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À espera da paz: negociações luso-espanholas e espaço cortesão na correspondência consular francesa

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Academic year: 2021

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EUROPA Y LA MONARQUÍA DE FELIPE V Virginia León Sanz (ed.)

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© Virginia León Sanz, 2019 © los autores, 2019 Editor: Ramiro Domínguez Hernanz

© Imagen de cubierta: Batalla naval del cabo de Passaro, (detalle), Richard Paton

C/ San Gregorio, 8, 2, 2ª Madrid España

www.silexediciones.com

ISBN: 978-84-7737-Depósito Legal: M-....-2018 Colección: Sílex Universidad

Dirección editorial: Cristina Pineda i Torra

Impreso y encuadernado en España por: Ulzama

Cualquier forma de reproducción, distribución, comunicación pública o transformación de esta obra solo puede ser realizada con la autorización de sus titulares, salvo excepción prevista por la ley. Diríjase a CEDRO (Centro Español de Derechos Reprográficos) si necesita fotocopiar o escanear algún fragmento de esta obra (www.conlicencia.com; 91 702 19 70 / 93 372 04 97)

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contenido

introducción la monarquía de felipe v

en la europa de utrecht. equilibrio y ruptura Virginia León Sanz

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revertir los tratados de utrecht. las conquistas de cerdeña y sicilia

Núria Sallés y Joaquim Albareda 33

i borbone e la “libertas” fiorentina. don carlos e la successione medicea

Marcello Verga 65

alcune considerazioni sul governo asburgico (1711-1733)

Cinzia Cremonini 81

los jenízaros y el estado de milán (1706-1761) Roberto Quirós Rosado

Antonio Álvarez-Ossorio Alvariño 101

guerra en el mar: cooperación,

alianzas navales y asedios al comercio español (1700-1717) Ana Crespo Solana

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à espera da paz:

negociações luso-espanholas e espaço cortesão na correspondência consular francesa

José Damião Rodrigues 175

una difficile eredità:

i trattati di utrecht e la riflessione eonomica spagnola nella prima metà del settecento

Niccolò Guasti 197

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àesperadapaz:

negociaçõesluso-espanholaseespaçocortesão nacorrespondênciaconsularfrancesa1*

José Damião Rodrigues

Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Centro de História (CH-UL)

resumo

Nos anos finais da Guerra de Sucessão de Espanha, já depois da as-sinatura dos primeiros tratados de paz em Utrecht, as negociações entre as cortes de Lisboa e de Madrid foram marcadas por descon-fianças mútuas e pelo objectivo de D. João V de obter a paridade de tratamento em matéria de diplomacia, procurando ombrear com Filipe V. Deste modo, arrastaram-se os preliminares das ne-gociações de paz entre Portugal e Espanha. A correspondência consular revela-se essencial para revelar os meandros dos jogos po-líticos e diplomáticos e desvendar as actuações dos diversos actores no complexo xadrez da época. Nesta comunicação, pretendemos apresentar o olhar francês relativo aos meses que antecederam a assinatura do Tratado de Paz entre D. João V e Filpe V, recorren-do sobreturecorren-do ao registo da correspondência recorren-do cônsul francês em

1* Este texto insere-se no âmbito dos projectos HAR2015-65987-P, La redefinición del

espacio europeo y mediterráneo en el siglo xviii. Política, diplomacia y conflictos,

financia-do pela Subdirección General de Proyectos de Investigación del Ministerio de Econo-mía y Competitividad del Reino de España; HAR2013-45788-C4-3, Republicanismos,

fiscalismos, regalismos. Adhesiones y disidencias en el pensamiento político hispánico en la Alta Edad Moderna (siglos xv al xvii) (REFIRE), financiado pela Subdirección

Gene-ral de Proyectos de Investigación del Ministerio de Economía y Competitividad del Reino de España; e Projecto Estratégico UID/HIS/04311/2013. Uma primeira versão deste texto foi apresentada no Colóquio Internacional Utreque 1715-2015: Diplomacia,

Cultura e Fronteiras, organizado pelo Centro de Estudos Geográficos e Centro de

História da Universidade de Lisboa, Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade dos Açores e Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora, Biblioteca Nacional de Lisboa, Lisboa, 15 a 17 de Junho de 2015.

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Lisboa, a qual nos apresenta a perspectiva de uma das potências interessadas no acordo entre as formações políticas ibéricas.

Nos anos mais recentes, a “nova história diplomática” tem vin-do a destacar que, além vin-do estuvin-do vin-dos grandes congressos, das embaixadas e dos agentes diplomáticos de primeiro plano, a nos-sa atenção deve igualmente contemplar os múltiplos contextos de actuação, as figuras alternativas e mais secundárias da cena diplo-mática, as complexas redes de informação, em suma, “the myriad types and forms of diplomacy”2. Assim, e nesta mesma linha his-toriográfica, Noé Comago, citando Christian Windler, recordou como este último colocara “a new emphasis on the ‘quotidian work of diplomatic and consular intermediaries’, their practices of communication, and ‘their experiences of otherness’, more than in negotiation outcomes themselves.”3 Neste contexto, não é de mais insistir na importância da correspondência consular, que nos revela precisamente o quotidiano desses agentes, a sua rede de contactos e informadores locais e a sua “experiência do Outro”. Embora estivessem subordinados, quando se encontrava presente, a um embaixador, em grande parte dos casos estavam na posse de informações mais detalhadas, possuindo um conhecimento mais denso das sociedades e instituições locais. Deste modo, além da sua função económica, pois cabia-lhes defender os interesses dos homens de negócio, das companhias e da formação política que serviam, ocupavam um lugar central na complexa trama de pro-dução de informação e contra-informação que caracteriza os bas-tidores diplomáticos. A correspondência consular revela-se, pois, essencial para desvelar os meandros dos jogos políticos e diplomá-ticos e desvendar as actuações dos diversos actores no complexo xadrez da época dos grandes congressos4.

2 Cf. Robyn Adams e Rosanna Cox, “Introduction”, in Robyn Adams e Rosanna Cox (eds.), Diplomacy and Early Modern Culture, Basingstoke e New Iorque, Palgrave Macmillan, 2011, pp. 1-12, maxime p. 8 para a citação.

3 Cf. Noé Comago, Plural Diplomacies: Normative Predicaments and Functional

Impe-ratives, Leiden, Koninklijke Brill, 2013, p. 39.

4 Cf. Jörg Ulbert e Gérard Le Bouëdec (dir.), La fonction consulaire à l’époque

moder-ne: L’affirmation d’une institution économique et politique (1500-1800), Rennes, Presses

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Este é o ponto de partida da nossa exposição. Os elementos que iremos apresentar não alteram, no essencial, as linhas gerais historiográficas ou o fio condutor que norteia as explicações para a génese e desenvolvimento da Guerra da Sucessão de Espanha ou para o pano de fundo das relações diplomáticas entre as coroas ibéricas antes, durante e após o conflito5. Deste modo, no pre-sente texto, pretendemos apresentar tão-somente o olhar francês relativo aos meses que antecederam a assinatura do Tratado de Paz entre D. João V e Filipe V, recorrendo para tal ao registo da correspondência do cônsul francês em Lisboa, cifrada nas pas-sagens relativas a matérias mais sensíveis, a qual nos desvenda a perspectiva e os interesses de uma das potências interessadas no acordo entre as formações políticas ibéricas, revelando ao mesmo tempo as práticas do agente consular presente na corte portugue-sa, a sua actuação ao serviço da monarquia francesa e o olhar que lançou sobre os actores com quem contracenou no palco da corte e cidade de Lisboa.

Com efeito, embora, para alguns autores, o período em questão se situe já numa terceira fase da instituição consular, progressivamente privada de maiores competências face ao de-senvolvimento da diplomacia permanente, limitando-se a activi-dade dos cônsules “à son volet commercial et administratif”6, a verdade é que, no caso em análise, a documentação epistolar do cônsul francês em Lisboa contraria aquela proposta interpretati-va, pois, por entre notícias da Família Real, dos Grandes e da vida política, social e económica, essa correspondência expõe a filigra-na de relações, a cuidadosa acção de lobbying e os diálogos man-tidos sobre negócios de Estado, entre os quais avultava a questão

5 Cf., por exemplo, José Manuel de Bernardo Ares (coord.), La sucesión de la

mo-narquía hispánica, 1665-1725: Lucha política en las Cortes y fragilidad económica-fiscal en los Reinos, Córdoba, Servicio de Publicaciones de la Universidad de Córdoba,

2006; David Martín Marcos (ed.), Monarquías encontradas. Estudios sobre Portugal y

España en los siglos xvii y xviii, Madrid, Sílex, 2013; David Martín Marcos, Península de Recelos. Portugal y España, 1668-1715, Madrid, Marcial Pons, 2014.

6 Cf. Jörg Ulbert, “Introduction. La fonction consulaire à l’époque moderne: défi-nition, état des connaissances et perspectives de recherche”, in Jörg Ulbert e Gérard Le Bouëdec (dir.), ob. cit., pp. 9-20, maxime p. 13 para a citação.

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da paz entre Portugal e a Espanha. De igual modo, este corpus, integrado num conjunto mais vasto, ilustra bem a importância da escrita e da gestão de informação por parte das monarquias moder-nas, em concreto a monarquia francesa, numa linha que se vinha a consolidar desde períodos anteriores7.

Nas suas linhas gerais, é conhecida a trajectória vital dos cônsu-les franceses em Lisboa no arco cronológico que vai de 1669 a 1790, graças ao estudo de Jean-François Labourdette8. No período em análise, o cônsul francês na corte portuguesa era Pierre-Antoine Duverger (ou du Verger). Filho de um nobre que pertencera à casa do príncipe de Condé e de uma dama francesa natural de Liège, que servira como açafata da Infanta Isabel, filha de D. Pedro II e de Maria Francisca de Sabóia, e irmão de um cavaleiro da Ordem de Cristo, era ainda cunhado de António Gomes de Elvas, que casara com uma sua irmã, Anne Marie Armande Pastré Duverger, amante de D. Pedro II, de quem teria um filho, D. Miguel de Bragança, pai do 1.º duque de Lafões9. Ausente de Portugal nos primeiros anos de Setecentos, Pierre-Antoine Duverger regressou a Lisboa, vindo de Génova, em Março de 1703 para cuidar do governo dos assuntos da casa familiar. No final desse mesmo ano, foi indicado para cônsul da nação francesa, mas, antes mesmo de iniciar as suas funções, foi expulso. Com efeito, como consequên-cia dos realinhamentos e tratados celebrados por D. Pedro II em 1703 e da ruptura com o partido de Filipe V, a 11 de Março de 1704, Pierre-Antoine Duverger recebeu ordem para sair de Portugal no prazo de oito dias.

No final do conflito, o armistício entre Portugal e a França assi-nado a 7 de Novembro de 1712. Pierre-Antoine Duverger regressou

7 Cf. John C. Rule e Ben S. Trotter, A World of Paper: Louis XIV, Colbert de Torcy and

the Rise of the Information State, Montreal, McGill-Queen’s University Press, 2014.

8 Cf. Jean-François Labourdette, La Nation Française à Lisbonne de 1669 a 1790.

En-tre colbertisme et liberalisme, Paris, Fondation Calouste Gulbenkian, CenEn-tre Culturel

Portugais, 1988.

9 Para mais informações coevas sobre Anne Marie Armande Pastré Duverger e D. Mi-guel de Bragança, ver Pietro Francesco Viganego, Ao serviço secreto da França na Corte

de D. João V, introdução, tradução e notas de Fernando Morais do Rosário, Lisboa,

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a Portugal em começos de 1713, com patente, confirmada por D. João V a 17 de Junho desse mesmo ano10, retomando o exercício do consulado ainda antes de ajustada a paz entre o soberano por-tuguês e Luís XIV, algo, que, à data, foi estranhado pelo conde de Tarouca11. Duverger era um bom conhecedor da corte e da sociedade portuguesas e as suas qualidades foram confirmadas pelo novo embaixador francês na corte de Lisboa, o abade de Mornay. Com efeito, este escreveu, em carta de 19 de Setembro de 1714, que, embora não ainda não conhecesse bem o cônsul, do que apreendera dos contactos iniciais –“plus ie le pratique”–, considerava que Duverger se revelara um homem pleno de probi-dade e zelo, com capaciprobi-dade e mérito bem acima da sua função12. A produção epistolar do cônsul espelha uma opinião informada sobre o mundo da política, a sociedade cortesã e as linhas de força e ritmos da economia portuguesa no começo de Setecentos. Contudo, apesar da reconhecida experiência e das faculdades do cônsul, a etapa que se seguiu ao ajuste de tréguas, prolongadas e, depois, confirmadas com a publicação em Lisboa da paz entre Portugal e a França13, foi curta, vendo-se interrompida em 1715. Em Maio, o cônsul pediu para abandonar o cargo, recusando o consulado de Cádis, para o qual fora nomeado. Aparentemente, Pierre-Antoine Duverger considerou a nomeação um infortú-nio. Retirou-se para uma casa de campo nos arredores de Lisboa, onde faleceu, no Outono de 1722. O seu substituto foi Charles

10 Cf. Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Chancelaria de D. João V, Doações, livro 48, fls. 111 v-112. Sobre o regresso de Pierre-Antoine Duverger a Portu-gal e as suas relações com a família, ver Pietro Francesco Viganego, ob. cit., pp. 41-45 e 89-92, maxime p. 90, ofício de 3 de Março de 1713.

11 Cf. Isabel Cluny, O Conde de Tarouca e a Diplomacia na Época Moderna, Lisboa, Livros Horizonte, 2006, pp. 288-289.

12 Cf. Archives Nationales (AN) (Paris), Affaires Étrangères (AE), Correspondance Consulaire (CC), BI 653, fls. [147 v]-[148]. Também o agente genovês ao serviço da corte francesa tinha do cônsul francês uma boa opinião, afirmando que era “um honesto homem”, de quem era amigo. Cf. Pietro Francesco Viganego, ob. cit., pp. 89-92, maxime p. 91, ofício de 3 de Março de 1713.

13 Cf. Portugal, Lisboa e a Corte nos Reinados de D. Pedro II e D. João V. Memórias

Históricas de Tristão da Cunha de Ataíde, 1º Conde de Povolide, introdução de

Antó-nio de Vasconcelos de Saldanha e Carmen M. Radulet, s. l., Chaves Ferreira, s. d. [1990], pp. 240-242.

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Danvillier de Sainte-Colombe e, com esta nomeação, impôs-se o princípio geral, por parte da corte francesa, “de ne point choisir un consul «habitué» au pays.”14

Durante o breve período de retoma das suas funções, o cônsul Duverger teve de atender, com urgência, aos problemas que afec-tavam as trocas comerciais entre os reinos de França e Portugal, seriamente perturbados pela conjuntura bélica dos anos anterio-res. De facto, cabia ao cônsul defender os interesses do comércio francês e dos súbditos do rei de França, conforme o definira Col-bert. Neste sentido, a par da redação de memórias sobre o estado do comércio, em geral, e do francês, em particular, cabia ao côn-sul assegurar a protecção da navegação e dos negócios franceses15. Ora, com a interrupção das trocas após o rompimento entre as duas monarquias, em 1704, algumas questões tinham ficado por resolver.

A pragmática de 1698 proibira a entrada de panos e lãs no reino de Portugal, mas esta decisão, na conjuntura da Guerra de Sucessão de Espanha, mostrara ser mais gravosa para a França do que para as Províncias Unidas ou a Inglaterra, que se veria beneficiada com a assinatura do tratado de comércio anglo-por-tuguês de 27 de Dezembro de 1703. Se, em finais de Seiscentos, Portugal e o Brasil tinham uma importância “muito limitada” no contexto do comércio inglês, quando comparamos os dados relativos às importações inglesas de vinhos continentais em finais do século xvii e inícios do xviii, podemos constatar que ocorreu uma significativa mudança no quadro mercantil inglês, sendo de relevar o marco que constituiu o Tratado de Methuen, que pro-tegeu os vinhos portugueses. As estatísticas há muito publicita-das por V. M. Shillington e A. B. Wallis Chapman demonstram como se alteraram as posições ocupadas pelos países fornecedores de vinho à Inglaterra e uma análise comparada da evolução das

14 Cf. Jean-François Labourdette, ob. cit., pp. 279-283; Anne Mézin, Les consuls de

France au siècle des Lumières (1715-1792), Paris, Imprimerie nationale, Direction des

Archives et de la Documentation, Ministère des Affaires étrangères, 1997, p. 272, “DUVERGER (Pierre-Antoine)”.

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relações comerciais entre Portugal e as demais formações políticas europeias antes e depois de 1703 mostra, sem margem para dú-vidas, a queda do comércio francês e a sua posição muito abaixo do volume de operações inglesas16. Assim, uma memória francesa sobre o comércio português, datada de 1737, podia expressar de forma clara como era visto o predomínio mercantil inglês: “Je crois que l’on peut avancer hardiment que les Anglois Seuls, font En Portugal, plus de Commerce que toutes les autres Nations de l’Europe Ensemble.”17

Neste quadro, após 1713, uma parte dos esforços do côn-sul francês foi canalizada para a tentativa de aliviar o comércio francês dos constrangimentos resultantes da política e legislação portuguesas. Um dos problemas referidos na correspondência consular é o caso dos panos –“L’affaire des Draps”– que estavam retidos na Alfândega de Lisboa, devido a complexos problemas de direitos; outro diz respeito ao confisco de cargas transportadas em navios franceses. Sirva de exemplo o caso da balandra francesa que viera dos Açores com trigo e tabaco e fora obrigada a escalar Tavira, aí sendo a carga confiscada, porque a entrada de tabaco era proibida em Portugal. Logo que recebeu notícia do sucedi-do, Duverger solicitou ao Secretário de Estado que escrevesse ao superintendente do tabaco do reino do Algarve para que este lib-ertasse mercadoria e embarcação18. O cônsul, porém, não estaria muito crente no sucesso do seu requerimento, pois, em carta de 22 de Outubro de 1714, considerava que, para solucionar os prob-lemas envolvendo mercadores franceses, a única esperança seria o rei de Espanha marchar contra a fronteira portuguesa. Só assim

16 Cf. V. M. Shillington e A. B. Wallis Chapman, The Commercial Relations of

En-gland and Portugal, LondonNew York, George Routledge & Sons, Limited-E. P.

Dutton & Co., 1907, pp. 334-335, “Appendix II”, IV; Ralph Davis, The Rise of the

English Shipping Industry In the Seventeenth and Eighteenth Centuries, 2ª ed., Newton

Abbot, David & Charles, 1972 [edição original: 1962], p. 243; Jean-François Labour-dette, ob. cit., pp. 348-349.

17 Cf. AN, AE, CC, BIII 385, “Memoire Sur le Commerce du Portugal Fait au moix de Janvier 1737.”, fl. 40.

18 Cf. AN, AE, CC, BI 653, fls. [60 v], 12 de Março de 1714, e [176 v]-[177], 16 de Outubro de 1714.

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a corte portuguesa seria obrigada a recorrer a França e a prestar mais atenção aos assuntos franceses19.

Outra das matérias sensíveis que exigiu a atenção e o empe-nho do cônsul francês foi a do comércio francês com o Brasil e, em particular, o estabelecimento de homens de negócio franceses na América portuguesa e a nomeação de um vice-cônsul da nação francesa na Baía, privilégio de que haviam gozado Ingleses, Ho-landeses e Alemães. A questão, que se arrastou durante os anos imediatamente posteriores ao fim da Guerra de Sucessão de Es-panha, chegaria bruscamente ao fim com a expulsão do mercador e também vice-cônsul francês na Baía, Jacques de Vienne, em 172120. Nos meses finais do consulado de Duverger, o tema do vi-ce-cônsul francês na Baía aflora, com regularidade, nas cartas por si redigidas e também na correspondência do embaixador fran-cês, o abade de Mornay. Apelando para o soberano português, os representantes franceses consideravam que, à data, não tendo nem Ingleses nem Holandeses um agente diplomático na Baía, a França podia negociar para conseguir a nomeação de um côn-sul. Alegavam Duverger e de Mornay que D. João V concedera que se estabelecessem quatro negociantes de cada uma daquelas nações na Baía, três no Rio e dois em Pernambuco, um tendo a patente de vice-cônsul, e que a França poderia vir a ter o mesmo privilégio21. O que a correspondência diplomática revela ainda é que, entre os objectivos perseguidos, e não confessados, por par-te dos Franceses estava o acesso ao contrabando, nomeadamenpar-te do ouro de Minas Gerais22. De qualquer modo, não obstante o

19 Idem, fls. [179]-[179 v].

20 Cf. Jean-François Labourdette, ob. cit., pp. 154-158 e 397-399. Embora o cônsul fosse um magistrado com uma jurisdição e funções definidas, o que se revelava, à partida, incompatível ou dificilmente conciliável com o trato mercantil, sempre existiram excepções ao princípio. Cf. Anne Mézin, “La fonction consulaire dans la France d’Ancien Régime: origine, principes, prerogatives”, in Jörg Ulbert e Gérard Le Bouëdec (dir.), ob. cit., pp. 37-49.

21 Cf. AN, AE, CC, BI 652, fl. 405, 17 de Julho de 1713; BI 653, fls. [182 v]-[184], 23 de Outubro de 1714.

22 Esta questão já havia sido referida por Ernst Pijning, “Passive Resistance: Portu-guese Diplomacy of Contraband Trade during king John V’s Reign (1706-1750)”,

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“Con-183 5 àesperadapaz: negociaçõesluso-espanholas...

empenho de ambos os diplomatas em encontrar um homem de negócios que servisse de vice-cônsul da nação francesa, a posição deste revelou-se sempre frágil, pois o cargo nunca foi reconhecido pela coroa portuguesa.

Da maior importância para a nossa exposição é o conjunto de informações relativas às conversas mantidas com cortesãos e oficiais régios, as notícias respeitantes às relações entre as cortes ibéricas no âmbito das negociações que deviam conduzir à assi-natura da paz entre Lisboa e Madrid e as opiniões emitidas pelo cônsul quanto a Grandes e a ministros. É sem surpresa que a centralidade da casa de Cadaval se reflecte na correspondência de Duverger. Com efeito, desde há décadas que a casa ducal ocu-pava uma posição axial no seio da monarquia portuguesa. O 1.º duque de Cadaval, D. Nuno Álvares Pereira (1638-1727), princi-pal figura do “partido” de D. Pedro II, exerceu praticamente a supervisão da administração da monarquia até à morte do rei, servindo diversos ofícios de reconhecida importância. Acerca do seu desempenho e protagonismo político, frei Boaventura de São Gião, qualificador do Tribunal do Santo Ofício, teólogo consul-tor da Bula da Santa Cruzada e auconsul-tor de um dos pareceres que acompanharam a edição de obra dedicada ao 1.º duque de Cada-val, da autoria de seu filho, o duque D. Jaime, escreveu: “Nelle tiverão os Monarcas sugeito benemerito dos mayores empregos, e homem para tudo por approvaçaõ de todos.”23 Deste modo, o 1.º trabando, ilegalidade e medidas políticas no Rio de Janeiro do século xviii”, Revista

Brasileira de História, São Paulo, vol. 21, n.º 42, 2001, pp. 397-414.

23 Cf. Ultimas Acções do Duque D. Nuno Alvares Pereira de Mello: desde 11. de

Se-tembro de 1725. atè 29. de Janeiro de 1727. em que faleceu. Relaçaõ do seu Enterro, E das Exequias, que se lhe fizeraõ em Lisboa, e nas terras, de que era Donatario. Escritas, e Dedicadas á Magestade de D. João V. Rey de Portugal pelo Duque Dom Jayme […],

Lisboa Ocidental, na Oficina da Música, 1730, fl. **ij. O parecer é datado de 6 de Janeiro de 1729. Para uma narrativa densa dos acontecimentos e análise da dinâmica política da época, na qual participou o 1.º duque de Cadaval, vejam-se as seguintes biografias régias: Pedro Cardim e Ângela Barreto Xavier, D. Afonso VI, “Reis de Por-tugal, XXII”, Lisboa, Círculo de Leitores, 2006; Paula Marçal Lourenço, D. Pedro

II, “Reis de Portugal, XXIII”, Lisboa, Círculo de Leitores, 2007; Maria Beatriz Nizza

da Silva, D. João V, “Reis de Portugal, XXIV”, Lisboa, Círculo de Leitores, 2006; e Nuno Gonçalo Monteiro, D. José, “Reis de Portugal, XXV”, Lisboa, Círculo de Leitores, 2006 [2.ª edição, revista, 2008].

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duque de Cadaval dominou a cena política portuguesa de finais do século xvii e inícios do século xviii, posição que manteve nos primeiros anos do reinado de D. João V, constituindo evidentes manifestações da sua preeminência social o casamento celebrado entre uma filha ilegítima de D. Pedro II e um dos filhos do duque e a visível deferência e estima que D. João V continuou a dedicar ao duque velho.

De grande importância para a compreensão do enredo que aqui expomos é o facto de D. Nuno Álvares Pereira de Melo, após ter enviuvado da sua primeira esposa, D. Maria de Faro, filha do conde de Odemira, ter casado sucessivamente com duas princesas francesas: em 1671, contraiu matrimónio com Maria Angélica Henriqueta de Lorena, filha de Francisco de Lorena, 2.º conde de Rieux e príncipe de Harcourt, e da princesa Catarina Henriqueta, filha bastarda de Henrique IV, rei de França; e, em 1675, de novo viúvo, casou com a princesa Margarida Armanda de Lorena, filha de Luís de Lorena, conde de Armagnac e de Harcourt, estribeiro-mor de Luís XIV, e de Catarina de Neuville. Não admira, pois, que na conjuntura crítica finissecular, antes da morte de Carlos II e quando se discutiam na corte de Lis-boa os rumos da política portuguesa, o duque de Cadaval tenha procurado sempre o alinhamento com Luís XIV, que parece ter mantido nos anos seguintes24.

Assim, não é de espantar que o cônsul francês tenha procura-do a Casa de Cadaval para recolher informações ou para se acon-selhar sobre os caminhos a trilhar, para mais quando o duque de Cadaval era tido por favorável a uma aproximação com a França25. Acrescente-se que não era apenas o duque de Cadaval

24 Cf. Portugal, Lisboa e a Corte nos Reinados de D. Pedro II e D. João V, p. 253; Nuno Gonçalo Monteiro, “Identificação da política setecentista. Notas sobre Portugal no início do período joanino”, Análise Social, Lisboa, vol. XXXV (157), 2001, pp. 961-987; Isabel Cluny, “A Diplomacia Portuguesa e a Guerra de Sucessão de Espanha”, in AAVV, O Tratado de Methuen (1703): diplomacia, guerra, política e economia, Lisboa, Livros Horizonte, 2003, pp. 51-69; e Luis Ribot, “Portugal y la sucesión de España a finales del siglo XVII”, in David Martín Marcos (ed.), Monarquías encontradas, ob.

cit., pp. 95-137.

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que era procurado pelos ministros e agentes da coroa francesa. De igual modo, também a duquesa merecia a devida atenção por parte da diplomacia francesa, constituindo um canal de confian-ça e confirmando-se assim a influência e o prestígio da casa de Cadaval, mesmo fora do reino de Portugal26.

Mas, se o duque de Cadaval e outros Grandes eram consider-ados como favoráveis a uma aliança com a França, outras perso-nagens, porém, surgem na documentação consular sob uma luz bem menos positiva, pois configuravam-se como obstáculos aos desígnios da política francesa. Estava nesta situação o Secretário de Estado, Diogo de Mendonça Corte Real, que outras fontes pró-francesas consideravam igualmente ser contrário aos objec-tivos de Luís XIV27. O duque de Cadaval, o marquês de Cascais e também o conde de Montemor, em reuniões do Conselho de Estado, opunham-se à continuação da guerra e a uma tentativa de invasão da Extremadura, lembrando a protecção da França a Espanha, e o primeiro considerava mesmo, de acordo com Duverger, que o voto dos que eram pelo confronto militar –a “ignorância” e a “má intenção” contra a França e a Espanha de ministros da corte portuguesa– resultava dos ganhos que tinham com as despesas da guerra28; em contrapartida, o maior número de nobres e ministros era pela Inglaterra, defendendo o cônsul que o Secretário de Estado era “le Chef de ceux de ce nombre”29. Tal como em anteriores conjunturas, de novo a grande nobreza e os ministros se apresentavam desunidos, sendo visível a existência

Março de 1714, e [119 v], 23 de Julho de 1714, entre outros exemplos.

26 Cf. Guillaume Hanotin, “Femmes et négociations diplomatiques entre France et Espagne au xviiie siècle”, Genre & Histoire [on line], 12-13 | Printemps-Automne 2013, colocado on line a 11 de Janeiro de 2014, consultado a 15 de Abril de 2015 [URL: <http://genrehistoire.revues.org/1855>].

27 Cf. Pietro Francesco Viganego, ob. cit., p. 109, memória de Setembro de 1713. 28 Cf. AN, AE, CC, BI 653, fls. [65]-[65 v], 15 e 19 de Março de 1714. Também o es-pião genovês na corte lisboeta considerava que o duque de Cadaval pai era “inimigo da guerra”. Cf. Pietro Francesco Viganego, ob. cit., p. 108, memória de Setembro de 1713.

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de dois campos opostos, que a historiografia, de um modo geral, classifica como o “partido francês” e o “partido inglês”30.

Presentes no Conselho de Estado, os partidários da paz e os da guerra esgrimiam argumentos, enquanto esperavam pelas últi-mas notícias das cortes europeias e a informação, por vezes já não actualizada, dos diplomatas que, em Utrecht, negociavam a paz. Duverger expõe as hesitações e a desconfiança manifestas que se observavam na corte de D. João V perante as propostas chegadas de Madrid. Em Março de 1714, com base nas informações presta-das pelo duque de Cadaval, o cônsul escrevia para França, afir-mando que existiam novos “embaraços” provocados pela corte espanhola a propósito da paz, mas que tudo devia terminar em breve. Para o duque de Cadaval –neste particular, em sintonia com o pensamento de D. Luís da Cunha–,

“enfin jl falloit donner une Reyne // a l’Espagne pour ajuster tout: jl me rennouuella la dite Conference sur L’union des 3. Couronnes, me disant de nouueau les mêmes paroles de L’autre fois sur le pouuoir formidable au reste de L’Europe de cette tri-ple union qu’jl desiroit si Sincerement. que Les jnstructions que Le Roy de Portugal donneroit a La Princesse sa Soeur si elle alloit pour Reyne d’Espagne seroient faites par le Roy, tant son maitre estoit persuadé des bonnes intentions que Sa Majesté auoit pour le Portugal”.

O cônsul soubera ainda que o Conselho de Estado se reunira para tomar uma resolução relativamente ao atraso da conclusão da paz com Espanha. As respostas chegadas a Utrecht sobre as proposições feitas e aprovadas pelo rei de Portugal e pela rainha de Inglaterra faziam desesperar e alguns conselheiros acredita-vam nas más intenções de Espanha. Era, pois, preciso aproveitar a conjuntura presente –o cônsul usa mesmo esta expressão– na

30 Cf. Nuno Gonçalo Monteiro, ob. cit., pp. 971-976; Isabel Cluny, “A Diplomacia Portuguesa e a Guerra de Sucessão de Espanha”, p. 59.

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medida em que estava “embaraçada” com a questão da Cata-lunha. Havia sido proposta uma invasão da Extremadura, con-siderando-se que, desde a morte da rainha, a situação não estava tranquila em Madrid e que tal demonstração de força obrigaria Filipe V a responder positivamente à proposta de paz. Conforme referimos, o duque de Cadaval, o marquês de Cascais e o conde de Montemor foram de opinião contrária, recordando o apoio político e militar da França a Espanha31. Esta clivagem adensava a atmosfera tensa que caracterizava as negociações entre as cortes joanina e bourbónica e um tal clima não escapou ao olhar atento de um observador coevo, o memorialista José Soares da Silva, que, nos seus apontamentos, e a propósito do envio de Pedro Mascarenhas para o Alentejo, afirmou “que parece se quer publi-car a paz com as armas na mão”32. E, de facto, na corte portugue-sa, era voz corrente, naquele início de ano, que não haveria paz com a Espanha33.

Em Abril, porém, chegou um correio de Utrecht com cartas para D. João V, mas, como o monarca estava ausente de Lisboa, passaram-se alguns dias sem se saber o seu conteúdo34. Tratava-se dos novos projectos de paz com a Espanha em relação aos quais o senhor de Villars35 e o príncipe Eugénio tinham trabalhado em Rastatt. Como os Portugueses não viam qualquer vantagem nos projectos, e eles concordavam, estavam aqui as proposições: os Portugueses devolveriam aos Espanhóis as praças que lhes tinham

31 Cf. AN, AE, CC, BI 653, fls. [59]-[62 v] e [63]-[69], 12, 15 e 19 de Março de 1714,

maxime fls. [61 v]-[62], [64 v] e [65].

32 Cf. Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), Fundo Geral, cod. 512, fl. 244. 33 “Volta-se a dizer aqui, mais que nunca, que não haverá paz com a Espanha. É voz corrente no palácio e na Secretaria de Estado.” Cf. Pietro Francesco Viganego, ob.

cit., pp. 162-163, maxime p. 162, ofício de 6 de Fevereiro de 1714.

34 D. João V estava em Tomar. Cf. Portugal, Lisboa e a Corte nos Reinados de D. Pedro

II e D. João V, pp. 247-248; Pietro Francesco Viganego, ob. cit., pp. 179-180, ofício

de 24 de Abril de 1714.

35 Claude-Louis-Hector, duque de Villars (1653-1734), militar francês, o mais bem-sucedido dos comandantes de Luís XIV durante a Guerra de Sucessão de Es-panha e que concluiu o Tratado de Rastatt com o príncipe Eugénio de Sabóia. Cf. <http://www.britannica.com/EBchecked/topic/629171/Claude-Louis-Hector-duke-de-Villars>.

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conquistado, devolvendo no Rio da Prata a praça de São Gabriel, e, no Maranhão, um forte — “un certain fort” — aos Franceses; quanto ao dinheiro dos navios de Buenos Aires retidos no Rio de Janeiro, bem como os do Algarve, serviria de compensação por todas as perdas sentidas no caso do asiento dos negros no início do conflito36.

Na tarde de 4 de Maio, D. João V regressou da sua viagem “en fort bonne Santé” e imediatamente Duverger cuidou de saber qual o ponto da situação no tocante às negociações entre as cortes ibéricas. O correio que trouxera as novas proposições de paz entre Portugal e Espanha ainda não saíra e continuava-se a afirmar que as propostas eram favoráveis aos Portugueses. Porém, o pouco tempo que passara desde o regresso do rei à corte não permitiu ao cônsul saber mais pormenores desta matéria. Entretanto, prepa-rava-se a partida do conde da Ribeira Grande, D. Luís Manuel da Câmara, para França, a qual estava já atrasada, parecendo seguro que a demora se devia ao facto de não haver dinheiro para lhe dar para os custos da viagem e da sua embaixada37. Cumprindo zelosamente as suas funções, Duverger visitou por diversas vezes o conde da Ribeira Grande, tendo com o titular várias conversas nos oito dias anteriores à sua partida, em finais de Maio de 1714. O cônsul estava convencido que o conde tinha sido “catequiza-do” –a expressão é esta– pelo Sr. de Mendonça [Corte Real]. Es-forçou-se, por isso –pelo menos, foi o que afirmou–, para que o conde não fosse com juízos a priori,

“parce qu’jl reconnoitroit que Le Systeme de Politique entre La France et Le Portugal estoit beaucoup plus simples qu’on ne luy faisoit: ce Sont Les dernieres parolles que je luy dis J’ay aussy eu Lhonneur de Saluer Madame La Comtesse sa femme 36 Cf. AN, AE, CC, BI 653, fls. [88]-[92 v], 30 de Abril de 1714. Sobre estas questões e o seu papel nas relações entre Portugal e Espanha, ver também José Damião Ro-drigues, “Os horizontes bourbónicos do reinado de D. João V”, in David Martín Marcos (ed.), Monarquías encontradas, ob. cit., pp. 177-204, maxime pp. 192-194. 37 Cf. AN, AE, CC, BI 653, fls. [95]-[97], 7 de Maio de 1714.

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qui est une Dame qui asseurement plaira a La Cour, et ce n’est pas une petite resolution que de s’exposer dans L’Esté a un voy-age si Long.”38

As notícias relativas aos acordos de paz e à situação da Catalunha continuavam a chegar à corte portuguesa e a influenciar a leitura das propostas em confronto. Barcelona caiu a 11 de Setembro de 1714 e quando, por fim, foi anunciada em Lisboa a tomada da cidade catalã pelas forças bourbónicas, muitos recusaram-se a acreditar, o que sucedeu com quase todos os Ingleses39. Após a queda de Barcelona, e ecoando provavelmente receios e rumores que circulariam por Lisboa, José Soares da Silva não hesitou em comparar o medo que existia no reino face ao poderio das armas de Filipe V com o que se passara mais de um século antes, ao tempo do cardeal-rei D. Henrique40. No final desse ano, notí-cias recebidas de Londres não agradaram à corte portuguesa, pois davam conta de queixas públicas contra o governo41. Em carta de 17 de Dezembro, muito encriptada, Duverger dava conta dos rumores sobre conflitos em Inglaterra entre a Igreja anglicana e outros grupos protestantes, referindo os problemas que tal situ-ação podia acarretar para os interesses portugueses e a possível proximidade da paz42. Esta situação era resultante da morte da rainha Ana e da mudança dinástica que se operara na monarquia britânica:

“as part of the paranoid sensibility of the period in Britain, there was suspicion that at least some Tories were opposed to the succession to the childless Anne by the Protestant Hanove-rian line, an outcome laid down in the 1701 Act of Succession, 38 Idem, fls. [107]-[110], 28 de Maio de 1714, maxime fl. [110].

39 Idem, fls. [119]-[122], 23 de Julho de 1714, maxime fl. [119 v], e [149]-[151 v], 1 de Outubro de 1714, maxime fls. [151]-[151 v].

40 Cf. BNP, Fundo Geral, cod. 512, fl. 256.

41 Idem, fls. [192]-[195], 10 de Dezembro de 1714, maxime fl. [194]. As notícias eram relativas a 13 de Novembro.

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legislation that excluded Catholics with better hereditary claims.”43

Mas este era também um problema geopolítico, pois prendia-se com a participação da nova dinastia de Hanover nas dinâmicas do Báltico.

O prolongamento da tensão política e confessional em In-glaterra ressurge em outra missiva, já em Janeiro de 1715, na qual o cônsul se refere à chegada de um paquebote com notícias de Londres, datadas de 28 de Dezembro. Confirmavam-se as notí-cias sobre a agitação em Inglaterra, mas parecia que Stanhope iria conseguir envolver o imperador numa nova liga e, por con-seguinte, numa nova guerra. Na corte portuguesa, esta notícia esteve na base da tomada de decisão por parte do Conselho de Estado, em reunião que teve lugar a 4 de Janeiro, de não acelerar a questão da paz com a Espanha, o que levou o cônsul a tecer alguns considerandos sobre as razões que explicavam a lentidão dos procedimentos dos Portugueses na matéria44. Enfim, como escreveu a 4 de Fevereiro de 1715, Duverger esperava que os Por-tugueses tivessem pela paz a mesma inclinação que o rei de Ingla-terra e a dificuldade de enfrentar uma nova guerra, pois a viagem de Stanhope fora infrutífera45.

Foi em começos de 1715 que entrou discretamente em cena na corte de Lisboa outra personagem ao serviço dos Bourbon. Falamos do filho –Philibert Orry (1689-1747)– do todo-poderoso Jean Orry, financeiro que Luís XIV enviara para Espanha como conselheiro de Filipe V, servindo depois como vedor geral, e que, em finais de Outubro de 1713, redigiu mesmo um projecto relati-vo às negociações de paz entre as coroas ibéricas, contemplando a cedência da Colónia do Sacramento a Portugal46. Por finais de

43 Cf. Jeremy Black, Politics and foreign policy in the age of George I, 1714-1727, Far-nham-Burlington, VT, Ashgate, 2014, p. 4.

44 Cf. AN, AE, CC, BI 653, fls. [214]-[216], 7 de Janeiro de 1715, maxime fls. [215]-[215 v].

45 Idem, fls. [234]-[237 v], 4 de Fevereiro de 1715, maxime fl. [235].

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Janeiro ou inícios de Fevereiro, chegou a Lisboa, sob disfarce –afir-mava ser um oficial francês– e na qualidade de enviado, trazendo para o embaixador francês poderes do rei de Espanha para tratar da paz47.

Conforme fazia notar Duverger, poderiam existir desconfi-anças por parte de Diogo de Mendonça Corte Real acerca da identidade do jovem, mas ainda não havia resposta48. A recepção foi positiva. Sobre os poderes do filho do Sr. Orry e a resposta do marquês de Fronteira, de 6 de Fevereiro, Duverger informou que “le Roy de Portugal acceptoit auec plaisir cette occasion de traitter de La Paix , et Luy en auoit aussy passé Les pouuoirs”. Entretanto, na manhã de 10 de Fevereiro, chegou um correio despachado de Paris pelo conde da Ribeira Grande com a notícia de que os arti-gos da paz tinham sido regulados entre Chateauneuf e o conde de Tarouca, embora ainda não fossem do conhecimento público. A importância desta matéria logo se fez sentir na corte, pois, no dia seguinte, 11 de Fevereiro, depois do meio-dia, houve uma reunião do Conselho de Estado, acreditando o cônsul que nela se tratara do conteúdo das cartas do conde da Ribeira Grande49. Após a chegada das notícias da paz com Espanha, Duverger confessou que nada havia a acrescentar quanto a essa questão. Constatava que a alegria era grande, em geral, e sobretudo entre o povo.

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47 A crer nas palavras do cônsul francês, não se trataria, por parte de Filipe V, de “romper o cerco montado pelas duas principais potências”, conforme defendeu Isa-bel Cluny, mas de buscar apoio na diplomacia francesa para concluir as negociações, que se arrastavam. Cf. Isabel Cluny, O Conde de Tarouca e a Diplomacia na Época

Moderna, p. 315.

48 Cf. AN, AE, CC, BI 653, fls. [234]-[237 v], 4 de Fevereiro de 1715, maxime fls. [235 v]-[236]; Visconde de Santarém, Quadro Elementar das Relações Politicas e

Diploma-ticas de Portugal com as Diversas Potencias do Mundo, desde o Principio da Monarchia Portugueza até aos nossos dias, […], Tomo Quinto, Paris, em casa de J. P. Aillaud,

1845, pp. 119-120, ofício do embaixador francês, de 27 de Janeiro de 1715.

49 Cf. AN, AE, CC, BI 653, fls. [240]-[243], 11 de Fevereiro de 1715; Portugal, Lisboa

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Por esses dias, o cônsul acompanhou o jovem Orry, que contava partir dentro de dois ou três dias, para ver a rainha e a Infanta, que saíam50. Quanto à tramitação da paz, “feitas as ratificações e trocados os tratados”, far-se-ia a publicação da mesma51.

Estas foram das últimas actividades que Pierre-Antoine Du-verger desenvolveu antes de recusar o consulado de Cádis e pedir para abandonar o cargo que servira com tanto empenho. As in-formações recolhidas graças à sua rede relacional testemunham o grau de confiança e até de intimidade que manteve com algumas figuras dominantes da geografia cortesã portuguesa. Não obstan-te, foi, em Portugal, o último representante dos cônsules com raízes e experiência vivencial nos respectivos espaços de actuação.

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50 Cf. AN, AE, CC, BI 653, fls. [246]-[250], 18 de Fevereiro de 1715, maxime fls. [249]-[249 v]. José Soares da Silva refere que, após serem apregoadas as pazes entre Portugal e Espanha, foram ordenadas luminárias e três dias de touros reais, não hav-endo a certeza se teria lugar uma procissão. Cf. BNP, Fundo Geral, cod. 512, fl. 278 v. 51 Cf. BNP, Fundo Geral, cod. 512, fl. 265.

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