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Problematizando identidades docentes: tentativas de construção/ Problematizing teaching identities: construction attempts

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761

Problematizando identidades docentes: tentativas de construção

Problematizing teaching identities: construction attempts

DOI:10.34117/bjdv6n6-134

Recebimento dos originais:08/05/2020 Aceitação para publicação:05/06/2020

Claudio Afonso Peres

Mestre em educação pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) Doutorando em Educação na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) na Universidade de Sevilha - Espanha

(2019-2020)

Instituição: Universidade Federal de Mato Grosso

Professor de Filosofia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM) - Campus Coari/AM

Endereço: Av. Fernando Corrêa da Costa, nº 2367 - Bairro Boa Esperança. Cuiabá - MT - 78060-900

E-mail: [email protected] Silvana de Alencar Silva

Mestre em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)Doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso

Instituição: Universidade Federal de Mato Grosso

Servidora Pedagoga Técnica Administrativa em Educação do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Mato Grosso (IFMT)

Endereço: Av. Fernando Corrêa da Costa, nº 2367 - Bairro Boa Esperança. Cuiabá - MT - 78060-900

E-mail: [email protected]

Filomena Maria de Arruda Monteiro

Doutorado em Educação (2003) e pós doutorado (2012) pela Universidade Federal de São Carlos-UFSCar.

Instituição: Universidade Federal de Mato Grosso

Professora Associada da Universidade Federal de Mato Grosso-UFMT e Editora da Revista de Educação Pública. Representante da região Centro-Oeste na Associação Brasileira de Pesquisa (Auto) Biográfica. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Política e Formação

Docente (GEPForDoc)-CNPq.

Endereço: Av. Fernando Corrêa da Costa, nº 2367 - Bairro Boa Esperança. Cuiabá - MT - 78060-900

E-mail: [email protected]

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761 RESUMO

Neste artigo temos por objetivo compreender os estudos sobre identidades no campo do Desenvolvimento Profissional Docente (DPD), considerando a complexidade da atividade e as tentativas de construir identidades em diversos contextos. Em termos metodológicos nos orientamos pela abordagem qualitativa de pesquisa aliada à pesquisa do tipo bibliográfica, realizada a partir de teses e dissertações produzidas em programas de pós-graduação nos últimos 10 anos nas Regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil. Consideramos que as teses e as dissertações tratam das identidades em diferentes perspectivas, desde uma noção essencialista, pura e fixa até tentativas de compreendê-la por um olhar de processo contínuo de construção e de hibridismo. Foram ainda recorrentes nos trabalhos estudados a alusão às condições de trabalho, resultante das reformas neoliberais do Estado e seus impactos nas identidades docentes. Todavia, a relação entre o mal-estar dos docentes e as identidades, em geral, não são tratados como processos, mas como tentativas de definir identidades pelos contextos da prática docente, desconsiderando os aspectos culturais envolvidos.

Palavras-chave: Identidades. Desenvolvimento Profissional Docente. Pesquisa bibliográfica

ABSTRACT

In this article we aim to understand the studies on identities in the field of Professional Teacher Development (DPD), considering the complexity of the activity and the attempts to build identities in different contexts. In methodological terms, we are guided by a qualitative research approach combined with bibliographic research, based on theses and dissertations produced in graduate programs in the last 10 years in the North and Midwest regions of Brazil. We consider that theses and dissertations deal with identities in different perspectives, from an essentialist, pure and fixed notion to attempts to understand it through a view of the continuous process of construction and hybridism. The reference to working conditions, resulting from the neoliberal reforms of the State and its impacts on teaching identities, was also recurrent in the studies studied. However, the relationship between teachers' malaise and identities, in general, are not treated as processes, but as attempts to define identities by the contexts of teaching practice, disregarding the cultural aspects involved.

Keywords: Identities. Teacher Professional Development. Bibliographic research

1 INTRODUÇÃO

O conceito de identidade é abordado por diferentes estudiosos da área da educação no campo da docência, apresentando compreensões que vão das mais tradicionais - que entendem identidade como algo decorrente da essência e portanto fixa, até as pós-modernas, no campo do estudos culturais - que, ao considerar a crise das identidades decorrentes das novas concepções de tempo e espaço na atualidade, percebem identidade como algo móvel e fluido, que necessita ser compreendida pelo viés dos processos de identificação (HALL, 2019) que independem da vontades das pessoas.

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761 Hall (2006) refere-se às identidades culturais “como aqueles aspectos de nossas identidades que surgem do pertencimento a culturas étnicas, raciais, linguísticas, religiosas e, acima de tudo, nacionais” (p. 8). A identidade cultural é, assim, entendida como o conjunto das características pelas quais os grupos se definem como grupos. É aquilo que eles são, demarcando, ao mesmo tempo, aquilo que eles não são, aquilo que os torna diferentes de outros grupos (SILVA, 2011).

Entendemos aqui “o processo de identificação como um evento dinâmico, sujeito a transformações constantes, destacando a identidade como uma construção social mutável”

(MENEZES, 2014, p. 70). Portanto, é nas práticas sociais que se constrói esse processo de identificação. Através dele, projetamos em nossas identidades culturais, que se tornaram mais provisórias, variáveis e problemáticas. Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceitualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma celebração móvel “formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2006, p. 13).

Ao tratar da questão da identidade no contexto da docência, nos referimos ao conceito de Desenvolvimento Profissional Docente (DPD), por entendê-lo, junto com Garcia, como um “conjunto de processos e estratégias que facilitam a reflexão dos professores sobre a sua prática, que contribui para que os professores gerem conhecimento prático, estratégico e sejam capazes de aprender com sua experiência” (GARCIA, 1999, p.144). Garcia considera que, em sua formação, o docente passa pela Formação Inicial, pela Iniciação à Docência como Professor Principiante e pelo Desenvolvimento Profissional Docente – DPD, fases se inter-relacionam e que compõem o processo de formação.

Para Day (2001) “O Sentido do Desenvolvimento Profissional de Professores (DPP) depende das suas vidas pessoais e profissionais e das políticas e contextos escolares nos quais realizam as suas actividades docentes” (p.15, grifo nosso).

Em todo esse processo, as identidades fluem de formas diversas e variadas e os docentes com frequência recorrem a vários artifícios para tentar construir suas identidades, de acordo com o modelo de escola, com o perfil dos alunos e com o contexto inserido. Trata-se de um desafio angustiante tentar construir e defender identidades num campo onde as incertezas, as mudanças e os desafios nos campos tecnológico, econômico e sociais trazem novas, constantes e contraditórias exigências para escola e para professores.

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761 Para Tardif (2002), a construção da identidade profissional do professor advém da “[...] tomada de consciência em relação aos diferentes elementos que fundamentam a profissão e sua integração na situação de trabalho leva à construção gradual de uma identidade profissional” (p. 229).

As diferentes noções de identidades no campo de formação de professores e a recorrente tentativa de construir uma identidade que seja válida para cada contexto traz impactos significativo sobre o DPD.

Day (2001) aponta que os recursos diminuídos, o aumento das turmas, a deterioração das condições de ensino e a intensificação dos trabalhos, a concordância ideológica, a imposição externa dos currículos e inovações sem consultar os atores, geram desestabilização e crises de identidade. Ademais, os sistemas externos de monitoração e avaliação trazem a “perda de confiança pública na capacidade de proporcionar um bom serviço” (p. 26).

No Brasil, as discussões sobre identidade, principalmente tentativas de construção de identidades docentes foram intensificadas partir do processo de redemocratização, datado do final dos anos de 1980 e meados dos anos de 1990. As reformas educacionais influenciadas por organismos internacionais e ancoradas nos princípios neoliberais se pautaram principalmente na busca de eficiência dos sistemas escolares, medida por avaliações em escala nacional e internacional (OLIVEIRA, 2011).

No intuito de trazer à baila os estudos sobre identidades no campo do Desenvolvimento Profissional Docente (DPD), buscamos problematizar compreensões sobre identidades considerando a contribuição dos estudos culturais sobre identidade, ou da “identidade cultural”.

2 ASPECTOS METODOLÓGICOS

Para o desenvolvimento desta pesquisa nos orientamos pela abordagem de pesquisa qualitativa a partir de Bodgan e Bilklen (1994) e Laperriére (2008). Nessa abordagem as particularidades e contextualização do problema de pesquisa são consideradas no processo de análise dos dados. Portanto, a dinamicidade e as mudanças são características inerentes ao ato de pesquisar, pois, à medida que os dados vão sendo desmistificados, desnaturalizados é que as reflexões e análises vão se construindo.

Para a coleta de dados, optamos pela pesquisa do tipo bibliográfica (OLIVEIRA, 2007). A principal finalidade desse tipo de pesquisa é proporcionar aos investigadores o contato direto com as produções já sistematizadas do assunto a ser estudado.

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761 Por essa via, realizamos um levantamento bibliográfico no Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A busca foi realizada entre os dias 2 e 3 de junho de 2019 com os descritores “identidade” “docente” e “professor”. Os refinamentos foram: pesquisas dos últimos dez anos (2010-2019); grande área: Ciências humanas; área de conhecimento: Educação; área de concentração:educação; área de avaliação: educação; programas de Pós-graduação na Educação. Com isso, foram encontrados 5.376, sendo 3.705 dissertações e 1.671 teses.

Desse universo 29 produções não estavam disponibilizadas no site da CAPES para

download. A partir disso, selecionamos as produções em que os descritores estivessem

presentes no título, o que resultou em 53 trabalhos. A região sul possui maior número de produções com 17 teses e 3 dissertações, seguido pelo Sudeste com uma 1 tese e quatorze 14 dissertações, nordeste com 08 teses, centro oeste com 4 dissertações e 2 teses e região norte com apenas 01 tese e três dissertações.

Considerando a amplitude da temática e a natureza deste artigo, delimitamos as análises em teses e dissertações produzidas nas regiões Norte e Centro Oeste. A escolha dessas regiões se justifica por estarmos inseridos institucionalmente cursando o doutorado na UFMT e experenciando nossa profissionalidade também nesses contextos. Esse recorte resultou em 10 produções, entre teses e dissertações: Oliveira (2018); Gomes (2018); Silva (2017); Vasconcelos (2016); Martins (2015); Andrade (2014); Ramos (2014); Teno (2013); Urquiza (2013) e Silva (2013) conforme podemos visualizar no quadro 01 abaixo:

Quadro 01 - dissertações e teses- regiões Norte e Centro Oeste do Brasil

Categoria Título Autor (a) Ano Instituição

01 Tese Rememorando trajetórias: docência e identidade do professor em formação

Neide Araújo Castilho Teno

2013 Universidade Federal de Mato Grosso do Sul 02 Tese Formação do (a) professor (a) da educação

infantil nos CEINFS de Campo Grande-MS: identidade em construção Luci Carlos De Andrade 2014 Universidade Federal de Mato Grosso do Sul 03 Tese Pedagogia interculturalidade professores da e identidade: formação de Corina Fátima Costa Vasconcelos 2016 Universidade Federal Amazonas do 04 Dissertação Identidades indígenas na mídia: um

estudo com professores indígenas sobre identidade/diferença e representação Moema Guedes Urquiza 2013 Universidade Católica Dom Bosco

05 Dissertação As/os docentes de história da escolarização básica e a (des/re)construção das identidades negras José Bonifácio Alves da Silva 2013 Universidade Católica Dom Bosco

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761

06 Dissertação A educação física no ensino fundamental na fronteira Brasil/Paraguai: representações e

identidades de professores para atuar na diversidade cultural Wanessa Pucciariello Ramos 2014 Universidade Católica Dom Bosco

07 Dissertação A identidade profissional do professor formador de professores para a educação inclusiva: formação docente e

práticas pedagógicas Nayra Suelen De Oliveira Martins 2015 Fundação Universidade Federal de Rondônia 08 Dissertação Dilemas e desafios para a construção da

identidade profissional de professoras iniciantes

Tuany Sarmento Da Silva

2017 Universidade Do Estado do Pará 09 Dissertação Professor surdo: negociações de

identidade no ensino superior

Reany de Oliveira 2018 Universidade Federal de Mato

Grosso 10 Dissertação A docência na licenciatura em física:

mediações presentes nas questões de identidade, profissionalidade e conhecimentos pedagógico-didáticos

Kally Samara Silva Medeiros Gomes

2018 Universidade Federal de Mato

Grosso Do Sul Fonte: dados organizados e sistematizados pelos autores

3 TENTATIVAS DE CONSTRUÇÃO DE IDENTIDADE NO DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL DOCENTE

Neste espaço nos dedicamos as análises das teses e dissertações selecionadas objetivando “compreender” como acontecem os estudos sobre identidades no campo do Desenvolvimento Profissional Docente (DPD).

Teno (2013), em sua tese, busca identificar como ocorre os processos de ressignificação das identidades dos alunos/professores de um Curso Normal Superior. A autora argumenta que “o aluno/professor em serviço reconstrói sua identidade e demonstra mais seu caráter de pertencimento” (p. 7, grifo nosso). Em sua defesa de uma identidade profissional a autora coloca: “Defendemos a identidade profissional por crer que ela é construída no processo, no contexto social, por meio de frequentes interações que o sujeito realiza, ao longo de sua vida em um determinado meio sociocultural no qual se insere”. (p. 69). Apreendemos que a construção de identidade com foco na interação vislumbra a noção do sujeito sociológico descrito por Hall (2006). Nessa noção de identidade “o sujeito ainda tem um núcleo e essência interior que é o "eu real", mas este é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais "exteriores" e as identidades que esses mundos oferecem (p. 11, grifo nosso). Andrade (2014), ao escrever sobre a construção identitária do professor da educação infantil, considera que a identidade acompanha o processo formativo, sendo construída na atuação docente. A autora aponta várias deficiências da docência e a precariedade do processo formativo, falta de material e pouca

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761 valorização do docente. Embora se aproprie dos conceitos sobre Identidade de Hall (2005) e Nóvoa (1995), a autora argumenta sobre a construção da autonomia e da identidade durante a prática, tratando da identidade como atributo a ser construído por esforço próprio: “O papel de cada um é crescer e avançar no aprimoramento do seu fazer e na construção de uma identidade que revela marcas de qualidade profissional” (p. ANDRADE, 2014, p. 117). Ou como uma identidade definida: “Sabe-se que a história de vida do indivíduo compõe sua identidade (...) Isso indica que as identidades são construídas e sedimentadas ao longo das trajetórias pessoais e profissionais (IDEM, p. 118, 120).

Para a autora, “os saberes e práticas dos professores que trabalham com crianças pequenas, especialmente com bebês, precisam ser reconhecidos como parte de uma prática profissional, no sentido de delimitar a identidade profissional dessas professoras (grifo nosso, IDEM, p. 23)

Vasconcelos (2018), por sua vez, ao propor tratar da pedagogia da identidade e da interculturalidade na formação de professores defende o trabalho na perspectiva da educação intercultural para o curso de pedagogia, pressupondo a “formação de uma identidade docente, determinante para a forma como esse professor vai trabalhar com as diferenças culturais das crianças que vivem na Amazônia” (p. 9), considerando a diversidade pela qual é caracterizada. Para ela, existe a preocupação dos docentes com as diferenças culturais, contudo, “está assentado na perspectiva do multiculturalismo liberal, pois o caráter monocultural e universalizante é predominante nos textos” (IDEM). Ele considera que a educação intercultural colabora para confrontar a perspectiva das “identidades essencializadas e abrirmos “brechas”, “fissuras” para a construção de identidades docentes híbridas, críticas e plurais”, considerando que “reinventar e desconstruir processos colonizadores não é uma tarefa fácil (IDEM). A autora busca apoio no pensamento de Hall (1997, 2006, 2011) sobre as explicações dadas a propalada crise de identidade e a permanente necessidade de processos de identificação, explicando ainda, com base em Candau (2007, 2010) e Walsh (2005, 2009, 2010), como a educação intercultural pode contribuir com a forma da atuação docente no âmbito do curso de pedagogia em Parintins/AM.

Gomes (2018) faz uma análise sobre a prática docente dos formadores de professores no curso de licenciatura em física, identificando as repercussões dessas práticas na “formação didático-pedagógica” (p. 9) dos licenciandos. A autora observa que os discentes se espelham na prática de seus professores e buscam ações similares no futuro, construindo

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761 assim sua identidade e profissionalidade docente. Com efeito, é importante observar que, embora reconheça a transitoriedade das identidades nos termos de Hall (2006) ela procura tratar de um estabelecimento de identidade: “nos primeiros anos de docência, os professores são iniciantes, podendo estar ainda a lutar para estabelecer a sua própria identidade pessoal e profissional” (grifo nosso, p. 90).

Trata da construção da identidade para garantir uma educação melhor: “Por isso a importância de uma formação aprimorada e bastante refinada que venha contribuir na construção da identidade docente sob o caminho da profissionalização necessária e desejada na busca de uma educação emancipadora e mais justa” (p. 95). Com efeito, a autora observa, com base em Dubar (1997), que a “construção da identidade profissional do professor é um processo contínuo que se configura em diferentes tempos, espaços e trajetórias, de forma individual e coletiva, ou seja, é uma construção de permanente reinvenção de relações pessoais, profissionais, experienciais e culturais”. Portanto, um processo transitório.

Silva (2013), ao investigar os docentes de história da escolarização básica, estudando a temática das identidades negras, procura compreender a perspectiva essencialista de identidade, a valorização da cultura e o caráter de hibridismo dessas identidades. No estudo, identificou que as “representações de docentes acerca dos sujeitos negros oscilam entre essencialismo e o não essencialismo, a certeza e a incerteza, a igualdade e a desigualdade, carregando marcas dos contextos que as produziram” (p. 8). Contudo, os discursos valorizam a história negra, longe de promover a inferiorização das negritudes.

Com base em estudos de Bauman (2001, 2003 e 2007), de Bhabha (1998) e de Hall (1997, 2003 e 2004), o autor transita pelas perspectivas dos estudos culturais e pós-coloniais, inserido no contexto da pesquisa entra no cerne da discussão sobre a impossibilidade de construção de identidades fixas, estáticas ou definidas, considerando que “[...] somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente” (HALL, 2004, p. 13)

Urquiza (2013), investiga sobre como os professores indígenas percebem a representação de suas identidades pela mídia e como é construída essa narrativa. Identifica que as narrativas

[...] incomodam, desestabilizam e criam situações de conforto/desconforto, dependendo do enfoque e de como sentem-se representados. Apropriam-se, em certa medida, do conteúdo midiático para discussões e trabalhos pedagógicos, e

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afirmam a importância de ocupar também esse espaço “para falar” – numa demonstração de que sabem que o alcance de suas palavras pode ser ampliado se propagadas por instrumentos midiáticos (p. 9).

A autora transita entre os conceitos de identidade/diferença e representação, negociação, entre lugares e cultura (BHABHA, 1998; HALL, 2000; 2003A, 2003B; SILVA, 2000; 2011), demonstrando afinidade com os entendimentos dos estudos culturais de que identidades são possibilidades cambiantes e flexíveis e “localizadas no espaço e no tempo simbólicos” (HALL, 2003a, p. 71). Para Urquiza, “as fronteiras ficam cada vez mais flexíveis” (p. 30), no entanto, as identidades não deixam de existir. “[...] somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar - ao menos temporariamente” (HALL, 2004, p. 13).

Embora discuta com o referencial teórico europeu, a autora demonstra que é possível estudar questões indígenas latino americanas à luz dessa teoria, inclusive tratar de questões da decolonialidade, o que poderia ser agregado à luz da teoria social latino-americana.

Ramos (2014), ao estudar as representações e as identidades de professores de Educação Física na região de fronteira Brasil Paraguai, busca discutir a construção das identidades e das representações, como os professores percebem e representam as diferentes identidades culturais dos alunos e como trabalham essas diferenças. Ele entende que a construção das identidades dos professores “se faz antes, durante e depois de sua formação acadêmica inicial, por meio de suas escolhas e de suas vivências culturais e sociais nos diversos contextos das múltiplas relações” (p. 9), entendendo como um processo de identificação, na compreensão de Hall (2011).

Essas vivências e histórias marcam as identidades e representações dos professores, “repercutindo suas representações, percepções e construção de identidades em suas ações nos espaços escolares no Ensino Fundamental, quanto à diversidade cultural presente nas escolas” (RAMOS, 2014, p. 9). Buscando dialogar com os estudos pós-coloniais e estudos culturais, com a leitura de Bauman (1999, 2001, 2003, 2005, 2012), Bhabha (2007) Hall (2003, 2006, 2014), Silva (2001, 2002, 2011) e Santos (1994, 2002), a autora consegue perceber no campo da pesquisa que as identidades “não “são”, mas “estão” em constante construção, em relação aos significados da diversidade cultural” (RAMOS, 2014, p. 142).

Martins (2015) investiga o processo de construção da identidade profissional do professor formador de professores do Núcleo de Apoio Pedagógico à Inclusão (NAPI),

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761 buscando compreender como esse processo incide na formação e na prática profissional desses docentes. Ela considera que “os instrumentos utilizados permitiram ao pesquisador, conhecer os processos de construção identitária e formativos dos professores” e que “a identidade do professor formador tem sido forjada a partir das práticas de formação e dos processos formativos que os mesmos vêm participando dentro e fora da instituição” (grifo nosso, p. 12).

A autora sugere políticas públicas mais adequadas para viabilizar a construção de processos identitários, entendendo na parte conclusiva do trabalho identidade como “identidade profissional”, priorizando os temas professor formador, currículo, formação, dentre outros, não priorizando a discussão com a perspectiva dos estudos culturais sobre identidade.

Silva (2017) trata dos dilemas e desafios que o professor em início de carreira enfrenta para construir suas identidades profissionais, inferindo que “as identidades profissionais das docentes foram sendo concebidas em meio aos processos de socialização no âmbito familiar, escolar, social, nos cursos de formação docente e, principalmente, no exercício da profissão” (p. 9). Para ela, os desafios e dilemas característicos do início da carreira são componentes importantes na construção e (re) construção das identidades desses profissionais. A autora trata de identidades na perspectiva de identidade docente ou identidade profissional a ser construída e (re) construída na prática docente.

Ela fala de uma crise de identidade profissional, que é vivenciada pelo professor em início de carreira ao ter que desempenhar várias funções na escola, decorrentes das complexidades da profissão docente, dos dilemas e desafios, como ser mãe, psicóloga, assistente social (p. 101) e apresentar resultados efetivos, com cobrança de resultados, principalmente por atuarem em instituição privada de ensino.

Para a autora, “é em sua prática reflexiva e pelo pertencimento a um corpo docente, que o professor iniciante molda sua identidade profissional, por meio de seus dilemas e superações sentidos no início da carreira docente” (p. 107, grifo nosso). Percebe-se aí, a ideia da identidade como uma construção fixa.

Oliveira (2018), ao tratar da realidade do professor surdo e das negociações de identidades e diferenças culturais que ele é levado a fazer no contexto de sua atuação procura “construir possibilidades para visibilizar e entender as negociações, na perspectiva dos professores surdos, diante das dificuldades vivenciadas no encontro entre a cultura surda e a de ouvintes, nos conflitos da diferença” (p. 9).

A pesquisa aponta uma “infinidade de debates, de negociações e de produção da diferença e de seus significados” (IDEM). A autora se ampara em estudiosos com trabalhos

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761 sobre surdos que se apoiam na base dos estudos culturais e outras teorias que contribuem para a pesquisa, demonstrando a amplitude dos trabalhos como os de Hall (1997, 2003, 2014) e Bhabha (1998), dentre outros que estudam os efeitos da pós-modernidade. Esses autores atestam o desfacelamento da identidade enquanto possibilidade de identificação fixa, o que torna interessante a adoção desses conceitos sobre a diferença da surdez.

4 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

As teses e as dissertações estudadas neste artigo tratam das identidades em diferentes perspectivas, desde uma noção essencialista, pura e fixa até tentativas de compreendê-la por um olhar de construção contínua e de hibridismo, à luz dos estudos culturais sobre identidade. As argumentações em torno das identidades foram relacionadas às diferenças relativas às questões indígenas, de fronteiras, dos negros, da educação inclusiva, da pessoa com deficiência auditiva e dos impactos das reformas neoliberais sobre as condições de trabalho, que refletem sobre os processos de identificação docente, relacionados ao currículo, à formação inicial e continuada e à docência no ensino superior. Em geral as produções relacionam-se às questões da interculturalidade, tendo destaque o trabalho de Vasconcelos (2016) que trata das diferenças culturais, se aprofundando nas abordagens sobre educação intercultural, tendo como foco as crianças que vivem na Amazônia.

Por vezes, o esforço para se falar em construção de identidade é confundido com o esforço para construir saberes e conhecimentos, o esforço para adaptação em início de carreira, as condições de trabalho e vários outros aspectos da profissionalidade docente, sem que o docente seja pensado como um ser cultural que faz parte das complexas e dinâmicas mudanças ocorridas no processo de globalização, que causa o descentramento e o deslocamento das identidades (HALL, 2011).

Identificamos que Silva (2013), Urquiza (2013) e Ramos (2014) parecem estabelecer uma relação bastante apropriada entre as pesquisas de campo e as teorias dos estudos culturais, com efeito, autores como Teno (2013), Andrade (2014) e Gomes (2018) buscaram encontrar definição para construção de identidade nos contextos, porém mais distante das perspectivas da identidade cultural, embora realizem a discussão teórica no campo da cultura.

Compreendemos também que foi recorrente a alusão às condições de trabalho e as consequências das reformas neoliberais do Estado e seus impactos na identidade docente, todavia, poucas relações foram feitas frente às condições de trabalho que geram o mal estar entre os docentes e os processos de identificação que ocorrem durante o DPD, no contexto da

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Braz. J. of Develop., Curitiba, v. 6, n.6, p. 34754-34769 jun. 2020. ISSN 2525-8761 globalização e das novas relações de tempo e espaço, discutidas por Bauman e Hall, dentre outros autores considerados pós-modernos.

As teses e dissertações tentam, em geral, regular as identidades, definir, torná-la algo a ser encontrado e definido para que a prática docente e o desenvolvimento profissional sejam exitosos. Destacamos a necessidade de superação da perspectiva essencialista de identidade, “centrada em torno do eu interior inato, atemporal e imutável que permanece “[...] essencialmente o mesmo - contínuo ou idêntico a ele - ao longo da existência do indivíduo” (HALL, 2004, p. 11), chamando a atenção para a noção não-essencialistas, compreendida “pela trajetória do sujeito, pelos atravessamentos culturais e que observa: “[...] em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento” (HALL, 2004, p. 39).

De maneira implícita, as produções lidas tratam de aspectos e etapas do Desenvolvimento Profissional Docente, contudo, carecem de uma perspectiva processual, que identifica o DPD considerando toda a história de vida dos participantes.

Ao problematizar as identidades docentes, pudemos sentir as angústias vivenciadas pelos autores e pelos atores no sentido de construir uma identidade que venha contribuir para seu desenvolvimento profissional, ficando para nós a reflexão sobre o quanto é apropriado a inserção dos estudos culturais e da educação intercultural no campo do Desenvolvimento Profissional Docente.

Ademais, sinalizamos que privilegiar o relato dos docentes, suas narrativas podem indicar caminhos promissores para compreensões contextualizadas de identidades e suas implicações para o DPD, uma vez que considerar a experiência, localizadas num tempo e local propicia processos formativos. Para Cunha (2010), é por meio das narrativas que o professor descobre os significados dos fatos que viveu e reconstrói a compreensão que tem si mesmo.

REFERÊNCIAS

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