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O LUGAR SOCIAL DOS FRACOS DE CORINTO

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Academic year: 2021

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JOEL ANTONIO FERREIRA**

O LUGAR SOCIAL DOS FRACOS DE CORINTO*

A SITUAÇÃO VITAL DA GRANDE CORINTO E DO PEQUENO CRISTIANISMO

P

aulo foi um líder carismático e itinerante (THEISSEN, 1989, p. 16-21) porque teve a intuição de que o cristianismo era uma novidade total: ruptura com o Judaísmo e uma resposta para os pagãos da civilização greco-romana. Ele criou um movimento popular que tinha a força da novidade no Império a partir da resistência da maioria da população explorada. Ele se inseriu num movimento popular e trabalhador onde o Evangelho se manifestava como força de liberdade, união e igualdade. Ele ia fundando comunidades. Dirigiu-se à camada popular. Que tipo de pessoas aderiram à sua liderança carismática? Paulo, conhecendo Resumo: Paulo viveu inserido no modo de produção escravagista romano e na civilização

grega. Ele fundou comunidades cristãs em Corinto. No meio da caminhada, algumas pessoas foram criando grupinhos fechados e se vangloriavam de sua sabedoria. O Apóstolo não criticou a sabedoria grega. Ele teve um embate com membros da comunidade que se orgulhavam de sua sabedoria e, com isso, rejeitavam a radicalidade da cruz. Ele anunciou que a verdadeira sabedoria (Sofia) vinha do crucificado e mostrou que o projeto de Deus estava do lado dos “fracos”. Optando pelos fracos, os da margem, o Apóstolo ia sugerindo aos grupos que saíssem do “sistema” greco-romano.

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bem o modo de produção escravagista romano, viu nos alienados e nos marginalizados a fonte de renovação e de um novo princípio de discernimento das estruturas da sociedade.

Ele viu no Evangelho (FITZMYER, 1970, p. 40-8) a única força para sustentar um novo tipo de sociedade sem a dominação da raça, da cultura, da filosofia, do social, do sexo e da religião.

Ele se dirigiu aos trabalhadores e marginalizados de Corinto, uma cidade de mais de 500 mil habitantes, uma das maiores de todo o Império romano. Ainda hoje, está entre os mares Jônico (Adriático) e Egeu. Esta cidade era especial, porque ela está encravada entre dois portos. De um lado, o porto Laqueu que liga a cidade à navegação que vem e vai para a Itália e o Ocidente. Do outro lado, o porto de Cencréia que movimenta todo o comércio que vem e vai para Atenas, Éfeso, Antioquia e o Oriente.

Um Olhar Sobre o Social

Corinto era a capital da Acaia desde 27 a.C., depois, da Grécia (portanto, da Acaia e da Macedônia de 15 a 44 d. C.).

A partir da epístola aos Coríntios e dos dados da história, podemos observar algumas contradições sociais no mundo daquela metrópole. Muitas eram as tensões: “judeus e gregos” (1 Cor 1,18-31; 12 e 13) tinham seus problemas. O texto fala dos “livres e escravos” (1 Cor 7,21-23). É óbvio, como veremos, principalmente, por causa do modo de produção escravagista, a distância entre os “livres e escravos” era abissal (COMBY; LEMONON,1988, p. 80-91). E, proximamente, a esta contradição, a assimetria “ricos e pobres” (1 Cor 11,22) era visível. Entre os poucos ricos, milhares de pobres e escravos. Havia contrastes sociais gravíssimos. A população era bastante mesclada. A luta de classes se manifestava no ritmo da cidade comercial e penetrava até nas relações eclesiais. Dois terços eram de escravos e trabalhadores. Uma outra contradição era entre “mulheres e homens” (1 Cor 7), o que não era de se estranhar, por causa da mundividência androcêntrica, em, praticamente, todas as esferas sociais. Então, Paulo aponta outro desnível, ou seja, a presença, até dentro das pequenas comunidades, dos “fortes e fracos” (1 Cor 1,26s). E, aqui dentro, a constatação dos “grupos e grupos” (1 Cor 1-4). Pelos dados da história, sabemos dos “doqueiros” (descarregavam e carregavam

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outro): paus roliços. Possivelmente, estes trabalhos eram executados pelos escravos. Os ricos marinheiros e capitães usufruíam do mar e da cidade, enquanto os pobres e escravos viviam indignamente. Havia também os biscateiros, vendedores ambulantes, escravos (nas grandes casas), camponeses (inchando a cidade), imigrantes etc. Lá havia os jogos ístmicos, na primavera (atletismo).

As outras cidades da Acaia e Grécia, nos níveis social e moral, não viam compromisso e, até um certo laxismo, entre os habitantes de Corin-to. Usavam um termo pejorativo para seus moradores. Era o verbo “corintizar”: que significava a falta de seriedade dos coríntios, isto é, muita praia, orgia, embriaguez etc. É necessário ressaltar também que as religiões Mistéricas incentivavam as experiências extáticas

Um Outro Olhar para a Economia

Além dos portos, poderosos mananciais econômicos, da pesca marítima, do turismo, Corinto se impunha, também, pela sua terra fértil e, consequente-mente, pela sua agricultura. Era muito expressiva a pecuária. A engenharia e arquitetura estavam em alta, porque havia muita construção e a cidade era florescente. A riqueza arquitetônica era imponente. Tinha o famoso Templo de Afrodite (havia a prostituição sagrada nas grandes festas). Então, Corinto era muito rica. Era uma das cidades comerciais maiores do

mundo antigo. Uma cidade que está numa encruzilhada estratégica e comercial. Frequentemente, as mercadorias procedentes da “rota da seda” passavam por ela (GORGULHO; ANDERSON, 1988, p. 57-8). Era rica, sendo um dos centros comerciais maiores do mundo antigo. Os impostos e as taxas eram apreciáveis fontes de renda. Ela era chamada de luz da Grécia. Um terço da população era de homens livres e libertos. Cidade agitada. Roma estava sempre “de olho” em Corinto. Dentro deste universo, tinha muita corrupção.

Olhando a Política

Aqui, precisamos estar na ótica escravagista, percebendo o império romano (GIORDANI, 1981) na civilização grega. De fato, tudo era baseado, tanto as leis como a política, no trabalho escravagista.

Como era uma metrópole das mais bem situadas, Corinto recebia todos os tipos de pessoas das mais diversas regiões, com características, por

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vezes, polivalentes, e, tantas vezes, ecléticas. Passavam por Corinto, portadores das mais diversas visões de mundo, pensadores itineran-tes, filósofos consagrados, pessoas de ideais tão diversos, e, também, proclamadores de vários segmentos religiosos.

É daí que vem a idéia da “sabedoria e poder dos fortes”. O poder criava a alienação (1 Cor 4,10-13; 5,10). Os ricos “formavam grupos”. Tinham o desejo de se imporem. Claro, respeitando o olhar romano que era a superestrutura sistêmica.

O Olhar Ideológico (= defesa dos interesses)

Havia a ideologia romana, com a proclamação de sua “pax” e a liberdade de ir e vir pelo império. Também a ideologia grega (baseada na sabedoria do pensamento que discriminava os pobres). Aí dentro, a ideologia dos cidadãos ricos que mantinham o regime de trabalho injusto.

Ao lado disso, a dimensão religiosa: os “tíasos” que se fechavam nos seus “grupinhos”. Havia muitas festas religiosas das religiões mistéricas, os festins sagrados, as carnes oferecidas aos ídolos, a prostituição sagrada. Existia uma sinagoga judaica. Porém, era insignificante diante das outras grandes religiões.

Sobre o sexo, era forte o conflito entre o valor da pessoa humana e a exploração do corpo, casamento, viuvez, celibato, virgindade etc. Era difícil para os moradores e trabalhadores locais, que viviam sob o jugo romano, absorver ou compreender aquelas novidades.

Porém, a forte dialética da epístola é a compreensão da “sabedoria do mun-do” e a “sabedoria da cruz”. Muitos queriam um líder: Apolo, Cefas, Paulo etc. Um líder que tivesse sabedoria, eloqüência, poder: esquema do mundo. Paulo queria mostrar a diferença dos projetos: o humano está num nível e o de Deus, noutro. Ele mostrava que a “sabedoria da cruz” para a visão humana era loucura. Mas, para Deus, esta “sa-bedoria” era plena de sentido. A sabedoria da cruz era escandalosa. Ela anunciava o Jesus crucificado e não o líder da comunidade. Deus optou, no Crucificado, pelos fracos, desprezados e sem projeção na sociedade (1 Cor 1,26-29). A sabedoria de Deus não era a sabedoria dos projetos do mundo. As perspectivas eram bem diferentes. Por isso, os esquemas do mundo crucificaram Jesus. Se ele estivesse nas perspectivas do mundo, não seria assassinado (2,6-8). Aí mudam os valores e a organização popular.

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Nas sociedades romanas e gregas, a organização partia de cima (po-derosos, cultos, de projeção). Na comunidade cristã, Deus, com os seus preferidos, organizavam-se, a partir de baixo (fracos, escravos, humildes, sem projeção, vis, marginalizados). Ao ser morto na cruz (vergonha!) pelos poderosos, Jesus foi posto do lado das vítimas do sistema assassino. Deus subverteu a organização do sistema. Temos o conflito: de um lado, o sistema que escraviza e mata e, do outro, a geração de um novo tipo de perspectiva: os líderes das comunidades a serviço (1 Cor 3,5; 4,1). Paulo, Apolo, Cefas não queriam o poder pelo poder. A perspectiva era outra: a construção de comunidades que deveriam servir. Neste olhar ideológico é vital a compreensão de liderança que Paulo passou aos coríntios: para estar à frente da co-munidade, era necessário respirar o hálito de Deus: o Espírito Santo (1 Cor 2,10-15 e 3,16-17). Toda a força da comunidade vem dEle. Quando a liderança deixar o Espírito Santo agir, evitará sua promoção pessoal. A comunidade é do Espírito Santo. Quem, às vezes até com boas intenções, “personaliza a fé” desagrega a casa de Deus.

Os Grupos de Paulo dentro do Contexto de Corinto

As cartas de Paulo, em geral, eram escritas, para tirar dúvidas das comunidades e para orientar, pastoralmente, a caminhada delas. Por vezes, ele fazia reflexões teológicas, porém, sempre, para responder aos questionamentos dos cristãos. Ora, a 1ª Epístola aos Coríntios enfocou uma série de questões como: divisões na comunidade, o caminho da superação, a importância do corpo e a vida matrimonial, a novidade do compor-tamento no casamento, a virgindade, a escravidão; questões ligadas às assembléias litúrgicas, reflexão sobre a caridade e a ressurreição do corpo. Porém, a reflexão que mais ocupou as orientações de Paulo foi a questões da Sofia.

Os judeus pediam sinais. Porém, este não era o grande problema, porque, pelo que parece, a presença do judaísmo não era tão acentuada. Entretanto, os gregos pediam sabedoria. Certamente, os cristãos enviavam cartas a Paulo pedindo que os orientasse com relação à sabedoria (pensamento) grega. Era o conflito com a filosofia. Como ser cristão diante de tantas linhas filosóficas?

É um desafio enfrentar as questões que giram em torno da “Sofia” na mentalidade (ou mentalidades) grega para se compreender a força deste

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termo na visão de Paulo, com uma nova proposta. Isso revoluciona a intelecção da prática do Apóstolo na formação das comunidades em Corinto. A nova concepção tinha implicações sociais, políticas, econômicas, jurídicas, culturais, filosóficas, ideológicas e, fortemen-te, teológicas: é preciso entender o projeto de Paulo que anunciou o Evangelho aos habitantes de uma cidade cosmopolita como Corinto, transformando o conceito de “Sofia”. O importante é compreender que sua visão de “Sofia” partia da base.

Paulo pregava o Crucificado como princípio da nova sabedoria cristã no meio dos problemas do mundo greco-romano (1 Cor 1,24). Ele apresentava o Evangelho como sabedoria, isto é, o crucificado é um princípio e um critério para o discernimento. A posição de Paulo, fixando a liberdade que vem de Cristo apresenta a “sabedoria cristã”, na analogia dos sábios filósofos estóicos que diziam: “não me deixarei escravizar por coisa alguma” (1 Cor 6,12)! Ou então, “não vos torneis escravos dos homens” (1 Cor 7,23). Paulo procurava, de fato, mostrar que a Sofia se realizava na construção da comunhão nas diferenças. Havia tensão de toda a sorte: judeus e gregos (1 Cor 1,18-31; 12,13), escravos e livres (1 Cor 7,21-23), homens e mulheres (1 Cor 7) e entre ricos e pobres (1 Cor 11,22). Nestas diversas manifestações da luta de classes, Paulo anunciou a “Sabedoria”, isto é, o Evangelho que é o caminho excelente do amor. Era esta palavra (amor) que complicava e implicava a vida de um ou mais grupos que viviam no jugo do modo de produção escravagista romano e dentro do pensamento grego. As relações humanas, políticas e filosóficas mudaram completamente. O Evangelho era o anúncio da ”sabedoria cristã”, a partir dos “fracos”, capaz

de orientar a vida naquela cidade cosmopolita. Diante dos grupos, ele apresentou três tendências:

a) Judeus: queriam sinais. b) Gregos: queriam sabedoria

c) “Nós que cremos na força da cruz” (1 Cor 1, 18-24). O “nós” era um novo tipo de solidariedade comunitária, a partir dos fracos, funda-mentada no Espírito Santo (1 Cor 12,13).

É hora de olhar para dentro da própria comunidade. Os cristãos estavam copiando o estilo grego e romano: vivendo no meio de rixas. Estavam formando “grupinhos” em torno dos líderes. Paulo se dirigiu às camadas mais baixas. A esperança dele é que os “fracos” iriam transformar a sociedade (1 Cor 2,3; 2,4-7; 4,10-13). É com esses que Paulo trabalhou e teorizou.

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O nosso texto está dentro de um maior (1 Cor 1-4). Detectou as divisões conflituosas (1 Cor 1,1-3,4); mostrou como vencer as divisões (1 Cor 3,5-4,21).

1Cor 1,26-29 e 2,2: “26 Vede, pois, quem sois, irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus: não há entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. 27 E, no entanto, Deus escolheu aqueles que para o mundo são tolos para cobrir de vergonha os sábios; e aqueles que para o mundo são fracos, Deus os escolheu para cobrir de vergonha os fortes; 28 aqueles que para o mundo são vis e desprezados e considerados ninguém, Deus os escolheu para destruir aqueles que são alguma coisa. 29 Isso, para que ninguém possa orgulhar-se perante Deus. 30 Ora, graças a ele, vós existis em Cristo Jesus, que se tornou para nós sabedoria da parte de Deus... 2,2 De fato, fiz o propósito de nada mais saber, entre vós, além de Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado.”

Estes versículos abordaram a cruz de Jesus como uma bela chave para se interpretar a realidade cristã. O texto maior (1-4) mostrou que as comunidades cristãs imitavam o estilo das associações religiosas do mundo grego (thíasos) e, com isso, criaram grupos espirituais que se apoiavam em um ou outro personagem importante. Com isso, as comunidades corriam o risco de criar o culto à personalidade (Cefas, Apolo, Paulo, Cristo – ou Crispo? -). Então, as divisões foram ine-vitáveis, superestimaram os líderes e perderam de vista o projeto da sabedoria que vinha de Jesus. Neste texto maior, há a denúncia de grupinhos e o distanciamento do projeto do filho de Deus humilha-do e derrotahumilha-do na cruz. Estes quatro capítulos alternam os temas da “unidade da Igreja” e da “Sabedoria”.

Barbaglio (1989) fala, entre os “fortes” de diversos grupos nas epístolas aos coríntios, dentro das comunidades cristãs. Refere-se aos “cristãos ilumi-nados” ou eufóricos, que não acreditavam nos ídolos. Estes se achavam livres e se vangloriavam como sendo sábios (1 Cor 4,10) e espirituais (1 Cor 3,1). Paulo os chama de “carnais”, significando que eram infantis, por se acharem “perfeitos” (1Cor 2,6). O Apóstolo via que a raiz do mal eram as próprias pretensões dos coríntios, que se consideravam “sábios”, como se possuíssem o monopólio da “sabedoria” (HEYER, 2008, p.103). Barbaglio relata também como “fortes” os “glossólalos”, também eufóricos, as mulheres emancipadas (1 Cor 12-14), os exi-bicionistas fanáticos (angélicos), os negadores da ressurreição (1 Cor

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15), os “grupelhos” que tinham recursos econômicos e “comiam” à vontade, em detrimento dos pobres (1 Cor 11, 17-34), as “igrejinhas”. Estes “fortes”, em geral, eram individualistas e minoria. Alguns eram ricos, de bom nível social, eram cristãos ufanistas e espiritualistas. Sobre os “fracos”, Barbaglio (1989) diz que eram cristãos simples e

humil-des que acolhiam a mensagem com sinceridade. Porém, não tinham aprofundamento intelectual e pouca solidez prática. Segundo ele, muitos tinham complexos de inferioridade. Eram desprezados pelos “fortes”. Não tinham voz no grupo e, praticamente, nada possuíam. Os fracos eram a maioria na comunidade cristã. Eram cristãos pobres, de baixa condição social (possivelmente, também, os escravos e muitas mulheres), fiéis simples, não tinham prestígio e, por isso, sem voz também na Igreja.

Os nossos versículos estão dentro de uma perícope menor (1,26-2,5) que aborda, exatamente, o tema da sabedoria centrada na cruz (FLANA-GAN, 1986).

O v. 26 dirigiu-se, exatamente, àqueles que são os queridos de Paulo: os “ir-mãos”. Este conceito, para nós, hoje, parece ser tão superficial, porém, para o universo greco-romano, não era nada comum. A evocativa, irmãos, expressava um projeto. Paulo foi alguém, que na sua itinerância pelo império, ia fundando comunidades. Irmãos é sinônimo daquilo que não era comum para romanos e gregos: comunidade.

Dois conceitos próximos foram usados pelo autor: “vocação” e Deus “esco-lheu” (v. 26 e 27). É Deus quem chama para a fé, é Ele quem escolhe os seus, é Ele quem elege os seus preferidos. O projeto de salvação é um ato gratuito de Deus. Aqui, vemos a distância entre os padrões humanos e o divino (BORTOLINI, 1990). Gratuitamente, Ele chama os desprezados pelos critérios humanos.

Pelos padrões humanos, isto é, pelas perspectivas do império romano e pelos critérios da civilização grega, estes eleitos de Deus não tinham nenhum valor. Os padrões romanos e gregos privilegiavam os mais sábios, os mais fortes e os mais poderosos, bem como os ilustres das famílias que mais se destacavam. Ficava claro que os da base da pirâmide social eram desprezados, em qualquer nível.

Paulo apresentou aos seus leitores o lado revolucionário dos olhos de Deus. Melhor dizendo, o projeto de Deus não é revolucionário. Ao longo da história, Ele sempre preferiu aqueles que os padrões humanos desprezaram. O projeto humano é que é discricionário. Pois bem! Paulo queria que os

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leitores de Corinto compreendessem os padrões de Deus. Ele não olha os privilégios adquiridos dentro das relações sociais. Deus vira tudo, em sentido contrário. Prefere os menos sábios, os menos fortes e poderosos, os discretos das famílias que menos se destacavam. Isso não significa que Paulo queria mostrar uma face “doentia” de Deus. Paulo não estava olhando com olhos românticos e ingênuos. Ele estava, com acuidade, ao mostrar a preferência de Deus pelos injustiçados, denunciando as assimetrias sociais, econômicas e políticas do império romano e civilização grega. Deus não concordava e nunca concordou com as assimetrias, porque elas sempre provocaram as injustiças. Isso se repetia em Corinto.

A Discriminação nunca foi linguagem ou critério de Deus. Apresentando o Deus da justiça aos coríntios (provavelmente, a grande maioria era recém-convertida), o Apóstolo foi mostrando o mapa do novo estilo de vida. Na nova comunidade não havia espaço para títulos ou méritos. Isso era para quem não fosse da comunidade. No novo grupo não deveria haver privilegiados. Como o Deus de Jesus Cristo sempre foi o Deus da justiça, todos os membros da comunidade deveriam entender, na prática, que todos estavam no mesmo nível (COMBLIN, 1993). Todos eram iguais. Então, quando, no v. 27, se afirmou que Deus escolheu, na visão do mundo, os “tolos” e os “fra-cos”, em contraposição aos “sábios” e os “fortes”, vemos que no campo salvífico, os privilégios foram anulados. É a salvação da história. No projeto salvífico, não há lugar para a vanglória dos intelectuais, nem o privilégio dos poderosos, muito menos, a arrogância dos nobres. Por isso, que foi dito (v. 27) que “Deus escolheu os fracos para cobrir de vergonha os fortes”.

Paulo aprofundou mais a distância entre “fortes” e “fracos”. O v. 28 dá bem uma mostra do que era o modo de produção escravagista romano. A expressão “vil” ou plebeu e “desprezado” espelha a fotografia de como eram vistos os mais pobres entre os pobres, ou seja, os escravos. É de se imaginar, por exemplo, na rica Corinto, os escravos puxando, em roletas, os navios, pela terra, do porto do mar Egeu para o Adriático. Quem fazia aquilo? Os vis e desprezados. Será que, à noite, na hora da celebração não vinham também alguns desses da sub-classe?

O nosso texto vai mostrando que os incultos, plebeus, desprezados, igno-rados, enfim, os vis, ganharam, pela graça divina, a possibilidade de viverem de um modo novo (ROETZEL, 1999). Eles, agora,

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são-em-Cristo (v.30). Participam da vida de ressuscitado (1 Cor 15). Assim, como Jesus destruiu a morte, pela ressurreição, eles, com Deus, são “escolhidos para destruir aqueles que são alguma coisa” (v. 28). Vamos percebendo que Paulo ia sugerindo aos marginalizados de Corinto que era possível viver uma experiência nova fora do sistema greco-romano. Mas, atenção! A vida na comunidade cristã está dentro de um projeto que não é humano. É de Deus. Não cabe nesta experiência de Jesus a “van-glória” (v.29). A autolatria destrói qualquer mentalidade igualitária. O orgulhar-se, a prepotência e a arrogância não são valores e, muito menos, para os cristãos. Então, se a comunidade cresce e caminha, a glória não é dos partícipes dela, mas dEle, com sua ação gratuita em favor dos seus eleitos e escolhidos. Não se trata de uma mística anóma-la, porque, convivendo em comunidade com Cristo, todos se tornam “ser-em-Cristo” (v. 30), cada um se torna mais gente, diferentemente dos critérios romanos e gregos.

Como Paulo chegou a esta clareza de projeto? Pelas informações dos Atos dos Apóstolos (At 17,16-34), o Apóstolo, após a sua experiência fracassada em Atenas, quando tentou dialogar com os intelectuais gregos, veio para Corinto. Aqui, ele começou a anunciar o Cristo Jesus Crucifica-do, sem recorrer à linguagem prestigiosa e à sabedoria humana (2,2). O Cristo Crucificado era escândalo para uns e loucura para outros. Porém, para os cristãos e para o Apóstolo era o Cristo, o portador de salvação para a humanidade. A adesão ao Crucificado leva à confiança radical na iniciativa da graça de Deus.

O Evangelho de Jesus Anunciado por Paulo: a sabedoria da cruz Paulo era um itinerante. Ele foi a Corinto. Percebeu todas as contradições sociais,

religiosas e as grandes assimetrias. Conviveu com uma filosofia que, a seu ver, não respondia aos anseios cristãos. Nesta cidade cosmopolita, despontou uma nova etapa de sua vida. Deixou de se preocupar com os judeus partindo para os étnicos (gentios). Eis a grande preocupação: a “sabedoria da cruz”. Como anunciá-la na sociedade grega? Paulo foi mostrando aos cristãos que eles se diferenciavam dos incrédulos (2 Cor 6,10), proclamando o anúncio da “Nova Criatura” (2 Cor 5,17). No seu projeto, evangelizou e fundou comunidades (PATTE, 1987). Os

conflitos surgiram, imediatamente, porque, vinham para o cristianismo pessoas ligadas a tão diferentes culturas e crenças.

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As duas cartas à comunidade de Corinto (1 e 2 Cor) são a compilação de uma vasta correspondência de Paulo com as igrejas daí. Paulo apresentou o Evangelho face aos Judeus e face aos Gregos. Os Judeus pediam sinais e os Gregos sabedoria.

Entre tantos ideais, valores e exigências, Paulo, em 1 Coríntios, se defrontou com as questões da “Sofia” (sabedoria). É um desafio en-frentar as questões que giravam em torno da “Sofia” e do “Corpo” na mentalidade (ou mentalidades) grega para se compreender a força destes termos, na visão de Paulo, com uma nova proposta.

Atos dos Apóstolos (At 17,16-33), conta que Paulo “argumentava... na praça (agorá) todos os dias com os que se encontravam lá” (17,16). Em segui-da, refere-se aos filósofos “epicureus” e “estóicos” que disputavam com ele (At 17,18). Estas duas escolas, mais os “cínicos” e os “hedonistas”, tiveram, como fundadores, alguns discípulos de Sócrates.

Os epicureus, corrente da linha de Epicuro (341-270 a.C.), também chama-dos de “filósofos do jardim”, desenvolveram sua reflexão no sentido de uma busca unilateral do prazer (MONDOLFO, 1965). Então, “vivendo o momento”, na linha de Epicuro, o ser humano possuia a capacidade de “calcular o seu prazer”. Não significava, necessariamen-te, conforme Gaarder (1999), satisfação dos sentidos: a amizade ou a sensação vivenciada ao se admirar uma obra de arte também podiam ser prazerosas, como ter a experiência de buscar os ideais gregos do autocontrole, da temperança e da serenidade.

Os estóicos (stoa = pórtico) consideravam que cada pessoa era um “microcosmo”, uma miniatura do “macrocosmo”. Daí, desenvolveram o conceito de um direito universalmente válido, o “direito natural” que não se modifica no tempo e no espaço. Este direito vale para todas as pessoas, incluindo os escravos. O direito tem sua base na própria natureza (HIRSCHBERGER, 1965). O próprio Hirschberger diz que o estoicismo teve forte influência no Direito Romano, porque vários juristas romanos aceitaram princípios do direito natural nas suas exposições jurídicas e os consideraram como a norma ideal para a interpretação do direito positivo. Principalmente, constitui o direito natural a base do direito internacional. Para eles, existia, apenas, “uma” natureza (monismo). Gaarder (1999, p. 148-9) chama a atenção de que eles se tornaram “cosmopolitas” e, por isso, eram abertos à cultura contemporânea. Também, preocupavam-se com a convivência entre as pessoas e interessavam-se pela política (MONDOLFO,1965). Esta corrente teve interessante influência na cultura romana. Por

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exem-plo, o filósofo, orador e político Cícero (106-43 a.C.) que desenvolveu o conceito “humanismo” (homem no centro), Sêneca (4 a.C.-65 d.C.) também humanista e o imperador Marco Aurélio (121-80) fizeram parte desta corrente.

No tempo de Paulo, a filosofia grega estava bem difundida, inclusive, em Tarso, sua cidade natal e em Corinto que disputava com Atenas, a hegemonia filosófica. Paulo teve contacto com o mundo da filosofia, pois Tarso, sua cidade natal, era um grande centro do estoicismo. Alguns vêem nos escritos do estóico romano Sêneca e nos de Paulo, muitas semelhanças. Eram contemporâneos. Provavelmente, nas esquinas e praças, Paulo escutou muitas teorizações provindas de Sêneca. Basta lembrarmo-nos dos simbolismos das corridas para se chegar ao prêmio final ou, ainda, linguagens poéticas sobre a vida terrena e as vitórias que poderão advir. Também as comparações com as corridas e pugilatos (1 Cor 9,24-27), que são expressão do pensamento moral de Sêneca e Paulo.

Se Paulo teve acesso ao pensamento filosófico greco-romano, por que o grito contundente contra a sabedoria humana, já no primeiro capítulo de I Coríntios? Os gregos pediam sabedoria. Certamente, os cristãos envia-vam cartas a Paulo pedindo que os orientasse com relação à sabedoria (pensamento) grega. Era o conflito com a filosofia. Como ser cristão diante de tantas linhas filosóficas?

Como era uma metrópole das mais bem situadas, recebia todos os tipos de pessoas das mais diversas regiões, com características, por vezes, polivalentes, e, tantas vezes, ecléticas. Passavam por Corinto, portadores das mais diversas visões de mundo, pensadores itinerantes, filósofos consagrados, pessoas de ideais tão diversos, e também, proclamadores de vários segmentos re-ligiosos. Era difícil para os moradores e trabalhadores locais, que viviam sob o jugo romano, absorver ou compreender aquelas novidades. Parece que, dentro das comunidades cristãs, algumas pessoas estavam

cons-tituindo grupos que, empolgadas pela filosofia, estavam rejeitando a fé com a sua dimensão da importância da cruz. A epístola não é uma crítica ao pensamento filosófico grego e romano. Porém, dentro da comunidade, aos que querem interpretar e atualizar a teologia, a partir da Sofia humana.

A questão da Sofia era uma fonte de conflitos dentro dos grupos. Se os no-vos cristãos tivessem suas tendências filosóficas, se também, tivessem treinados na arte da oratória para a evangelização, não haveria tensões. Paulo não apontou tensão entre cristianismo e filosofia. O problema é

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que, conhecendo os pensamentos estóico, epicureu, cínico, hedonista e eclético, sendo treinados no sofismo, alguns, dentro da comunidade, vangloriavam-se dos seus conhecimentos, arrogavam-se como mais preparados que muitos membros das comunidades e, então, naquela presunção, foram abandonando o tema forte e comprometedor do anúncio do Jesus da cruz.

Entender Paulo, neste conceito, é compreendê-lo revolucionando a sua prática na formação das comunidades em Corinto. A nova concepção tinha implicações sociais, políticas, econômicas, jurídicas, culturais, filosófi-cas, ideológicas e, fortemente, teológicas. Por isso, a justificativa mais forte é entender o projeto de Paulo que anunciava o Evangelho aos habitantes de uma cidade cosmopolita como Corinto, transformando o conceito de “Sofia”. O importante é compreender que sua visão de “Sofia” partia da base.

As cartas de Paulo, em geral, eram escritas, para tirar dúvidas das comunidades e para orientar, pastoralmente, a caminhada delas. Por vezes, ele fazia reflexões teológicas, porém, sempre, para responder aos questiona-mentos dos cristãos.

Ora, a 1ª Epístola aos Coríntios enfocava uma série de questões como: divi-sões na comunidade, o caminho da superação, a importância do corpo e a vida matrimonial, a novidade do comportamento no casamento, a virgindade, a escravidão; questões ligadas às assembléias litúrgicas, reflexão sobre a caridade e a ressurreição do corpo. Porém, as reflexões que mais ocuparam as orientações de Paulo foram as questões da Sofia (sabedoria) e a corporeidade.

Paulo pregou o Crucificado como princípio da nova sabedoria cristã no meio dos problemas do mundo greco-romano (1 Cor 1,24). Ele apresentou o Evangelho como sabedoria, isto é, o crucificado era um princípio e um critério para o discernimento. A posição de Paulo, fixando a liberdade que vem de Cristo, apresentava a “sabedoria cristã”, na analogia dos sábios filósofos estóicos que diziam: “não me deixarei escravizar por coisa alguma” (1 Cor 6,12)! Ou então, “não vos torneis escravos dos homens” (1 Cor 7,23). Paulo procurava, de fato, mostrar que a Sofia se realizava na construção da comunhão e nas diferenças.

Havia tensão de toda a sorte: judeus e gregos (1 Cor 1,18-31; 12,13), escravos e livres (1 Cor 7,21-23), homens e mulheres (1 Cor 7) e entre ricos e pobres (1 Cor 11,22). Nestas diversas manifestações da luta de classes, Paulo anunciava a “Sabedoria”, isto é, o Evangelho que é o caminho

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excelente do amor. Era esta palavra (amor) que complicava e implicava a vida de um ou mais grupos que viviam no jugo do modo de produção escravagista romano (WENGST, 1991, toda a obra) e dentro do pen-samento grego. As relações humanas, políticas e filosóficas mudavam completamente a situação vital dos ouvintes do Apóstolo.

O Evangelho era o anúncio da ”sabedoria cristã”, a partir dos “fracos” capaz de orientar a vida nesta cidade cosmopolita (PATTE, 1987). Aí dentro, o anúncio era franco: os “grandes” da terra queriam “reinar” (4,8). Lutavam por isso. Porém, os seguidores do Evangelho precisariam compreender que a nova proclamação fala com outra boca. Quem entendesse a “cruz” deveria saber que “reinar é correr risco de vida” pelo Evangelho (1 Cor 4,9-12). Se se tem a sabedoria da cruz diante dos olhos, então, todas pessoas de fé precisariam trabalhar, não para a destruição da casa de Deus, mas para a sua construção, porque:

A comunidade é do Espírito Santo

Não é dos “partidos”. Estes, (1 Cor 1,12), no interior comunitário, se ma-nifestavam como destruidores da unidade do “corpo de Cristo”. Pelas informações de Paulo, eles negavam a cruz. Parece que a linha da teologia dos partidos era motivada pelo desejo de auto-expressão e de promoção pessoal contra os outros. Todos queriam mostrar a sua “sabedoria”, provavelmente, como reflexo da sabedoria grega. Esta, ao ver de Paulo, destrói a vida e a unidade do amor do corpo de Cristo, principalmente, porque a sabedoria grega era seletiva. De fato, a teologia cristã de Paulo pontuou a cruz de Cristo. Quando a epístola fez referência às lideran-ças (1 Cor 1,12), como Apolo, Cefas, Paulo, Cristo (ou Crispo?), quis mostrar que estes e outros eram membros a serviço do Evangelho e, por isso, não podiam aproveitar da comunidade para projeção pessoal. Quem lutava pelo poder eram os “fortes” (senhores, masculinos, gregos, romanos,

judeus, ricos, filósofos) entre os coríntios que se consideravam superiores ao mundo e também em relação aos cristãos menos sofisticados. Tinham uma consciência e uma prática de classe que os colocava na busca da dominação e da destruição dos outros. Também dentro da comunidade eclesial tinha os “fortes”. Estes se consideravam “perfeitos” conhecedores da revelação e cheios do Espírito de Deus. Julgavam-se livres para fazer tudo o que queriam: nada atingia o seu “Ego” (1 Cor 6,12; 10,23). Podiam fazer o que quisessem com o corpo, pois nenhum destes atos

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atingiria o espírito. Criaram muita confusão (MURPHY O’CONNOR, 2000). Era este tipo de “liberdade” que eles praticavam, sem pensar nos outros. Na comunidade cristã, quem estava à frente (liderança) tinha que ter consciência de que eram servos de Cristo e da comunidade e administradores dos “mistérios de Deus” (1 Cor 4,1).

Era algo que mudava, completamente, a visão de mundo. Paulo tinha uma proposta comunitária de um grupo igualitário. Foi atrás dos margi-nalizados: fracos, desprezados, vis (1,26-28). Claro! O oposto dos critérios do mundo. Estes formavam a casa de Deus, o templo de Deus, a comunidade. Quando, à frente (3,16-17), ele disser que “vós sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós...”, ele revolucionou o modo religioso de ver os fiéis. Todos, absolutamente todos, são iguais. Cefas não era maior que um escravo, Apolo não era mais digno que um carregador de navio, ele (Paulo) não era mais importante do que um analfabeto da comunidade. Todos eram um templo de Deus: este era o grande anúncio que assustaria os romanos, os gregos, os judeus.

Era uma nova prática, o cristianismo. Havia alguém que igualava, na fra-ternidade e na justiça a todos: o Espírito Santo (STRABELI, 1997). Esta moradia de marginalizados era a casa dEle. Comunidade de Deus. Quem, em qualquer tempo, tentar dividir a comunidade, toca no próprio Espírito de Deus. Por isso, em qualquer época, quem tentar se autopromover, através da comunidade viva de Deus, estará se apro-priando, indevidamente, da casa de Deus. Por isso, a comunidade era santa. Construir o Templo de Deus, a partir dos excluídos, é deixar o Espírito agir. Onde? Dentro das aberturas de construção na busca do novo, ou seja, o social, étnico (racial), de gênero. Quando, sempre, houver abertura, ele age, a comunidade cresce em todos os aspectos, exatamente, porque a liderança não era de Paulo, Pedro, Apolo, mas do Espírito de Cristo (1 Cor 3,5-7).

A práxis de Paulo vinha do “lugar social” dos pobres

Entender Paulo neste conceito revoluciona a prática do Apóstolo na formação das comunidades em Corinto. A nova concepção tinha implicações so-ciais, políticas, econômicas, jurídicas, culturais, filosóficas, ideológicas e, fortemente, teológicas. Por isso, mais forte é entender o projeto de Paulo que anunciou o Evangelho aos habitantes de uma cidade cosmopolita

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como Corinto, transformando o conceito de “Sofia”. O importante é compreender que sua visão de “Sofia” partia da base. Jesus é a Sabedoria (DUNN, 2008).

O Evangelho, para ele, era o anúncio da ”sabedoria cristã”, a partir dos “fra-cos” capaz de orientar a vida nesta cidade cosmopolita.

Suspeito que Paulo estaria sugerindo aos coríntios que saíssem do sistema imperial dominante e teorizassem, na práxis, uma nova filosofia (ou teologia?) para constituírem uma sociedade alternativa fundamentada em Jesus, o Crucificado e Ressuscitado (a nova Sofia).

Precisa-se adentrar na intelecção da Sofia grega do 1º século para se enten-der o fascínio que a proclamação de Paulo exerceu sobre os gregos de Corinto, especialmente, os marginalizados. De fato, é intrigante perceber o salto que aqueles gregos, particularmente os da margem, deram para a adesão à nova sabedoria, ou seja, a cristã. Como Paulo sempre ligou a pregação à vida para formar comunidades, pode-se perceber as transformações acontecidas diante da Civilização Grega e defronte ao perigoso Império Romano. Se Paulo tocou nos problemas mais agudos da época (judeus e gregos, escravos e livres, ricos e pobres, homens e mulheres, fortes e fracos), é de se esperar a reação positiva das comunidades na ruptura com os modos de produção escravagista e o sistema da sabedoria grega que privilegiava alguns grupos. A epístola além de ser uma crítica pesada aos que queriam repetir os padrões

gregos ou romanos, é um anúncio positivo aos cristãos marginalizados. Estes não tinham espaço no império escravagista romano (HOUTART, 1982, p. 23ss). Eram sem nome, sem voz, sem vez (MADURO, 1983, p. 78ss). Não tinham vislumbres na civilização grega, pois esta era discricionária. Também, dentro do grupo cristão, estes excluídos se sentiam rejeitados, porque não imitavam o estilo dos membros da comunidade que copiavam o estilo da Sofia grega. Com este anúncio positivo, é de se supor que Paulo estava propondo a saída dos cristãos de Corinto do sistema da sabedoria grega e dos modos de produção escravagista romano. Parece que o Apóstolo estaria propondo que os cristãos de Corinto deveriam, ao escutar o anúncio da cruz, como centro da sabedoria, compreender que estavam constituindo grupos de uma sociedade alternativa ao sistema imperial romano e à civilização grega. É impressionante, como Paulo, séculos e séculos antes de Marx e Engels,

antes de Lukács, antes do grupo de Adorno, Marcuse, Horkheimer, Benjamim, Habermas do grupo do Instituto de Pesquisa social e

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filo-sófico de Frankfurt (FERREIRA, 2009), já tivesse intuído e praticado a reflexão e a práxis a partir dos marginalizados e escravos.

Ele partiu do judaísmo e se dirigiu àqueles que estavam vivendo dentro dos conflitos e tensões das estruturas do sistema imperial escravagista romano e da mundividência grega. Isso é vital para se abordar uma leitura sociológica e filosófica dos textos paulinos. A civilização grega pedia Sofia (sabedoria) para se entender os rumos da sociedade. Paulo apresenta uma outra via que assustava: Jesus Cristo Crucificado é a novidade que leva à liberdade (1 Co 1,23-25; Gl 5,1) dentro de um império estruturalmente opressor.

A proposta transformadora da sociedade, ao ver de Paulo, vinha dos “fracos”. Foi neste universo que surgiu o movimento popular de mudan-ça. O dinamismo desta nova visão surgiu de outro tipo de sabedoria: o evangelho de Jesus Cristo (MEEKS, 1991) é o poder capaz de libertar e de dar vida (1 Co 1,18-28). É possível viver uma experiência nova fora do sistema greco-romano.

Optando pelos “fracos”, os da margem, o Apóstolo foi sugerindo aos grupos que saíssem do “sistema” greco-romano. A filosofia abstrata não estaria dando lugar a uma filosofia confrontada com a realidade, que partia da base (FERREIRA, 2005)?

CONCLUSÃO

A intelecção da Sofia grega do 1º século (epicureus, estóicos, hedonistas, cínicos, neo-platônicos, ecléticos) era presente em significativa parte do império romano. De outro lado, é preciso, dentro dessa realidade, entender o fascínio que a proclamação de Paulo exerceu sobre os gregos de Corinto, especialmente, os marginalizados. De fato, é intrigante perceber o salto que aqueles gregos, particular-mente os da margem (COMBLIN, 1993), deram para a adesão à nova sabedoria, ou seja, a cristã. Como Paulo sempre ligou a pre-gação à vida para formar comunidades, possivelmente, os grupos cristãos, a partir dos “fracos” iam criando transformações aconte-cidas diante da civilização grega e defronte ao perigoso Império Romano (CROSSAN; REED, 2005). Se Paulo tocou nos problemas mais agudos da época (judeus e gregos, escravos e livres, ricos e pobres, homens e mulheres, fortes e fracos), de fato, aos poucos, foi acontecendo a reação positiva das comunidades na ruptura com

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os modos de produção escravagista e o sistema da sabedoria grega que privilegiava alguns grupos.

O pensamento cristão e sua nova práxis, parece, foi criando um novo modelo, dentro do projeto do Crucificado: os cristãos de Corinto deveriam sair, aos poucos, do sistema imperial dominante e teorizariam, de fato, uma nova filosofia para constituírem uma sociedade alternativa fundamentada em Jesus, o Crucificado e Ressuscitado (a nova Sofia). O texto significativo desta nova orientação é o seguinte:

Eras escravo quando fostes chamados? Não te preocupes com isto. Ao contrário, ainda que te pudesses tornar livre, procura antes tirar pro-veito da tua condição de escravo. Pois aquele que era escravo quando chamado no Senhor, é um liberto do Senhor. Da mesma forma, aquele que era livre quando foi chamado, é um escravo de Cristo. Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate; não vos torneis escravos dos homens

(1 Cor 7,21-23).

THE SOCIAL PLACE OF WEAKNESSES OF CORINTH

Abstract: Paul lived inserted in the slave mode of production in the Roman and

Greek civilization. He founded Christian communities in Corinth. In the middle of the walk, some people were creating cliques closed and boasted of his wisdom. The Apostle did not criticize the Greek wisdom. He had a clash with members of the community that prided themselves on their wisdom and, therefore, rejected the radicalism of the cross. He said that true wisdom (Sophia) was the crucified and showed that the design of God was on the side of the “weak.” Opting for the weak, the margin, the Apostle would suggest to the groups that leave the “system” of the Greek and the Roman.

Keywords: Sofia. Strong. Weak. Transformation. Referências

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* Recebido: 18.09.2010. Aprovado: 14.10.2010.

** Professor no Programa de Ciências da Religião (Mestrado e Doutorado) da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

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