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A POÉTICA DA COMPAGNIE DOS À

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Academic year: 2019

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA – UDESC CENTRO DE ARTES – CEART

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM TEATRO – PPGT

CAROLINA GOSCH FIGNER DE LUNA

FLORIANÓPOLIS, 2015 DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

A POÉTICA DA

COMPAGNIE DOS À

DEUX

:

história, construção do gesto

e princípios do treinamento

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CAROLINA GOSCH FIGNER DE LUNA

A POÉTICA DA COMPAGNIE DOS À DEUX: HISTÓRIA, CONSTRUÇÃO DO GESTO E PRINCÍPIOS DO

TREINAMENTO

(VIVÊNCIAS, NOTAS E ENTREVISTAS COM ANDRÉ CURTI E ARTUR RIBEIRO)

Dissertação apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Teatro do Centro de Artes, da Universidade do Estado de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Teatro.

Orientadora: Profª. Drª. Maria Brígida de Miranda.

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Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UDESC

L961p Luna, Carolina Gosch Figner de

A poética da Compagnie Dos à Deux: história, construção do gesto e princípios do treinamento (vivências, notas e entrevistas com André Curti e Artur Ribeiro) / Carolina Gosch Figner de Luna. – 2015.

175 p. il.; 21 cm

Orientadora: Maria Brígida de Miranda Bibliografia: p. 147-157

Dissertação (Mestrado) - Universidade do Estado de Santa Catarina, Centro de Artes, Programa de Pós-Graduação em Teatro, Florianópolis,2015.

1. Teatro. 2. Poética. 3. Criação. 4. Teatro francês. 5. Teatro brasileiro. I. Miranda, Maria Brígida de. II. Universidade do Estado de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Teatro. III. Título.

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CAROLINA GOSCH FIGNER DE LUNA

A POÉTICA DA COMPAGNIE DOS À DEUX: HISTÓRIA, CONSTRUÇÃO DO GESTO E PRINCÍPIOS DO

TREINAMENTO

(VIVÊNCIAS, NOTAS E ENTREVISTAS COM ANDRÉ CURTI E ARTUR RIBEIRO)

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Teatro do Centro de Artes, da Universidade do Estado de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Teatro, Área de Concentração: Teorias e Práticas Teatrais, Linha de Pesquisa: Linguagens Cênicas, Corpo e Subjetividade.

Banca Examinadora

Orientadora: ___________________________________________ Profª. Drª. Maria Brígida de Miranda

Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC

Membro: ______________________________________________ Profª. Drª. Nara Waldemar Keiserman

Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO

Membro:_______________________________________________ Prof. Dr. José Ronaldo Faleiro

Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC

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Para Irene e Paulo de Luna, pelo amor.

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AGRADECIMENTOS

À Compagnie Dos à Deux, especialmente aos diretores Artur Ribeiro e André Curti, pela confiança, generosidade, delicadeza e atenção dedicadas desde o primeiro contato. Também pelas entrevistas, conversas e imagens concedidas.

À Maria Brígida de Miranda, pela orientação construtiva e pela generosa sensibilidade, dedicação e confiança em minha pesquisa desde o primeiro momento.

À Nara Keiserman, amiga e mestra que tanto admiro. Ao querido mestre José Ronaldo Faleiro, que tive o prazer de conhecer pelo caminho da minha jornada acadêmica e à Fátima Costa de Lima, que compartilha os seus ensinamentos com singular maestria.

Aos professores e funcionários do PPGT (Programa de Pós-Graduação em Teatro), em especial à Sandra Siggelkow (in memoriam) e Emília Leite [Mila], pessoas preciosas que me ajudaram em todos os momentos.

Ao PPGT, ao CEART (Centro de Artes) e à UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), pela oportunidade de aprender cada vez mais. À CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), por possibilitar tal aprendizado ao conceder-me bolsa de estudos.

Aos profissionais da biblioteca da UDESC, que colaboraram de maneira gentil e humana com as minhas buscas bibliográficas.

À querida Kysy Fischer, que ao longo desta jornada exerceu diversas funções, estando sempre atenta com o meu caminhar, o que me livrou de muitos tropeços. Foi meu apoio e ombro amigo nos bons e maus momentos.

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Aos amores: Dorzila Irigon, Paula Maciel Garcez, Daniel Dias, Luciano Flávio de Oliveira, Bibiana Machado, Robson Karsten, Elke Siedler, Arlette Souza, Jucca Rodrigues, Wellington Menegaz, Marcia e Paulo Cremer, Denis Gosch e todos os nossos, Ingrid Luna e todos os nossos, Domingos Leahy e família, Emanuela Camargo, Cristiano Raboch, Marina Scandolara, Raquel Purper, Michele Louise Schiocchet, Carolina Bahiense, Fran Barros, Cacá Bordini, Ana Paula Beling, Ana Kfouri, Simone Collaço, Tatiane Petit, Francisco Gaspar e Fábbio Matsubara..., por colorirem os meus dias nestes dois anos com imenso afeto.

À Vanda Pereira dos Santos, por transformar as tarefas do dia a dia em poesia.

Aos magníficos: Ray (in memoriam), Ursa (in memoriam), Pingo, Caetano, Clarinha e Kiki, por provarem que tudo pode ser mais divertido do que é.

À Letícia e Alfredo Leistner, Luiz Felipe e João Paulo, pelas percepções mágicas que me trazem da vida.

Por fim e por primeiro, em especial, aos meus pais, Irene e Paulo César Figner de Luna, pelo brilho nos olhos a cada (re)encontro. Pelo sorriso no rosto a cada toque coberto de carinhos. Pelos afagos e abraços que fazem o tempo parar... . Pelos perfumes, sonoridades, cores, sabores..., saberes que me ensinam a sentir.

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RESUMO

Há um saber que desvela a poesia dos acontecimentos. Aprende-se esse saber vivendo a continuidade de ser. A presente dissertação surge a partir desse saber, desse viver, desse ser, experimentados pela pesquisadora ao longo do seu estudo sobre a Compagnie Dos à Deux, dos diretores e atores-dançarinos André Curti e Artur Ribeiro. Esse saber, que é o saber poético, orquestra esta pesquisa por meio de um arranjo: o dos afetos. Tal composição apresenta um pouco da história da companhia franco-brasileira de teatro gestual ao longo dos seus dezessete anos de existência: fundação, espetáculos e premiações. Os laços que uniram os diretores e as vivências da pesquisadora são contados para o leitor por meio de duas memórias: as evocadas e as prospectivas. Estas possibilitam algumas articulações e reflexões sobre a questão que orienta o desenvolvimento desta dissertação: o que é o gesto para Curti e Ribeiro? A partir de tais reflexões, a pesquisadora apresenta três princípios que sustentam a metodologia do treinamento da companhia: a “escuta”, a “tonicidade do microgesto” e o “contato”.

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ABSTRACT

There is a knowledge that reveals the poetry of events. One learns about this knowledge by living the continuity of being. This current work comes from this knowledge, this living, this

being, experienced by the researcher during her studies of the

Compagnie Dos à Deux by the directors and actors/dancers André Curti and Artur Ribeiro. This knowledge, which is the poetic knowledge, orchestrates this research through an arrangement: the affections. This composition presents a little of the history of the Franco-Brazilian physical theater company, during its seventeen years of existence: its foundation, shows and awards. The bonds that united the directors with the researcher experiences are explained to the reader through two memories: the evoked and the prospective. These two allow some associations and reflections on the question that guides the development of this thesis: what is the gesture to Curti and Ribeiro? From these considerations, the researcher presents three principles that support the company's training methodology: the "listening", the "tone of the micro gesture" and the "contact".

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LISTAS DE ILUSTRAÇÕES

Foto 1 – André Curti e Artur Ribeiro no espetáculo Dos à deux

(1997). Créditos: Olivier Redant.______________________41 Foto 2 – Artur Ribeiro e André Curti, no espetáculo Dos à deux

(1997). Créditos: Olivier Redant._____________________42 Foto 3 – Artur Ribeiro (Primeiro plano) e André Curti (Segundo plano), no espetáculo Aux pieds de la lettre (2001). Créditos: Pierre Ruaud.______________________________45 Foto 4 – André Curti e Artur Ribeiro, no espetáculo Aux pieds de la lettre (2001). Créditos: Olivier Redant._____________47 Foto 5 – Artur Ribeiro (Rapaz) e André Curti (Mãe do rapaz), no espetáculo Saudade em terras d’água (2005). Créditos: Xavier Cantat._____________________________________51 Foto 6 – André Curti (Mãe do rapaz), Lakko Okino (Esposa do rapaz com o bebê no colo) e Artur Ribeiro (Rapaz), no espetáculo Saudade em terras d’água (2005). Créditos: Xavier Cantat.___________________________________________53 Foto 7 – Matias Chebel (Composição dos objetos cadeira, prato e mesa de jantar), André Curti (Angelo/Angel), Maya Borker (Olga, a governanta), Artur Ribeiro (Pai de Angelo/Angel), no espetáculo Fragmentos do desejo (2009). Créditos: Xavier Cantat.___________________________________________55 Foto 8 – Artur Ribeiro (Orlando) e André Curti (Angelo/Angel), no espetáculo Fragmentos do desejo (2009). Créditos: Xavier Cantat._____________________________56 Foto 9 – Sede brasileira da Compagnie Dos à Deux: Casarão (2012). Recepção. Créditos: André Curti._______________58 Foto 10 – Sede francesa da Compagnie Dos à Deux (2009). Recepção. Créditos: Artur Ribeiro._____________________59 Foto 11 – Luis Melo (Aquário com o peixe vermelho e o homem solitário, dono do peixe), no espetáculo Ausência

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Foto 23 – Desenho de Michel Costiou sobre o Dos à deux

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

BA Bahia

BH Belo Horizonte

CAL Casa das Artes de Laranjeiras

CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

CEART Centro de Artes

CCBB Centro Cultural Banco do Brasil

CIE. Compagnie

CTBA Curitiba

EUA Estados Unidos da América FAV Faculdade Angel Vianna

FIA Festival Internacional de las Artes

FMUSP Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo FPOLIS Florianópolis

LUME Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais MAP Músculos do assoalho pélvico

MinC Ministério da Cultura MG Minas Gerais

MMII Membros inferiores MMSS Membros superiores

PPGT Programa de Pós-Graduação em Teatro PUC Pontifícia Universidade Católica RJ Rio de Janeiro

SC Santa Catarina

SESC Serviço Social do Comércio SNA Sistema nervoso autônomo SNC Sistema nervoso central SP São Paulo

TA Transverso abdominal TAC Teatro Álvaro de Carvalho

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UDESC Universidade do Estado de Santa Catarina UFBA Universidade Federal da Bahia

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO______________________________23 2 SOMOS DUAS CRIANÇAS VESTIDAS EM PELES DE ADULTOS_______________________________37 2.1 UM POUCO DA HISTÓRIA DA COMPAGNIE DOS À

DEUX______________________________________37 2.2 UM DOIS EM UM: A CUMPLICIDADE ENTRE

ANDRÉ CURTI E ARTUR RIBEIRO_____________71 2.2.1 O encontro entre os diretores e a vontade de

trabalharem juntos___________________________73 2.2.2 Sobre o criar a dois: a importância da utilização de

técnicas corporais de contato e do universo infantil para a construção da poética gestual da Compagnie Dos à Deux__________________________________75 3 UM INSTANTE SUSPENSO DE HUMANIDADE_81 3.1 SOBRE OS ENCONTROS, OS SENTIDOS E OS

AFETOS_____________________________________81 3.1.1 Tecendo expressões___________________________90 3.2 SOBRE A PELE, OS SEUS SENTIDOS E A SUA

POÉTICA___________________________________97 3.2.1 Primeiras impressões sobre o estudo da pele_____100 4 MERGULHAR NA POESIA E FAZER SURGIR O

SENTIDO__________________________________113 4.1 UM CONVITE A CÉU ABERTO________________113 4.2 O WORKSHOP DA COMPAGNIE DOS À DEUX___118 4.3 PRINCÍPIOS DO TREINAMENTO______________125 4.3.1 A “escuta”__________________________________126 4.3.2 A “tonicidade do microgesto”__________________132 4.3.3 O “contato”_________________________________138

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1 INTRODUÇÃO

Há quatro anos me dedico a pesquisar o teatro gestual da Compagnie Dos à Deux, dos diretores e atores-dançarinos André Curti e Artur Ribeiro. A companhia é franco-brasileira e foi fundada em Paris no ano de 1998. Desde o ano de 2010, possui mais uma sede, localizada no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro – RJ. Em sua formação artística mais recente, há oito atores-dançarinos, contando com os diretores, e um ator convidado. Há também duas equipes técnicas: a brasileira e a francesa.

A Dos à Deux, desde o início da sua história, realiza turnês em diversos países do mundo, sendo premiada e aclamada pela crítica especializada e pelo público. Frequentemente, se apresenta como convidada de importantes eventos nacionais e internacionais de teatro e de dança, que, por sua vez, são as duas linguagens artísticas utilizadas pelos diretores tanto em seu treinamento diário como em cada processo de criação das suas produções artísticas.

Atualmente, constam no repertório da companhia dez espetáculos: Dos à deux (1997), Je suis bien moi...? (2000),

Fulyo (2000), Aux pieds de la lettre (2001), La nuit des cercles

(2003), Saudade em terras d’água (2005), Fragmentos do desejo (2009), Ausência (2012), Dos à deux – segundo ato

(2013) e Irmãos de sangue (2013). As tramas destes abordam temas socioculturais e políticos polêmicos como: preconceito, gênero, identidade, classe, incesto, deficiência física, deficiência mental, solidão, entre outros.

Curti e Ribeiro escolhem os temas que desejam levar para a cena e criam as tramas de cada espetáculo, mesmo em casos como o Dos à deux e na sua remontagem, Dos à deux – segundo ato (que foi inspirado na peça Esperando Godot1, de

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Samuel Beckett2) e em La nuit des cercles (que foi criado a partir do texto Le cercle3, de Matéi Visniec4).

A escolha por essa companhia surgiu em outubro de 2011, quando assisti a uma apresentação do espetáculo

Fragmentos do desejo no Teatro Álvaro de Carvalho, na cidade de Florianópolis – FPOLIS. Na época, finalizava a especialização lato sensu em Preparação Corporal nas Artes Cênicas da FAV (Faculdade Angel Vianna – RJ). Esse espetáculo tornou-se, então, a motivação e o objeto de pesquisa necessário para a realização da monografia. Queria, basicamente, compreender o que era o gesto para os diretores e como eles prepararam os seus corpos para aquele espetáculo.

Sob a orientação da Professora Doutora Nara Keiserman5, apresentei cronologicamente a partir do século XVIII, as investigações sobre o gesto realizadas por alguns artistas, pesquisadores e pedagogos das artes cênicas, destacando as suas definições sobre o mesmo. Este estudo foi

principal obra [do dramaturgo]” (WIKIPÉDIA. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Esperando_Godot>. Acesso em: 20 ago. 2014).

2“Samuel Beckett foi um dos fundadores do teatro do absurdo e é

considerado um dos principais autores do século 20. Sua obra foi

traduzida para mais de trinta idiomas” (UOL EDUCAÇÃO. Disponível

em: <http://educacao.uol.com.br/biografias/samuel-beckett. jhtm>. Acesso em: 24 jan. 2015).

3Este e outros textos do dramaturgo constam em sua página: MATEI

VISNIEC. Disponível em: <http://www.visniec.com/index.html>. Acesso em: 01 fev. 2015.

4Matéi Visniec é dramaturgo e poeta romeno, “vive e trabalha na França

desde 1987, onde foi refugiado político. Suas peças são hoje editadas, traduzidas em várias línguas e montadas em mais de vinte países,

sobretudo na França e na Romênia” (É REALIZAÇÕES EDITORA.

Disponível em:

<http://www.erealizacoes.com.br/autores/autores_MateiVisniec.asp>. Acesso em: 23 nov. 2014).

5Professora Doutora da UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de

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fundamental para tentar compreender o que era o gesto para Curti e Ribeiro, visto que estes o definiram em entrevista realizada por mim no dia vinte e cinco de abril de 2012, via celular (LUNA, 2012, p. 40 – 46), como “algo abrangente” e que mudava conforme a dramaturgia criada. Também, na mesma entrevista, os diretores definiram o que o gesto não era na teatralidade da companhia: pantomima, gesticulação cotidiana que acompanha a linguagem verbal, muito menos gestualidade abstrata.

Estes dados obtidos com os diretores possibilitaram algumas aproximações e alguns diálogos com os estudos realizados, mas considerei-os dados gerais. Finalizei essa primeira etapa convicta de que havia algo na história da companhia e no seu treinamento que poderiam me dar respostas mais profundas sobre o que era esse gesto. Para responder o meu questionamento, queria compreender então quais eram as técnicas corporais da dança e do teatro que Curti e Ribeiro utilizavam em seu treinamento diário e como eles criavam as partituras gestuais dos personagens dos seus espetáculos.

O interesse em aprofundar a pesquisa sobre tais assuntos levou-me ao PPGT (Programa de Pós-Graduação em Teatro) – Mestrado do CEART (Centro de Artes), da UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina – SC), no início de 2013. Nestes dois últimos anos, assisti a outros dois espetáculos da companhia: Ausência e Irmãos de sangue, respectivamente em setembro de 2012, no SESC (Serviço Social do Comércio) Ginástico – RJ, e em abril de 2014, no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), de Belo Horizonte – BH. Participei de um dos três workshops6 realizados por Curti

6O workshop que fiz foi o segundo e, assim como o primeiro, ocorreu na

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e Ribeiro, fiz vinte e dois vídeos de entrevistas com eles, dos quais nove são apresentados na presente dissertação. Também recolhi diversas informações com Ribeiro por meio de diferentes mídias – celular, telefone, e-mails, mensagens em redes sociais e skype –, além de adquirir parte do material audiovisual da companhia.

Desde a primeira vez que os vi, até este momento em que o leitor me encontra, percebo algumas transformações significativas em minha pesquisa. Bailarina de formação, ao longo da minha trajetória, o gesto foi sempre uma temática de interesse consolidada. Primeiro como estudante da Escola de Dança, Artes e Técnicas do Theatro Municipal Maria Olenewa, pertencente à Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro – RJ, cuja linguagem estética e base de treinamento era a dança clássica, passando na adolescência e juventude por outras formações como o sapateado, a dança moderna, a capoeira, a dança afro e algumas técnicas de educação somática até graduar-me em Dança pela FAP (Faculdade de Artes do Paraná) em Curitiba – PR, e especializar-me no método Pilates pelo Espaço Pilates – RJ e pelo Physicalmind InstituteNew York dos EUA (Estados Unidos da América), e em Preparação Corporal nas Artes Cênicas pela FAV.

Contudo, mesmo possuindo a gestualidade da dança como referência basal, as vivências que tenho tido como estudante de teatro e como pesquisadora da Dos à Deux vêm modificando a maneira como encaro o estudo do gesto, pois têm transformado as memórias do meu organismo – este assumido aqui como o neurocientista António Damásio7 (2004; 2009; 2014) sustenta em suas pesquisas, ou seja, do meu

7Distinguished Professor e chefe do Departamento de Neurologia da

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organismo, do meu corpo8 como sôma9 (2009), integrado, sem dicotomias. Como consequência de tais transformações, vivencio e ensino a própria dança, as técnicas e métodos de educação somática pelos quais me interesso de outro modo, que não o de antes.

A presente dissertação surge a partir de algumas dessas vivências com o teatro e com a Compagnie Dos à Deux. Somados a elas, não só os já citados, como outros estudos e conceitos defendidos pelo próprio Damásio (2004; 2009; 2014), estruturam e determinam que a mesma seja orquestrada por um arranjo poético: o dos afetos (2009). Em função de tal arranjo, defino o nome de cada capítulo por meio de frases retiradas das sinopses dos espetáculos da companhia, significativas para os diretores e para a presente pesquisa. Esta, portanto, é orientada pela abordagem metodológica auto-etnográfica que,conforme esclarece a Professora PH. D. Sylvie Fortin10, “permite o ir e vir entre a experiência pessoal e as dimensões culturais a fim de colocar em ressonância a parte interior e mais sensível de si” (2009, p. 83).

No Primeiro Capítulo, denominado Somos duas crianças vestidas em peles de adultos, o leitor verá que, no intuito de apresentar um pouco da história da Dos à Deux, realizo um percurso cronológico sobre a mesma. Nesta etapa,

8De acordo com a Mestra em Filosofia Márcia de Fátima Barbosa de Sousa

pela UCP (Universidade Católica Portuguesa – Portugal), “O corpo deve

ser visto como base de intersubjectividade, esfera de relações” (2007, p.07).

9Ao longo desta dissertação, utilizo as três nomenclaturas, alternadamente:

corpo, sôma e organismo, que representam essa ideia de Damásio (2009), de integração sem dicotomias entre o corpo propriamente dito, a mente e o cérebro.

10Professora PH. D. do Departamento de Dança da Universidade de Quebéc

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utilizo como fontes a página oficial da companhia11, algumas bibliografias, mas, principalmente, as fontes de campo: entrevistas e cadernos de notas. Estas foram fundamentais para o desenvolvimento da presente dissertação porque esclarecem diversas dúvidas e informações incompletas que não constam na página virtual da companhia.

Na primeira parte do Primeiro Capítulo, trago dados sobre a fundação da Dos à Deux, as nacionalidades, os currículos profissionais de Curti e Ribeiro e as motivações que os levaram a criar cada espetáculo. Descrevo as tramas e ilustro duas imagens de cada peça, das diversas que a companhia possui. Apresento aquelas que chamaram a minha atenção, as que incitaram em mim certo imaginário. Porém, o leitor verá que há três exceções12: não há imagens dos espetáculos Fulyo, Je suis bien moi...? e La nuit des cercles. Pois, o primeiro foi um espetáculo encomendado por um festival de dança no Brasil e apresentado uma única vez. Já Je suis bien moi...? foi um espetáculo fechado para o público, realizado para e com os pacientes de um hospital psiquiátrico francês e La Nuit des cercles teve todas as suas imagens perdidas. Por isso, não há imagens destes espetáculos. O leitor também verá que incluo as referências dos links que possuem publicações da imprensa nacional e internacional realizadas sobre a companhia, que estão em sua página virtual. Todo esse material e todas as imagens foram autorizadas pelos diretores para serem inseridas na presente dissertação.

Na parte final do Primeiro Capítulo, apresento alguns detalhes sobre a história da Dos à Deux e dos diretores. Esses detalhes foram recolhidos por meio de duas entrevistas a mim concedidas por Curti e Ribeiro: a primeira aconteceu no dia

11COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/?lang=fr>. Acesso em: 03 abr. 2013 a 10 fev. 2015.

12Dados fornecidos pelos diretores da companhia no dia vinte de janeiro de

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dois de dezembro de 2013 e foi realizada na sede brasileira da companhia – RJ. A segunda aconteceu no dia cinco de abril de 2014, no CCBB – BH. Os nove vídeos apresentados na presente dissertação foram gravados nesses dois dias: cinco vídeos na sede da companhia e quatro no CCBB.

Os detalhes que apresento referem-se a assuntos de cunho pessoal, lembranças de quando os diretores se conheceram e como começaram a trabalhar juntos. Desde o momento em que gravei os vídeos, não tive a intenção de (re)contar tais histórias. Por este motivo, introduzi no corpo do texto desta dissertação as falas de Curti e Ribeiro quando estes resgatam as suas memórias, as suas recordações. Ou, o que na teoria de Damásio (2004) são chamadas de imagens evocadas. A finalidade dessa escolha é permitir que o leitor crie as suas próprias imagens perceptivas (DAMÁSIO, 2004) sem a interferência das minhas interpretações (DAMÁSIO, 2004) sobre os laços que uniram os diretores e determinaram a poética gestual da Compagnie Dos à Deux.

Concluo o Primeiro Capítulo com a frase dita por Ribeiro no fim da entrevista do dia cinco de abril de 2014, que compôs a sinopse do primeiro espetáculo da companhia, o Dos à deux. No instante em que escutei: “somos duas crianças

vestidas em peles de adultos”, tive uma vivência que transformou a minha pesquisa. Se até aquele momento o meu interesse estava voltado para o treinamento e para o processo de criação das partituras gestuais da companhia, após tal vivência, o foco passou a ser outro. Para que o leitor consiga compreender essa transformação, resgato as minhas próprias memórias. Estas são apresentadas em todo o Segundo Capítulo, denominado Um instante suspenso de humanidade, cuja frase costuma aparecer no fim das sinopses dos espetáculos da companhia.

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Accioly Fonseca13. Nela, a psicanalista reflete, por meio da transversalização de conceitos vindos de diferentes áreas de conhecimento, sobre a importância do saber poético na vida. Tal saber não é adquirido intelectualmente, mas vivenciado quando o indivíduo mergulha no “estado de arte e/ou de risco”

(1999, p. 13). Para contar sobre como e por que tive essa vivência, entrelaço alguns estudos e conceitos de pesquisadores como os do sociólogo Zygmunt Bauman14 (2005), do arquiteto Juhani Pallasmaa15 (2011), da crítica de dança Laurence Louppe16 (2012), do geógrafo Yi-Fu Tuan17 (2013), do já citado Damásio (2004; 2009; 2014) e do pesquisador do gesto e do movimento Hubert Godard18 (2001).

Apresento então, para o leitor, as minhas imagens evocadas daquele dia: o quanto eu estava imersa em um

cotidiano cronológico ou na cronologia da senso-percepção comum (FONSECA, 1999). O quanto os sentidos do meu corpo estavam imersos no padrão hierárquico sensorial típico da cultura tecnológica ocidental em que vivo, cuja visão, especialmente dois tipos dela, a afocal e a focal

(PALLASMAA, 2011), está no topo. Como consequência, não estava com o corpo aberto (LOUPPE, 2012) para qualquer

contato frente a frente (BAUMAN, 2005) com o outro e com o meio.

Recordo o quanto estava certa de que já havia realizado os estudos necessários com e sobre a companhia. Não havia dúvidas sobre como Curti e Ribeiro criavam as partituras

13Poeta e psicanalista. Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC

(Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – SP).

14Sociólogo e Professor emérito de Sociologia das Universidades de Leeds

(Grã-Bretanha) e Varsóvia (Polônia).

15Arquiteto e Professor de Arquitetura na Universidade Aalto (Finlândia). 16Escritora e crítica de dança (França).

17Doutor em Geografia pela Universidade da Califórnia (Estados Unidos). 18Professor da Universidade de Paris VIII (França), ex-bailarino clássico e

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gestuais dos seus espetáculos, como também não havia dúvidas sobre quais eram as técnicas corporais da dança e do teatro que os diretores utilizavam em seu treinamento. Tinha estudado algumas teorias do teatro, da dança, da filosofia, etc. que dariam o embasamento necessário para a pesquisa e, por este motivo, havia em mim, a certeza do saber constituído

(FONSECA, 1999), que é adquirido intelectualmente. Possuía também algumas memórias que eu poderia evocar e que, aliadas a este saber, garantiriam o desenvolvimento da escrita do que, no fim, não veio a ser a minha dissertação.

O leitor verá que, ao dar início à entrevista no CCBB – aliás, a primeira do meu ciclo de entrevistas que realizei com Curti e Ribeiro juntos –, precisei me aproximar consideravelmente dos diretores, e aproximá-los igualmente, a fim de gravar o vídeo com qualidade sonora satisfatória. Isto porque estávamos no pátio interno daquele espaço (TUAN, 2013) cultural onde havia um burburinho e uma movimentação de transeuntes e prováveis espectadores das peças em cartaz. A partir da proximidade ocasionada pelo contato frente a frente

com os diretores, a entrevista passou a ter outra conotação que não a tradicional, no caso: entrevistadora e entrevistados. Sua conotação foi, para mim, da ordem dos encontros (FONSECA, 1999), que desvelam a poesia dos acontecimentos. O meu corpo, que até então estava fechado, ganhou abertura e porosidade, potencializando os meus sentidos sem qualquer hierarquia entre eles. Quando Ribeiro disse: “somos duas crianças vestidas em peles de adultos”, ele se emocionou. E os

sinais (DAMÁSIO, 2009), vocais e gestuais (GODARD, 2001), dessas emoções de fundo (DAMÁSIO, 2009) me tocaram profundamente.

Assim, mostro o quanto a esfera afetiva que surgiu naquela entrevista, ou melhor, naquele encontro, fez com que eu fosse atravessada por uma consciência sonhadora

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2009) do meu corpo, do meu sôma. Foi justamente nesse instante que emergi ali, do cotidiano cronológico para o

cotidiano poético (FONSECA, 1999), cujo saber não se aprende intelectualmente. Pelo contrário, aprende-se vivendo a

continuidade de ser (FONSECA, 1999).

Sem conseguir fazer uso da linguagem discursiva para explicar a vivência que tive, recorro à linguagem poética para que, mais uma vez, o leitor crie as suas próprias imagens perceptivas sobre tal acontecimento, vivenciado também pelos diretores da Dos à Deux. Vale salientar que a escrita poética é um recurso utilizado em toda a presente dissertação. Por dois motivos: primeiro porque tal escrita está ligada ao saber poético, que foi fundamental para o reconhecimento e o desenvolvimento do tema que envolvia esta pesquisa desde outubro de 2011: a pele, os seus sentidos e a sua poética. Segundo porque, sem recorrer a tal saber, não haveria a possibilidade de discorrer sobre o seu novo foco: a poética ou o

tear incomensurável (FONSECA, 1999) da Compagnie Dos à Deux.

Na segunda etapa do Segundo Capítulo, evoco as primeiras imagens que possuo da época em que fui aluna da FAV. Lá, recebi um conselho para ler o livro Tocar: o significado humano da pele19, de Ashley Montagu20, que li somente após experimentar o conceito-vivência corpo-de-sonho (FONSECA, 1999) durante o encontro realizado no CCBB – BH com os diretores Curti e Ribeiro.

A obra de Montagu (1988) tornou-se essencial para a presente pesquisa, pois nela há diversos dados e estudos apresentados pelo antropólogo que possibilitam que este afirme

19

MONTAGU, Ashley. Tocar: o significado humano da pele. São Paulo: Summus, 1988.

20Antropólogo, humanista, anatomista, Ph.D. em Antropologia pela

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o quanto o tocar e o ser tocado modificam as dimensões de uma realidade. O quanto o contato físico e o contato físico imaginativo (MONTAGU, 1988) são imprescindíveis nas relações humanas tornando-as mais generosas, amorosas e mais afetivas. E o quanto as experiências táteis determinam a maneira como o indivíduo passa a ter impressões e expressões de si, do outro e do mundo.

Também por meio de outras obras que dialogam produtivamente com o livro recomendado, como a do psicanalista Didieu Anzieu21 (2000), a do filósofo José Gil22 (1997), a da neurologista Cristina B. Pereira23 (2014), a da fisioterapeuta Maria Luiza Sales Rangel24 (2010), etc., passei a constatar o quanto a pele, os seus sentidos e a sua poética estão imbricados em cada frase, lembrança, atitude, partes do corpo e, consequentemente, em cada gesto executado pelos diretores. O que me levou a crer que é exatamente em tal lugar, ou

espaço de afetividade (TUAN, 2013), que se encontra a poética ou tear incomensurável da Compagnie.

Com o interesse voltado sobre a pele, os seus sentidos e a sua poética como um espaço de afetividade, acabei aproximando dois estudos que viabilizaram para mim, um melhor entendimento sobre o que é o gesto para Curti e Ribeiro. Não mais de uma maneira ampla, geral como antes. Aqui, procuro entrelaçar duas linhas de pesquisas: a de Damásio (2009) sobre o organismo humano, e a de Godard (2001; 2010) sobre o gesto. A partir destas, creio esclarecer

21Psicanalista e Professor Emérito de psicologia clínica da Universidade de

Paris X – Nanterre (França).

22Filósofo, ensaísta e Professor universitário distinguido pela Universidade

de Évora.

23Doutora em Neurologia e médica pela FMUSP (Faculdade de Medicina da

Universidade de São Paulo – SP).

24Fisioterapeuta e Mestre em Neurociências pela UFF (Universidade

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para o leitor a questão que me acompanhava há três anos de maneira mais profunda, mas, paradoxalmente, porosa.

Para Damásio (2009), a estabilidade do organismo é efêmera. Ou seja, ininterruptamente o organismo vive ciclos de vida e morte. Porém, por mais que o organismo mude continuamente, paradoxalmente, há nele características que são preservadas. O neurocientista usa a expressão “construção” para fazer uma comparação do que seria isso. Se o leitor comparar o organismo a uma casa, seria o mesmo que dizer que os seus tijolos são mudados, mas as linhas arquitetônicas da casa são mantidas. É desta ideia que surge o termo “construção do gesto” da presente dissertação.

Godard (2001; 2010), por sua vez, afirma que o gesto está ligado à história pessoal de cada indivíduo, às suas experiências socioculturais, políticas, ambientais, etc., mas também ao seu organismo. Este inclusive, ponderado de modo bastante semelhante à concepção de organismo de Damásio (2009). Ambos argumentam, por exemplo, que os afetos

interferem nas ações dos músculos tônico-gravitacionais ou antigravitacionais tônicos. São tais músculos, que atuam globalmente e emitem os sinais vocais e gestuais.

Godard (2001; 2010) afirma que tais músculos promovem o que ele chama de pré-movimento do corpo. Assim, o gesto é aquele que confere a expressividade individual humana, pois ele surge na distância que existe entre o pré-movimento e o movimento corporal propriamente dito. O gesto, para o pesquisador (2001; 2010) e para esta pesquisa, é aquele que faz com que haja diferenças, mesmo que sutis, na execução de um mesmo movimento realizado por duas pessoas. No entanto, ao mesmo tempo em que o gesto é singular, único em cada indivíduo, ele também, paradoxalmente, transforma-se a cada experiência vivida por esse mesmo indivíduo.

(37)

com a concepção, intuitiva, do que é o gesto para Curti e Ribeiro. Estes acreditam que cada pessoa possui uma estética gestual própria e que deve ser respeitada, mas também creem na singularidade que cada instante gestual possui. Na capacidade de transformação do gesto a cada experiência vivida pelo indivíduo.

Ao compreender que o gesto surge como uma consequência de tudo o que se vivencia e que o organismo humano é formado e moldado pelas diferentes características e funções da pele e dos seus sentidos, que estão em relação com o outro e o meio a cada instante, passei a associar o gesto como uma extensão da pele e a crer que os diretores da Dos à Deux, intuitivamente, estabelecem essa relação entre o gesto e a pele. Por isso ele “é abrangente e muda conforme a dramaturgia criada”. Assim, passei a considerar a construção do gesto da companhia como uma das incontáveis tessituras do seu tear incomensurável.

Finalizo o Segundo Capítulo explicando para o leitor as considerações que faço acima por meio da definição de Damásio (2009) sobre a pele. O neurocientista afirma que esta é um complexo sistema sômato-sensitivo (2009) formado por diversos outros sistemas e subsistemas e que, por sua vez, produzem inúmeras sinalizações (2009): as do meio interno e visceral, as do tato discriminativo (2009) e as do sistema musculoesquelético e vestibular, combinadas ou não entre si.

Considero, com Damásio (2009), que qualquer gesto é construído a partir dessas inúmeras sinalizações, e por isso mesmo, possui incontáveis qualidades e características como formas, texturas, cores, perfumes, sabores, enfim, saberes únicos. Consideração esta que me fez querer saber como Curti e Ribeiro criam, tecem, entrelaçam e costuram cada tessitura gestual cênica?

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Portanto, a sua organização foi orientada principalmente pela minha observação participante (FORTIN, 2009) no workshop

da Dos à Deux, mas também pelas duas entrevistas que realizei com os diretores e por outras formas de dados, como caderno de notas e conversas informais. Além também de algumas referências bibliográficas.

Na primeira parte de tal Capítulo, por meio de uma escrita poética, convido o leitor para criar as suas imagens perceptivas sobre o dia em que o conheci Casarão ou a sede da

Dos à Deux – RJ, onde ocorreu o workshop de que participei, em dezembro de 2013. Trago algumas curiosidades sobre o mesmo, além de informações técnicas e estrutura metodológica. Apresento as técnicas que os diretores utilizam em seu treinamento diário e as que eles usaram no workshop. Analiso brevemente, de maneira comparativa não qualitativa, as vivências que tive no workshop da companhia com outras vivências que tive em cursos de outros artistas, em que estes trabalharam as mesmas técnicas utilizadas por Curti e Ribeiro. A ideia é destacar como a abordagem metodológica dos diretores colaborou para que eu percebesse que existem alguns elementos-chave, que chamo de princípios, na metodologia do treinamento da companhia.

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2 SOMOS DUAS CRIANÇAS VESTIDAS EM PELES DE ADULTOS

“Há na memória um rio onde navegam Os barcos da infância, em arcadas De ramos inquietos que despregam Sobre as águas as folhas recurvadas. Há um bater de remos compassado No silêncio da lisa madrugada, Ondas brancas se afastam para o lado Com o rumor da seda amarrotada. Há um nascer do sol no sítio exacto, À hora que mais conta duma vida, Um acordar dos olhos e do tacto, Um ansiar de sede inextinguida. Há um retrato de água e de quebranto Que do fundo rompeu desta memória, E tudo quanto é rio abre no canto

Que conta do retrato a velha história”

(José Saramago)

2.1 UM POUCO DA HISTÓRIA DA COMPAGNIE DOS À DEUX

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como um caderno de notas, visto que a mesma não foi gravada, os diretores confirmaram cada detalhe que recolhi e trouxeram novos dados. Por isso, já adianto para o leitor que, nas próximas páginas, existem também informações que não aparecem em nenhuma das três versões. Quando faço referência a tais notas, estas serão apresentadas para o leitor no seguinte formato: [NOTAS, 2015]. Isto porque os materiais de pesquisa de campo que constam nesta dissertação não foram publicados. Esses materiais são inéditos.

As imagens apresentadas neste subcapítulo foram retiradas da página oficial da Dos à Deux, versão portuguesa e francesa, e da página oficial dos diretores na rede social

facebook: CIE. DOS À DEUX CURTI RIBEIRO. Disponível em: <https://www.facebook.com/ciedosadeux?fref=photo>. Acesso em: 07 jun. 2014. Alguns trechos da entrevista que realizei com Ribeiro no dia dois de dezembro de 2013, no Casarão, também são inseridos aqui. E são apresentados para o leitor da seguinte forma: [ENTREVISTA, 2013]. Esses trechos, destacados do corpo do texto e em fonte menor, referem-se à pesquisa e ao processo de criação dos espetáculos. Os folders

daqueles que assisti também foram objetos de consulta:

Fragmentos do desejo, Ausência e Irmãos de sangue. Além disso, acrescento algumas matérias da imprensa por meio das suas respectivas páginas virtuais e trago algumas referências da pesquisa que realizei sobre a Dos à Deux (LUNA, 2012). Assim, inicio o percurso histórico sobre a companhia.

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diretores iniciam as pesquisas dos temas que geram as tramas das estórias que levarão para a cena, passando pela execução do seu treinamento diário, até a execução dos seus espetáculos. Ribeiro [NOTAS, 2015] diz que a imbricação dessas duas linguagens possui relação direta com os próprios percursos profissionais individuais dele e de Curti, antes mesmo de se conhecerem. Ambos formaram-se, concomitantemente, nas duas artes. Ele é angolano naturalizado brasileiro. Ingressou no curso de Artes Cênicas e Interpretação da UNIRIO, em 1990. Além da graduação, fez curso técnico em dança contemporânea na Escola de Dança Angel Vianna e sapateado na academia do TAP, de Flávio Salles. Estudou com Silvia Pasello, do Centro Perla Sperimentazione Teatraledi Pontedera. E também com Maria Pia, Judith Malina, Sérgio Melgaço e Ariane Mnouchkine. Trabalhou com Márcio Vianna, Susanna Kruger, Daniel Herz, Herval Rossano, Fernando Guerreiro, Tizuka Yamasaki e Jean-Luc Courcoult. Mudou-se para a França, em 1993. Formou-se em Estudos Teatrais na Université de la Sorbonne Nouvelle Paris – III e na Escola de Mímica Corporal Dramática de Paris. Também na França, participou de oficinas de Steven Wasson e Corine Soum, Denise Namura, Michel Bugdhan, Georges Roiron, Serge Poncelet, Fabrice Dugeid e na companhia Enfin le jour – Théâtre Danse Buto. Foi ator e preparador corporal da companhia Théâtre Yunké, de Serge Poncelet, ator e bailarino da Les Odes Bleues, de Mercedes Chanquia-Aguirre. Atuou sob a direção de Eric Bouvoun, Catherine Dubois, Annie Schildler e Josef Nadj.

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Patrick Olivier e trabalhou em todas as criações da companhia de dança-teatro À Fleur de Peau, de Denise Namura e Michel Bugdhan, de 1992 a 1998. Curti também teve experiência com o teatro de rua da companhia norueguesa Cirka Teatar, com direção de Anne Marit Saether. Criou e interpretou o espetáculo Plusieurs Essais sur la Solitude.

Os diretores [NOTAS, 2015] afirmam que as motivações que os levaram a criar cada um dos dez espetáculos do repertório da companhia foram as mais diversas, mas que todos os processos criativos possuem como gênese um texto escrito por eles mesmos. É a partir deste que constroem os outros elementos cênicos. Afirmam também que, desde o Dos à deux, possuem uma preocupação estética e lúdica com relação aos objetos cênicos dos seus cenários. Os objetos são manipulados pelos personagens ao longo de cada peça e assim, transformados em novos objetos. Esta característica animada, que brinca com o imaginário do público, é preocupação constante em cada trabalho de criação dos dois artistas.

Atualmente, segundo a página oficial da Compagnie Dos à Deux (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

GESTUEL. Disponível em:

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Ribeiro, ao falar do primeiro espetáculo que deu nome à companhia, afirma [ENTREVISTA, 2013] que a inspiração em

Esperando Godot trouxe para ele e para Curti

um símbolo muito forte da relação de duo e dessa questão que o Beckett

traz da espera, especialmente “enquanto a gente espera o que é que a gente faz?”. Isto fez com que criássemos o espetáculo em torno da dependência

física. Além disso, quando escrevemos o Dos à deux o fizemos em didascálias, que falavam justamente sobre a existência da espera. O Dos à deux são quadros sobre a espera. A dramaturgia do nosso espetáculo destruiu a dramaturgia do Beckett, matamos o Gogo no final e o Didi continua em cima do corpo do outro. Falamos sobre a dependência física até a morte. No espetáculo, a nossa finitude está ligada à terra: você vai morrer e você vai ser o meu chão quando eu morrer e por aí vai.

Foto 125 - André Curti e Artur Ribeiro, no espetáculo

Dos à deux (1997). Créditos: Olivier Redant.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL Dos à deux.

Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article276&lang=pt_br>. Acesso: 07 set. 2014.

25Todas as imagens da presente dissertação são apresentadas sempre da

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De acordo com a página da companhia (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?rubrique6&lang=pt_br >. Acesso em: 30 set. 2014), a trama de Dos à deux desvela a relação existente entre dois homens que vivem à espera de

Godot, que nunca chega. Enquanto esperam, eles se protegem, tentam se divertir e criam embates, “se portam, se suportam, ... para dar a impressão que o tempo passa”. O fato é que eles dependem um do outro para realizar qualquer ação.

Foto 2 – Artur Ribeiro e André Curti, no espetáculo

Dos à deux (1997). Créditos: Olivier Redant.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Dos à deux.

Disponível em:

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Os diretores [NOTAS, 2015] contam que o Dos à deux26 fez mais de 450 apresentações em diversos países e em festivais27 de grande importância como o Festival d’Avignon, na França, em 1999, e o Festival Mindelact, na República do Cabo Verde, em 2000.

Ribeiro [NOTAS, 2015] afirma que, no ano de 1999, ele e Curti começaram a se interessar e a pesquisar sobre a loucura e o confinamento de pessoas. Ainda apresentavam-se com o Dos à deux, mas desejavam um novo espetáculo. Em uma de suas apresentações, realizada em Paris daquele ano, conheceram Madeleine Abassade, responsável pelos eventos culturais do Instituto Psiquiátrico Marcel Rivière, localizado na região de Yvelines (França).

Na página da companhia (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article24&lang=pt_br>. Acesso em: 30 set. 2014), consta que a pesquisa colaborativa existente entre Curti, Ribeiro e Abassade culminou em uma associação artística entre a Dos à Deux e o Instituto por meio de um programa interministerial chamado Cultura no Hospital. Assim, os diretores passaram a ter acesso e contato direto com os funcionários do Instituto e com os seus pacientes.

Ribeiro [NOTAS, 2015] relata que o resultado do programa gerou alguns trabalhos artísticos, dentre eles: o espetáculo Fulyo, que foi concebido, dirigido e encenado pelos diretores para uma única apresentação, no Festival Dança

26A equipe técnica e artística de Dos à deux foi composta por: Artur Ribeiro

e André Curti (Concepção, encenação, interpretação, cenário e acessórios), Catherine Dubois (Colaboração artística), Charlotte Léo (Figurinos), Raphael Keller (Iluminação), Lionel Dollet (Criação sonora), Nathalie Redant (Produção) e Olivier Redant (Fotos).

27Para ver detalhes das críticas e matérias da imprensa das apresentações e

matérias dos referidos festivais: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

GESTUEL. Disponível em:

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Brasil (2000) – RJ. Este encomendou Fulyo para ser apresentado na mesma noite com o Dos à deux. Na época, Curti e Ribeiro consideraram Fulyo como a célula do próximo trabalho da companhia. Mas, após o desenvolvimento do processo criativo, tal célula acabou se transformando em um espetáculo bem diferente: Aux pieds de la lettre.

Além de Fulyo, o espetáculo Je suis bien moi...?foi concebido e dirigido pelos diretores, mas encenado por oito pacientes e três enfermeiras do hospital. A apresentação foi realizada no próprio Instituto Psiquiátrico Marcel Rivière e não foi aberta ao público. Por este motivo, a equipe técnica de

Fulyo e de Je suis bien moi...?, assim como a discriminação das tramas desses dois espetáculos, não aparecem na página oficial da companhia. Os diretores [NOTAS, 2015] destacaram a importância dos mesmos como fonte de pesquisa artística.

Ribeiro [ENTREVISTA, 2013], quando fala sobre Je suis bien moi...?, afirma que:

Esse foi um trabalho apresentado no instituto psiquiátrico em que fomos pesquisar e foi apresentado pelos pacientes e funcionários do hospital. Com eles e para eles. Não teve continuidade porque era o nosso desejo. Não tínhamos a menor vontade de virarmos pedagogos dentro de hospitais psiquiátricos. Não era essa a nossa vontade. Fomos pesquisar para um trabalho e retornamos o nosso trabalho para eles como uma troca. Não fomos lá explorar e fomos embora. Não. Fomos, ficamos dois anos e meio, trocamos na certeza de que deixamos um pouco de nós e levamos um pouco deles, com certeza, porque foi uma troca.

Na época, também foi feita a produção de um filme sem título, gravado por três meses pelo cineasta Jean-Luc Daniel, que trabalha na equipe técnica francesa da companhia. E, além disso, foi realizada uma residência de pesquisa com dois artistas28 para a criação do espetáculo Aux pieds de la lettre.

Conforme afirma a página da companhia (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL.

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Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article163&lang=pt_br>. Acesso em: 30 set. 2014), Aux pieds de la lettre retrata dois homens que são escravos de suas próprias imaginações. Um deles possui delírios místicos e jamais desiste da ideia de que o mundo necessita da carta que ele precisa escrever. O outro é vítima de obsessões que o levam a crer que os seus pés estão sempre sujos de poeira e que ele é responsável pelo nascer e pelo pôr do sol. Através do contato existente entre eles, “o corpo de um serve à loucura do outro. Um pé, três pés, cinco mãos, uma cabeça”.

Foto 3 – Artur Ribeiro (Primeiro plano) e André Curti (Segundo Plano), no espetáculo Aux pieds de la lettre (2001). Créditos: Pierre Ruaud.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Aux Pieds de la

lettre Disponível em:

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Ainda na página da companhia (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article34&lang=en>. Acesso em: 30 set. 2014) consta que o cenário desse espetáculo é formado apenas por “uma mesa mágica e de formas burlescas”, que ganha novas configurações conforme os dois personagens a manipulam.

Ribeiro [ENTREVISTA, 2013] diz:

Tudo o que fizemos com essa mesa nos dois anos de pesquisa foi quase infinito. No espetáculo, usamos concretamente apenas dez por cento do que pesquisamos com esse objeto. Ele se tornou um instrumento musical, de tanta coisa que nos dava. Aliás, esta é uma característica nossa: os nossos objetos cênicos viram prolongamentos dos nossos corpos.

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Foto 4 – André Curti e Artur Ribeiro, no espetáculo Aux pieds de la lettre (2001). Créditos: Olivier Redant.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Aux Pieds de la

lettre. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article54&lang=pt_br>. Acesso: 07 set. 2014.

Ribeiro [NOTAS, 2015] diz que Aux pieds de la lettre29

ficou em cartaz até 2010 e, assim como o Dos à deux, também se apresentou em diversos países. Foi premiado como Melhor espetáculo no Festival Mindelact e recebeu o Prêmio do júri no

Kosovo in Fest, em Prístina, ambos em 200530.

29A equipe técnica e artística desse espetáculo teve como integrantes: André

Curti e Artur Ribeiro (Criação, direção e interpretação), Michel Musseau (Criação musical original), Charlotte Léo (Figurinos), Raphael Keller (Iluminação), Nicolas Cesbron (Criação objeto-cenário) e Maria Adélia (Visagismo e acessórios), Nathalie Redant (Produção), Pierre Ruaud e Olivier Redant (Fotos).

30Para ver detalhes das críticas e matérias da imprensa das apresentações e

matérias dos referidos festivais: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

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Os diretores [NOTAS, 2015] apontam que a partir desse espetáculo, a companhia passou a receber a coprodução e parcerias de diversos teatros franceses que possibilitaram que a mesma conseguisse desenvolver o seu universo artístico com infraestrutura espacial e aporte técnico.

A página da companhia (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article35&lang=pt_br>. Acesso em: 02 out. 2014) menciona que o projeto seguinte de Curti e Ribeiro foi aberto para artistas de outras áreas, que não apenas do teatro e da dança, e teve como referência basal o texto Le cercle, de Matéi Visniec. O trabalho final resultou em um espetáculo itinerante teatral e plástico. Ribeiro [NOTAS, 2015] diz que este foi denominado La nuit des cercles31. Diz também que as fotos e vídeos deste espetáculo foram todas perdidas por acidente.

O diretor [ENTREVISTA, 2013] relata que ele e Curti trabalharam em La nuit des cercles

com nove intérpretes: circenses, músicos, etc. Era uma instalação em que o público percorria o teatro inteiro. Ocupamos o teatro todo. Era um espetáculo criado para aquele teatro, para aquele banheiro, escada, camarim, etc. Não transportamos esse espetáculo para outro teatro. (...). Foi nessa época, acho, que começou a surgir a nossa vontade de companhia. Não queríamos mais trabalhar os corpos para um espetáculo específico, mas para simplesmente trabalharmos.

Além disso, os diretores afirmam na página da Dos à Deux (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL.

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article446&lang=pt_br>. Acesso em: 02 out. 2014.

31A equipe técnica e artística dessa peça foi formada por: André Curti e

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Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article81&lang=pt_br>. Acesso em: 10 out. 2014), que as inúmeras turnês que fizeram para países como Japão, Indonésia, Brasil, Tailândia, Rússia, países africanos e europeus com os espetáculos criados até aquele momento, trouxeram diferentes tipos de experiências. Estas permitiram intercâmbios culturais e possibilitaram que Curti e Ribeiro tivessem novas percepções sobre indivíduos imigrantes como eles. Tais experiências e percepções transformaram os seus corpos, as suas memórias, e desencadearam questionamentos sobre a identidade e reflexões sobre a saudade. Esta, que, para os diretores, traduz perfeitamente o sentimento da falta, “uma vez que tudo foi deixado para trás” (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

GESTUEL. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article81&lang=pt_br>. Acesso em: 10 out. 2014).

Assim, ambos desenvolveram o novo espetáculo da Dos à Deux, cujo tema voltava-se para as pessoas que vivem em outro país que não o seu de origem. Pessoas que imigram pela aventura ou por conflitos ambientais e sociopolíticos como o exílio, por exemplo. Para realizar tal intenção, decidiram abandonar a estrutura do duo “para explorar um trio ou, mais exatamente, um quarteto– peça gestual para três atores físicos e uma marionete” (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

GESTUEL. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article81&lang=pt_br>. Acesso em: 10 out. 2014).

Ribeiro [NOTAS, 2015] conta que ele e Curti realizaram audições com pessoas vindas de várias localidades do mundo e escolheram a artista japonesa Lakko Okino para compor o trio. Em entrevista [2013], o diretor lembra:

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principalmente porque a terceira pessoa, a Lakko, quando entrou na companhia já havia entre mim e o André, seis anos de trabalho juntos. Para ela, foi um trabalho de titã. Especialmente também, porque ela não falava francês, inglês nem português para podermos nos comunicar verbalmente com ela. (...). Foi uma experiência muito louca porque nada do que fizemos e construímos passou pelo intelectual. A própria chegada da Lakko [na audição] foi uma metáfora da trama do espetáculo. Isso fez com que nós não tivéssemos dúvidas de que seria ela a atriz escolhida para fazer o nosso espetáculo, nos apaixonamos por ela cenicamente. O fato de ela não falar nenhuma das línguas que nós falamos, de não possuir ponte, qualquer ponto de equilíbrio, qualquer link cultural com a nossa cultura e com a cultura francesa fez com que nos apaixonássemos também pelo jogo corporal dessa atriz. A Lakko foi cavando o seu próprio espaço. Nós não falávamos em nenhuma língua com ela, inventamos códigos, e nos conectamos tanto, que quando ela falava uma palavra, nós já sabíamos o que ela estava querendo dizer.

O novo espetáculo criado foi chamado de Saudade em

terras d’água e acabou concretizando também a mudança, a imigração metafórica dentro da própria estrutura da Compagnie Dos à Deux. Para os diretores (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article81&lang=pt_br>. Acesso em: 12 out. 2014), tal mudança estrutural foi uma verdadeira viagem, uma aventura:

Depois de desenvolvermos a pesquisa a dois, nas duas precedentes criações, desejamos marcar uma etapa em nosso trabalho; após seis anos de uma intensa cumplicidade artística, em que conseguimos compartilhar a escuta e a generosidade no palco e na criação artística, estamos nos lançando em uma nova aventura, no caminho da descoberta... Uma longa e maravilhosa viagem...

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Foto 5 – Artur Ribeiro (Rapaz) e André Curti (Mãe do rapaz), no espetáculo Saudade em terras d’água (2005). Créditos: Xavier Cantat.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Saudade em

terras d’água: Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article119&lang=pt_br>. Acesso: 07 set. 2014.

De acordo com a página da companhia (COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Disponível em: <http://www.dosadeux.com/spip.php?article137&lang=pt_br>. Acesso em: 12 out. 2014), Saudade em terras d’água se passa em meio à imensidão do mar. Mãe e filho vivem uma vida pacata e simples. Preocupada com a continuidade da vida de sua família, a mãe sai à procura de uma esposa para o seu filho. Retorna com uma moça vinda de uma terra distante.

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conquistar o seu espaço naquela casa tão pequena. Aos poucos, começa a surgir um equilíbrio de forças. O afeto e o amor passam a existir entre os três personagens e a moça engravida. Porém, um dia, o mar começa a secar e a se transformar em uma terra árida. Sem a menor chance de permanecerem em suas terras d’água, a mãe, o filho e a sua esposa se veem obrigados a imigrar para um novo local a fim de construírem um novo lar, uma nova vida.

Os diretores [NOTAS, 2015] afirmam que, no mesmo ano de sua estreia, em 2005, Saudade em terras d’água32 ganhou o Prêmio Adami no Festival d’Avignon. O sucesso do espetáculo percorreu diversos países, inclusive o Brasil33, ficando em cartaz até o ano de 2008. A atriz-dançarina Lakko Okino não permaneceu na companhia.

32A equipe técnica e artística desse espetáculo foi composta por: André

Curti e Artur Ribeiro (Dramaturgia, encenação, coreografia, cenografia e interpretação), Lakko Okino (Interpretação), Maria Adélia (Figurinos, acessórios e maquiagem), Fernando Mota (Criação música original), Frédéric Ansquer (Iluminação), Michel Costiou (Desenhos e pinturas em movimento), Nathalie Redant (Produção) e Xavier Cantat (Fotos).

33Para ver detalhes das críticas e matérias da imprensa das apresentações e

matérias dos referidos festivais: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE

GESTUEL. Disponível em:

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Foto 6 – André Curti (Mãe do rapaz), Lakko Okino (Esposa do rapaz com o bebê no colo) e Artur Ribeiro (Rapaz), no espetáculo Saudade em terras d’água (2005). Créditos: Xavier Cantat.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Saudade em

terras d’água. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article119&lang=pt_br>. Acesso: 07 set. 2014.

Ribeiro [ENTREVISTA, 2013] relata que, após encerrarem as apresentações de Saudade, que duraram quatro anos, ele e Curti estavam cansados fisicamente e queriam abandonar as referências dos processos criativos que costumavam utilizar. Também desejavam contracenar com outras pessoas. Iniciaram um novo trabalho de criação e escolheram como temas: a diferença e o desejo. O diretor afirma que cada etapa foi uma novidade para eles:

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aquilo tudo, as trocas do cenário, de roupas, de objetos, o personagem duplo do André, feminino e masculino ao mesmo tempo, a encenação... enfim, uma loucura de coisas. Mas acho que, como tudo foi construído de uma maneira tão orgânica, calma e feliz que não deixamos os demônios da angústia exacerbarem e a criação virar outra coisa. Fizemos uma mudança estética porque desejávamos muito a ruptura e a fizemos com muita determinação, com harmonia. Foi um ano de pesquisa: seis meses apenas eu e o André, e os outros seis meses com os outros atores.

Curti e Ribeiro convidaram dois artistas para fazerem parte da equipe artística da companhia: o argentino Matias Chebel e a francesa Maya Borker. Esta foi substituída, em 2010, pela brasileira Maria Adélia, artista que já formava o quadro da equipe técnica da Dos à Deux. O resultado da pesquisa, segundo os diretores [NOTAS, 2015], culminou no espetáculo denominado Fragmentos do desejo.

A Compagnie Dos à Deux, que até então, tinha vivido “apenas da venda dos seus espetáculos” (VALOR

ECONÔMICO. Disponível em:

<http://www.valor.com.br/cultura/984246/franco-brasileira-dos-deux-tera-sede-no-rio>. Acesso em: 30 out. 2014), conseguiu receber pela primeira vez, conforme afirmam Curti e Ribeiro [NOTAS, 2015], o apoio do Ministère de la CultureDrac Île-de-France. Também recebeu o apoio do Groupe Geste(s), do Adami, do Conseil Général de Val de Marne, do

Conseil Général des Yvelines e do Réseau Créat’Yve. Teatros e espaços culturais como: o Espace Culturel L’Onde de Vélizy-Villacoublay, o Scène Nationale de Bayonne – Sud Aquitain,

Ville de Champigny sur-Marne, o Arc en Ciel – Théâtre de Rungis e L’Odyssée – scène conventionnée de Périgueux

também mantiveram as parcerias iniciadas em produções artísticas anteriores e realizaram a coprodução da companhia.

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Espace Michel Simon à Noisy le Grand, além de o Studio Alice et les autres à Nérigean, o Théâtre de Verre à Châteaubriant e o Espace Périphérique – Ville de Paris/ Parc de la Villette.

Foto 7 – Matias Chebel (Composição dos objetos cadeira, prato e mesa de jantar), André Curti (Angelo/Angel), Maya Borker (Olga, a governanta), Artur Ribeiro (Pai de Angelo/Angel), no espetáculo Fragmentos do desejo (2009). Créditos: Xavier Cantat.

Fonte: COMPAGNIE DOS À DEUX THÉÂTRE GESTUEL. Fragmentos

do desejo. Disponível em:

<http://www.dosadeux.com/spip.php?article439&lang=pt_br>. Acesso: 07 set. 2014.

Na pesquisa que realizei sobre Fragmentos do desejo

(LUNA, 2012) descrevi que a estória da peça retrata as relações diretas e indiretas que quatro personagens mantém entre si: Angelo, o seu pai34, Olga – a governanta da casa do pai – e Orlando, um homem cego. Angelo é órfão de mãe desde o seu nascimento e possui grandes dificuldades de

Imagem

Foto  1 25   -  André  Curti  e  Artur  Ribeiro,  no  espetáculo  Dos à deux (1997). Créditos: Olivier Redant
Foto  2  –   Artur  Ribeiro  e  André  Curti,  no  espetáculo  Dos à deux (1997). Créditos: Olivier Redant
Foto 3  –  Artur Ribeiro (Primeiro plano) e André Curti  (Segundo Plano), no espetáculo  Aux pieds de la  lettre (2001)
Foto 4  –  André Curti e Artur Ribeiro, no espetáculo Aux  pieds de la lettre (2001). Créditos: Olivier Redant
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