JOSÉ MARIJESO DE ALENCAR BENEVIDES RUBENS DE AZEVEDO JOSÉ DENIZARD MACEDO DE ALCÂNTARA D. PEDRO II PATRONO DA ASTRO NO M IA BRASILEIRA

Texto

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JOSÉ M A R IJESO DE A L E N C A R B E N E V ID E S R U B E N S DE A Z E V E D O

JOSÉ D E N I Z A R D M A C E D O DE A L C Â N T A R A

D. PEDRO II

P A T R O N O D A A S T R O N O M I A B R A S I L E I R A

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H o m e n a g e m dos A u to re s

ò s.

Nelson A lb e rto Soare9 Travnik

u r A n i a

Aoeworla Técnica, Pedagógica

• Instrumental em Astronomia

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P a tr o n o d a A s t r o n o m ia B r a s ile ira

m a r ije s o b e n e v id e s

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José MARIJESO de Alencar BENEVIDES •— Nasceu em Iguatu, Ceará. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Pro­

fessor do Instituto Nacional de Educação de Surdos, do Rio de Janeiro (1947-1959). Diretor Escolar do Instituto Cearense de Educação de Surdos (1961). Pertenceu à Ordem dos Advo­

gados do Brasil, Seção do Rio de Janeiro. Foi Juiz Substituto das Comarcas de Ubajara e Jaguaruana e Juiz de Direito das Comarcas de Pacoti, Camocim, Baturité e Fortaleza. Respon­

deu pelos serviços judiciários das Comarcas de Ibiapina, Gran­

ja e Aracoiaba. Orador da Associação Cearense de Magistrados (1968-1975). Secretário da Comissão de Aperfeiçoamento do Poder Judiciário, no I Congresso Brasileiro de Magistrados (Vitória — ES — 1973). Participou de outros Congressos de Magistrados, realizados nesta e em outras capitais e cidades do Brasil. Delegado do L. C. de Fortaleza Clóvis Beviláqua às Convenções Internacionais de Lions Clubes, ocorridas em Miami — Flórida (1973) e Honolulu — Hawaii (1976), nos Es­

tados Unidos da América. Conhece vários países do globo e to­

dos os Estados do Brasil e mais de novecentos cidades deste país. Realizou centenas de conferências ou palestras em Fa­

culdades de Direito, Ciências Econômicas, Contábeis e Atu­

ariais, Escolas Técnicas de Comércio e outros estabelecimentos de ensino e, ainda, em associações culturais e clubes de ser­

viços desta e demais Unidades da Federação. É autor de inú­

meras obras, entre as quais se destacam “ Os Novos Territó­

rios Federais — Amapá, Rio Branco, Guaporé, Ponta-Porã e Iguaçu — Geografia — História — Legislação” (voto de lou­

vor do I .B .G .E .), “Manual do Processo Civil e Comercial”

(4 edições), Ensino Emendativo para Surdos” (11 Congresso Brasileiro de Municípios — S. Vicente — SP), “ O Problema Educacional da Surdo-Mudez à Luz da Estatística e da Peda­

gogia Especializada” , “ Mapa Judiciário do Estado do Ceará” ,

“ Mapa Eleitoral do Ceará — Zonas, Comarcas, Termos e Dis­

tritos” , com população e área dos mesmos. É Diretor de Rela­

ções Públicas da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astrono­

mia.

JOSÉ MARIJESO DE ALENCAR BENEVIDES Rua Silva Paulet, 2.700 — Fone: 227-1621 60000 — Fortaleza — Ceará — Brasil

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Acreditamos ser do interesse geral dos astrônomos bra­

sileiros a publicação deste trabalho — Moção apresentada no II ENCONTRO DE ASTRONOMIA DO NORDESTE, propon­

do seja dado ao Imperador D . Pedro II o título de PATRONO DA ASTRONOMIA BRASILEIRA.

O Dr. José Marijeso de Alencar Benevides é jurista dos mais respeitados, escritor e polígrafo, além de geógrafo e as­

trônomo amador. É Diretor de Relações Públicas da Socieda­

de Brasileira dos Amigos da Astronomia e um dos elementos mais ativos.

O trabalho justifica, de forma plena, a Moção, a qual foi aprovada por unanimidade pelos presentes ao II Encontro.

Rubens de Azevedo — Presidente

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Longe se distancia de nós, que vivemos neste último quar­

tel do século X X , o tempo em que sábios ou filósofos procura­

vam determinar o elemento formador de todas as coisas, a matéria-prima de que eram compostos todos os seres e coisas do Universo.

Para Tales de Mileto era a água, para Anaximandro era uma substância indefinida, o “ apeiron", de quantidade infini­

ta e qualidade indeterminada; para Anaximenes, era o ar, que, graças a um processo de rarefação, originara o fogo e, depois, por condensação, a água, a terra, a rocha e os seres vivos. Para Heráclito, era o fogo, que se move constantemen­

te, transformando-se em água e, depois, em terra e vice-versa.

Empédocles, procurando conciliar essas esdrúxulas doutrinas, surge com a teoria dos quatro elementos, dizendo que todos os seres são formados de água, ar, terra e fogo. Anaxágoras, mesmo admitindo uma substância primitiva, “ agregados de partículas mínimas de todos as substancias existentes” , de­

fende a existência de uma inteligência ordenadora da harmo­

nia do universo, “simples, imaterial, independente, única e indefinida, causa eficiente do movimento e da ordem cósmi­

ca” . Por esta razão, como disse Leonel Franca, o grande Aris­

tóteles afirmou que Anaxágoras, “ comparado com os que o precederam, aparece como um sóbrio falando entre ébrios que devaneiam” .

É que, para os filósofos da chamada Escola Pressocrática, o Universo era estático, ou melhor, a nossa Terra era parada e tudo girava em torno dela: o Sol, os planetas, o céu das es­

trelas fixas.

Longo o caminho que teríamos de percorrer desde o tem­

po em que o homem não admitia a esfericidade da Terra ou que esta girasse em torno do Sol e de si mesma até o século atual, quando a Astronomia dilatou as fronteiras do Univer-

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õ so, descobrindo, graças a poderosos telescópios ou gigantes­

cos radio telescópios de até 1 km de diâmetro, corpos que se encontram a milhões de anos-luz do nosso planeta.

Embora descobertas arqueológicas autorizem a se afir­

mar que a Astronomia é a mais antiga das ciências, conforme provas de observações astronômicas entre os chamados povos pre-históricos, durante muitos séculos ela se confundiu com a astrologia, como a História com a lenda ou a mitologia, quan­

do diferentes nos seus objetivos e nas suas finalidades. A As­

tronomia é a ciência que estuda os astros, situando-os no es­

paço e no tempo, explicando os seus movimentos e as suas ori­

gens, descobrindo a sua natureza e as suas características, a astrologia, desprovida de base científica, procura provar que os astros influenciam no curso dos acontecimentos e no desti­

no dos homens.

Grande foi a luta de verdadeiros astrônomos para rom­

per, desassombradamente, com a chamada “ ciência oficial”

ou com crendices religiosas, para as quais a Terra era o cen­

tro do universo, pois o homem era a mais perfeita obra de Deus. Mas a Astronomia cresceu, mesmo no fim da Idade Mé­

dia, quando os homens acreditavam ter chegado o fim do Mun­

do. Depois da criação da Escola de Sagres, pelo Infante D.

Henrique, cosmógrafo e navegador, já se admitia a esfericida- de da Terra, defendida, aliás, pelo monge Sacrobosco. Certo de que a Terra não era chata como uma bolacha, porém es­

férica, Cristóvão Colombo pensou que poderia atingir as índias pelo Ocidente. Após dois meses de viagem, enfrentan­

do perigos e incertezas, descobriu um novo mundo. No mes­

mo século, nascia Nicolau Copémico, o monge polonês que re­

volucionou a ciência da época, recolocando o Sol como cen­

tro do Sistema planetário. O dinamarquês Tycho Brahe, anos depois, elabora as tábuas planetárias de valor prático para a navegação e de importância para o decisivo desenvolvimento da Astronomia. E o seu discipulo, o alemão João Kepler ar­

quitetou as três mais importantes leis da Astronomia: a Lei das órbitas, a Lei das Áreas e a Lei dos Tempos, que repre­

sentam o seu esforço de explicar os porquês do movimento planetário. Na Itália, Galileu Galilei cria a ciência experi-

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mental, introduz a noção de momento de força na estática;

descobre a Lei da Queda dos Corpos e estabelce um dos prin­

cípios fundamentais da Dinâmica — a Inércia. Foi ele o des­

cobridor do isocronismo do pêndulo. A partir de 1609, dedi-, cou-se inteiragiejite à Física e à Astronomia. Construiu o pri- meiro teíescopioedes vendou o panorama do céu antes nunca vIsíumBrado. Espírito prático e objetivo, foi o primeiro ho- rnem a realizar experiências práticas, como, por exemplo, pe­

sar o ar atmosférico. Com o seu telescópio, Galileu descobriu planícies e crateras na Lua, os quatro maiores satélites de Jú­

piter, as “manchas” do Sol, as fases de Vênus.

Isaac Newton, que nasceu na Inglaterra no mesmo ano em que faleceu Galilei (1642), inaugura a Astronomia moder­

na. Completando os trabalhos de Kèpler e Galileu, lança as três leis fundamentais do movimento: Lei da Inércia, Lei d a_ _ Força e Lei da Reação. Inventou o telescópio refletor, que abriu novos horizontes para o estudo do céu. O genial matemá- ú tico alemão, Carlos Frederico Gauss, um século mais tarde, de­

senvolve pesquisas de mecânica celeste, no Observatório de

— Gottingen, estuda a teoria dos números, idealiza método de mínimos quadrados, amplia os conhecimentos de óptica, ele­

tricidade e magnetismo.

Com o aparecimento de novos instrumentos de grande precisão, geômetras e matemáticos, nos séculos XVIII e X IX , puderam, não só organizar novas tábuas lunares como for­

mular novas teorias, notadamente sobre o nosso satélite, como Clairaut, D’Alembert, Laplace, Poisson, Euler, Delaunay e Tisserand.

Grandes observatórios astronômicos foram instalados na Inglaterra, na França, na Alemanha e outros países. Assim, Bradley conseguiu descobrir a aberração da luz e Edmundo * Halley precisar a periodicidade dos cometas, entre os quais o que recebeu o seu nome. Guilherme Herschell, na noite de 15 de março de 1781, descobre Urano, o francês Leverrier e o in­

glês J. C. Adams descobrem independentemente Netuno em 1847, LojkêU e Clyde Tombaugh descobrem em março de 1930

" o^planeftTPlutão, último baluarte do poderio solar, dilatan- 11

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do, assim, as fronteiras do sistema solar para 7 bilhões de quilômetros.

f A ciência que o imortal Camilo Flammarion popularizou / / através de suas obras, como “Astronomia Popular” , começou / no Brasil pelo Nordeste, por Pernambuco, com a instalação do

primeiro observatório artronômico por Jorge Marcgrave, numa das torres do Palácio de Friburgo, residência do grande Maurício de Nassau. Marcgrave construiu um catálogo este­

lar do hemisfério celeste austral, determinou as longitudes para auxílio à navegação e compôs tábuas planetárias, e, ain­

da, fez observações de eclipse, no rio Potengi, no Rio Grande do Norte.

Deixemos Halley e Complet, com as suas viagens ao nos­

so País, para verificações magnéticas, deixemos La Condami- ne, com o seu propósito de medir o arco do meridiano, deixe­

mos o Tratado de Madrid, com seus astrônomos espanhóis f j demarcando terras ou determinando coordenadas. Vamos ao Brasil de D. João VI, criando a Academia Real Militar, que possibilitou a formação de astrônomos brasileiros e, muito mais tarde, já no Império, a instalação do Imperial Observa­

tório do Rio de Janeiro, ao qual D. Pedro II dedicou especial carinho, ampliando os seus conhecimentos de astrônomo ama­

dor. Quatro sábios europeus — três franceses e um belga e cinco astrônomos brasileiros dirigiram esse Observatório, cuja folha de serviços prestados ao Brasil é imensurável. Desde o levantamento magnético da bacia do São Francisco ao estudo sistemático das marés; desde os estudos de variação de lati­

tude, de magnetismo terrestre e das flutuações anuais do pla­

neta à adoção, no Brasil, do sistema da Hora Legal e dos Fu­

sos Horários; desde os trabalhos de mecânica celeste sobre os movimentos dos planetóides às observações de cometas, ecli­

pses etc.

Muitos observatórios existem hoje, no Brasil, mas, ainda, em número pequeno, se comparado com o de outros países, alguns deles menores e menos populosos que o nosso.

O Dr. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Doutor pela famosa Universidade de Sorbone e astrônomo-chefe do Obser- 12

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vatório Nacional, antigo Imperial Observatório, sob a epígrafe

“ O Olhar Real em Direção aos Céus” ., destaca a figura inol- vidável do nosso grande Imperador, D. Pedro II, que, por to­

dos os títulos, deve merecer sempre o reconhecimento daque­

les que, no Brasil ou no mundo, se dedicam ao estudo da Rai­

nha das Ciências.

Mantendo contato pessoal ou epistolar com os maiores ci- f entistas e literatos da Velha Europa, inclusive com Camilo I Flammarion, Pedro II ampliou seus conhecimentos no cam­

po da cultura, tornando-se sábio e astrônomo. George Rae- ders, no seu livro “ Pedro II e os Sábios Franceses”, reproduz copiosa correspondência do nosso Imperador com Victor Hugo, Lamartine, Pasteur, Renan, Denis, George Sand, Mas- pero e Prudhome. No primeiro capítulo do livro, afirma que

“ Pedro II, Imperador do Brasil, foi, durante toda sua vida, o protetor esclarecido das letras, das artes e das ciências” . E faz o epílogo da obra o discurso que Daubrée pronunciou, em nome da Academia de França, em memória de D. Pedro de Alcântara.

Leiamos esse discurso, que bem traduz a admiração do mundo intelectual francês e europeu ao sábio brasileiro:

Discurso de Daubrée, em nome do Instituto de França em memória de D. Pedro de Alcântara

“ Senhores. No meio da dor que se faz tão cruelmente sentir na Europa como no Brasil, a Academia de Ciências sente-se particularmente ferida pela perda do ilustre consócio que ela cercava de respeito e afeição unânime. Há 15 anos concedemos a D. Pedro de Alcântara, já correspondente es­

trangeiro, nomeando-o um dos nossos oito associados. Quise­

mos, assim, reconhecer os grandes serviços que as ciências de­

viam ao Imperador do Brasil.

É que ele, dando o primeiro lugar aos deveres que lhe im­

punha o governo dos seus Estados e consagrando-se aos pro­

gressos e à felicidade do seu povo, com a solicitude que ne­

nhum outro soberano mostrou, D. Pedro tinha tempo para cultivar os principais conhecimentos humanos.

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A Astronomia, as ciências matemáticas e físicas, as suas surpreendentes aplicações e as que o futuro podia prever, atraíram a todo momento a sua atenção. Nas ciências natu­

rais, a botânica lhe era peculiar.

Não era menos versado na história e nas grandes litera­

turas pelos seus conhecimentos das principais línguas da an­

tiguidade e dos tempos modernos.

Como não acrescentar que as artes tinham nele delicado apreciador? Esta espécie de universalidade se explica não somente por uma prodigiosa memória, como mais ainda por uma infatigável atividade de trabalho, que nos últimos tem­

pos talvez contribuísse para enfraquecer a vigorosa constitui­

ção do nosso augusto associado, enfim, pelas raras faculda­

des de espírito que refletiam na sua nobre fisionomia e no seu olhar penetrante.

D. Pedro não era somente penetrante ávido de toda a espécie de saber para si próprio. Ao mesmo tempo que es­

palhava a instrução entre os deserdados, organizava escolas especiais, entre outras a Politécnica, no Rio, e mais recente­

mente a de Minas, em Ouro Preto.

Animava as viagens de explorações e as pesquisas nas re­

giões do seu vasto Império. Fundou bibliotecas, museus, assim como observatórios astronômicos e meteorológicos, que dotava de instrumentos de primeira ordem. Era além disso dos seus recursos pessoais que o Imperador tirava o necessá­

rio para esses institutos, destinados a espalhar em um país novo uma luz benéfica. Não se pode esquecer com que pronti­

dão e solicitude D. Pedro, sempre ávido de progresso com que pudesse ser útil aos seus súditos, criou no Rio um instituto para aplicação dos métodos de Pasteur. É difícil crer que uma tal generosidade para com o seu país não diminuísse depois que o Imperador foi exilado: mas o donativo de sua magnífi­

ca biblioteca e de sua preciosa coleção mineralógica é disto uma prova irrecusável.

Para esse soberano, a primeira soberania era da inteli­

gência . Assim, o brilho da dignidade imperial não impedia de 14

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dar o mais alto apreço às homenagens espontâneas que lhe prestava a Academia. Quando por diversas vezes visitou a Eu­

ropa, para ilustrar-se, com o o fizera nos Estados Unidos, no interesse do seu Império, não menos que para satisfação do seu espírito, nos diferentes trabalhos realizados no domínio das ciências, das letras e das artes, ele mostrou-se sempre fe­

liz de vir sentar-se entre n ó s .

Esta felicidade D. Pedro a experimentava, sobretudo depois que foi obrigado a abandonar o país ao qual o prendia o patriotismo mais ardente e mais magnânimo. Era efetiva­

mente a França, onde ele encontrava por toda parte a afeição que tanto merecia, era a França que ele tinha escolhido como segunda pátria, e em França estavam as sessões da Academia de Ciências e nossas publicações que constituíam suas mais queridas ocupações. Sua correspondência, assim como suas conferências e as notas de que ele enchia as páginas dos nos­

sos relatórios atestam a judiciosa atenção com que ele acom­

panhava os nossos trabalhos.

As alegrias do pensamento e a contemplação dos grandes fenômenos da Natureza foram a consolação desse nobre Im­

perador na adversidade e nas dores físicas, novo exemplo do alívio que podem levar aos mais cruéis pesares as coisas do es­

pírito!

Bem recentemente, na última sessão anual da Academia Francesa, depois da Academia de Ciências nós vimos D. Pe­

dro, dominando a enfermidade, vir ter conosco, desejoso de entreter-se com os seus colegas, que por sua parte maravilha­

vam-se da sua erudição e da sua competência nos mais dife- i’entes assuntos.

No entanto, quaisquer que fossem a extensão e força dessa bela inteligência, o que mais devemos admirar nessa nobre personalidade que nos foi arrebatada é a suprema bondade, essa benevolente simplicidade, essa resignação serena no meio dos revezes inesperados e imerecidos da fortuna, essa genero­

sidade constante, diante das ingratidões e traições, em uma palavra, essa grandeza de alma que nunca melhor resplan­

deceu que nas dores do exílio.

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O nome deste servidor devotado da Humanidade ficará gravado na História: ele viverá também na memória do Ins­

tituto de França” .

Reconhecendo que D. Pedro II pode ser considerado como o fundador do Observatório Nacional, hoje sesquicente- nário, vez que seu gosto pela Astronomia foi cultivado por toda a sua vida, a Sociedade Brasileira dos Amigos da Astro­

nomia vem propor seja dado ao saudoso e imortal Imperador D. Pedro II o título de “ PATRONO DA ASTRONOMIA BRA­

SILEIRA” .

O Plenário resolveu, por unanimidade de votos, aprovar a moção, aplaudindo de pé o apresentador — Dr. José Mari- jeso de Alencar Benevides, Diretor de Relações Públicas da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia.

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D . P e d r o II e a A s t r o n o m ia

RUBENS DE AZEVEDO

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RUBENS DE AZEVEDO

Nascido em Fortaleza. Licenciado em Geografia e Histó­

ria em 1952. É autor de: Uma Viagem Sideral (Fortaleza, 1949); Selene — A Lua ao Alcance de Todos (S. Paulo, 1959); Lua, Degrau para o Infinito ( S . Paulo, 1962); A Ban­

deira Nacional (S . Pavio, 1967); Na Era da Astronáutica (S . Pavio, 1970/78); No Mundo da Estelândia (S. Pavio, . . . . 1973/78). Colaborou em: Pequeno Atlas Geográfico Melho­

ramentos, Atlas Geográfico Melhoramentos; Novo Dicionário Brasileiro Melhoramentos; A Geologia Aplicada à Selenologia ( “ in” Revista da Escola de Minas, Ouro Preto, MG, vol. 21, n.°

6). Discussão Sobre a Origem dos Acidentes Lunares — I Sim­

pósio Internacional de Astronáutica, (S. Paulo, 1959); El Di- bujo Aplicado a la Observación Planetária — IV Convenção da Liga Latino-Americana de Astronomia (Buenos Aires, 1951); Astronomia e Evolução Social (Sousa, PB, no I Encon­

tro Nacional de Astronomia); O Desenho Como Instrumento da Observação Lunar e Planetária (1977, Recife, PE, no II Encontro de Astronomia do Nordeste).

Ex-Presidente da União Brasileira de Astronomia (UBA);

Presidente da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia (Fortaleza).

Professor de Geografia e História. Coordenador do De­

partamento de Geociências da Universidade Estadual do Ceará.

RUBENS DE AZEVEDO Rua Solon Pinheiro, 1580 Fone: 226-1080

60000 — FORTALEZA — Ceará — Brasil

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O Imperador do Brasil, Dom Pedro II (1825-1891), foi um intelectual por excelência. Se não fosse Imperador — ele mesmo o dizia — teria sido professor. Desde criança seu inte­

resse foi despertado no sentido de aprender. Tudo ^interes­

sava: literatura, arte, história, arqueologia, lingüística, bo­

tânica e, sobretudo, astronomia. De onde lhe veio esse pro­

fundo interesse que sobrepujava os demais?

Acredita-se que as primeiras noções de astronomia fo­

ram incutidas no jovem Imperador pelo litógrafo e artista francês Louis Alexis Boulanger (1798-1874), escolhido por José Bonifácio para orientar o soberano em escrita e geogra­

fia. Boulanger transferira residência para o Rio de Janeiro em 1829, quando inaugurou, com Carlos Risso, na Rua da Ajuda, uma litografia cuja vida foi efêmera. Risso viajou para o Uruguai, e Boulanger, convidado para ser preceptor dos fi­

lhos de D. Pedro I, resolveu liquidar o negócio. Foi ele o prin­

cipal professor de D. Pedro II, como afirma Pedro Calmon.

Outro professor que orientou o jovem para a astronomia deve ter sido Frei Pedro de Santa Mariana, carmelita nascido no Recife e falecido no Rio de Janeiro, em 1864. Esse religioso cursou, em Lisboa, a Academia Real de Marinha, onde apren­

deu astronomia, conhecimento que transmitiu, posteriormen­

te, ao jovem Dom Pedro. Segundo nos informa Ronaldo Ro­

gério de Freitas Mourão, deve-se a Frei de Santa Mariana a primeira pesquisa matemática publicada no Brasil, em 1824, com o título de “ Memória sobre a identidade dos produtos que resultam dos mesmos factores diversamente multiplicados en­

tre si” . Lecionou Matemática na Escola Militar do Rio de Ja­

neiro e, em 1841, foi indicado para bispo de Crisópolis, Bahia.

Em 28 de julho de 1846, Victor Hugo escreveu em “ Cho- ses Vues” , sobre D . Pedro I I : “ O Imperador reinante no Bra­

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sil é um jovem de 22 anos, delicado, simples e tranqüilo. Fala bem o francês. Conhece também o inglês, o italiano e o ale­

mão . Possui muito interesse pela astronomia, que lhe foi ensi­

nada por um professor francês” .

A astronomia, segundo Mourão, foi uma ponte que uniu três grandes homens: Victor Hugo, Camille Flammarion e Dom Pedro II. O Imperador correspondia-se com esses dois pináculos da cultura francesa e mundial.

O Imperial Observatório do Brasil foi criado por decre­

to datado de 15 de outubro de 1827, mas só começou realmen­

te a funcionar a partir de 1845, quando Jerônimo Francisco Coelho, então Ministro da Guerra do Império, resolveu iniciar os trabalhos, mandando construir o torreão da Academia Mi­

litar destinado ao Observatório e nomeando Saulier de Sauve, lente da Academia Militar, para cuidar de sua organização.

Em 1846, através do decreto de 22 de julho, D. Pedro II deu forma ao Observatório, que teve o seu nome definitivamente escolhido: Imperial Observatório do Rio de Janeiro. O Im­

perador cedeu seus próprios instrumentos que utüizava em seu observatório particular, da Quinta da Boa Vista, para que o Observatório iniciasse os seus trabalhos. Empenhou-se, além disso, na aquisição de-novos instrumentos solicitados por Saulier de Sauve. A este astrônomo sucedeu Antônio Manuel de Melo, em cuja administração já se encontra o Observatório dotado de completo instrumental. Dessa época, podemos des­

tacar, pela sua importância, a observação de dois eclipses, o de 1858 e o de 1865. No primeiro, foi utilizada pela primeira vez em todo o mundo a fotografia para fins astrométricos.

Durante os trabalhos do segundo fenômeno, cuja faixa de to­

talidade passava sobre Camburiú, Santa Catarina, uma co­

mitiva foi deslocada para aquela região. O mau tempo, po­

rém, prejudicou as observações ali. No Rio de Janeiro, fica­

ram D. Pedro e o Barão de Prados, os quais puderam deter­

minar o primeiro contacto inferior e observar algumas ca­

racterísticas das quais Emmanuel Liais tirou uma confirma­

ção da existência de uma terceira atmosfera solar. Liais, grande astrônomo Francês, que trabalhara no Observatório de Paris ao lado de Leverrier e Faye, conta o fato em seu livro 22

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“ L’Espace Céleste” , onde faz elogios ao trabalho e dedicação de D . Pedro à astronomia.

Em 1870, Emmanuel Liais, por convite de Dom Pedro, as­

sumiu a direção do Imperial Observatório. Sob os auspícios do Império Brasileiro, publicou importante trabalho: “ Trata­

do de Astronomia Aplicada e Geodésia Prática” .

Dom Pedro estava sempre em contato com os astrônomos do Observatório e tinha, ali, um apartamento reservado. Seu conceito era dos melhores e L. Cap escreveu: “ a afirmação de que D. Pedro é um sábio é lisonjeira, muito embora exa­

ta” . O Imperador discorria com rara competência sobre ques­

tões de astronomia e todos os astrônomos que o conheceram foram unânimes em reconhecer que ele conhecia a ciência do céu.

Ao deixar o Observatório, Liais indicou como substituto Louis Cruls, nascido na Bélgica e que já pertencia ao corpo de astrônomos do Observatório. Cruls foi um substituto à altura de Liais e realizou trabalhos da mais alta qualidade.

Em 1878, aproveitou a passagem de Mercúrio sobre o disco solar (6 de maio), para determinar os diâmetros do Sol e do planeta, enviando os resultados dessa pesquisa à Academia de Ciências da França, os quais foram publicados nos “ Comp- tes Rendus” . Cruls aplicara o método preconizado por Liais nas observações feitas no Rio de Janeiro, nas quais tomara parte D. Pedro.

Em 1879 e 1880, Cruls empreende uma série de observa­

ções sistemáticas de estrelas duplas do hemisfério celeste Su l.

Em 1883, inicia a publicação do Anuário do Observatório.

Um dos mais importantes trabalhos do Imperial Obser­

vatório foi a observação da passagem de Vênus sobre o Sol em 6 de dezembro de 1882. Foram organizadas três expedições:

uma, para Punta Arenas, na Patagônia, Chile, composta por Louis Cruls, Ernesto Eduardo Midosi, Carlos Castilho Mi- dosi e oficiais da corveta “ Paraíba” . Outra, chefiada pelo Ba­

rão de Tefé, com Calheiros da Graça e índio do Brasil, iria à ilha de Santo Tomás, nas Antilhas. A terceira, comandada

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por Oliveira Lacaille, auxiliado por J. N . Cunha Louzada, observaria o fenômeno em Olinda, Pernambuco. No Imperial Observatório ficariam João Carlos de Sousa Jaques e João Er­

nesto Rodocanachi. Dom Pedro ficou na corveta “ Paraíba”

das dez horas da manhã às quatro da tarde, em animada dis­

cussão com os astrônomos.

Em 12 de setembro de 1882, Louis Cruls, no Imperial Ob­

servatório, descobriu um cometa que o astrônomo Finlay ha­

via observado três dias antes. O cometa ficou conhecido com os nomes de Finlay, Cruls, mas também com o nome de Dom Pedro de Alcântara, pois foi observado e estudado pelo Impe­

rador, no dia 25. Outro cometa, o de 18 de janeiro de 1887, observado pela primeira vez por Thome, em Córdoba, Argenti­

na, foi observado por Dom Pedro, que estimou o comprimento de sua cauda em 50 graus, como se registrou na revista “ L’As- tronomie” , publicada pela Sociedade Astronômica de França e dirigida pelo ilustre Camille Flammarion. no tomo de 1887, página 114.

Infelizmente, o gosto pela astronomia demonstrado pelo Imperador não contagiava os seus auxiliares no governo. O Brasil deixou de colaborar na feitura da Carta Celeste Foto­

gráfica Mundial, muito embora, em 1886, ao apresentar na reunião da Sociedade Astronômica de França os resultados e progressos da astronomia, Camille Flammarion tivesse garan­

tido que o Brasil, graças à iniciativa de D. Pedro II, seria o quinto país a colaborar na grande tarefa do levantamento fo­

tográfico do céu austral. A região destinada ao Brasil acabou sendo fotografada pelo Observatório de La Plata, Argentina, pois infelizmente no nosso país o instrumental doado por Dom Pedro jamais foi instalado. O Imperador, além desses apare­

lhos, no valor de 60 mil francos (uma fortuna, para a época), cedeu o terreno de 40 hectares, parte da Fazenda Imperial de Santa Cruz, para a instalação dos novos instrumentos, que in­

cluíam, além de um equatorial Cook de 32 centímetros de abertura, um círculo meridiano recentemente adquirido. As instalações da Fazenda Santa Cruz só foram iniciadas em 1889, mas nunca foram concluídas, apesar das reiteradas so­

licitações de Cruls e Henrique Morize que, no Relatório de 24

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1910, informavam a perda total da cúpula e dos demais aces- <j sórios da luneta fotográfica destinada à Carta do Céu e a per­

da quase total do instrumento equatorial.

Informa Ronaldo Mourão em seu trabalho “ O Olhar Real em Direção aos Céus” (JB, 6/12/75), que, na correspondên­

cia com a preceptora de suas filhas, a Condessa de Barrai, são encontradas muitas referências à astronomia. Dom Pedro contava tudo que ocorria, falava de seus planos e se queixava das dificuldades que encontrava para realizar o observatório dos seus sonhos. No exílio, em Cannes, escreveu, em seu diá- / rio, em 23 de abril de 1891: “ Pensava na instalação de um Ob­

servatório astronômico moldado nos mais modernos estabe­

lecimentos desse gênero. Segundo minhas previsões e estu­

dos, poderia ser superior ao de Nice” . Diz Mourão que a re­

ferência ao Observatório de Nice se justifica pelo conhecimen­

to que o Imperador tinha das atividades desse observatório, principalmente no setor da descoberta de planetóides. Nice se havia fixado em sua mente em conseqüência da descober­

ta, por Charlois, do planetóide 293, ao qual foi dado o nome de Brasília, em homenagem ao Imperador, na ocasião, exilado em Paris.

Dom Pedro II não foi um astrônomo profissional. Nem foi um amador categorizado, pois não realizou trabalho sis­

temático. E jamais poderia ter sido qualquer coisa além de Imperador, coisa que ele o foi de maneira inatacável. A coroa lhe pesava sobre a cabeça vinte e quatro horas por d ia . E era nos momentos raros de repouso que ele levantava para o céu olhos investigadores. De qualquer forma, foi o governante brasileiro que mais se dedicou às coisas celestes. Com o sacri­

fício de suas próprias economias, conseguiu instalar um ob- ; servatório que foi um dos mais completos e respeitados do \0 mundo. Um observatório que participava de todas as conven- ^ ções internacionais e trabalhava em condições de igualdade com os melhores do planeta.

A República, que praticamente destruiu o Observatório, fez mais do que isso: retardou o desenvolvimento do espírito científico voltado para a astronomia neste país. A cada pre-

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sidente que subia, correspondia a descida de um degrau no conceito internacional da astronomia brasileira. A Imprensa fazia humor à custa dos pavilhões erigidos em São Cristóvão, no Rio, ou no Parque do Estado, em São Paulo, onde pouco ou nada se realizava.

No entanto, muitos astrônomos, se ajudados pelo governo, poderiam ter alimentado a chama da astronomia neste mais de meio século de estagnação. Sábios como Henrique Morize, Domingos Costa, Alírio de Matos, Lélio Gama, Ferraz de Mes­

quita, Mário Schenberg, Alípio Leme de Oliveira, Abrahão de Morais e muitos outros.

O primeiro presidente republicano a se voltar para o pro­

blema da Astronomia no Brasil foi Emílio Garrastazu Médici, que iniciou os trabalhos de reconstrução dos nossos observató­

rios.

E recomeçamos, timidamente embora, a reequipar nossos antigos observatórios e partir para a instalação de novos pos­

tos de observação. Adquirimos aparelhamento moderno e pre­

paramos material humano da mais alta qualidade para recu­

perar o tempo perdido. O Observatório Nacional, em São Cristóvão, o Observatório do Valongo, da Universidade Fe­

deral do Rio de Janeiro, o Observatório Astronômico do Insti­

tuto Tecnológico de Aeronáutica, de São José dos Campos, SP, o Observatório Abrahão de Morais, em Valinhos, SP, e al­

guns outros pertencentes a universidades brasileiras organi­

zaram programas de colaboração internacional e trabalham ativamente. Dentro em pouco, será inaugurado o Observató­

rio Astrofísico Brasileiro, em Brasópolis, MG. Funciona, já, em Atibaia, o Centro de Radioastronomia e Astrofísica da Universidade Mackenzie que inaugurou os estudos brasileiros de Radioastronomia. Planetários estão sendo instalados (in­

felizmente nenhum nas regiões Norte e Nordeste) para divul­

gação da astronomia nas camadas populares.

Acreditamos que antes do fim deste século a nossa astro­

nomia poderá se colocar, como antigamente, ao lado daquela que é praticada nos países civilizados do globo.

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D . P e d ro II

E s ta d is ta S á b io e M a g n â n im o

DISCURSO PRONUNCIADO NO INSTITUTO DO CEARA, EM NOME DA SOCIEDADE BRASI­

LEIRA DOS AMIGOS DA ASTRONOMIA, NO DIA 4 DE DEZEMBRO DE 1978, PELA PASSAGEM DO 1530 ANIVERSÁRIO DE NASCIMENTO (2 DE DE­

ZEMBRO) DO IMPERADOR D. PEDRO II, PA­

TRONO DA ASTRONOMIA BRASILEIRA.

JOSÉ MARIJESO DE ALENCAR BENEVIDES

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(30)

“ Adeus, menino querido, delícias de minha’alma, alegria de meus olhos, filho que meu coração tinha adotado; adeus, para sempre, adeus! Quanto és formoso neste teu repouso.

Meus olhos chorosos não se podem furtar de te contemplar;

a majestade de uma coroa, a debilidade da infância, a inocên­

cia dos anjos cingem tua engraçadíssima fronte de um res- plendor misterioso, que fascina a mente. Eis o espetáculo mais tocante que a terra pode oferecer. Quanta grandeza, quanta fraqueza a humanidade encerra, representada por uma criança. Uma coroa e um brinco, um trono e um berço!

A púrpura não serve senão para estofo e aquele que coman­

da exército e rege um império carece de todos os desvelos de uma mãe. Ah! querido menino, se eu fosse tua verdadeira mãe, se minhas entranhas te houvessem concebido, nenhum poder valeria para me separar de ti, nenhuma força te ar­

rancaria de meus braços. Prostada aos pés daqueles mesmos que abandonaram o meu esposo, eu lhes diria, entre lá­

grimas: “ Não vede mais em mim a Imperatriz, mas uma mãe desesperada. Permiti que eu vigie nosso tesouro. Vós o quereis seguro e bem tratado e quem o haveria de guardar e cuidar com maior devoção? Se não posso ficar a título de mãe, eu serei sua criada ou sua escrava” . Mas tu, anjo de inocência e de formosura, não me pertence senão pelo amor que dediquei a teu augusto Pai; um dever sagrado me obriga a acompanhá-lo em seu exílio, através dos mares e terras estranhas. Adeus, pois, para sempre adeus! Mães brasileiras, vós que sois meigas e afagadoras de vossos filhinhos, a par das rolas de vossos bosques e dos beija-flores das campinas floridas, supri minha voz, adotai o órfão coroado, dai-lhe seu leito com o arbusto constitucional, embalsamai com as todo um lugar em vossa família e em vosso coração. Ornai mais ricas flores de vossa eterna primavera, entrançai o jas-

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mim, a baunilha, a rosa, o cinamomo, para coroar a mimosa testa, quando o pesado diadema de ouro o houver machucado.

Alimentai-o com a ambrosia das mais saborosas frutas: a ata, o ananás, a cana melíflua; acalentai-o à suave entoada de vossas maviosas modinhas. Afugentai para longe de seu berço as aves de rapina, a sutil víbora, as cruéis jararacas e também os vis aduladores, que envenenam o ar que se respira nas Cortes. Se a maldade e a traição lhe prepararem ciladas, vós mesmas armai em sua defesa vossos esposos, com a espada, o mosquete e a baioneta. Ensinais à sua voz tenra as palavras de misericórdia, que consolam o infor­

túnio, as palavras de patriotismo, que exaltam as almas generosas e, de vez em quando, sussurrai a seu ouvido o nome de sua mãe de adoção. Mães brasileiras, eu vos confio este preciosíssimo penhor de felicidade de vosso país e de vosso povo; ei-lo tão belo e puro como primogênito de Eva no Pa­

raíso. Eu vo-lo entrego agora e sinto minhas lágrimas cor­

rerem com menor amargura. Ei-lo adormecido. Brasileiras, eu vos imploro que não o acordeis antes que eu me retire. A boquinha, molhada com o meu pranto, ri-se à semelhança do botão de rosa ensopada do orvalho matutino. Ele ri e o pai e a mãe o abandonam para sempre. Adeus, órfão Imperador, vítima de tua grandeza, antes que a saiba conhecer. Adeus, anjo de inocência e de formosura, adeus! Toma este beijo e este... e este último. Adeus, para sempre adeus! Amélia, Du­

quesa de Bragança” .

Eis, senhoras e senhores, a trágica despedida de D. Amé­

lia de Leuchtemberg Eichstaett e Bragança, esposa de D. Pe­

dro I, no dia em que este foi obrigado a abdicar a coroa e o casal embarcar para a Europa; eis o dramático apelo de quem jurou ser mãe estremosa para os seus enteados, quando se tornou a segunda imperatriz do Brasil.

// Nascido às 2 horas e 30 minutos do dia 2 de dezembro ' de 1825 e batizado pelo bispo D. José Caetano com o nome de Dom Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga (15 nomes afora o “ dom” e as duas prepo­

sições!), o sexto filho do primeiro matrimônio de D. Pedro I 30

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ficou órfão de mãe com apenas um ano e nove meses, quando, no dia 12 de dezembro de 1826, morre D. Maria Leopoldina Carolina de Habsburgo, primeira imperatriz do Brasil e fi­

lha de D. Francisco I, Imperador da Áustria.

Embarcando para Portugal, onde veio a falecer três anos após, D. Pedro I abdicou os direitos do trono brasileiro, no dia 7 de abril de 1831, em favor do seu filho D. Pedro de Al­

cântara, quando este tinha, apenas, 5 anos e 4 meses de idade, deixando-o, como as princesas D. Francisca e D. Ja- nuária, também menores, sob a tutela do velho estadista e poliglota José Bonifácio de Andrada e Silva, cognominado o “Patriarca da Independência” . Ficara, assim, o nosso se­

gundo imperador, “em plena infância, entregue aos azares da revolução, que lhe banira o pai” , como afirmou o Conde de Afonso Celso.

Pedro Calmon, na sua abalizada obra “A vida de D. Pe­

dro II — o Rei Filósofo” , edição comemorativa do sesquicen- tenário de seu nascimento, escreveu: “ Antes dos seis anos, era uma entidade política. Juntava ao nome o algarismo:

Pedro II. Beijavam-lhe a mão, chamavam-lhe: “Meu Impera­

dor” . Foi o tratamento que teve toda a vida” .

“ No dia da partida dos pais, só havia em São Cristóvão uma preocupação: fazer do “ órfão da pátria” , o Imperador.

A sua instrução tinha de ser exemplar, a compostura, a gra­

vidade, impecáveis” .

Tornara-se, assim, uma criatura precocemente infeliz, dentro da prisão da Quinta da Boa Vista, “sob o silêncio ma­

jestoso” do seu compenetrado e velho tutor, sem a liberdade para brincar com as crianças de sua idade, invejando mesmo a independência dos meninos pobres, “que se rebolavam no gramado verde, feito para rolarem crianças e saltitarem pás­

saros!”.

Contrário à vontade de muitos republicanos exaltados ou de adversários ferrenhos do regime monárquico, o Império passou a ser governado por uma Regência, até o dia em que o Imperador Pedro II completasse 18 anos de idade, tudo na

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conformidade dos arts. 121 e seguintes da Constituição Polí­

tica do Império do Brasil, de 25 de março de 1824, que dez anos mais tarde sofria emendas e adições, introduzidas pela Lei de 12 de agosto de 1834, conhecida por Ato Adicional, cujo preâmbulo assim rezava: “ A Regência Permanente em nome do Imperador e Senhor D. Pedro II, faz saber a todos os súditos do Império, que a Câmara dos Deputados, com­

petentemente autorizada para reformar a Constituição do Império, nos termos da Carta de Lei de 12 de outubro de 1832, decretou as seguintes mudanças e adições à mesma Constituição” ...

Preocupado com o futuro do pequeno Imperador e “ con­

siderando os grandes males que devem resultar de o Conse­

lheiro José Bonifácio de Andrade e Silva continui na tutela de Sua Majestade Imperial o Senhor D. Pedro II e suas Au­

gustas Irmãs” , a Regência resolveu destituir o velho tutor das suas funções e em seu lugar nomeou o Marquês de Ita- nhaém, fidalgo de cinqüenta anos de idade, honesto, culto, cético de idéias avançadas, "sabendo de tudo um pouco” .

Diz Pedro Calmon que “ nunca jardineiro mais obstinado zelou pelo desenvolvimento do seu arbusto, como o honesto Itanhaém pela formação do seu menino” . E Pedro II, criança precoce, de inteligência lúcida e memória invejável, passou a contar com eminentes professores, por certo os mestres mais ilustres do seu tempo, inclusive alguns de nacionali­

dade estrangeira, que lhe ensinaram caligrafia, literatura, história, geografia, ciências naturais, francês, inglês, alemão, desenho, música, dança, esgrima, equitação etc.

Aos 14 anos, era tido como bom conhecedor da gramá­

tica e da língua portuguesas. Já falava quatro idiomas, tra­

duzia com muita facilidade o latim e sabia ler livros em grego. A leitura era o seu passatempo predileto e o saber a sua fome maior, o que levou o seu médico, Dr. Soares Meire­

les, a diagnosticar: “ Este ardor pelo estudo fez com que S.

M. I. não achasse tanto prazer nos brincos da sua idade como acontece às outras crianças, e se desse aos trabalhos literá­

rios apenas acabava de comer. Calmon diz que o prudente e 32

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sábio Frei Pedro de Santa Mariana ia, às vezes, apagar a lâmpada para impedir que a leitura se prolongasse noite a dentro.

E para Pedro Calmon foi “ a natureza precoce do me­

nino” o argumento principal dos conspiradores, que se reu­

niam na casa do cearense senador José Martiniano de Alen­

car, quando desfraldaram o estandarte da “Maioridade quan­

to antes”, ou fundaram na mesma residência, no dia 15 de abril de 1840, a “ Sociedade Protetora da Maioridade” , cujo estatuto foi redigido pelo irrequieto senador.

No seu “ Dicionário de História do Brasil”, Antônio da Rocha Almeida, professor universitário e membro do Insti­

tuto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, afirma que “ sob a alegação de ser inconstitucional a presença do Dr. Araújo Lima à testa do Governo e o art. 122 exigia 25 anos completos ao parente mais chegado do imperador, para que lhe fosse confiada a Regência, e a Princesa D. Januária tinha apenas 18 anos, a solução extrema sugerida pelo sena­

dor Alencar era a dispensa da idade legal a D. Pedro II ” . Acredito que o ilustre historiador gaúcho tenha se equi­

vocado. A primeira carta magna do Brasil dispunha, no seu aludido “Art. 122 — Durante a sua menoridade, o Império será governado por uma Regência, a qual pertencerá ao pa­

rente mais chegado ao Imperador, segundo a ordem da su­

cessão, e que seja maior de 21 anos” . E, para o art. 121, da Constituição, “ o Imperador é menor até a idade de 18 anos completos”. O mencionado Ato Adicional de 12 de agosto de 1834, que deu nova redação ao art. 123, da mesma Consti­

tuição, dispunha, no seu “ Art. 26 — Se o Imperador não tiver parente algum que reúna as qualidades exigidas pelo art. 122 da Constituição, será o Império governado, durante a sua menoridade, por Regente eletivo e temporário, cujo cargo durará quatro anos, renovando-se para esse fim a elei­

ção de quatro em quatro anos” .

Quaisquer que tenham sido as intenções ou os motivos que levaram a "Sociedade Promotora da Maioridade” a con­

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cluir pela dispensa da idade legal a D. Pedro II, o seu obje­

tivo foi alcançado.

No dia 23 de julho de 1840, com grandes festas, a Assem­

bléia Geral, presidida pelo Marquês de Paraná, declarava a maioridade de D. Pedro D e o coroava Imperador do Brasil, vez que este, no dia anterior, respondera à comissão de depu­

tados, chefiada por Antônio Carlos, que queria assumir ime­

diatamente o Governo e não somente no dia em que comple­

tasse 15 anos.

Assim, com 14 anos e oito meses de idade, D. Pedro II começa o seu longo reinado. Agora, a sua história se con­

funde com a própria história do Brasil.

Não iremos, no entanto, enveredar pelos longos cami­

nhos das lutas partidárias, nem analisar o comportamento dos grupos políticos rivais, pois não pretendemos participar das divergências políticas entre os Partidos Liberal e Conser­

vador, “ que se alternaram no poder durante todo o segundo reinado e se caracterizavam por lutar pelo poder político e por defenderem os interesses da aristocracia dominante” , tendo ambos “um ponto básico comum, que era a manuten­

ção da estrutura escravagista e a alienação da massa do pro­

cesso político” , como escreveram Francisco de Assis Silva e Pedro Ivo de Assis Bastos, na sua “ História do Brasil” . E é o grande historiador Oliveira Viana quem afirma, ironica­

mente: “Nada mais conservador que um liberal no poder.

Nada mais liberal que um conservador na oposição...”

Em 1847, com a criação do cargo de Presidente do Con­

selho de Ministros, o regime se tomou parlamentarista, e esses dois partidos foram responsáveis não só pela queda de 36 gabinetes ministeriais como pela intranqüilidade adminis­

trativa durante o Segundo Reinado. Forjaram até a criação de novos partidos, como o Partido Radical, do qual se origi­

nou, em 1870, o Partido Republicano.

E só Deus sabe quanto sofreu e lutou o nosso sábio e sereno Imperador para governar durante quase meio século este imenso país.

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“ Escravo da lei, procurou conciliar os partidos, apaziguar as paixões, acatar a liberdade, secundar o progresso” , como muito bem disse o ilustre escritor Conde de Afonso Celso.

E é o mesmo Afonso Celso, que foi abolicionista e repu­

blicano, embora filho do Visconde de Ouro Preto, mas que, eom a proclamação da República, deixa a política e viaja com o pai, quando este, como toda a família imperial, foi exilado para a Europa, quem faz criterioso resumo do que D.

Pedro II realizou pelo Brasil, durante meio século de adminis­

tração, de cujo balanço resulta enorme saldo de benefícios.

“ Reprimiu o caudilhismo no Brasil e no Prata, garantiu 40 anos de paz interna, sufocou cinco revoluções — em São Paulo, Minas, Maranhão, Rio Grande do Sul e Pernambuco,

— sustentou três gloriosas guerras externas, destruindo três tiranias, — a de Rosas, a de Aguirre e a de Lopez; assegurou a independência do Uruguai e do Paraguai; contribuiu deci­

sivamente para a libertação de dois milhões de escravos.

A vitória sobre as revoluções seguiu-se sempre ampla e generosa anistia. Na guerra contra Rosas, triunfou o Bra­

sil, onde a França e a Inglaterra haviam naufragado. Nunca aproveitou suas vantagens para oprimir vizinhos mais fra­

cos. O Imperador era aliado de todos os espíritos liberais do Prata. Nada impôs ao Paraguai, depois de tê-lo vencido com ingentes sacrifícios. Organizou ali o governo republicano, que, sob o despotismo de Francia, Lopez I e Lopez II, era até então desconhecido dos paraguaios, e determinou-lhes a abo­

lição do cativeiro. Três vezes serviu de árbitro em questões internacionais de grande monta, entre poderosas nacionali­

dades. Defendeu, com extrema energia, a dignidade do Bra­

sil contra nações fortes, como a Inglaterra, vendo-se esta obrigada a nos dar satisfação cabal.

Basta comparar o Brasil de 1840 — (5 milhões de ha­

bitantes, dos quais 2 milhões de escravos, 16 mil contos de renda, 50 mil contos de produção, sem estradas de ferro, — com o Brasil de 1889, — 14 milhões de homens, 153 mil contos de rendas, cerca de 500 mil contos de produção, mais

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de nove mil quilômetros de via férrea em tráfego) — para se verificar a imensa prosperidade alcançada sob as vistas de D. Pedro.

Presidiu ele à inauguração das nossas primeiras estra­

das de ferro; linhas de vapores e telegráficas, principais obras públicas; à introdução em massa dos colonos estrangeiros;

ao desenvolvimento da instrução; à expansão do nosso cré­

dito, cotado, nos últimos anos da monarquia, acima dos mais influentes Estados. Lavoura, comércio, indústria, tudo me­

drou.

Escreveu Pedro Calmon, na sua citada obra, que “ A maioridade, o casamento, o governo pessoal não modificaram os hábitos do Imperador” .

“ Dividia as horas com um método infalível. Igualmen­

te governava superintendendo os ministros, e instruía-se, sem faltar, em Petrópolis, aos bailes semanais, no Rio, ao teatro lírico, às escolas, às cerimônias, ao seu Colégio Pedro II, ao seu Instituto Histórico, recebendo no primeiro sábado de cada mês o corpo diplomático, em uniforme, pomposamen­

te, dando, todos os sábados, exaustiva audiência pública, a quantos lhe pedissem, fidalgos ou plebeus, o fazendeiro rico, o soldado inválido, o magnata e o pobre, presidindo uma vez por semana ao despacho coletivo e festejando no Paço da Cidade, com os cumprimentos de estilo, as datas jubiliares...

Continuava a despertar às 6 horas. Almoçava às 9, de­

pois de ter lido, lápis em punho, “ lápis fatídico”, os jornais, ou recortes deles, arranjados pelo secretário. Passeava a pé uns momentos pela quinta com o semanário de farda (semanário era o camarista que ficava de serviço no palácio imperial durante uma semana) e chave de ouro pendurada dum bordão da casaca. Excursionava pelas repartições, de carro, puxado por seis cavalos, dois cadetes adiante a galope, aten­

dia às visitas que tinham audiência concedida; trabalhava até às 5 horas da tarde, hora do jantar, apressado e frugal, de dez minutos. Em 1865 viu-o Rebouças (“ Diário e Notas Autobiográficas” ) : “ Às 6 da tarde estava em São Cristóvão.

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Quando entrei o Imperador ouvia um sem-número de mulhe­

res pobres que o cercavam. Tinha a mão esquerda carregada de petições” .

Quando funcionavam as Câmaras, o despacho ministe­

rial era à noite, de 8 à uma e duas da manhã, os ministros sempre uniformizados, com a casaca azul da gola bordada, e a obrigação de narrar os negócios e casos de sua pasta.

Desdobrava-se, animada, sistemática, a “ sabatina” : o Impe­

rador inquiria, objetava, aprovava, ou, então, quando o as­

sunto reclamava melhor exame, ou não lhe parecia bem, pe­

dia os papéis. Decreto que não assinasse ficava para madu­

ras meditações, a estudos sérios, muitas vezes do Conselho de Estado, consultado nos de importância capital. Não es­

condia, e exagerou com a idade, uma predileção miúda pelos inquéritos pessoais, acerca de candidatos a honras e empre­

gos, não o burlasse a política, favorecendo indignos, escusos caracteres, gente suspeita, que desmoralizassem os títulos conferidos, os cargos públicos! Podia deixar passar o bene­

fício de uma comenda, de uma patente da Guarda Nacional, aliás cobrada em razão das forças do pretendente, persona­

gens do sertão apadrinhados pelos parlamentares; mas su­

jeitava a torturante inquisição os lentes, os juizes, os buro­

cratas graúdos, partindo do princípio de que as tricas par­

tidárias não deviam violar o calmo recinto da escola, a ma­

jestade do foro, a seriedade do serviço. Gabava-se de nunca ter demitido um funcionário por suas idéias, de nunca ter !/

sobreposto ao merecimento de um professor as convicções, de jamais ter suportado a corrupção, premiado o desleixo dum magistrado de deveres tão rigorosos na sociedade, como o soberano que lhe vigiava.”

Mas D. Pedro II não se limitou a governar o seu imenso país somente de sua capital, da bela Rio de Janeiro, ou da cidade serrana de Petrópolis. Empreendeu viagens a inúme­

ras províncias do Império, desejava conhecer o Brasil e ser conhecido dos brasileiros. Em 1845, antes de completar 20 anos de idade, entre festas e apoteóticas manifestações po­

pulares, visitava as províncias de Santa Catarina e do Rio 37

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Grande do Sul, onde se demorou por dois meses e conheceu, sempre em companhia da Imperatriz, as cidades de Rio Grande, Porto Alegre e outras localidades. Em São Leo­

poldo, esteve com a colônia alemã e concedeu audiência e abraçou, comovidamente, o velho e arruinado caudilho bri­

gadeiro Bento Gonçalves. Como bom cavaleiro, percorreu no seu corcel as vastas campinas da mais meridional das pro­

víncias. Em 18 de fevereiro de 1842, deixando o Rio Grande, desembarcava em Santos, onde foi delirantemente aplaudido pelo povo. Dai, a cavalo, e acompanhado por deputados, no­

breza e oficiais superiores, subindo a elevada cordilheira da serra do Mar, atinge a cidade de São Paulo, onde foi deliran­

temente recebido, “sob arcos alegóricos” . Fez questão de vi­

sitar a Faculdade de Direito, e por várias vezes, não só para assistir a exames como para fazer perguntas a professores e alunos, entre estes encontrava-se o moço José Antônio Sa­

raiva, que anos depois se tornara político famoso, presidente da Província de S. Paulo e Presidente do Conselho de Minis­

tros, em 1880.

Nos anos de 1859 e 1860, visita as províncias da Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Espírito Santo, onde o Im­

perador, como escreveu Calmon, “ descortinou o panorama das sólidas civilizações do Norte, das velhas cidades dos enge­

nhos de açúcar, dos baluartes eleitorais do Partido Conser­

vador” . Viu até a grande cachoeira de Paulo Afonso, onde um século mais tarde foi construída a maior usina hidrelé­

trica do Nordeste.

Em 1865, demonstrando invejável coragem cívica e con­

trariando os seus Ministros, partiu para o Rio Grande do Sul, quando o Império, a Argentina e o Uruguai guerreavam con­

tra o Paraguai. Em S. Gabriel, visita os estabelecimentos mi­

litares. Percorre hospitais, suporta o desconforto dos descam­

pados. dorme em tapera triste e habitua-se à cuia do chi- marrão. Em Uruguaiana, onde se encontravam 15.000 ho­

mens dos exércitos aliados, conferência com Mitre e Flores, respectivamente, chefes dos governos da Argentina e do Uru­

guai e assiste ao desfile de quase cinco mil paraguaios, famin­

tos e maltrapilhos, retomando, depois, à sua barraca, reco­

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mendando, antes, que não deixassem os prisioneiros sofrer quaisquer vexames.

Diz André Rebouças, no seu “ Diário e Notas Autobio­

gráficas”, que D. Pedro II para empreender essa viagem ao teatro da luta, teve de cortar a discussão com os seus minis­

tros, afirmando: “ Ainda me resta um recurso constitucional:

abdicar e ir para o Rio Grande como um voluntário da Pá­

tria”

A presença de D. Pedro II muito representou para a vi­

tória sobre o inimigo. Graças à sua obstinada atitude de só aceitar a paz com o Paraguai depois de ser capturado ou expelido do território paraguaio o tirano López, e “ sem a menor quebra da dignidade de nossa Pátria” , a vitória al­

cançou o êxito desejado. E contra os que pensavam o contrá­

rio, o Imperador sentenciou categórico: “ Nunca. Nós não provocamos a guerra, não proporemos a paz! Se o sacrifício é enorme, maior seria a humilhação. Agora, é irmos até o fim. Eu trocarei o trono por uma tenda de campanha. E quero ver se há algum brasileiro que não me acompanhe!”

E para concluir a guerra, “ livrando o Paraguai, quanto an­

tes, da presença de López”, D. Pedro teve de aceitar a demis­

são de Caxias e de nomear o seu genro Conde d’Eu coman­

dante do Exército no Paraguai.

Senhores — Para o nosso sábio Imperador, “ As viagens completam a educação, dilatando a inteligência, apurando as faculdades estéticas e afetivas, enriquecendo a observação e a experiência” .

Acha Calmon que a Guerra do Paraguai envelheceu D.

Pedro II e que os cinco anos valeram vinte. Em 1870, “ a bar­

ba encanecida dava-lhe um aspecto respeitável de sexagená­

rio: e não passava de 45 anos!” . Em fevereiro de 1871, fale­

cera, em Viena de Áustria, a sua filha Leopoldina, Duquesa de Saxe. Teresa Cristina adoecera de pesar e o Imperador ficara profundamente traumatizado. Teria que ir à Europa, não só para cuidar da saúde da Imperatriz como para de lá trazer os seus netos alemães.

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Referências

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