UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
DEPERTAMENTO DE ESTOMATOLOGIA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM ODONTOPEDIATRIA
MECANISMOS ENVOLVIDOS NA REABSORÇÃO
FISIOLÓGICA DOS DENTES
DECÍDUOS
Rebeca Odebrecht Orientação: Prof a. Dra. Maria José de Carvalho Rocha
MECANISMOS
ENVOLVIDOS NA
REABSORÇÃO
FISIOLÓGICA
DOS
DENTES DECÍDU05
Rebeca Odebrecht
Monografia apresentada ao Curso de Especialização em Odontopediatria como parte dos requisitos para obtenção do Título
de Especialista em Odontopediatria.
Orientação: Prof' . D a . Maria Jose de Carvalho Rocha
((
Quando
sentimos
confiança,
fé e
esperança
de que podemos
concretizar
nossos
objetivos,
isto
constrói
dentro de
nós
um
manancial
de
força,
coragem e
segurança"
egu
ran
ça"
RESUMO
04ABSTRACT
051 INTRODUÇÃO
oc
2
PROPOSIÇÃO
nc,3 REVISÃO
DA
LITERATURA
lo
4 DISCUSSÃO
5 CONCLUSÕES
40Essa pesquisa objetiva revisar a literatura acerca dos fenômenos envolvidos no
processo de reabsorção fisiológica dos dentes deciduos, descrevendo-os
mesmos e destacando sua importância. Além disso, procura relacionar tais
fenômenos à conduta clinica adotada na UFSC dentro do protocolo de
tratamento endodiintico estabelecido para os dentes deciduos. Através do
estudo do padrão de reabsorção fisiológica, do mecanismo da erupção dentária,
do fenômeno da apoptose e das características do tecido pulpar frente a rizólise
é possível estabelecer que a rizólise provoca alterações na morfologia radicular,
implicando na adoção de cuidados especiais durante a mensuração e
instrumentação endodôntica. Pode-se concluir, ainda, que o folículo
pericoronário desempenha função fundamental no processo de reabsorção
fisiológica, a despeito da mesma também ocorrer na ausência do germe dental
sucessor (apoptose). Quanto ao tecido pulpar pode-se afirmar que este não
encontra-se envelhecido ou degenerado durante a rizólise, a ponto de
inviabilizar por si só qualquer procedimento endoclôntico nos estágios mais
The aim of this study is to revise a literature about the phenomenona
relacioneted to physiological root resorption of primary teeth, describing them
and detaching their importance. Furthermore, its necessary relacionate these
phenomena to clinical protocol of endodontic treatment for deciduous teeth
commended by UFSC. Through of the study of the pattern of root resorption,
tooth eruption, apoptosis and the characteristics of the pulp tissues in face to
physiological root resorption is possible to establish that physiological root
resorption provocates changes in root anatomy , indicating an special cares
during tooth measurement and instrumentation. Then, is possible to conclude
that the dental follicle plays an important role in root resorption, even so this
event can occur without the permanent successor (apoptosis). In addition the
pulp tissue cannot seem like an older tissue or a degenerated tissue during root
resorption, not inviabilizing the endodontic treatment only because these
Em torno dos 5 a 7 meses de idade inicia-se uma importante
transformação na cavidade bucal do bebê através da erupção dos
primeiros dentes deciduos. Nesse momento a criança passa a ter um
relacionamento diferente do que tinha até então com o mundo que a cerca.
No entanto, esses dentes ainda serão motivo de muitas outras mudanças
nos aspectos psicológicos e somáticos desse ser em desenvolvimento.
Aproximadamente entre 1 e 3 anos após completada a formação das
raizes dos dentes deciduos, por volta dos 4 anos de idade para os
incisivos centrais, inicia-se o riquíssimo processo de reabsorção fisiológica
dos mesmos, o qual é motivado por uma série de diferentes fatores
(Toledo, 1996).
A reabsorção radicular apresenta estreita ligação com o processo de
erupção do dente permanente sucessor. Esse fato sugere que o
desenvolvimento do sucessor permanente, o qual passa a exercer pressão
sobre as estruturas do dente deciduo, e a ação das substâncias constantes
no seu foliculo pericoronário, determinam o inicio e a continuidade da
rizólise. Contudo, observa-se que mesmos dentes deciduos com ausência
fisiológica, o que indica a atuação de um outro mecanismo motivador da reabsorção, denominado apoptose, ou morte celular programada
0 desconhecimento da exata forma pela qual esses fenômenos são desencadeados e como ocorrem motiva pesquisadores de várias partes do mundo a buscar informações no contexto da histologia, genética e biologia molecular. Atualmente, é crescente o interesse dos Odontopediatras em pesquisas referentes aos fenômenos de reabsorção, pois esses aspectos tem influência direta nos tratamentos clínicos de forma geral e nos tratamentos endodônticos em particular.
Nesse contexto, é também de extremo interesse avaliar os aspectos histológicos do tecido pulpar frente a rizólise dos dentes deciduos, porque apesar de haver uma concordância geral de que não existem diferenças nos aspectos estruturais da polpa de dentes deciduos não reabsorvidos e dentes permanentes jovens (Sari et al. 1999a) o mesmo ainda é motivo de controvérsias quando se trata de dentes decíduos passando por reabsorções fisiológicas. Esse fato, indubitavelmente, traz repercussões na indicação de tratamentos conservadores em relação a polpa dental na clinica odontopediátrica.
neoformagão das estruturas dentárias e peridentárias. Dessa forma, reafirma-se a importância de compreender quais são os mecanismos
envolvidos nesse processo. Há, também, a necessidade de relacionar tais
fenômenos á conduta clinica adotada na UFSC dentro do protocolo de tratamento endod6ntico estabelecido para os dentes deciduos, sejam eles
Esta pesquisa objetiva revisar a literatura no tocante aos fenômenos
envolvidos no processo de reabsorção fisiológica dos dentes deciduos,
descrevendo-os e destacando sua importância. Além disso, visa selecionar
informações constantes na literatura que indicam a ocorrência de um
padrão de reabsorção fisiológica nos dentes deciduos e inter-relacionar
estes achados a aspectos clínicos relevantes do protocolo da UFSC para o
Obersztyn (1963) pesquisou o influência da presença do germe dental
permanente, das forças mecânico-oclusais e do estado inflamatório pulpar
sobre o processo de reabsorção radicular dos dentes deciduos de cães.
Foram utilizados 29 cães, sendo que em 20 destes foi realizada a remoção
dos germes dentais permanentes de caninos e incisivos superiores
(totalizando 112 germes retirados). Nesse grupo de 20 cães, seis tiveram
os germes dentais removidos bilateralmente, sete unilateralmente, quatro
tiveram as bordas incisais recobertas por uma ponte fundida em prata que
foi fixada a coroas cimentadas nos caninos deciduos (para proteger os
dentes de traumatismos) e três tiveram, após a germectomia bilateral, as
coroas dos incisivos e caninos deciduos recobertas por resina
autopolimerizável. Os animais foram examinados radiograficamente a cada
mês e quando completaram 35 semanas de idade foram sacrificados.
Nesta ocasião tiveram os caninos e incisivos deciduos removidos
juntamente com o tecido ósseo circundante. Estas amostras foram levadas
ao microscópio óptico para análise. Nos nove cães restantes apenas foi
realizada a remoção do tecido ósseo que estava sobre o germe do dente
permanente e todas as amostras foram também analisadas por microscopia
óptica. Os achados desse estudo provaram que a reabsorção dos dentes
depende somente da erupção destes dentes, porem o processo ocorre
mais lentamente nesses casos. Contudo, esse atraso na ocorrência da
reabsorção indicou que o germe permanente tem uma contribuição
importante nesse processo. A direção de erupção dos dentes permanentes
ficou modificada nos casos aonde houve remoção do tecido ósseo sobre o
germe dental. Ainda ficou demonstrado que o trauma mecênico, causado
por problemas de oclusão, parece ser um fenômeno importante na
determinação de uma maior reabsorção dental. Após a análise dos dentes
cobertos com resina foi possível observar uma aceleração no processo de
reabsorção, atribuída a condição inflamatória dos tecidos adjacentes aos
dentes e da polpa, bem como a necrose pulpar ocorrida nestes dentes.
Furseth (1968) estudou o processo de reabsorção dos dentes
deciduos humanos através de microscopia óptica, radiomicrografias e
microscopia eletrônica. Para tanto, foram utilizados 44 dentes deciduos
extraídos pelos mais variados motivos (pulpites, condições patológicas
periapicais ou indicação ortodôntica). O autor selecionou,
preferencialmente, aqueles dentes que apresentaram algum tecido mole
aderido. Dos 44 dentes, 17 foram avaliados através de microscopia óptica,
15 através de radiomicrografias e 12 através de microscopia eletrônica. Os
resultados da pesquisa apontaram que a reabsorção dos dentes deciduos
é mais avançada em áreas adjacentes ao germe dental permanente,
contudo, evidencias de reabsorção lacunar foram encontradas também em
ocasionalmente, na câmara pulpar. Ainda foi possível constatar que ocorre
uma alternância entre períodos de reabsorção e reparo. A atividade de
reabsorção observada nos canais radiculares não foi extensa, o que
indicou que a reabsorção interna é a menos importante na exfoliaçâo dos
dentes deciduos. Os odontoclastos apresentaram uma importante atuação
na reabsorção dental, idêntica a que desempenham na reabsorção óssea.
A presença de osteoclastos pode ser explicada devido aos períodos de
reabsorção terem uma duração mais curta que os períodos de descanso ou
reparo.
Com o objetivo de avaliar histomorfologicamente o processo de
reabsorção dos dentes deciduos. Soskolne e Bimstein (1977) utilizaram 60
dentes extraídos higidos ou com minimas lesões de cárie. Antes da
extração todos os dentes foram radiografados e através da análise destas,
somada a observação visual dos dentes, os mesmos foram classificados
em três grupos: 13 dentes extraídos antes do período considerado normal
para exfoliação, 32 dentes extraídos durante o período estimado para
exfoliação e 15 dentes extraídos após o período esperado de exfoliação.
Os autores encontraram um infiltrado de células inflamatórias em 85% de
todas as polpas dentais, constantemente acompanhados da presença de
leucócitos mononucleares. Os achados também sugerem que com a
progressão do processo de reabsorção nos dentes extraídos antes ou no
período normal de exfoliação, o número de polpas contendo odontoclastos
acompanhado por um decréscimo no número de odontoclastos nas polpas
dentais. A migração do epitélio sulcular para a superfície em reabsorção
parece ser devido a reabsorção radicular antes da migração apical da
junção epitelial. A migração da junção epitelial para a superfície em
reabsorção foi associada com um aumento no número de polpas infiltradas
por leucócitos polimorfonucleares. Portanto, foi possível afirmar que
durante a rizólise ocorreu uma infiltração inicial de leucócitos
mononucleares, seguida por uma invasão de leucócitos polimorfonucleares
com a aproximação da exfoliação. Desse modo, os autores indicaram uma
atuação meramente passiva da polpa dental frente ao processo de
reabsorção.
Cahill e Marks (1980) pesquisaram a função do foliculo dental como
coordenador do processo de erupção dental utilizando-se de nove cães
beagles. Foram verificados o papel do canal gubernacular, crescimento
radicular, foliculo dental e crescimento coronário, observando-se o
processo de erupção dental sem a presença dessas estruturas, por meio
de avaliação radiográfica e histológica. Para tanto, de 16 a 17 semanas
após o nascimento dos cães, momento em que começam os movimentos
eruptivos, e a formação radicular dos terceiros pré-molares permanentes,
foram realizados procedimentos cirúrgicos nas estruturas a serem
estudadas. Os procedimentos foram: intervenção cirúrgica na conexão
gengival do canal gubernacular, remoção da porções de raiz em inicio de
foliculo dental e da coroa como uma única pega e remoção seguida de
reposicionamento da coroa dental. Desse modo, foi possível indicar que a
erupção dos dentes em questão não se modificou quando o canal
gubernacular foi alterado cirurgicamente, da mesma forma, pôde-se afirmar
que a erupção não foi afetada pela ausência de formação radicular e
ligamento periodontal. Ocorreu também uma remodelação da cripta óssea
nos locais aonde a coroa foi removida, indicando que o processo de
erupção ocorreu mesmo na ausência da coroa dental. Contudo, os autores
constataram que a erupção dental não ocorreu sem a presença do foliculo,
demonstrando que o mesmo tem função essencial no processo de erupção
dental.
Araújo (1982) avaliou os aspectos morfológicos, histométricos e
histoquimicos da polpa de molares deciduos humanos em três distintas
fases de reabsorção radicular (inicio, meio e final). Foram utilizados 18
dentes extraídos por razões ortod6nticas sem evidência de cárie. Destes
10 foram destinados a avaliação morfológica, histométrica e histoquimica e
oito ao estudo morfológico. Com auxilio da microscopia óptica verificou
que há uma predominância numérica de fibroblastos no inicio da
reabsorção, decrescendo na metade e no final desse processo, contudo,
essa diminuição não representou um estado de envelhecimento do tecido
pulpar. Observou, também que as fibras colágenas aumentaram de
tamanho e espessura a medida que o dente se aproxima do final da
mesmas encontravam-se em maior número no estágio inicial e na metade
da reabsorção e no estágio final observou a presença de vasos de grande
calibre. As alterações estruturais observadas no tecido pulpar nas três
fases de reabsorção radicular não podem ser consideradas como
degenerativas e que as estruturas pulpares não demonstram alterações
significantes em suas características estruturais e fisiológicas no inicio e
metade da rizólise, apresentando pequenas alterações morfológicas no
estágio final, o que torna evidente o papel passivo do tecido pulpar frente
ao processo de reabsorção.
Marks e Cahill (1984) estudaram radiográfica e histologicamente a
função do dente no processo de erupção através de manipulações
experimentais em coroas de pré-molares permanentes inferiores não
irrompidos de 14 cães beagle. Quando os animais completaram 15
semanas de idade foram realizados os seguintes procedimentos: cinco
dentes foram utilizados como grupo controle (os foliculos dentais foram
expostos e novamente recobertos pelo tecido ósseo removido), três dentes
tiveram somente as coroas removidas, três dentes serviram como grupo
controle cirúrgico (remoção e recolocação imediata do foliculo dental e da
coroa), em outros três dentes a coroa foi removida e reposicionada após a
morte de todas as suas células por congelamento, em dois dentes a coroa
foi removida, teve todas as suas células mortas por congelamento, sendo
que os tecidos pulpares e mineralizados da região de furca foram
foliculos. Ainda 11 dentes tiveram a coroa removida a fim de que dentro de
seus foliculos fossem colocados objetos inertes (em cinco foram colocadas
coroas metálicas, em quatro coroas em acrílico e em quatro coroas em
silicone). Todos os locais operados foram acompanhados semanalmente
por radiografias. Após o período experimental os cães foram sacrificados e
tiveram removidos os segmentos da mandíbula referentes aos locais
operados para avaliação dos tecidos através da microscopia óptica. Os
resultados indicaram que no grupo controle os processos de erupção
dental e de reabsorção do dente deciduo correspondente ocorreram sem
problemas. Nos locais aonde os germes dentais foram removidos e
tiveram o foliculo pericoronario preservado verificaram que as mudanças
que acompanham o osso alveolar durante o processo de erupção não
foram afetadas, sendo que um espaço radiolOcido foi observado
direcionando-se para oclusal durante o período de erupção. Nesses locais
a exfoliação do dente deciduo também ocorreu. No grupo controle cirúrgico
os dentes irromperam sem complicações. No grupo de dentes que tiveram
a coroa removida e reposicionada após a morte de todas as suas células
por congelamento houve anquilose e os dentes não irromperam. Já nos
dois dentes em que a coroa foi removida, teve todas as suas células
mortas por congelamento, mas os tecidos pulpares e mineralizados da
região de furca foram removidos antes do reposicionamento destas coroas
nos seus respectivos foliculos observou-se erupção. Por fim, as coroas que
foram substituídas por réplicas também realizaram o irrompimento
possível estabelecer que os dentes não tem uma função ativa no processo
de erupção e que o foliculo dental teve atuação decisiva nesse fenômeno
Daito et al. (1991) realizaram um estudo da reabsorção radicular dos
dentes deciduos através da observação de radiografias panorâmicas de
4143 pacientes japoneses de 2 a 14 anos e 11 meses (2205 meninos e
1938 meninas). Cada dente avaliado foi classificado de acordo com seu
estágio de reabsorção (um quarto, metade e três quartos de raiz
reabsorvida, tomando como referência o ponto de máxima reabsorção). Os
autores observaram que a reabsorção radicular de um dente deciduo e de
seu contralateral é muito semelhante, que a média de idade em cada
estágio de reabsorção é maior nos meninos que nas meninas, que a média
de idade em cada estágio de reabsorção radicular é menor em todos os
dentes inferiores, que na maxila o período entre um quarto a três quartos
de raiz reabsorvida foi maior nos molares deciduos que nos dentes
anteriores, no entanto, na mandíbula foi observado o contrário. Além disso ,
verificaram que apesar de não haver diferença entre o tempo de
reabsorção de incisivos e caninos na mandíbula e maxila, nos molares
deciduos a reabsorção radicular ocorreu num período de tempo mais longo
na maxila que na mandíbula. Quanto a relação entre os estágios de rizólise
e calcificação dos dentes correspondentes foi avaliada verificaram que,
exceção feita aos caninos superiores e inferiores, a média de idade para
um quarto de reabsorção da raiz correspondeu ao período compreendido
raiz do dente permanente. Ainda ficou evidente que, exceção feita aos
caninos superiores e inferiores, bem como aos segundos pré-molares
inferiores, a média de idade para três quartos de rizólise correspondeu ao
período compreendido entre um quarto e um metade da formação radicular
do sucessor permanente.
Francini et al. (1992) realizaram uma pesquisa com o objetivo de
avaliar os aspectos microscópicos da reabsorção fisiológica de 52 dentes deciduos de pacientes com idades variando de 7 a 27 anos. Os resultados
demonstraram que a reabsorção linear e a deposição de tecido duro foram
mais pronunciadas no primeiro estágio da rizólise (até um terço do
comprimento da raiz reabsorvida) enquanto a reabsorção lacunar ficou
mais evidente no estágio final da rizólise (mais de um terço da raiz
reabsorvida). Em todos os dentes avaliados foi possível observar que a
maior reabsorção estava relacionada a superfície da raiz próxima ao germe
dental permanente e que algum grau de reabsorção também foi encontrado
em áreas que não estavam diretamente sujeitas a pressão do dente
permanente. Os autores ainda observaram que existia um infiltrado
inflamatório e hemorrágico no interior da polpa dental no estágio final da
reabsorção e que as células da camada subodontoblástica desapareceram
assim que o infiltrado tomou todo dente. A presença de falsos denticulos
foi observada com freqüência, principalmente no primeiro estágio da
diferenciação dos odontoclastos e que a extensa reabsorção lacunar esta
relacionada diretamente a velocidade da reabsorção, que é maior no
estágio final. Ainda verificaram que a inflamação é uma conseqüência,
mais que uma causa da reabsorção, podendo liderar a perda das células
subodontoblásticas e levar a um decréscimo na habilidade das células
pulpares de repor odontoclastos danificados.
Em uma revisão bibliográfica, Gerschenson e Rotello (1992)
descreveram o mecanismo da apoptose, suas características morfológicas
e bioquímicas. Os autores destacaram a importância desse processo no
crescimento e desenvolvimento dos tecidos. Ao contrário da necrose, na
apoptose o estimulo para ocorrência é fisiológico e não patológico, além
disso, na apoptose não se observa a presença de reação inflamatória e
inchaço das organelas celulares. Apenas há ocorrência de uma
condensação nuclear, seguida de fragmentação do DNA e formação dos
corpos apoptóticos, os quais apresentam, em sua maioria, componentes
nucleares. Esses corpos apoptóticos são fagocitados por células
adjacentes ao local aonde está ocorrendo a morte celular programada e
por macráfagos. Bioquimicamente, o evento mais bem definido na
apoptose envolve a quebra da estrutura do DNA entre os nucleossomos.
Embora a clivagem internucleossomal do DNA não tenha sido demonstrada
como um evento letal na apoptose, a célula provavelmente não tem
capacidade para reparar essa numerosa quebra e eventualmente morre.
contudo, está presente na maioria das células que sofrem a apoptose e
pode ser considerada um marcador bioquímico para caracterizar a biologia
e cinética da apoptose em diferentes sistemas. A morte celular programada
implica na existência de um gene ou grupo de genes que podem modificar
uma proteína ou um grupo de proteínas que possuam efeito letal sobre as
mesmas células que abrigam esses genes. As informações acerca da
morte celular programada demonstraram que vários estímulos exógenos
poderiam induzir a apoptose em células alvo. Por fim, a apoptose tem uma
atuação fundamental na regulação do crescimento e desenvolvimento,
mantendo a normalidade dos tecidos. No desenvolvimento dos tecidos a
apoptose atua através do desaparecimento programado de populações
celulares e nos tecidos adultos a apoptose atua como moduladora do
crescimento, o qual é resultado da proliferação celular, descontada a
ocorrência da apoptose.
Prove et al. (1992) estudaram a reabsorção fisiolágica de 625 molares
deciduos de 84 crianças de 7 a 10 anos idade por meio de radiografias
interproximais e panorâmicas. Os resultados indicaram que geralmente os
molares deciduos não apresentam reabsorção simétrica de suas raizes.
Nos primeiros molares inferiores de crianças de 7 a 8 anos 82,3%
apresentaram as raizes mesial e distal em reabsorção, já no grupo de
crianças entre 9 e 10 anos este número subiu para 88%. Nos segundos
molares inferiores 69,05% das crianças entre 7 e 8 anos apresentaram a
61,25%. Já nos primeiros molares superiores observaram que 65% demonstraram um padrão de reabsorção radicular regular nos grupos
etários de 7 a 8 e de 9 a 10. A reabsorção das raizes vestibulares sem que
houvesse reabsorção da raiz palatal foi o padrão mais comum nos
segundos molares superiores (53,48% no grupo de 7 a 8 anos e 56,25% de
9 a 10 anos) e a reabsorção radicular ocorreu igualmente nas três raizes
em aproximadamente 44% dos casos nos dois grupos. Os achados
comprovaram que, exceto nos primeiros molares inferiores, há uma
incidência relativamente alta de reabsorção radicular desigual durante o
processo de exfoliação e que esta foi mais evidente no segundo molar
superior. Segundo os autores o padrão de reabsorção está ligado
diretamente a relação entre a estrutura radicular do dente deciduo e a
posição do germe permanente, bem como a discrepância entre o tamanho
do pré-molar e seu antecessor deciduo. Dessa forma, foram encontradas
as maiores evidências de reabsorção aquém da esperada nas raizes
palatais do segundo e primeiro molares superiores, respectivamente,
seguidas pelas raizes distais do segundo e primeiro molares inferiores.
Sahara et al. (1993) realizaram um estudo histológico em 15 dentes
deciduos humanos exfoliados e 45 dentes deciduos extraídos (que já
estavam próximos ao período de exfoliação). Esses dentes foram
examinados através da microscopia óptica e eletrônica. Os autores
indicaram que a migração apical do epitélio da junção dentogengival pode
foi encontrado nas margens do dente reabsorvido e parece não deixar de estar aderido a superfície dental ao longo de todo esse processo. Além disso, foi possível observar que um processo inflamatório acompanhou a migração do epitélio da junção dentogengival e que o remanescente pulpar assume um estado inflamatório devido a irritação crônica ocasionada por microrganismos adjacentes â junção dentogengival. Contudo, o achado mais interessante dessa pesquisa foi a sugestão de que o epitélio gengival também prolifera e migra através do interior da coroa e, eventualmente,
termina abaixo da coroa do dente deciduo.
Haralabakis et al. (1994) pesquisaram a relação entre a exfoliação prematura ou atrasada de dentes deciduos e a reabsorção radicular dos mesmos, bem como a relação com a formação radicular dos dentes permanentes. Desse modo, foram analisadas radiografias panorâmicas de
completo e ápice fechado). Os achados indicaram que os processos de
reabsorção e formação radicular estão intimamente ligados e que caninos e
molares deciduos inferiores exfoliam quando a formação radicular dos seus
sucessores atinge os estágios dois terços, três quartos ou o inicio do
comprimento da raiz completa.
Kressel e Groscurth (1994) pesquisaram as diferenças entre a morte
celular por apoptose e por necrose através da fragmentação do DNA em
células K562. Os achados indicaram que a morte celular por necrose e
apoptose caracterizaram-se como fenômenos biológicos diferentes sendo
iniciados por também diferentes mecanismos intracelulares. As células que
sofrem apoptose são caracterizadas por intensa fragmentação intracelular
do DNA, a qual é altamente ordenada em vários estágios. Nos estágios
iniciais do processo de apoptose a célula apresenta as quebras do DNA
difusamente distribuidas no núcleo, exceto no nucléolo, com crescentes
acúmulos fora da membrana nuclear. Nos estágios mais avançados o
núcleo e a célula são transformados em muitos corpos circulares (corpos
apoptóticos). O acúmulo intracelular de DNA fragmentado corresponde a
cromatina eletro-densa observada em microscopia eletrônica. Na morte
celular por necrose não ocorre a fragmentação do DNA no inicio do
processo, apenas 24 h. mais tarde. Esta fragmentação do DNA não pode
ser caracterizada por uma morfologia única. Na ocorrência da necrose, por
exemplo, não se observa a formação de fragmentos celulares e do seu
Godoy (1995) analisou morfologicamente 154 molares deciduos em
diferentes estágios de reabsorção. Todos os dentes foram avaliados
macroscopicamente, sendo que sete destes ainda foram submetidos a
microscopia eletrônica de varredura e outros 33 foram examinados com
auxilio de microscopia óptica. Constatou que a rizolise propicia uma
superfície radicular irregular, especialmente na região de furca, além de
afirmar que a morfologia decorrente da reabsorção propicia limites
irregulares nas porções apicais e superfícies pulpares e periodontais. Os
resultados desse estudo ainda indicaram que a comunicação do
compartimento pulpar com os tecidos periodontais se faz
predominantemente em plano inclinado interno na região das faces
radiculares voltadas para o septo interradicular, relacionando-se
diretamente com os tecidos foliculares dos germes dos dentes
permanentes. A analise dos molares deciduos também possibilitou indicar
que as alterações coronárias encontradas (caries, restaurações, desgastes
e hipoplasias do esmalte) não tem relação direta com o tipo de morfologia
das raizes dos molares deciduos em processo de rizólise e que as
alterações pulpares não revelaram uma relação direta com padrões de
reabsorção quanto ao aspecto morfológico resultante nos tecidos dentários
mineralizados radiculares. Portanto, foi possível determinar que os
procedimentos endod6nticos em molares deciduos não estão inviabilizados
conduta mais cautelosa em relação a odontometria e instrumentação dos
canais radiculares durante a rizólise.
Hockenbery (1995) revisou 40 documentos buscando definir o
fenômeno da apoptose. Para o autor a apotose pode ser conceituada como
uma forma de suicídio celular, diferente de outros mecanismos de morte
celular. A apoptose pode ser identificada por uma série de mudanças
morfológicas na célula em que acontece. Inicialmente ocorre um
encolhimento da célula, determinando a perda dos contatos normais, bem
como verifica-se a condensação da cromatina e a fragmentação celular,
possibilitando a rápida fagocitose através de macrófagos e células
adjacentes. Esses eventos ocorrem em uma seqüência fixa. A importância
da apoptose reside no fato da mesma ocorrer como um aspecto
programado do desenvolvimento, ou por atuar como um mecanismo de
homeostasia nos tecidos adultos. No entanto, há uma ampla diversidade de
estímulos que podem levar a morte celular programada, o que sugere que
muitos caminhos distintos podem levar a mudanças morfológicas similares
nas células em processo de morte. Ainda pode-se afirmar que algumas
injúrias que tem o potencial de levar as células à necrose também podem
produzir a apoptose. A necrose e a apoptose caracterizam-se por
diferentes mecanismos sendo que a apoptose pode ser considerada uma
atividade orientada por genes. 0 autor ainda relata que a morte celular por
Numa revisão de 84 artigos Marks (1995) buscou esclarecer o
complexo mecanismo de erupção dentária. Primeiramente o autor
constatou que a velocidade de erupção não é uniforme durante todo
processo e que durante o estágio de erupção intra-ósseo a taxa de
reabsorção da raiz e do osso determina a taxa de reabsorção. 0 autor
relatou que as causas pelas quais o processo de erupção se inicia ainda
não estão elucidadas, contudo, a função do foliculo pericoronário como
principal coordenador desse evento está bem documentada na literatura. A atuação do foliculo se dá através de mediadores como metaloproteinases
interleucina-1, fator de crescimento epidermal, fator de crescimento
p,
fator 1 de estimulação de colônia e proteínas indefinidas no órgão do esmalte eno foliculo dental. A reabsorção óssea e a formação da raiz e osso são
coordenadas, mas não necessariamente sincronizadas e ambos eventos
são regulados pelo foliculo dental.
Wise e Lin (1995) revisaram 46 documentos em que o tema principal
foi biologia molecular aplicada a iniciação da erupção dental. Baseados
nessa série de pesquisas, os autores sugeriram que o foliculo dental tem
uma atuação muito importante no processo de erupção dental. Pelo menos
quatro moléculas podem ser potenciais candidatas a iniciação do processo
de erupção devido as suas propriedades em acelerar a erupção, sua
expressão gênica e imunolocalização, bem como uma combinação destas
características. Contudo, a molécula que tem atuação mais direta na
(CSF-1). Uma cascata de sinais moleculares está provavelmente envolvida na estimulação da expressão do CSF-1 para iniciação da erupção dental, em particular a interleuciana-1 a (IL-la). A expressão do gene da interleucina-1 a pode ser regulada pelo fator de crescimento epidermal (EGF), o qual é conhecido pela sua habilidade em estimular a erupção de incisivos em ratos. Baseados nestes dados os autores sugeriram que o fator de crescimento epidermal pode ser o primeiro sinal para a iniciação do processo de erupção e que há, no minim, três caminhos pelos quais esse fator pode atuar. Entretanto, se o fator de crescimento epidermal não for acionado a erupção dental pode ser iniciada através de um sinal do fator transformador de crescimento tipo
13
• A erupção dental ainda podeiniciar mesmo que o fator de crescimento epidermal e o fator transformador de crescimento tipo
p
não sejam requisitados, dessa forma, a erupção dental será iniciada com a interleucina la, aumentando a expressão do fator 1 de estimulação de colônia RNAm. Também é possível que fatores endógenos, tais como a proteína 167-kDa, estejam envolvidos na regulação da erupção dental.vários tipos de desordens, tais como câncer. artrite reumat6ide e AIDS. A apoptose deve ser entendida como fenômeno diferente da morte celular por necrose. Na apoptose a célula não sofre uma injuria, ao contrário da necrose, além disso a célula em apoptose passa por um drástico encolhimento, diferentemente do inchaço observado nas células em necrose. 0 núcleo celular, que apresenta-se pouco alterado durante a necrose, sofre mudanças dramáticas durante a apoptose. A cromatina se condensa e há a formação de corpos apopt6ticos, os quais são freqüentemente fagocitados por células vizinhas sem incitar uma resposta inflamatória. Contudo, algumas células que sofreram apoptose podem persistir nos tecidos por um longo tempo ou até mesmo indefinidamente.
tipos de organismos vivos, podem se converter em uma única forma de suicídio celular. As pesquisas demonstraram que há quase uma conexão física direta entre o modo básico como ocorre o suicídio celular e o fator de necrose tumoral CD95-derivado, na troca de sinais de informação para que
o fenômeno se inicie. Acredita-se que a morte celular programada possa ser definida por três genes principais (genes ced), os quais orquestram
todo processo. Os genes ced-3 e ced-4 atuam matando as células alvo, enquanto o ced-9 atua suprimindo a ação dos genes assassinos. 0 gene ced-9 é semelhante, estrutural e funcionalmente, ao proto-oncogene bc1-2, envolvido na regulação da apoptose em vertebrados. Ainda é de extrema
relevância esclarecer que as proteases da família ICE tem implicação direta na apoptose de vertebrados, estando, possivelmente, ligadas a
fragmentação nuclear, indução da apotose em células de mamíferos e facilitação da clivagem autocatalitica espontânea.
Saka et al. (1996) realizaram um estudo morfológico da reabsorção
radicular dos primeiros molares deciduos superiores com o intuito de elucidar a relação entre a reabsorção radicular do primeiro molar deciduo
e, o estágio de desenvolvimento do dente permanente sucessor. Para tanto foram utilizados 24 maxilas provenientes de 12 crânios secos de crianças
Esses ossos foram classificados em quatro grupos: dentição decidua
(dentes deciduos em oclusão), dentição mista em estágio 1 (primeiro molar
permanente em oclusão), dentição mista em estágio 2 (incisivo central
lateral alcançou o plano oclusal). Cada amostra teve a tábua óssea
removida na face vestibular, e o primeiro molar deciduo foi retirado para
observação da superfície em reabsorção. Os ossos maxilares foram, então,
embebidos em uma resina de poliéster e seccionados com o auxilio de um
micrótomo, paralelamente ao plano de Frankfurt. Aos cortes foram unidas
películas radiográficas e procedeu-se ao exame radiográfico das pegas. A
menor distância entre a superfície radicular em reabsorção e a cripta óssea
foi medida. Para reproduzir a relação entre a raiz e a cripta óssea foi
utilizado um equipamento próprio para a reconstrução tridimensional. Como
resultados os autores observaram que a cripta óssea que continha o
primeiro pré-molar estava localizada muito próxima as raizes vestibulares
no estágio de dentição decídua, porém direcionava-se para lingual a
medida que as fases da erupção se sucediam. A cripta óssea originada na
porção vestibular no estágio de dentição decidua tem menor largura
mesio-distal no processo alveolar da maxila, parece migrar em direção a região
central com a evolução do processo de erupção e ocupa um maior espaço
no tecido ósseo, o que facilita a substituição do molar deciduo pelo seu
sucessor. Observaram ainda que a forma da cripta assemelha-se a da
coroa do dente permanente. A reabsorção radicular verificada nessa fase
iniciou-se a partir da área adjacente ao sucessor permanente. A
reabsorção da superfície interna da raiz foi observada no estagio de
dentição decidua e extendeu-se para o canal radicular no estágio de
dentição mista 1, o que sugeriu uma rápida progressão do processo entre
se próxima ao centro das três raizes no sentido vestíbulo -lingual e
mésio-distal, quando comparada ao estágio de dentição decidua a cripta
dirigiu-se a região de furca do decíduo. A reabsorção foi obdirigiu-servada na superfície
mésio-vestibular e na porção apical. No estágio de dentição mista 2 a
cripta também foi localizada no centro das três raizes, mais próxima a
superfície vestibular. A reabsorção radicular foi observada nas três raizes,
sendo que apresentou-se mais avançada nas raizes disto-vestibular e
lingual. No estágio mediano da dentição mista as bordas entre a cripta
óssea e o osso circundante não estavam claras, devido a aproximação do
germe permanente. A reabsorção estava mais avançada nas três raizes e a
espessura da raiz estava diminuída em algumas áreas das raizes
mésio-vestibular e lingual. Quanto a distância entre a superfície em reabsorção e
a cripta óssea, a média foi de 0,73mm (estágio de dentição decidua),
0,44mm (estágio de dentição mista 1), 0,19mm (estágio de dentição mista
2) e 0,15mm (estágio mediano de dentição mista). Estes achados indicam
que a distância entre a superfície em reabsorção radicular e a cripta óssea
diminui a medida que o processo de reabsorção progride. 0 estudo das
imagens tridimensionais indicou um aumento da reabsorção radicular
relacionado ao estágio de erupção e ao aumento da cripta óssea em
direção a região de furca.
Lourenço (1997) estudou o fenômeno da apoptose em três etapas da
odontogênese: durante a fragmentação da lâmina dentária e da bainha
foi realizada com 60 camundongos de idades variando do 18° dia de vida
intra-uterina ao 21 ° dia pós-natal, com o objetivo de analisar a
odontogênese dos molares. Os animais foram sacrificados para a avaliação
de cortes histológicos, na coloração de H. E., aonde avaliou as diferentes
etapas da odontogênese e as alterações morfológicas sofridas pelas
células localizadas nos sítios de estudo. Outros cortes foram submetidos a
técnica de time l modificada, método de marcação dos fragmentos de DNA,
especifico para detectar células apoptóticas. A análise dos resultados foi
feita em microscopia de luz. Como resultado o autor identificou células
apopt6ticas nos três sítios avaliados, o que indicou que a apoptose como
um dos mecanismos responsáveis pela fragmentação da lâmina dentária e
da bainha epitelial de Hertwig, bem como pelo desaparecimento parcial do
epitélio reduzido do esmalte durante a erupção do dente. Através destes
achados foi possível concluir que a apoptose constitui um dos mecanismos
mais importantes no desaparecimento da lâmina dentária após a formação
do germe dentário e que distúrbios na sua ocorrência podem estar
relacionados a etiopatogenia de certas anomalias dentárias. Além disso, as
modificações ocorridas nos foliculos pericoronários, após transcorrido o
tempo de erupção dentária, podem estar relacionadas a apoptose,
especificamente a transformação do epitélio reduzido do órgão do esmalte
em epitélio pavimentose estratificado.
Lourenço et al. (1997) realizaram uma revisão de 12 documentos
celular programada foi observada ocorrendo conforme a conveniência
orgânica, de modo fisiológico. A apoptose pode ser compreendida como
um padrão de morte celular presente normalmente no desenvolvimento de
vertebrados e invertebrados, podendo ser iniciada através de estímulos
patológicos ou fisiológicos. A presença de enzimas (transglutaminase,
endonuclease, proteases) e a alta concentração de cálcio no citoplasma
possibilitam a ativação deste fenômeno. Com a célula estimulada ocorre a
participação de genes, síntese protéica e ativação do RNA-m
desencadeando o mecanismo da apoptose. As enzimas presentes nas
células em apoptose são responsáveis pelas alterações morfológicas. A
célula em apoptose tem a cromatina subjacente a membrana nuclear
condensada, o DNA fragmentado e o citoesqueleto rompido, além disso,
ocorre contração celular e invaginação da membrana. A partir destas
invaginagões formam-se inúmeros corpos envoltos por membrana,
contendo organelas intactas e fragmentos de núcleo, chamados corpos
apoptóticos. Esse fenômeno foi observado na embriogênese e
organogênese. Na odontogênese foram observadas evidências da atuação
da apoptose em diversas fases. 0 processo de reabsorção dos dentes
deciduos provavelmente inicia-se por mecanismos desencadeadores da
apoptose nos cementoblastos e odontoblastos. Ainda na Odontologia
acredita-se que a apoptose esteja presente na fragmentação da lâmina
dentária e da bainha epitelial de Hertwig, bem como nas agressões da
Em uma revisão de 27 documentos acerca dos aspectos de biologia
molecular envolvidos no processo de erupção dentária Paiva e Ciamponi
(1998) descreveram que o foliculo dentário é o tecido que desempenha
papel central nesse processo. Salientaram, ainda, que ocorre um afluxo de
monócitos para o interior do foliculo e um aumento no número de
osteoclastos na porção coronária da cripta óssea durante o mecanismo de
erupção dental. Como principais moléculas envolvidas no processo os
autores destacam a participação da IL-1 (imunoleucina 1), CSF-1 (fator 1
de estimulação de colônia), TGF-p (fator transformador de crescimento tipo
13) e EGF (fator de crescimento epidermal). A IL-1 está presente em células
do retículo estrelado e atua estimulando a produção do CSF-1, o qual
encontra-se no foliculo dentário e é responsável por acelerar a erupção.
TGF-p, também localizado no retículo estrelado, atrai monócitos e estimula
a atuação da IL-1. O EGF é responsável pelo aumento na síntese de IL-1 e
é encontrado no retículo estrelado.
Sari et al. (1999a) estudaram os efeitos da reabsorção radicular
fisiológica na estrutura histológica da polpa dos dentes deciduos, através
da análise de 14 caninos higidos, com extração indicada por razões
ortod6nticas. Estes dentes pertenciam a nove crianças com idade variando
de 10 a 13 anos e foram divididos em dois grupos (sete dentes cada). 0
primeiro grupo foi composto por dentes onde o processo de reabsorção
estava no inicio (não excedia um terço do comprimento da raiz) e o
a dois terços do comprimento da raiz). Todos os dentes foram extraídos e o
comprimento radicular foi obtido medindo a distância entre a junção
amelocementária e ponto de reabsorção mais apical. Os dentes foram
então preparados para o exame histológico, realizado através da
microscopia óptica. Como resultado os autores puderam verificar que as
propriedades histológicas da polpa eram as mesmas para os dois grupos
estudados, que o tecido conjuntivo e os vasos sanguíneos estavam em
condições de normalidade e que focos de calcificação arredondados foram
observados na polpa, especialmente em locais próximos a região apical e
média da raiz. Desse modo, os mesmos puderam afirmar que a reabsorção
radicular fisiológica não provoca mudanças substanciais na polpa dental e
que essa não tem atuação efetiva na exfoliação dos dentes deciduos.
Em uma outra pesquisa Sari et al. (1999b) avaliaram os efeitos do
processo de reabsorção fisiológica sobre o potencial de reparo da polpa
dental de dentes deciduos. Para tanto esse estudo utilizou 20 caninos
higidos, de 14 crianças com idades variando de 10 a 14 anos. Esses
dentes foram divididos em 2 grupos, o primeiro constituído por dentes cuja
reabsorção não excedia um terço do comprimento da raiz ou estava em
estágio avançado e o segundo cujos dentes apresentavam de um terço a
dois terços do comprimento da raiz reabsorvidos. Todos os dentes
empregados na pesquisa tinham indicação para extração por motivos
ortod6nticos. Os dentes foram perfurados e a polpa coronal exposta para,
de cálcio e solução salina. Os capeamentos foram recobertos com óxido de
zinco e eugenol e os dentes restaurados com amálgama. Após 3 meses
todos os dentes foram extraídos e a distância entre a junção
amelocementária e o maior nível de reabsorção foi medida, os dentes que
apresentavam reabsorção excedendo dois terços do comprimento da raiz
foram descartados da pesquisa (três em cada grupo). Todos os dentes
após as extrações foram preparados para avaliação histológica e, com
auxilio da microscopia óptica, os autores puderam comprovar que a
despeito do nível de reabsorção radicular foi observada a formação de
ponte de dentina em todos os dentes. Concluíram também que a polpa de
dentes com reabsorção radicular que excede metade ou um terço do
comprimento da raiz tem potencial de reparo, bem como ficou determinado
que a reabsorção fisiológica dos dentes deciduos não afeta a formação de
dentina reparadora até o estágio de matriz orgânica. Porém, há um atraso
na maturação (mineralização) da dentina reparadora. Além disso.
observou-se que a despeito do uso do hidróxido de cálcio sobre o tecido
pulpar nenhum sinal de reabsorção interna foi verificado, o que demonstrou
que esse tipo de reabsorção patológica deve-se ao estado inflamatório da
polpa prévio ao tratamento endodôntico conservador.
Sasaki et al. (2000) realizaram um estudo para avaliar a atuação das
células mesenquimais, fibroblastos, cementoblastos e macr6fagos no
processo de reabsorção fisiológica dos dentes deciduos de gatos. Foram
estavam sofrendo reabsorção radicular, em gatos de 3 a 6 meses de idade Observaram, numa fase inicial da reabsorção radicular, muitos fibroblastos.
poucos macr6fagos e odontoclastos. Já na fase ativa da reabsorção foram
encontrados muitos odontoclastos com uma margem rugosa bem
desenvolvida e uma reduzida zona clara, bem como cementoblastos,
fibroblastos, macrófagos, neutrófilos e vasos sanguíneos. Na fase final da
reabsorção a superfície de dentina mostrou-se recoberta por,
principalmente, cementoblastos semelhantes a células ósseas e alguns
macrófagos. Não foram encontrados odontoclastos. Dessa forma, puderam
concluir que as células mesenquimais, assim como os odontoclastos são
essenciais na reabsorção dos tecidos moles e duros dentes durante a
A rizólise dos dentes deciduos é um processo de extrema
complexidade, haja visto o envolvimento de um grande número de tecidos
e moléculas desencadeando diferentes mecanismos de atuação. Portanto,
é necessário reafirmar a necessidade de conhecer, separadamente, cada
evento desse processo. Desse modo, a reabsorção fisiológica dos dentes
deciduos está relacionada a presença do germe dental permanente, o qual
atua diretamente por meio de substâncias constantes no foliculo
pericoronário e indiretamente exercendo pressão mecânica sobre as raizes
dos dentes deciduos. Entretanto, sabe-se da existência de um padrão de
morte celular programada que está relacionado a reabsorção radicular dos
dentes deciduos quando da ausência do sucessor permanente.
A importância de conhecer o padrão de reabsorção do dente deciduo
é de natureza essencialmente clinica, uma vez que o Odontopediatra
necessita ter a compreensão de onde estão localizadas as possíveis zonas
de perigo para a instrumentação do canal radicular no momento da
intervenção endod6ntica.
Há um consenso entre os autores pesquisados de que a reabsorção
germe dental permanente (Furseth, 1968; Daito et al., 1991; Francini, 1992: Haralabakis et al., 1994). Contudo, não se pode negar que a reabsorção também ocorre em outras áreas da superfície radicular, nos canais radiculares e na câmara pulpar (Furseth, 1968; Francini, 1992; Godoy, 1995).
De acordo com Godoy (1995) a rizólise propicia uma superficie irregular, especialmente na região de furca. Esse achado encontra-se de acordo com Saka et al. (1996) que afirmaram que com a progressão do processo de reabsorção radicular ocorre um aumento da cripta óssea em direção á região de furca, provocando alterações morfológicas nesse local.
A comunicação do compartimento pulpar com os tecidos periodontais se faz predominantemente em plano inclinado interno na região das faces radiculares voltadas para o septo interradicular, estabelecendo assim, relação direta com o foliculo dos dentes permanentes (Godoy, 1995) Esses dados são extremamente importantes, visto que a região de furca já representa um ponto de grande fragilidade natural dos dentes deciduos pela sua porosidade e qualquer medicação endod6ntica colocada no interior da câmara pulpar passa a ter, também, um relacionamento direto com as estruturas do germe permanente.
(Haralabakis et al., 1994; Saka et al. 1996), a instrumentação dos canais radiculares durante a terapia endod6ntica deve ser muito criteriosa nesses locais. Torna-se importante considerar a linha imaginária traçada sobre a face incisal/oclusal do dente em questão como área limítrofe para o estabelecimento do comprimento de trabalho para exploração, esvaziamento, instrumentação e obturação dos canais radiculares, tal como ê preconizado no protocolo da disciplina de Odontopediatria da UFSC.
Além do padrão de reabsorção estar diretamente ligado a relação entre a estrutura radicular do dente deciduo e a posição do dente permanente, o mesmo também está ligado a discrepância de tamanho entre o dente deciduo e seu sucessor (Prove, 1992). Isto justifica porque é possível encontrarmos tão comumente um padrão de reabsorção radicular irregular nos dentes deciduos, porém obedecendo a um padrão similar.
Quanto a progressão do processo de reabsorção pode-se afirmar que ocorre uma alternância entre períodos de reabsorção e reparo e que os odontoclastos tem importante atuação durante os surtos de reabsorção (Furseth, 1968; Soskolne e Bimstein, 1977; Francini et al., 1992 Sasaki et al., 2000). Estes autores ainda citam que a pressão exercida pelo germe dental permanente é o fator mais importante na diferenciação dos odontoclastos, o que permite supor que na ausência do dente permanente a reabsorção se processe com mais lentidão. Esses achados também explicam porque um dente deciduo durante seu processo de exfoliação altera períodos de maior e menor mobilidade na cavidade bucal.
Desde que Obersztyn (1963) pesquisou a influência do germe dental permanente no processo de reabsorção radicular dos dentes deciduos e comprovou que o mesmo tem uma contribuição importante nesse processo, vários estudiosos tem buscado explicar de que forma o dente sucessor atua nesse processo.
Dessa forma, fica comprovado que sem a presença do foliculo
pericoronário não há erupção dental e como a erupção e a reabsorção
radicular estão intimamente relacionadas, pode-se afirmar que a presença
do foliculo tem implicância direta na rizólise. O foliculo pericoronário tem
função fundamental na erupção dental, a medida que coordena a rebsorção
óssea e a formação de raiz e osso. A regulação desse fenômeno ocorre
através de mediadores como as metaloproteinases, a interleucina-1, o fator
de crescimento epidermal, o fator de crescimento
p,
o fator 1 de estimulação de colônia e proteínas indefinidas do órgão do esmalte efolículo dental (Marks, 1995; Wise e Lin, 1995; Paiva e Ciamponi, 1998).
Apesar dos conhecimentos sobre a função do foliculo na erupção
dental, ainda há muito para se pesquisar em termos de biologia molecular,
principalmente no que tange a atuação de cada mediador no
desencadeamento do processo. Os conhecimentos nessa área estão
apenas numa fase inicial, portanto, espera-se que em breve seja possível
discutir o tema com mais subsídios e em maior profundidade.
Outro mecanismo envolvido na reabsorção fisiológica dos dentes
decíduos é motivo das pesquisas de ponta na atualidade é a apoptose ou
padrão de morte celular programada. Esse assunto despertou interesse na
classe odontológica a partir da constatação clinica de que mesmo dentes
A apoptose tem importância vital no processo de crescimento e
desenvolvimento dos tecidos. Nos tecidos adultos a apoptose atua
modulando o crescimento e no desenvolvimento atua através do
desaparecimento programado de populações celulares (Gerschenson e
Rotello, 1992; Duke et al., 1996).
A morte celular programada é um fenômeno completamente distinto da
morte celular por necrose (Kressel e Groscurth, 1994; Hockenbery, 1995:
Duke et al. 1996, Lourenço et al., 1997). A apoptose implica numa série de
mudanças morfológicas na célula que está sofrendo o processo.
Inicialmente ocorre uma invaginação da membrana celular, encolhimento
da célula e condensação da cromatina, fenômenos seguidos de
fragmentação celular e formação dos corpos apopt6ticos, os quais são
freqüentemente fagocitados por células vizinhas sem incitar resposta
inflamatória (Duke et al., 1996; Fraser e Evan, 1996). Estes eventos
ocorrem, invariavelmente, nesta seqüência (Hockenbery, 1995).
Durante a odontogênese já foi confirmada a ocorrência da apoptose
na fragmentação da lâmina dentária e da bainha epitelial de Hertwig, bem
como no desaparecimento parcial do epitélio reduzido do órgão do esmalte
durante a erupção dental (Lourenço, 1997). Quanto a reabsorção dos
dentes deciduos Lourenço et al. (1997) supõem que o processo pode,
provavelmente, ser iniciado por mecanismos desencadeadores da
Ainda é possível supor que nos casos de dentes deciduos sem
sucessor permanente ocorra a apoptose, uma vez que estes dentes sofrem
reabsorção, embora de forma lenta. Portanto, é essencial que o
Odontopediatra esteja atento a qualquer procedimento a ser realizado num
dente deciduo sem sucessor permanente, já que a minima agressão ao
mesmo parece desencadear um processo de reabsorção até então
adormecido.
Apesar de todos os conhecimentos difundidos a respeito da
reabsorção fisiológica dos dentes deciduos, constata-se um grande
desconhecimento em relação ao comportamento do tecido pulpar frente a
rizólise. É comum muitos Odontopediatras associarem a polpa do dente
deciduo em estágio intermediário e avançado de reabsorção características
tidas como degenerativas.
Contudo, Araújo (1982) provou que as alterações estruturais
observadas no tecido pulpar durante a reabsorção radicular não podem ser
consideradas como degenerativas e que as estruturas pulpares não
demonstram alterações significantes em suas características estruturais e
fisiológicas no inicio e na metade da rizólise, apresentando pequenas
alterações morfológicas no estágio final. Foi verificado que as propriedades
histológicas da polpa continuavam as mesmas apesar da progressão do
processo de reabsorção e que esse fenômeno não provoca mudanças
também, a comprovação de que o tecido pulpar tem um papel meramente passivo frente a rizólise (Soskolne e Bimstein, 1997; e Araújo, 1982; .Sari et al.,1999a).
Após analisar a literatura pode-se concluir que:
1. A reabsorção radicular fisiológica dos dentes deciduos ocorre
mesmo na ausência do germe dental permanente sucessor.
2. A rizólise provoca alterações na morfologia radicular, implicando na
adoção de cuidados especiais durante a instrumentação endodõntica.
3. É importante adotar uma técnica de odontometria que respeite a
localização do germe dental permanente, uma vez que esta estrutura,
juntamente com o foliculo pericoronário, determina a ocorrência de
reabsorção radicular nas áreas radiculares adjacentes.
4. 0 foliculo pericoronário desempenha função fundamental no
processo de reabsorção radicular fisiológica, podendo ser, até mesmo, o
coordenador desse fenômeno.
5. A apoptose pode estar relacionada a exfoliação dos dentes
deciduos sem sucessor permanente.
6. A polpa dos dentes deciduos durante a rizólise não encontra-se
envelhecida a ponto de inviabilizar a endodontia, conservadora ou radical.
nos estágios mais avançados de rizólise.
7. É inaceitável atribuir a polpa dos dentes deciduos em reabsorção
fisiológica um estado degenerado, uma vez que a mesma não apresenta
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