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Consumo de álcool nos adolescentes do concelho de Olhão

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FACULDADE DE CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS

DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

CONSUMO DE ÁLCOOL NOS

ADOLESCENTES DO CONCELHO DE

OLHÃO

Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Psicologia na especialização em Psicologia da Saúde

Carla Maria Salgado da Cunha

FARO 2008

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DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA

CONSUMO DE ÁLCOOL NOS

ADOLESCENTES DO CONCELHO DE

OLHÃO

Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Psicologia na especialização em Psicologia da Saúde

Carla Maria Salgado da Cunha

FARO 2008

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Carla Maria Salgado da Cunha NOME: Carla Maria Salgado da Cunha

DEPARTAMENTO: Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve

ORIENTADORA: Professora Doutora Cristina Nunes

DATA: 04 de Setembro de 2008

TÍTULO DA DISSERTAÇÃO:

“CONSUMO DE ÁLCOOL NOS ADOLESCENTES

DO CONCELHO DE OLHÃO”

JÚRI:

Presidente: Doutor José Carlos Pestana dos Santos Cruz

Vogais: Doutor Manuel José Lopes

Doutora Maria Cristina de Oliveira Salgado Nunes

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iii Carla Maria Salgado da Cunha

“O sinónimo de beber, é sair, bebe-se

quando se sai e sempre que se sai se bebe, mas

com uma particularidade, a do grupo; sair

com os pais não é o mesmo conceito de sair

com o grupo”

(5)

iv

AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer a todos que me apoiaram para que a realização deste estudo fosse concretizada, porque sem eles tudo seria mais difícil. O meu mais sincero OBRIGADA.

Para a Professora Doutora Cristina Nunes, minha orientadora, vai o sincero agradecimento pelo apoio, pelos conselhos e pelas verdadeiras qualidades humanas. Consegui chegar ao fim com a sua persistência, contribuindo com o seu conhecimento seriedade e motivação. Obrigada Professora Cristina!

Ao Herculano e ao filho Vasco, pela compreensão demonstrada, pelo seu apoio incondicional e terem acreditado sempre em mim desde o primeiro momento.

À Maria João e à Sónia companheiras desta longa caminhada por toda a força e incentivo que transmitimos umas às outras para chegar até aqui. Tenho a perfeita consciência, de que sem o seu apoio tudo seria mais difícil. Não existe outra palavra senão OBRIGADA.

À Adriana, à Joana e à Rosário pela disponibilidade e apoio permanente.

Ao Conselho Directivo da Escola Secundária Doutor Francisco Fernandes Lopes de Olhão, na pessoa do Professor Idalécio, por ter permitido a realização deste estudo, através da aplicação do instrumento de colheita de dados aos alunos do 10ª,11ª e12º anos desta escola, assim como todos os professores, alunos e auxiliares.

A todos alunos desta escola, pelo empenho, disponibilidade e honestidade demonstrada para aderirem a este estudo, com um tema tão pertinente e actual. O meu muito OBRIGADA.

___________________________________________________________________ Carla Maria Salgado da Cunha

(6)

v

RESUMO

Actualmente, o consumo de bebidas alcoólicas tem alcançado proporções massivas e,

está associado a uma série de consequências adversas, podendo-se afirmar que, são poucos os que chegam à idade adulta sem contactar ou experimentar alguma das manifestações relacionadas com o seu consumo.

Deste modo, o objectivo geral deste estudo, é descrever os hábitos e atitudes face ao consumo de álcool dos adolescentes dos 14 aos 18 anos. Trata-se de um estudo descritivo e transversal. É focado um grupo representativo da população em estudo e os dados foram recolhidos num único momento.

A amostra foi constituída por 239 alunos, com uma média de 17,8 anos de idade, com 51% do sexo feminino e 49% do sexo masculino, pertencem ao 10º ano 39%, ao 11º ano 27% e ao 12º ano de escolaridade 34%. Utilizámos uma adaptação do questionário de Breda (1996), que é composto por 31 questões, sobre as seguintes áreas: aspectos demográficos; perfil dos adolescentes; aspectos relacionados com o meio familiar e social; aspectos descritivos de outros consumos e aspectos que permitam a elaboração de um padrão de consumo de bebidas alcoólicas.

Relativamente às questões que se enquadram nos padrões de consumo de álcool, 92 % respondeu que alguma vez já tinha ingerido bebidas alcoólicas. Tal como em outros estudos realizados anteriormente, podemos dizer que o consumo de álcool, é uma

“espécie de entrada” no mundo dos adultos, que está associado a um ritual em grupo e é mais frequente ao fim de semana, férias ou festas.

Concluímos que, estes adolescentes são um grupo disponível a uma intervenção, a nível

de Programas de Promoção para a Saúde.

Palavras-chave: Adolescentes; Consumo de álcool

___________________________________________________________________ Carla Maria Salgado da Cunha

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vi

ABSTRACT

Currently, the consumption of alcoholic beverages has reached massive proportions both in the developed and developing countries, being associated with a range of adverse consequences. Avowedly, few people reach adult age with no contact or experimenting with some form of alcohol consumption.

Thus, this study aims at describing the alcohol consumption practices and attitudes of teenagers aged 14-18 years old. This is a descriptive and cross-sectional study. It focuses on a representative sample of the population and the data was collected at a single point in time.

The sample is formed by 239 students with an average age of 17.8 years; 51% of participants are female and 49% male; 39% attend year 10 of Portuguese Secondary (post-compulsory) education, 27% attend year 11 and 34% attend year 12.

An adapted version of Breda’s (1996) questionnaire was used, composed by 31 questions focussing on the following areas: demographic information, teenagers’ profile, aspects of family and social environment, description of consumption of other substances and aspects allowing the portrayal of a pattern of consumption of alcoholic beverages.

With regard to the questions focussing on the patterns of alcohol consumption, 92% of the participants indicated they had already taken alcoholic drinks. As in previous studies by other authors, we can say that alcohol consumption is “like a gateway” into the adult world, that it is associated with a group ritual and occurs more frequently during weekends, holidays or party occasions.

We conclude that these teenagers are a target group regarding Health Promotion Programmes.

Key words: Teenagers; Alcohol consumption.

___________________________________________________________________ Carla Maria Salgado da Cunha

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vii

ÍNDICE

INTRODUÇÃO 13

PARTE I – REVISÃO DA LITERATURA

17

1- A ADOLESCÊNCIA 18

1.1- CONCEITOS E PERSPECTIVA HISTÓRICA 18 1.2- TRANSFORMAÇÕES FÍSICAS E IMPLICAÇÕES PSICOLÓGICAS 22 1.3- DESENVOLVIMENTO COGNITIVO 25 1.4- DESENVOLVIMENTO SOCIAL 26

2- O CONSUMO DE ÁLCOOL 37 2.1- PERSPECTIVA HISTÓRICA: ASPECTOS GERAIS DO CONSUMO DE

ÁLCOOL 37

2.2- CONCEITOS E SUA EVOLUÇÃO 38 2.3- TENDÊNCIAS DE CONSUMOS E AS NOVAS BEBIDAS 39 2.3.1- As bebidas alcoólicas e o álcool etílico 41 2.4- NOÇÕES FISIOPATOGÉNICAS 42 2.5- ETIOLOGIA 44 2.5.1- Teorias Biológicas 45 2.5.2- Teorias Psicológicas 47 2.5.3- Teorias Socioculturais 49 2.6- POLÍTICA DE PREVENÇÃO 51

3 − O CONSUMO DE ÁLCOOL NOS ADOLESCENTES 58 3.1- DADOS EPIDEMIOLÓGICOS 60 3.2- SIGNIFICADO DO CONSUMO DE ÁLCOOL NOS ADOLESCENTES 64

___________________________________________________________________ Carla Maria Salgado da Cunha

(9)

viii

PARTE II – ESTUDO EMPÍRICO

67

4- OBJECTIVOS 68 5- METODOLOGIA 69 5.1- AMOSTRA 69 5.2- INSTRUMENTO 70 5.3- PROCEDIMENTOS 71 5.3.1- Recolha de Dados 71 5.3.2- Tratamento dos Dados 71

6- APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS 73

6.1- CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA 73 6.2- PADRÕES DE CONSUMO 81 6.3- SUBSTÂNCIAS TÓXICAS ASSOCIADAS AO CONSUMO DE

ÁLCOOL (TABACO E DROGAS ILEGAIS)

91 6.4- CONHECIMENTOS SOBRE O CONSUMO DO ÁLCOOL 95 6.5- ATITUDES FACE AO CONSUMO DO ÁLCOOL 103 6.6 – ANÁLISE DAS RELAÇÕES ENTRE AS VARIÁVEIS 110

7- DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 117

8- CONCLUSÃO 124

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 126

ANEXOS 130

Anexo A – Instrumento de colheita de dados 131

Anexo B – Pedido de Autorização para a realização do estudo Anexo C – Teste do Qui-quadrado

137 139

___________________________________________________________________ Carla Maria Salgado da Cunha

(10)

ix

ÍNDICE DE QUADROS

Quadro 1: Estudos com amostras nacionais sobre o consumo de álcool nos jovens

61

Quadro 2: Estudos com amostras regionais sobre o consumo de álcool nos jovens

62

Quadro 3: Consumo habitual de bebidas alcoólicas 83

Quadro 4: Consumo médio de bebidas alcoólicas 83

Quadro 5: Se houve consumo de drogas 93

Quadro 6: Quais os consumos de drogas nos últimos 30 dias 94

Quadro 7: Opinião sobre com que idade se pode consumir bebidas alcoólicas

96

___________________________________________________________________ Carla Maria Salgado da Cunha

(11)

x

ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1: Escolaridade do pai 74

Figura 2: Escolaridade da Mãe 74

Figura 3: Profissão do Pai 75

Figura 4: Profissão da Mãe 75

Figura 5: Aspirações Profissionais 76

Figura 6: Aspirações Académicas 76

Figura 7: Aproveitamento Escolar 77

Figura 8: Estado de Saúde Geral 77

Figura 9: Nº de horas televisão /dia 78

Figura 10: Nº de horas televisão /Fim-de-semana 78

Figura 11: Fontes de apoio na solidão 79

Figura 12: Com quem vive 79

Figura 13: Consumo diário de bebidas alcoólicas na família 80

Figura 14: Idade que bebeu pela 1ª vez 82

Figura 15: Afirmações consideradas importantes, como razões para beber 84

Figura 16: Quantas vezes já te aconteceu ter uma ressaca 85

Figura 17: Quantas vezes já te aconteceu faltar às aulas depois de ingerires bebidas alcoólicas

85

Figura 18: Quantas vezes já te aconteceu teres ido a uma aula depois de beberes

86

Figura 19: Quantas vezes já te aconteceu teres piores notas ou um mau teste por causa das bebidas

86

___________________________________________________________________ Carla Maria Salgado da Cunha

(12)

xi

Figura 20: Quantas vezes já te aconteceu teres um problema com o Concelho Directivo

87

Figura 21: Quantas vezes já te aconteceu teres entrado em brigas depois de teres bebido

87

Figura 22: Quantas vezes já te aconteceu teres falta de memória e não te lembrares depois de teres bebido

88

Figura 23: Quantas vezes já te aconteceu teres problemas ou zangas com familiares e/ou namorado

89

Figura 24: Quantas vezes te sentiste bêbado em toda a tua vida? 89

Figura 25: Com que frequência fuma por dia 91

Figura 26: Com que frequência fuma actualmente 92

Figura 27: Dentro de 5 anos… 92

Figura 28: Alguma vez consumiu uma destas drogas, haxixe e charros 93

Figura 29: Tomaste nos últimos 30 dias haxixe e charros 94

Figura 30: O que é um alcoólico 96

Figura 31: Fontes de informação 97

Figura 32: Depois de beber é mais fácil de expressar os sentimentos 97

Figura 33: As bebidas alcoólicas podem aquecer 98

Figura 34: Algumas bebidas alcoólicas podem matar a sede 98

Figura 35: O Martini ou algum tipo de Vinho do Porto abrem o apetite 99

Figura 36: O Whisky ou Aguardentes Velhas podem ajudar a digestão 99

Figura 37: O álcool melhora a coordenação motora e reflexos 100

Figura 38: É possível morrer por tomar muitas bebidas alcoólicas num só dia

100

Figura 39: As bebidas alcoólicas também são alimentos 101

Figura 40: O álcool e as bebidas alcoólicas podem dar força 101

Figura 41: Concelho Directivo deveria controlar mais as bebidas alcoólicas 103

___________________________________________________________________ Carla Maria Salgado da Cunha

(13)

Carla Maria Salgado da Cunha

xii ___________________________________________________________________

Figura 42: A Policia deveria controlar mais a condução sob o efeito das bebidas alcoólicas

103

Figura 43: Deveriam existir actividades e programas de prevenção ao consumo de bebidas alcoólicas

104

Figura 44 Devia ser aumentado o preço das bebidas alcoólicas, pois isso faria diminuir o seu consumo

104

Figura 45 A idade legal para se puder consumir bebidas alcoólicas deveria ser de 18 anos

105

Figura 46 É possível organizar uma festa sem bebidas? 105

Figura 47 Quando se oferece uma bebida a uma pessoa, é difícil ela recusar

106

Figura 48 Ver jovens como eu a tomar bebidas leva-me a beber também 106

Figura 49 A publicidade às bebidas pode levar os jovens a consumirem mais

107

Figura 50 Beber é uma das formas mais agradáveis de festejar 107

Figura 51 Uma pessoa que bebeu pode conduzir desde que não se sinta embriagado

108

Figura 52 Idade em que bebeu pela 1ª vez, comparando os anos lectivos 114

Figura 53 Idade em que bebeu pela 1ª vez, comparando o sexo masculino com o sexo feminino

(14)

Carla Maria Salgado da Cunha 13 INTRODUÇÃO

Actualmente, o consumo de bebidas alcoólicas tem alcançado proporções massivas, tanto em países desenvolvidos, como em países em desenvolvimento e, está associado a uma série de consequências adversas, que se pode afirmar, são poucos os que chegam à idade adulta sem contactar ou experimentar alguma das manifestações relacionadas com o seu consumo.

Na sociedade portuguesa actual, o álcool é a principal substância causadora de dependência, transformando-o no problema mais significativo de todas as outras formas de abuso de substâncias combinadas, Portugal mantém-se nos lugares cimeiros do consumo per capita a nível Mundial, com as mais elevadas taxas de mortalidade por cirrose hepática, com elevados índices de sinistralidade rodoviária e de trabalho, para além do vasto leque de problemas a nível individual (saúde física e mental), familiar, ocupacional e comunitário, imputáveis ao álcool, o que o torna um grave problema de Saúde Publica (Mello, Barrias & Breda, 2001).

Braconnier e Marcelli (2000), vêem o adolescente moderno como um ser de paradoxos, onde ele quer ser totalmente autónomo, mas ao mesmo tempo solicita os pais para todos os actos banais do quotidiano, enuncia verdades absolutas e ao mesmo tempo dúvida de si próprio, ele é extraordinariamente altruístas e, simultaneamente, fantasticamente egoísta. Trata-se de um período em que o indivíduo faz a experiência das contradições,

(15)

Carla Maria Salgado da Cunha 14 do paradoxo e do sofrimento.

Alguns estudos realizados acerca dos consumos, no período da adolescência, nomeadamente o de Carvalho (1990), que aborda o álcool como substância mais utilizada pelos adolescentes. Aaron et al. (1999) referido por Matos (2000), refere que alguns problemas de saúde durante a adolescência estão relacionados com o início precoce do mesmo. Os comportamentos dos adolescentes face ao álcool, devem ser contextualizados no acontecer individual, familiar, social, económico e político. A verdade é que, actualmente, se assiste a uma crescente alcoolização dos adolescentes e das mulheres. É provável que muitos adolescentes bebam para se integrar num grupo, ou ser aceite pelos pares, por ser costume, por parecer bem, para se desinibir, para se divertir, não pode ignorar que estes consumos estão envolvidos por múltiplos factores.

Mas o consumo de álcool tem mudado nas últimas décadas. Hoje a etilização é rápida e intencional, o que esta na origem de elevados índices de morbilidade e mortalidade, mas sobretudo que aumentam os comportamentos de risco, incrementados por particularidades individuais.

Após a revisão da literatura constatámos que a experimentação e o consumo regular e abusivo do álcool, parecem estar relacionados com uma série de factores pessoais de vulnerabilidade próprios do adolescente, frequentemente associados a comportamentos ligados ao risco para a saúde, tanto no contexto escolar como familiar.

Assim, colocámos as seguintes questões: O que leva os adolescentes, de uma escola secundária do concelho de Olhão a consumirem álcool? Quais os padrões de consumo desses adolescentes? Quais os factores protectores e de risco relacionados com o

(16)

Carla Maria Salgado da Cunha 15 contexto familiar e social desses adolescentes? Como actuar perante esta situação?

Por tudo anteriormente descrito, parece-nos pertinente debruçarmo-nos sobre este tema, tendo em conta o papel da educação na promoção da saúde, na prevenção e no tratamento dos problemas de saúde, no âmbito da Saúde Escolar.

Este estudo enquadra-se no contexto da Psicologia da Saúde, na medida em que, este tem como objectivos, a promoção e manutenção da saúde, a prevenção e tratamento da doença, e a promoção do bem-estar e da qualidade de vida, na saúde e na doença, Ogden (1999). Então, neste sentido tentámos compreender o comportamento dos adolescentes face ao consumo, assim como identificar qual a percepção que estes têm face a esta questão, permitindo aos técnicos de saúde compreender quais as crenças que predizem comportamentos, no sentido de uma intervenção a nível dos Cuidados de Saúde Primários, visando uma mudança de atitudes.

Nesta dissertação distinguiremos duas partes, que serão a Revisão da Literatura e o

Estudo Empírico.

A Revisão da Literatura está organizada em três capítulos. No primeiro capítulo, são focadas algumas considerações acerca do desenvolvimento do indivíduo na adolescência, com a intenção de compreender algumas características próprias desta fase do ciclo vital, importantes para o entendimento do consumo de álcool nos jovens e para adequação das abordagens preventivas.

No segundo capítulo, são apresentados alguns conceitos relacionados com o álcool e bebidas alcoólicas, valorizando os aspectos históricos ligados ao seu consumo em Portugal e no Mundo, tendências de consumos, epidemiologia e etiologia dos

(17)

Carla Maria Salgado da Cunha 16 comportamentos alcoólicos, evolução de conceitos e políticas de prevenção.

Por último, e no terceiro capítulo, será feita uma abordagem aos problemas ligados ao álcool, particularmente nos adolescentes, realçando alguns dados epidemiológicos e significação desses mesmos comportamentos alcoólicos.

O Estudo Empírico é constituído por quatro capítulos. No quarto capítulo será feita a apresentação dos objectivos do estudo. O quinto capítulo é dedicado à conceptualização da investigação, o qual inclui a descrição da amostra, do instrumento de colheita de dados e dos procedimentos, tais como a recolha e tratamento de dados. No sexto capítulo será feita a apresentação dos resultados e, por fim, no sétimo capítulo, será descrito a discussão dos resultados.

Na última parte do trabalho, apresentaremos as conclusões e as implicações deste estudo, onde serão incluídas sugestões para possíveis estratégias na promoção e prevenção de estilos de vida saudáveis, tendo em conta os resultados obtidos neste estudo, deixando uma nota alusiva a novos projectos de pesquisa nesta área.

(18)

Carla Maria Salgado da Cunha 17 PARTE I – REVISÃO DA LITERATURA

(19)

Carla Maria Salgado da Cunha 18 1-A ADOLESCÊNCIA

1.1-CONCEITOS E PERSPECTIVA HISTÓRICA

Falar de adolescência é falar de verdadeiras modificações no desenvolvimento humano. A adolescência, tal como é hoje vivida nas sociedades ocidentais é o resultado de um processo histórico e económico, que envolve particularmente a transformação e evolução dos sistemas familiares.

A história da adolescência tem raízes profundas, em que Aristóteles deu particular significado ao período de transição da infância para a idade adulta, personalizando-a pela capacidade de tomar decisões e fazer escolhas.

A adolescência é a fase da mudança, como a etimologia latina da palavra o indica:

adolescere significa “crescer”, “desenvolver”; é, na vida do ser humano, uma época

marcada por profundas transformações físicas, psicológicas, afectivas, intelectuais e sociais; correspondente ao período de transição entre a infância e a idade adulta (Porto Editora, 2004).

Debesse (1884), deu início ao primeiro trabalho científico sobre a adolescência, que foi publicado, nos Estados Unidos, por Burnhem (1891) e que se intitulava “The study of

(20)

Carla Maria Salgado da Cunha 19 Adolescence”.

Em 1904, Stanley Hall publica a sua obra, “Adolescence” que teve impacto a nível mundial.

No entanto, a adolescência tal como hoje a consideramos, é um fenómeno relativamente recente na história psicossocial do ser humano. A adolescência é considerada por muitos sociólogos, como sendo uma criação histórica recente e o produto das evoluções socioeconómicas das sociedades ocidentais.

Como criação histórica é portanto, um fenómeno não universal e, alguns autores perspectivam aspectos da sociedade actual como indicadores do fim deste fenómeno:

“… O desvio que existe entre os jovens e os adultos tende a reduzir-se e isto graças

aos movimentos dos anos 60. Com efeito, a cultura original reivindicada pelos

jovens no curso desse decénio, faz parte do património de todas as gerações: a

liberdade sexual, o direito à palavra, as formas de expressão nas quais a vida

privada e a vida política se misturam profundamente, são valores actualmente

reconhecidos por todos…” (Conferência Geral da UNESCO, 21ª sessão, 1981).

Mead (1928), considera a adolescência como um fenómeno não universal (não existiria adolescência nos habitantes de Samoa), podendo estabelecer-se uma ligação entre a natureza social deste período etário e o grau de complexidade da sociedade estudada: quanto mais a sociedade é complexa mais a adolescência é longa e conflitual.

Na era pré-industrial, com a evolução dos sistemas familiares, esta realidade era marcada pela concentração das múltiplas tarefas, dando continuidade a unidade relacional entre os jovens e a família. Sendo esta a única instituição responsável pela

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Carla Maria Salgado da Cunha 20 transmissão de um estatuto de ocupação/riqueza, estabelecendo-se ao mesmo tempo como espaço de aprendizagem e de produção.

Segundo Áries (1981), antes da sociedade industrial, a criança passava do meio familiar restrito para o mundo do trabalho. O saber era conduzido pela “praxis” com os adultos, introduzindo a adolescência nesse mesmo trabalho. Até ao princípio do século XX existiam apenas duas idades: a infância e a idade adulta, onde se incluía a juventude.

Mas, é com a Revolução Industrial, quando se verifica um maior desenvolvimento da ciência e da tecnologia nos circuitos de produção e, consequentemente, com as inúmeras especializações, que os sistemas tradicionais entram em decadência, o que surge simultaneamente com a entrada da escola e outras instituições educativas. É com esta passagem de uma realidade autónoma e produtiva, portanto adulta, que se inicia o novo espaço do desenvolvimento psicológico, a que chamamos Adolescência.

É no século XX que a adolescência se torna numa das matérias de estudo mais referenciadas nas ciências humanas e, nas últimas décadas, numa das matérias que mais preocupa as classes políticas, económicas, e religiosas (Relvas, 1966; Ferreira e Ferreira, 2000).

Compreender este período transitório exige um conhecimento e informações de natureza diversa, nomeadamente histórica, fisiológica, psicológica, sociológica e económica. O conceito de adolescência tem suscitado numerosos debates, tanto no que diz respeito ao seu conteúdo, como na sua delimitação, independentemente do tempo histórico.

A adolescência, enquanto fase de desenvolvimento, mais que qualquer outra fase da vida, é pouco consensual e complexa, uma vez que não há uniformização de critérios na

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Carla Maria Salgado da Cunha 21 precisão dos seus limites, quer em função das características psicossociológicas, quer em função de um indicador de idade cronológica.

Actualmente, a adolescência é caracterizada por uma fase que ocorre entre a infância e a idade adulta, na qual há muitas transformações, tanto físicas como psicológicas, possibilitando o aparecimento de comportamentos irreverentes e o questionamento dos modelos e padrões infantis que fazem parte do próprio crescimento. Esta teoria vai de encontro ao referido pela Organização Mundial da Saúde (1985), que define que a adolescência compreende o período entre 11 e 19 anos de idade, desencadeado por mudanças corporais e fisiológicas, resultantes da maturação fisiológica.

Assim, apesar de ser difícil temporizar limites em termos psicológicos, o final da adolescência exige a realização de uma série de tarefas que “devem ser consideradas

como acções reorganizativas internas e externas que o adolescente deve levar a cabo se

quiser atingir a idade adulta” (Sampaio, 1993, p. 100).

A adolescência, mais que qualquer outra fase da vida, apresenta os seus próprios modelos de leitura da realidade.

Nos pontos seguintes iremos abordar as diferentes fases que marcam o desenvolvimento deste estadio da vida: transformações físicas e efeitos psicológicos, desenvolvimento cognitivo e socialização: autonomia, as inter-relações com o grupo de pares e identidade.

(23)

Carla Maria Salgado da Cunha 22 1.2-TRANSFORMAÇÕES FÍSICAS E IMPLICAÇÕES PSICOLÓGICAS

Para Erickson (1976), a adolescência apresenta-se como a etapa em que o sujeito tem de construir a sua identidade, em que a construção não é feita de modo padronizado e linear, há procura, há crises e indecisões e o indivíduo confronta-se com situações conflituosas que tem de resolver de uma forma ou de outra.

O adolescente pode vacilar entre vários tipos de identidade, podendo transitar de uns para os outros.

Nomeadamente Sprinthall e Collins (1999), sublinham que a característica mais significativa do adolescente diz respeito à multiplicidade de transformações físicas, que ocorrem com a chegada da puberdade.

A adolescência, mais que qualquer outra fase da vida, confronta-se com modelos próprios da realidade, obrigando a uma reavaliação sistemática de cada modelo.

Para Marcelli e Braconnier (1988), consideram a adolescência pelos diferentes modelos de compreensão e diferentes quadros conceptuais.

O modelo fisiológico é apresentado como a crise da puberdade das alterações somáticas subsequentes, a emergência da maturidade genital e as extensões que daí resultam.

Para os mesmos autores

“… a diferenciação sexual pubertária, que transforma tão profundamente uma

(24)

Carla Maria Salgado da Cunha 23 seguinte cronologia: primeiro, uma secreção hipotalâmica que num ritmo

específico, vai implicar uma secreção hipofisária das gonadrofinas que, elas

também, segundo o próprio ritmo, implicam uma secreção das gónodas. Esta

última modula, depois de algum tempo, as modificações morfológicas

periféricas e dos receptores. Uma tal mecânica pode sofrer alterações o que

explica um conjunto de situações patológicas em relação com o

desenvolvimento pubertário. Em média este desenvolvimento inicia-se por volta

dos 10/11 anos na menina e 12/13 no rapaz…” (Marcelli e Braconnier,1988).

O corpo atravessa uma série de estadios, cuja principal finalidade é possibilitar a concepção. É uma fase rápida de crescimento fisiológico, em que amadurecem as funções reprodutoras e órgãos sexuais e aparecem as características secundárias que incluem o alargamento dos seios, nas raparigas, os pêlos faciais e alterações de voz nos rapazes; este crescimento de pêlos púbicos e axilares, em ambos os sexos, é designado por pubescência que culmina na puberdade, onde a capacidade de reprodução sexual é atingida (Dias-Cordeiro, 2002).

É nesta perspectiva que Sprinthall e Collins (1999) referem que a puberdade é regulada pelas hormonas segregadas pelas gónadas (testículos e ovários) e pelo córtex da glândula adrenal. No entanto, as várias hormonas são reguladas por um complexo sistema cujo órgão central é o hipotálamo.

Durante este período surgem avanços e recuos. Segundo Marcelli e Barconnier (1988), este impasse é marcado por diversos factores, nomeadamente de natureza genética, mas também ambiental. Neste último caso, factores como a alimentação, a saúde física geral, o exercício físico e o nível sócio económico têm uma influência significativa sobre

(25)

Carla Maria Salgado da Cunha 24 avanços ou recuos, em termos de datas, da puberdade.

No entanto, Sprinthall e Collins (1999) são de opinião que as transformações físicas da puberdade não afectam directamente os estados psicológicos dos adolescentes. Em vez disto os efeitos psicológicos são mediados pelas respostas às alterações físicas emitidas pelos colegas, pais e pelos próprios adolescentes. Estas influências socioculturais podem ser observadas nas reacções à menarca e nos adolescentes que atingem a puberdade mais cedo ou mais tarde do que o normal. Os efeitos psicológicos de uma maturidade precoce ou tardia reflectem, claramente, o impacto da aceitação no mundo dos adultos e das experiências em que os adolescentes têm que lidar com ambíguas definições sociais que lhe são atribuídas. Além disso, as dificuldades enfrentadas por muitos deles ao se adaptarem às alterações corporais ilustram, em parte, a forte influência das normas socioculturais relacionadas com a atracção física no auto conceito dos adolescentes.

Partilhando desta opinião, Marcelli e Braconnier (1988), referem que em relação às variações colectivas de avanço da puberdade, se verifica que há uma relação inversa entre a precocidade da puberdade e a autonomia social (incluindo a vida sexual). Com efeito, quando o desenvolvimento pubertário é mais tardio coincide praticamente com a entrada na vida profissional. Assim, e a título de exemplo, a data da primeira menstruação passou, em menos de um século, de 17 para os 13 anos na Noruega e na França. Entre países de cultura semelhantes, as diferenças são menos marcantes. Em 1976, a idade média do aparecimento da primeira menstruação era de 12,5 anos na Alemanha, 12,8 anos em França e 13 anos em Inglaterra. A idade da primeira menstruação não tem tendência a avançar. Em 1986 em França, assistia-se a uma

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Carla Maria Salgado da Cunha 25 estabilização por volta dos 13 anos.

Actualmente, a idade da primeira menstruação é então mais precoce, enquanto que a idade média da entrada na vida profissional é mais tardia. A evolução fisiológica torna-se inversa da evolução social, o que acaba por alargar ao extremo o período da adolescência (Paixão, 2002).

Assim sendo, os efeitos psicológicos da puberdade reflectem, quer a coerção das normas e expectativas da sociedade, quer as respostas auto-avaliativas às transformações culturais que são influenciadas por elas (Sprinthall e Collins, 1999).

1.3-DESENVOLVIMENTO COGNITIVO

Um dos aspectos mais importantes que acontece no decurso da adolescência diz respeito às transformações das estruturas cognitivas. Piaget e Inhelder (1959) descreveram o desenvolvimento das estruturas da inteligência operatória formal pelos 12,13 anos. A transformação nesta fase, destes esquemas cognitivos tem servido de referência aos estudos sobre o conjunto das aprendizagens que o adolescente enfrenta, basicamente aprendizagens centradas nas relações sociais. Esta alusão à aprendizagem social contém implicitamente um valor da importância do funcionamento intelectual.

(27)

Carla Maria Salgado da Cunha 26 mundo que se altera completamente. O desenvolvimento da inteligência consente aceder a um nível das relações entre o possível, o real e o imaginário.

Esta transformação, na organização das capacidades intelectuais, tem sido considerada como um elemento determinante das aprendizagens sociais e culturais num estadio em que o indivíduo ainda não tem que se dispor a um papel rigorosamente definido e, portanto, numa altura em que lhe é permitido uma certa hesitação e o exercício de diversos ensaios de identificação. Neste sentido autores como Wallon (1968), referem o valor funcional da adolescência em termos de descoberta e de elaboração dos sistemas de valores sociais de natureza cultural, social, ética e profissional, através da tomada de consciência de si próprio e da afirmação da identidade. Esta ocasião permite, assim, que o adolescente alcance um sentimento de individualidade e de integração social, graças justamente à aprendizagem.

É através das respostas da sociedade, que o adolescente aprende progressivamente os limites das suas acções e dos papéis que adopta gradualmente.

1.4-DESENVOLVIMENTO SOCIAL

As transformações físicas e cognitivas são consideradas como fundamentais em termos do desenvolvimento na adolescência, todavia importa não esquecer a dimensão social inerente a qualquer indivíduo. Assim sendo, estas alterações básicas podem contribuir

(28)

Carla Maria Salgado da Cunha 27 para os desafios sociais e psicológicos com que os adolescentes são confrontados, contribuindo para o seu desenvolvimento e a obtenção de uma identidade (Sprinthall e Collins, 1999).

A adolescência é considerada um momento único para a formação de identidade. Fenómenos ligados entre si como autonomia, individualização e formação de identidade, na opinião de Fleming (1997), constituem ingredientes psicológicos importantes para a separação pais/adolescentes. A formação da identidade é facilitada por uma maior autonomia, a qual, por sua vez, é tanto maior quanto mais avançado estiver o processo de individualização.

Erickson (1968), dedica a parte da sua reflexão aos processos de identificação na adolescência. A adolescência é vista, por este autor, na sua dimensão desenvolvimental e definida em termos de tarefas. Assim, um dos conceitos que mais sucesso teve no discurso analítico refere-se às zonas sociais de experimentação e de integração das identidades adolescentes: o conceito de “moratória psicossocial” é então definido como o “espaço” dado, pela sociedade, ao adolescente, de modo a que este possa escolher e experimentar os diferentes papéis que a sociedade oferece processando assim a sua identidade. A moratória psicossocial é alcançada se o adolescente consegue, no fim do processo, adquirir uma identidade reconhecida por aqueles que o rodeiam e por si próprio:

“… o processo do adolescente só está inteiramente concluído quando um

indivíduo subordinou as suas identificações da infância a uma nova espécie de

identificação, realizada com integração da sociabilidade e a aprendizagem

(29)

Carla Maria Salgado da Cunha 28 A moratória psicossocial fornece vários apoios ao Eu adolescente, nas tarefas específicas desta fase:

1- Mantem as mais importantes defesas do Eu contra a recrudescência pulsional; 2- Consolida a realizações prévias isentas de conflito;

3- Reorganiza as identificações infantis numa única identificação, por sua vez concordante com o papel a desempenhar num sector social (a aquisição da identidade) (Dias, 1980).

Para Erickson (1968), em cada estadio psicossocial, o indivíduo é confrontado com o desafio ou crise de determinado conflito, a resolução bem sucedida dessas crises prepara-o para superar, com maior ou menor maturidade, as tarefas ligadas ao processo de desenvolvimento. O conflito dominante na adolescência é a formação de identidade versus difusão de identidade.

Sprinthall e Collins (1999) fazem alusão ao facto de que a formação da identidade adulta é resultado da maturação das expectativas culturais (delinear responsabilidades e papéis que vai assumir na vida adulta) e das pressões sociais (desacordo dos pais, pressão dos colegas para que se adaptem ao grupo).

Também Claes (1990, p. 52) defende a ideia de que a adolescência se caracteriza “por

modificações importantes das relações sociais e dos agentes de socialização”, ou seja,

a “ascendência predominante da família, vai ser progressivamente substituída pelo

grupo de pares como fonte de referência das normas de condutas e da atribuição do

estatuto”.

(30)

Carla Maria Salgado da Cunha 29 características variáveis, em função do meio social de origem ou das actividades exercidas.

O grupo de pares funciona como um meio graças ao qual o adolescente tenta encontrar uma protecção, uma identidade, uma exaltação (a força e o poder do grupo contraposto à fraqueza do indivíduo) e um papel social.

Nesta linha de pensamento, Winnicott (1980) refere que “os jovens adolescentes

encontram-se isolados em conjunto”. De qualquer modo, esta vinculação que obriga a

um conformismo em relação ao grupo, o adolescente desenvolve por vezes ligações pouco profundas, aos outros como testemunho as dispersões, rupturas frequentes, reagrupamentos do grupo sob novas bases. A procura de uma identificação pode chegar a condutas conturbadas, pois como refere Winnicott (1980), “num grupo de

adolescentes de diversas tendências serão representadas pelos membros do grupo mais

doentes”.

Neste sentido, estas ideias combinam com uma perspectiva sociológica e psicossocial sobre a adolescência. Segundo Marcelli e Braconnier (1989), destacam-se alguns aspectos em que a velocidade das alterações de uma geração de adolescentes a outra nem as atitudes, nem o vocabulário engendrado pelos anos 60 parecem ajustar-se às realidades que se anunciam e que o jovem deverá afrontar no curso do próximo decénio. Em 1968, a UNESCO refere como palavras-chave: confrontação – contestação; marginalização; contracultura, contrapoder, cultura jovem. Os jovens eram então percebidos como um grupo histórico distinto e identificável, em que eram separados por um enorme fosso entre a sua geração e a dos seus antecedentes. Referia ainda que as palavras da vida dos jovens no próximo decénio seriam: penúria, desemprego,

(31)

Carla Maria Salgado da Cunha 30 sobrequalificação, inadequação entre emprego e formação recebida, ansiedade, atitude defensiva, pragmatismo, podendo inclusivamente ser acrescentado a esta lista a subsistência e a sobrevivência

Actualmente, a dimensão cultural tende a colocar-se transversalmente em relação às variáveis pessoais e sociais: num contexto social que evoluiu profundamente e graças a uma maturação mental mais precoce, muitos jovens tomam posições culturais relativamente independentes em relação às situações e aspectos que antes eram decisivos para as suas diferenciações socioculturais. Isto é, a identidade cultural já não coincide necessariamente com a identidade biológica ou social. As diferenças culturais no seio da juventude tornam-se progressivamente menos ligadas às diferenças de sexo, de idade, de origem regional e sobretudo à diferença das classes sócias; a juventude torna-se assim culturalmente e mundialmente um grupo posto em causa nas sociedades mais tecnicamente avançadas.

A procura da identidade, por vezes não é tarefa fácil para o adolescente, porque fazem quebrar da sua dependência infantil conduzindo-o ao mundo extra familiar, na busca da autonomia, sem cortar repentinamente com os laços familiares. Para Relvas (1996), os pais significam um abrandamento do controlo exercido sobre os filhos e o aumento correlativo da flexibilidade das normas familiares face à sua crescente independência.

Ainda para a mesma autora, independência e autonomia são fases que se interligam. Independência é designada pela capacidade que o indivíduo tem para satisfazer as suas necessidades básicas, até aí satisfeitas por aqueles de que é dependente. Autonomia é, na perspectiva de Relvas (2000, p. 54), a aspiração fundamental do indivíduo em

(32)

Carla Maria Salgado da Cunha 31 “… conseguir obter a sua independência e o controlo de si próprio,

necessariamente limitados por ligações naturais, pela possibilidade da

indiferenciação de si, total e absoluta, e por outros factos da vida”.

Neste contexto, Fleming (1997) argumenta que a emancipação seja consequência de uma compreensão interna atenuadora do laço emocional, até porque a relação parental conserva a sua força, em que os adolescentes continuam a responder à autoridade parental ao mesmo tempo que se sentem mais livres dele, daí que a relação é transformada e não rompida.

Partilhando desta opinião, Relvas (1996) refere que independência e autonomia, não são uma forma de ruptura ou isolamento em relação à família, mas antes, um modo de auto-responsabilização e afirmação de si, inclusive no seu seio, interligando-se na possibilidade de realização da grande tarefa do adolescente, analisada em termos psicossociais, isto é, na aquisição da identidade.

A este respeito Sprinthall e Collins (1999) partilham da ideia que existem aspectos importantes para o desenvolvimento social dos adolescentes, são mais capazes de considerar uma série de circunstâncias e acontecimentos que podem ocorrer, estando por isso, particularmente sensíveis ao reconhecimento das discrepâncias entre o real e o possível, que vão progressivamente deduzindo as características pessoais, as motivações e outros aspectos implícitos nos acontecimentos e comportamentos sociais, e também tomando consciência de que os diferentes indivíduos, incluindo eles próprios, possuem perspectivas diferentes acerca do mesmo conjunto de circunstâncias. Normalmente, estas transformações sócio-cognitivas ocorrem durante longos períodos de tempo, incluindo mudanças ascendentes no sentido da complexidade do raciocínio e das

(33)

Carla Maria Salgado da Cunha 32 percepções sociais, mas também mudanças laterais que se estendam as capacidades cognitivas em desenvolvimento a novos tipos de relações, circunstâncias e acontecimentos sociais.

Todavia, Fleming (1997) considera a existência de um paradoxo em que se associa a adolescência à luta pela autonomia, mas também existe uma atitude de protecção, ou ainda uma atitude que visa retardar para que este se torne um adulto autónomo.

A este respeito Cordeiro (2002, p. 220) refere que, “o grupo família varia

profundamente de cultura para cultura, a matriz família funciona como referência

permanente ao longo de toda a vida”.

Tal como referimos anteriormente na adolescência o grupo de pares torna-se uma fonte de gratificação na procura de uma identidade social. Nesta perspectiva, Sprinthall e Collins (1999) justificam que os pares desempenham um papel complementar no desenvolvimento do adolescente, embora por vezes as influências do grupo entram em conflito com as influências de outros adultos e dos pais.

Desta forma, o grupo de pares revela-se como o espaço onde a “ameaça de perda” pode ser esbatida. O adolescente na família, confronta-se com a necessidade da separação dos pais e com a necessidade de a eles renunciar como prolongamento do seu eu infantil.

Vivencia o espaço familiar como o espaço repleto de sentimentos de saturação e de ansiedades, rejeitando, por isso, o meio familiar como contentor dessas vivências. Perante esta ameaça, o grupo surge como elemento protector e de transformação dessas ansiedades e angústias:

(34)

Carla Maria Salgado da Cunha 33 jogo de identificações projectivas cruzadas, em que cada um projecta no outro e

aceita desse modo as suas projecções… é no grupo que o adolescente vive o

conflito de gerações…” (Dias, 1988, p. 208).

No grupo, este estabelecimento de relações com os pares refere-se, não apenas com o facto de participarem nas mesmas actividades, mas principalmente com base em sentimentos e interesses comuns. É nesta perspectiva que Sprinthall e Collins (1999) consideram que o suporte para a amizade resulta das transformações cognitivas que possibilitam ao adolescente compreender o verdadeiro sentido do relacionamento com base na partilha e na reciprocidade.

O grupo de pares oferece um refúgio ao afastamento, ao mesmo tempo que cede um outro conhecimento sobre as várias representações familiares de cada um dos elementos do grupo, dando lugar ou possibilitando enriquecimentos mútuos da personalidade de cada um. O jovem ensaia-se nos outros e com os outros sendo, portanto, o grupo o lugar do afastamento, de experimentação de novas identidades e, finalmente o lugar para poder ver de fora a família e assim rever e interiorizar definitivamente a sua representação.

Corroborando desta opinião, Relvas (1966, p. 181) pensa que as principais funções do grupo de pares da adolescência se centram em três aspectos fundamentais:

1- “Facilitar a separação em relação à família, permitindo aprender, pensar e

experimentar, com segurança, valores, não necessariamente presentes ou

aceitáveis pela família;

2- Favorecer a aquisição de um certo grau de conformismo face às normas (o

(35)

Carla Maria Salgado da Cunha 34 ou convencionais;

3- Permitir um desenvolvimento de um auto-conceito positivo, reassegurando ao

indivíduo de que a sua aceitação foi merecida e não oferecida”.

Deutsch (1979), analisa a problemática do grupo de pares na adolescência enquanto movimento facilitador da luta dos adolescentes contra a ansiedade e como estratégia da procura de uma identidade social. Na altura, contra a ansiedade predominam a revolta e o protesto contra a geração precedente e o que ele tem instituído, sob formas agressivas e de comportamentos socialmente não aceites, nomeadamente a delinquência ou a ostentação da falta de higiene. Como estratégia, são os jogos de identificação cruzados que permitem novas experimentações e integrações.

Uma outra perspectiva do grupo é defendida por Ferreira e Ferreira (2000), na qual este desempenha um papel crucial ao interceder, de uma forma positiva, no desenvolvimento equilibrado do adolescente, ou negativo incitando a apresentar comportamentos de risco, tais como: violência, consumo de álcool, comportamentos sexuais de risco, consumo de drogas ilegais e condução perigosa. Assim, a pressão e a influência que o grupo de pares pode exercer sob o adolescente, permite uma auto-imagem mais positiva ou mais desfavorável.

Ao longo do seu percurso, o jovem procura fazer opções dentro do grupo, escolhe um parceiro sexual, reagrupa e unifica os afectos, escolhe as suas próprias ideias e lentamente vai abandonando o grupo.

O adolescente experimenta uma nova sensação perante a autonomia, consegue estar só, sem solidão, nem medo, estar consigo e com os outros e atingir a descoberta de si e da

(36)

Carla Maria Salgado da Cunha 35 sua identidade (Santos, 1993).

Assim, Erickson (1968), reforça que o adolescente confrontado com a sua crise de identidade reage segundo a maneira como, na sua infância, integrou os diferentes elementos da identidade: se estes primeiros estados legaram à crise de identidade uma importante necessidade de confiança em si próprio e nos outros, então o adolescente procurará juntamente os homens e as ideias às quais possa atribuir a sua confiança. Se o segundo estado estabeleceu a necessidade de ser definido pelo que podemos livremente querer, então o adolescente procurará a ocasião favorável para decidir de pleno acordo com o que sente. Ainda o mesmo autor, descreve os diferentes tipos de adolescente segundo a prevalência de um ou outro destes estados:

- O adolescente à procura do Ideal; - O adolescente voluntário;

- O adolescente funcionando no imaginário e na ilusão;

- O adolescente à procura de um trabalho apaixonante sem outra motivação; - O adolescente ideólogo.

A sociedade realiza assim, um papel importante no desenvolvimento do adolescente, viabilizando o aparecimento e integração das diferentes etapas sob a pena de ver aparecer nele uma energia destrutiva selvagem.

Na opinião de Relvas (1996), a sociedade está organizada de modo a conceder ao jovem este espaço de tempo (a adolescência) como fase de experimentação das tarefas do mundo adulto (moratória psicossocial: namoro/casamento; estudo/mundo laboral e profissional).

(37)

Carla Maria Salgado da Cunha 36 Hoje em dia, verifica-se um alargamento deste tempo de espera através do prolongamento de estudos e do adiamento da independência financeira e laboral, o que, associada a uma falta de perspectiva e confiança em termos do futuro, dificulta a tarefa da família, uma vez que há uma inversão do que seria esperável neste processo. A independência económica, que deveria funcionar como base para estabelecer definitivamente uma autonomia sócio-afectiva, é cada vez mais tardia não sendo raro que a segunda se processe mais rapidamente que a primeira: o jovem já definiu a sua independência psicológica embora continue ainda dependente da família (Relvas, 1996).

A independência psicológica destes jovens pode, por vezes, conduzir a comportamentos dependentes dos consumos. Ogden (1999), explica através de teorias na Psicologia da Saúde, alguma dependência e comportamentos dependentes daí subjacentes.

(38)

Carla Maria Salgado da Cunha 37 2- O CONSUMO DE ÁLCOOL

2.1- PERSPECTIVA HISTÓRICA:ASPECTOS GERAIS DO CONSUMO DE ÁLCOOL

O consumo de álcool traduz-se num grave problema que tem vindo a evoluir drasticamente ao longo dos tempos, transformando-se num dos grandes problemas da Saúde Pública da sociedade actual.

O consumo de álcool tem uma história milenar que se confunde com a história da própria humanidade.

O termo alcoolismo foi definido, ao longo dos tempos, por inúmeros estudiosos. Foi Magnus Huss, médico sueco, que o descreve pela primeira vez em 1849, na sua obra

“Alcoholismus Chronicus”, como

“o conjunto de manifestações patológicas do sistema nervoso, nas suas esferas

psíquica, sensitiva e motora, observado nos sujeitos que consumiram bebidas

alcoólicas de forma contínua e excessiva e durante um longo período de tempo ”

(39)

Carla Maria Salgado da Cunha 38 2.2- CONCEITOS E A SUA EVOLUÇÃO

Pensa-se que na era do Paleolítico, o homem pré-histórico consumia frequentemente plantas fermentadas selvagens ou cultivadas, na sua alimentação. O homem tomou conhecimento, de forma acidental, dos efeitos da ingestão do produto fermentado a que o mel, recolhido e armazenado em recipientes artesanais, dera origem.

Desde a época do Neolítico (10 000 a 5 000 anos a.C.) que o Homem fabrica e consome bebidas alcoólicas a partir de cereais fermentados. A sua embriaguez ocasional era considerada como uma manifestação divina (causados pelos efeitos psicotrópicos do álcool), desta forma é vista como uma aliança com o divino que concede a imortalidade e o seu uso era reservado a chefes de tribo, feiticeiros em rituais festivos (Barrucand e Delmore, 1988).

As civilizações Grega e Romanas são marcadas pelo culto dos Deuses do vinho e da vinha – Dionísio e Baco, que eram adorados e festejados pelos seus povos.

A própria religião judaico-cristã atribui um papel importante ao vinho, contribuindo assim para a difusão do seu uso. Em vinho que Jesus transforma a água, no seu primeiro milagre nas bodas de Caná e o vinho que ele apresenta aos discípulos na última ceia como símbolo do seu sangue. A partir daqui, o vinho e a religião cristã permanecem unidos, assumindo esta uma importância primordial para o desenvolvimento de técnicas de cultura da vinha e do fabrico de bebidas alcoólicas.

(40)

Carla Maria Salgado da Cunha 39 bebidas alcoólicas, com a difusão das bebidas destiladas, estas com o teor de álcool mais elevado e de inúmeras variedades, tais como: aguardente, cognac, whisky, vodka, rum. Diversificam-se assim as bebidas alcoólicas com uma rápida expansão, dado o seu valor comercial.

Com a Revolução Industrial e todo o desenvolvimento que daí advém, quer tecnológico, quer comercial do século XIX, permite uma rápida diversificação de bebidas alcoólicas e os seus consumidores, assim como os locais de consumo (surgem os cafés e os

cabert’s). As bebidas alcoólicas, inicialmente sagradas, são hoje consumidas por quase

todos e em todas as ocasiões, tornando-se o seu uso um hábito quotidiano (Breda, 1994).

Assim, este consumo generalizado e, por muitos desenfreado, torna-se num dos maiores flagelos da sociedade e, um grave problema de Saúde Pública.

2.3- TENDÊNCIAS DE CONSUMO E AS NOVAS BEBIDAS

A sociedade moderna é uma das principais responsáveis pelo aumento do consumo de álcool, não só nos adolescentes, devido ao estilo de vida actual, mas também pelos fenómenos de socialização, pelo enraizamento das tradições culturais, pela divulgação publicitária e pelos atractivos dos próprios locais de consumo (Carvalho, 1991).

(41)

Carla Maria Salgado da Cunha 40 A adolescência corresponde a uma etapa desenvolvimental privilegiada, em que se iniciam os consumos começando pelo tabaco e pelo álcool (drogas legais) culminando nas drogas ilícitas.

As bebidas alcoólicas funcionam como uma droga socialmente aceite e os jovens utilizam-na como forma de descobrir novas sensações.

Actualmente, a tendência é a introdução de novas bebidas. Com a diminuição da produção do vinho o aumento da produção de cerveja e a criação dos shots e álcool-pops, permite aos jovens uma maior diversidade e tendências de consumir bebidas importadas de outra culturas que imperam na nossa sociedade.

É neste âmbito que Mello et al. (2001, p. 32) referem que os hábitos tradicionais do consumo de bebidas alcoólicas em Portugal têm sofrido, nas últimas décadas, uma mudança significativa pelo que destacam as seguintes tendências:

“… marcado aumento de consumo de cerveja; crescente consumo de bebidas

alcoólicas pelas mulheres; crescente consumo de bebidas alcoólicas pelos

jovens, por vezes integrado em quadros de politoxicomania; crescente consumo

de bebidas destiladas (aperitivos, whisky, cocktails, licores);

internacionalização e uniformização dos hábitos de beber; consumo de novas

bebidas (sumos com álcool – alcoolpops, redbull com vodka, shots, …)”.

O consumo de álcool é um fenómeno cultural, pois como refere Breda (2000), trata-se de uma espécie de passe para entrar no mundo dos adultos, funcionando como uma droga socialmente aceite. É neste contexto que se pode compreender o sucesso entre os adolescentes dos shots e do alcoolpops, bebidas que possuem elevado teor alcoólico,

(42)

Carla Maria Salgado da Cunha 41 são baratas, bebem-se rapidamente e encontram-se associadas a um ritual em grupo, nunca isoladamente e mais frequentemente em fins-de-semana, durante as férias ou festas.

2.3.1- As bebidas alcoólicas e o álcool etílico

As bebidas alcoólicas, como o nome indica, são bebidas que contém álcool. Para Alonso- Fernández (1992), as bebidas alcoólicas têm como substância comum a todas elas o álcool etílico ou etanol, cuja fórmula química CH3 CH2 OH, sendo esta a principal substância psicoactiva.

Mello et al. (2001) referem que o etanol é um líquido incolor, volátil de cheiro característico, de sabor queimoso e densidade 0,8. Mistura-se facilmente na água, podendo-se separar dela através da destilação e ferve a 78,5ºC.

O álcool é um produto da fermentação dos açúcares existentes em numerosos produtos de origem vegetal, tais como frutos, mel, tubérculos e cereais, sob a influência de microrganismos designada por leveduras (Alonso-Fernández, 1992).

A graduação alcoólica de uma bebida é avaliada pela percentagem volumétrica do álcool puro nela contido, assim um vinho de 12º contém 12% de álcool puro, isto é 120 cc ou 96 gramas de etanol (Loomis, 1989).

(43)

Carla Maria Salgado da Cunha 42 Segundo Mello et al. (1988), são definidos dois grupos de bebidas alcoólicas em função da sua origem: a) bebidas fermentadas – que se obtém por fermentação alcoólica dos sumos açucarados pela acção das leveduras, tais como o vinho, a água-pé, a cerveja e a cidra; b) bebidas destiladas – que resultam da destilação (por meio de um alambique). O álcool produzido na fermentação pode produzir bebidas mais graduadas, eliminando parte do seu conteúdo de água, através do calor, nomeadamente as aguardentes (cognac,

vodka, gin, whisky e rum) e os “aperitivos”/licores (ex: Porto, Madeira e licores

diversos).

Na perspectiva dos mesmos autores (Mello et al., 2001) e, reforçando esta opinião, Loomis (1989) refere que a quantidade de álcool fornecido pelas bebidas alcoólicas de diferentes graduações pode ser idêntica, sendo a quantidade de cada copo variável entre 12 a 16 gr de etanol. Quantidade análoga a que o organismo pode eliminar em uma hora.

2.4- NOÇÕES FISIOPATOGÉNICAS

O álcool está na base de múltiplas situações de doença do indivíduo. Quando ingerido através da boca, sendo a sua passagem rápida é completamente absorvido pelo tubo digestivo, 30% no estômago, cerca de 65% no duodeno e o restante no cólon (Mello et al, 2001).

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Carla Maria Salgado da Cunha 43 Porém, segundo os mesmos autores (Mello et al, 2001), nos indivíduos em jejum a absorção é feita entre 15 a 20 minutos, no entanto existem outros factores que podem alterar a velocidade dessa absorção, tais como a concentração e composição da bebida alcoólica, o estado da mucosa gástrica e duodenal e a ingestão simultânea dos alimentos.

Corroborando da mesma opinião (Loomis, 1989), o álcool quando absorvido atravessa a mucosa digestiva, ao contrário do que sucede com os alimentos, não sofre prévia digestão. Daí, e uma vez na corrente sanguínea difunde-se a todo o organismo em função do conteúdo de água dos diferentes órgãos e tecidos. Deste modo, encontra-se na saliva, no sangue, no líquido céfalo-raquidiano, no leite materno e no feto. Assim, os órgãos mais vascularizados, como o fígado, cérebro, rins, coração e músculo são os mais atingidos.

Quanto à eliminação do álcool, apenas 10% do total ingerido é feita através dos pulmões (permitindo o doseamento da alcoolémia) do suor e da urina. Os restantes 90% são eliminados a nível do fígado, no hepatócito (Mello et al, 2001).

Ainda segundo os mesmos autores (Mello et al, 2001), as etapas da oxidação do álcool, são realizadas quase unicamente no fígado. O etanol é modificado em acetaldeído (produto muito tóxico), através da acção da enzima catalizadora alcooldesidrogenase (ADH). Assim, o acetaldeído, por acção do acetaldeídodesidrogenase (ALDH), é metabolizado em acetato. Este, por sua vez, passa na sua maior parte para a circulação, onde a sua oxidação é efectuada nos tecidos periféricos originando dióxido de carbono e água.

(45)

Carla Maria Salgado da Cunha 44 No indivíduo com consumo excessivo / alcoólico crónico, a actividade do ADH pode ficar bloqueada e, duas outras vias de recurso podem participar na metabolização do etanol: a via do sistema MEOS (sistema microsómico de oxidação do etanol) e a via do sistema da catalase (Mello et al, 2001).

2.5-ETIOLOGIA

Caracterizar e definir a adolescência é uma tarefa extremamente difícil. No desenvolvimento vital do indivíduo, Blos (1979) evidencia que a adolescência é um período caracterizado por transformações de ordem psicológica, correspondestes a uma adaptação ao estado de puberdade.

As mudanças fisiológicas e psicológicas produzem-se em ritmos diferentes consoante os indivíduos.

Por isso, identificar as causas do consumo excessivo do álcool não é tarefa fácil. Diversas ciências como a Psicologia, a Sociologia, a Neurobiologia, a Psicopatologia e a Psicofarmacologia, têm efectuado numerosos estudos para aferir este comportamento patológico.

É complicado explicar isoladamente o fenómeno do alcoolismo, dada a existência de múltiplos factores coadjuvantes e a inexistência de uma causa determinante.

(46)

Carla Maria Salgado da Cunha 45 É neste contexto que se enquadra a definição de alcoolismo da Organização Mundial da Saúde (OMS), em que

“alcoolismo não constitui uma entidade nosológica definida, mas a totalidade

dos problemas motivados pelo álcool, no indivíduo, estendendo-se em vários

planos e causando perturbações orgânicas e psíquicas, perturbações da vida

familiar, profissional e social, com as repercussões económicas, legais e

morais” (Mello et al, 2001, p. 15).

Iremos abordar várias hipóteses etiológicas, nomeadamente biológicas, psicológicas e socioculturais.

2.5.1- Teorias Biológicas

A médio e longos prazo, o consumo de álcool, além de influenciar de forma directa, a saúde física e mental, aumenta a probabilidade de doenças como a cirrose hepática, o cancro, a hipertensão e os défices de memória.

Os marcadores biológicos ou bioquímicos do consumo de álcool, podem apresentar dados se um indivíduo consome bebidas alcoólicas de forma abusiva, mesmo que o consumo seja mínimo, apresentado através da monitorização.

(47)

Carla Maria Salgado da Cunha 46 consumo de álcool.

No entanto, com a pesquisa dos marcadores biológicos, estes podem estar associados a uma vulnerabilidade aumentada no alcoolismo, pois Schuckit (1991), demonstrou que o potencial genético traduz uma maior ou menor vulnerabilidade ao álcool e é variável de indivíduo para indivíduo e de família para família, ocorrendo variações na actividade enzimática interveniente, por exemplo no sistema de oxidação do etanol. O risco é cerca de 3 a 4 vezes mais elevado em filhos de pais alcoólicos.

Os factores genéticos podem por si só conduzir à dependência alcoólica, uma vez que mesmo em indivíduos predispostos geneticamente, interagem com o meio, condicionando a existência de dependência alcoólica. Estes indivíduos têm de estar regularmente expostos ao etanol para que a doença se desenvolva. Assim sendo, os factores ambientais e genéticos condicionam em partes iguais a dependência alcoólica (Adès e Lejoyeux, 1997).

Outros autores como Aarons et al (1999), citado por Matos et al (2000), referem que existe uma relação entre o facto de quanto mais cedo o adolescente inicia o consumo de álcool, mais probabilidade tem em adquirir problemas de saúde relacionados com o consumo do mesmo, nomeadamente doenças como a cirrose hepática, o cancro, a hipertensão e os défices de memória.

Segundo estes autores, vários estudos realçam a importância dos neurotransmissores (dopamina, serotonina, noradrenalina, GABA e glutamato), dos receptores do sistema de compensação cerebral e sistemas opióide, e das suas interacções com etanol, uma vez que ocorrem modificações na estrutura, composição e funcionalidade destas substâncias

(48)

Carla Maria Salgado da Cunha 47 (Matos et al, 2000).

Contrapondo estas teorias, Friedman e Kimball (1986), citado por Ogden (1999) referem que o álcool pode ter um efeito benéfico sobre a saúde quando consumido moderadamente, apresentando taxas de morbilidade e mortalidade inferiores às dos não consumidores e dos grandes consumidores. Argumentando que o consumo de álcool reduz a doença cardíaca através do mecanismo que influencia a produção de catecolaminas quando um indivíduo se apresenta em stress, protecção dos vasos sanguíneos em relação ao colesterol, autoterapia e uma estratégia de coping de curto prazo.

Os resultados do General Househoed Survey (1992), referiram alguns benefícios do consumo de álcool com a prevalência do vício mais elevada entre os não bebedores do que entre os bebedores. Este efeito supostamente positivo do álcool sobre a saúde, pode ser um artefacto do débil estado de saúde dos não bebedores que deixaram de beber devido a problemas.

2.5.2- Teorias Psicológicas

Torna-se difícil propor uma única explicação para defender estas teorias, sendo que uma das suas barreiras se relaciona com as numerosas diferenças psicológicas propostas entre os alcoólicos e a outra com a dificuldade em encontrar quais as características

(49)

Carla Maria Salgado da Cunha 48 psicológicas prévias face à doença e quais as que são resultado dela. As diferentes teorias tentam explicar a dependência alcoólica, através de influências psicológicas onde se incluem os factores afectivos e os processos cognitivos.

Para os psicanalistas, o alcoolismo funciona como manifestação de um conflito não resolvido (Ramón, 1995).

Partilhando deste conceito, os defensores da hipótese psicodinâmica, afirmam que os alcoólicos tentam satisfazer necessidades pessoais com a bebida, por exemplo controlar impulsos narcisistas (egocentrismo), ou satisfazer necessidades de auto-punição. Assumindo o álcool uma função de “objecto substituto”, esta realidade leva-nos a constatar também que

“são diversos os significados dos comportamentos alcoólicos dos adolescentes,

podendo ir de um processo de integração no mundo dos companheiros a um

verdadeiro comportamento toxicomaníaco, associado à utilização de drogas e à

delinquência” (Adés e Lejoyeux, 1997, citado por Antunes, 1998).

Ainda Mello e cols. (2001), ao citar Adés e Lejoyeux (1997), defendem que os alcoólicos vivem um processo de desafectação, em que se verifica uma ausência de emoções vivenciadas na sua vida relacional e, que se traduz por uma incapacidade de exteriorizar sentimentos ou afectos.

As teorias de reforços ou recompensas partem do princípio que as pessoas começam a beber porque o álcool lhes trás satisfação, prazer, remoção de desconforto, aumento de interacção social, além do preenchimento da necessidade de se sentir poderoso, funcionando como reforço positivo, influente na persistência e repetição do

(50)

Carla Maria Salgado da Cunha 49 comportamento alcoólico. O álcool adquire, deste modo, atitudes reforçadoras, que podem explicar a perda de controlo e grande tolerância adquirida (Schuckit, 1991).

O mesmo autor salienta ainda que as teorias psicológicas incluem a hipótese de redução da ansiedade, assente no pressuposto de que o álcool pode ser utilizado na tentativa de reduzir ou eliminar a ansiedade.

No entanto, para outros autores esta é uma hipótese controversa, já que alguns estudos comprovam o contrário, que os alcoólicos são mais deprimidos, mais ansiosos e mais excitados.

Corrobando desta teoria, Cappell e Greeley (1987), citado por Ogden (1989), com a teoria da hipótese da redução da tensão refere que os indivíduos podem apresentar um problema com o consumo devido ao facto do álcool reduzir a tensão e a ansiedade, por vezes não são os verdadeiros efeitos do álcool, mas os esperados que perpetua o comportamento do consumo.

2.5.3- Teorias Socioculturais

Actualmente o abuso do consumo de álcool tem aumentado em larga escala, tanto em países desenvolvidos, como nos países em vias de desenvolvimento. É um dos fenómenos socioculturais mais generalizados das últimas décadas, com uma série de

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Figura 7 – Aproveitamento Escolar
Figura 13 – Consumo diário de bebidas alcoólicas na família
Figura 14 – Idade que bebeu pela 1ª vez
Figura 15 – Afirmações consideradas importantes, como razões para beber
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Referências

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