Idosos e cidadania:
direito de acesso a medicamentos
Angela Simonetti Resumo: Nos últimos anos, conforme indicadores oficiais, o Brasil vem
apresentando um novo padrão demográfico. Verifica-se além da redução da taxa de crescimento populacional, transformações profundas na composição da estrutura etária, em especial, um significativo aumento do contingente de idosos. Em consequência dessas modificações, percebe-se importantes mudanças também no perfil epidemiológico da população. Essas constatações dos pesquisadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tiveram repercussão na Política Nacional de Saúde, isso porque, se no passado as principais causas de morte eram doenças parasitárias, de caráter agudo; atualmente observa-se o aumento de diagnósticos de doenças crônico-degenerativas como diabetes, acidente vascular cerebral, neoplasias, demência senil, geralmente de longa duração e de alto custo de tratamento. Este artigo se propõe a analisar a Política Nacional de Saúde e a Política Nacional de Medicamentos a partir da definição constitucional sobre os direitos dos cidadãos e os deveres do Estado. Neste quadro, dá realce ao acesso a medicamentos – instrumento de efetivação do direito à saúde que deve ser garantida por políticas públicas.
Palavras-chave: Cidadania; Idoso; Medicamento; Política Pública de Saúde. Introdução
A Política Nacional de Medicamentos (PNM) se constitui em instrumento para o acesso das pessoas aos meios necessários à promoção, prevenção e recuperação de sua saúde e, consequentemente, para a melhoria da condição e da qualidade de vida. O estabelecimento desta Política justificou-se pela constatação de que o Brasil vem apresentando um novo padrão demográfico - além da redução da taxa de crescimento populacional, têm ocorrido transformações profundas na composição da estrutura etária, em especial um significativo aumento do contingente de idosos. Em consequência dessas modificações há, também, importantes alterações no perfil epidemiológico da população. (Brasil, 2009). Surgem novas demandas, cujo atendimento requer constante adequação do modelo de atenção prestado pelo Sistema Único de Saúde (SUS); além de um novo e significativo envolvimento de recursos materiais e humanos por parte do Estado (Marin, 2008).
Entre os objetivos da PNM, portanto, está o fornecimento de medicamentos, especialmente os de uso contínuo aos portadores de doenças
crônico-degenerativas; bem como os medicamentos de alto custo utilizados no tratamento de neoplasias, por exemplo. Desta forma, objetiva-se atender os princípios do Estado social democrático, especialmente os princípios da dignidade humana e da cidadania, positivados na Constituição Federal.
Dignidade humana e cidadania na Constituição Federal
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu obrigações ao Estado e direitos aos cidadãos. Entre esses direitos está a saúde – um conceito que, para além da ausência de doença, está relacionado ao bem estar, a condições seguras de trabalho, e a moradia adequada. É dever do Estado garantir a prestação de serviços considerados essenciais pela sociedade, para que todas as pessoas tenham condição material de vida digna em todo o território brasileiro. O acesso aos medicamentos envolve uma complexa rede de atores, públicos e privados (Bennet; Quick et al, 2001).
O artigo 1º da Constituição Federal enuncia que a República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: a soberania; a cidadania; a dignidade da pessoa humana; os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; o pluralismo político.
Está claro que o conceito de democracia não leva em conta apenas a decisão da maioria. A sociedade democrática deve, além de dar espaço para que minorias como os idosos se manifestem, resguardar os seus direitos (Brasil, 1988)
O princípio da dignidade da pessoa humana é um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito. Embora a dignidade da pessoa humana seja um conceito aberto sob o qual podem abrigar-se as mais variadas concepções, é um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Apresenta-se como direito de proteção individual em relação ao Estado e aos demais indivíduos, e como dever fundamental de tratamento igualitário.
Para Immanuel Kant ao homem não se pode atribuir preço (Zatti, 2007) O filósofo escreveu, na segunda metade do século XVIII, que a dignidade constitui a dimensão moral da personalidade, que tem por fundamentos a liberdade e a autonomia da pessoa, dotada de autonomia racional (Luño, 2006).
Se ao homem não se pode atribuir preço, e o Estado tem dever de oferecer tratamento igualitário aos cidadãos, e há que existir estruturas para isso. Lafer enfatiza a importância das instituições resultantes da organização humana, afirmando que as diferenças podem ser equalizadas através de instituições como o sistema judicial, o sistema eleitoral e político, e o sistema previdenciário e de assistência social apresentam-se como garantidores de condições civis, políticas, sociais e econômicas mais equitativas aos cidadãos. Nesse sentido, o acesso à esfera do público significa o acesso à igualdade (Lafer, 2006).
Assim, pelo princípio aristotélico de igualdade, tem-se o tratamento igual aos iguais e desigual para os desiguais, há, portanto, o reconhecimento de que existem diferenças entre as pessoas. Além disso, o critério para a distribuição se dá com base no mérito de cada um, ou seja, na medida de sua desigualdade em relação aos outros (Aristóteles, 2007).
O acesso aos medicamentos pelos idosos expõe uma face desta questão.
Direito à saúde e a Política Nacional de Medicamentos
Os Estados Membros da Constituição da Organização Mundial da Saúde (OMS)1 declararam os princípios considerados basilares para a felicidade dos povos, para as suas relações harmoniosas e para a sua segurança. E incluiu o conceito de saúde:
A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade.
Gozar do melhor estado de saúde que é possível atingir constitui um dos direitos fundamentais de todo o ser humano, sem distinção de raça, de religião, de credo político, de condição econômica ou social. [...] (OMS/WHO, 1946)
Para as Nações Unidas, o direito à saúde significa que os governos devem garantir condições nas quais todos possam ser tão saudáveis quanto for possível. Neste sentido, esclarece que o direito à saúde não significa o direito a ser saudável:
The right to health means that governments must generate conditions in which everyone can be as healthy as possible. Such conditrange from ensuring availability of health services, healthy and safe working conditions, adequate housing and nutritious food. The right to health does not mean the right to be healthy. (UN, 2008)2
Em suma, o Estado deve pôr em prática políticas públicas que resguardem e promovam a saúde da população, inclusive com segurança no trabalho e condições dignas de moradia, políticas estas sujeitas aos mecanismos de controle social (Aith e Dallari, 2009).
1 A Organização Mundial da Saúde (OMS) é um organismo que entrou em funcionamento no dia 7 de abril 1948, data em que 26 Estados-membros depositaram sua adesão junto ao Secretário Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje a OMS conta com 192 Estados-membros (Aith, Fernando M. A., 2006: 70,71).
2 Numa versão livre para o português: O direito à saúde significa que os governos devem gerar condições nas quais cada um possa ser tão saudável quanto possível. Isso inclui assegurar acesso a serviços de saúde, a condições de trabalho seguras e saudáveis, adequadas moradia e nutrição. Direito à saúde não se restringe ao direito de ser saudável.
Cabe, assim, ao governo brasileiro adotar políticas públicas no intuito de adequar-se aos princípios estabelecidos pelos organismos internacionais e, ao mesmo tempo, concretizar os direitos estabelecidos como objetivos da
República Federativa do Brasil: de construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza, reduzir as desigualdades sociais e regionais e promover o bem de todos.3
Política pública é um programa ou quadro de ação governamental, e consiste em um conjunto de medidas coordenadas cujo escopo é impulsionar a máquina do governo, a fim de concretizar direitos (Bucci, 2006). Neste recorte, importa que entre as políticas a serem adotadas por determinação constitucional, estão aquelas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos; e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para promoção, proteção e recuperação da saúde.4
Em seu artigo 6º, a Constituição dispõe que são direitos sociais: educação, saúde, trabalho, moradia, lazer, segurança, previdência social, proteção à maternidade e à infância, e assistência aos desamparados. (Brasil, 1988)
Juridicamente, portanto, saúde é um direito social fundamental.5 E as ações e serviços de saúde são considerados de relevância pública no país.6
A saúde é direito de todos, com acesso universal e igualitário. Desse modo, qualquer pessoa que esteja no Brasil, seja brasileiro ou estrangeiro, residente ou não no país, pode reclamá-lo (Francisco, 2010).
Por compreender um espectro muito mais amplo do que o tratamento de doenças, a garantia do direito à saúde depende de diversas políticas públicas. Em se tratando de medicamentos, aparato tecnológico disponível para o combate às doenças, seu uso é medida que não pode ser dispensada. Nesse sentido, conforme os artigos 6º e 7º da Lei Orgânica da Saúde, o acesso aos medicamentos é parte integrante do direito à saúde. De acordo com o princípio
3 Brasil. CF/88. Art. 3º. “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.”
4 Cf. BRASIL. CF/88. Art. 196. “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.
5 Cf. BRASIL. CF/88. Art. 6º: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.” (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 64, de 2010). Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constitui%C3%A7ao.htm> Acesso em: 23/out/2009.
6 Cf. BRASIL. CF/88. Art. 197. “São de relevância pública as ações e serviços de saúde, cabendo ao Poder Público dispor, nos termos da lei, sobre sua regulamentação, fiscalização e controle, devendo sua execução ser feita diretamente ou através de terceiros e, também, por pessoa física ou jurídica de direito privado.”
da integralidade de assistência, os brasileiros devem ter plenamente garantidos o amparo terapêutico e farmacêutico (Brasil, 1990).
Medicamentos são produtos desenvolvidos para prevenir ou curar doenças, além de serem úteis na minimização dos sintomas, tendo ainda finalidade diagnóstica. Nesse sentido, aliviam a dor e o sofrimento e têm importante papel na qualidade de vida das pessoas, e são, portanto, produtos estratégicos de suporte às ações de saúde, cuja falta pode provocar interrupções no tratamento, afetar a qualidade de vida dos usuários e a credibilidade dos serviços farmacêuticos e do sistema de saúde como um todo (Brasil, 2006). A Política Nacional de Medicamentos (PNM) foi instituída pela Portaria n.º 3.916 do Ministério da Saúde, de 30 de outubro de 1998, com o objetivo de ser um instrumento de justiça distributiva para que as pessoas tenham acesso aos meios necessários para a promoção, prevenção e recuperação de sua saúde e, consequentemente, a uma melhor condição e qualidade de vida.
Para além de garantir segurança, eficácia e qualidade dos medicamentos disponibilizados, a PNM visa o uso racional de fármacos considerados essenciais tendo como prioritário o caráter preventivo das ações de promoção, proteção e recuperação da saúde – o que enfatiza a necessidade de atendimento à crescente população idosa do país, uma vez que é cada vez maior a demanda por medicamentos destinados ao tratamento das doenças crônico-degenerativas, fármacos de uso contínuo, além de novos procedimentos terapêuticos de alto custo (Brasil, 2001).
Atenção do Estado à saúde do idoso e a Rename
Os idosos constituem 50% das pessoas que utilizam múltiplos medicamentos. Um estudo realizado com idosos de uma unidade do Programa Saúde da Família verificou serem frequentes a cronicidade das doenças, o uso de múltiplos medicamentos, os efeitos adversos, e a falta de prescrição adequada – fatores que podem prejudicar o estado geral dessa população (Marin, 2008). De acordo com o Conselho Federal de Farmácia (CFF), o Brasil é o país com o maior número de farmácias do mundo (CFF, 2003: 16). Segundo a Organização Panamericana da Saúde (OPAS): em 2003 havia 450 indústrias brasileiras autorizadas a fabricar produtos farmacêuticos acabados. O mercado movimenta milhões de dólares (Opas, 2005: 24).
Sendo assim, no escopo da PNM, estabeleceu-se a Relação de Medicamentos Essenciais (Rename), que contém o rol de produtos considerados básicos e indispensáveis para atender a maioria dos problemas de saúde da população. Compõe uma relação nacional de referência para o direcionamento da produção farmacêutica e para o desenvolvimento científico e tecnológico, bem como para a definição de listas de medicamentos essenciais nos âmbitos estadual e municipal, que devem ser estabelecidas com o apoio do gestor federal, e segundo situação epidemiológica respectiva. Os produtos constantes
nesse rol devem estar continuamente disponíveis aos segmentos da sociedade que deles necessitem, nas formas farmacêuticas apropriadas (Brasil, 2000). Na Rename constam os nomes dos princípios ativos dos medicamentos registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa, que apresentam menor custo nas etapas de armazenamento, distribuição, controle e tratamento. Além disso, conforme o Ministério da Saúde, responsável pela publicação, todas as fórmulas apresentam valor terapêutico comprovado, com base em evidências clínicas. Sua última edição encontra-se disponível na Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde na internet, no endereço: <http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/rename2010final.pdf>. Idosos e seus cuidadores devem consultá-la para redimir dúvidas e assegurar seu acesso a medicamentos nas melhores condições, de forma a propiciar uma vida mais saudável, no sentido amplo da palavra.
Cabe ressaltar que os medicamentos, pela descentralização do Sistema Único de Saúde, são disponibilizados pelas unidades de saúde municipais. As pessoas devem se cadastrar no SUS e dispor de receita médica para obterem os medicamentos constantes da Política de Medicamentos.
Conclusões
Os idosos constituem um grupo social que necessita de tratamento diferenciado pelas políticas públicas, em especial no âmbito da saúde, direito garantido pela Constituição a acesso aos direitos sociais e, neste recorte, aos medicamentos essenciais.
A Política Nacional de Medicamentos, adotada pelo Ministério da Saúde do Brasil leva em conta o envelhecimento da população e o aumento na expectativa de vida das pessoas ao nascer, apontados pelos indicadores demográficos. Inclui a Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename), estabelecida no sentido de garantir, especialmente aos idosos, acesso a medicamentos utilizados em prevenção, tratamento e controle, das doenças, principalmente com o uso de fármacos de uso contínuo; bem como pelos de alto custo.
Para tanto, a lógica utilizada pelo Estado é a da justiça distributiva pela qual deve haver apropriação individualizada de bens produzidos coletivamente. Essa apropriação se dá pelo critério de identificação de grupos vulneráveis a serem beneficiados, como por exemplo, os idosos. Não se trata de privilégio, pois, neste caso, não se estaria contribuindo com a redução das desigualdades sociais.
Referências
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Angela Simonetti - Mestranda em Direito Político Econômico na Universidade
Presbiteriana Mackenzie. Graduação em Medicina Veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo, e em Direito pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas. Especialização em Saúde Pública e em Direito Sanitário, pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Profissionalmente, atua como Médica Veterinária do Centro de Vigilância Sanitária da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. E-mail: [email protected].