RETIRANDO O VÉU ... UM OLHAR SOBRE O PROJET01
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAJosefa Jackline
Rabelo-RESUMO
nmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAVive m o s so b a é g id e d o d isc u r so e m p r e sa r ia l, e m to r n o d a s p o lític a s d e fo r m a ç ã o p r o fissio n a l fr e n te à s m u d a n ç a s e str u tu r a is d a e c o n o m ia b r a sile ir a e d o p r o c e sso d e r e o r g a n iza ç ã o in d u str ia l. N e sse se n tid o ,
to r n a -se n e c e ssá r io c o m p r e e n d e r o s p r o c e sso s d e n a -tu r e za so c ia l, p o lític a e e c o n ô m ic a q u e fu n d a m e n ta m a d in â m ic a d o s in te r e sse s e m jo g o . M in h a p r e o c u p a -ç ã o n e sse e n sa io é ju sta m e n te e m p r e e n d e r u m e stu d o so b r e o s in te r e sse s e m p r e sa r ia is e m r e la ç ã o à e d u c a -ç ã o d o tr a b a lh a d o r , to m a n d o c o m o c a so e sp e c ific o o P r o je to d e Alfa b e tiza ç ã o d o s O p e r á r io s d a C o n str u -ç ã o C ivil, m a n tid o p o r u m c o n vê n io e n tr e o Sin d ic a to d a In d ú str ia d a C o n str u ç ã o C ivil - SIN D U SC O N IC E
e o Se r viç o So c ia l d a In d ú str ia SE SU C E c o m o o b je -tivo d e tr ilh a r u m c a m in h o q u e m e p o ssib ilite c o n tr i-b u ir c o m e sta d isc u ssã o . N a te n ta tiva d e in ve stig a r o s in te r e sse s e m p r e sa r ia is, p r ivilé g io c o m o r e fe r e n c ia l te -ó r ic o -m e to d o l-ó g ic o o m a te r ia lism o h istó r ic o -d ia lé tic o . D e ssa fo r m a , a p r e se n to m in h a e xp e r iê n c ia c o m o p a r -tic ip a n te d a p r im e ir a fa se d o P r o je to c o m o a lfa b e -tiza d o r a d o s tr a b a lh a d o r e s n o s c a n te ir o s d e o b r a s, a n a lisa n d o e sp e c ific a m e n te a s p r o p o sta s d e e d u c a ç ã o d e jo ve n s e a d u lto s d o SE SI e va lo r iza n d o a fa la d o s a to r e s e n vo lvid o s: e m p r e sá r io s, e q u ip e té c n ic o p e d a -g ó -g ic a d o SE SI, Sin d ic a to d o s Tr a b a lh a d o r e s d a C o n s-tr u ç ã o C ivil e a lu n o s-tr a b a lh a d o r e s, n a te n ta tiva d e tr a ç a r p o n to s c o n ve r g e n te s e d ive r g e n te s e n tr e o s d i-ve r so s se to r e s e n vo lvid o s, su a s c o n c e p ç õ e s e p r á tic a s
n o c a m p o d a fo r m a ç ã o p r o fissio n a l.QPONMLKJIHGFEDCBA
I Esse trabalho faz parte da dissertação de mestrado em Educação
intitulada: Os Empresários e a Intervenção na Educação: Investi-gando Interesses - O Projeto de Alfabetização dos Trabalhado-res da Construção Civil- SESIISINDUSCON.
2 Mestra em Educação pela UFC, professora do Departamento de
Teoria e Prática do Ensino.
ABSTRACT
We live u n d e r th e in flu e n c e o f th e u n d e r ta ke r la n g u a g e th a t d r ive p r o fe ssio n a l fo r m a tio n p o litie s in th e fa c e o f str u c tu r a l c h a n g e s in Br a zilia i e c o n o m ic a n d a lso in th e c o n te xt o f in d u str ia l r e fo r m So , it b e c o m e s n e c e ssa r y to u n d e r sta n d th e so c ia l p o litic a l a n d e c o n o m ic n a tu r e o f th is p r o c e ss th a e sta b lish th e d yn a m ic s o f th e in te r e st w ic h a r e b ein s so c ia lly p la ye d . M y c o n c e r n in th is e ssa y is to stu d ;
th e u n d e r ta ke r s in te r e sts in r e la tio n w ith th i e d u c a tio n o f w o r ke r s, ta kin g a s sp e c ific m a tte r th . P r o je c t o f a lp h a b e tiza tio n o f w o r ke r s in c ivi
C o n str u c tio n . Th is p r o je c t is su p p o r te d b ; a sso c ia tio n b e te w e e n th e U n io n o f w o r ke r s in C ivi C o n str u c tio n - SIN D U SC O N IC E a n d th e So c ia Se r vic e o f In d u str y - SE SIIC E , a im in g to c o n tr ib u u w ith th is d isc u ssio n . in th is r e se a r c h I u se o p tio n a lb th e m a te r ia listic h isto r ic a n d d ia le c tic m e th o d . Hen is p r e se n te d m y e xp e r ie c e a s in te g r a te d r e se a r c h e i in th e fir st sta g e o f th e P r o je c t, a s e d u c a to r o ..
w o r ke r s in th e ir w o r k sit. H e r e a r e a n a lize d th , p r o p o sa ls fo r e d u c a tio n o f yo u th a n d a d u lts o f th s SE SI a n d prising th e sp e e c h o f th e a c to r s in vo lve d u n d e r ta ke r s, p e d a g o g ic te a m o f SE SI, U n io n o ..
Wo r ke r s in c ivil C o n str u c tio n a n d Stu d e n ts -Wo r ke r s, tr yin g to sig n d ive r g e n ts a n d c o n ve r g e n . p o in ts a m o n g th e se ve r a l se c to r s in te g r a te d , th e ii c o n c e p tio n s a n d p r a c tic e in th e ie ld o p r o fe ssio n a l fo r m a tio n .
Q u e r o d ize r q u e a e sc o la 'o i im p o r ta n u p a r a m im .
Q u e r o d ize r a p r o fe sso r a J a c in e q u i te ve o e sfo r ç o d e n o s e n sin a r e c o m e le e u a p r e n d i a le r e a e sc r e ve r .
Q u e r o a g r a d e c e r a e la p e lo e sfo r ç o q w te ve p a r a n o s e n sin a r . Q u e r o d e se ja :
q u e e mzyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA92 e la su b a e m u m a n d o r , m o r e
o n d e n ã o ve n te , n e m fa ç a fr io e n e m
c a lo r .
P e r to d e N o ssa Se n h o r a , ju n to d e N o
s-so Se n h o r .
Se le m b r e d o s n o ve m e se s q u e su a m ã e lh e c a r r e g o u .
F o r a m n o ve m e se s d e d o r , m a s so m e n te u m b e lo d ia q u e a a ssiste n te lh e p e g o u e m u m a b a c ia d e p r a ta e la m e sm o lh e b a n h o u . U m b a r r e te e n fe ita n d o su a c a b e ç a e fa -zia u m a fr a se , n ã o c h o r e m e u a m o r !
JOSÉMARrA3
No período de maio/91 a fevereiro/92, participei
do Projeto de Alfabetização de adultos trabalhadores
da construção civil, mantido por um convênio entre o
Sindicato dos Empresários da Construção
Civil-SINDUSCON CE e o Serviço Social da Indústria
-SE SI Departamento Regional/CE. O Projeto estava em
consonância com a proposta da Educação de Jovens e
Adultos Trabalhadores elaborada pela equipe
técnico-pedagógica do SE SI Nacional, que pretendia qualificar
melhor os trabalhadores. Seus objetivos eram de
garan-tir maior produtividade e conquista de melhores
condi-ções de vida traduzidas em bem- estar social.
Segundo a P r o p o sta C u r r ic u la r p a r a o E n sin o
F u n d a m e n ta l d e J o ve n s e Ad u lto s, do Departamento
Nacional do SESI, defende-se
U m r e sg a te d a q u a lid a d e d o e n sin o ,
e m r a zã o d e u m a m e to d o lo g ia a e m p r e
-g a r c o m o a p e r fe iç o a m e n to d a q u a
lifi-c a ç ã o p a r a o tr a b a lh o .Proposta Curricular
SESI Nacional, 1992:064
A coordenação do Projeto, formada por
profis-sionais do SESI, optou pela proposta pedagógica de
Pau-3 Texto produzido por um aluno da turma com a qual trabalhei,
apresentado na festa de conclusão do curso de alfabetização da Empresa Marquise.N a anunciação de cada capítulo, apresentarei a!guns textos dos alunos-trabalhadores com os quais tive a opor-tunidade de conviver. Os textos não estão na forma original. Foi necessário, para o entendimento do leitor, modificá-los para a escrita formal, visto que esses alunos se encontravam em
proces-etização e ainda não escreviam dentro das exigências ossa língua.
~ : : ~ i ,,,,--,,,e o X aciona!. P r o p o sta c u r r ic u /a r p a r a o e n si-QPONMLKJIHGFEDCBA
& : 7 . i = = : : z r = ~ .0 ' .ense a d u lto s. Brasília, 1991.
35 . 1998 . p. 51· 58
1 0 Freire, por entender que a sua teoria pedagógica se
baseava na relação dialógica e na troca de saberes en-tre o educador e o educando. Para trabalhar os
aspec-tos da aprendizagem mais específica da leitura e da
escrita, a escolha recaiu sobre a proposta de Emília
Fer-reiro acerca do desenvolvimento lingüístico.
A seleção das professoras alfabetizadoras foi
organizada e coordenada pela equipe pedagógica do
SESI-CE. A seleção baseou-se em uma prova de
títu-los (c u r r ic u lu m vita e ), uma prova escrita com
ques-tões referentes à temática da educação de jovens e
adultos, especificamente à Pedagogia de Paulo Freire
e, como etapa final, passamos por treinamento de vinte
horas/aula que consistiu basicamente em estudos de
tex-tos sobre Paulo Freire, EmíliaFerreiro e avaliação
educa-cional.
Neste treinamento, não realizamos qualquer
es-tudo mais aprofundado sobre o Projeto de
Alfabetiza-ção dos Trabalhadores da Construção nos Canteiros de
Obras. Recebemos todo o material
didático-pedagógi-co, mas a preocupação maior dos instrutores do curso e da equipe técnica do SESI foi a de levantar a
necessi-dade de que as educadoras compreendessem os
objeti-vos das empresas (sem uma análise mais aprofundada
ou crítica) e olhássemos "com carinho" as aspirações
dos operários tendo, no entanto, o cuidado de não traba-lhar temas que pudessem suscitar confrontos.
Tratava-se de camuflar os conflitos existentes nesta proposta
que se baseava, segundo a Coordenação, no "espírito
de solidariedade de classes". Como temáticas
ameaça-doras a serem, portanto, eliminadas, foram apontadas:
greve, sindicalização, questões salariais e condições de
vida, dentre outras.
Apesar da opção pela teoria de Paulo Freire (vale ressaltar que o grupo orientador pôs a método suas con-cepções e reflexões sobre homem, sociedade e
educa-ção, reduzindo-as à uma alfabetização mecânica), em
nenhum momento tivemos a oportunidade de conhecer
os alunos com quem iríamos trabalhar. Aquelas etapas
do consagrado "Método Paulo Freire" foram
queima-das, como por exemplo os encontros com a comunidade e a pesquisa do universo vocabular. Fomos simplesmente jogadas nas salas de aula - se é que pudemos
denominá-Ias assim, visto que a maioria apresentava condições
precárias de instalação e mais especificamente
peca-vam na estrutura fisica (ver anexos 1.1 e 1.2., esboço
apresentado pelo SINDUSCON-RJ para construção das
salas). As salas eram montadas no próprio canteiro de
obras onde encontrávamos apenas um quadro-negro
com alguns bancos e mesas sem qualquer apoio para a
ina-dequada, formada por lâmpadas comuns de 40 a 60 watts, que dificultava em muito a percepção e a apren-dizagem dos alunos que tinham, na maioria, problemas
de visão. Assistíamos a todo momento aos
trabalhado-res se esforçarem para conseguir ler o quadro ou
mes-mo para escrever em seus cadernos.QPONMLKJIHGFEDCBAÉ o que podemos
chamar de olhos cansados empenhando-se em adquirir
novo conhecimento e, assim, fazer nova leitura de suas
realidades.
Voltando às precauções estabelecidas pela Coordenação, as quatro primeiras professoras selecionadas
-entre as quais eu me incluo - juntamente com a equipe
técnica do SESI - participamos de uma reunião no
Sin-dicato da Indústria da Construção Civil. Essa reunião
teve o caráter, por assim dizer, de medida preventiva com o objetivo maior de afastar os perigos dos confron-tos e confliconfron-tos que podiam ser gerados caso
trabalhás-semos com temáticas questionadoras. A reunião
aconteceu na sede do Sindicato da Indústria da
Cons-trução Civil - Ceará. Encontrava-se presente ao
menci-onado encontro o presidente do Sindicato das
Construtoras, componentes do Setor de Recursos
Hu-manos de algumas empresas que tinham aderido ao
Pro-jeto, e um membro do Sindicato da Indústria da
Construção Civil do Rio de Janeiro, que apresentou grá-ficos estatísticos relativos ao aumento de produtividade dos operários da construção civil do Japão, explicitando o avanço daquele país em relação ao aproveitamento
do tempo e a diminuição do número de trabalhadores e
do desperdício de material.
Segundo os gráficos,' no Brasil, a produtividade
da indústria da construção civil por metro quadrado era
representada por 60 (sessenta) homens por hora,
en-quanto, na Europa, para se alcançar esta mesma
pro-dução, bastavam 15 (quinze) homens por hora, e no
Japão, apenas 7 (sete).
Dessa forma a representante do SINDUSCON
do Rio reforça a necessidade de alfabetizar os operários do Ceará no sentido de garantir maior produtividade em
menos tempo e com a diminuição do desperdício de
material. Segundo esta, com incentivo dos empresários
em atividades educacionais, os acidentes de trabalho
também diminuiriam, devido ao fato de que, entre
traba-lhadores alfabetizados, o manuseio dos equipamentos
se daria de maneira mais segura e eficiente, evitando, assim, pelo menos acidentes mais graves.
Para fundamentar esta tese, aquela
representan-te apresentou uma pesquisa realizada pelo
S Cf. Anexo 1.3.
SINDUSCON-Rio entre as empresas associadas, n
período de 1988 a 1991, sobre o "Perfil dos Acidentes no Trabalho". Vejamos alguns resultados:
Dentre os acidentados daquele período, • 1,52% tem curso técnico ou superior;
• 46,66% não têm qualquer tipo de formação pro-fissional;
• 51,82% têm algum tipo de formação prática.
Como conseqüência desse quadro, foi posto que
o Brasil sofreu 35 bilhões de dólares de prejuízos com
acidentes de trabalho nos últimos 20 anos.
Continuando sua exposição, fundamentada em
gráficos e pesquisas, a representante do Rio utilizou uma
pesquisa realizada pelo IBGE-PNADI1988 sobre as
condições do analfabetismo no Brasil e outra da
UNESCO sobre a situação do analfabetismo no mundo.
A primeira pesquisa demonstra que o Brasil tem
19,8 milhões de analfabetos, sendo que o Nordeste
al-cança o índice de 54,8% e a Região Sudeste fica com
27,65. A segunda pesquisa, realizada pela UNESCO,
revela que existem 27,7% de analfabetos no mundo e
que 98% destes analfabetos se encontram nos
chama-dos países em desenvolvimento. Especificamente na
Construção Civil na Região Sudeste do Brasil, calcula-se que haja entre 60 a 70% de analfabetos.
Como se vê, a representante queria realmente
conquistar a adesão de todos, principalmente dos
em-presários, para a idéia de que o fator educacional
ga-nha importância para o alcance do aumento da
produtividade. Para tanto, seria interessante que os
em-presários aderissem à Campanha "Alfabetizar é C
--truir", implementada em 1990 no Go erno Coll r.
montando salas de aula nos seus canteiros de o
Outro aspecto levantado nessa ex si ão e
motivos foi o de que se fazia necessário. j
Projeto de Alfabetização, que se realizassem
de lazer e de higiene, visto que mui os trabalhadores
após a jornada de trabalho joga 'am a
de água sobre os seus corpos s,voltando
casa com a cal impregnada na le.
pareceu-me por demais e agógi
texto da reunião em que a preocupação •...•.~.u( l u . .
de voltar-se para o cansa o e
balho e de ida do o .
de maior produtividade e desperdí ias materiais
e humanos como a reditar que estaria esta senhora
-ou o órgão por ela representado - preocupada com o
fatigado e explorado corpo do trabalhador? ão há por
que não se acreditar que o interesse reinante é, de fato, que esse corpo, mesmo cansado, mas limpo, divertido e
"educado", continuasse produzindo mais e mais para a obtenção de maiores lucros, gerando,
conseqüentemen-te, maior concentração de riquezas.
A reunião teve o caráter de uma exposição dos
interesses e precauções dos empresários para a
equi-pe técnica e docente do SESI.QPONMLKJIHGFEDCBAÉ importante observar
que nós professoras, não tínhamos, até então, mantido
qualquer contato com os trabalhadores, o que pode ser
interpretado como uma manifestação de cautela por
parte dos empresários. Ainda como medida
preventi-va, após a seleção realizada pelo SESI, as professoras
passaram por uma triagem por parte das empresas.
Isto é, cada empresa que assumia o convênio, exigia
que a professora que fosse trabalhar nos seus
cantei-ros de obras fosse selecionada por sua equipe de
re-cursos humanos ...
Esta segunda seleção consistiu numa entrevista
feita pela psicóloga responsável pelo setor de recursos
humanos da empresa. No meu caso, esta profissional
fez algumas perguntas sobre a minha experiência na
área de alfabetização de adultos e sobre minha
expec-tativa com relação ao Projeto. Fui selecionada numa
primeira entrevista com a Empresa Marquise. Logo
depois tive a oportunidade de ir visitar o canteiro de obra onde funcionaria a sala de aula, ainda acompanhada pela psicóloga.
Um fato que permanece vivo na minha memória e que acho interessante mencionar, ocorreu por ocasião
do meu primeiro diálogo com a representante da
em-presa, logo que chegamos ao canteiro. Olhando para a obra que ficava situada à Avenida Beira-Mar e que hoje é o Hotel Caesar Park, à vista dos muitos casebres situ-ados na vizinhança, ela falou que achava aquele quadro
um "contraste enorme". Eu acreditava, ingenuamente,
que o contraste mencionado travava-se do "social", mas, ao revelar isto, ela logo esclareceu que, para ela,
trata-va-se de um contraste "estético" e que a empresa já
estava tomando as devidas providências para retirar
aquelas famílias do local. Após alguns dias em contato
com os alunos-trabalhadores, descobri que um deles,
responsável pelo almoxarifado da empresa, residia com sua família em uma daquelas humildes e indesejáveis casas.
As primeiras empresas que assumiram o Projeto
aproveitaram o ensejo para fazer marketing e
propa-ganda das suas obras. Sem qualquer contato prévio com
os alunos, conhecendo superficialmente apenas seu
lo-cal de trabalho, ministrei minha primeira aula naquele
teiro. A experiência não foi muito positiva. A
equi-~!.u •.•••do SESI (a diretora do Setor Educacional, a
Proje o as assistentes sociais, dentre
35 - 1998 - p. 51-58
outras), a equipe de recursos humanos da Marquise, e o
engenheiro e o mestre-de-obras responsáveis pelo
can-teiro se fizeram presentes. Este fato fez com que nós
(alunos e professora) ficássemos constrangidos e
per-dêssemos a incipiente naturalidade.
O momento foi marcado por famosos discursos
emocionados e inflamados. Todos abordaram a
impor-tância daquele momento para a vida de cada trabalha-dor; todos falaram da oportunidade que lhes estava sendo garantida de participar de uma escola no próprio local de trabalho. Os alunos assistiam àquilo tudo com aten-ção, mas sem grande motivação visível. Um dos alunos levantou-se e falou que a única oportunidade que tivera
para estudar fora no Mobral, por ele abandonado por
causa do trabalho na roça. A origem camponesa da
maioria dos alunos ficou evidenciada ali.
Para enfrentar esta situação e, principalmente,
por não conhecer os alunos - planejei uma atividade mais leve e descontraída que facilitasse nossa interação. Tra-balhamos com a palavra VIDA através de desenhos e
músicas. Foi a forma mais inteligente e eficaz que
en-contrei para superar aquele momento de estréia, ao
mesmo tempo em que conquistei a confiança dos
com-ponentes da empresa e o do SESI quanto àsnmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAp e r ig o sa s
contradições e conflitos inerentes ao Projeto.
Trabalhei com duas turmas: A e B. Cada uma
tinha dois dias de aula por semana com duas horas por
dia. A previsão era a de que alfabetizássemos aqueles
trabalhadores em seis meses. A turma A contava
inici-almente com 20 alunos e a turma B com 21. As aulas
aconteciam após o expediente de trabalho das 19 às 21
horas e se iniciavam com a merenda trazida pelo SESI,
o que fazia parte do "Termo de Compromisso" assinado
entre a empresa e o SESI.
Uma das primeiras dificuldades enfrentadas foi
justamente quanto a esta merenda. Muitos
trabalhado-res não matriculados que ali se encontravam trabalhan-do horas-extras vinham até a sala solicitar um pouco de merenda. Eu me sentia atordoada com aquelas condi-ções subumanas de vida e de trabalho e não sabia fazer o milagre de "multiplicar os pães". Alunos ausentes das
aulas por estarem cumprindo horas-extras de trabalho
se aproximavam da sala para merendar. Era um "Deus
nos acuda"!
Este fato gerava grande dispersão logo no início da aula e perdíamos muito tempo distribuindo merenda, sem falar que tínhamos que lavar todos os pratos por exigência do SESI. Não tínhamos torneira disponível, só
uma caixa d'água descoberta e aparentemente poluída
Outra dificuldade dizia respeito à fragmentação
da turma por conta da necessidade de realizarem
ho-ras-extras de trabalho. As turmas apresentavam uma
frequência muita baixa, numa média de 10 alunos por aula, os quais não se repetiam durante as semanas. Havia semanas em que, a cada dia de aula, eu encontrava uma "turma" diferente na sala.
Esse fato prejudicava muito o trabalho de apren-dizagem. Um conteúdo, muitas vezes, tinha que ser tra-balhado durante o mês inteiro a fim de atingir todos os componentes da turma. Os alunos que sempre se
nega-vam a fazer horas-extras para não perderem as aulas
eram prejudicados, pois tinham que passar por muitas
revisões.
Nesses momentos caóticos ficava tentando
com-preender realmente qual o interesse do empresariado
em manter aquela farsa. Farsa, sim!, pois, por mais que
nos esforçassémos, era difícil manter os alunos
"moti-vados", dentro de um contexto permeado de dificuldades. As dificuldades iam mais longe. Havia muitas de-missões, o que ocasionava evasão. Quando uma parte
da obra era concluída, como, por exemplo, a
concre-tagem, os trabalhadores especializados naquela tarefa
eram demitidos. Outros trabalhadores capazes de
tra-balhar em outra especialidade eram contratados, o que
deixava patente o alto nível de rotatividade presente
neste setor industrial.
Ao longo do Projeto foram ingressando diferen-tes alunos como forma de "tapar o buraco" deixado pela evasão e também pelo próprio interesse dos recém-con-tratados em se alfabetizar. O curso ocorreu de julho de
91 a fevereiro de 92. Dos 41 alunos que iniciaram o
curso, apenas 16 chegaram ao final. Tivemos, ao todo, 23 concludentes.
As condições de vida daqueles trabalhadores por
si só geravam dificuldades na aprendizagem. Muitos
deles moravam no próprio canteiro, pois residiam fora
de Fortaleza. Estes eram denominados pelos colegas
como os "ratos". Os que não moravam no canteiro resi-diam em bairros distantes, na periferia da cidade e
ti-nham dificuldades de transporte. O fato é que estes
acordavam às 4 horas da manhã para chegar às 7 na
Construtora e trabalhavam até as 17 horas, tendo um
intervalo de uma hora para almoço (isto, quando não faziam horas - extras, bem entendido!).
Analisando as condições de vida dos
trabalhado-res deste setor, REBOUÇAS (1991) denuncia:QPONMLKJIHGFEDCBA
onmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBAtr a b a lh a d o r d a in d ú str ia d a c o n str u
-ç ã o c ivil m o r a n a p e r ife r ia u r b a n a o u
n o p r ó p r io c a n te ir o d e o b r a . O s b a ir
r o s o n d e r e sid e sã o c a r e n te s d e sa n e -m e n to b á sic o , h o sp ita is, tr a n sp o r te , e s-c o la s, d e n tr e o u tr a s s-c o isa s. Su a s-c a sa é m o d e sta m e n te c o n str u íd a e c o m p o u c o s m ó ve is. Q u a n d o m o r a n o p r ó p r io lo c a l
d e tr a b a lh o , se r ve -se d e a lo ja m e n to s,
lu g a r e s c o m p o u c a h ig ie n e e e m p é ssi-m a s c o n d iç õ e s d e ssi-m o r a d ia , r a zã o p e la q u a l é c h a m a d o d e " r a to " . Alg u n s c a n -te ir o s d e o b r a n ã o tê m a lo ja m e n to , o q u e o b r ig a o tr a b a lh a d o r a d o r m ir n a p r ó
-p r ia o b r a e m c o n str u ç ã o , d e sta se n d o
e xp u lso à m e d id a q u e o s a p a r ta m e n to s
fic a m p r o n to s, n o c a so d o s e d ific io s.
(REBOUÇAS, 1991, p. 836)
À noite, no horário da aula, a primeira tarefa que se
nos apresentava era mantê-los acordados ...É claro que,
depois daquele dia cansativo, o fato de estarem presentes já caracterizava forte motivação em estudar, mas a
popu-lar máxima "querer é poder" tem limites concretos.
Nas poucas oportunidades que tive de visitar o
canteiro durante o dia, conheci de perto a situação des-tes trabalhadores. A alimentação principal (almoço) re-sumia-se a um único prato: baião de dois. A famosa "mistura" (enlatados diversos e ovos) era comprada
atra-vés de cotas entre os trabalhadores. Para viabilizar esse
almoço, era designado um operário durante um mês para ser cozinheiro e outro para servir o alimento.
Lembro-me das críticas que estes cozinheiros recebiam pela
divisão do alimento, e, principalmente, por seu sabor.
A comida não era feita em fogões
convencio-nais, mas em fogareiros que emprestavam um sabor de
queimado aos alimentos. A refeição era servida em ca-pacetes ou em telhas. Poucos eram os operários que
levavam pratos. A partir desta convivência, passei a
melhor compreender o porquê de tanta confusão e
de-sespero na hora da merenda.
O intrigante de tudo isso e que me fez assistir à
resistência daqueles operários em entregar seus rpos
e suas almas às empresas e ao trabalho era o faro de que na única hora que tinham para o almoço - sendo
que a metade desse tempo era passada na a ara
re-ceber a refeição - e no final do expe ie . eles
arranja-vam alguns minutos para jogar 1na areia da praia
em frente à constru ão.
, REBOUÇAS. Luís Pereira.Le itu r a e lu ta ; u m a e xp e r iê n c ia d e a lfa b e tiza ç ã o c o m o s tr a b a lh a d o r e s d a in d ú str ia d a c o n str u ç ã o
c ivil d e F o r ta le za . UFC: Fortaleza, 1991. (Dissertação de Mestrado em Educação)
Com relação ao nosso dia-a-dia de aula, tentava
trabalhar de forma participativa e crítica. Trazia para a
sala temas que estavam sendo discutidos na sociedade,
através de revistas, jornais, poesias, músicas e
pales-tras. Numa ocasião, trouxe para a classe o órgão de
divulgação do Sindicato dos Trabalhadores da
Constru-ção Civil, "A Voz do Peão". Após trabalharmos um tema
referente a salário, resolvemos fixar, na sala, uma
ma-téria desse jornal relativa a salário. Aquela não era a
primeira vez que fixávamos álgo relacionado com
temáticas discutidas em aulas. Na sala estavam
expos-tos os texexpos-tos produzidos pelos alunos, os desenhos, os
cartazes, dentre outras portadores de textos. Mas, des-ta vez, fomos redes-taliados. O engenheiro responsável pela
obra solicitou-me que evitasse divulgar o trabalho do
Sindicato.
Vale observar que no dia em que o Sindicato foi entregar este jornal e conclamar os operários a
partici-par da discussão e das assembléias, o mestre-de-obras
não deixou que os representantes da entidade tivessem
acesso aos trabalhadores. A edição foi entregue, então,
na hora da saída.
O Sindicato dos Trabalhadores não tinha qualquer
participação no Projeto. Em um contato que tive com
um representante sindical, este declarou que o
sindica-to não apoiava um trabalho daquele cunho, o qual, na sua avaliação, não visava a melhoria nas condições de
vida do trabalhador e que significava mais uma forma
encontrada pelos empresários de reforçar a idéia de que
estavam generosamente "doando" algo ao trabalhador,
desta feita, a educação.
Acreditava este representante que o Projeto
sig-nificava mais uma tentativa de enfraquecer o trabalho
do Sindicato. Através desta prestação de serviço, o SESI
e o Sindicato dos Empresários passavam a visão
equi-vocada de que eles estavam preocupados com o
desti-no do trabalhador e, conseqüentemente, o ludibriava.
O Sindicato dos Trabalhadores, no mesmo
perío-do, mantinha uma experiência de alfabetização dos
tra-balhadores na construção civil nos seus locais de
moradia. O Projeto, no entanto, vislumbrava a
alfabeti-zação destes operários a partir de suas vivências, suas
dificuldades cotidianas visando formar o trabalhador
dentro de uma visão crítica rumoQPONMLKJIHGFEDCBAà construção de uma
contra-hegemonia. Em outra parte do trabalho,
desen-volverei mais detalhadamente a visão do Sindicato
so-bre os projetos de educação formulados e implementados por instituições empresariais.
Os alunos apesar da enganosa visão de que o
Projeto era uma dádiva empresarial, conseguiam
com-, . . ; ~ ; ; ; : ç ~ U J e e a eles não se estava oferecendo nada
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tuitamente e percebiam o que estava por trás daquele
gesto "bondoso". Ao mesmo tempo, manifestavam o
pensamento de que, mesmo partindo do limitado
obje-tivo de garantir maior qualidade e produtividade, os
em-presários não davam prioridade ao Projeto, no sentido de garantir a este condições estruturais e didáticas ade-quadas.
Uma tentativa de tratar assuntos do interesse dos operários consistiu em trabalhar em sala de aula o "Ope-rário em Construção", de Vinicius de Morais. A
conse-qüência deste ato foi a de que fui fortemente rebatida
pelo engenheiro da obra que solicitou - em tom de or-dem - que não trabalhasse textos com cunho político e
ideológico. Caso este fato novamente se repetisse, o
Projeto correria o risco de não ser aceito pelos empre-sários e a escola - canteiro teria suas portas fechadas.
O Projeto não se resumia apenas à alfabetização
dos trabalhadores. Fazia parte das ações mais amplas
de assistência social que previam atividades
relaciona-das com higiene-saúde, lazer e esporte.
Uma atividade digna de nota consistiu num en-contro de todas as escolas das fábricas em um
domin-go no Centro de Assistência ao Trabalhador - CAT, na
Barra do Ceará. Neste dia, os trabalhadores tiveram
um período privilegiado de convivência e lazer.
Con-versaram sobre o Projeto. Jogaram futebol. Tomaram
banho de piscina com a família e assistiram a números
artísticos e culturais.nmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
F o i u m b e lo d ia , p a r e c e o u tr o m u n d o , o p a r a -iso ... disse um trabalhador depois do encontro.
No momento da discussão e apresentação dos
alunos das diversas empresas, lembro-me de um traba-lhador depondo de forma emocionada:
An te s e u só c o n h e c ia o c a n te ir o d e o b r a e m e u b a ir r o . N ã o c o n ve r sa va c o m m e u s a m ig o s d e tr a b a lh o . D e p o is q u e e n tr e i n o P r o je to c o m e c e i a c o n h e c e r o m u n -d o . P o r e xe m p lo , n u n c a tin h a vin d o p r a c á . E a g o r a c o n h e ç o e sse m u n d ã o e a in -d a tô c o n h e c e n d o a lé m d o s m e u s a m i-g o s d e tr a b a lh o , o u tr o s c o le g a s d e o u tr a s e m p r e sa s.
Apesar de todo o empenho por parte da Empresa de vincular o Projeto aos seus interesses de produtivi-dade; apesar, ainda, de ser o SESI instituição empresa-rial, encontrava por parte das assistentes sociais do SE SI
e das supervisoras do Projeto um compromisso real
com os interesses dos trabalhadores. Uma assistente
Se i q u e o P r o je to te m o o b je tivo d e e n g a n a r o tr a b a lh a d o r e n ã o e stá in te -r e ssa d o n a e d u c a ç ã o e sim n a p r o d u ti-vid a d e , m a s n ó s te m o s q u e u sa r e ste e sp a ç o c e d id o p e lo s e m p r e sá r io s e te n -ta r , d e n tr o d o p o ssíve l, c o n tr ib u ir n a e le va ç ã o d o n íve l d e c o n sc iê n c ia p o
líti-c a d o tr a b a lh a d o r .zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Para concluir os trabalhos nesta turma,
planeja-mos uma atividade de encerramento que consistiu na
exposição dos textos elaborados pelos alunos ao
lon-go do programa e de um texto produzido coletivamen-te sobre o Projeto e que foi lido em forma de jograI.
Para o evento, convidamos o coral da Universidade
Federal do Ceará, a Orquestra e o Grupo Folclórico do
SE SI. Estiveram presentes o diretor da Empresa, o
pre-sidente do Sindicato dos Empresários, a equipe de
recursos humanos da Empresa e a equipe
técnico-pe-dagógica do SE SI.
O momento foi de muita emoção para os traba-lhadores. Seus olhos brilhavam com aquelas
apresenta-ções. A estrutura rústica e fria do canteiro ganhava
leveza e beleza com as apresentações do coral e da
orquestra. A dança dava alegria ao contexto escuro e pesado.
O texto preparado pelos trabalhadores
relata-va sua alegria em ter participado do Projeto e
agra-decia à equipe do SESI e à professora pelo momento
que estavam vivendo. De maneira sutil,
reivindica-ram a continuidade da escola-canteiro, mas,
tam-bém, que se Ihes oferecessem condições reais de
estudo, numa crítica dirigida aos representantes da
empresa.
Após a leitura do texto, o diretor da organização pronunciou aquele velho e retrógrado discurso. Refor-çava a necessidade de projetos educacionais no próprio
local de trabalho e colocava sua empresa à inteira
dis-posição de projetos daquele caráter, pois, dessa forma, acreditava que a empresa ganhava com o aumento de produtividade e da qualidade e o trabalhador melhorava
sua condição de vida e seu aperfeiçoamento
profissio-nal. Segundo ele, aquela era uma via de mão dupla.
To-dos ganhavam e, com isto, o Brasil crescia e se
desenvolvia!
A experiência desta turma terminou neste dia.
Tento acreditar que a contribuição mais significativa foi dada no sentido de torná-Ios menos apáticos e mais
crí-ticos em relação às suas múltiplas dificuldades, bem
como de ter oferecido momentos de discussão alegria,
informação e mais do que tudo, esperança.
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