INE EAD INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO TERAPIA OCUPACIONAL ARESENTAÇÃO

Texto

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TERAPIA

OCUPACIONAL

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INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO TERAPIA OCUPACIONAL

ARESENTAÇÃO

O Instituto INE apresenta este módulo, com o intuito contínuo de proporcionar- lhe um ensino de qualidade, com estratégias de acesso aos saberes que conduzem ao conhecimento, na área da Educação.

Nesse sentido, todos os nossos projetos são, fortemente, comprometidos com o seu progresso educacional, na perspectiva do seu melhor desempenho, como aluno- profissional permissivo à busca do crescimento intelectual.

Sendo assim, e, em busca desse conhecimento, homens e mulheres se comunicam, têm acesso à informação, expressam opiniões, constroem visões, diferenciadas, de mundo e produzem cultura, a partir e através de estudos e pesquisas, que essa instituição quer garantir a todos os seus alunos, a saber: o direito às informações necessárias para o exercício de suas variadas funções.

Assim, expressamos nossa satisfação em apresentar o seu novo material de estudo, moderno, atual e, totalmente baseado nas mais renomadas autoridades da área, formulado pelo nosso setor pedagógico, que está sempre empenhado na facilitação de um construto melhor para os respaldos teóricos e práticos exigidos ao longo do curso.

Contudo, para a obtenção do sucesso esperado por você, é necessário que seja dispensado um tempo específico para a leitura deste material, produzido com muita dedicação pelos Doutores e Mestres que compõem a equipe docente do Instituto INE.

Leia com atenção os conteúdos aqui abordados, pois eles nortearão o princípio de suas ideias, que se iniciam com um intenso processo de reflexão, análise e síntese dos saberes. Este módulo está disponível apenas como base para estudos deste curso.

Obstante, o material aqui ofertado não tem sua comercialização permitida, em nenhum formato, sendo, os créditos de autoria dos conteúdos deste material, dados aos seus respectivos autores citados nas Referências.

Em sendo, desejamos sucesso nesta caminhada e esperamos, mais uma vez, alcançar o equilíbrio e contribuição profícua no processo de conhecimento de todos!

Atenciosamente,

Coordenação Pedagógica do Instituto INE

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Sumário

Introdução ... 4 Recurso Terapêutico ... 11

PRIMEIROS PRINCÍPIOS 14 ATIVIDADE = EXERCÍCIO 15

MODELO DO PROCESSO DE TERAPIA OCUPACIONAL MATERIALISTA

HISTÓRICO 39

SAÚDE E POLÍTICA 47

FRENTE A UM O QUE FAZER 48

ROTEIROS PARA ANÁLISE DE ATIVIDADE ... 49 ROTEIRO PARA ANÁLISE 49

REFERÊNCIA ... 52

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INE EAD – INSTITUTO NACIONAL DE ENSINO TERAPIA OCUPACIONAL Introdução

Antes de entrar na difícil tarefa de responder à célebre pergunta: o que é terapia ocupacional? Faz-se necessário levantar outras, na busca de

esclarecer certos mal-entendidos que o cotidiano e o senso comum nos lançam. Exemplos não faltam para ilustrar tal confusão.

É comum ouvir-se: "Fazer tricô é uma boa terapia, quando estou

irritada!", ou "Minha terapia é mexer com terra, isso me descansa!", aí pode-se perguntar: qual será o significado dessas afirmações (expressões)? Ou, então, quando num comercial de TV o apresentador fala em tom de seriedade: "Faça a sua terapia ocupacional, confeccionando suas próprias roupas!". Ou ainda, quando uma revista infantil faz propaganda de álbum de figurinhas ou de jogos educativos: "Esta é uma terapia ocupacional para o seu filho!". Ou mesmo a grande confusão formada (criada) quando um terapeuta ocupacional ao falar da sua profissão depara-se com seu interlocutor preocupado em mostrar ter compreensão do assunto, afirmando: "Ah! Você dá trabalhos para ocupar os loucos!" ou "Você brinca com as crianças!"

Ora, e quando é que o trabalho, a brincadeira, a execução das atividades do cotidiano é fazer terapia ocupacional?

Será que, buscando o significado das palavras terapia e ocupacional, conseguiremos fazer alguns reparos introdutórios em relação a tantos mal- entendidos. Vamos arriscar!

Ao consultar o Novo dicionário Aurélio, encontramos no verbete terapêutica: "do grego Therapeutikê, pelo latim therapeutica — parte da medicina que estuda e põe em prática os meios adequados para aliviar ou curar doentes; Terapia. Terapêutica Ocupacional — psiq. Aquela que procura desenvolver e aproveitar o interesse do paciente por um determinado trabalho ou ocupação: Terapia Ocupacional, laborterapia, ergoterapia (nesta acep. C.F.

praxiterapia)".

Conforme solicitação do autor, partimos então à procura do verbete praxiterapia e diz o seguinte: "(de praxis + terapia) técnica de tratamento

usada, em geral, com doentes crônicos internados, e que consiste na utilização

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terapêutica do trabalho, distribuindo-se aos pacientes tarefas de complexidade crescente".

Mais uma caminhada à procura de ocupacional, porque o que buscamos é o significado das palavras e, por mais que no verbete Terapêutica tenhamos encontrado, para a surpresa de alguns, terapia ocupacional, deve-se lembrar que ocupacional encontra-se ainda subentendido. Quanto a ocupacional, diz o autor: "referente a ocupação, trabalho, ofício". Vejamos agora ocupação: "do latim occupatione — ato de ocupar, ou de apoderar-se de algo — Ofício, trabalho, emprego, serviço...".

Após um vai-e-vem entre páginas, constata-se que a investida no estudo das raízes das palavras permite-nos compreender a terapia ocupacional como:

técnica (parte da medicina que estuda e põe em prática) que utiliza o trabalho como recurso (meio adequado) para tratar (aliviar ou curar os doentes).

Bem, até aqui a definição advinda via etimologia das palavras terapia e ocupacional parece bastante simples, pois, uma vez que ela é apenas uma técnica de aplicar trabalho, ocupação, afazeres, para curar doentes e uma vez que todos os homens e cada homem em particular tem conhecimentos do trabalho humano, então basta trabalhar quando se está doente para curar a doença.

Aqui, porém, a "coisa" começa a se complicar. Com efeito, se a terapia ocupacional é realmente uma profissão técnica, ela não é, entretanto, a simples aplicação de técnicas. Ora, o que caracteriza a terapia ocupacional é

precisamente o meio que se propõe para tratar. Entretanto, para que o uso de atividade, ação, trabalho, possa ser conceituado como terapia ocupacional, é preciso que se satisfaça uma série de exigências que se pode em princípio resumir nos quatro requisitos que seguem.

Em primeiro lugar, é necessário que a atividade humana seja entendida enquanto espaço para criar, recriar, produzir um mundo humano. Que esta seja repleta de simbolismo, isto é, que a ação não seja meramente um ato biológico, mas um ato cheio de intenções, vontades, desejos e necessidades.

Em segundo lugar, não basta fazer, fazer e fazer, acreditando que o simples curso das coisas com isso se modifique. O fazer deve acontecer

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através do processo de identificação das necessidades, problematização e superação do conflito.

Em terceiro lugar, não existem receitas mágicas (atividades mágicas) nem técnicas específicas que garantam que estamos realmente resolvendo o problema.

Em quarto e último lugar, é necessário um profissional preparado, cuja tarefa é a de se dispor, também, como instrumento ou recurso terapêutico, de incomodar, de ativar e revelar o conflito para a sua superação.

A exposição acima, sumária e distinta de cada um dos itens descritos, não deve, entretanto, nos iludir. Pois não se tratam de partes isoladas,

autosuficientes, que a uma simples somatória, como que por um efeito mágico de sua junção, efetivam o processo de terapia ocupacional. É essencial que se tenha uma visão do conjunto e de como estas partes se relacionam

dialeticamente.

CONCEITOS FORMAIS

Existem inúmeras tentativas para conceituar formalmente a terapia ocupacional e para defini-la como prática de saúde engajada, compromissada com o social. Entretanto, geralmente, as definições formais caracterizam-na como prática "neutra" de saúde.

Dessa forma, adotar aqui as diversas, importadas — e já consagradas

— definições parece ser um compromisso ideológico que, por servir a

interesses, é hoje apenas um ponto de referência histórico. Pois acreditamos que tal cumplicidade com o passado é sinal de estagnação e conformismo.

Nos últimos dez anos, os terapeutas ocupacionais brasileiros vêm adotando as definições de terapia ocupacional advindas dos Estados Unidos da América do Norte, dentre as quais figuram com maior frequência as

propostas pela Associação Americana de Terapia Ocupacional, formuladas em 1972 e em 1977 e, mais recentemente, a proposta por Reed e Sanderson em 1980.

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O Conselho da Associação Americana de Terapia Ocupacional, em 1972, definiu a terapia ocupacional como "a arte e a ciência de dirigir a

participação do homem em tarefas selecionadas a fim de restaurar, reforçar e engrandecer sua atuação, facilitando a aprendizagem de habilidades e funções essenciais para sua adaptação e produtividade, diminuindo ou corrigindo patologias e promovendo a manutenção da saúde" (cf. REED e SANDERSON, 1980).

Em 1977, a assembleia representativa da Associação Americana de Terapia Ocupacional (AOTA) aprovou uma nova definição: "Terapia

ocupacional é a aplicação da ocupação (única atuação) de qualquer atividade que se emprega para avaliação, diagnóstico e tratamento de problemas que interfiram na atuação funcional de pessoas debilitadas por doenças físicas ou mentais, desordens emocionais, desabilidades congênitas ou de

desenvolvimento ou no processo de envelhecimento, com o objetivo de

alcançar um funcionamento ótimo e de prevenir e manter a saúde" (cf. REED e SANDERSON, 1980, p. 7). Reed e Sanderson, em seu livro Conceitos de terapia ocupacional, publicado em 1980, propõem algumas modificações à definição da AOTA/77 e conceituam a terapia ocupacional como "análise e aplicação da ocupação, especificamente automanutenção, produtividade e lazer, as quais através do processo de problemas de avaliação, interpretação e tratamento de problemas que, interferindo com a execução funcional ou

adaptativa em pessoas nas quais as ocupações são diminuídas por doenças físicas ou mentais, desordens emocionais, debilidades congênitas ou do desenvolvimento ou processo de envelhecimento, com o objetivo de promover a pessoa a uma ação funcional ótima e adaptativa, prevenir a diminuição ocupacional e promover saúde e manutenção ocupacional".

Observando com atenção, estas definições trazem ou fazem passar a ideia de que a terapia ocupacional deva assumir, cada vez mais, o papel de promoção do homem.

Aí surge uma pergunta — do ponto de vista da terapia ocupacional, o que significa promover o homem?

De acordo com as definições que aqui analisamos, tal promoção se dá através do desenvolvimento da personalidade e das potencialidades ou

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capacidades humanas. O que, a nosso ver, articula progresso individual com progresso técnico científico, de maneira a fazer crer que essa promoção deva levar ao aprimoramento das instituições, de forma que, ao realizar sua prática profissional, seja em uma favela, seja em um bairro de elite, o terapeuta, sempre irá enfatizar os valores intelectuais (emocionais) e biológicos. No entanto, a nossa experiência da valoração nos mostra que as coisas acontecem de maneiras bem diferenciadas, pois a ação terapêutica ocupacional sempre é desenvolvida num contexto social concreto.

Chamamos então, a atenção para o que consideramos ser uma

ideologia "terapêutica" que permeia as propostas das terapias, sem deixar de lado, é claro, a terapia ocupacional.

Cabe aqui, uma preocupação com tal formulação, pois está longe de nossa intenção isolar a ideologia terapêutica do seu contexto geral, ou de caracterizá-la como uma esfera de ação à parte, ou mesmo de privilegiar sua importância. Embora tenhamos a clareza que uma análise mais apurada deveria trazer à compreensão, as ligações existentes entre os diversos aspectos da ideologia, mostrando assim como a ideologia "terapêutica"

incorpora os discursos ou práticas destes.

A intenção, entretanto, é fazer aqui apenas algumas aproximações ao assunto, para que possamos estabelecer um ponto de partida necessário à compreensão dos diferentes modelos de terapia ocupacional e,

consequentemente, o embate criado quando um conceito formal é assumido como verdade universal.

Voltando às definições, é importante perceber os mecanismos de desqualificação da dimensão político- ideológica da terapia ocupacional

operada pela ideologia "terapêutica", a qual está inserida no sistema ideológico geral da sociedade tecnológica e enfatiza a questão das técnicas como

prioridade.

Desqualificação, porque se faz a partir da concepção da ciência como neutra ou, melhor dizendo, acima de qualquer interesse de classes. Tendo como pressuposto que a ideologia dominante tem necessidade de, por um lado, garantir a harmonia no interior da classe dominante e, por outro, passar seu modelo às outras classes como verdade universal e não, como na

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realidade, verdade de classes, podemos observar que a ideologia "terapêutica"

está muito bem articulada com a ideologia do desenvolvimento individual, a ideologia das diferenças de aptidões e a ideologia dos dons, de tal forma que nesses entendimentos o social encontra-se sempre afastado.

A classe dominante necessita sustentar a qualquer custo o princípio da igualdade de direitos, ao mesmo tempo em que deve justificar a desigualdade advinda da divisão social do trabalho. E aí acontece o milagre. Como ela não pode afirmar a superioridade de alguns indivíduos, trata então de afirmar a ideia das diferenças individuais. Todos os homens são iguais em dignidade, entretanto, diferentes em aptidões, dons inatos. Notem que existe uma

significação politica e, portanto, dissimulada no uso dos termos aptidão, dons e capacidades. Fica, assim, notório que a causa da diferença das funções sociais desempenhadas pelos homens seria um determinismo biológico e não a

divisão social do trabalho.

É mediante o mascaramento da realidade social que a ideologia terapêutica procura cumprir, ã sua maneira, a função de dissimulação da realidade social. E nesse contexto a terapia ocupacional, de acordo com as definições analisadas, propõe produzir efeitos de promoção do homem.

TERAPIA OCUPACIONAL: PROFISSÃO NOVA

Muito se tem falado da terapia ocupacional como uma profissão nova, entretanto a ideia de que a ocupação ou diversão de qualquer espécie é benéfica aos doentes manifesta-se de tempos em tempos na história da humanidade. Observamos historicamente que a ocupação como meio de tratamento remonta às civilizações clássicas. Os jogos, a música e os exercícios físicos foram utilizados por gregos, romanos e egípcios como medida de tratamento do corpo e da alma. Entretanto, somen- te por volta do fim do século XVIII e princípio do século XIX, período marcado pelo

humanismo, a ocupação se torna largamente aceita para o tratamento do doente mental. Na França, em 1791, o dr. Philippe Pinel, ao assumir a direção do asilo de Bicêtre e deparandose com a trágica situação dos doentes mentais, tomou para si a reforma assistencial, simbolizada historicamente pela "quebra dos grilhões que mantinham presos os infelizes insanos do espírito" (ARRUDA,

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1962, p. 25). A utilização da ocupação foi, então, introduzida como parte principal de sua reforma, a qual o fez pioneiro na aplicação do trabalho como forma de tratamento do doente mental.

Ao mesmo tempo em que pela metade do século XIX, o tratamento proposto por Pinel era difundido na Europa e na América e firmava raízes, emergia um novo movimento filosófico e científico, à luz do aparecimento de tecnologia mais avançada, resultado da revolução industrial — o positivismo, corrente filosófica determinante da escola de pensamento científico, que se baseava na regra da inquisição e no método científico das ciências físicas: "(...) só é compreensível e possui sentido aquilo que se pode comprovar pela

experiência" (BRUGGER, 1977, p. 323).

A concepção filosófica estava sendo mudada pelo impacto da

tecnologia. Os valores tecnológicos de produção iam assumindo um papel de destaque na visão de mundo, em detrimento dos valores humanitários.

Na área da saúde, ao invés do ambiente, o cérebro é que era objeto de explicação e tratamento da doença mental. Os doentes mentais passaram a ser tratados por meios quimioterápicos e cirúrgicos. Neste momento, as instituições de atendimento aos doentes mentais tornaram-se grandes

laboratórios experimentais. Negligências e abusos eram cometidos em função de investigações comprometidas com a aprovação dos fatores etiológicos na patologia do cérebro.

De acordo com tal situação, o desenvolvimento da ocupação como forma de tratamento, então, declinou de maneira súbita, sendo o tratamento moral eventualmente reaplicado por alguns poucos membros da comunidade médica, compromissados com as tendências humanitárias. Essa fase

perdurou, na América, até 1890 e, na França, até 1906.

Somente nas duas primeiras décadas do século XX é que fatores como o renascimento do tratamento moral e a Primeira Guerra Mundial foram

responsáveis pelo início formal da Terapia Ocupacional.

Em 1915, na América, William Rusch Dunton publicou o livro

Occupational Therapy: a manual for nurses, propondo princípios de aplicação da ocupação no tratamento de doentes mentais. Nascia, então, o termo terapia ocupacional e, simultaneamente, a primeira escola dentro de uma instituição

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acadêmica, no Welwaukee Dower College (1918), seguindo-se uma onda de escolas para formação profissional.

Somente por volta de 1957 surgiam no Brasil as primeiras escolas para formação profissional, respectivamente no Instituo de Reabilitação da

Faculdade de Medicina da USP - SP e na Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação - RJ.

Esse breve histórico da terapia ocupacional tornou-se necessário a fim de tornar público que esta efetivamente não é uma prática nova de saúde, ao contrário, pelo que pudemos observar, remonta ao fim do século passado.

Atividade Humana

Recurso Terapêutico

Nas discussões que temos levado em nossos encontros profissionais (congressos, simpósios e seminários), vemos com frequência, a preocupação de alguns profissionais em procurar caracterizar de forma única e uniforme a terapia ocupacional. Esse fato aparece quando as análises realizadas da prática profissional apontam as diferenças substanciais encontradas entre as práticas dos terapeutas ocupacionais que tratam as mesmas populações.

Existem aqueles que, frente a esse acontecimento, identificam como causa as crises pessoais, outros, uma crise de estrutura teórica que direcione a terapia ocupacional.

Vejo com espanto as conclusões tomadas, pois elas funcionam como mantenedoras da situação, e a questão continua não-desvelada.

É preciso evitar a ilusão de que deixando-se de lado as crises pessoais e encontrando-se uma estrutura teórica única para a terapia ocupacional seja possível sair- se da crise. A ilusão de que basta aparar as arestas (caminhando ao consenso), e tudo se resolve.

Essas não são nem podem ser as formas para dirigir nossa busca de identidade. Mesmo porque não acredito que a simples volta ao passado venha a ser o caminho. Na verdade, quando a terapia ocupacional tinha seu início

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formal, a literatura da área refletia um sentido único de direção, sustentado por princípios teóricos — primeiros princípios — que foram organizados em torno da busca para identificar o significado da ocupação humana.

A partir desses princípios e com o caminhar das ciências, as teorias e as práticas terapêuticas ocupacionais foram absorvendo as filosofias e as

ideologias das diferentes épocas e se transformando, para chegar ao que hoje caracterizamos de diferentes modelos teórico práticos de terapia ocupacional.

Podemos, portanto, dizer que a questão das diferenças encontradas na prática profissional é muito mais uma questão de método.

Sabemos que a terapia ocupacional tem um conjunto de requisitos muito peculiar à sua teoria, à medida que lança mão das diversas ciências para se efetivar..

A ciência, em sua peculiar objetividade, apoderou- se do homem e dividiu-o em grupos de estudos paralelos que, podemos dizer, raramente se encontram.

"Imagine as várias divisões da ciência — física, química, biológica, psicológica, sociológica — como técnicas especializadas. No início pensava-se que tais especializações produziriam, miraculosamente, uma sinfonia. Isto não ocorreu. O que ocorre, frequentemente, é que cada músico é surdo para o que os outros estão tocando. Físicos não entendem sociólogos, que não sabem traduzir as afirmações de biólogos, que por sua vez não compreendem a linguagem da economia, e assim por diante" (ALVES, 1981, p. 12).

Não pretendo, aqui, acusar a ciência ou colocá-la como bode expiatório, ao contrário, quero trazer a questão da "neutralidade" de determinadas

posturas científicas (métodos) que, com o propósito de se aprofundarem no conhecimento do homem, separam-no do contexto em que vive, retalham-no em suas múltiplas formas de capacidades e com isso perdem de vista o homem real e concreto. Assim, "cada ciência supõe-se capaz de decifrar o homem à sua imagem, da astronomia à sociologia, e cria uma filosofia na sua base: para o químico, o organismo humano é apenas um laboratório químico, para o físico, uma concentração de átomos" (BAS-BAUM, 1977, p. 61); cada um desses setores estuda apenas um aspecto, uma parcela do verdadeiro

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homem — aquele homem integral, enraizado em seu mundo, que se realiza, realizando o mundo.

"Mesmo as chamadas ciências sociais — as ciências do homem — transformaram um ser real em objeto (positivismo, existencialismo, humanismo cristão) dilacerando-o em partes, inajustáveis. De ser passou a objeto. Mas objeto metafísico, não-existente, porque despojado de sua vivência, de sua homicidade (homem total) e o reduziram a um animal-que-fala-e-que-trabalha, porque não lhe deram outra perspectiva na terra. Ou o divinizaram

transformando-o em um ser, feito de barro, mas possuidor de uma centelha divina, fora do alcance de si mesmo, incapaz de controlar ou determinar o seu próprio destino" (BASBAUM, 1977, p. 62).

Esta fragmentação é que nos induz a pensar que existe um homem biológico, econômico, político, psicológico, social e assim por diante. Como se trocássemos de pele a cada momento, ora eu sou psicológico, ora sou

biológico, ora social.

E aqui descobrimos uma vez mais a articulação de determinadas posturas científicas com o senso comum, a fim de reafirmar as verdades que são de interesse.

Como nos fala Rubem Alves (1981, p. 50):

"Uma teoria científica tem sempre a pretensão de oferecer uma receita universalmente válida, válida para todos os casos.”

Esta exigência de universalidade tem a ver com a exigência de ordem, sobre que já falamos. Leis que funcionam aqui e não funcionam ali não são leis... Imaginemos a seguinte afirmação sobre o universo dos gansos:

'Todos os gansos são brancos'.

Esta afirmação pretende ser verdadeira para todas as aves em questão.

E se aparecer um ganso verde? A teoria cai por terra... Mas há um jeito de contornar esta dificuldade. Frente ao bicho verde eu digo: 'Isto não é um ganso, mas sim um fanso'. Se o bicho é um fanso, a universalidade da minha

afirmação continua intacta. Mas a que preço? Por meio de artifícios como este se pode preservar uma teoria indefinidamente." (Berenice Rosa Francisco)

É neste emaranhado de ideias que o terapeuta ocupacional, tomando como fio condutor o problema das ciências e suas diferentes visões de

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homem/mundo deve examinar a questão das diferenças encontradas na sua prática profissional. Podendo assim perceber que a falsa neutralidade é sempre escamoteadora de seu compromisso social.

PRIMEIROS PRINCÍPIOS

Os primeiros princípios teóricos que direcionaram a terapia ocupacional foram organizados em torno da busca do significado da ocupação humana.

Esses princípios podem ser resumidos em 03 (três) considerações (cf.

KIELHOFNER, 1982, p. 1266):

• A primeira é que os humanos foram conhecidos como possuidores de uma natureza ocupacional,

• a segunda, que a doença foi vista como possuindo um potencial para interromper ou romper a ocupação,

• A última, que a ocupação foi reconhecida como um organizador natural do comportamento humano, que poderia ser usada terapeuticamente para refazer ou reorganizar o comportamento cotidiano.

O mais influente em fornecer tal perspectiva teórica para a terapia ocupacional foi Mayer psiquiatra americano, que via o organismo humano como possuidor de um princípio de atividade inerente à sua essência.

Segundo ele, "nossa concepção de homem é aquela de um organismo que se mantém e se equilibra no mundo de realidade e efetividade por estar em vida ativa e em uso ativo, isto é, usando e vivendo e agindo sobre seu tempo em harmonia com sua própria natureza e sobre a natureza em seu redor" (cf. KIELHOFNER, 1982, p. 1.266).

Mayer apoia seus princípios no entendimento de homem-organismo, que possui uma necessidade fundamental de ocupar-se, de trabalhar. O trabalho, a ocupação, é visto assim como o alimento e o ar, necessários para a

sobrevivência do organismo humano. A atividade, aqui, mantém a organização e o equilíbrio do corpo, através do ritmo de trabalho, descanso, lazer e sono.

Em complemento a essa visão de homem enquanto indivíduo para a ocupação também foi reconhecido que a espécie humana como um todo,

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confiou sua parte integrante de produtividade para sobreviver. E o lazer foi entendido com uma característica evolucionária que preparava os jovens para a competência da vida adulta, como também um comportamento adulto

necessário para relaxar e recriar o organismo, a fim de este conseguir realizar o trabalho.

ATIVIDADE = EXERCÍCIO

As primeiras mudanças ocorreram com o surgimento de uma nova corrente científica denominada reducionismo, no decorrer dos anos 40 e 50.

Sua influência na área da saúde levou à criação de um modelo médico centrado nos princípios da bioquímica e da biofísica e com a perspectiva psicanalítica da psiquiatria. "A visão do homem era, literalmente, aquela que poderia ser vista através do microscópio, ou pelo escrutínio de mecanismos internos que tinham lugar no divã do analista" (KIELHOFNER e BURKE, 1977, p. 16). A terapia ocupacional, então, sofreu pressão por parte da comunidade médica para assumir perspectiva semelhante, sob a acusação de não

confrontar-se com as patologias — "... o modelo da ocupação que aplicava seus princípios ao comportamento desordenado apenas com base no senso comum não era científico" (WILLIARD e SPACKMAN, 1973, p. 152).

Os terapeutas ocupacionais, sob essa forte e constante pressão, foram levados a resolver uma questão de sobrevivência da profissão: como fazer, ou melhor, o que fazer, para que o instrumento do seu trabalho — o uso da atividade (ocupação, trabalho) — fosse cientificamente aceitável?

Em resposta ao desafio reducionista, surgiu uma nova estratégia de aplicação da ocupação, que resultou na substituição do treinamento de hábitos pela aplicação de exercícios.

"Na restauração da conexão física, o valor da terapia ocupacional reside na participação mental e física do paciente em uma atividade construtiva que fornece o exercício necessário e os ajuda a desenvolver o uso normal da região com deficiência" (WILLIARD e SPACKMAN, 1973, p. 172).

De acordo com essa compreensão, o valor da terapia ocupacional está na obtenção do exercício pela atividade.

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O modelo do homem se adaptando ao meio social, possuidor de uma natureza ocupacional em sua essência, foi substituído por um modelo

mecânico e progressivo linear. O entendimento da ocupação como parte da natureza do homem foi esquecido, devido à necessidade de melhor explicar o uso das atividades.

Tendo em vista a preocupação de sistematização da aplicação da atividade, os terapeutas ocupacionais tornam-se especialistas em exercícios progressivos de resistência, em atividades da vida diária, em suportes

funcionais, no desenvolvimento pré-vocacional etc. À medida que o uso da atividade passou a ser igual a exercício, voltado às partes lesadas do

organismo humano, os terapeutas passaram a tratar patologias, mãos, ombros, quando não articulações, músculos, memória, atenção.

"O objetivo da terapia ocupacional é restaurar o movimento em uma articulação através do uso de atividade construtiva, que relaxa contraturas, elimina aderências, fortalece os músculos enfraquecidos e reduz o edema"

(WILLIARD e SPACKMAN, 1977, p. 151).

A compreensão do uso da atividade com o propósito do exercício específico pressupõe que alguns procedimentos gerais devam ser seguidos, para que se consiga obter sucesso no tratamento. O primeiro procedimento, básico para configurar cientificamente o uso da atividade, é a sua análise.

a) Análise da Atividade

Procedimento que tem como objetivo possibilitar o conhecimento da atividade em seus pormenores, observando-se assim as suas propriedades específicas, a análise parte do pressuposto de ter a atividade uma única estratégia para a sua realização, e esta é que lhe possibilita as propriedades.

Entende-se, então, por propriedades as exigências físicas e mentais próprias da atividade. Nessa perspectiva somente através de uma análise sistemática e meticulosa é que o terapeuta pode identificar qual é o tipo de exercício obtido ao praticar cada movimento requerido para a efetivação da atividade, como também determinar se essa permite graduação em

complexidade e estruturação em fases ou etapas.

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Dentro da proposta de análise da atividade, encontramos os mais variados modelos de roteiros que possibilitam sua realização. Todos eles ressaltam, contudo, que é necessário à realização de cada movimento requerido um certo número de vezes, considerável, anotando- se

cuidadosamente as ações obtidas. Aconselham também que é útil observar outras pessoas trabalhando na mesma atividade, pois uma pessoa pode trabalhar em uma posição completamente diferente da outra, produzindo consideráveis variações nos movimentos ações usadas.

Tal orientação nos leva ao entendimento de que ao realizar-se uma análise a atividade passa, então a ser uma série de ações deixando de lado o todo, a atividade em si. Williard e Spackman (1977, p. 180) afirmam: "Em algumas atividades, a altura do indivíduo afeta ou o exercício obtido. O tipo de ferramenta, a altura relativa da bancada de trabalho, a própria ferramenta ou a cadeira, a posição do indivíduo, o peso ou a forma da ferramenta são fatores que pode produzir diferenças nas ações desejadas ".

b) Adaptação da Atividade

Outro procedimento necessário para o uso da atividade como exercício é a adaptação das atividades ao tratamento. À medida em que se acredita que muitas das atividades usadas em terapia ocupacional não são de valor especial no tratamento dos incapacitados físicos ou mentais devido a não preencherem os critérios necessários para a adaptação ao tratamento.

Considera-se que uma atividade adapta-se ao tratamento quando possibilita que o "paciente" exercite a função lesada. Como Williard e Spackman (p. 174) afirmam no trabalho com pacientes:

"Para uma ocupação ser adaptável como exercício específico, é fraco permitir que o movimento seja localizado principalmente na articulação ou articulações afetadas ou fortalecer certos grupos musculares".

Sabe-se, porque a análise da atividade já nos possibilitou um

conhecimento prévio, que algumas atividades não se adaptam ao tratamento de determinadas patologias, pois não proporcionam o exercício desejado.

Esse princípio determina critérios para a adaptação de uma atividade ao tratamento, os quais podemos resumir nos seguintes:

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1. Que a atividade utilizada proporcione mais ação (movimentos) do que posicionamento,

2. Que a atividade permita sua utilização graduada,

3. Que a atividade possibilite um número considerável de repetições do movimento desejado,

4. Que a atividade permita sua divisão em fases ou etapas.

c) Seleção e Graduação da Atividade

O terceiro procedimento da compreensão da atividade = exercício está no problema de seleção e graduação da atividade, que é certamente

fundamental no entendimento da atividade = exercício, pois de nada vale a análise da atividade se o procedimento subsequente não se efetivar. Os terapeutas ocupacionais que trabalham com o modelo atividade = exercício preconizam que o objetivo primordial de seleção e graduação da atividade é possibilitar a restauração das ações perdidas ou prejudicadas, juntamente com a tolerância ao trabalho e as destrezas especiais.

A seleção de uma atividade para o tratamento deve recair sobre as suas possibilidades de graduação. Isto é, se esta pode ser graduada desde curtos a longos períodos de tempo, desde movimentos grossos a movimentos finos, desde movimentos simples a movimentos complexos, desde a compreensão de instruções simples à compreensão de instruções mais complexas e assim por diante. Uma atividade, portanto, só poderá ser eleita, quando possibilitar graduação.

Cumpre lembrar aqui que a compreensão da atividade exercício pressupõe o uso de atividades estruturadas, pois apenas estas se prestam à análise, adequação e graduação.

Contudo, quando por um acaso se utilizam atividades desestruturadas, elas, ou são transformadas (ganham uma estrutura), ou são simplesmente aplicadas como mera distração para relaxamento do paciente.

Nesse entendimento, portanto, podemos constatar que a atividade estruturada ocupa posição de destaque naturalmente. Cabe aqui, então, trazer a diferença entre atividade estruturada e atividade desestruturada.

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O termo atividade estruturada destina-se a designar aquelas atividades que, por princípio, possuem uma disposição e uma ordenação de partes para compor o todo. A jardinagem, por exemplo, é uma atividade estruturada, pois exige uma série de procedimentos para que possamos efetivá-la.

Em primeiro lugar deve-se eleger o tipo de cultura que se quer realizar (observando-se a época para plantio). Depois, deve-se preparar o solo: afofar, rastelar e adubar. Aí vem o plantio que, dependendo do tipo de cultura,

necessitará ser feito em sementeiras ou diretamente no solo. E, então, há necessidade de cuidados especiais e de irrigação, para que a cultura se desenvolva.

Como podemos observar, a atividade estruturada tem exigências de ferramentas e/ou maquinários apropriados, com uso determinado como

também uma sequência ordenada (começo, meio e fim) sem a qual a atividade não se concretizará.

A atividade "desestruturada", por sua vez, contrapõe-se radicalmente à já descrita anteriormente, visto que não possui disposição e ordenação prévia.

A sua realização pode ocorrer das mais variadas maneiras. Como, por

exemplo, brincadeiras, modelagens, pinturas, desenhos, dramatizações, festas, passeios, esculturas etc. Cada sujeito que realiza qualquer dessas atividades imprime uma forma de fazer própria.

4. Atividade — Produção

"Reagir ou responder rápido é 'melhor' do que responder lentamente;

decidir-se 'rápido' é melhor do que decidir-se vagarosamente" (HOLZKAMP, 1977, p. 169).

É nessa mesclagem da conceituação social para medir o comportamento humano que surge o uso da atividade = produção.

O sistema geral das relações desse tipo de valorização baseia-se evidentemente na concepção de maior ou menor produtividade. Assim, vemos que, juntamente com o conceito social de produtividade, encontra-se um outro critério, o da adaptação. O homem como uma peça dentro do sistema de trabalho social e, além disso, dentro ainda do sistema geral social, no qual ele deve ser levado a não prejudicar o funcionamento perfeito do sistema.

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Tal compreensão advém da teoria geral dos sistemas e da psicologia aplicada ao trabalho.

"Aqui se fala do sistema homem-máquina, dentro do qual o homem aparece mais ou menos claramente como parte mais 'fraca' do sistema. A psicologia cabe então a tarefa de reduzir, ao máximo possível, o fator de interferência humana através do fomento de sentimentos de 'satisfação' com o trabalho, e coisas semelhantes" (HOLZKAMP, 1977, p. 197).

Temos, assim, um exemplo típico do pressuposto positivista na terapia ocupacional. Prever como a atividade pode acontecer (análise da atividade), o que ela pode causar, o que ela pode melhorar ou prejudicar, para prover o comportamento esperado pela sociedade, via um tratamento adequado, eficaz e científico.

A propósito escrevem Reed e Sanderson (1980, p. 1): "O valor da terapia ocupacional reside principalmente na capacidade que o terapeuta ocupacional tem em investigar o desempenho efetivo total de um indivíduo, em termos de habilidades identificáveis e competência, e fazer recomendações no sentido de resolver problemas de desempenho".

Temos então, segundo essa afirmação, em primeiro lugar, o enfoque da atividade como instrumento que permite uma investigação de como a pessoa usa o seu potencial de desempenho; em segundo lugar, a atividade como instrumento que permite capacitar a pessoa, através de treinamento, à realização de uma tarefa com eficiente uso de energia e tempo.

É importante ressaltar, que Reed e Sanderson (p. 1) propõem que o desempenho seja compreendido como um "sistema de interação, no qual muitos componentes devem estar funcionando para produzir resultados satisfatórios. Um desempenho deficiente pode tomar muita energia e muito tempo".

Estamos, então, diante de uma máquina. Todas as engrenagens devem estar em perfeito estado de funcionamento para que a máquina possa cumprir com o seu papel: produzir. Qualquer defeito em uma das peças —

engrenagens —, gera um desequilíbrio que acarreta perda de tempo e de material produzido.

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O homem, aqui é como a máquina. Suas engrenagens são "os

componentes de desempenho de habilidades: motores, sensoriais, cognetores, de relacionamento intrapessoal e interpessoal". Esses componentes são

necessários para o desenvolvimento das "competências ocupacionais" de auto- manutenção, produtividade e lazer. De tal maneira, que a atividade humana (atividade de vida diária, trabalho, lazer) é o produto da máquina-homem.

Observamos, de maneira clara, que os componentes ideológicos

incluídos no modelo atividade = produção são: a recusa em admitir a crítica das estruturas sociais e a forma de trabalho alienado, encorajando ao mesmo tempo uma concepção terapêutica manipuladora.

As atividades são utilizadas com o objetivo de favorecer a produtividade, sendo o desenvolvimento das habilidades o caminho para tal conquista. O propósito é levar o indivíduo a alcançar o objetivo (resolução do problema de desempenho), num tempo menor do que este levaria usando seus próprios recursos somente. Não basta conseguir realizar uma atividade. O fundamental é conseguir realizá-la com perfeição e em um tempo menor, da maneira exigida pelo social.

Trata-se, pois, do emprego da atividade com fins no produto final, onde o processo de execução não é considerado. O produto é a meta; o processo, um simples caminho para atingir a meta.

Nessa mesma perspectiva, Reilly (1979, p. 69) afirma que o "objetivo da terapia ocupacional é encorajar o encontro aberto e ativo com tarefas que razoavelmente pertencem a seu papel de vida".

Reilly focaliza mais especificamente o papel produtivo do indivíduo, como ponto nodal em torno do qual a terapia ocupacional deve centrar seus esforços terapêuticos.

A proposta de Reilly aproxima-se da teoria da recapitulação da ontogênese proposta por Mosey.

Essa teoria afirma que, através do terapeuta ocupacional, uma

"variedade de experiências indutoras de crescimento é fornecida, experiências essas que permitirão ao indivíduo desenvolver aquelas capacidades,

habilidades e destrezas necessárias para uma vida satisfatória e produtiva"

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(MOSEY, 1979, p. 140). Partindo do princípio que diz que "uma vida confortável e produtiva requer capacidade de adaptação" (p. 146).

Quando as habilidades adaptativas, necessárias à participação em papéis sociais, não são aprendidas, a interação no sistema social tende a ser improdutiva e inconfortável para o indivíduo.

Segundo esses autores, o uso da atividade como produção também requer procedimentos como análise da atividade, graduação e compatibilidade com as condições sociais do cliente. Entretanto, falamos agora de uma

situação diferente da que vimos na atividade = exercício. Estamos tratando da atividade = trabalho repetitivo, trabalho a nosso ver "taylorizado", cuja

organização se faz de forma rígida, com o propósito do aumento de produtividade.

Torna-se ainda importante ressaltar que, na ciência da organização da produção criada por Taylor, a prática se contrapõe à teoria, e que o único sentido dessa contraposição ou separação é a oposição que, em um regime capitalista, existe entre o trabalho intelectual e o trabalho manual.

A análise da atividade, aqui, recai sobre as habilidades componentes necessárias para a conclusão bem-sucedida, permitindo que o terapeuta examine em detalhes as etapas ou procedimentos de uma atividade ou tarefa.

Considerando-se que muitas atividades são complexas e exigem muitas etapas e unidades de comportamento para realizá-las, somente a análise pode permitir um exame de cada etapa numa sequência de exigências, o que por sua vez permite a visualização das etapas que o paciente deve realizar e das que não deve.

Nessa forma de compreensão e utilização da atividade, encontramos muito bem caracterizado que ao paciente só lhe é permitido o fazer mecânico, ficando o saber como propriedade do terapeuta, configurando-se, assim, a dicotomia entre elaboração (trabalho intelectual) e ação (trabalho manual).

5. Atividade = Expressão

Os Fidler e os Ázima foram os precursores, nas décadas de 50 e 60, do entendimento psicodinâmico da ação em terapia ocupacional. A compreensão

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de que o fazer humano é carregado de conteúdo simbólico foi o caminho percorrido pelos autores.

Essas ideias foram organizadas em torno da teoria psicanalítica freudiana. Mais especificamente em torno das relações objetais.

Partindo do questionamento à expressividade contida nas ações, argumentavam, esses autores, que deveria ser evidente a oportunidade

existente para a expressão de sentimentos, atitudes, idealizações, em um nível não-verbal, na compreensão do inconsciente, à medida que as atitudes,

emoções e ideias mostradas na ação são "menos passíveis de vir sob a defesa de mecanismos de representação intelectuais mais concretos" (FIDLER e FIDLER, 1960, p. 13).

Na perspectiva da ação ser mais reveladora do inconsciente que a palavra, a atividade ganha uma dimensão de expressividade, simbolismo.

Quando se usa a terapia ocupacional "como processo psicoterapêutico, deve seguir-se necessariamente que o produto sendo feito e o trabalho de fazê-lo são considerados secundários ao julgamento de como o produto e o processo de fazê-lo afetam suas relações com os outros. A ocupação passa então a ser a ferramenta da manipulação de suas relações com outras pessoas e não o objetivo primordial em si" (FIDLER e FIDLER, p. 14).

Em outras palavras, para os autores, o valor do uso da atividade simplesmente não está na dinâmica da atividade, mas na psicodinâmica da ação do sujeito que a realiza. Tornando-se dessa forma mais importante e mais significante que a atividade em si a relação que o executante estabelece, de maneira que a realização de uma atividade serve ao propósito da inter-relação.

Ao mesmo tempo em que afirmam a expressão de sentimentos, atitudes e ideias através da execução da atividade, dão importância central ao

estabelecimento de um relacionamento terapeuta paciente.

Como podemos observar nas palavras dos Fidler (p. 17) — "as modalidades disponíveis numa situação de terapia ocupacional são, em primeiro, a relação entre o terapeuta e o paciente, em segundo, a atividade".

Aqui a atividade, assim como o terapeuta, são recursos terapêuticos, para os quais o paciente pode agir e reagir.

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Para que se possa melhor compreender o uso da atividade enquanto meio de expressão, tomaremos por base as expressões que definem tal uso encontradas nos trabalhos desses autores.

Temos então: livre produção, material projetivo, criação livre, criação dirigida.

O termo livre produção, refere-se às atividades que não possuem de início uma estrutura, como, por exemplo, a argila, como também àquelas que podem ter forma definida (escultura, pintura).

O princípio para a compreensão da livre produção é o de liberdade de escolha do objeto/material e técnica de manipulação. Aqui a escolha e o caminho para a realização da atividade são feitos pelo próprio paciente, sem a interferência do terapeuta.

A livre produção é mais comumente utilizada com propósito diagnóstico, pois fornece dados sobre o indivíduo que a realiza. "Faz operar os modos tátil e corporal das relações objetais..., aumentando o acesso à projeção (AZIMA e AZIMA, 1979, p. 117). Nesse contexto, passam então a constituir o que os autores denominam material projetivo.

Para a aplicação do material projetivo, Ázima e Ázima mais

detalhadamente que os Fidler, propõem alguns critérios e procedimentos que devem ser observados. São divididos em quatro fases.

A primeira fase, a preparação, diz respeito basicamente à maneira de o paciente abordar o objeto, que objeto seleciona e as atitudes para com as pessoas que estão vivendo o processo com ele (terapeuta e pacientes).

A segunda fase, de produção e acabamento, compreende o processo vivenciado pelo paciente, desde quando inicia a manipulação dos objetos disponíveis, numa certa direção, na construção ou destruição. Esta fase pode ser dividida em duas sub-fases: de livre criação e de criação dirigida.

Na fase de livre criação, o paciente é deixado livre frente aos objetos, para escolher e proceder como quiser.

Portanto não há direcionamento por parte do terapeuta. Na fase de criação dirigida, um objeto é definido pelo terapeuta e selecionado para o paciente. A partir do objeto, que lhe é oferecido este é deixado livre para sua manipulação.

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Na terceira fase, denominada associação, o paciente, após terminada a sua criação, é levado a fazer livre-associação sobre o objeto.

A quarta e última fase, de interpretação, caracteriza-se pelo momento em que, após criado o objeto e efetuadas as associações livres, o terapeuta passa a interpretar os acontecimentos.

Ressaltam os autores que a interpretação nesse momento deve ser compreendida enquanto interpretação diagnostica, não terapêutica.

Até agora falamos das atividades que podem ser entendidas enquanto desestruturadas, porém tanto os Fidler quanto os Ázima acreditam que os objetos mais claramente definidos e estruturados, ou seja, as atividades estruturadas, possibilitam experiências de manipulações úteis, pois essas atividades oferecem numerosas oportunidades de comunicação e expressão.

O modo de o paciente segurar e usar um determinado objeto, o

significado da escolha de uma atividade ou projeto assim como a natureza de suas ações são compreendidos pelos autores como claros indícios de suas defesas e problemas interpessoais. Essas são questões que podem ser investigadas e trabalhadas com o uso de atividades estruturadas.

Aqui as atividades estruturadas têm valor pela relação e limites que determinam o fazer.

Outra compreensão da atividade expressiva aparece nos trabalhos desenvolvidos pela psiquiatra e terapeuta ocupacional Nise da Silveira;

segundo ela, o atelier de pintura a "fez compreender que a principal função das atividades na terapêutica ocupacional seria criar oportunidade para que as imagens do inconsciente e seus concomitantes motores encontrassem formas de expressão" (1981, p. 13).

Essa autora acredita que as atividades plásticas (expressivas) permitem ao homem proceder ao relacionamento e à fixação das coisas significativas, tanto nas suas experiências internas quanto nas externas.

Nise fundamenta seu trabalho na psicanálise junguiana, compartilhando com Jung a ideia de que, por intermédio da pintura, "o caos aparentemente incompreensível e incontrolável da situação total é visualizado e objetivado (...) O efeito deste método decorre do fato de que a impressão primeira, caótica ou aterrorizante, é substituída pela pintura que, por assim dizer, a recobre. O

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tremendum é exorcizado pelas imagens pintadas, torna-se inofensivo e familiar e, em qualquer oportunidade que o doente recorde a vivência original e seus efeitos emocionais, a pintura interpõe-se entre ele e a experiência, e assim mantém o terror à distância" (apud SILVEIRA, 1981, p. 135).

Segundo tal compreensão, as atividades de pintura e desenho

(expressivas) permitem ao doente viver um processo que lhe possibilitará dar forma às desordens internas vividas. De maneira que são instrumentos que permitem ao mesmo tempo organizar a desordem interna e reconstruir a realidade, pois, na medida em que as "imagens do inconsciente" vão sendo objetivadas nos desenhos e pinturas, tornam-se possíveis de serem tratadas.

ATIVIDADE = CRIAÇÃO, TRANSFORMAÇÃO

a) Visão marxista do homem e da natureza

Como se sabe, Marx não se ocupou com o desenvolvimento da evolução humana num plano individual, ao contrário, ele procurou estudar o desenvolvimento da relação entre homem e natureza sem, entretanto,

confundi-lo com ela. De acordo com o seu pensamento, o homem é um ser que por essência necessita objetivar-se de modo prático, material, produzindo um mundo humano. Através da produção, o homem projeta-se no mundo dos objetos produzidos por seu trabalho, assim como integra a natureza no mundo humano, convertendo-a em natureza humanizada.

Para Marx, o desenvolvimento do homem na história é determinado por contradições permanentes em seu curso. A evolução humana ocorre, portanto, dentro da história, sendo a história compreendida como "o processo da criação do homem por si mesmo, pela evolução, no processo de trabalho" (FROMM, 1979, p. 33.).

"O homem se define essencialmente pela produção, e desde que começa a produzir, o que só pode fazer socialmente, já está na esfera do humano" (VASQUEZ, 1977, p. 420). Dessa forma, um entendimento do comportamento individual jamais pode ser concebido a não ser como produto social. Pois, de modo contrário, estaremos concebendo os indivíduos

isoladamente, e o caráter social reduz-se apenas à retirada de algumas de

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suas características comuns elevadas ao nível da natureza universal, comum a todos.

Concluindo, a concepção marxista do homem e da natureza nos traz a luz do entendimento do homem enquanto ser social e histórico, homem que produz, cria e transforma a natureza e a si mesmo, através do seu trabalho.

b) Atividade humana: a práxis

Adolfo Sanches Vásquez procura distinguir a atividade propriamente humana da atividade em geral, com o propósito de esclarecer a afirmação:

"Toda práxis é atividade, mas nem toda atividade é práxis".

Atividade em geral é entendida como o ato ou conjunto de atos em virtude do qual um sujeito ativo (agente), que pode não ser humano, que efetivamente age ou atua modificando uma determinada matéria-prima, traduzindo-se num resultado ou produto, que é essa matéria mesma já transformada pelo agente. Enquanto "atividade propriamente humana só se verifica quando os atos dirigidos a um objeto para transformá-lo se iniciam com um resultado ideal ou finalidade e terminam com um resultado ou produto efetivo real" (VASQUEZ, p. 187).

De acordo com esse entendimento, as atividades biológicas e instintivas não podem ser consideradas como especialmente humanas, pois estas não transcendem o seu nível meramente natural. A atividade humana é então aquela que "se desenvolve de acordo com finalidades, e essas só existem através do homem, como produtos de sua consciência..." (grifo nosso) (VÁSQUEZ, p. 189). Dessa maneira, a atividade da consciência deve ser compreendida como a relação entre o pensamento e a ação, mediados pela finalidade a qual o homem se propõe.

A intervenção da consciência é que distingue a atividade propriamente humana de outras meramente naturais, é ela que faz o resultado apresentar-se duas vezes e em tempos diferentes — como resultado ideal, como produto real.

A atividade prática como atividade propriamente humana se manifesta no trabalho, na criação artística ou na práxis revolucionária. Através desse entendimento, podemos dizer que a atividade prática, portanto, é real, objetiva ou material. "O objeto da atividade prática é a natureza, a sociedade, ou os

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homens reais. A finalidade dessa atividade é a transformação real, objetiva, do mundo natural ou social para satisfazer determinada necessidade humana"

(VASQUEZ, p. 194).

Como se sabe, a práxis pode assumir diversas formas, dependendo da matéria-prima sobre a qual a atividade prática é exercida. Entretanto nos detemos, em apenas duas formas, as que consideramos fundamentais: práxis produtivas e práxis criadora.

A atividade prática produtiva é aquela que se efetiva mediante o trabalho do homem com a natureza. Entretanto, sendo o homem um ser social, notemos que esse processo só se realiza em determinadas condições sociais.

Através do trabalho, o homem transforma um objeto de acordo com uma finalidade utilizando-se de meios ou de instrumentos adequados e, ao

materializar uma finalidade, ele se objetiva no produto.

"A práxis produtiva é assim a práxis fundamental, porque nela o homem não só produz um mundo humano ou humanizado, no sentido de um mundo de objetivos que satisfazem necessidades humanas e que só podem ser produzidos à medida que se plasmam neles finalidades ou projetos humanos, como também no sentido de que na práxis produtiva o homem se produz, forma ou transforma a si mesmo" (VASQUEZ, p. 197-8).

Uma outra forma de práxis é a criadora, onde a finalidade não mais é determinada por uma necessidade prático-utilitária, mas por uma necessidade humana de expressão e objetivação. O homem é um ser que em suas relações necessita estar sempre encontrando novas soluções para as situações de vida que se apresentam. Desta forma, tem de estar constantemente inventando ou criando na medida de suas necessidades — "Ele só cria por necessidade; cria para adaptar-se às novas situações ou para satisfazer novas necessidades"

(VÁSQUEZ, p. 248).

No verdadeiro processo criador, a relação entre atividade da consciência e sua realização "se apresenta de modo indissolúvel" (p. 248).

A materialização como resultado, numa prática criadora, não se reduz a uma simples duplicação do que já idealmente pré-existia. Nesse processo, a finalidade estabelecida pela consciência se apresenta como finalidade aberta, fazendo que o processo prático se realize de forma aberta e ativa. Sabemos

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que o resultado definitivo pré-existia idealmente, contudo "o definitivo é

exatamente o real e não o ideal (projeto ou finalidade original)" (VASQUEZ, p.

249).

Portanto, a finalidade original só pode se transformar no decorrer de um processo ao final do qual não se alcança tudo o que se havia projetado.

A práxis criadora é, portanto, aquela onde há uma unidade entre finalidade da consciência e seu resultado — unicidade e irrepetibilidade do produto.

Torna-se ainda importante ressaltar que nessas práxis a prática não se contrapõe à teoria e que o único sentido existente dessa contraposição ou separação entre teoria e prática é a oposição que existe entre o trabalho intelectual e o trabalho manual, em um regime capitalista.

c) A importância da concepção marxista da atividade humana para a terapia ocupacional

O terapeuta ocupacional lida com um homem real, que apresenta conflitos advindos de um mundo da primazia do trabalho enquanto maior lugar onde se cristaliza a exploração humana. Nesse mundo, o homem é alijado da verdadeira compreensão de suas atividades práticas, quaisquer que sejam elas. Portanto, se existe uma profissão que se propõe trabalhar com as dificuldades e os problemas enfrentados pelo homem no transcorrer da sua vida, esta deve estar compromissada com um entendimento da atividade humana somente enquanto práxis, pois de outra maneira estará apenas reforçando a divisão entre trabalho teórico e trabalho manual.

À nosso ver, a terapia ocupacional deve oferecer ao indivíduo um atendimento voltado às questões não apenas da disfunção mas,

principalmente, do homem enquanto ser essencialmente social, através do entendimento da relação homemnatureza, oriundo da sua atividade prática. A participação do cliente nesse processo é exatamente o oposto de passivo. Ele, ao contrário, é um agente-ativo, fazedor de suas mudanças, partner em terapia.

A compreensão da terapia ocupacional, através dessa prática, nos faz acreditar num significado de terapia que leva o homem a lidar com sua

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realidade de vida, podendo assim promover a transformação de si mesmo e do meio social no qual está inserido.

Concepção "Ingênua" e Concepção Crítica da Terapia Ocupacional

Quando nos preocupamos em explicar o processo de terapia

ocupacional, corremos o risco de apresentá-lo sob apenas uma perspectiva, o que remeteria à questão de uma verdade única, universal.

Poderíamos aqui apresentar as diferentes formas de processos de terapia ocupacional, sob a ótica das técnicas específicas de cada um deles, os quais, à guisa de ilustração, podemos mencionar: desenvolvimentista,

psicodinâmico, comportamental, cinesiológico, integrativo sensorial, de aprendizagem, de estimulação precoce etc.

Entretanto, observamos que sob esta ótica a tarefa torna-se um tanto complicada, pois sobrevêm o risco de nos perdermos num emaranhado de formas, identificando sê-as tantas quantos são os terapeutas ocupacionais que porventura se conseguir enumerar.

Uma análise dessa natureza só poderia ser efetuada se investigássemos o processo de terapia ocupacional à margem do contexto social em que é realizado.

Portanto, para evitar os riscos apontados, vamos trabalhar com as visões de homem, de sociedade e sua relação com o processo de terapia ocupacional.

Quando tratamos de indagar, sob essa perspectiva, como acontece o processo terapêutico ocupacional, chegamos a um ponto onde aparecem, em linhas gerais, três posições opostas e, ao que parece, inconciliáveis.

Temos então que, para a primeira posição, o processo acontece de forma natural, espontaneamente, na situação entre terapeuta e cliente, mediatizada pela atividade. Para a segunda, o processo é um artifício das rígidas condições em que se desenvolve, às quais o paciente tem de adaptar- se. Para a terceira, o processo é por definição criativo, transformador,

questionador do contexto em que se efetiva.

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Tais posições foram encontradas quando investigamos como é visto o homem e a sociedade — a primeira posição toma como pressuposto a concepção humanista; a segunda, a concepção positivista; e a terceira, a concepção dialética.

Vejamos como cada uma das posições se apresenta.

MODELO DO PROCESSO DE TERAPIA OCUPACIONAL HUMANISTA A principal característica do trabalho, nesse modelo, é a inexistência de padrões preestabelecidos para o seu desenvolvimento. Isto é, não há uma sequência de fatos ou procedimentos a seguir. Portanto, as conhecidas e tão consagradas divisões do processo de terapia ocupacional em

encaminhamento, entrevista inicial, avaliação, elaboração de programa de tratamento, intervenção, etc., aqui não têm lugar.

O terapeuta parte do pressuposto que ninguém melhor que o cliente para determinar os caminhos a percorrer para retomar uma vida saudável, o estado de saúde. Tal fato advém da crença num homem que é único.

A saúde é concebida como um estágio de equilíbrio na relação do homem com seu ambiente; a doença, portanto, decorre do desequilíbrio nessa relação.

Nessa concepção, a "saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de afecção ou doença".

O processo é centrado na relação terapêutica, tornando-se a relação, portanto, o instrumento de trabalho do terapeuta ocupacional. Busca-se criar um ambiente acolhedor, onde o cliente possa descobrir-se e encontrar-se com o outro.

O cliente traz à sua maneira de viver, a história de suas aprendizagens e o clima afetivo no que se tem realizado. Cabe ao terapeuta a tarefa de tomar essa relação como medida, ser o facilitador para a aprendizagem de novas formas, oferecendo um modelo de relação, onde seja possível aprender,

ensaiar, errar, ensinar, realizar no aqui e agora aquilo que em outro espaço não teve lugar.

A atividade também é compreendida enquanto um outro, concreto e com linguagem própria, linguagem que o cliente em ocasiões deverá escutar.

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Possibilita-se, assim o reconhecimento desse caminho de idas e vindas, caminho no qual não mais ocupará um lugar passivo, ao contrário, um novo caminho.

Dentro desses princípios, o primeiro encontro entre terapeuta e cliente tem por propósito o esclarecimento de questões como: o porquê de procurar a terapia, quais as expectativas e que tipo de ajuda pode ser oferecida ao cliente.

Após explicitar essas questões, o caminho a seguir tanto pode ser pela

continuidade da entrevista (primeiro contato) como pela inserção do cliente na realização de uma atividade.

Voltamos a ressaltar, não existe um momento específico para a

realização de uma avaliação; esta acontece a cada encontro (atendimento), é contínua, acompanha o processo. Aqui, as observações constantes substituem as tradicionais provas e testes. Quando porventura o terapeuta propõe o uso de algum instrumento de investigação, o objetivo é o de possibilitar o

conhecimento de como o cliente se coloca no mundo e que imagem tem de si, da sua existência.

Os primeiros contatos permitem ao terapeuta elaborar, configurar uma imagem do cliente, esboçar quem é o cliente e quais os seus desejos, suas vontades. Esse referencial, dado pelo cliente (expresso ou percebido) irá permitir a direção a ser tomada no processo.

É na conjugação do perfil do cliente aos seus desejos em confronto com a sociedade no tocante ao que esta lhe oferece como também ao que espera dele que o terapeuta esboça as características das atividades a serem

realizadas.

No transcorrer dos encontros, permanece a preocupação com as observações para maior conhecimento do cliente, juntamente com o processo de tratamento.

O processo de terapia ocupacional visa, assim, ao autoconhecimento, o qual é trabalhado através da realização de atividades e reflexões com respeito tanto às relações estabelecidas no decorrer de cada encontro, como a esse fazer.

Nesse modelo de processo, aconselham-se os atendimentos grupais, pois essa é a forma mais constante de estar no mundo. Entretanto, o trabalho

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de grupo aqui tem a conotação do que costumamos chamar em terapia ocupacional de grupo de atividades.

O grupo de atividades é uma forma de trabalho grupai, onde várias pessoas são atendidas num mesmo espaço, cada qual desenvolvendo o seu próprio projeto, compartilhando, entretanto, uma mesma dinâmica interpessoal.

O fazer, nessa situação, é discutido em termos das relações acontecidas consigo e com os outros participantes, como, por exemplo, as relações de cooperação.

A essa altura, pode-se perguntar pelo referencial utilizado pelo terapeuta para efetivar o processo terapêutico ocupacional.

Observa-se que nesta proposta de trabalho, o terapeuta é um profundo conhecedor das relações humanas, um especialista no assunto. De forma que procura desenvolver duas características importantes sob a ótica humanista. A primeira é a de uma constante curiosidade quanto às formas de relação e soluções dadas pelo homem aos problemas enfrentados no seu cotidiano. A segunda é uma atitude criativa, que permitirá lidar com os problemas,

propondo-lhes novas soluções, isto é, trabalhar com as informações de maneira a reunir os elementos não usuais para procurar compreender e resolver as situações apresentadas. Vê-se, portanto, que aqui os métodos usuais de terapia ocupacional são postos em segundo plano em favor de prevalecer quase que exclusivamente o esforço do terapeuta no

desenvolvimento de um estilo próprio de manejo terapêutico, a fim de ser um facilitador do processo vivido pelo cliente.

A aquisição dessas características depende de um autoconhecimento, o que favorece ao terapeuta a utilização de si próprio como instrumento

terapêutico.

Sua função restringe-se a ajudar o cliente a se organizar para viver as situações onde seus sentimentos e ações possam ser expostos, vívidos, sem ameaças.

O objetivo do trabalho é, assim, favorecer os processos de

relacionamento interpessoal e autoaprendizagem, como condição primeira para o crescimento pessoal.

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Referências

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