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O complexo industrial-militar e o Estado brasileiro ( )

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Academic year: 2022

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Renato Luís do Couto Neto e Lemos*

O objetivo deste texto é apresentar resultados preliminares da pesquisa “O complexo industrial˗militar brasileiro”, em andamento no âmbito do Laboratório de Estudos sobre os Militares na Política (LEMP), da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Como é sabido, a expressão “complexo industrial˗militar” alcançou notoriedade depois que, em janeiro de 1961, o general Dwight D. Eisenhower, presidente dos Estados Unidos (1953-1961), o mencionou em seu discurso de despedida do cargo. Temeroso, ele se referiu à poderosa articulação entre militares e o segmento industrial voltado para a produção de material bélico a que ele chamou de “nova fase do poder político” nos EUA.

Para ele, o complexo industrial-militar, a pretexto de vencer a corrida armamentista com a União Soviética, demonstrava grande capacidade de manipular o orçamento nacional em favor da indústria bélica, o que estaria colocando em risco a democracia no país.

Naturalmente, as conexões entre a indústria bélica e o Estado irá variar de acordo com diversas características e com o momento histórico de cada sociedade. A pesquisa de que este texto faz parte pretende cobrir os desdobramentos das relações entre o setor industrial voltado para o mercado de defesa e segurança e o Estado brasileiro de 1964 até os dias atuais. Contudo, o meu tema específico, aqui, é a formação de um eixo empresarial-militar de suporte ao regime ditatorial construído no Brasil a partir do golpe que deu fim ao governo de João Goulart e início à construção de um novo formato de Estado.

Parto, aqui, da hipótese específica de que as relações entre segmentos empresariais, a operação golpista contra João Goulart e as estruturas do Estado pós-1964 constituem uma das expressões mais significativas da participação civil no regime ditatorial. Fundamental para o avanço do conhecimento a respeito dos conteúdos sociais

* Doutor em História. Professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Coordenador do Laboratório de Estudos sobre os Militares na Política (LEMP-UFRJ).

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do regime classista, o papel dos empresários no seu interior apresentou, certamente, modos e ritmos variados, em especial em função das diversas conjunturas econômicas.

Mas, terá sido orientado, também, por questões – comuns aos dirigentes militares do regime ‒ ligadas diretamente à luta de classes, tanto no plano nacional quanto no internacional, em especial, o anticomunismo.

As informações disponíveis sobre articulações entre empresários e militares anteriores a 1964, com objetivos políticos, remetem à existência do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES). Criado em 29 de novembro de 1961, embora fundado oficialmente em 2 de fevereiro do ano seguinte, no Rio de Janeiro, o IPES resultou da fusão de grupos de empresários organizados na ex-capital federal e em São Paulo.

Empresários de vários outros estados rapidamente aderiram à iniciativa.

A sensibilidade para os temas da luta contra o comunismo e da necessária comunhão entre as Forças Armadas e o setor industrial foi um dos principais elementos ideológicos a uni-los. Isto já se evidenciou na iniciativa da representação corporativa da burguesia industrial paulista, que promoveu, em abril e maio de 1962, no âmbito do Fórum Roberto Simonsen ‒ seção cultural do Centro e Federação das Indústrias de São Paulo ‒, um “ciclo de conferências sobre segurança nacional” em que civis e militares foram palestrantes os generais Aurélio de Lira Tavares,1 Humberto de Alencar Castello Branco2 e Edmundo de Macedo Soares e Silva3 e o engenheiro Otávio Marcondes Ferraz4. As conferências foram publicadas em livro, cuja “Apresentação”, de autoria de Humberto Reis Costa, dedica metade de suas páginas a enaltecer a identidade entre indústria e exército, entre industriais e militares (Fórum, 1962).

Segundo revelaria, em 1972, o engenheiro Quirino Grassi, cuja família era proprietária de uma fábrica de carrocerias de bondes e ônibus, “empresários paulistas [...]

1 Que viria a exercer, entre outros cargos de destaque durante o regime ditatorial pós-1964, o de ministro do Exército e, nesta condição, membro da Junta Militar que assumiu o Executivo depois do impedimento do marechal presidente Artur da Costa e Silva, em 1969. Ver COUTINHO (2001).

2 Que viria a ser o primeiro militar a ocupar a Presidência da República após o golpe de 1964.

3 Militar com longa tradição de militância em assuntos ligados à indústria bélica, presidiu a Confederação Nacional da Indústria (CNI) em 1964-1968 e, durante a ditadura, foi titular do Ministério da Indústria e Comércio de 1967 a 1969. Ver ABREU (2001).

4 Engenheiro com ampla experiência nas áreas de transporte e energia, participou, ainda no governo de João Goulart, dos projetos iniciais para a construção da usina de Itaipu. Após o golpe de 1964, exerceu o cargo de presidente da Eletrobrás durante o governo Castelo Branco (1964-1967) e filiou-se à Aliança Renovadora Nacional (Arena) partido de sustentação do regime ditatorial. Ver “Otávio Marcondes Ferraz”.

In: ABREU (2001).

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espontaneamente colaboraram para a consecução do movimento revolucionário que eclodiria em março de 1964”.5

Não tão espontaneamente, por certo. Os objetivos e a estrutura do grupo foram objeto de elaboração conjunta entre empresários do IPES e oficiais da Escola Superior de Guerra (ESG) (DREYFUSS, 1981: 453). O grupo teve, inicialmente, uma existência informal. A sua função imediata teria sido o fornecimento de armas e equipamentos militares aos golpistas de São Paulo. E, também, servir de base logística em operações de troca de informações e de repressão a pessoas consideradas perigosas, por terem vínculos com o governo de João Goulart (1961-1964) ou com o comunismo.

O grupo, ainda segundo Grassi, teria começado a atuar de forma organizada em inícios de 1963 para “prestar um trabalho visando a defesa de nossos ideais democráticos e cristãos”. Esse núcleo “articulou-se junto à presidência da Fiesp, [...] o governador do Estado [Ademar de Barros], oficiais superiores do II Exército e o comandante da Força Pública” e “iniciou a preparação do que seria o movimento vitorioso de 1964”.6

Associados a oficiais do II Exército, sediado na capital paulista, os conspiradores precisaram, segundo depoimento prestado por Paulo Egídio Martins7 em 2006 (MARTINS 2007: 172-173), recuperar as condições operacionais desta grande unidade militar. Os empresários industriais do estado a abasteceram com veículos, peças de reposição e equipamentos variados. Para isso, foi criado um grupo de “mobilização industrial”, no âmbito da FIESP. Em declarações mais recentes, prestadas à Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo,8 Paulo Egídio disse que seria “difícil encontrar alguém que não tenha financiado a conspiração” e que os empresários usavam dinheiro de “caixa dois” para fazer as doações: “Ninguém doava dinheiro de lucro”.

Em São Paulo, os últimos arranjos para o golpe contaram com a participação de empresários do setor industrial, tanto estrangeiros quanto nacionais e de portes variados.

No próprio dia 31 de março, prestaram algum tipo9 de colaboração ativa ao movimento,

5 Citado em Folha de S. Paulo, 1 de junho de 2014.

6 Folha de S. Paulo, 1 de junho de 2014.

7 Ministro da Indústria e Comércio de 1966-1967 e governador de São Paulo de 1975-1979. Sobre a sua trajetória política, ver DEZOUZART, 2010.

8 Citado em http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2013/11/ex-governador-afirma-que-herzog- pode-ter-sido-morto-para-desestabilizar-ditador-geisel-6635.html Acesso em 8 de julho de 2014.

9 “Veículos, pneumáticos, baterias, remédios, caminhões e uma infinidade de materiais e equipamentos, cujo montante ultrapassou a NCr$ 1.000.000 (hum milhão de cruzeiros novos)”, segundo informações prestadas, poucos anos depois, por um membro da FIESP em palestra proferida na Escola Superior de Guerra (ESG). Corrigido pelo IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas, o valor corresponderia a R$ 5 milhões.

Folha de S. Paulo, 1 de junho de 2014.

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pelo menos, 52 empresas. Entre elas, Atlantic, B.F. Goodrich, Brasital S/A, Cia. de Acumuladores Prest-O-Lite, Cia. de Cigarros Souza Cruz, Dunlop, Duratex S/A Indústria e Comércio, Duratex S.A., Esso Brasileira de Petróleo, Eucatex S/A Indústria e Comércio, Johnson & Johnson, Firestone S/A, Good Year, Moinhos Santista S/A, Pfizer Corporation do Brasil, Pirelli S/A, Pneus General, Serraria Americana Salim F. Maluf, Texaco do Brasil S/A e Volkswagen do Brasil (FIESP/CIESP, 1970). Destas, pelo menos, a Cia. de Cigarros Souza Cruz, a Eucatex S/A Indústria e Comércio, a B.F. Goodrich e a Pirelli S/A mantinham laços diretos com o IPES (DREIFUSS, 1981: 72, 95, 182, 194, 198, 207, 364, 426 e 433) .

Já vitoriosa a operação golpista, no dia 30 de abril formou-se oficialmente, no interior da FIESP, o Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI) (SILBERFELD, 1984: 1). É a própria entidade que explica:

Da conscientização das dificuldades operacionais das Forças Armadas, aliada à adequação do momento político e ao apoio das organizações militares, sediadas no Estado de São Paulo, e com o aval dos ministérios militares, assim como do Estado-Maior das Forças Armadas (EMFA), surgiu o GPMI da FIESP. Esse tinha por incumbência servir de intermediário no relacionamento indústria-forças armadas, no esforço de alertar a Indústria Nacional, compreendida como a totalidade do parque industrial instalado no território nacional, de que o preparo permanente da Mobilização Industrial é a única solução para o país estar adequadamente preparado para situações excepcionais. (FIESP/CIESP, 1970)

Entre 1964 e 1967, O GPMI atuou em estreita cooperação com o governo do presidente marechal Humberto Castello Branco. Foram criadas comissões de trabalho, integradas por civis e militares, e tomadas várias iniciativas no sentido de incrementar a produção de bens considerados necessários à manutenção da capacidade operacional das Forças Armadas e suas auxiliares, como a Força Pública de São Paulo (FIESP/CIESP, 1970).

Há indicações sobre a participação de membros do GPMI no financiamento e na montagem, em 1969, do centro de repressão conhecido como Operação Bandeirantes (OBAN). Isso constituiria uma linha de continuidade, desde o golpe, na relação de empresários com a estrutura coercitiva do regime ditatorial.

Conclusão

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Do ponto de vista estrutural, a formação de um complexo industrial-militar após 1964, no Brasil, teve vários significados. Talvez o mais geral tenha sido o de, na década de 1960, integrar o Estado brasileiro no padrão mais avançado do capitalismo internacional, também nesta área de configuração relativamente recente, com os EUA na liderança.

Internamente, o complexo industrial˗militar assumiu, no período, a feição do GPMI, que pode ser entendido ˗ acompanhando Antonio Gramsci ˗ como expressão do Estado integral ou ampliado no Brasil. A partir da sua conexão orgânica com as Forças Armadas, as empresas se integraram às funções do Estado na área da segurança nacional.

Contudo, é necessário observar que este movimento empresas˗Estado se iniciou em uma conjuntura política muito específica. Há uma singularidade histórica no regime político que emerge da correlação de forças políticas e militares estabelecida no processo que vai da conspiração à tomada do Estado pela aliança golpista. A natureza empresarial- militar desta aliança se explica por dois dos principais móveis da sua ação política:

preservar a ordem capitalista interna diante de supostas ameaças comunistas e ajustar o sistema estatal à dinâmica do capitalismo mundial.

A construção de um complexo industrial˗militar é bem a síntese desse duplo objetivo. Foi para atingi-los que frações de classes sociais e segmentos da oficialidade militar com elas alinhados ideologicamente passaram a articular as estruturas de um novo tipo de regime político, isto é, uma nova forma de dominação de classes. A dinâmica deste regime explica, fundamentalmente, a natureza do Estado cujo perfil começa a esboçar-se já nos primeiros dias após o golpe, com a edição do Ato Institucional de 9 de abril.

A conexão empresarial-militar é um dos fundamentos desse regime. Ela dá sentido às políticas econômico-financeiras dos diversos governos militares. Mas, também, dá um sentido social à política repressiva adotada pelo Estado e orientada pela Doutrina de Segurança Nacional. Os liames entre interesses empresariais e repressão estatal ganham vida em documentários como Cidadão Boilesen, assim como em informações, divulgadas recentemente pela imprensa brasileira, sobre a participação de membros dos GPMI no financiamento e na montagem, em 1969, da Operação Bandeirantes.10

Mas, conexões semelhantes estão presentes no atual regime democrático brasileiro. Exemplo disso é o fato de uma empresa como a Condor, produtora das armas

10 Folha de S. Paulo, 1 de junho de 2014.

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ditas não letais usadas na repressão a manifestações populares, ser uma das beneficiárias de um programa de apoio financeiro oferecido pelo Ministério da Defesa.

Pode-se, assim, trabalhar com a ideia de que o complexo industrial˗militar tem um papel central na dinâmica do Estado capitalista brasileiro contemporâneo.

Independentemente de se tratar de um Estado capitalista periférico e dependente.

Independentemente de se tratar de um Estado capitalista no contexto de um regime político de tipo democrático.

Referências bibliográficas

ABREU, Alzira Alves e outros (Coord.). Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós- 1930. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2001.

COUTINHO, Amélia. Aurélio de Lira Tavares. In: ABREU, Alzira Alves de e outros (Coord.). Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2001.

DEZOUZART, Elizabeth. Paulo Egídio. In: PAULA, Christiane Jales de; LATTMAN- Weltman (Coord). Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-1930. 3. ed. revista e atualizada. Rio de Janeiro: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), 2010. Disponível em http://cpdoc.fgv.br/acervo/dhbb.

DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado – ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis (RJ): Vozes, 1981.

FIESP/CIESP. GPMI da FIESP: definições e diretrizes. São Paulo, 1970, citado em SILBERFELD, J. C. E. O Grupo Permanente de Mobilização Industrial da FIESP: 1964- 1967. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1984, Anexo n. 14.

Fórum Roberto Simonsen. Segurança Nacional. São Paulo: Centro e Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, 1962.

MARTINS, Paulo Egydio. Paulo Egydio: depoimento ao CPDOC / FGV. Organização Verena Alberti, Ignez Cordeiro de Farias, Dora Rocha. São Paulo: Imp. Oficial do Estado de São Paulo, 2007.

SILBERFELD, J. C. E. O Grupo Permanente de Mobilização Industrial da FIESP: 1964- 1967. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1984.

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