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Literatura infantil: literatura de prazer

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Academic year: 2020

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LITERATURA INFANTIL: LITERATURA DE PRAZER

Dante TRINGALI*

A L i t e r a t u r a , em g e r a l , é uma a t i v i d a d e de p r a z e r e i s s o se a p l i c a , em p a r t i c u l a r , à L i t e r a t u r a I n f a n t i l .

A prova desta verdade se encontra na própria definição da L i t e r a t u r a . Como todas as belas a r t e s , e l a se d e f i n e como expressão do b e l o Não se pode d e s c a r t a r o c o n c e i t o de b e l o , na definição das a r t e s . Ora, o b e l o , segundo uma longa tradição da Estética que culmina em Kant, na definição das a r t e s . Ora, o b e l o , segundo uma longa tradição da Estética que culmina em Kant, na Crítica do Gosto, é o que agrada, o que causa um prazer desinteressado de contemplação, não de posse. A r t e é o produto de um f a z e r que desperta uma emoção g r a t u i t a de satisfação. A a r t e é, por sua n a t u r e z a , a l g o de muito p r a z e n t e i r o .

Acrescente-se que se c a r a c t e r i z a ainda a a r t e e a l i t e r a t u r a , com e l a , como uma a t i v i d a d e lúdica, o que se c o n s t i t u i em uma nova razão de p r a z e r . H u i z i n g a , em seu l i v r o Homo Ludens, demonstrou o papel do jogo em toda c u l t u r a e, de modo e s p e c i a l , na a r t e .

A l i t e r a t u r a , como toda a r t e , r e a l i z a - s e não apenas como um j o g o , mas como um brinquedo. É brinquedo na medida em que não segue r e g r a s prévias, p o i s as r e g r a s surgem ao b r i n c a r . É jogo na medida em que obedece a r e g r a s gue, t o d a v i a , se podem mudar a qualquer momento. Os gênios

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i n v e n t o r e s brincam, os demais seguem-lhe os modelos, jogam.

Evidentemente que o caráter de jogo e brinquedo se acentua na L i t e r a t u r a I n f a n t i l . Mas não é estranho à l i t e r a t u r a do a d u l t o que, apesar da seriedade, não perde a feição lúdica. Tornamo-nos criança, de novo, no convívio com a a r t e .

A l i t e r a t u r a , como demonstrou Aristóteles, na Poética, acontece no mundo do possível, mas do possível crível, onde há l u g a r para o absurdo c o n v i n c e n t e , para as incoerências coerentes. Com e f e i t o , o maravilhoso domina todas as a r t e s , mesmo as r e a l i s t a s . A a r t e é sempre ficção, uma criação l i v r e do espírito, num jogo l i v r e , num brinquedo e n t r e a f a n t a s i a e o entendimento, gerando um mundo de " f a z - de- c o n t a " , de " m e n t i r i n h a " , mas não de m e n t i r a , porque a a r t e nem é v e r d a d e i r a , nem f a l s a . O a r t i s t a é um f i n g i d o r e f i n g i r é a essência do brinquedo. B r i n c a quem escreve, b r i n c a quem lê l i t e r a t u r a .

Quem mais acentuou o traço de prazer que impregna a a r t e f o i Barthes, em seu l i v r o O Prazer do Texto, onde estabelece que a l i t e r a t u r a é uma a t i v i d a d e de prazer e de d o i s t i p o s p r i n c i p a i s de prazer que ocorrem na História da L i t e r a t u r a e das A r t e s .

Há, segundo e l e , t e x t o s de prazer e t e x t o s que chama, em francês, de t e x t o s de " j o u i s s a n c e " que se t r a d u z como t e x t o s de fruição e, de modo mais e x p r e s s i v o , como t e x t o s de "curtição".

O t e x t o de prazer é o t e x t o que gera um contentamento, um c o n f o r t o i m e d i a t o , fácil e se lê num r i t m o variável, o r a mais lentamente, o r a mais rapidamente, s a l t a n d o t r e c h o s , como guem devora, ávido de d e s c o b r i r o que v a i acontecer. Com essa emotividade e e u f o r i a , os adolescentes lêem a obra de Júlio Verne, de um fôlego.

Texto de curtição (um o u t r o t i p o de p r a z e r , mas sempre p r a z e r ) lê-se atentamente, lentamente, sem perder nada, saboreando mais a expressão que o conteúdo. A linguagem chama mais a atenção por

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seus artifícios que a história. Assim se u s u f r u i a l e i t u r a de um Joyce.

O prazer do t e x t o domina a l i t e r a t u r a t r a d i c i o n a l , o t e x t o de curtição domina a l i t e r a t u r a modernista.

O problema r e s i d e no c o n f r o n t o dessas duas c a t e g o r i a s com a L i t e r a t u r a I n f a n t i l .

Note-se que não há antagonismo e n t r e l i t e r a t u r a de prazer e de curtição, e l a s não se negam, não se excluem, mas se complementam, revelando aspectos d i v e r s o s do b e l o .

No e n t a n t o , aqui se encontra uma l i n h a de divergência e n t r e L i t e r a t u r a I n f a n t i l e l i t e r a t u r a de a d u l t o . Esta última compreende t a n t o t a n t o o t e x t o de p r a z e r , como o de curtição,dependendo da formação do r e c e p t o r . É uma guestão de gosto. A L i t e r a t u r a I n f a n t i l , ao invés, se concentra nos t e x t o s de p r a z e r . Não é fácil imaginar-se um Kafka ou um Guimarães Rosa para crianças! Não o b s t a n t e , cabe ao e s c r i t o r e ao educador prepará-las para saborear artifícios estilísticos e o u t r o s refinamentos dos t e x t o s de crutição.

Fica c l a r o que a L i t e r a t u r a I n f a n t i l de d i s t i n g u e p o r uma carga mais i n t e n s a de p r a z e r . É a L i t e r a t u r a de prazer por excelência. Mais do que no a d u l t o , na criança domina a " l e i do p r a z e r " sobre a " l e i da r e a l i d a d e " . É verdade que, desde cedo, a criança começa a s e r recalcada e r e p r i m i d a . Mas essa mesma pressão c a s t r a d o r a em vez de d i m i n u i r o prazer da L i t e r a t u r a I n f a n t i l , encontra novos caminhos de se i n t e n s i f i c a r . A L i t e r a t u r a tem o mesmo mecanismo do sonho, é uma forma de realização de desejos. O t e x t o i n f a n t i l se t o r n a o b j e t o de desejo por p a r t e da criança, p e r m i t i n d o - l h e uma v o l t a , de algum modo, ao paraíso do útero materno.

E n t r e t a n t o para que não se t u r v e o prazer da L i t e r a t u r a I n f a n t i l importa que o t e x t o s e j a recebido como l i t e r a t u r a , e que s e j a r e s p e i t a d a a i n t e n c i o n a l i d a d e literária. Um t e x t o literário quer s e r literário e não o u t r a c o i s a . Se não acontece i s s o , o t e x t o pode causar desprazer à

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criança. Não se lê história como se fosse História. Não se toma uma ficção por r e a l i d a d e . À criança n e c e s s i t a de t e r consciência de que se envolve com l i t e r a t u r a .

Ainda para que não se perca o prazer do t e x t o , a criança tem de a t i n a r com o v e r d a d e i r o e f e i t o de cada gênero literário. Cada gênero deve r e a l i z a r sua " c a t a r s e " , quer d i z e r , seu e f e i t o específico.

Há duas espécies de c a t a r s e : uma f r e u d i a n a e o u t r a aristotélica. De acordo com a c a t a r s e f r e u d i a n a , através da l i t e r a t u r a que tem o mesmo mecanismo do sonho, realizam-se os desejos r e p r i m i d o s . No momento, cuidamos da c a t a r s e aristotélica, segundo a q u a l , cada gênero literário exerce um e f e i t o específico. E x i s t e um e f e i t o lírico, épico, cômico, dramático.

A criança não pode a s s i s t i r à comédia como se fosse drama. Tem de perceber que a comédia mostra o ridículo, o risível, mas sem dor. De o u t r o modo, uma criança s o f r e r i a ao a s s i s t i r a uma comédia dos Três P a t e t a s , se não captasse a convenção das v i o l e n t a s pancadas que se dão e n t r e s i ? O próprio drama, uma história t r i s t e , não p r e c i s a d e s p e r t a r lágrimas v e r d a d e i r a s e doídas, mas deve s e r uma dor contemplada, não v i v i d a . Importa que h a j a um

"distanciamento" e n t r e a criança, o s u j e i t o , e o o b j e t o , a história.

Pode-se, nesta a l t u r a , l e v a n t a r a objeção que à L i t e r a t u r a I n f a n t i l não cabe apenas d e s p e r t a r p r a z e r , mas que p r e c i s a ser útil. deve agradar e e n s i n a r . A L i t e r a t u r a I n f a n t i l , como qualquer l i t e r a t u r a , tem de a t i n g i r o b j e t i v o s estéticos e éticos. Ora, a preocupação de educar, através da L i t e r a t u r a I n f a n t i l , só será e f i c a z , se não s a c r i f i c a r o p r a z e r , elemento e s s e n c i a l da a r t e . A lição moral que, por acaso, se q u e i r a t r a n s m i t i r , se frustrará se f o r maçante. A história não se reduz a s e r um mero p r e t e x t o para doutrinação, sobretudo para uma doutrinação ambígua, duvidosa.

Pelo f a t o da l i t e r a t u r a s e r , por sua natureza, uma a t i v i d a d e de p r a z e r , i s s o nos l e v a a

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p o s t u l a r que a L i t e r a t u r a I n f a n t i l não d i f e r e essencialmente da l i t e r a t u r a de a d u l t o senão em grau.

E p e l a p r i m a z i a que o prazer tem na L i t e r a t u r a I n f a n t i l , somos tentados a supor que e l a não é apenas um sub grupo da l i t e r a t u r a g e r a l . Pelo contrário, a L i t e r a t u r a I n f a n t i l é o núcleo básico ao r e d o r do qual se forma toda l i t e r a t u r a . Não é a L i t e r a t u r a I n f a n t i l que decorre da L i t e r a t u r a g e r a l , mas esta é que decorre daquela. Antes de ura Homero para a d u l t o s , t e r i a havido um Homero para crianças. H i s t o r i c a m e n t e , a L i t e r a t u r a I n f a n t i l f u n c i o n a como a m a t r i z da l i t e r a t u r a , em g e r a l . Através da l i t e r a t u r a , o a d u l t o r e t o r n a à infância. A a r t e é uma a t i v i d a d e lúdica de p r a z e r . Ela nasce i n f a n t i l e nunca deixa de s e r i n f a n t i l . No fundo, só e x i s t e uma única l i t e r a t u r a , a i n f a n t i l .

A seu modo, a l i t e r a t u r a de curtição vem a ser apenas um jogo mais r e q u i n t a d o . O simples prazer é a r e g r a .

A l i n h a de nossa reflexão nos l e v a a uma definição da L i t e r a t u r a I n f a n t i l como uma p a r t i c u l a r l i t e r a t u r a de p r a z e r , adequada à criança e que i n t e r e s s a à criança.

Referências

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