Texto

(1)

Processo

6900/21.7T8LRS-B.L1-2

Data do documento

24 de fevereiro de 2022

Relator

Orlando Nascimento

TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA | CÍVEL

Acórdão

DESCRITORES

Embargos de terceiro > Direito real de garantia > Prédio rústico

SUMÁRIO

Os embargos de terceiro não são o instrumento processual próprio para a defesa de um direito de crédito com génese num documento particular de

“Reserva-antecipação de cumprimento do pagamento do preço (pré-contratual promessa de compra e venda com eficácia real)” relativo a uma denominada

“fracção” e numa hipoteca sobre um prédio rústico, que será o local para implantação dessa “fracção”, em face de uma restituição provisória da posse decretada pelo tribunal.

(Pelo Relator).

TEXTO INTEGRAL

Acordam os Juízes que constituem o Tribunal da Relação de Lisboa.

1. RELATÓRIO.

Elisabete … requereu embargos de terceiro por apenso a procedimento cautelar em que foi ordenada a restituição provisória da posse de uma

(2)

“vivenda designada pela letra C, …que se encontra construída sobre o prédio rústico, registado…”, pedindo, em síntese, se declare que seja ordenada a rectificação dessa decisão, no sentido de constar que incide sobre a “Fracção A” do empreendimento, com fundamento em que celebrou “…em 20 de agosto de 2021 um escrito pré-contratual a promessa de compra e venda da futura “Fracção C” a construir no prédio rústico…identificado…”,

O Tribunal a quo proferiu despacho, indeferindo liminarmente os embargos por resultar do requerimento inicial que não estão reunidos os pressupostos previstos no n.º 1, do art.º 342.º, do C. P. Civil, nomeadamente, por a requerente não se arrogar ser possuidora do imóvel em causa.

Inconformada com essa decisão a Requerente dela interpôs recurso, recebido como apelação, pedindo a sua revogação e a substituição por outra que dê seguimento aos embargos de terceiro, prosseguindo os autos os seus ulteriores termos, formulando para o efeito as seguintes conclusões:

A – O Tribunal a quo indeferiu liminarmente os embargos de terceiro com fundamento no facto da RECORRENTE não se arrogar ser possuidora do imóvel sobre o qual foi ordenada a restituição provisória da posse;

B – Mais decidiu que muito menos é a RECORRENTE titular de um direito incompatível com a restituição provisória da posse ordenada – com alguma deficiência de fundamentação – ao abrigo do disposto no nº 1 do artº 342º do Código do Processo Civil;

C – A análise do Tribunal a quo, nos termos vertidos no Douto despacho em crise, com o devido respeito – que é muito - foi superficial, precipitada, omitiu apreciação de factos que deveria apreciar, resultando manifestamente incorrecta;

(3)

D – Os 1ºs EMBARGADOS nunca tiveram a posse da “Fracção C” por a mesma se encontrar em construção, sem condições de habitabilidade e sem que esta seja o imóvel onde, alegadamente, vivem desde há cerca de 10 anos;

E – Há um manifesto erro de identificação no requerimento de interposição do procedimento cautelar de restituição provisória da posse que os 1ºs EMBARGADOS reproduziram e que implicou que a decisão recaísse sobre imóvel distinto do pretendido;

F – Os 1ºs EMBARGADOS sabem e não podem ignorar - por se tratar de facto pessoal do qual têm conhecimento directo – que não têm nem nunca tiveram, indiciariamente ou não, a posse da “Fracção C”;

G - A RECORRENTE é titular de um direito incompatível com a restituição provisória da posse ordenada aos 1ºs EMBARGADOS, designadamente quando restituída provisoriamente a posse da invocada “Fracção C” como peticionada em sede de procedimento cautelar especificado;

H – O direito incompatível da RECORRENTE não decorre de qualquer expectativa ou da posse da “Fracção C” mas antes do direito hipotecário que a RECORRENTE tem sobre o imóvel que foi objecto da mesma, a futuro incidente sobre a “Fracção C” prometida contratar;

I - O regime dos embargos de terceiro previstos no artº 342º e ss do Código do Processo Civil constituem “os embargos de terceiro constituem uma modalidade especial de oposição espontânea. Esses embargos destinam-se a permitir a reacção de um terceiro contra um acto judicial que ordena a apreensão ou entrega de bens e que ofende a sua posse ou qualquer direito incompatível com a realização do âmbito da diligência (artº 351, nº 1)”33;

J - Os embargos deixaram de se poder basear exclusivamente na posse para se poderem também fundar, por um lado, na titularidade do

(4)

direito de fundo, e, por outro, estabeleceu-se que só a posse ou o direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência judicial ordenada é que legitima os embargos.34;

L - A determinação do direito incompatível deve ser feita tendo em conta a função e a finalidade concreta quer do direito pretensamente ofendido, quer da diligência ou acto judicial que alegadamente o ofende. 35;

M - Como é sabido, a hipoteca confere ao credor o direito de ser pago pelo valor de certas coisas imóveis, ou equiparadas, pertencentes ao devedor ou a terceiro, com preferência sobre os demais credores que não gozem de privilégio especial ou de prioridade de registo (nº 1 do artº 686º do Código Civil).

N - Direito hipotecário esse que, como é pacificamente aceite, é, assim, um verdadeiro direito real, não de gozo, mas de garantia (vidé, a propósito, e por todos, o prof. A. Varela, in “RLJ, nº 124, págs. 350 e 352”);

O - A restituição provisória da posse em causa foi determinada efectivamente num procedimento cautelar, visando, como fim último, a restituição da posse da “Fracção A” [por ser a única que indiciariamente os 1ºs EMBARGADOS ocupam] e não “Fracção C”;

P - O direito (hipotecário) da RECORRENTE, por não se verificar a coincidência total entre os bens – “Fracção A” e “Fracção C,” mostra- se incompatível com a restituição provisória da posse ordenada e levada a efeito no sobredito procedimento cautelar;

Q – O facto de a RECORRENTE saber do litígio que opõe os 1ºs EMBARGADOS e a 2ª EMBARGADA só demonstra a boa fé daquela que se apercebeu e fez constar nos escritos celebrados o erro manifesto praticado pelos 1ºs EMBARGADOS na sua Douta P.I.;

R – Este conhecimento não pode ser fundamento de facto e de Direito

(5)

para rejeição liminar dos embargos deduzidos;

S – De igual forma, o facto de a decisão de restituição do imóvel ser sempre provisória não pode ter como consequência a manutenção do erro claramente constatável e muito menos ser fundamento para rejeição dos embargos deduzidos, pelo contrário;

T – Com o Douto despacho recorrido o Tribunal a quo violou o artº 342º, 345º e nº 1 do artº 590º do Código de Processo Civil;

U – O Tribunal a quo deveria ter interpretado e aplicado o nº 1 do artº 342º e 345º do Código de Processo Civil no sentido de admitir liminarmente os embargos de terceiro deduzidos e, em consequência, citar os EMBARGADOS para contestar, querendo, seguindo os demais termos até final;

V – Igualmente deveria ter procedido nos termos do disposto no artº 345º do Código do Processo Civil à realização das diligências probatórias requeridas por forma a corrigir o erro manifesto em que a douta decisão de restituir a posse da “Fracção C” aos 1ºs EMBARGADOS;

X – Por fim, incorreu o Tribunal a quo em errada interpretação e aplicação do nº 1 do artº 590º do Código de Processo Civil ao julgar manifestamente improcedente o incidente de Embargos de Terceiro deduzido quando deveria ter interpretado esta norma no sentido de os admitir liminarmente.

O apelado contra-alegou, pugnando pela confirmação da sentença recorrida.

2. FUNDAMENTAÇÃO.

A) OS FACTOS.

A matéria de facto a considerar é a acima descrita, sendo certo que a questão submetida a decisão deste tribunal se configura, essencialmente, como uma questão de direito.

(6)

B) O DIREITO APLICÁVEL.

O conhecimento deste Tribunal de 2.ª instância, quanto à matéria dos autos e quanto ao objecto do recurso, é delimitado pelas conclusões das alegações da recorrente como, aliás, dispõem os art.ºs 635.º, n.º 2 e 639.º 1 e 2 do C. P. Civil, sem prejuízo do disposto no art.º 608.º, n.º 2 do C. P. Civil (questões cujo conhecimento fique prejudicado pela solução dada a outras e questões de conhecimento oficioso).

Atentas as conclusões da apelação, acima descritas, a questão submetida ao conhecimento desta Relação pela apelante consiste, tão só, em saber, se os embargos devem prosseguir, como pretende a apelante, ou se devem ser rejeitados liminarmente, como decidiu o tribunal a quo.

Vejamos.

Dispõe o n.º 1, do art.º 342.º, do C. P. Civil que:

“Se a penhora, ou qualquer ato judicialmente ordenado de apreensão ou entrega de bens, ofender a posse ou qualquer direito incompatível com a realização ou o âmbito da diligência, de que seja titular quem não é parte na causa, pode o lesado fazê-lo valer, deduzindo embargos de terceiro”.

No caso sub judice, estando excluída, como a própria apelante reconhece, a ofensa à sua posse, a qual não existe, como o tribunal a quo também refere na sua decisão, resta-nos averiguar se a apelante é titular de um qualquer direito incompatível com a restituição ordenada.

Como melhor resulta dos documentos que acompanham o requerimento inicial, o invocado “direito incompatível” da apelante estrutura-se, primeiramente, num escrito particular denominado

“RESERVA-ANTECIPAÇÃO DE CUMPRIMENTO DO PAGAMENTO DO PREÇO (PRÉ-CONTRATUAL PROMESSA DE COMPRA E VENDA COM EFICÁCIA

(7)

REAL) pelo qual, grosso modo, as partes, entre elas a apelante, se obrigam a celebrar contrato-promessa de compra e venda (cláusula primeira), sobre uma “Fração Autónoma “C””, aliás inexistente, referindo-se nesse documento uma “Fracção A” e a existência de litígio judicial em relação à mesma, e em segundo lugar numa hipoteca sobre um prédio rústico, que será o local para implantação das ditas

“fracções”.

A apelante discorda da restituição de posse ordenada, como decorre das conclusões A a F, pretendendo ter a mesma incorrido em erro quanto à identificação da “fracção”, mas o certo é que a apreciação dessa decisão, em qualquer das suas vertentes, até atento o disposto no n.º 2, do art.º 631.º, do C. P. Civil, está fora do âmbito desta apelação.

No âmbito desta apelação importa, tão só, identificar o direito da apelante que possa ser ofendido com a diligência ordenada.

Sobre esta matéria decidiu o tribunal a quo que:

“…a embargante apenas é titular de uma expectativa relativamente à celebração de um contrato-promessa sobre o imóvel, expectativa essa que foi constituída já após a restituição da posse aos requerentes do procedimento cautelar. O acordo que a embargante celebrou apenas vincula quem nele interveio, sendo certo que em tal acordo a requerida... se vincula à celebração de um contrato-promessa, ou seja, vinculou-se a uma prestação de carácter obrigacional que não confere à ora embargante senão um direito de conteúdo obrigacional e em nada incompatível com a restituição da posse referente ao imóvel…”.

E assim é, na verdade, no que respeita ao escrito de “Reserva”, mas também no que respeita á escritura de hipoteca, cujo direito real de garantia se limita a conferir ao seu titular “…o direito de ser pago … com preferência sobre os demais credores…”, como dispõe o n.º 1, do

(8)

art.º 686.º, do C. P. Civil e resulta desde logo da inserção sistemática do instituto no capítulo VI, relativo a Garantias especiais das obrigações, do Livro II, relativo a Direito das Obrigações, do C. Civil.

Assim, sendo a apelante, verosimilhantemente, titular de um mero direito de crédito, não se vislumbra que os embargos de terceiro sejam o instrumento processual próprio para sua defesa, pelo que os mesmos não podiam deixar de ser liminarmente indeferidos.

Improcede, pois, a questão e com ela a apelação.

C) SUMÁRIO

Os embargos de terceiro não são o instrumento processual próprio para a defesa de um direito de crédito com génese num documento particular de “Reserva-antecipação de cumprimento do pagamento do preço (pré-contratual promessa de compra e venda com eficácia real)”

relativo a uma denominada “fracção” e numa hipoteca sobre um prédio rústico, que será o local para implantação dessa “fracção”, em face de uma restituição provisória da posse decretada pelo tribunal.

3. DECISÃO.

Pelo exposto, acordam os juízes deste Tribunal da Relação em julgar a apelação improcedente, confirmando a decisão recorrida.

Custas pela apelante.

Lisboa, 24-02-2022

Orlando Santos Nascimento Maria José Mouro

José Maria Sousa Pinto

(9)

Fonte: http://www.dgsi.pt

Imagem

Referências

temas relacionados :