma esquadra americana, foi abatido pelo destróier US Mary, que alegou manobra defensiva e que a aeronave chinesa assumiu clara posição de ameaça. Tal incidente fez a China aumentar as suas tropas na fronteira e no mar das Coreias. O Governo russo declarou apoio à China e ao governo norte-coreano, deslocando suas tropas para a fronteira com a Coreia do Norte, e acusou os EUA de criar uma crise artificial e ameaçar a integridade e a autodeterminação dos povos asiáticos. A Coreia do Sul e o Japão se alinharam aos Estados Unidos. O submarino norte-coreano está desaparecido. Uma reunião do Conselho de Segurança (CS) foi marcada às pressas para tentar resolver o conflito.
2. REGRAS GERAIS:
2.1 Turnos:
Para realizar uma maior interação entre as salas serão construídos turnos de aproximadamente 3h reais que irão representar um dia na simulação. Tal fato é necessário, pois pode haver pequenas distorções de tempo entre as salas e isto irá organizar melhor os movimentos estratégicos de tropas ou ações táticas. Os participantes deverão apresentar, ao final de cada turno, um documento que será a carta de ação, o qual apontará as ações que serão efetivamente realizadas.
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2.1.1 Carta de ação
Carta de ação é a tomada de decisão do grupo que irá afetar os acontecimentos no próximo turno (um dia na simulação). Ela deverá conter todos os detalhes relevantes para a ação e somente o que está escrito será levado em conta. Se algo essencial for esquecido, pode afetar o sucesso da ação.
2.1.2 Quem pode usar a carta de ação?
Uma carta de ação é expedida por cada líder de nação representado, ou seja: EUA, Coreia do Norte, Rússia, China, Inglaterra, França e Alemanha, apenas nas salas táticas e de guerra.
No submarino, a cada turno, os tripulantes devem produzir um “Diário de Bordo”, contendo a rota e os procedimentos a serem tomados. Devido à dinâmica do submarino, a rota pode ser alterada, porém, isto deve ser também posto no diário. Os tripulantes poderão escolher um indivíduo para ser o responsável pela feitura do diário de bordo.
Na sala Conselho de Segurança (CS), os delegados não possuem poderes políticos para fazer ou romper tratados. Devem seguir a política externa do seu país e conseguir o máximo de vantagem diplomática possível. Porém, podem fazer Cartas de Recomendação Diplomática (CRD), que também podem ser produzidas a cada turno. O objetivo da CRD é sugerir tomadas de decisão dos governos que podem ser desde ações diplomáticas, como acordos bilaterais, até movimentação militar. Por serem sugestões, elas deverão ser avaliadas pela mesa, que, ao início da próxima sessão, dirá qual é a resposta oficial do país. Os delegados que representarem as nações cujos líderes possuem participantes reais no FEP, como a China e a Alemanha, não precisam fazer a CRD, pois estarão constantemente em comunicação com os líderes do seu governo através de um sistema de comunicação interno.
2.1.3 Trabalho da imprensa
Ao final de um turno, a imprensa deverá ter composto uma capa e uma matéria sobre o ocorrido no Fórum. O documento deverá estar pronto logo após o “momento de pausa” e deverá ser lida, a exceção da sala submarino, em todas as salas. A Imprensa pode a qualquer momento pedir uma entrevista a qualquer membro do FEP, à exceção dos tripulantes do submarino. A entrada da imprensa na sala Conselho de Segurança (CS) é livre e sem restrições, porém, não pode interferir nas discussões. Nas salas táticas ou de guerra, apenas mediante a autorização dos membros e, no submarino, a visita não é permitida.
2.1.4 - Momento de Pausa
Ao final de cada turno, ocorrerá uma pausa de 30 minutos para que as mesas se reúnam para analisar as ações dos participantes e preparar um novo cenário de
5 ação. Ao início de cada turno, um novo cenário de ação será apresentado a todos os presentes em cada comitê.
2.2 Dinâmica de discussão em sala
Cada Sala tem uma dinâmica própria e regras distintas de organização do debate. Em todas as salas, a mesa possui o poder final sobre a orientação e o andamento do debate. A mesa pode alterar as regras, se achar necessário, para manter o andamento da atividade. Não serão permitidas ofensas aos participantes, salvo aquelas que forem pertinentes à simulação. Em casos extremos, um participante pode ser convidado a se retirar da atividade.
2.2.1 Sala Conselho de Segurança (CS) - Regra de Debate
No Conselho de Segurança (CS), existe um ambiente diplomático e, desta maneira, há um conjunto de regras mais rígidas a serem seguidas. Toda a linguagem deve ser diplomática e formal, evitando gírias e comentários de baixo calão. Nesta sala, o debate pode ter três dinâmicas diferentes:
Debate em lista - os delegados serão colocados em uma lista fechada e terão um determinado tempo para discursar. A fala deve seguir rigorosamente a ordem da lista. Este tipo de debate é muito útil no início e na conclusão do trabalho;
Debate Moderado - a cada fala, os delegados serão convidados a levantar suas placas. A mesa escolhe entre as placas levantadas qual terá direito à fala. Este debate é muito útil quando se pretende ter um debate mais fluido;
Debate Não Moderado - nesta forma de debate, os delegados podem sair de seus lugares e conversar livremente durante um período pré-determinado. Este debate é muito útil para se finalizar documentos.
2.2.1.a Início de Sessão
No início de cada sessão, o debate começa obrigatoriamente em lista, dando preferência inicial aos membros permanentes do Conselho de Segurança (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China). Após a fala destes, o debate em lista é aberto para novas inscrições de fala. Para se inscrever, basta a delegação levantar sua placa e seu nome será colocado na lista. O debate prossegue até a Mesa Diretora mudar ou haver uma moção.
2.2.1b Moção
Moção é um pedido que pode ser feito a qualquer momento por qualquer delegação e tem por motivo a alteração do fluxo do debate. Pode-se pedir a alteração do modelo do debate (lista, moderado e não moderado), para pedir a leitura de um documento, para apresentar uma proposta ou modificar o tempo limite de fala (no caso de debates moderados e em lista) ou mesmo modificar o tempo de debate não moderado. No caso de debate não moderados o padrão é de 5 (cinco) minutos, porém, este valor pode ser alterado pela mesa ou a pedido dos delegados. Os
6 pedidos de moção possuem regras de precedência, ou seja, vota-se a moção mais radical e, caso ela seja aprovada, não é preciso votar as outras moções.
Moção especial – nesta, os delegados podem fazer um pedido para convocar ou aceitar o pronunciamento de um líder de país representado nas demais salas. Apenas um pronunciamento pode ser feito por sessão e não pode ser superior a 10 minutos. Caso deseje, o Líder de país pode ceder espaço para questões ou dúvidas e este espaço não pode exceder o tempo máximo de 5 (cinco) minutos.
2.2.1c Questões
As questões existem para atender às dúvidas dos delegados e manter o fluxo do debate. Só podem ser direcionadas à Mesa Diretora. Podem ser de três tipos: de Dúvida, de Ordem e de Privilégio Pessoal. A questão de dúvida é utilizada quando um delegado necessita de alguma informação, substantiva e/ou procedimental, pertinente ao andamento do debate. Por exemplo, se um documento é votado por maioria simples ou qualificada ou mesmo a respeito das regras do debate. A
questão de ordem pode ser apresentada por qualquer delegado, sem interromper
o discurso de outro, quando ele observar algo que seja relativo às regras de procedimento da Reunião que não esteja sendo cumprido ou pedir uma análise mais detalhada do procedimento da mesa. Ela deverá ser imediatamente apreciada pela Mesa Diretora, que poderá desconsiderá-la se o delegado proponente não houver mostrado moderação e decoro no uso desse direito ou se a questão for inapropriada em sua natureza. A questão de privilégio pessoal é a única que pode interromper a discussão e, quando apresentada por um delegado, a Mesa Diretora deverá apreciá-la imediatamente. Ela só deve ser utilizada quando delegado experimentar desconforto pessoal (estar impossibilitado de escutar o discurso de outro delegado, por exemplo), seja esse físico ou psicológico. Novamente, este recurso pode ser negado pela mesa. Em caso de ofensa pessoal ou ataque ao país, pode ser considerado pela Mesa Diretora um direito de resposta imediato com o mesmo tempo de fala do delegado que promoveu a infração em questão.
EM TODOS OS CASOS, A MESA É SOBERANA EM DECIDIR OS PROCEDIMENTOS A SEREM TOMADOS.
2.1.2 Salas Táticas e de Guerra - (Gabinete dos EUA, Sala Tática Europa e “Gabinete Vermelho”) - Regras de Debate.
Nestas salas, o modelo de debate padrão é o debate não moderado (ver item 2.2.1). A qualquer momento, este modelo de debate pode ser alterado, mediante a apresentação de pedido por parte de qualquer membro da sala à Mesa Diretora. O procedimento de votação é o mesmo do CS. Na sala “Gabinete dos EUA”, quem acata ou não qualquer pedido de alteração do debate é o presidente Donald Trump, porém, a Mesa tem a última palavra no andamento dos debates. Nas salas “Tática Europa” e “Gabinete Vermelho”, os membros de um mesmo país podem fazer
7 reuniões sigilosas. Neste caso, eles podem pedir para ir a uma sala reservada e sigilosa onde podem traçar planos. Para tanto, devem pedir à Mesa Diretora para se ausentar e apresentar um tempo máximo que não pode ser superior a 15 minutos. Apenas um pedido de reunião sigilosa pode ser feito por sessão ou turno.
2.1.2 a Comunicação
A comunicação na sala é extremamente controlada. Os participantes não podem interagir durante o FEP com membros de outras salas, salvo em casos específicos que serão detalhados aqui:
Comunicação direta com o delegado correspondente no CS: cada país, nas salas táticas ou de guerra, possui um representante no CS. A comunicação será feita via Skype ou similar, a ser definido no início de FEP. Neste caso, a comunicação é livre;
Convocação para discurso no Conselho de Segurança: um líder de país pode ser convocado para um pronunciamento na CS. Neste caso, apenas o líder do país poderá ir à sala do CS e fazer um pronunciamento. Neste caso, e somente neste caso, a imprensa pode fazer uma transmissão ao vivo para todas as salas (à exceção do submarino);
Comunicação com o submarino nuclear: apenas a Coreia do Norte pode inicialmente se comunicar com o submarino. A comunicação é livre e somente será feita via rádio. Mensagens de texto ou de qualquer outro tipo serão proibidas.
2.1.2b Armageddon
Caso algum país resolva utilizar seu arsenal atômico e atacar com armas nucleares, este deve apresentar a decisão à Mesa Diretora e explicar detalhadamente o ataque, fornecendo hora de lançamento, origem e destino do ataque. Após a aprovação da Mesa, devem se locomover até a sala do juízo final, a ser definida no início do FEP, e apertar o botão. Todos os membros do país devem concordar com a decisão, com exceção da Coreia do Norte, em que apenas o líder Kim Jong Un pode tomar esta decisão. Uma vez acionado o botão, cabe aos membros acatarem as consequências deste ato.
2.1.3 Sala Submarino Nuclear - Regras de debate
Nesta sala, assim como nas salas táticas e de guerra, o modelo de debate padrão é o debate não moderado (ver item 2.2.1). A qualquer momento, este
8 modelo de debate pode ser alterado mediante a apresentação de pedido por parte de qualquer tripulante à Mesa Diretora. O procedimento de votação é o mesmo do CS. Não é permitida a comunicação desta sala com as demais. Celulares ou similares não podem ser conectados à internet. Esta também é a única sala em que a visita da imprensa pode ocorrer (um tanto óbvio!!!). A única comunicação com o mundo exterior será um sistema de rádio ligado diretamente aos líderes da Coreia do Norte.
3. O GABINETE VERMELHO
“Gabinete Vermelho” foi o nome dado pelo jornalista Alex Delarge, do Orange Chronicle, ao encontro entre os líderes Vladimir Putin (Rússia), Kim Jong Un (Coreia do Norte) e Xi Jinping (China), para tentar resolver a crise na península coreana. O encontro foi marcado inicialmente em Pequim, mas, devido à tensa conjuntura internacional, foi transferido para um local secreto.
3.1 Principais funções
● Construir coletivamente um acordo para resolver o impasse na península coreana;
● Impedir a presença de tropas dos EUA, da OTAN ou da UE na Coreia do Norte;
● Não permitir a instalação de sistema de interceptação de mísseis na região;
● Diminuir a presença militar dos EUA no mar do Japão;
● Construir um sistema de cooperação regional;
● Programa Nuclear - diminuir a tensão mundial e manter o sistema de defesa.
3.2 Ambientação e Objetivos
No FEP, o Gabinete Vermelho terá como objetivo coletivo a construção de uma política conjunta e eficiente que garanta ao máximo possível os interesses
particulares de cada um dos três Estados-membros. Este é um gabinete de cunho operativo, ou seja, deverá executar ações que afetarão toda a dinâmica do Fórum. Os membros representarão chefes de Estado e suas atitudes terão consequências internacionais e nacionais. Desta maneira, em termos práticos, poderão fazer as seguintes ações:
1. Construir uma política comum entre as partes (PCP); 2. Ações Externas Diplomáticas (AED);
3. Ações Externas Econômicas (AEE); 4. Ações Externas Militares (AEM); 5. Ações de Política Interna (API).
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3.2.1 Construir política comum entre as partes (PCP)
O PCP é um documento que expressa formalmente a posição coletiva do “Gabinete Vermelho” e é necessariamente levado à apreciação das demais salas do FEP (à exceção do submarino). Devido a sua formalidade, ele exerce notável força na sala do Conselho de Segurança (CS), pois as atitudes dos delegados devem ser norteadas por esses documentos. Eles precisam ser devidamente escritos e assinados pelos três líderes para serem considerados legítimos. Este documento pode conter acordos de cooperação militar e econômica, posicionamento estratégico ou de apreciação ou repúdio a alguma ação externa.
Exemplo
Adotada pela conferência tripartite Rússia, China e Coreia do Norte, realizada em 1º de dezembro de 2017.
Os presentes Estados abaixo assinados,
Expressando grave alarme e preocupação com a perigosa escalada militar,
Reiterando seu firme compromisso com a soberania, a independência, a unidade e a integridade territorial da Coreia do Norte,
Condenando a luta e a violência contra civis e atentados à soberania dos povos,
Congratulando os esforços dos delegados da Bolívia e do Uruguai no esforço de manter a paz mundial,
Condenando nos termos mais fortes ataques e ameaças contra as autoridades representativas da República Popular Democrática da Coreia,
Tendo determinado que a presença de tropas dos Estados Unidos ainda está constituindo uma ameaça à paz e à segurança internacionais na região,
Atuando de acordo com o Capítulo VII da Carta das Nações Unidas,
1. Solicita a cessação imediata das hostilidades e o estabelecimento de um diálogo imediato;
2. Exige que todas as partes cooperem plenamente no esforço de manutenção da paz;
10 4. Decide, portanto, que, tendo em vista as circunstâncias urgentes da situação, seja feito o envio de 200.000 soldados de força tarefa conjunta ao sul da Coreia do norte, ao longo do Paralelo 38 norte, respeitando a área desmilitarizada.
5. Autoriza os demais comandantes militares de batalhões a reagirem a qualquer sinal que ameace a integridade territorial que desrespeite o acordo de armistício coreano assinado em 27 de Julho de 1953;
6. O acordo passa a ter validade a partir da data de publicação.
_________________________ ______________________________ ___________________________
Vladimir Putin Xi Jimping Kim Jong Un
3.2.2. Ações Externas Diplomáticas (AED)
Atividade muito comum no FEP. Trata-se de tentar construir acordos diplomáticos com outros países que não estão presentes no Gabinete Vermelho. O acordo deve ser escrito em linguagem formal e entregue ao final do turno à Mesa Diretora. No início do próximo turno, o documento será levado para o líder ou delegado do referido país para apreciação. No caso dos líderes, a aprovação, se houver interesse do participante que o representa, é imediata. No caso do delegado, ele deverá, caso aprove, mandar uma carta de recomendação diplomática à Mesa do CS, que irá analisar qual seria a posição do líder nacional em questão. Estes documentos, assim que chegarem aos respectivos líderes, poderão ser respondidos imediatamente e devolvidos sem precisar terminar a sessão.
3.2.3. Ações Externas Econômicas (AEE)
Trata-se de acordos econômicos entre países do “Gabinete Vermelho” com demais países presentes no FEP. Precisam estar escritos em linguagem formal e o mais detalhado possível. Entram em vigor após a ratificação de todos os países envolvidos.
3.2.4. Ações Externas Militares (AEM)
As manobras militares serão feitas em turnos. Na primeira 1h de FEP, os Gabinetes Táticos e de Guerra irão definir o posicionamento inicial de suas tropas pelo globo. No “Gabinete Vermelho” e na “Sala Tática Europa”, as decisões de movimentos de
11 tropas podem ser feitas em conjunto ou em sigilo. Após a primeira hora do turno, serão divulgados a todos os comitês (à exceção do submarino) os posicionamentos iniciais. A partir deste movimento, os turnos de combate seguirão da seguinte maneira:
Inicio do Turno/Dia
● Ataque (Convencional, Balístico ou Nuclear); ● Movimentação de tropas;
● Contra-ataque ou Resposta de Movimento.
3.2.4.b Ataque
O Ataque pode ser de três modalidades que podem, ou não, ser usadas simultaneamente. O Ataque Convencional envolve tropas físicas, por isso, é necessário possuir tropa em prontidão e preparada para o ataque. Necessariamente, esta tropa precisa estar na região do conflito em condições de ataque. Os Ataques Balísticos (mísseis de longo alcance) e Nucleares (de longo alcance) não precisam estar perto do alvo, mas podem ser interceptados em algumas condições específicas.
No caso de um ataque à ordem, o procedimento deve ser detalhado o mais precisamente possível em uma Carta de Ação. Quanto mais detalhado, maiores as condições de sucesso.
3.2.4.c. Movimentação de tropas
A movimentação de tropas é o reposicionamento militar. Ele foi colocado propositalmente após o turno de ataque para poder criar um ambiente mais realista, proporcionando às forças de defesa se realinharem. Como cada turno é um dia, as tropas devem seguir o movimento base real de deslocamento:
● Tanque de Guerra - velocidade máxima - 80km/h estrada e 30km/h terreno acidentado;
● Bombardeio/ Paraquedistas/ Transporte - 1000km/h; ● Caças - 7000km/h;
● Esquadra Marinha de Guerra - 60 Km/h.
Estes valores são aproximados, mas cada equipamento de guerra possui uma velocidade específica.
3.2.4.d Contra-Ataque ou Resposta de Movimento
Logo após a AEM, os demais membros terão as noticias da ação. Neste momento, os Gabinetes de Guerra terão 1h para decidirem se farão resposta militar. Ao final deste período, poderão fazer uma ação de resposta, com os recursos disponíveis, que podem ser de movimento ou ataque. Importante: não há contra-ataque de “contra-ataque”.
12 3.2.4.e Ações de Política Interna
Durante o FEP, ocorrerão crises internas que envolverão respostas dos gabinetes presidenciais. Alguns problemas já estão previstos pela Mesa Diretora e serão expostos a cada país do “Gabinete Vermelho” no início de cada sessão. Porém, outros serão consequência da política adotada pelos participantes. Desta maneira, as ações tomadas pelos dirigentes deverão ser pensadas e repensadas, para não criar um cenário interno que possa levar à instabilidade ou, até mesmo, à queda do governo. Pesquise sobre a realidade interna do seu país no FEP para evitar desagradáveis surpresas.
3.4 Posição dos países envolvidos no Gabinete Vermelho
Segue abaixo um pequeno resumo da política externa de cada país. Para um melhor aproveitamento do FEP, é importante que o participante pesquise e colete mais informações sobre o seu país.
Rússia
A Rússia vem disputando geopoliticamente a expansão de sua influência pela Ásia e pela Europa, o que vem gerando conflitos com países europeus e com a China. Na região da península coreana, a Rússia não deseja o aumento da presença americana na região. Vladimir Putin vem aumentando sua força militar e geopolítica, o que vem ameaçando a hegemonia dos Estados Unidos. A Federação Russa é uma república semipresidencialista federal, que tem o presidente como chefe de Estado e o primeiro-ministro como chefe de governo. Desde que ganhou a sua independência com o colapso da União Soviética, no fim de 1991, a Rússia enfrentou sérios desafios no seu esforço para criar um sistema político após 75 anos de dominação soviética. Por exemplo, as principais figuras nos ramos Legislativo e Executivo defendem visões opostas da direção política da Rússia e dos instrumentos governativos que devem ser usados. O conflito alcançou o seu clímax em setembro e outubro de 1993, quando o presidente Boris Ieltsin usou força militar para dissolver o parlamento e convocou novas eleições legislativas (ver Crise constitucional russa de 1993). Este evento marcou o fim do primeiro período constitucional russo, que ficou definido pela muito emendada constituição adotada pela República Russa, em 1978. Uma nova constituição, criando uma presidência forte, foi aprovada em referendo em dezembro de 1993. Com uma nova constituição e um novo parlamento multipartidário, a estrutura política russa demonstrou, logo em seguida, sinais de estabilização. Como o período de transição se estendeu pela primeira metade da década de 1990, a centralização do poder em nível nacional continuou a declinar, já que as regiões passaram a desfrutar de certa autonomia política. Apesar do fim do conflito entre os poderes Executivo e Legislativo, ambos permaneceram como representantes de duas visões distintas sobre o futuro do país. Há vários problemas internos no país, como movimentos separatistas (na região do
13 Cáucaso), a presença da Máfia Russa e uma crescente oposição popular ao governo Putin agravada pela crise econômica.
China
Maior apoiador do regime norte-coreano. Para o governo chinês, o regime de Pyongyang é um ótimo estado tampão entre eles e a área de influência estadunidense. Para Pequim, as disputas sobre as águas no mar do Japão são essenciais para a sua segurança estratégica, aumentando as chances de conflito entre China e Japão. Apesar da tensão geopolítica com os EUA, a guerra não é, a princípio, interessante para a China.
Governada pelo PCC (Partido Comunista da China), o país se notabiliza pela ausência de oposição ao governo, já que o poder do partido hegemônico está consagrado pela constituição chinesa. Altamente hierárquico, o sistema eleitoral chinês apresenta o seguinte modelo: os Congressos Populares locais têm seus membros eleitos diretamente, sendo que todos os outros níveis mais elevados da esfera política chinesa passam a ter seus membros eleitos de modo indireto, por meio dos membros dos Congressos Populares. Há outros partidos políticos chineses, chamados de partidos democráticos, que apenas fazem figuração na Assembleia Popular Nacional, bem como na Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CPPCC). O cargo de presidente na China é preenchido seguindo o modelo descrito anteriormente e, após eleito, o presidente passa a ocupar também o cargo de secretário-geral do Partido Comunista da China, além de presidente da Comissão Militar Central e líder político do país. A China apresenta tensões políticas nacionais, incluindo movimentos nacionalistas e separatistas, como o Tibet, Xinjang e Guangxi. O crescimento econômico produz uma urbanização veloz ,o que agrava os problemas sociais e amplia os desejos internos por uma democratização do regime.
Coreia do Norte
Pivô da crise. O regime norte-coreano é o mais fechado do mundo. Para o governo, seu sistema de mísseis é importante para a sobrevivência do país, constantemente ameaçado pelo imperialismo americano. A Coreia do Norte não recebe inspeções da ONU e não assinou o tratado de não proliferação de armas nucleares. A Coreia do Norte é regida sob um governo Juche autodeclarado com um acentuado culto de personalidade organizado em volta de Kim Il-sung (o fundador da Coreia do Norte e o primeiro presidente do país). Após a morte de Kim Il-sung, em 1994, ele foi substituído por Kim Jong il, e foi sepultado no Palácio Memorial de Kumsusan, no centro de Pyongyang. Atualmente, o chefe do executivo de fato é Kim Jong-un, que é considerado o presidente da Coreia do Norte. A legislação norte-coreana é a Suprema Assembleia Popular, presidida pelo presidente da República. Outra figura sênior do governo é o primeiro-ministro Pak Pong-ju. Ao contrário do que diz o senso comum, a Coreia do Norte não é um Estado unipartidário. Possui 679 parlamentares de três partidos, além de oito parlamentares independentes, eleitos nas últimas eleições, realizadas em 9 de março de 2014. O
14 Partido dos Trabalhadores da Coreia elegeu a esmagadora maioria do plenário (607 parlamentares). A Frente Democrática de Reunificação da Pátria é uma coligação do Partido dos Trabalhadores da Coreia e de outros dois partidos menores, o Partido Social-Democrata da Coreia e o Partido Chondoista Chongu. Estes partidos nomeiam todos os candidatos para cargos e ocupam a maioria dos assentos da Assembleia Popular Suprema. O país enfrenta uma grave crise de abastecimento e energia, principalmente fora da capital Pyongyang.
4. TEXTOS DE APOIO COREIAS
A península coreana na mira do império
A política internacional da Guerra Fria modulou desde o início as relações entre as duas Coreias. Segundo Bruce Cumings, em seu North Korea: Another Country (2004), já logo após o armistício em 1953, os Estados Unidos introduziram armas nucleares na Coreia do Sul e, desde então e nas décadas seguintes, sempre tiveram presente fazer uso delas já no início de uma eventual nova guerra na península.
Por: Ricardo Pagliuso Regatieri*
13 de julho de 2017
Recentemente, a península coreana se converteu mais uma vez em centro das atenções mundiais e é objeto de preocupação no que diz respeito a um possível conflito armado ou mesmo a uma escalada nuclear. Com efeito, mais de um quarto de século após a derrocada do sistema soviético e dos regimes do Leste Europeu a ele associados, a Guerra Fria naquela região do planeta, com sua roupagem bem particular, parece não ter acabado. A divisão entre Coreia do Sul e Coreia do Norte remonta ao final da Segunda Guerra Mundial e ao início da disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética no plano mundial. Em 1905, na sequência das vitórias japonesas na Guerra Sino-Japonesa (1894-1895) e na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), e no âmbito da política imperialista que, ao fim e ao cabo, conduziu o Japão a duas guerras mundiais, a península coreana se tornou um protetorado japonês. O fim do regime colonial e a libertação da Coreia só vieram a ter lugar com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial em 1945. No contexto da nova divisão de poder e de território a ser levada a cabo no Leste Asiático após a vitória sobre o Japão, os Estados Unidos – cujas tropas não se encontravam na península coreana – propuseram à União Soviética – com tropas já estacionadas ali – uma ocupação conjunta e a divisão da Coreia na altura do paralelo 38 (a poucos quilômetros ao norte de Seul), sob controle soviético no norte e norte-americano no sul. Ainda no fim da ocupação japonesa, pouco antes da rendição, começaram a ser organizados “comitês do povo” como preparação para a retomada da independência
15 do país. Enquanto no norte os soviéticos estimularam os comitês do povo, nos quais, em pouco tempo, passaram a preponderar os comunistas que haviam atuado na resistência contra os japoneses, no sul, o governo militar instalado pelos Estados Unidos, eliminou-os e aliou-se com os conservadores locais vinculados aos interesses do capital. Ainda que o compromisso inicial fosse o estabelecimento de um governo unificado, os interesses que em muito pouco tempo se organizaram dos dois lados do paralelo 38 tornavam cada vez mais distante a ideia da unificação. Em 1948, foram formados um governo no Sul e outro no Norte, cada um deles contando com a retaguarda da respectiva potência de ocupação: o Sul sob a liderança de Syngman Rhee, em Seul, e o Norte, com Kim Il Sung (avô do atual presidente norte-coreano, Kim Jong Un) à frente, em Pyongyang. Em junho de 1950, a já tensa situação na altamente militarizada fronteira imaginária ao longo do paralelo 38 se converte em conflito armado e tem início a Guerra da Coreia.
Como aponta Michael E. Robinson em Korea’s Twentieth-Century Odyssey (2007), a Guerra da Coreia foi a primeira daquelas que ficariam conhecidas como “guerras de impasse” ou “guerras limitadas” no período da Guerra Fria – limitadas em virtude das consequências catastróficas de qualquer conflito mais amplo entre os Estados Unidos e a União Soviética. Robinson também chama a atenção para o fato de que, com esse enfrentamento militar, teve início o uso de eufemismos que, hoje em dia, são correntes: nos Estados Unidos, a guerra foi noticiada como “conflito” e como “ação policial” e é com ela que aparece a expressão “bombardeio cirúrgico”. Foi também na Guerra da Coreia que se registrou pela primeira vez a ampla utilização de aviões a jato e de napalm. A guerra se encerrou em 1953 com um armistício, que está em vigor até a presente data – o que significa dizer que ela formalmente não chegou a termo. Do fim da guerra em diante, Coreia do Norte e Coreia do Sul seguiram distintas trajetórias de modernização retardatária. Orbitando em torno da União Soviética e da China, a primeira se edificou com base na ideologia do Juche patrocinada por Kim Il Sung, cujos pilares são a independência política e a autossuficiência nos campos da economia e da defesa, e que segue em vigor como a essência do “socialismo” coreano. À segunda, foi facultado pelos norte-americanos o acesso favorável a seu conhecimento, tecnologia e mercados, que foram fatores indispensáveis à rápida industrialização e modernização do país, fortemente impulsionadas pelo governo ditatorial de Park Chung Hee (pai da ex-presidente sul-coreana, Park Geun Hye, eleita em 2012 pelo conservador Partido Saenuri, removida do cargo por um processo de impeachment em março de 2017 e atualmente presa). Tendo liderado um golpe militar, em 1961, e sido presidente da Coreia do Sul desse ano até seu assassinato, em 1979, Park Chung Hee promoveu uma agressiva industrialização orientada às exportações cuja base foram conglomerados empresariais familiares, os chaebol – Samsung, Hyundai, LG, Daewoo e Korea Airlines são algumas das mais conhecidas dentre essas empresas. De 1994, ano do falecimento do fundador da República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte) e sua sucessão por seu filho Kim Jong Il, a 1998, o país passou por uma fome em massa, em parte resultante da desintegração da União
16 Soviética e do fim de seu apoio econômico. Por outro lado, como fruto do “milagre do Rio Han” (expressão que se refere ao acelerado crescimento econômico sul-coreano, especialmente a partir da década de 1960, aludindo ao rio que corta Seul), que teve lugar sob regimes autoritários que forjaram, conforme a expressão de Kyung-Sup Chang, uma “modernidade condensada”, não sem enorme sacrifício humano, a República da Coreia (Coreia do Sul) se tornou membro da OCDE em 1996 e, atualmente, tanto seu governo como boa parcela de sua intelectualidade rejeitam qualquer outra caracterização do país que não seja a de “desenvolvido”.
A política internacional da Guerra Fria modulou desde o início as relações entre as duas Coreias. Segundo Bruce Cumings, em seu North Korea: Another Country (2004), já logo após o armistício, em 1953, os Estados Unidos introduziram armas nucleares na Coreia do Sul e, desde então e nas décadas seguintes, sempre tiveram presente fazer uso delas já no início de uma eventual nova guerra na península, enquanto que a estratégia adotada para a Europa em caso de conflito era a de lançar mão de armas convencionais até se esgotarem todas as alternativas, e só então partir para aquela opção drástica. Também a partir do final da guerra, a Coreia do Norte respondeu à ameaça representada pelo poderio militar norte-americano desenvolvendo enormemente sua capacidade de defesa – um dos pilares da ideologia do Juche. Mais de sessenta anos depois do fim da Guerra da Coreia, como escreveu Cumings em um artigo, em março do presente ano, na revista The Nation, o país de 25 milhões de habitantes tem o quarto maior exército do mundo, diversas instalações militares subterrâneas e, nas montanhas próximas à fronteira ao norte de Seul, mísseis que podem atingir todas as bases militares norte-americanas na região – os Estados Unidos mantêm 28.500 soldados em suas bases na Coreia do Sul –, além de bombas nucleares mais poderosas do que a de Hiroshima. No contexto do fim da Guerra Fria e com base na experiência com as bombas “inteligentes” na Guerra do Golfo, George H. W. Bush retirou, no início da década de 1990, todo o armamento nuclear estacionado na Coreia do Sul. Pouco depois, em 1994, durante a administração de Bill Clinton, foi firmado um acordo para congelar a produção norte-coreana de plutônio por oito anos; em 2000, outro foi negociado visando à compra, pelos Estados Unidos, de todos os mísseis de médio e longo alcance da Coreia do Norte; e ainda outro foi assinado estipulando que nenhum dos dois países sustentaria “intenções hostis” em relação ao outro. Mas na sequência do ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, a administração de George W. Bush passou a ignorar os acordos firmados e incluiu a Coreia do Norte no assim chamado “eixo do mal”. Além da Coreia do Norte, Bush apontou o Irã e o Iraque, em seu discurso sobre o State of the Union, de janeiro de 2002, como países buscando construir armas nucleares e pediu o apoio da população norte-americana no enfrentamento com esses países no âmbito de sua “guerra ao terror”. Cumings conclui dizendo que Pyongyang não possuiria atualmente armas nucleares caso os acordos patrocinados por Clinton houvessem sido cumpridos pelos Estados Unidos.
17 Em “Imperium”, artigo publicado na New Left Review, em 2013, Perry Anderson joga luz sobre a política externa norte-americana desde o fim da Segunda Guerra Mundial e fornece elementos que permitem matizar a conclusão de Cumings, de modo a ir além da determinação conjuntural e atentar para aspectos estruturais da configuração internacional de poder. Segundo Perry Anderson, a Guerra Fria foi sempre assimétrica e marcada pela postura ofensiva dos norte-americanos, visando à hegemonia mundial, e pela posição defensiva dos soviéticos. Esses últimos nunca possuíram uma grande estratégia de preponderância de poder no plano global, de modo que a iniciativa do conflito recaiu sobre a parte mais forte, frente à qual a mais fraca teve que se posicionar. Ainda que por parte dos Estados Unidos a ideologia justificando o enfrentamento o apresentasse como “contenção” e como uma questão de “segurança”, o objetivo final era a vitória e a eliminação do inimigo. Com o fim da Guerra Fria, encerra-se uma época e os Estados Unidos se convertem na única superpotência mundial. Entretanto, não havia razão para descansar, já que a grande estratégia hegemônica, engendrada a partir das décadas de 1940 e 1950, precisava ser completada: o modelo soviético desapareceu, mas o capitalismo ainda não havia cumprido seus desígnios enquanto uma ordem planetária com apenas um ator hegemônico; a democracia de mercado ainda não existia em toda parte; e, na hierarquia mundial, nem todos os Estados sabiam o seu lugar. Anderson afirma que os estrategistas norte-americanos sempre insistiram que o poder de seu país não deveria se assentar apenas sobre a força do bom exemplo, isto é, o fato de ser um modelo de riqueza e liberdade a ser emulado por toda a civilização do capital, mas que a isso se unia inseparavelmente a força das armas. As guerras nos Balcãs foram pioneiras em virtude não só dos avanços da eletrônica em termos da precisão dos ataques, de resto já inaugurada na primeira Guerra do Iraque, mas, acima de tudo, por ter sido legitimada pela nova doutrina dos direitos humanos, capaz inclusive de se sobrepor ao princípio da soberania nacional. A “guerra ao terror” de George W. Bush, lançando mão da ideia de uma grande ameaça à civilização ocidental, é mais uma roupagem da estratégia imperial: a opinião pública dos Estados Unidos é bombardeada com o perigo iminente, agora não já dos soviéticos, mas sim de organizações extremistas e Estados-pária. Ela leva adiante, segundo Anderson, a premissa mais geral que move a atuação internacional dos Estados Unidos desde o final da Segunda Guerra: promover os interesses do capital assegurando, ao mesmo tempo, a supremacia nacional norte-americana. Esse amálgama corresponde ao conteúdo do imperialismo norte-americano de caráter global. A chegada ao poder dos democratas com Obama pouco alterou a diplomacia imperial dos Estados Unidos, mas adicionou ao cardápio de armas os drones, e sofisticou os ataques de precisão e sem baixas de militares norte-americanos. O poder crescentemente acumulado pela presidência dos Estados Unidos, com uma inversamente proporcional necessidade de accountability, foi herdado e expandido por Obama. A máquina de guerra que o império se tornou não se reconverteu na figura da utopia liberal de antes da Segunda Guerra finda a Guerra Fria: as instituições, dispositivos e ideologias geradas e acumuladas durante o
18 enfrentamento com a União Soviética se cristalizaram num imenso complexo com uma dinâmica própria que não necessita mais ser movido pela ameaça soviética.
Nesse contexto, a política de deterrence adotada por Pyongyang parece ser algo mais realista do que fruto da loucura de um líder que é fã de Mickey Mouse. Como formulado por Cumings, a Coreia do Norte é o único país que tem sido sistematicamente chantageado pelo poderio nuclear dos Estados Unidos desde o início da década de 1950. A virada de Bush em relação à distensão promovida por Clinton, com a inclusão do país na lista de inimigos prioritários, se não deve ser vista como um fato conjuntural isolado e sim dentro do quadro mais amplo da geopolítica do império, foi, por outro lado, decisiva para o desenvolvimento do programa nuclear norte-coreano nos últimos quinze anos. No momento, a política de Twitter de Donald Trump só traz mais imprevisibilidade e instabilidade à península coreana. Mas, por outro lado, um outro fator conjuntural é promissor para o desenrolar das relações entre as duas Coreias: a eleição de Moon Jae In, do Partido Democrático, para a presidência do país no pleito realizado antecipadamente, no último dia 9 de maio, em virtude do impeachment de Park Geun Hye. A conservadora Park havia congelado as relações com a Coreia do Norte e firmado acordo com Obama para a instalação de um escudo antimísseis – o Terminal High Altitude Area Defense (THAAD) – no território sul-coreano, que, recentemente, começou a ser implantado pela administração de Trump. Moon, que atuou como advogado de direitos humanos e foi um opositor da ditadura de Park Chung Hee, tem se posicionado contra o THAAD (que ademais conta com forte oposição entre a população da Coreia do Sul). Foi um dos proponentes da chamada Sunshine Policy – uma política de aproximação entre as duas Coreias, posta em marcha em 1998 e,depois, descontinuada –, defende o diálogo com a Coreia do Norte e já propôs uma visita ao país vizinho. A política de Pyongyang sempre foi e continua sendo marcada pelo pragmatismo, de modo que Kim Jong Um deverá lidar com o novo presidente sul-coreano sem deslumbramento, já que sabe que, com Moon, não é de se esperar grandes abalos na lógica do business as usual.
* Ricardo Pagliuso Regatieri é doutor em Sociologia pela USP, tendo realizado período de doutorado sanduíche na Goethe-Universität Frankfurt. Foi professor na Korea University e na Hankuk University of Foreign Studies, ambas em Seul. Atualmente, é pós-doutorando no Departamento de Sociologia da USP, com bolsa da FAPESP.
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Coreia do Norte: o impasse e a ameaça nuclear
Por Pierre Rousset
Publicado no site Viento Sur. Tradução Rodrigo Claudio.
A guerra da Coreia ( 1950-1953) nunca foi resolvida com um tratado de paz. A ferida despertou com profundas implicações para toda a região e para o mundo inteiro. O conflito entre Washington e Pyongyang faz com que a situação seja hoje instável e o futuro, incerto.
A atual espiral conflituosa não era inevitável. Para fazer baixar as tensões na península, bastaria que os Estados Unidos suspendessem as grandes manobras militares empreendidas com a Coreia do Sul contra Coreia do Norte – ou que Pyongyang tivesse respondido favoravelmente às ofertas de diálogo que, depois de sua recente eleição, apresentou o novo presidente sul-coreano, Monn Jae-in.
O que quer Kim Jong-un?
Quer assegurar a sobrevivência do regime frente a um entorno internacional muito hostil e quer forçar os Estados Unidos a assinar um tratado de paz com todas as formalidades – que, depois do armistício de 1953, jamais foi assinado – e a reconhecer a Coreia do Norte como estado nuclear. Observando o destino imposto ao Iraque de Sadam Hussein ou à Líbia de Kadafi, Kim está convencido de que a posse de tal arsenal é, em médio prazo, uma garantia indispensável de independência, sabendo que, no fundo, a proteção chinesa é aleatória.
Pyongyang informa regularmente que o abandono de seu programa nuclear é algo que se pode contemplar caso os Estados Unidos pusessem fim às hostilidades; algo que os grandes jornais ocidentais não mencionam quase nunca. Era a posição norte-coreana nas negociações diplomáticas dos anos 1990 ou 2000. No entanto, pode-se duvidar de que hoje, em vista dos progressos realizados neste campo, o regime esteja disposto a fazê-lo, sem, pelo menos, garantias consideráveis que implicam, por exemplo, a desnuclearização de toda a península coreana e seus arredores.
O lugar atribuído às armas nucleares é uma marca de Kim Jong-un. Na verdade, ele alterou radicalmente a política realizada por seu pai e avô em dois eixos: por um lado, acelerando brutalmente este programa (multiplicação de testes e disparos, aumento do alcance de mísseis balísticos, miniaturização e construção de inúmeras ogivas, pesquisas sobre a bomba de hidrogênio) e, por outro lado, permitindo a
20 liberalização parcial de uma economia de mercado para estabilizar a situação social interna que permanece muito frágil.
Sua política é racional, como muitos especialistas apontam, mas tem sérias consequências: o relançamento da corrida armamentista, o aumento do militarismo na região (no Japão, em particular), um freio para a abertura na Coreia do Sul após a derrota da direita revanchista. O novo presidente, Moon Jae-in, pertence a uma tradição política que atribui grande importância à questão nacional, à reunificação do país e, portanto, a uma abertura em direção a Pyongyang. Suas ofertas de diálogo provavelmente não eram fictícias.
No entanto, Kim Jong-un apenas quer negociar com os Estados Unidos e ignora o presidente Moon. Nestas condições, este último é obrigado a aceitar o reforço da presença militar dos EUA em seu país e a implantação de novas baterias antimísseis Thaad, o que rejeitou imediatamente após a sua eleição.
O que quer Donald Trump?
Ele quer, em primeiro lugar, o que o establishment democrata e republicano quer: não reconhecer a Coreia do Norte. O progresso diplomático iniciado na década de 1990, sob Bill Clinton, foi sabotado por George Bush Jr. (que colocou Pyongyang no eixo do mal) e Barack Obama, que prosseguiu a mesma política.
O contexto atual reforça essa posição agressiva. O status legal de guerra na península (de não paz) permite manter as bases militares americanas na Coreia do Sul, e até reforçá-las. Aos olhos de Washington, este desafio estratégico é particularmente importante quando a hegemonia chinesa é reforçada no mar do sul da China: a hegemonia norte-americana deve, nesse sentido, afirmar-se com força no Pacífico Norte.
Deve-se lembrar que os mísseis Thaad implantados na Coreia do Sul têm um alcance operacional que cobre uma grande parte do território da China, e não simplesmente a Coreia do Norte – o que suscita muita preocupação em Pequim, já que isso neutraliza em grande parte o seu próprio arsenal nuclear. Na verdade, com a crise coreana, Trump quer pressionar Pequim por razões de ordem global: a grande potência estabelecida (neste caso, os Estados Unidos) não vê com bons olhos o crescimento internacional da jovem potência emergente (China ).
Donald Trump e o alto comando das forças armadas também querem obter um aumento considerável no orçamento militar, o que está longe de ser alcançado; um clima de guerra é um argumento de peso nas negociações no Congresso dos EUA.
21 Ele também quer nos fazer esquecer a sua situação desastrosa no nível doméstico (escândalos, crescente impopularidade).
Julgado como demasiado imprevisível, vai querer este homem inveterado dar algum dia consistência a sua retórica vingativa e a seus anúncios apocalípticos, ainda que seja criando um incidente que desencadeie uma reação em cadeia, incontrolável?
Tudo isto constitui um coquetel temível que inquieta inclusive os mais próximos aliados internacionais dos Estados Unidos.
Outro fator potencial de instabilidade é a evolução da situação na Coreia do Norte. Até agora, as sanções econômicas internacionais não têm conseguido seus objetivos. O regime tem meios para se esquivar ( ainda que a um custo financeiro notável) e pode contar com o nacionalismo da população que não esqueceu até que ponto o país foi literalmente reduzido a cinzas pelos bombardeios norte-americanos nos anos 50. Até agora, o regime tem aguentado e persegue, sem contemplações, qualquer dirigente norte-coreano suscetível de aparecer como alternativa a Kim Jong-Un. Se apesar de tudo, em um futuro próximo, aparecerem fissuras no aparato do partido-estado, quais seriam as consequências?
Corrida Armamentista Nuclear
Não temos dúvida sobre a responsabilidade histórica dos Estados Unidos na situação da crise atual. Entretanto, o regime norte-coreano tem se convertido em um fator ativo de militarização no Pacífico Norte e muito mais. No entanto, qualquer confronto militar nesta parte do mundo, mesmo que “acidental”, pode se tornar nuclear.
A corrida armamentista nuclear se amplia. Estados Unidos, França, tentam criar as condições políticas para a utilização efetiva de bombas pretensamente táticas. A blindagem antimísseis dos Estados Unidos levou a Rússia a manter seu arsenal em um nível muito alto e a China, a aumentá-lo.O parque de ogivas chinesas é pequeno; foi considerado suficiente na conjuntura passada, mas não mais: tem que ser modernizado, aumentado e disperso nos oceanos, através de uma frota de submarinos estratégicos … dos quais Moscou está munida, mas Pequim ainda não.
O tratado de não proliferação está desatualizado.
Nestas condições, é dramático que, na França, não existam movimentos significativos a favor do desarmamento nuclear e da política governamental (de todos os governos) neste terreno.
22 Publicado originalmente no site:
http://www.europe-solidaire.org/spip.php?article41998
O reerguimento da Rússia, os EUA/OTAN e a crise da Ucrânia: a geopolítica da nova Ordem Mundial
Wanderley Messias da Costa - Professor Titular do Departamento de Geografia da USP e especialista em Geografia Política e Relações Internacionais
O renascimento da geopolítica clássica como inspiradora de estratégias nacionais, rivalidades e conflitos envolvendo, sobretudo, as grandes potências, com impactos em praticamente todas as regiões e povos do mundo, é um dos aspectos destacáveis da transição em curso em direção a uma nova ordem nas relações internacionais.
A restauração da Rússia como grande potência com projeção regional e mundial e os rumos dominantes da sua estratégia de poder e de influência na política internacional, como o formidável reaparelhamento das forças armadas, a recente reaproximação com a China, a calculada movimentação que visa a contrastar a hegemonia dos EUA/OTAN e a ousada e ostensiva intervenção política e militar na atual crise da Ucrânia são processos e eventos emblemáticos das aceleradas mudanças do mundo deste início do século 21 e que nos inspiram a examiná-los pondo em relevo as concepções da antiga e sempre renovada geopolítica.
Neles se expressam elementos e padrões de comportamento característicos das antigas, emergentes ou restauradas grandes potências quando protagonistas de disputas em torno dos seus valores e interesses nacionais assentados nos seus respectivos territórios e áreas de domínio, controle ou influência. Expressam, ao mesmo tempo, a complexidade das eras de transição de uma ordem mundial para outra e, neste caso, da bipolaridade para a multipolaridade ou polaridades ainda indefinidas. Trata-se de eventos envolvendo fricções, tensões, crises e conflitos impulsionados pela competição de largo espectro por hegemonia e pelos movimentos por afirmação política, emancipação, autonomia e soberania de estados, nações, nacionalidades e comunidades políticas em países, territórios, fronteiras, regiões e províncias que têm se desenvolvido em praticamente todas as escalas e fímbrias do espaço político mundial.
Na crise da Ucrânia, regional stricto sensu, mas de alcance global pela força com que projeta externamente seus impactos, veio à superfície o modo particular de conceber e por no terreno a política internacional que vigorou durante séculos e que teve seu apogeu no período de predomínio dos impérios (a Era dos Impérios, de Hobsbawm), em que os antagonismos e as guerras expressaram a face violenta da
23 luta pelo poder. Ademais, embates políticos e confrontos militares em que territórios e regiões são objeto e fonte do poder dos estados e ocupam, portanto, o centro das estratégias nacionais dos antagonistas.
Em outros termos, e ainda que isso desperte sentimentos de perplexidade (e mesmo de repúdio) em parte da comunidade dos estudiosos e da opinião pública internacional, a crise em tela expõe a retomada do secular caminho trilhado pelas grandes potências para manter ou aumentar suas reservas de poder, pondo em movimento a diplomacia e a máquina de guerra para fazer valer seus interesses nacionais nas disputas de todas as escalas, isto é, nas suas relações de vizinhança e alhures, tendo como objetivos o domínio, o controle ou a influência e, no limite, a conquista e a anexação de territórios.
Na transição em curso para uma nova Ordem Mundial, a emergência de novos polos de poder e o notável engajamento da comunidade internacional em torno da paz e da cooperação têm moldado um ambiente internacional que favorece o otimismo dos liberais e construtivistas da teoria das relações internacionais do início dos anos 1990 - ou do imediato Pós-Guerra Fria -, como Francis Fukuyama e James Rosenau1. Daí o crescimento da condenação e do repúdio à modalidade de política fundada na pura disputa pelo poder que caracterizou período remoto da história e que estaria, segundo eles, em declínio e em vias de ser superado por novos valores e meios de resolução de conflitos. Tratar-se-ia, portanto, de esforço coletivo na construção de arranjos institucionais e de mecanismos que assegurassem o relacionamento entre os Estados pautado pelo multilateralismo e por um conjunto previamente acordado de normas consuetudinárias e, cada vez mais, formalmente jurídicas, inscritas no Direito Internacional.
No contrafluxo dessa corrente em prol da paz e da cooperação, entretanto, os eventos de setembro de 2001 e, especialmente, aqueles desta segunda década do século 21, com a ampliação e o agravamento dos conflitos em todas as escalas, são um claro sintoma da tendência geral de deterioração do ambiente político internacional, que tem sido marcado cada vez mais pela incerteza, a insegurança e os riscos globais. A rigor, os antecedentes dessa deterioração encontram-se no imediato pós-Guerra Fria, com a invasão do Iraque pela coalizão militar organizada sob os auspícios da ONU e liderada pelos EUA. Seguiram-se diversos eventos, como a crise dos Bálcãs, no contexto do desmantelamento da Iugoslávia com enfrentamentos armados entre grupos nacionais da Sérvia, Croácia, Bósnia-Herzegovina e Kosovo e a posterior intervenção militar dos EUA/OTAN, além dos diversos conflitos no Chifre da África e na África Subsaariana, incluindo práticas de genocídio, como os de Ruanda e Burundi. Também os primeiros sinais do profundo antagonismo envolvendo as potências ocidentais (e especialmente os EUA) e o movimento islâmico radical com seus inúmeros episódios de violência, tais como os atentados terroristas ao World Trade Center em Nova York (1993) e às embaixadas norte-americanas do Quênia e do Iêmen (1998).
24 Ocorre, contudo, que nos processos de transição de um período histórico para outro, o novo tende a manifestar-se enredado ao velho, isto é, as típicas modalidades de conflitos e violência da ordem global, como os atentados terroristas e a atuação das milícias (a guerra irracional de que fala John Keegan) têm convivido ou compartilhado a arena da política e da guerra com os eventos característicos da antiga ordem e os seus clássicos antagonismos e rivalidades entre Estados-Nações e, particularmente, as Grandes Potências em suas disputas por influência e poder travadas nas escalas dos países, das regiões e do mundo.
Daí porque as crises da Geórgia, em 2008, e em especial esta em curso da Ucrânia, nas quais estão diretamente envolvidos os EUA, a OTAN e a Rússia, nos remete ao universo da velha geopolítica do início do século 20 e às concepções de Halford Mackinder – o mais importante dos pais fundadores da geopolítica - com a sua formidável ideia-síntese de que o espaço político (mais propriamente, o espaço geopolítico) mundial é imensa arena em que grandes e médias potências se fortalecem e se contrastam em termos de poder político e militar, agrupam-se e reagrupam-se em alianças de todo tipo e, não raro, confrontam-se continuamente para disputar o poder mundial.
Em suma, a predominância de concepção e estratégia que têm raízes na geografia, isto é, nos territórios e em suas fronteiras, regiões e lugares e, principalmente, suas populações, infraestruturas, redes de circulação, recursos naturais e outras
virtualidades do tipo que integram e podem contribuir para fortalecer o poder do Estado expresso no âmbito interno e na sua projeção externa2.
Tudo indica, portanto, que a particularidade histórica do atual quadro político mundial é o choque e, por vezes, o amálgama entre essas duas tendências dominantes que atuam ora nas bordas, ora no centro da espessa trama na qual se movimenta a política entre as nações e demais atores da cena internacional. De um lado, a abrangente globalização que vai muito além da economia e que se desenvolve junto (ou imbricado) à tendência de descentralização do poder político - um sistema cada vez mais policêntrico – e ao revigoramento do direito internacional e das instituições multilaterais em prol da solução pacífica para os conflitos. De outro, e esta é a perspectiva aqui enfatizada desde o início, a recorrência de um padrão clássico e bastante familiar aos geopolíticos e realistas da Teoria das Relações Internacionais que têm se mantido firmes na concepção geral de que a política internacional move-se, essencialmente, pela atuação dos estados nacionais e, sobretudo, das grandes potências, na defesa dos seus interesses e no aumento das suas reservas de poder, um padrão geral que explicita um sistema político em permanente busca pelo equilíbrio de poder
É nesse quadro de jogo de espelhos entre o velho e o novo que se inscreve o processo em curso da restauração da posição de grande potência da Rússia. No esforço de recuperação do tempo (e do espaço) perdido, sua política estratégica atual de natureza essencialmente geopolítica impulsiona movimentos na direção de
25 dois objetivos principais. Na frente ocidental, contrastar e conter duramente os EUA/OTAN em suas políticas de expansão/contenção em direção ao leste e, no limite, manter ou reconquistar para a sua órbita de influência direta a Ucrânia, as três ex-Repúblicas Soviéticas do Báltico (Lituânia, Letônia e Estônia), a Moldávia, parte do Cáucaso (Geórgia e Armênia) e o Ártico com suas cobiçadas jazidas de petróleo e gás e as novas rotas interoceânicas.
Na sua projeção para o Leste, esse ativismo russo se expressa, sobretudo, por um acentuado esforço de aproximação com a China, país com o qual tem história marcada pela alternância entre períodos de cooperação (como o fundamental apoio russo à Revolução Chinesa, entre 1946 e 1949) e rivalidades, neste caso envolvendo graves disputas fronteiriças nos anos 1960. Esse longo ciclo de relações envolveu diversos tratados (o primeiro é de 1689) e, na sua etapa atual, claramente tendendo à convergência entre os dois países, consolidou-se com o acordo de demarcação de fronteiras, em 1991, que estabeleceu a partilha dos territórios em contenda e com o Tratado de 2004, que estabeleceu as fronteiras comuns, a sua desmilitarização e os direitos de circulação e comércio4.
Na sua estratégia na frente ocidental, a Rússia projeta manter ou retomar sua presença combinando diplomacia, dissuasão e ação militar em suas antigas áreas de influência, isto é, a Europa Oriental e o Báltico e, ao sul, o Cáucaso, no qual utilizou a força militar com a invasão da Geórgia, em 2008, seguida da incorporação de fato das suas províncias da Ossétia do Sul e Abkházia. Dentre esses movimentos recentes, entretanto, o que melhor ilustra a determinação do país de seguir o caminho traçado para retomar sua posição de grande potência - e o que mais tem despertado a atenção da comunidade internacional - é a sua sistemática ingerência na política interna da Ucrânia e, nesse caso, em explícita confrontação com o Ocidente, a cooptação e o apoio militar aos insurgentes de ascendência russa das províncias orientais do país e, finalmente, a integração (do seu ponto de vista) ou a anexação (do ponto de vista ocidental) da Crimeia, em março de 2014. É preciso considerar, entretanto, que, além da retomada da proeminência da Rússia, o olhar sobre a geopolítica do século XXI deve deter-se no exame da rápida ascensão da China à posição de grande potência, país que tem a segunda maior economia, é o líder das exportações do mundo e que, nos últimos anos, tem intensificado seu ativismo diplomático na escala global. Além do mais, é notória sua disposição para arranjos de cooperação comercial e econômica em geral e, preferencialmente, no seu Entorno Regional, que tem se ampliado rapidamente com o comércio, os investimentos diretos e a influência política em mais de uma dezena de países da África e da América Latina nos últimos anos.
Na Ásia de Sudeste e na Ásia-Pacífico essa ofensiva tem assumido natureza mais claramente político-estratégica ou geopolítica de tipo clássico, isto é, a face agressiva de grande potência que recorre à dissuasão militar ou ao uso da força, se necessário, na defesa do que considera seus legítimos interesses nacionais.
26 Essa modalidade de expressão de poder da grande potência é observável tanto nos seus antigos contenciosos, como são os casos do Tibete (sua colônia de fato) e Taiwan (país a que ainda denomina de “Província Rebelde”), como nas suas mais recentes reivindicações territoriais no espaço marítimo, a exemplo das disputas que mantém com o vizinho Japão em torno das Ilhas Senkaku5 e com o Vietnã, Filipinas, Malásia, Taiwan e Brunei, tendo como alvo o Arquipélago de Spratly no Mar da China Meridional, no contexto da complexa definição das respectivas Zonas Econômicas Exclusivas e os decorrentes direitos de exploração das comprovadas jazidas de petróleo e gás da região.
Observando esse quadro ainda que em seus traços mais relevantes, tudo indica que é do outro lado do mundo e no imenso Bloco Euroasiático que será disputada a grande contenda genuinamente geopolítica de escala global nas próximas décadas. Na frente oriental desse bloco, a China será capaz de romper o cerco (o “colar de pérolas”) que expressa plenamente a vigência do poder marítimo que lhe é imposto pelos EUA e seus aliados ocidentais e asiáticos? Na frente ocidental, a Rússia será capaz, com suas antigas e renovadas reservas de poder, de romper as linhas da poderosa contenção que lhe é imposta pela ação coordenada dos Estados Unidos e seus aliados europeus agrupados na OTAN?
O quadro na escala do mundo sugere, também, que, nessa reconfiguração geopolítica em curso, o processo de maior expressão e com poder de influência nas próximas décadas são os vigorosos movimentos de aproximação entre a Rússia e a China, que tem se processado primeiro pela criação de um ambiente propício à convivência pacífica para, em seguida, desdobrar-se em direção a uma aliança abrangente ou mais propriamente estratégica das duas grandes potências. Como visto, solucionados seus antigos contenciosos no início dos anos noventa, o processo de aproximação avançou em abrangência e profundidade com a criação da Organização para a Cooperação de Xangai, em 2013 (integrada pela China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão), um mecanismo de concertação de conteúdo marcadamente econômico, mas que, também, abrange compromissos de natureza político-estratégica e especificamente militar6.
Esse ativismo marcado pelas relações de cooperação entre os dois países na atualidade também se expressa na celebração de novos arranjos comerciais bilaterais, sendo o mais vistoso deles o recentemente firmado Acordo Energético, envolvendo o fornecimento à China de 38 bilhões de metros cúbicos de gás por ano, ao longo de trinta anos
Caso venha a se consolidar a formidável - e poucos anos atrás, improvável - aliança entre as duas grandes potências euroasiáticas, que, além de países-baleia, contam com vantagens comparativas e competitivas derivadas dos seus territórios, recursos naturais, populações, infraestrutura, poder econômico e força militar, o mundo assistirá pela primeira vez à formação de um imenso e poderoso Bloco Eurasiano capaz de confrontar, nos anos que seguem, o até então incontrastável poder político