Rev Assoc Med Bras 2002; 48(1): 1-25 1
C
ONTENÇÃO
DE
CUSTOS
E
QUALIDADE
DO
ATENDIMENTO
O custo da assistência médica mostra uma evolução crescente ao longo dos anos, e esse fato é, em grande parte, responsável pelo aumento do gasto com saúde na maiora dos países. Em proporção do Pro-duto Interno Bruto, o gasto com saúde nos Estados Unidos, para dar apenas um exem-plo, passou de cerca de 6% em meados dos anos 60 para 14% atualmente. A continuar essa tendência, o peso da saúde na econo-mia americana se tornaria rapidamente in-sustentável. Desde já, o custo com a saúde dos trabalhadores representa até 20% do custo de produção em alguns setores pro-dutivos naquele país. Esse fenômeno, com as devidas diferenças, se repete nos demais países, e o Brasil não é exceção.
Assim, é imperativo que se identifiquem as causas do crescimento dos custos em saúde, e que se adotem medidas para controlá-lo e contê-lo. Todos os países vêm demonstrando essa preocupação, tan-to do lado das autan-toridades sanitárias quantan-to entre prestadores e instituições financia-doras (por exemplo, os planos de saúde em nosso país). Entretanto, o receio é de que ao controlar os custos da assistência médica e conter o seu crescimento, tenhamos que sacrificar a qualidade dos serviços. Essa é uma crença bastante difundida entre os pro-fissionais da saúde.
Na realidade, essa é uma grande simpli-ficação, e é apenas parcialmente verdade. É claro que se um prestador de assistência
médica seja ele público ou privado decidir cortar custos indiscriminadamente, sem conhecer os fatores que contribuem para esses custos e sem um planejamento cuidadoso, é muito provável que a qualida-de seja prejudicada. Porém, essa é sem dúvida uma maneira inadequada, e muitas vezes suicida, de se reduzir custos.
Quando se conhecem os fatores res-ponsáveis pelos desperdícios e ineficiências existentes no processo de produção dos serviços de saúde, pode-se perceber que esses são com freqüência também fatores que prejudicam a qualidade da assistência. Daremos a seguir alguns exemplos. O gerenciamento inadequado num hospital que causa falhas no aprovisionamento em determinado medicamento, provocará ao mesmo tempo um aumento no custo da assistência (ao aumentar o tempo de per-manência do paciente e exigir uma compra emergencial do referido medicamento) e uma deterioração da qualidade (ao prejudi-car ou adiar o tratamento do paciente e fazê-lo permanecer desnecessariamente no hospital sujeito a infecções hospitalares). Um equipamento sem manutenção ade-quada atrasará ou impedirá o tratamento de determinados pacientes, com reflexos si-multâneos sobre o custo do tratamento e a qualidade da assistência. Uma alta taxa de infecção hospitalar resulta, ao mesmo tem-po, em altos custos e em má qualidade. Finalmente, a utilização excessiva ou
desne-cessária de alta tecnologia certamente acar-reta custos desnecessários, mas também, com freqüência, resulta em queda na quali-dade da assistência prestada.
Desta forma, em muitos casos são os mesmos os fatores responsáveis pelos altos custos e pela baixa qualidade dos serviços de saúde. Eles são em parte conseqüência de um gerenciamento insuficiente ou inade-quado dos serviços de saúde, e de uma despreocupação, muito comum entre pro-fissionais de saúde, com o custo dos servi-ços e sua eficiência. Era comum até pouco tempo atrás ouvirmos afirmações como saúde não tem preço".
Como a prestação de serviços de saúde obviamente exige a utilização de recursos, em quantidade vultosa como vimos, essa postura tem levado muitas vezes a um custo desnecessariamente alto da assistência médi-ca. Uma política esclarecida e planejada de identificação das ineficiências e desperdícios no processo de produção permitirá ao mes-mo tempo reduzir ou eliminar os custos desnecessários e melhorar a qualidade da assistência médica. O controle de custos e a busca da qualidade não devem, portanto, ser considerados como mutuamente exclusivos ou mesmo objetivos concorrentes, mas sim duas facetas do mesmo processo, cada vez mais necessário, de gerenciamento da assis-tência médica, que busca encontrar maneiras mais eficientes e racionais de melhorar e manter a saúde da população.