UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
INSTITUTO DE CIÊNCIAS DO MAR
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS MARINHAS TROPICAIS
SAMUEL NELIO BEZERRA
A PESCA DE PEIXE COM LINHA E REDE NO ESTADO DO CEARÁ
FORTALEZA
SAMUEL NELIO BEZERRA
A PESCA DE PEIXES COM LINHA E REDE NO ESTADO DO CEARÁ
Tese submetida à Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Marinhas Tropicais do Instituto de Ciências do Mar, da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do grau de Doutor em
Ciências Marinhas Tropicais. Área de
concentração: Recursos Pesqueiros.
Orientador: Prof. Dr. Antonio Adauto Fonteles Filho
FORTALEZA
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará
Biblioteca Rui Simões de Menezes
B469a Bezerra, Samuel Nelio
A pesca de peixe com linha e rede no Estado do Ceará / Samuel Nélio Bezerra. –
2013.
168 f.: il. color., enc. ; 30 cm.
Tese (doutorado) – Universidade Federal do Ceará, Instituto de Ciências do Mar,
Programa de Pós-Graduação em Ciências Marinhas Tropicais, Fortaleza, 2013. Área de Concentração: Utilização e Manejo de Ecossistemas Marinhos e Estuarinos
Orientação: Profº. Drº Antonio Adauto Fonteles Filho.
1. Pesca Marinha. 2. Pesca – Aspectos econômicos. 3. Pesca com rede. I. Título.
SAMUEL NELIO BEZERRA
A PESCA DE PEIXES COM LINHA E REDE NO ESTADO DO CEARÁ
Tese submetida à Coordenação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Marinhas Tropicais do Instituto de Ciências do Mar, da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do grau de Doutor em
Ciências Marinhas Tropicais. Área de
concentração: Recursos Pesqueiros.
Aprovado em: ___/___/___
BANCA EXAMINADORA
__________________________________________________
Prof. Ph.D. Antônio Adauto Fonteles Filho (Orientador) Universidade Federal do Ceará - UFC
_________________________________________________ Prof. Dr. Carlos Tassito Corrêa Ivo
Universidade Federal do Ceará - UFC
_____________________________________________________________________ Engenheira de Pesca Dra. Sônia Maria Martins do Castro e Silva
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA
________________________________________________ Prof. Dr. Raimundo Nonato Lima Conceição
Universidade Federal do Ceará - UFC
_________________________________________________ Prof. Dr. Israel Aniceto Cintra
“E por onde quer que passe esse rio viverá todo tipo de animais, e haverá muitíssimos peixes; porque lá chegarão estas águas, para que as águas do mar se tornem doces, e viverá
tudo por onde quer que passe esse rio.”
Ezequiel 47:9.
AGRADECIMENTOS
Ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
– IBAMA por proporcionar esta oportunidade.
À Gerência Executiva do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis – IBAMA/CE, no estado do Ceará, pelo acesso
aos dados.
A minha família, Margarteh, Gabriel, David, Sarah e Luzinha, pela paciência
nos momentos de maior stress no decorrer desta caminhada.
Ao lord e professor Antônio Adauto Fonteles Filho pelos ensinamentos,
amizade e feliz convivência durante todo o curso, um verdadeiro gentleman.
Ao professor Carlos Tassito Corrêa Ivo incentivador primeiro desta jornada,
pela, amizade, ensinamento e conselhos, sabe tudo.
À doutora Sônia Maria Martins de Castro e Silva por tudo que ela representa:
incentivo, amizade, justiça, preocupação, só vendo para crer.
Ao doutor José Augusto Negreiros Aragão meu consultor particular, pelo
incentivo, colaboração e ensinamentos fundamentais à materialização deste
projeto.
À doutora Alessandra Cristina da Silva, pelos ensinamentos e decisiva
colaboração.
Ao doutor Luiz Parente Maia, pelo incentivo e excepcional acolhida.
Aos colegas do IBAMA/CE pelo incentivo, compreensão e ajuda na
RESUMO
A pesca é de grande importância para o estado do Ceará pelo aspecto econômico e como fonte
de alimento para expressiva população composta pelas comunidades litorâneas. O setor
pesqueiro cearense sempre foi conhecido pela pesca da lagosta, sendo poucas as informações
publicadas sobre a pesca de peixes no litoral cearense. Este trabalho tem como base dados
disponibilizados pelo IBAMA/CE compreendendo a análise de 267.458 desembarques
acompanhados e de 289.739 registros sobre esforço de pesca efetivado no período de 1999 a
2008. Objetiva apresentar um estudo detalhado sobre a produtividade da pesca de peixes com
uso de linhas e anzóis e de redes de emalhe, em conjunção com embarcações motorizadas não
industriais e embarcações a vela, no estado do Ceará. O principal instrumento metodológico
consiste em se estabelecer correlações entre os indicadores bioecológicos de abundância,
frequência e dominância e os índices de rendimento das principais espécies, com as áreas de
pesca, municípios de desembarques, mudanças estacionais, meses e tipos de pescarias,
validados por métodos estatísticos não paramétricos, analise de correspondência e analise de
agrupamento hierárquico. Na dimensão espacial os resultados apontam a área Oeste (51,10%)
e o município de Camocim (42,94%) como de maior abundância. Na dimensão temporal a
estação chuvosa (58,44%) e o primeiro trimestre são distinguidos como os de maior
abundância, tanto numérica quanto em biomassa, Quanto às espécies estudadas, cavala
(18,36%), guaiúba (18,26%) e pargo (8,21%) são as mais abundantes em biomassa, sardinha
(32,36%), biquara (18,94%) e guaiúba (18,49%), em número. Ariacó (33,22%), biquara
(25,14%) e cavala (21,17%) são as espécies de maior frequência nos desembarques. Entre as
vinte espécies estudadas oito foram consideradas dominantes, sendo a guaiúba (41,87%),
sardinha (22,01%), biquara (12,26%) e cavala (6,69%) as mais significativas. Os índices de
dominância das espécies são também discutidos nas dimensões espaço-temporal,
apresentando-se os resultados por área de pesca, e estação climática, No trabalho são também
apresentados os resultados relacionados à dimensão tecnológica, representada pelos tipos de
pescarias, para cuja análise foram separados em duas categorias: a) pescarias por embarcações
veleiras; b) pescarias por embarcações motorizadas. Em ambos os casos as análises são
realizadas em função das áreas de pesca, municípios, estação climática e ciclo anual. Os
rendimentos, para os dois segmentos. Revelam também, que para o mesmo tipo de
embarcação as pescarias com linha obtêm maiores rendimentos que as pescarias com uso de
redes. Na pesca motorizada a pescaria de lancha grande com linha apresentou o maior
rendimento médio (145,03 kg/dia de mar) e na veleira o bote a vela com linha (34,72 kg/dia
de mar). Ao final da análise de cada segmento é apresentado um quadro resumo com
indicativos para obtenção dos maiores rendimentos, em função das dimensões espacial e
temporal. Entre as principais conclusões do trabalho tem-se que: a) na dimensão espacial a
área Oeste é a mais importante para a pesca cearense; b) na dimensão temporal a estação
chuvosa tem maior abundância e a seca, maior rendimento; c) na dimensão tecnológica as
pescarias com linha têm maior rendimento que as pescarias com rede.
Palavras-chave: Pesca de peixe. Índices bioecológicos. Rendimento da pesca. Áreas de pesca.
ABSTRACT
Fishing has assumed a very important role in Ceará State’s economy as a source of income
and food for a sizable share of its population, especially the one that lives on the coastal zone.
and makes up its fishing communities. The fishery sector has always been known mainly
because of the lobster resources, whereby far less information has been made available for
fiifish exploitable stocks. This research work has a database which has been regularly
controlled by the IBAMA office at Ceará State, comprising the surveillance of 267,458
landings and 289,739 reports on fishing effort statistics over the period from 1999 to 2008. Its
primary objective is to provide a detailed investigation on the productivity of the fish fisheries
with hook-and-line and gill nets, operated by small- and medium-scale motorboats and sail
rafts and canoes. The main methodological tools entail the setting up of correlations between,
on one hand, biological indicators of abundance, frequency and dominance of individual
species within the biocenosis and catch rates of the outstanding ones, and on the other, main
fishing grounds, county-based landings, seasonal changes, monthly periods and types of
fishery, by means of a theoretical framework that comprises non parametric statistical
methods, analysis of correspondence and hierarchic grouping analysis. Under the space
dimension, the results point out to the western fishing area (51.10%) and Camocim county
(42.94%) as the ones with the highest abundance indices. Under the time dimension, the rainy
season (58.44%) and the first quarter stand out both in fish numbers and biomass. As to
species, king mackerel (18.36%%), yellowtail snapper (18.26%) and Caribbean red snapper
(8.21%) are the most abundant in biomass, and Atlantic thread-herring (32.36%), white grunt
(18.94%) and yellowtail snapper (18.49%), in numbers. Lane snapper (33.22%), white grunt
(25.14%) and king mackerel (21.17%) are the most frequent species in the landings. As
concerns dominance, eight species were shown to conform to this condition, among which
stand out yellowtail snapper (41.87%), Atlantic thread-herring (22.01%), white grunt
(12.26%) and king mackerel (6.69%). The dominance indices have also been discussed as far
as the time-space dimensions are concerned, on the basis of the results presented as to fishing
ground and climate season. The outcome of the technological dimension analysis, fishery as
the chosen attribute was broken down by the two types of fishing craft: sail boat units and
climate season and annual cycle. The results point out to the western fishing area and
Camocim county as the ones with the highest abundance indices either by sail craft or motor
craft types, and for each one of them hook-and-line fishing trips were shown to be more
productive than the gill net ones. Individually, the big-sized motorboat and sailboat yielded
the largest mean catch rates, namely 145.03 kg per day’s fishing and 34.72 kg per day’s
fishing, respectively. In the overall analysis of each craft category a synoptic chart is
presented with directions for the attainment of the highest catch rates as a function of the
space and time dimensions. Among the main conclusions of this research work stand out the
following: a) under the space dimension the western fishing area is the most important; b)
under the time dimension the rainy season accounts for a higher abundance and the dry
season, for a higher productivity; c) under the technological dimension the hook-and-line
fisheries are more productive than the gill net fisheries.
Keywords: Finfish fisheries. Bioecological indices. Fishing productivity. Fishing grounds.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Bacias hidrográficas do Estado do Ceará destacando aquelas que interagem com a
zona costeira. ... 32
Figura 2 - Mapa do estado do Ceará mostrando a divisão do litoral em áreas de pesca e
respectivos municípios. ... 36
Figura 3 - Mapa de sedimentos superficiais da plataforma continental do Estado do Ceará,
evidenciando os diversos tipos de sedimentos. ... 38
Figura 4 - Tipos de embarcações motorizadas da frota pesqueira cearense dedicada à pesca de
peixes, com uso de linha/anzol e rede de emalhe, no período de 1999 a 2008. ... 62
Figura 5 - Tipos de embarcações veleiras da frota pesqueira cearense dedicada à pesca de
peixes, com uso de linha/anzol e rede de emalhe, no período de 1999 a 2008. ... 63
Figura 6 – Abundância relativa (%) em biomassa das espécies selecionadas, por área de pesca,
nas pescarias de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira
cearense, no período de 1999 a 2008. ... 67
Figura 7 – Abundância relativa (%) em biomassa das espécies selecionadas, por estação
climática, nas pescarias de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota
pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 67
Figura 8 - Mapa da Análise de Correspondência com distribuição da abundância das espécies
em função das áreas de pesca, destacando as espécies de maior similaridade com
as áreas correspondentes. ... 70
Figura 9 - Dendograma para a Análise de Agrupamento Hierárquico (método Ward e distância
euclidiana) dos municípios em função da abundância das espécies, para as
pescarias de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira cearense,
no período de 1999 a 2008. ... 73
Figura 10 – Perfil das classes de municípios em função da abundância das espécies,
segundo a Análise de Agrupamento Hierárquico (método Ward –
distância euclidiana), das pescarias de peixes com linha/anzol e rede de
emalhe realizadas pela frota pesqueira cearense, no período de 1999 a
Figura 11 - Abundância anual (%) em biomassa das espécies selecionadas capturadas com
linha/anzol e rede de emalhe pela frota pesqueira cearense, em função dos
atributos demersal ou pelágica, no período de 1999 a 2008. ... 76
Figura 12 - Abundância anual (%) em biomassa das principais espécies demersais selecionadas
capturadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota pesqueira cearense, no
período de 1999 a 2008. ... 77
Figura 13 - Abundância média anual (%) em biomassa das principais espécies pelágicas
selecionadas capturadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota pesqueira
cearense, no período de 1999 a 2008. ... 78
Figura 14 - Comportamento da abundância média mensal (%) em biomassa das principais
espécies demersais e pelágicas selecionadas, para as pescarias de peixes com
linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira cearense, no período de 1999 a
2008. ... 78
Figura 15 - Abundância média mensal (%) em biomassa das principais espécies demersais
selecionadas capturadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota pesqueira
cearense, no período de 1999 a 2008. ... 79
Figura 16 - Abundância média mensal (%) em biomassa das principais espécies pelágicas
selecionadas capturadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota pesqueira
cearense, no período de 1999 a 2008. ... 80
Figura 17 - Dendograma para a Análise de Agrupamento Hierárquico (método de Ward -
distância euclidiana) dos meses em função da abundância das espécies
selecionadas, para as pescarias de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da
frota pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 81
Figura 18 - Perfil das classes de meses em função da abundância das espécies selecionadas,
segundo à Análise de Agrupamento Hierárquico (método Ward – distância
euclidiana), dos desembarques de peixes efetuados pela frota pesqueira cearense
pescando com linha/anzol e rede de emalhe, no período de 1999 a 2008. ... 82
Figura 19 - Abundância relativa (%) em número de indivíduos, por área de pesca, nas pescarias
de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira cearense, no
Figura 20 - Abundância relativa (%) em número de indivíduos, por estação climática, nas
pescarias de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira cearense,
no período de 1999 a 2008. ... 83
Figura 21 - Abundância numérica média anual (%) das espécies selecionadas, em função dos
atributos demersal ou pelágica, nas pescarias de peixes com linha/anzol e rede de
emalhe da frota pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 86
Figura 22 - Abundância numérica média anual (%) das principais espécies demersais
selecionadas capturadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota pesqueira
cearense, no período de 1999 a 2008. ... 87
Figura 23 - Abundância numérica média, por mês do ano (%) para as principais espécies
pelágicas selecionadas capturadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota
pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 87
Figura 24 - Rendimento médio em quilograma por dia de mar, por área e média geral, para as
pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota
pesqueira motorizada cearense, no período de 1999 a 2008. ... 99
Figura 25 - Rendimento médio em quilograma por dia de mar, por área/município para
pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota
pesqueira motorizada cearense, no período de 1999 a 2008. ... 100
Figura 26 - Mapa da Análise de Correspondência com distribuição dos rendimentos por tipo de
pescaria, em função das áreas de pesca, para as pescarias com linha/anzol e rede
de emalhe das embarcações motorizadas da frota pesqueira cearense, no período
de 1999 a 2008. ... 104
Figura 27 - Perfil das classes de agrupamento das áreas de pesca em função do rendimento
das pescarias, segundo a Análise de Agrupamento Hierárquico (método Ward –
distância euclidiana), das pescarias de peixes realizadas com linha/anzol e rede
de emalhe pela frota pesqueira motorizada cearense, no período de 1999 a
2008. ... 106
Figura 28 - Comportamento do rendimento médio anual ao longo da série histórica, mostrando
a linha de tendência, para as pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede
Figura 29 - Rendimento médio (kg/dia de mar) em função do mês de desembarque, mostrando
a linha de tendência para as pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede
de emalhe pela frota pesqueira motorizada cearense, no período de 1999 a 2008. ... 107
Figura 30 - Rendimento médio (kg/dia de mar), por estação climática e grupo de
petrechos de pesca, para as pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol
e rede de emalhe pela frota pesqueira motorizada cearense, no período de
1999 a 2008. ... 109
Figura 31 - Dendograma para a Análise de Agrupamento Hierárquico (método de Ward -
distância euclidiana) da participação no rendimento das pescarias em função das
espécies, para a pesca de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota
pesqueira motorizada cearense, no período de 1999 a 2008. ... 113
Figura 32 - Perfil das classes de agrupamento das áreas de pesca em função do rendimento
das pescarias, segundo a Análise de Agrupamento Hierárquico (método Ward –
distância euclidiana), das pescarias de peixes realizadas com linha/anzol e rede
de emalhe pela frota pesqueira motorizada cearense, no período de 1999 a
2008. ... 114
Figura 33 - Rendimento médio em quilograma por dia de mar, por área e média geral, para as
pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota
pesqueira veleira cearense, no período de 1999 a 2008... 117
Figura 34 - Rendimento médio em quilograma por dia de mar, por área/município para
pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota
pesqueira veleira cearense, no período de 1999 a 2008... 118
Figura 35- Mapa da Análise de Correspondência com distribuição dos rendimentos por tipo de
pescaria, em função das áreas de pesca, para as pescarias com embarcações
veleiras com linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira cearense, no período
de 1999 a 2008. ... 128
Figura 36 - Perfil das classes de agrupamento das áreas de pesca em função do rendimento
das pescarias, segundo a Análise de Agrupamento Hierárquico (método Ward –
distância euclidiana), das pescarias de peixes realizadas com linha/anzol e rede
Figura 37 – Comportamento do rendimento médio anual ao longo da série histórica, mostrando
a linha de tendência, para as pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede
de emalhe pela frota pesqueira veleira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 130
Figura 38 - Rendimento médio (kg/dia de mar) em função do mês de desembarque, mostrando
a linha de tendência para as pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede
de emalhe pela frota pesqueira veleira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 131
Figura 39 - Rendimento médio (kg/dia de mar), por estação climática, para as pescarias de
peixes efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota pesqueira veleira
cearense, no período de 1999 a 2008. ... 132
Figura 40 - Dendograma para a Análise de Agrupamento Hierárquico (método de Ward -
distância euclidiana) da participação das espécies em função das pescarias com
linha/anzol e rede de emalhe, na pesca de peixes da frota pesqueira veleira
cearense, no período de 1999 a 2008. ... 137
Figura 41 - Dendograma para a Análise de Agrupamento Hierárquico (método de Ward -
distância euclidiana) da participação das espécies em função das pescarias com
linha/anzol e rede de emalhe, na pesca de peixes da frota pesqueira veleira
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 – Condições de melhor desempenho do rendimento médio (kg/dia de mar) por tipo
de pescaria, em função da área de pesca, município, estação climática, trimestre e
principais espécies capturadas, nas pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol
e rede de emalhe pela frota pesqueira motorizada cearense, no período de 1999 a
2008. ... 116
Quadro 2 - Indicativo dos maiores rendimentos (kg/dia de mar) por tipo de pescaria, em função
da área de pesca, município, estação climática, trimestre e principais espécies
capturadas, nas pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Características das bacias hidrográficas do território cearense que interagem com a
zona costeira. ... 36
Tabela 2 - Petrechos de pesca e tipos de embarcações com desembarques registrados no Estado
do Ceará, no período de 1999 a 2008. ... 44
Tabela 3 - Participação relativa (%) na produção, por grupo de petrecho de pesca e por tipo de
embarcação, dos desembarques de peixes no Estado do Ceará, no período de
1999 a 2008. ... 46
Tabela 4 - Pescarias monitoradas nas áreas Leste, Central e Oeste do litoral do Ceará, no
período de 1999 a 2008. ... 46
Tabela 5 - Espécies de peixes selecionadas nos desembarques controlados nas áreas Oeste,
Central e Leste do Ceará, no período de 1999 a 2008. ... 49
Tabela 6 - Espécies totais e selecionadas segundo o Índice de Participação Relativa (IPR), por
área de pesca, para os desembarques controlados de peixes marinhos no Estado
do Ceará, no período de 1999 a 2008. ... 50
Tabela 7 - Média de produção por desembarque, dias de mar, número de pescadores por
viagem e participação percentual na produção total desembarcada das espécies
selecionadas, para as pescarias com linha/anzol da frota pesqueira cearense, no
período de 1999 a 2008. ... 59
Tabela 8 - Média de produção por desembarque, dias de mar, número de pescadores por
viagem e participação percentual na produção total desembarcada das espécies
selecionadas, para as pescarias com rede de emalhe da frota pesqueira cearense,
no período de 1999 a 2008. ... 61
Tabela 9 - Total de embarcações ativas no período de 1999 a 2008, por propulsão e tipo de
embarcação e participação relativa na composição da frota pesqueira cearense
ativa que se dedica à captura de peixes com linha/anzol e rede de emalhe. ... 64
Tabela 10 - Número médio mensal e percentual de participação, por área, município e por tipo
de embarcação, da frota pesqueira cearense ativa dedicada à pesca de peixes com
Tabela 11 - Distribuição da abundância relativa em biomassa (%) das espécies selecionadas,
por área de pesca e atributo ecológico, para as pescarias de peixes da frota
pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008, destacando cinco espécies de
maior expressão por área de pesca. ... 69
Tabela 12 - Distribuição da abundância relativa em biomassa (%) das espécies selecionadas,
por área, município e atributo ecológico, para a pesca de peixes com linha/anzol e
rede de emalhe da frota pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 71
Tabela 13 - – Distribuição da abundância relativa (%) das espécies selecionadas, por estação
climática (chuvoso/seco) e atributo ecológico (demersal/pelágica), para a pesca
de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira cearense, no
período de 1999 a 2008. ... 75
Tabela 14 - Distribuição da abundância numérica em biomassa (%) das espécies selecionadas,
por área de pesca e atributo ecológico, para as pescarias de peixes com
linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira cearense, no período de 1999 a
2008, destacando as cinco espécies de maior expressão por área de pesca. ... 84
Tabela 15 - Distribuição da abundância relativa numérica (%), por área, município e atributo
ecológico, para as pescarias de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota
pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 85
Tabela 16 - Frequência de desembarques controlados em número e percentual (%), por ano e
área de pesca, nas pescarias de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota
pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 89
Tabela 17 - Frequência de desembarques controlados, por estação climática e por tipo de
propulsão da embarcação, nas pescarias de peixes com linha/anzol e rede de
emalhe da frota pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 89
Tabela 18 - Frequência relativa (%) das espécies selecionadas nos desembarques, por área de
pesca, nas pescarias de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota
pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 90
Tabela 19 - Frequência relativa (%) das espécies selecionadas nos desembarques, por estação
climática, nas pescarias de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota
Tabela 20 - Frequência relativa anual média (%), por domínio e espécie, destacando as cinco
espécies mais frequentes, identificando a flutuação com gradiente de cor, nas
pescarias de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira cearense,
no período de 1999 a 2008. ... 93
Tabela 21 - Índice de Dominância (ID), por espécie, destacando as oito classificadas como
dominantes, nas pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe
pela frota pesqueira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 94
Tabela 22 - Índice de Dominância - ID (%), destacando as três espécies de maior dominância
por área de pesca, estação climática e propulsão, para as pescarias de peixes
efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota pesqueira cearense, no
período de 1999 a 2008. ... 96
Tabela 23 - Índice de Dominância-ID (%), por espécie e por ano, para as pescarias de peixes
efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota pesqueira cearense, no
período de 1999 a 2008. ... 98
Tabela 24 - Rendimento médio (kg/dia de mar) por tipo de pescaria e área de pesca, para pesca
de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira motorizada
cearense, no período de 1999 a 2008. ... 102
Tabela 25 - Rendimento médio (kg/dia de mar) por município e tipo de pescaria, p ara
pesca de peixes com linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira
motorizada cearense, no período de 1999 a 2008. ... 103
Tabela 26 - Participação percentual (%) do rendimento médio das espécies por tipo de pescaria,
nas capturas de peixes efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota
pesqueira motorizada cearense, no período de 1999 a 2008, destacando os dez
maiores rendimentos por domínio. ... 110
Tabela 27 – Participação percentual (%) do rendimento médio das pescarias na
produção das espécies selecionadas, nas pescarias efetuadas pela frota
pesqueira motorizada cearense com linha/anzol e rede de emalhe, no
período de 1999 a 2008, destacando os dez maiores rendimentos por
Tabela 28 - Rendimento médio por tipo de pescaria e área de pesca, destacando os cinco
maiores rendimentos, nas pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede de
emalhe pela frota pesqueira veleira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 120
Tabela 29 - Rendimento médio por município e tipo de pescaria, destacando os cinco maiores,
para as pescarias de peixes efetuadas com linha/anzol e rede de emalhe pela frota
pesqueira veleira cearense, no período de 1999 a 2008. ... 122
Tabela 30 - Participação percentual do tipo de pescaria na produção de cada espécie, para a
pesca de peixe com linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira veleira
cearense, no período de 1999 a 2008, destacando os dez de maior rendimento por
domínio. ... 133
Tabela 31- Participação percentual por espécie, nos desembarques das pescarias com
linha/anzol e rede de emalhe da frota pesqueira veleira cearense, no período de
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 23
2 MATERIAL E MÉTODOS ...26
2.1 Caracterização da Área de Estudo ... 31
2.2 Origem dos dados ... 39
2.3 Tratamento dos dados .... ... 40
2.3.1 Adequação dos dados brutos ... 40
2.3.2 Padronização dos dados ... 41
2.4 Definição das pescarias para análise ... 44
2.5 Definição das espécies para análise ... 47
2.6 Índices Bioecológicos ... 50
2.6.1 Abundância em biomassa e numérica ... 51
2.6.2 Frequência de ocorrência das espécies nos desembarques ... 51
2.6.3 Índice de dominância... ... 52
2.7 Análise das pescarias ... 52
2.8 Cálculo do rendimento das pescarias ... 53
2.9 Análise estatística dos resultados ... 54
2.10 Dados complementares ...54
2.11 Apresentação do trabalho ... 56
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO... 58
3.1. Caracterização das Pescarias de Peixes ... 58
3.1.1 Pescarias com linha/anzol. ... 58
3.1.2 Pescarias de Rede de Emalhe ... 59
3.1.3 Perfil da Frota pesqueira ... 61
3.2 Caracterização bioecológica das espécies selecionadas ... 65
3.2.2 Abundância numérica ... 82
3.2.3 Frequência de ocorrência das espécies nos desembarques ... 88
3.2.4 Índice de Dominância das espécies selecionadas ... 93
3.3 Análise do rendimento das pescarias de peixe. ... 98
3.3.1 Pesca em embarcações motorizadas com uso de linha/anzol, e rede de emalhe ... 98
3.3.1.1 Melhores indicadores para as pescarias de peixes em embarcações motorizadas com
linha/anzol e rede de emalhe ...115
3.3.2 Pesca em embarcações veleiras, com uso de linha/anzol, e rede de emalhe ...117
3.3.2.1 Melhores indicadores para as pescarias de peixes em embarcações veleiras com
linha/anzol e rede de emalhe...138
4 CONCLUSÕES ... 141
5 REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...143
1
INTRODUÇÃO
A importância do setor pesqueiro se evidencia pelos aspectos econômicos, sociais e de
segurança alimentar. As duas primeiras vertentes se combinam e são representadas pelo
potencial socioeconômico como geradoras de renda, divisas e emprego de um contingente
expressivo de mão-de-obra. Nesse contexto, deve-se ressaltar que o setor pesqueiro mundial
produziu 142,3 milhões de toneladas de pescado, para as quais as espécies marinhas
contribuíram com 79,5 milhões de toneladas (55,86%) e movimentou 101 bilhões de dólares
em importações e 107 bilhões em exportações, o que o coloca como um grande gerador de
emprego e renda (FAO, 2005). Um contingente de 45 milhões de pessoas está diretamente
engajado na pesca em todo o mundo e para cada pessoa empregada nessa atividade,
correspondem três postos de trabalho em atividades correlatas ao setor, perfazendo um
universo em torno de 180 milhões de pessoas empregadas direta ou indiretamente pela
indústria pesqueira mundial. No Brasil, em 2008, as exportações alcançaram US$ 239
milhões e as importações US$ 658 milhões e, segundo dados do Ministério da Pesca e
Aquicultura (BRASIL, 2010), o Registro Geral da Pesca contabilizou até o final de 2009 um
contingente de 833.205 pescadores profissionais. Por seu lado, a Organização Internacional
do Trabalho - OIT estima em 1,24 milhão o número total de pescadores no país, fato
corroborado pelo Ministério Público do Trabalho que destaca um índice de informalidade das
relações trabalhistas na pesca, em torno de 90% (REPÓRTER BRASIL, 2009).
Pelo prisma da segurança alimentar, como provedor de alimentos, o setor pesqueiro
contribui com 15,7% da proteína animal disponibilizada para a população humana e com
6,1% de toda a proteína consumida no mundo (FAO, 2007). A pesca, sobretudo a de pequena
escala, representa a principal fonte de proteína animal para pescadores e comunidades
pesqueiras, além de ser responsável pelo abastecimento do mercado interno e de fornecer aos
consumidores alimento saudável, de alta qualidade e elevado valor protéico (PAIVA, 2004).
Destaca-se que o consumo per capita mundial de pescado em 2008 girou em torno de 17
kg/ano, correspondendo no Brasil, no mesmo ano, a 8,36 kg/ano, e projetando-se para 2009
No Brasil a maior parte dos estudos sobre avaliação do potencial pesqueiro e.g., (DIAS-NETO; MESQUITA, 1988); (HEMPEL, 1971); (LAEVASTU, 1961); (NEIVA; MOURA,
1977); (RICHARDSON; McKEE, 1964) se reporta às grandes regiões geográficas Norte,
Nordeste, Sudeste e Sul e, em geral, considera a biomassa como um todo sem descer a detalhes
de espécie ou grupo de espécies, ou ainda, sobre a distribuição espacial entre estados, municípios
e áreas de pesca. O IBAMA, através da publicação Perspectivas do Meio Ambiente para o Brasil
- Geo Brasil (IBAMA, 2001b), destaca como mais realistas estimativas da produção na faixa de
1.400.000 - 1.700.000 t/ano obtidas para profundidades até 200 m, por região e os ambientes
pelágico e demersal (DIAS-NETO; MESQUITA, op. cit.); (NEIVA; MOURA, op. cit).
Contudo, essas projeções não se confirmaram, ou guardam uma apreciável distância com os
resultados registrados para a produção nacional de pescado marinho desembarcada, suscitando
questionamentos sobre a credibilidade das metodologias empregadas nesses cálculos.
Com relação ao setor pesqueiro nacional, informações relativas ao ano de 2008
registram uma produção total de 1.156.423 t, da qual 529.773 t (45,81%) se referem às
atividades da pesca extrativa marinha, distribuída entre 461.640 t (87,14%) de peixes, 54.830
t (10,35%) de crustáceos e 13.302 t (2,51%) de moluscos. Em termos financeiros e tendo
como base os preços de primeira comercialização (IBAMA, 2008) foram gerados recursos na
ordem de R$3.626.766.735,00, dos quais R$ 2.469.980.035,00 (68,1%) correspondem ao
pescado gerado pelo subsetor extrativo marinho.
A comunidade de peixes do Estado do Ceará é representada por 14 ordens, 50
famílias (predominância de Carangidae, Haemulidae e Sciaenidae) e 124 espécies, dentre as
quais apenas nove foram consideradas como dominantes, o que confirma a existência de
grande diversidade da biocenose e, por consequência, pequena produção individual
(CASTRO E SILVA, 2004). A autora identifica uma relação desses atributos com a variação
da pluviosidade, que se evidencia tanto em termos estacionais, com a ocorrência de períodos
chuvoso e seco, como multianuais, com expressão mais visível e influente sob a forma de
secas periódicas, com todo o impacto negativo sobre as condições abióticas (deficiência de
Considerando-se a distribuição geográfica, em 2008 a região a Nordeste contribuiu
com a maior parcela da produção extrativa marinha de pescado, com 182.444 t (34,45%),
ultrapassando a região Sul que, até 2007, liderava o ranking nacional e passou a segunda
colocação com 159.014 t (30,01%). Complementando o quadro, a região Sudeste participou
com 99.248 (18,74%) e a região Norte com 16,81% (BRASIL, 2010). No entanto, quando se
considera o valor da receita, também com base nos dados do preço médio de primeira
comercialização, o Nordeste assume a primeira posição com 40,94%, como resultado da
captura de pescados de alto valor comercial, tais como lagosta, camarão e peixes
“vermelhos”. Nesta escala a região Sul cai para a terceira posição com 20,69%, em seguida à
segunda colocação da região Sudeste, com 22,46%, e ambas superiores à região Norte como
última colocada no contexto financeiro da pesca extrativa marinha.
O Nordeste, devido à sua extensão e à orientação variável (setentrional e oriental) do seu
litoral, juntamente com a versatilidade da tecnologia pesqueira que inclui métodos artesanais e
industriais em pescarias de pequena, média e grande escalas e o grande número (nove) de
unidades da federação destacam essa região como grande produtora de pescado. Desse modo,
os estados da Bahia e do Maranhão são exemplos dessa variabilidade, indicando a ocorrência da
maior produção no primeiro por conta da extensão do seu litoral e, no segundo, por conta da
grande riqueza ambiental de sua plataforma continental, alimentada por razoável volume de
aporte fluvial. Por outro lado, os estados do Ceará e Rio Grande do Norte, terceiro e quarto
colocados, se destacam pela predominância das pescarias motorizadas de médio e grande porte,
contando com um grande suporte industrial voltado para a produção de pescados de alto valor
comercial, principalmente lagostas no Ceará e atuns no Rio Grande do Norte.
A produção pesqueira marítima desembarcada no estado do Ceará durante o período
do estudo (1999 a 2008) apresentou uma média anual de 17.225 t, com um máximo de
20.538t registrado no ano de 2008 e o mínimo de 14.211 t, no ano de 2000. Em volume de
captura, nos anos mais recentes (2004 a 2008), a pesca de peixes foi responsável por 83,62%
da produção desembarcada, sendo os crustáceos e moluscos responsáveis por 16,13% e
0,25%, respectivamente. Com base nos preços de primeira comercialização, registrados para o
ano de 2007 (último ano com estatística oficial disponível), a pesca de peixe gerou R$
camarão) determinou o equilíbrio da receita, que chegou a R$ 54.862.790,00 (45,31%), mas
não para os moluscos, com a pequena receita de R$ 425.600,00 (0,35%) (IBAMA, 2007).
A frota pesqueira industrial cearense, que já se posicionou como uma das principais do
País nas décadas de 1970 e 1980, atualmente tem tido sua atuação reduzida a um contingente
de lanchas de madeira com comprimento na faixa de 8 – 15 metros, com atuação restrita ao
âmbito da plataforma do Ceará, e com algumas incursões para estados vizinhos como
Maranhão e Rio Grande do Norte a partir de portos-bases localizados em municípios
próximos à divisa. Registros recentes apontam para uma participação mínima da frota
industrial (constituída por lanchas com casco de aço) na composição da produção estadual,
caindo o valor da participação de 18,76% (2000) para 2,63% (2008). Os altos custos de
produção e a grande extensão geográfica da área de pesca agora localizadas nas zonas
extremas do Norte e Nordeste, são apontados como os responsáveis pela gradativa e contínua
desativação da frota industrial, fatos confirmados pelas seguintes informações: em média,
somente 3,7 embarcações industriais/mês operaram na pesca nos últimos dez anos, sendo que
no ano de 2008 foram registrados desembarques de apenas cinco embarcações em 12 meses
de operação no Ceará (IBAMA, 1999, 2000, 2001a, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007,
2008, no prelo).
O setor pesqueiro cearense, que sempre se destacou no cenário nacional pela pujança
de sua indústria, e pela alta mobilidade e competitividade de sua frota motorizada, tem
apresentado modificações importantes por causa do decréscimo da produção de lagostas
(FONTELES-FILHO, 2007), com reflexos sobre os diversos componentes da estrutura do
setor produtivo artesanal. No segmento artesanal, tem ocorrido o “êxodo” de parte
considerável da frota lagosteira motorizada para outros Estados (CASTRO E SILVA, 2004),
como estratégia dinâmica parta equilibrar a produção de lagosta e incentivar os pescadores
cearenses, conhecidos como verdadeiros nômades, a buscar o pescado onde quer que ele se
encontre, e retornando ao Estado durante e ao final de cada temporada de pesca. Nesse
contexto, tem-se reportado a criação de colônias fixas de pescadores cearenses no litoral do
Pará, Espírito Santo, Paraíba e ultimamente no extremo Sul da Bahia, tudo em função da
Os problemas hoje vivenciados pelo setor pesqueiro cearense, em grande parte estão
relacionados com a acentuada queda no preço de exportação do produto “cauda congelada de
lagosta”, que chegou a atingir o preço de R$ 100,00/kg a nível de produtor, e atualmente se
encontra em torno de R$ 45,00/kg. No entanto, a lagosta continua a representar a espécie alvo
de parte expressiva da frota cearense, em função do ainda atraente valor de venda, embora
cada vez mais o esforço de pesca efetivo tenha se restringido a poucos meses de operação
durante as temporadas anuais de pesca devido à necessidade de preservar o estoque reprodutor
através de um período de defeso (EHRHARDT; ARAGÃO, 2007), trazendo como
consequência o aumento da ociosidade da frota e prejuízos a pequenos armadores e
proprietários de embarcações lagosteiras, que clamam por alternativas viáveis para a
utilização de suas embarcações. Portanto, a despeito dos problemas da pesca da lagosta, o
setor pesqueiro tem se adequado à dinâmica da pesca, mantendo uma produção anual média
desembarcada no estado acima do patamar de 17 mil toneladas, no período de 1999 a 2008
(IBAMA, 2000, 2001a, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, no prelo). As frotas de
médio e de pequeno porte têm sido ampliadas e se consolidam como as de maior viabilidade
econômica para o setor pesqueiro estadual.
Nesse contexto, a pesca de peixes historicamente tem contribuído com os maiores
volumes da produção de pescado desembarcado no estado do Ceará, com sua importância
ampliada tanto no aspecto da geração de emprego e renda quanto nas questões que envolvem
a segurança ou suprimento alimentar das comunidades litorâneas (HAIMOVICI, 2011).
Verifica-se que além da frota veleira, habitual na pesca de peixes no Estado, tem crescido o
número de embarcações motorizadas pescando peixes como principal atividade e acima de
tudo o número de embarcações lagosteiras que têm na pesca de peixe a principal e melhor
alternativa de se manterem em atividade durante os seis meses do período de defeso da
lagosta (IBAMA, 2000, 2001a, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, no prelo)
Dentre as inúmeras combinações entre os tipos de embarcação e os tipos de petrechos
de pesca, que constituem uma “pescaria”, destacam-se aquelas que envolvem as lanchas de
madeira motorizadas e as embarcações veleiras jangada, paquete, canoa e bote-a-vela, e os
Em conjunto, essas pescarias são responsáveis em média por mais de 80% da produção
pesqueira no Ceará (CASTRO E SILVA, 2004).
A maioria dos trabalhos voltada para o conhecimento da pesca de peixes no estado do
Ceará trata principalmente da bioecologia de espécies importantes para pesca comercial tais
como: cavala, serra, biquara, cangulo e pargo e.g., (ALCÂNTARA-FILHO, 1972);
(COSTA; SALDANHA-NETO, 1976); (IVO; SANTIAGO; MONTEIRO-NETO, 1996);
(FONTELES-FLHO, 1968, 1969, 1988); (GESTEIRA; MESQUITA, 1976); (IVO, 1972);
(MENEZES, 1976); (MENEZES, 1979); (MOTA-ALVES; FERNANDES, 1973;
(XIMENES; 1981) (DIEDHIOU; FERREIRA; REZENDE, 2004); (FERREIRA et al., 2004).
Silva (2010) identifica várias publicações sobre temas ligados à exploração pesqueira, tais
como: ecologia da pesca artesanal, dinâmica e avaliação dos principais estoques pesqueiros
explorados, composição da ictiofauna, caracterização da frota e aparelhos-de-pesca,
etnoecologia, socioeconomia e modelos de gestão pesqueira.
Por seu turno, estudos específicos sobre a produtividade da pesca artesanal de peixes
são escassos, quando muito o tema é abordado em meio à discussão geral sobre a pesca. Entre
os poucos trabalhos neste sentido, ressalta-se o Programa de Avaliação do Potencial
Sustentável dos Recursos Vivos da Zona Econômica Exclusiva – REVIZEE, que produziu
uma série de documentos sobre a pesca no litoral brasileiro, destacando-se os trabalhos
organizados por Lessa, Bezerra-Junior. e Nóbrega (2009). Nestes, vários autores realizam um
estudo mais amplo e detalhado sobre espécies de peixes de interesse comercial no Nordeste
mas, mesmo assim, as informações sobre a produtividade se restringem a poucas espécies
amostradas, sem abordar aspectos relevantes como áreas de pesca e municípios de
desembarques, época do ano (chuvoso/seco) ou tipo de pescaria (petrechos de
pesca/embarcação). Os seguintes índices de rendimento relativos à pesca artesanal podem ser
encontrados em Fonteles-Filho (1997), com base em dados do período 1991-1994: (a) 5,21
t/embarcação/ano e 1,79 t/pescador/ano, com destaque para os municípios de Barroquinha,
Acaraú, Camocim, Fortaleza e Itarema; (b) 23,6 t/km de costa, com destaque para Fortaleza,
Barroquinha e Camocim; (c) 5,23 kg/habitante/ano, com destaque para Barroquinha,
Considerando que os rendimentos da pesca auferidos a partir dos desembarques retratam
a realidade das pescarias, o seu conhecimento aprofundado certamente proporcionará
orientações para definição das estratégias de pesca, a partir da identificação dos melhores
parâmetros das pescarias, em suas diversas variantes, que resultem nos melhores rendimentos
possíveis. Nessa abordagem, as pescarias são analisadas sob a ótica da produtividade das áreas
de pesca/municípios, das bacias hidrográficas e seus estuários, época do ano (períodos chuvoso
ou seco, meses), dos petrechos de pesca, dos tipos de embarcações e das espécies alvo.
O presente trabalho tem como objetivo realizar um estudo detalhado sobre a
produtividade da pesca de peixes com linhas e anzóis e de redes de emalhe, em conjunção
com embarcações motorizadas não industriais e embarcações a vela no estado do Ceará,
correlacionando os índices de rendimentos das principais espécies, com as áreas de pesca e
municípios de desembarques (dimensão espacial), com as mudanças estacionais do regime
climático (períodos chuvoso ou seco) e meses do ano.(dimensão temporal) e com os tipos de
pescarias (dimensão de tecnologia de pesca). O estudo almeja ainda proporcionar ao setor
pesqueiro informações substanciais sobre a pesca de peixes do estado do Ceará, com
indicativos dos maiores rendimentos em função dos parâmetros acima colocados, a partir da
análise de uma série histórica de dez anos (1999 – 2008) de dados de desembarques
produzidos pelo sistema de monitoramento da pesca do IBAMA/CE, Projeto ESTATPESCA.
Neste contexto as seguintes hipóteses iniciais são levantadas e orientam a conformação deste
trabalho, sendo tacitamente explicadas no bojo dos resultados alcançados:
As produtividades médias das áreas de pesca para o mesmo tipo de pescarias são
diferentes.
Entre todas as áreas de pesca a Área Oeste tem maior abundância e produtividade em
função de condições ambientais.
A estação chuvosa é mais abundante e produtiva que a estação seca.
A produtividade é diretamente proporcional à autonomia e tamanho da embarcação.
Os objetivos específicos deste trabalho compreendem o seguinte arranjo:
o Caracterizar as macro-áreas de pesca;.
o Identificar e caracterizar as principais pescarias;
o Padronização dos dados das pescarias;
o Selecionar as principais espécies por área de pesca.
Avaliação do rendimento por macro-área (Leste/Central/Oeste).
o Cálculo do rendimento médio.
por período do ano (chuvoso/seco);
por mês;
por município;
por tipo de pescaria;
por espécie.
o Definição e resumo dos melhores parâmetros de produção.
Cálculo da similaridade e elaboração de mapas perceptuais.
o Na dimensão espacial;
o Na dimensão temporal;
o Na dimensão tecnológica;
Cotejamento entre as áreas de pesca e síntese comparativa dos resultados obtidos.
o Por mês/estação climática;
o Por pescaria;
2
MATERIAL E MÉTODOS
2.1 Caracterização da área de estudo
O Estado do Ceará situa-se na região Nordeste do Brasil, com uma área total de
146.348,30 km², limitando-se a Leste com os Estados do Rio Grande do Norte e Paraíba, a
Oeste com o Piauí, ao Sul com Pernambuco e ao Norte e a Nordeste com o Oceano Atlântico,
sendo uma das 17 (dezessete) unidades litorâneas da Federação brasileira.
O litoral cearense se estende por 573 km, indo do município de Icapuí na fronteira
com o Estado do Rio Grande do Norte, ao Município de Barroquinha, fronteira Oeste com o
Estado do Piauí. Representa 8,5% do litoral brasileiro, compreendendo 21 municípios
litorâneos, com 107 locais de desembarques de pescado (IBAMA, 2007).
O clima dominante é o semiárido, com temperaturas variando entre 22 °C e 32 °C
em todo o Estado, com média de 27 °C para a faixa litorânea, onde predominam mangues,
dunas, falésias e restingas, com suas vegetações características, com destaque para o
coqueiral.
As águas do Atlântico na costa cearense apresentam temperaturas entre 25ºC e
28ºC e salinidade entre 35 ppm e 37 ppm. Predominam os ventos alísios, que vindo do
Sudeste fluem na direção ESE com velocidade média de 8,5m/s, sendo mais intensos nos
meses de agosto a outubro e mais brandos no período de janeiro a março (BRAGA;
CASTRO; SOARES, 2001).
A média anual histórica de precipitação de chuvas no Ceará é de 868,8 mm, com
um coeficiente de variação de 30% (LEMOS; BOTELHO, 2010), com o período chuvoso se
concentrando entre os meses de janeiro a junho, com maior intensidade entre março e abril
Segundo dados da Secretaria de Recursos Hídricos do Estado do Ceará – SRHO
(Atlas Eletrônico) o território cearense é dividido em onze bacias hidrográficas (Figura 1),
sendo que seis delas, abaixo especificadas, interagem diretamente com a zona costeira:
Figura 1 - Bacias hidrográficas do Estado do Ceará destacando aquelas que interagem com a zona costeira.
Bacia Hidrográfica do Baixo Jaguaribe – Esta Bacia Integra o complexo de bacias do rio Jaguaribe em conjunto com as bacias do Médio e do Alto
Jaguaribe abrangendo mais de 50% do território do Estado. É a de menor
capacidade de drenagem d’água dentre as bacias formadas pelo rio
Jaguaribe, com uma área aproximada de 8.893km2. O rio Palhano é o
principal afluente, sendo que a Bacia é regulada e perenizada pelo sistema
de açudes existentes no Médio e no Alto Jaguaribe, que conta com onze
grandes açudes, dentre eles os dois maiores reservatórios de água do
Ceará, os açudes Orós e Castanhão. Em função da complexidade da bacia
de drenagem do rio Jaguaribe são poucos os registros do cálculo da vazão
média efetiva no estuário do rio Jaguaribe. Os diversos barramentos
construídos ao longo dos anos no rio Jaguaribe prejudicaram sobremaneira
a descarga na região estuarina e, consequente, o carreamento de nutrientes,
sendo estimada a vazão média líquida no estuário do rio em 48 m3/s
(CAMPOS et al.,2000); (KROL et al. 2006); (MOLISANI; CRUZ; MAIA,
2006). A área de abrangência da Bacia engloba os municípios costeiros de
Fortim, Aracati e Icapuí e conta com dois importantes estuários,
representados pelo estuário do próprio rio Jaguaribe e a região estuarina de
Icapuí, com uma cobertura de mangue estimada em 12,26 km2 (SEMACE,
2006).
Bacia Hidrográfica Metropolitana – Ocupando uma área de 15.085km2 é
constituída por 16 sub-bacias independentes, onde se destacam as dos rios
Pirangi, Choró, Pacoti e os Sistemas Ceará/Maranguape, Cocó/Coaçu como
sendo hidrologicamente representativas. É a Bacia de maior extensão costeira
comportando os municípios de Beberibe, Cascavel, Aquiraz, Fortaleza,
Caucaia e São Gonçalo do Amarante, com uma vazão média máxima
estuarina estimada em 56,00 m3/s e uma área de manguezal de 20,71 km2
(SEMACE, 2006).
Bacia do Rio Curu - A bacia do Curu possui uma área de drenagem de 8.528
pelas Serras do Céu, da Imburana e do Lucas, até a foz. Os principais
tributários desta bacia são os rios Caxitoré, na margem direita e o Canindé,
pela margem esquerda. O litoral dos municípios de Paracuru e Paraipaba
compõe a Bacia que tem uma vazão média máxima no estuário dimensionada
em 21 m3/s, contando com uma área de cobertura de mangue de 1,09 km2
(SEMACE, 2006).
Bacia Hidrográfica Litoral (Aracatiaçu) – Com uma área de drenagem de 8.619
km², compreende as Bacias dos rios Aracatiaçu (3.415 km²), Mundaú (2.227
km²), Aracati-Mirim (1.565 km²), Trairi (556 km²) e Zumbi (193 km²), além de
uma Faixa Litorânea de Escoamento Difuso (FLED) de 663 km², sendo de
grande importância para a dinâmica costeira da região. Os municípios
litorâneos de Trairi, Itapipoca, Amontada e Itarema têm o litoral inserido no
contexto desta Bacia, que possui uma vazão média máxima no estuário
calculada em 21,00 m3/s e área de mangue de 37,39 km2 (SEMACE, 2006).
Bacia do Acaraú – Representa a segunda maior Bacia independente do
Ceará, engloba uma área de drenagem de cerca de 14.427 km2, que
representa cerca 9,22% da área do Estado. Localizada na zona Norte do
Ceará, essa região é drenada exclusivamente pelo Rio Acaraú e seus
afluentes entre os quais se destacam os rios Groaíras, Jacurutu, dos
Macacos e Jaibaras. Os municípios de Acaraú e Cruz participam da Bacia
com uma área de cobertura de mangue estimada em 18,09 km2 e uma
vazão média máxima de 31,00 m3/s (SEMACE, 2006).
Bacia Hidrográfica do Coreaú - A área de drenagem tem 10.657 km², formada
pela bacia do próprio rio Coreaú e seus afluentes, com 4.446 km², como
também pelo conjunto de bacias independentes adjacentes que variam de
pouco mais de 125 km² (Córrego da Poeira) até próximo de 1.850 km²
(Timonha). Esta Bacia possui a maior cobertura de mangue composta de
A Plataforma Continental (PC) do Estado do Ceará se inseri em parte na Bacia Potiguar,
no trecho que vai de Icapuí até o alto de Fortaleza, e a partir deste limite, até a divisa com o litoral
piauiense, passa a integrar a Bacia do Ceará (BIZZI et al., 2003). A plataforma continental cearense
tem uma área total de 39.620 km2, correspondendo a 9,49% da plataforma da região Nordeste e
1,80% da plataforma brasileira (PAIVA; BEZERRA; FONTELES-FILHO, 1971). Esta região é
banhada pelas águas salinas e oxigenadas da Corrente Norte do Brasil (CNB), a qual é um ramo da
corrente Atlântica Equatorial que atinge a costa brasileira entre as cidades de Recife e Natal, fluindo de
ESE para WNW (MONTEIRO, 2011). A CNB alcança velocidades entre 30 e 50 cm/s, no início do
ano, podendo alcançar 100 cm/s no período de inverno (RICHARDSON; McKEE, 1984). Monteiro
(2011) constatou que a velocidade da corrente na região da plataforma continental interna cearense
(até 20 m de profundidade) é influenciada pelo fluxo das marés e varia de 1 a 69 cm/s.
No Ceará a PC tem uma largura média de 70 km, com um máximo de 101 km no limite
com o Estado do Piauí, gradativamente diminuindo e atingindo a largura mínima de 41 km na altura
de Tremembé, próximo à divisa com o Estado do Rio Grande do Norte (BRASIL, 2006); (LIMA;
MORAIS; SOUSA, 2000). A profundidade se caracteriza pela pequena declividade de 1:670 a 1:1000
(VIDAL; BECKERB; FREIRE, 2008). Na parte oceânica frente à costa do Ceará afloram bancos com
profundidade entre 50m e 350m, que integram a Cadeia Norte do Brasil, sendo de grande importância
econômica para atividade pesqueira (SALES; MACEDO; MOZZETO, 2009), destacando-se como de
vasto conhecimento dos pescadores locais, os bancos denominados Aracati, Mundaú, Leste e do
Meio.
Na composição vertical, segundo Vidal, Beckerb e Freire (2008), no fundo marinho do
litoral cearense distinguem-se duas zonas, a primeira indo até a isóbata de 20 metros, constituída de
areias quartzosas e sedimentos clásticos e a outra, que vai até a isóbata de 70 metros de profundidade,
formada por algas calcarias.
O litoral do Estado do Ceará foi dividido em três áreas de pesca distintas (Figura 2), em
função das particularidades de cada área de pesca, visando um melhor entendimento das
características das pescarias e como base para comparação do desempenho da pesca. Nesta divisão
foram consideradas as características dos estuários das bacias hidrográficas (Tabela1), da plataforma
Figura 2 - Mapa do estado do Ceará mostrando a divisão do litoral em áreas de pesca e respectivos municípios.
Tabela 1 - Características das bacias hidrográficas do território cearense que interagem com a zona costeira.
Chuvoso Seco Rio Timonha 50,11 22,00 < 1 Rio Tapuio 6,35 1,00 < 1
Camocim Rio Coreaú 35,30 32,00 < 1
Jijoca Mangue seco 3,76
Aranaú 0,91
Acaraú 17,18 31,00 1,00 Itarema 19,81
Enseada dos patos 0,83
Rio Aracatiaçu 7,78 9,00 < 1 Rio Mundaú 7,96 12,00 < 1 Lagamar do sal 1,01
Paracuru Curu Rio Curu 1,09 21,00 1,00 Rio Ceará 8,81 5,00 < 1 Rio Cocó 5,26 6,00 < 3 Rio Pacoti 3,84 19,00 1,00
Aquiraz Iguape 0,26
Cascavel Malcozinhado 0,26 2,00 1,00 Choró 0,44 9,00 1,00 Piranji 1,84 15,00 < 1
Fortim Jaguaribe 11,64 48,00
Icapuí Icapui 0,62
Vazão (m³/s)
Região Município Bacia Estuário Manguezal
(km²)
Metropolitana Leste
Vazão total 48,00 m³/s Mangue
12,26 km²
Beberibe
Jaguaribe Oeste
Vazão total 95 m³/s Mangue 142,03 km² Barroquinha Coreaú Acaraú Acaraú Itarema Litoral Central Vazão total 28,50
m³/s Mangue 65,00 km²
Traíri
1) Área Leste – Se estende da divisa com o Rio Grande do Norte até o limite
Oeste do município de Cascavel, com uma faixa de litoral de aproximadamente 145 km. É
formada pelos municípios de Icapuí, Aracati, Fortim, Beberibe e Cascavel, tendo a frota
pesqueira bem dividida entre embarcações motorizadas e aquelas com propulsão a vela,
predominando na região a pesca de linha. Compreendida na área da bacia hidrográfica do
Jaguaribe e em parte da bacia Metropolitana, o estuário do Rio Jaguaribe é o mais importante
da região, embora a área de cobertura de mangue seja relativamente pequena e a vazão
comprometida pelas barragens construídas ao longo do seu curso (CAMPOS et al., 2000). O
substrato da plataforma continental é composto por retalhos de tipos de fundo onde ora
predomina a areia lamosa, ora areia média e ora o fundo de cascalho, tendo ainda a oeste
dessa região, na altura da Praia das Fontes no município de Beberibe e um pouco mais
distante da costa, a ocorrência de recifes. Complementando o mosaico do fundo da plataforma
continental da região Leste, observa-se na proximidade da divisa dos municípios de Beberibe
e Cascavel a ocorrência de uma faixa de areia fina, na parte anterior aos recifes (Figura 3);
2) Área Central - Da divisa Oeste do município de Cascavel ao limite Oeste de
São Bento da Amontada, contempla os municípios de Aquiraz, Fortaleza, Caucaia, São
Gonçalo do Amarante, Paracuru, Paraipaba, Trairi, Itapipoca e São Bento da Amontada. Esta
ampla faixa litorânea (238 km) abriga a maior diversidade de tipos de embarcações,
predominando a frota movida a vela, com um número expressivo de paquetes, jangadas e
canoas. As embarcações motorizadas são em menor monta e se concentram principalmente no
município de Fortaleza, onde a pesca tem um perfil diferenciado dos demais municípios da
área. Para a frota veleira predominam as pescarias com uso de rede de emalhe, enquanto que
as linhas são mais utilizadas pela frota motorizada. Nesta região estão inseridas as Bacias
Hidrográficas Metropolitana, Curu e grande parte da Bacia Litoral, onde se destacam os
estuários dos rios Cocó, Ceará e Mundaú. O fundo da Plataforma Continental é caracterizado
por uma ampla faixa de areia média que cobre a região mais costeira e já próxima à divisa dos
municípios de São Bento da Amontada e Itarema, na porção mais afastada da costa,
destaca-se a predominância do fundo de cascalho (Figura 3);
3) Área Oeste - Os municípios de Itarema, Acaraú, Cruz, Jijoca, Camocim e
Amontada e Itarema até a divisa com o Estado do Piauí. As embarcações motorizadas
predominam, principalmente nos municípios de Acaraú, Camocim e Itarema. As embarcações a
vela são compostas quase na totalidade por canoas e botes a vela, sendo insignificante o número
de jangadas e paquetes. Entre as embarcações motorizadas predominam as pescarias de linha,
todavia, o uso de redes é expressivo, sobretudo as redes de deriva. Para a frota veleira observa-se
um equilíbrio quanto ao uso nas pescarias de linha de mão e de rede de emalhe, destacando-se o
acentuado emprego de redes de espera. A região abrange as Bacias Hidrográficas dos rios Acaraú
e Coreaú, e ainda uma pequena faixa da Bacia Litoral representada pelo litoral do município de
Itarema, comportando ainda os importantes estuários dos rios Acaraú, Coreaú e Timonha. A
Plataforma Continental é caracterizada pela predominância do fundo com cobertura de cascalho,
intercalado por pequenos trechos com areia média e no estremo Oeste, mais distante da costa,
uma faixa de areia lamosa (Figura 3).
Fonte: DIAS, G.T.M (1996).
2.2 Origem dos dados
Os dados utilizados neste trabalho são oriundos do banco de dados do Projeto de
Estatística Pesqueira (ESTATPESCA) executado pela Superintendência Estadual do Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA/CE), no período de
1999 a 2008.
Originalmente os dados de campo sobre a atividade da frota (esforço de pesca) e
dos desembarques pesqueiros foram adquiridos pela rede de coletores do IBAMA em diversos
pontos de desembarque distribuídos ao longo do litoral cearense, previamente selecionados
pela Coordenação do Projeto ESTATPESCA. A coleta de dados segue a metodologia
analisada por Aragão, Rocha e Petrere Junior (2005) e descrita por Aragão e Castro e Silva
(2006), na qual, cada coletor controla os desembarques de parte da frota de determinado(s)
ponto(s) de desembarque, procurando contemplar amostras de todos os tipos de pescarias
existentes na(s) localidade(s) acompanhada(s). São anotados os dados da produção
desembarcada, por espécie e o esforço de pesca de cada desembarque controlado, que se
constitui na anotação da data da saída e chegada da embarcação e o petrecho de pesca que ela
empregou na faina pesqueira. Os dados dos desembarques são registrados em formulários
apropriados, os quais são recolhidos periodicamente pelos supervisores de cada área,
criticados e digitados utilizando-se software desenvolvido pelo IBAMA especificamente para
o processamento desses dados. Após a tabulação, os dados são novamente criticados pelos
supervisores de área e efetuadas possíveis correções, passando-se então para a etapa de
estimação da produção, mês a mês. Ao final do período anual é realizada a consolidação final
das estimativas emitindo-se os resultados finais da produção pesqueira marítima e estuarina
do Estado por espécie, tipo de frota, petrecho de pesca, município, mês e anual, além de dados
detalhados sobre o esforço de pesca da frota. O processo de estimação da produção,
basicamente segue o método de estrapolação de médias por tipo de pescaria, adquiridas
através do controle de desembarque, mantendo ainda as proporções de ocorrência de cada