Modelos de Volatilidade Condicional
2.1
Introdução
A teoria de análise de séries temporais, em particular os modelos ARIMA Box-Jenkins, permite a modelagem de variáveis de interesse, a partir da formulação explícita da dependência linear apresentada pelas mesmas.
Dentre os modelos empregados, podemos destacar os autoregressivos.
Um processo autoregressivo de ordem p (AR(p)), para uma determinada variável y
t, tem a seguinte forma:
t p t p t
t
t
c y y y u
y = + φ
1.
−1+ φ
2.
−2+ K + φ .
−+ (2.1.1)
Onde, u
tassume a forma de um ruído branco.
( )
( )
⎩ ⎨
⎧
≠
→
=
= →
=
τ τ λ
τ
t
w t w E
w E
t t
0 0
2
Dessa forma, pode-se afirmar que:
- O processo será estacionário de segunda ordem, caso as raízes do polinômio em “z” estejam localizadas fora do círculo unitário;
0 . .
.
1 − φ
1z − φ
2z
2− K − φ
pz
p= (2.1.2)
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- A previsão um passo à frente, condicional a toda informação disponível no instante de tempo “t-1”, corresponde à projeção linear da variável de interesse sobre uma constante e seus próprios defasamentos (média condicional);
- Enquanto o valor da média condicional do processo é expresso como função daqueles observados para os respectivos defasamentos, a média incondicional, considerando o processo como sendo estacionário de segunda ordem, se mostra constante.
Para determinadas séries temporais, em particular aquelas observadas no mercado financeiro, pode ser interessante a realização de previsões, não somente relacionadas ao nível da variável, como também à variância da mesma.
A variância de séries financeiras representa um dos assuntos de maior importância na atualidade, uma vez que investidores racionais exigirão um prêmio maior, à medida que a volatilidade (incerteza) dos retornos de seus investimentos aumenta.
Aos pontos enumerados acima, soma-se o fato de que mudanças no regime da volatilidade afetam a própria eficiência das inferências estatísticas com relação aos parâmetros do modelo (c, φ
1, φ
2, ..., φ
p).
2.2
Autoregressive Conditional Heteroskedasticity (ARCH)
Introduzidos por Engle (1982), o modelo ARCH propõe uma formulação autoregressiva para capturar a estrutura de dependência linear existente na variância do ruído de uma determinada série de interesse.
Dessa forma, sendo o processo estocástico definido pela equação 2.1.1, diz-se que u
t2segue um processo ARCH (m), desde que este assuma a seguinte forma funcional:
t m t m t
t
t
u u u w
u
2= ς + α
1.
2−1+ α
2.
2−2+ K + α .
2−+ (2.2.1)
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Onde, w
tcorresponde a um ruído branco.
• Esperança condicional:
[ ]
2 22 22 1 1 1
2 t
.
t.
t m.
t mt
I u u u
u
E
−= ς + α
−+ α
−+ K + α
−(2.2.2)
• Como u
t2≥ 0 , então, tem-se:
Equação 2.2.1 – deve ser não-negativa;
Equação 2.2.2 – deve ser positiva.
• Pode-se garantir que as condições acima sejam atendidas, se:
− ς < w
t;
0 < ς ;
α
j≥ 0 → j = 1 , 2 , K , m .
• Estacionaridade de segunda ordem (covariância):
Raízes do polinômio em Z devem corresponder a valores fora do círculo unitário.
0 .
. .
1 − α
1z − α
2z
2− K − α
mz
m= (2.2.3)
Como α
j≥ 0 → j = 1 , 2 , K , m , então: α
1+ α
2+ K + α
m< 1
Uma vez satisfeitas as condições de estacionaridade de segunda ordem e aquelas referentes à própria característica dos dados de interesse, tem-se:
• Variância incondicional de u
t:
[ ] ( )
m
u
tE ς α α α
σ = = − − − −
K
2 1 2
2
1 (2.2.4)
• Previsão “s” passos-à-frente:
( , , K )
ˆ
t2+st= E u
t2+su
t2u
t2−1u (2.2.5)
( ) ( ) (
2 2 2 2) (
2 2)
2 2
1 1 2
2
ˆ ˆ ˆ
ˆ
t+jt− σ = α u
t+j− t− σ + α u
t+j− t− σ + + α
mu
t+j−mt− σ
u K (2.2.6)
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s j = 1 , 2 , K ,
Dessa forma, u ˆ
t2+st⎯ ⎯→
pσ
2(considerando os pressupostos assumidos).
2.2.1
Representação alternativa
Corresponde a um pressuposto mais forte sobre a dependência de u
t. Seja:
( ) 0 , 1
~
. iid
h
u
t=
tν
t→ ν
t(2.2.7)
( )
t= 0 E ν
( )
t2= 1
E ν
Se h
t= ς + α
1. u
t2−1+ α
2. u
t2−2+ K + α
m. u
t2−m(2.2.8)
Então:
ARCH(m): ( )
2 22 22 1 1 2
1 2
2s t
,
t, .
t.
t m.
t mt
u u u u u
u
E
+ −K = ς + α
−+ α
−+ K + α
−(2.2.9)
Substituindo (2.2.7) e (2.2.8) em (2.2.1), segue:
( 1 )
.
t=
t+
t∴
t=
t t2−
t
h w w h
h ν ν (2.2.10)
Assim, a variância (condicional) de w
tserá: E ( ) w
t2= λ
2.
Cabe ressaltar que a variância incondicional de w
t(quarto momento – curtose) não existe para todos os modelos ARCH estacionários.
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2.2.2
Estimação dos parâmetros (máxima verossimilhança)
• ν
té Gaussiano:
Seja a equação de regressão
t T
t
t
X u
y = . β + (2.2.11)
Onde,
X
t– variáveis explicativas (incluindo defasamentos de y
t)
t t
t
h
u = . ν ν
t~ N ( ) 0 , 1 (2.2.12)
2 2
2 2 2
1
1
.
t.
t m.
t mt
u u u
h = ξ + α
−+ α
−+ K + α
−Condicionando a estimação nas m primeiras observações (t = -m+1, - m+2,..., 0). t = 1, 2, ..., T.
Seja Y
t= (y
t, y
t-1,..., y
1, y
0,..., y
-m+1, X’
t, X’
t-1,..., X’
1, X’
0,..., X’
-m+1). Então, sendo ν
t~ i.i.d. N(0, 1) e ν
tindependente de X
te Y
t, tem-se que a distribuição condicional de y
té gaussiana com média X’β e variância h
t.
( ) ( )
⎟ ⎟
⎠
⎞
⎜ ⎜
⎝
⎛ −
−
−
=
t T t t t
t t
t
h
X y Y h
X y f
2 1
. . 2 exp 1 . .
. 2
; 1 β
π (2.2.13)
Onde,
( )
2(
2 2)
2( )
22 1 1
1
. . β α . . β α . . β
α
ξ
t tT t tT m t m tTmt
y X y X y X
h = +
−−
−+
−−
−+ K +
−−
−[ ( ) β ]
T. δ
t
Z
h = (2.2.14)
( ξ α α α
m)
δ = ,
1,
2, K , (2.2.15)
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[ Z ( ) β ]
T= [ 1 , ( y
t−1− X
tT−1. β ) (
2, y
t−2− X
tT−2. β )
2, K , ( y
t−m− X
tT−m. β )
2] (2.2.16) Sendo θ o vetor de hiperparâmetros.
( )1
( β ' , δ ' )
θ
ax≡
Log-verossimilhança:
( ) ∑ [ ( ) ]
= −
=
Tt
t t
t
X Y
y f L
1
1
;
;
log θ
θ
( ) ( ) ∑ ( ) ∑ ( )
=
=
⎥ ⎥
⎦
⎤
⎢ ⎢
⎣
⎡ −
⎟ ⎠
⎜ ⎞
⎝
− ⎛
⎟ ⎠
⎜ ⎞
⎝
− ⎛
⎟ ⎠
⎜ ⎞
⎝
− ⎛
=
Tt t
T t t T
t
t
h
X h y
L T
1
2
1
. . 2 log 1
2 . . 1 2 log 2 .
π β
θ (2.2.17)
Trata-se, portanto, de um problema de otimização não-linear com restrições (estacionaridade).
( ) ( ) ( ) ( )
1 0 . .
. . 2 log 1
2 . . 1 2 log 2 .
1
1
2
1
<
→
≥
⎥ ⎥
⎦
⎤
⎢ ⎢
⎣
⎡ −
⎟ ⎠
⎜ ⎞
⎝
− ⎛
⎟ ⎠
⎜ ⎞
⎝
− ⎛
⎟ ⎠
⎜ ⎞
⎝
− ⎛
=
∑
∑
∑
=
=
=
m
j j j
T
t t
T t t T
t
t
j todo para a
s
h X h y
L T Max
α α
π β θ
2.3
Outras formulações propostas
2.3.1 GARCH
Seja:
( ) 0 , 1
~
. iid
h
u
t=
tν
t→ ν
tPUC-Rio - Certificação Digital Nº 0210470/CA
2 2
2 2 2
1
1
.
t.
t m.
t mt
u u u
h = ς + α
−+ α
−+ K + α
−ARCH(m)
Pode-se imaginar um processo no qual a variância condicional dependa de um número infinito de defasamentos da variável de interesse.
( ) .
t2t
L u
h = ς + π (2.3.1)
( ) ∑
∞=
=
1
.
j
j
j
L
L π
π (2.3.2)
Dessa forma, poder-se-ia definir π(L) como sendo a razão de dois polinômios de ordem finita, onde as raízes daquele contido no denominador fossem maiores que 1 (um) em módulo.
( ) ( )
( )
r rm m
L L
L
L L
L L
L L
. .
. 1
. .
.
1
1 1 2 22 2 1 1
δ δ
δ
α α
α δ
π α
−
−
−
−
+ +
= +
= −
K K
Aplicando π(L) ter-se-ia:
( ) ( ) .
21
tt
u
L h L
δ ς α
+ −
=
[ 1 − δ ( ) L ] . h
t= [ 1 − δ ( ) L ] . ς + α ( ) L . u
t2Assim, GARCH(r, m): h
t− δ ( ) L . h
t= K + α ( ) L . u
t2(2.3.3)
Adicionando u
t, tem-se:
( )
2( ) ( )
2( )
22
2 t
.
t.
t.
t.
tt
t
u u K L u L h L u L u
h + − = + α + δ + δ − δ
Fazendo (u
t2– h
t) = w
t, tem-se:
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( ) ( )
[
t p p t p]
t t r t rt
K u u w w w
u
2= + α
1+ δ
1.
2−1+ K + α + δ .
2−+ − δ
1.
−1− K − δ .
−(2.3.4)
Onde,
w
t– erro de previsão da variância (ruído branco) – seqüência de diferenças Martingale.
Assim, pode-se propor uma analogia entre o modelo GARCH (r, m) e os modelos ARMA (p, q), onde p = Max (r, m).
Pontos importantes:
- O requerimento de não-negatividade é satisfeito se:
p j
para
K > 0 ; α
j≥ 0 ; δ
j≥ 0 → = 1 , K ,
- De modo análogo aos processos ARMA, o modelo GARCH se mostrará estacionário de segunda ordem (covariância) se as raízes do polinômio em Z (conforme definido a seguir) apresentarem valores maiores do que 1 (um) em módulo.
( ) . ( ) . ( ) . 0
1 − δ
1+ α
1Z − δ
2+ α
2Z
2− K − δ
p+ α
pZ
p=
Considerando as restrições de não-negatividade, o processo será estacionário se:
( δ
1+ α
1) ( + δ
2+ α
2) + K + ( δ
p+ α
p) < 1
Tomando por base o que fora apresentado até o presente momento, tem- se que:
• a média incondicional de u
t2será:
( ) [ ( ) ( ) (
p p) ]
t
u K
E σ δ α δ α δ α
+
−
− +
− +
= −
=
1 1 2 2K
2 2
1 (2.3.5)
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• a previsão û
t+s2, considerando u
t2, u
t-12, ..., u
02, será:
( ) ( ) ( ) ( )
( ) ( ) ( ) ( )
⎪ ⎪
⎪
⎩
⎪⎪
⎪
⎨
⎧
>
− +
+ +
− +
=
−
−
−
− +
+ +
− +
=
−
− +
− +
−
− +
− +
+
r s p u
u
r s
p w
w
u u
u
s t s
t
r t r t
s
s t s
t
s t
ˆ / ˆ
, , 1 ˆ /
ˆ
ˆ ˆ
ˆ
2 2
1 1 1 2
2 1 1 1
2 2
1 1 1 2
2 1 1 1
2 2
σ α
δ σ
α δ
δ δ
σ α
δ σ
α δ σ
K
K K
K
(2.3.6)
OBS.
O cálculo da seqüência de variâncias condicionais {h
t}
Tt=1requer uma
“amostra pré-existente” (h
-p+1, ..., h
0e u
-p+12, ..., u
02). Para contornar tal problema, Bollerslev propôs o seguinte procedimento:
1) Fazer h
j= u
2j= σ ˆ
2→ p / j = ( − p + 1 ) , K , 0 ;
2) Definir ∑ ( )
=
−
−
=
Tt
T
X
ty T
1 1 2
2
. .
ˆ β
σ ;
3) Estimar a seqüência {h
t}
Tt=1pelo método da máxima verossimilhança (otimização não-linear com restrições).
2.3.2 IGARCH
Dizemos que u
t2segue um processo IGARCH, caso este apresente raiz unitária (integrável). De forma análoga, tem-se:
1
1 1
= + ∑
∑
= = ml l r
j
j
α
δ
Da mesma forma que nos processos ARIMA, se u
t2possui raiz unitária, então a variância incondicional tende para infinito (comportamento explosivo).
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2.3.3
ARCH-M (ARCH “na média”)
O modelo ARCH-M toma por base a teoria de finanças, a qual sugere que investidores racionais exigem um retorno maior (prêmio de risco) para negociarem ativos financeiros com maior grau de risco (risco associado à dispersão – volatilidade). Dessa forma, sendo:
t t
t
u
r = µ + (2.3.7)
Onde,
r
t– retorno de um determinado ativo financeiro;
µ
t– parcela do retorno antecipada pelos investidores em t-1;
u
t– parcela do retorno não antecipada.
Então, a teoria propõe que µ
testaria associado com a própria variância do retorno -h
t(parâmetro de risco).
Tomando por base o que foi disposto anteriormente, em 1987 Engle propôs a seguinte formulação:
t t T
t
t
X h u
y = . β + δ . + (2.3.8)
t t
t
h
u = . ν ν
t~ N ( ) 0 , 1 (2.3.9)
2 2
2 2 2
1
1
.
t.
t m.
t mt
u u u
h = ξ + α
−+ α
−+ K + α
−(2.3.10)
onde o efeito da volatilidade sobre o prêmio de risco (consolidado no retorno) é medido pelo hiperparâmetro δ.
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2.3.4
E-GARCH (Exponential GARCH)
Seja:
t t
t
h
u = . ν (2.3.11)
( ) ∑
∞{ }
= −
−
−+
−+
=
1
. .
log
j
j t j
t j t j
t
E
h ξ π ν ν χ ν (2.3.12)
então, se π
j> 0, um desvio ν
t−jocasiona um aumento da variância condicional de u
t.
Já o termo χ, é responsável por modelar adequadamente o efeito resultante da assimetria presente na distribuição de retornos de ativos financeiros. Assim, tem-se:
• χ = 0 – choques positivos e negativos geram o mesmo efeito na variância;
• -1 < χ < 0 – choques positivos aumentam menos a variância do que os negativos;
• χ < -1 – choques positivos reduzem a volatilidade e choques negativos produzem o efeito contrário.
Uma das vantagens da formulação do E-GARCH é o fato de o processo de estimação dos parâmetros não apresentar quaisquer tipos de restrições com relação aos valores que os mesmos poderão assumir, uma vez que estar-se-á trabalhando com log(h
t) e que π
j> 0.
Uma parametrização natural é modelar π(L) como a razão de dois polinômios de ordem finita – procedimento análogo ao GARCH(r, m). Deste modo, ter-se-ia:
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( ) ( ) ( ) { } {
t m t m t m}
m
t t
t r
t r
t t
E
E h
h k
h
−
−
−
−
−
−
−
−
+
− +
+
+
− +
+ + +
=
ν χ ν
ν α
ν χ ν ν
α δ
δ
. .
. .
log . log
.
log
1 1 1 1 1 1K
K (2.3.13)
2.3.4.1
Estimação dos parâmetros: máxima verossimilhança
Para o processo de estimação dos parâmetros, torna-se necessário especificar a função de distribuição de probabilidades de ν
t.
Uma alternativa seria a utilização da distribuição padronizada generalizada do erro (Nelson).
( )
( )⎟ ⎠
⎜ ⎞
⎝ Γ ⎛
⎟ ⎟
⎠
⎞
⎜ ⎜
⎝
⎛ −
=
⎥⎦⎤
⎢⎣⎡ +
λ υ
λ υ ν
ν
υ υ
υ
. 1 2
.
2 . exp 1 .
1 t
f
t(2.3.14)
Onde,
() .
Γ – função gama;
12 2
3 . 1 2
⎪ ⎪
⎭
⎪⎪ ⎬
⎫
⎪ ⎪
⎩
⎪⎪ ⎨
⎧
⎟ ⎠
⎜ ⎞
⎝ Γ ⎛
⎟ ⎠
⎜ ⎞
⎝ Γ ⎛
=
−
υ λ υ
υ