TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL MINUTA DE JULGAMENTO FLS. *** SEXTA TURMA ***
2008.03.00.022059-8 338269 AI-SP
PAUTA: 18/09/2008 JULGADO: 18/09/2008 NUM. PAUTA: 00008
RELATOR: DES.FED. CONSUELO YOSHIDA
PRESIDENTE DO ÓRGÃO JULGADOR: DES.FED. LAZARANO NETO PRESIDENTE DA SESSÃO: DES.FED. CONSUELO YOSHIDA
PROCURADOR(A) DA REPÚBLICA: Dr(a). SERGIO FERNANDO DAS NEVES AUTUAÇÃO
AGRTE : OURO FINO IND/ DE PLASTICOS REFORCADOS LTDA AGRDO : Uniao Federal (FAZENDA NACIONAL)
ORIGEM : JUIZO DE DIREITO DO SAF DE RIBEIRAO PIRES SP ADVOGADO(S)
ADV : EDISON FREITAS DE SIQUEIRA
ADV : FERNANDO NETTO BOITEUX E ELYADIR FERREIRA BORGES SUSTENTAÇÃO ORAL
CERTIDÃO
Certifico que a Egrégia SEXTA TURMA,ao apreciar os autos do processo em epígrafe, em sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Turma, por unanimidade, deu provimento ao agravo de instrumento, nos termos do voto do(a) Relator(a).
Votaram os(as) DES.FED. REGINA COSTA e JUIZ CONV RICARDO CHINA.
_________________________________ NADJA CUNHA LIMA VERAS Secretário(a)
PROC. : 2008.03.00.022059-8 AI 338269 ORIG. : 0600012387 A Vr RIBEIRAO PIRES/SP 0600129071 A Vr RIBEIRAO PIRES/SP
AGRTE : OURO FINO IND/ DE PLASTICOS REFORCADOS LTDA ADV : EDISON FREITAS DE SIQUEIRA
AGRDO : Uniao Federal (FAZENDA NACIONAL)
ADV : FERNANDO NETTO BOITEUX E ELYADIR FERREIRA BORGES ORIGEM : JUIZO DE DIREITO DO SAF DE RIBEIRAO PIRES SP
RELATOR: DES.FED. CONSUELO YOSHIDA / SEXTA TURMA
RELATÓRIO
A EXCELENTÍSSIMA SENHORA DESEMBARGADORA FEDERAL CONSUELO YOSHIDA (RELATORA).
Trata-se de agravo de instrumento, contra a r. decisão proferida em execução fiscal que deferiu penhora sobre numerário, em nome da executada, existente em instituição financeira.
Alega, em síntese, a nulidade da decisão agravada, diante da ausência de fundamentação, o que vulnera o disposto no art. 93, IX da CF e art. 165 do CPC; que a penhora on line constitui quebra do sigilo bancário, o que vedado pelo art. 5º, X, da Carta Magna; que tal constrição é medida excepcional, sendo que o d. magistrado de origem acolheu o pleito da exeqüente e autorizou a penhora de seus ativos financeiros através do sistema Bacenjud, sem que a exeqüente tenha comprovado que diligenciou a procura de outros bens penhoráveis, em ofensa ao disposto no art. 620, do CPC; sustenta que a penhora em dinheiro lhe acarretará prejuízos ao funcionamento.
Processado o agravo com a concessão do efeito suspensivo pleiteado. Após, com a apresentação de contraminuta, vieram-me os autos conclusos.
Dispensada a revisão, nos termos do art. 33, inciso VIII, do Regimento Interno desta C. Corte. É o relatório.
PROC. : 2008.03.00.022059-8 AI 338269 ORIG. : 0600012387 A Vr RIBEIRAO PIRES/SP 0600129071 A Vr RIBEIRAO PIRES/SP
AGRTE : OURO FINO IND/ DE PLASTICOS REFORCADOS LTDA ADV : EDISON FREITAS DE SIQUEIRA
AGRDO : Uniao Federal (FAZENDA NACIONAL)
ADV : FERNANDO NETTO BOITEUX E ELYADIR FERREIRA BORGES ORIGEM : JUIZO DE DIREITO DO SAF DE RIBEIRAO PIRES SP
RELATOR: DES.FED. CONSUELO YOSHIDA / SEXTA TURMA
VOTO
A EXCELENTÍSSIMA SENHORA DESEMBARGADORA FEDERAL CONSUELO YOSHIDA (RELATORA). Assiste razão à agravante.
É certo que, conjugado ao princípio da menor onerosidade (art. 620 do CPC), vigora também o princípio de que a execução se realiza no interesse do credor (art. 612 do CPC).
Em princípio, verifico que a r. decisão agravada, proferida no contexto da execução fiscal, reporta-se à manifestação da exeqüente de fls. 98, destes autos, cujo teor pleiteia a penhora on line de ativos financeiros do executado para fins de garantir a execução; logo não há que se falar em nulidade do decisum por ausência de fundamentação.
A Constituição Federal protege a intimidade, a privacidade, a honra e a imagem das pessoas, e consequentemente, nesse aspecto, abrange a garantia à inviolabilidade do sigilo de dados (CF, art. 5º, X e XII).
Entretanto, há que se considerar que os direitos e garantias individuais, inclusive aqueles referentes à intimidade e à privacidade, não se revestem de caráter absoluto, cedendo em razão do interesse público, ou até mesmo diante de conflitos entre as próprias
liberdades públicas, merecendo cuidadosa interpretação, de forma a coordenar e harmonizar os princípios, evitando o sacrifício total de uns em relação aos outros (princípio da relatividade ou convivência das liberdades públicas).
O acesso às informações e documentos complementares somente é permitido na hipótese de serem detectados indícios de falhas, incorreções ou omissões, ou de cometimento de ilícito fiscal, ficando o agente tributário obrigado a guardar segredo das informações e dados obtidos, norma já consagrada pelo art. 198, do CTN.
De outra parte, dispõe o art. 185-A, do Código Tributário Nacional, introduzido pela Lei Complementar nº 118, de 09 de fevereiro de 2005, que:
Na hipótese de o devedor tributário, devidamente citado, não pagar nem apresentar bens à penhora no prazo legal e não forem encontrados bens penhoráveis, o juiz determinará a indisponibilidade de seus bens e direitos, comunicando a decisão,
preferencialmente por meio eletrônico, aos órgãos e entidades que promovem registros de transferência de bens, especialmente ao registro público de imóveis e às autoridades supervisoras do mercado bancário e do mercado de capitais, a fim de que, no âmbito de suas atribuições, façam cumprir a ordem judicial. (grifei)
A atual legislação prevê que o juiz pode decretar a indisponinibilidade de bens do devedor do fisco; contudo, tal hipótese ocorre somente se, citado o devedor, este não pagar o débito nem nomear bens à penhora e não forem encontrados bens do executado, situação que deve ser demonstrada pela exeqüente, devendo o procedimento ocorrer preferencialmente através de meio eletrônico. Em 08 de maio de 2001, foi firmado convênio de cooperação técnico-institucional entre o Banco Central do Brasil, o Superior Tribunal de Justiça e o Conselho da Justiça Federal para fins de acesso, via Internet, ao Sistema Bacenjud, através do qual, o STJ, o CJF e os Tribunais signatários de Termo de Adesão, poderão, dentro de suas áreas de competência, encaminhar às instituições financeiras e demais instituições autorizadas a funcionar pelo BACEN, solicitações de informações sobre a existência de contas correntes e aplicações financeiras, determinações de bloqueio e desbloqueio de contas e comunicações de decretação e extinção de falências envolvendo pessoas físicas e jurídicas clientes do Sistema Financeiro Nacional, bem como outras solicitações que vierem a ser definidas pelas partes (cláusula primeira, parágrafo único de citado convênio).
E, mais recentemente entrou em vigor o art. 655-A, do CPC, inserido pela Lei nº 11.382/06, de aplicação subsidiária à Lei nº 6.830/80, que dispõe sobre a penhora de dinheiro, depósito ou aplicação financeira, a ser realizado pelo juiz, preferencialmente por meio eletrônico, a requerimento da exeqüente.
A introdução de citado dispositivo legal em nada alterou a situação anteriormente verificada quanto ao deferimento da chamada penhora on line, na medida em que não foi tornada obrigatória a constrição em dinheiro em depósito ou aplicação financeira,
através do Sistema BacenJud, mas tão somente veio a sedimentar prática já vinha sendo utilizada, desde que cumpridos os requisitos. Assim sendo, o pleito de penhora on line, por se tratar de medida excepcional, deve ser autorizado somente quando houver
comprovação de que a exeqüente esgotou todos os meios à sua disposição para localizar o devedor e bens de sua propriedade, passíveis de penhora, de modo a garantir o juízo e possibilitar o prosseguimento da execução fiscal.
Em hipótese semelhante, trago à trago à colação precedentes do E. Superior Tribunal de Justiça:
PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO - EXECUÇÃO FISCAL - REQUERIMENTO PARA EXPEDIÇÃO DE OFÍCIO A BANCOS SOLICITANDO COMUNICAÇÃO AO JUÍZO SOBRE EXISTÊNCIA DE APLICAÇÕES FINANCEIRAS E ATIVOS IMOBILIÁRIOS EM NOME DA EXECUTADA E DOS SEUS SÓCIOS - INDEFERIMENTO MANTIDO EM SEDE DE AGRAVO DE INSTRUMENTO - RECURSO ESPECIAL - AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO EM RELAÇÃO À VIOLAÇÃO DE LEI FEDERAL DISSÍDIO JURISPRUDENCIAL COMPROVADO QUEBRA DE SIGILO BANCÁRIO -AUTORIZAÇÃO JUDICIAL - EXCEPCIONALIDADE - POSSIBILIDADE.
I-Na esteira da iterativa jurisprudência deste STJ, em regra geral, o sigilo bancário só pode ser quebrado com autorização judicial. II-Em situação excepcional, também com a intervenção judicial, esgotados os meios à disposição da credora para efetivação da penhora e prosseguimento da execução fiscal, predominando o interesse público, é admissível a solicitação de informações aos Bancos sobre eventuais aplicações financeiras e ativos imobiliários em nome da executada e dos seus sócios responsáveis pelo débito para com a Fazenda Pública.
III-Recurso provido.
(STJ, RESP nº 332.282-RJ, Rel. Min. Garcia Vieira, DJ 18/02/2002).
PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. AGRAVO REGIMENTAL. EXECUÇÃO FISCAL. SIGILO BANCÁRIO.
1. A quebra do sigilo bancário em execução fiscal pressupõe que a Fazenda credora tenha esgotado todos os meios de obtenção de informações sobre a existência de bens do devedor e que as diligências restaram infrutíferas, porquanto é assente na Corte que o juiz da execução fiscal só deve deferir pedido de expedição de ofício à Receita Federal e ao BACEN após o exeqüente comprovar não ter logrado êxito em suas tentativas de obter as informações sobre o executado e seus bens.
2. Precedentes: RESP 282.717/SP, Rel. Min. Garcia Vieira, DJ de 11/12/2000; RESP 206.963/ES, Rel. Min. Garcia Vieira, DJ de 28/06/1999, RESP 204.329/MG, Rel. Min. Franciulli Netto, DJ de 19/06/2000, RESP 251.121/SP, Min. Nancy Andrighi, DJ de 26.03.2001.
(...)
(STJ, 1ª Turma, AgRg no Recurso Especial nº 664.522, Rel. Min. Luiz Fux, v.u., 13/02/06)
Especificamente, sobre a possibilidade de aplicação do art. 185-A, do CTN, é o julgado do E. Tribunal Regional Federal da 4ª Região:
TRIBUTÁRIO. PROCESSO CIVIL. REQUISITOS ART. 185-A DO CTN CUMPRIDOS. INDISPONIBILIDADE DE BENS. POSSIBILIDADE.
1.Mostram-se cumpridos os requisitos ao deferimento da medida prevista no art. 185-A do CTN.
2.Existindo comprovação de esgotamento das diligências em busca de bens penhoráveis em nome da executada, mostra-se razoável o decreto de indisponibilidade.
3.Demonstrada a impossibilidade de que a constrição recaia sobre bens móveis ou imóveis, dentre outros em nome do devedor, é de ser considerada a hipótese de indisponibilidade dos bens, resalvadas, obviamente, as verbas impenhoráveis.
4.Agravo de instrumento provido.
(TRF4, 1ª turma, Ag. Nº 2006.04.00.026194-6, Rel. Des. Fed. Joel Ilan Paciornik, v.u., DJU 14/11/06)
Entretanto, no caso sub judice, a análise da documentação juntada a estes autos revela que a pessoa jurídica, citada, não indicou bens à penhora no prazo legal; ato contínuo, a exeqüente requereu o rastreamento e bloqueio de valores das aplicações financeiras do executado através do sistema BACENJUD, o que foi deferido.
Não há como manter o bloqueio de ativos financeiros da agravante, tal como determinado pelo d. magistrado de origem, uma vez que a agravada limitou-se a requerer o bloqueio dos valores depositados em contas bancárias de titularidade da executada, sem, contudo, comprovar ter realizado todas diligências no sentido de localizar outros bens do devedor aptos a garantir a execução. Em face de todo o exposto, dou provimento ao agravo de instrumento.
É como voto.
Documento assinado por DF00040-Desembargadora Federal Consuelo Yoshida Autenticado e registrado sob o n.º 0036.09H2.0DI8.0GBF - SRDDTRF3-00 (Sistema de Assinatura Eletrônica e Registro de Documentos - TRF 3ª Região
PROC. : 2008.03.00.022059-8 AI 338269 ORIG. : 0600012387 A Vr RIBEIRAO PIRES/SP 0600129071 A Vr RIBEIRAO PIRES/SP
AGRTE : OURO FINO IND/ DE PLASTICOS REFORCADOS LTDA ADV : EDISON FREITAS DE SIQUEIRA
AGRDO : Uniao Federal (FAZENDA NACIONAL)
ADV : FERNANDO NETTO BOITEUX E ELYADIR FERREIRA BORGES ORIGEM : JUIZO DE DIREITO DO SAF DE RIBEIRAO PIRES SP
RELATOR: DES.FED. CONSUELO YOSHIDA / SEXTA TURMA
EMENTA
AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. FUNDAMENTOS DA
DECISÃO. SIGILO BANCÁRIO. QUEBRA. INOCORRRÊNCIA. ART. 185-A, DO CTN. RASTREAMENTO E BLOQUEIO DE VALORES EXISTENTES EM CONTAS-CORRENTE DO DEVEDOR. IMPOSSIBILIDADE. NÃO REALIZAÇÃO DE
DILIGÊNCIAS NO SENTIDO DE LOCALIZAR OUTROS BENS APTOS PARA GARANTIR O JUÍZO.
1. A decisão agravada reporta-se à manifestação da exeqüente, logo não há que se falar em nulidade do decisum por ausência de fundamentação.
2. É certo que, conjugado ao princípio da menor onerosidade (art. 620 do CPC), vigora também o princípio de que a execução se realiza no interesse do credor (art. 612 do CPC).
3. Os direitos e garantias individuais, inclusive aqueles referentes à intimidade e à privacidade, não se revestem de caráter absoluto, cedendo em razão do interesse público, ou até mesmo diante de conflitos entre as próprias liberdades públicas, merecendo cuidadosa interpretação, de forma a coordenar e harmonizar os princípios, evitando o sacrifício total de uns em relação aos outros (princípio da relatividade ou convivência das liberdades públicas).
4. Dispõe o art. 185, do CTN que na hipótese de o devedor tributário, devidamente citado, não pagar nem apresentar bens à penhora no prazo legal e não forem encontrados bens penhoráveis, o juiz determinará a indisponibilidade de seus bens e direitos,
comunicando a decisão, preferencialmente por meio eletrônico, aos órgãos e entidades que promovem registros de transferência de bens, especialmente ao registro público de imóveis e às autoridades supervisoras do mercado bancário e do mercado de capitais, a fim de que, no âmbito de suas atribuições, façam cumprir a ordem judicial
5. O art. 655-A, do CPC, inserido pela Lei nº 11.382/06, de aplicação subsidiária à Lei nº 6.830/80 dispõe sobre a penhora de dinheiro, depósito ou aplicação financeira, a ser realizado pelo juiz, preferencialmente por meio eletrônico, a requerimento da exeqüente.
6. A entrada em vigor de tal dispositivo legal não tornou obrigatória a constrição em dinheiro em depósito ou aplicação financeira, através do Sistema BacenJud, mas tão somente veio a sedimentar prática já vinha sendo utilizada no âmbito da Justiça, desde que cumpridos os requisitos.
7. A penhora on line, por se tratar de medida excepcional, deve ser autorizada somente quando a exeqüente comprovar que esgotou todos os meios à sua disposição para localizar o executado e bens de sua propriedade, passíveis de penhora, de modo a garantir o juízo e possibilitar o prosseguimento da execução fiscal.
8. No caso sub judice, a análise da documentação juntada a estes autos revela que a pessoa jurídica, citada, não indicou bens à penhora no prazo legal; ato contínuo, a exeqüente requereu o rastreamento e bloqueio de valores das aplicações financeiras do executado através do sistema BACENJUD, o que foi deferido.
9. Não há como manter o bloqueio de ativos financeiros da agravante, tal como determinado pelo d. magistrado de origem, uma vez que a agravada limitou-se a requerer o bloqueio dos valores depositados em contas bancárias de titularidade da executada, sem, contudo, comprovar ter realizado todas diligências no sentido de localizar outros bens do devedor aptos a garantir a execução. 10. Agravo de instrumento provido.
ACÓRDÃO
Turma do Tribunal Regional da Terceira Região, por unanimidade, dar provimento ao agravo de instrumento, nos termos do relatório e voto da Desembargadora Federal Relatora, constantes dos autos, e na conformidade da ata de julgamento, que ficam fazendo parte integrante do presente julgado.
São Paulo, 18 de setembro de 2008(data do julgamento).
Documento assinado por DF00040-Desembargadora Federal Consuelo Yoshida Autenticado e registrado sob o n.º 0036.09H2.0DI8.1331 - SRDDTRF3-00 (Sistema de Assinatura Eletrônica e Registro de Documentos - TRF 3ª Região
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