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Cadeia produtiva da mandioca: o que se viu em 2006 e o que esperar para 2007

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Cadeia produtiva da mandioca:

o que se viu em 2006 e o que esperar para 2007

Fábio Isaias Felipe

1

Lucilio Rogério Aparecido Alves

2

Michele Tubero Campion

3

Em 2006, os preços da mandioca e derivados caíram, apertando as margens de produtores e industriais.

A pressão veio da maior oferta, resultado do aumento da área cultivada em 2005, quando a mandiocultura apresentava rentabilidade suficiente para competir com outras culturas concorrentes em área, especialmente a de grãos.

A trajetória de queda dos preços da raiz de mandioca começou já nos primeiros meses do ano. As cotações registraram os menores patamares dos últimos três anos em junho de 2006 (com a tonelada da raiz em aproximadamente R$ 78,00 no Centro-Sul), seguindo praticamente estáveis até setembro. No último trimestre do ano, a matéria-prima teve fortes valorizações, mas insuficientes para compensar ao produtor as baixas dos meses anteriores (Figura 1). Esse mesma situação foi observada nos preços da fécula (Figura 2).

Devido aos preços desfavoráveis, representantes da cadeia produtiva reivindicaram intervenção governamental para a comercialização. O auxílio do governo através dos leilões de Contratos Privados de Opção (Prop) foi ferramenta essencial para manter a renda do produtor.

Nesse cenário, houve menor interesse no plantio de mandioca em novas áreas. Produtores passaram a restringir a oferta e deixar para efetuar a colheita entre o final de 2006 e o início de 2007. O menor volume disponível favoreceu altas expressivas dos preços. Nos últimos três meses do ano, houve valorização de 76,8% no estado do Paraná, de 65,8% em São Paulo e de 74,4% em Mato Grosso do Sul.

A oferta restrita e as fortes oscilações de preços poderiam ter sido amenizadas com a parceria entre produtores e industriais, através de contratos de garantia de entrega e de preço, o que reduziria o risco da atividade para todos os agentes. Em 2006, contudo, essa forma de comercialização foi pouco efetivada.

1

Pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP). E-mail: [email protected]

2

Pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP). E-mail: [email protected]

3

Estagiária do Projeto Mandioca do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP). E-mail:

[email protected]

(2)

60,00 90,00 120,00 150,00 180,00 210,00 240,00 270,00 300,00 330,00 360,00 390,00

02/ 01/ 04 02/ 02/ 04 02/ 03/ 04 02/ 04/ 04 02/ 05/ 04 02/ 06/ 04 02/ 07/ 04 02/ 08/ 04 02/ 09/ 04 02/ 10/ 04 02/ 11/ 04 02/ 12/ 04 02/ 01/ 05 02/ 02/ 05 02/ 03/ 05 02/ 04/ 05 02/ 05/ 05 02/ 06/ 05 02/ 07/ 05 02/ 08/ 05 02/ 09/ 05 02/ 10/ 05 02/ 11/ 05 02/ 12/ 05 02/ 01/ 06 02/ 02/ 06 02/ 03/ 06 02/ 04/ 06 02/ 05/ 06 02/ 06/ 06 02/ 07/ 06 02/ 08/ 06 02/ 09/ 06 02/ 10/ 06 02/ 11/ 06 02/ 12/ 06

R$ /t

Figura 1 – Preço médio real da raiz de mandioca no Centro-Sul, em oito praças acompanhadas pelo Cepea, entre jan/04 e dez/06 (deflacionado pelo IGP-DI, base dez/06=1,00).

Fonte: Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), 2007.

400,00 600,00 800,00 1.000,00 1.200,00 1.400,00 1.600,00 1.800,00 2.000,00 2.200,00

02/ 01/ 04 02/ 02/ 04 02/ 03/ 04 02/ 04/ 04 02/ 05/ 04 02/ 06/ 04 02/ 07/ 04 02/ 08/ 04 02/ 09/ 04 02/ 10/ 04 02/ 11/ 04 02/ 12/ 04 02/ 01/ 05 02/ 02/ 05 02/ 03/ 05 02/ 04/ 05 02/ 05/ 05 02/ 06/ 05 02/ 07/ 05 02/ 08/ 05 02/ 09/ 05 02/ 10/ 05 02/ 11/ 05 02/ 12/ 05 02/ 01/ 06 02/ 02/ 06 02/ 03/ 06 02/ 04/ 06 02/ 05/ 06 02/ 06/ 06 02/ 07/ 06 02/ 08/ 06 02/ 09/ 06 02/ 10/ 06 02/ 11/ 06 02/ 12/ 06

R$ /t

Figura 2 – Preço médio real da fécula de mandioca no Centro-Sul, em nove praças acompanhadas pelo Cepea, entre jan/04 e dez/06 (deflacionado pelo IGP-DI, base dez/06=1,00).

Fonte: Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP), 2007.

A falta de interesse para esses contratos pode resultar em perda de mercado e de credibilidade do setor junto aos agentes compradores. É preciso uma junção de esforços do setor para que ocorram avanços benéficos para todos os agentes da cadeia. Não bastam apenas ações que visem ampliar o mercado consumidor do produto, mas também aquelas que possam dar cada vez mais sustentação e solidez organizacional e estrutural para esta cadeia tão importante economicamente para a sociedade.

No mercado de fécula de mandioca, a maior oferta de matéria-prima e os baixos patamares de preços

contribuíram para garantir melhor competitividade à fécula com produtos substitutos. No primeiro

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semestre, algumas empresas trabalharam com bons volumes de estoques e em busca de novos mercados.

Entretanto, compradores apostavam em quedas nos preços e adquiríam pequenos volumes, sem fazer carregamento de estoques e contratos de médio e longo prazos. No entanto, a competição com produtos concorrentes estava acirrada e foi grande a dificuldade de retomar os mercados perdidos em anos anteriores, de oscilação expressiva de preços. Somente no final do primeiro semestre essa situação começou a melhorar, com o interesse de compradores por contratos de maior prazo.

Esse cenário acabou sendo reflexo da intensificação dos trabalhos para a aprovação do Projeto de Lei 4679/2001 que discutia a possibilidade de mistura de derivados de mandioca à farinha de mandioca, da elevação dos preços do milho e do trigo e de seus derivados nos mercados interno e externo.

O aumento na demanda por fécula coincidiu com o período de redução na oferta de raiz. Como os estoques de fécula estavam baixos, a conseqüência foi de alta dos preços. Diante disso, a demanda por contratos antecipados aumentou ainda mais, pois agentes buscavam evitar falta de recebimento do produto. Nesse sentido, fecularias passaram a priorizar o cumprimento desses contratos, assim como o atendimento da demanda de clientes tradicionais. As negociações de pronta-entrega, por sua vez, tiveram menor liquidez, mas o interesse por essas negociações também contribuiu para sustentar as cotações nos últimos dois meses.

Entre a última semana de dez/05 e a última de dez/06, os preços médios da fécula de mandioca subiram 61,9% no Paraná, 27,4% em São Paulo e 47,2% em Mato Grosso do Sul. Entretanto, apenas nos últimos três meses de 2006, a alta foi de 74,9% no Paraná, 58,1% em São Paulo e 75,9% em Mato Grosso do Sul.

As negociações no mercado de farinha de mandioca mantiveram-se estáveis em 2006. Apesar da oferta de matéria-prima ter sido abundante para as empresas, a demanda final por farinha não apresenta oscilação expressiva de um ano para outro e, além disso, não houve a presença de fatores exógenos que influenciasse as negociações.

Apenas no primeiro semestre, as transações entre empresas do Centro-Sul e do Norte e Nordeste foram favorecidas, com vendas da primeira região para a segunda. A seca em algumas das principais praças produtoras daquelas regiões levou à compras do produto do Centro-Sul, principalmente dos estados de São Paulo e do Paraná.

A estabilidade nas negociações resultou em preços praticamente inalterados até setembro. Nos últimos três meses, os preços da farinha subiram expressivamente nas principais praças do Centro-Sul. No Paraná, os preços da farinha grossa branca crua subiram 53,4% do início de outubro até o final dezembro, 57,3% em São Paulo e 50,4% em Santa Catarina. No mesmo período, os preços da farinha de mandioca fina branca crua reagiram 73,9% em Santa Catarina, 51,5% no Paraná e 45,4% no estado de São Paulo.

O ano de 2007 inicia com os preços da raiz de mandioca em patamares mais elevados que os do mesmo período de 2006, mas inferiores aos de 2005.

Acredita-se que a partir da segunda quinzena de janeiro a oferta volte a aumentar, mantendo-se elevada

pelo menos nos três primeiros meses do ano. Esse incremento no volume disponível, contudo, não deve

pressionar as cotações, já que os estoques das fecularias estão baixos e há necessidade de maior

moagem para cumprir contratos já efetivados. Ao mesmo tempo, agentes do setor industrial estão

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preocupados com a redução expressiva de preços, para evitar perda de competitividade da mandioca com as lavouras de grãos.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a área plantada ou a plantar em 2007 deve crescer 2,6% em relação a 2006 (1,87 milhão de hectares), totalizando 1,92 milhão de hectares. Esse aumento, contudo, é inferior aos de anos anteriores, o que não deve chegar a refletir nos preços.

No estado do Paraná, dados do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Agricultura e do Abastecimento do Estado do Paraná (Seab), indicam que a área cultivada de mandioca que foi de 188.033 hectares em 2006, deverá totalizar 176.210 hectares, redução de 6,3%. Já a produção deverá diminuir 9,1%, para 3,8 milhões de toneladas (em 2006 foi de 4, 2 milhões de toneladas).

Desta forma, os parâmetros apontam que em 2007 as cotações poderão ficar em patamares maiores que aqueles praticados em grande parte de 2006. Houve redução de área plantada, um menor volume de raiz está vinculado a contratos e a demanda pelo produto poderá ficar mais firme.

A demanda por fécula por parte de compradores tradicionais deverá seguir estável. A expectativa de maior procura está atrelada à possível aprovação do Projeto de Lei 4679/2001 que dispõe sobre a obrigatoriedade de adição de farinha de mandioca refinada, de farinha de raspa de mandioca ou de fécula de mandioca à farinha de trigo. Na versão atual, o projeto restringe a mistura de fécula à farinha de trigo destinada à programas governamentais, além de creches, merenda escolar e Exército. A proporção de mistura deverá ser de 3% no primeiro ano de implantação, 6% no segundo ano e 10% no terceiro ano.

Em relação ao setor produtivo, vale ressaltar que o estado de Goiás começa a aparecer como a “nova fronteira” da mandiocultura nacional. Algumas empresas que começaram a se instalar naquele estado no período de preços altos iniciaram a produção no último trimestre de 2006 e devem se inserir no mercado com maior intensidade ainda no primeiro semestre de 2007. Essas empresas se instalaram num novo sistema, totalmente verticalizado, do plantio à colheita. Isso está proporcionando, ainda que de forma incipiente, a possibilidade de efetivar contratos de maior prazo com compradores, pois possuem a garantia da oferta da matéria-prima. Com isso, poderá competir com empresas de outros estados, principalmente na oferta de produto para o Norte e Nordeste. Cita-se, também, a instalação de outras empresas em estados não tradicionais na produção de fécula, como Mato Grosso, Pará, Alagoas e Bahia, as quais devem entrar em operação ainda no segundo semestre de 2007.

No mercado internacional de fécula, deverá continuar prevalecendo a hegemonia da Tailândia. Contudo, a necessidade de biocombustíveis pelos países asiáticos, principalmente o etanol, está fazendo com que países daquela região passem a destinar parte da mandioca para essa finalidade. Sendo a Tailândia a grande fornecedora de matéria-prima, poderá haver mudanças nas dinâmicas do mercado nos próximos anos.

Outro ponto fundamental é a redução gradativa dos subsídios à batata para fécula na Europa, que tem levado empresas a buscar outras fontes de amidos, que é onde se insere a mandioca. Nesse ínterim, o Brasil poderá elevar a participação no mercado externo, principalmente nas Américas e Europa.

Em relação ao mercado de farinha, a produção poderá se intensificar no primeiro semestre do ano,

quando as empresas deverão retomar as atividades. Essas empresas estarão empenhadas na formação de

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estoques principalmente para os compromissos do segundo semestre de 2007. Em todas as regiões prevalecerá a atual estrutura empresarial, havendo a necessidade de maior coordenação na cadeia. Ainda no primeiro semestre, haverá a necessidade de compras por parte do Nordeste. Esse mercado poderá ser disputado entre as empresas dos estados do Paraná e de São Paulo.

Mais informações podem ser obtidas com os pesquisadores Lucilio Rogério Aparecido Alves, Fábio Isaias Felipe e Michele Tubero Campion, através do Laboratório de Informação Cepea: 19-3429-8836/

8837 ou [email protected]

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