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(2) 1. SILVANA SOARES. ASPECTOS ONTOLÓGICOS E ANTROPOLÓGICOS DA AMOREVOLEZZA NA EDUCAÇÃO SALESIANA. Tese apresentada na etapa de Defesa, como exigência parcial do Programa de Pós-graduação em Educação, da Universidade Metodista de São Paulo, para a obtenção do título de Doutora em Educação. Orientação: Prof. Dr. Rui de Souza Josgrilberg Coorientação: Prof. Dr. Marcelo Furlin. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2018.
(3) 2. FICHA CATALOGRÁFICA So11a. Soares, Silvana Aspectos ontológicos e antropológicos da amorevolezza na educação salesiana / Silvana Soares. 2018. 223 f. Tese (Doutorado em Educação) – Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2018. Orientação de: Rui de Souza Josgrilberg. Coorientação de: Marcelo Furlin. 1. Salesianos – Educação 2. Antropologia 3. Ontologia 4. Amor (Educação) 5. Educação – Filosofia I. Título. CDD 370.
(4) 3. A tese de doutorado intitulada “ASPECTOS ONTOLÓGICOS E ANTROPOLÓGICOS DA AMOREVOLEZZA NA EDUCAÇÃO SALESIANA”, elaborada por SILVANA SOARES, foi apresentada e aprovada em 15 de agosto de 2018, às 14h00, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Marcelo Furlin (Presidente – UMESP), Prof. Dr. Antônio Manzatto (PUCSP), Profa. Dra. Maximina Maria Freire (PUCSP), Profa. Dra. Elisabete Ferreira Esteves (Titular/UMESP) e Prof. Dr. Sérgio Marcus Nogueira Tavares (Titular/UMESP).. Prof. Dr. Marcelo Furlin Coorientador e Presidente da Banca Examinadora. Prof. Dr. Marcelo Furlin Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Educação Área de Concentração: Educação Linha de Pesquisa: Formação de Educadores.
(5) 4. RESUMO O objetivo desta pesquisa é descrever os aspectos antropológicos e ontológicos da amorevolezza (amor) na filosofia educativa salesiana, para aprofundá-los numa perspectiva fenomenológica e interpretar os desdobramentos dessa filosofia educativa com a intenção de indicar as suas contribuições para a filosofia da educação. A presença significativa de referenciais históricos e pedagógicos sobre a educação salesiana construída na sua origem e no seu desenvolvimento permite o aprofundamento dessa experiência educativa. Entre as intenções da educação salesiana, encontra-se o princípio da amorevolezza, ou seja, do amor demonstrado na prática educativa. Nos diversos escritos de Dom Bosco e de Maria Domingas Mazzarello, o sentido do princípio da amorevolezza está presente e permite verificar aspectos relacionados à amorevolezza à luz de uma perspectiva da antropologia filosófica. A metodologia para a realização da pesquisa parte do princípio da fenomenologia, que tem em vista compreender o todo e os desdobramentos dos sentidos para chegar à essência. Assim, ampliam-se descritivamente os aspectos antropológicos e ontológicos da amorevolezza. Para aprofundar o sentido em relação à antropologia filosófica, realizou-se um confronto com alguns teóricos da antropologia filosófica, como Elydio Santos Neto, Edith Stein, Merleau-Ponty, Max Scheler, Josef Pieper, Romano Guardini, Rui Josgrilberg. A verificação de uma intenção educativa voltada inteiramente para a pessoa revela, naturalmente no princípio da amorevolezza realizada nas experiências de Dom Bosco e de Maria Domingas Mazzarello, um olhar antropológico e ontológico. O conceito da amorevolezza emerge com um sentido da compreensão da pessoa como um ser constituído pelo amor, pela bondade e por potencialidades, capaz de interiorizar as virtudes e os valores. Constatou-se que o sentido da amorevolezza apresenta aspectos relacionados à antropologia e à ontologia, considerando-se a pessoa na totalidade que a constitui, a sua essência e as potencialidades que pode desenvolver. A filosofia da educação salesiana é permeada por elementos que valorizam a pessoa na sua totalidade e, dessa forma, considera as dimensões da afetividade, da razão, da sua capacidade de transcendência. Na prática educativa se observou que o aspecto relacional é fundamental para a formação da pessoa. A formação do educador à de uma visão antropológica e ontológica é um desdobramento da prática educativa vinculada ao sentido do amor e à necessidade fundamental de uma relação dialógica no processo educativo. Palavras-chave: Educação Salesiana, Antropologia, Ontologia, Amorevolezza, Filosofia da Educação..
(6) 5. ABSTRACT The purpose of this research is to describe the anthropological and ontological aspects of amorevolezza (love) in the Salesian educational philosophy, to deepen them in a phenomenological perspective and to interpret the unfolding of this educational philosophy with the intention of indicating its contributions to the philosophy of education. The significant presence of historical and pedagogical references on Salesian education built on its origin and its development allows the deepening of this educational experience. Among the intentions of Salesian education is the principle of amorevolezza, that is, love shown in educational practice. In the among writings of Don Bosco and Maria Domingas Mazzarello, the sense of the principle of amorevolezza is present and allows us to verify aspects related to amorevolezza in the light of a philosophical anthropology perspective. The methodology for conducting the research is based on the principle of phenomenology, which aims to understand the whole and the unfolding of the senses to reach the essence. Thus, the anthropological and ontological aspects of amorevolezza are described descriptively. In order to deepen the meaning in relation to philosophical anthropology, a confrontation with some theorists of the philosophical anthropology, like Elydio Santos Neto, Edith Stein, Merleau-Ponty, Max Scheler, Josef Pieper, Romano Guardini, Rui Josgrilberg was realized. The verification of an educational intention directed entirely towards the person reveals, naturally in the principle of amorevolezza realized in the experiences of Don Bosco and Maria Domingas Mazzarello, an anthropological and ontological look. The concept of amorevolezza emerges with a sense of the person's understanding as a being constituted by love, by goodness and by potentialities, able to internalize the virtues and values. It was verified that the sense of amorevolezza presents aspects related to anthropology and ontology, considering the person in the totality that constitutes it, its essence and the potentialities that can develop. The philosophy of Salesian education is permeated by elements that value the whole person and, in this way, considers the dimensions of affectivity, reason, and capacity for transcendence. In educational practice it was observed that the relational aspect is fundamental for the formation of the person. The formation of the educator to an anthropological and ontological vision is an unfolding of educational practice linked to the sense of love and the fundamental need for a dialogic relationship in the educational process. Keywords: Salesian Education, Anthropology, Ontology, Amorevolezza, Philosophy of Education..
(7) 6. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS. FMA. –. Filhas de Maria Auxiliadora. FMI. –. Filhas de Maria Imaculata. N.A.. –. Nota da Autora. s/d. –. Sem data.
(8) 7. SUMÁRIO INTRODUÇÃO........................................................................................ 1 1.1 1.2 1.3 1.4 1.5. 2 2.1 2.2 2.3 2.4 2.5 2.6. 3. 3.1 3.2 3.3 3.4. 4 4.1 4.1.1 4.1.2 4.1.3 4.1.4 4.1.5 4.1.6. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E PEDAGÓGICA DOS PRINCÍPIOS DO SISTEMA EDUCATIVO SALESIANO................. Biografia de Dom Bosco................................................................................ Biografia de Maria Domingas Mazzarello.................................................. Contexto sociocultural na época da fundação da sociedade salesiana e do instituto das filhas de Maria Auxiliadora.............................................. Fundação da sociedade salesiana de São Francisco de Sales e do instituto das filhas de Maria Auxiliadora................................................... A missão carismática salesiana e a missão educativa nas cartas de Maria Domingas Mazzarello........................................................................ SISTEMA PREVENTIVO...................................................................... Princípios da educação salesiana................................................................. Salesianidade................................................................................................. A compreensão do sistema preventivo a partir do conceito e da proposta pedagógica...................................................................................... A compreensão teológica do sistema preventivo........................................ Preventividade............................................................................................... Formação dos professores na pedagogia salesiana.................................... AMOREVOLEZZA NA EDUCAÇÃO SALESIANA A PARTIR DAS CONCEPÇÕES E EXPERIÊNCIAS DE DOM BOSCO E DE MARIA DOMINGAS MAZZARELLO................................................. O amor no cristianismo................................................................................ O cristianismo e a amorevolezza.................................................................. O significado do termo amorevolezza no contexto cultural da época de Dom Bosco...................................................................................................... A presença da amorevolezza na vida, no pensamento pedagógico e cultural de Dom Bosco e de Maria Domingas Mazzarello........................ PRESSUPOSTOS PARA A COMPREENSÃO FENOMENOLÓGICA DO SENTIDO DA AMOREVOLEZZA........ A compreensão sobre a pessoa no pensamento e na perspectiva salesiana......................................................................................................... A pessoa humana e a sua potencialidade relacional e dialógica.......................... O sentido antropológico e ontológico do sistema educativo salesiano à luz da compreensão da estrutura da pessoa no pensamento de Edith Stein.................... Aspectos humanos do ser pessoa......................................................................... A potência e o ser pessoa..................................................................................... A alma humana como forma e espírito................................................................ A integração da corporeidade................................................................................ 10. 23 23 28 31 34 41. 47 47 48 50 54 55 58. 61 63 66 67 68. 76 79 81 84 90 91 92 101.
(9) 8. 4.1.7. O sentir na fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty e os sentidos na amorevolezza salesiana........................................................................................ 4.1.8 A fenomenologia do sentir e a percepção da realidade........................................ 4.1.9 A razão, o conhecimento e o amor....................................................................... 4.1.10 Outras questões para reflexão............................................................................... 5 5.1 5.2 5.3 5.3.1 5.3.2 5.3.3 5.3.4 5.3.5 5.3.6 5.3.7. 6 6.1 6.2 6.3 6.4 6.5 6.6 6.7 6.7.1 6.7.2 6.7.3. ASPECTOS ANTROPOLÓGICOS E ONTOLÓGICOS DA AMOREVOLEZZA................................................................................. O coração como aspecto antropológico e ontológico na compreensão da pessoa em Dom Bosco e Maria Domingas Mazzarello............................... O sentido antropológico e ontológico do coração....................................... A pessoa constituída pela interioridade...................................................... A ordem do amor.................................................................................................. Meio ambiente, destino, determinação individual e o ordo amoris..................... A forma do ordo amoris....................................................................................... O sentido do amor na filosofia da linguagem...................................................... O princípio da formação para a virtude em Dom Bosco e Maria Domingas Mazzarello............................................................................................................ Ordo amoris e a formação da pessoa.................................................................... A formação das virtudes e os valores éticos............................................................ O ASPECTO RELACIONAL DA AMOREVOLEZZA NA AÇÃO EDUCATIVA SALESIANA.................................................................... O sentido da relação na experiência educativa salesiana de Dom Bosco e Maria Domingas Mazzarello..................................................................... O sentido da familiaridade na relação educativa....................................... A compreensão do sentido da relação na formação da pessoa.................. O ambiente educativo como espaço de relação e a narratividade da amorevolezza................................................................................................. A comunidade como via para a prática da amorevolezza......................... A constituição do ser pessoa no ambiente relacional................................. A formação dos professores a partir da antropologia da amorevolezza.................................................................................................. 103 113 116 117. 123 124 128 130 132 135 138 140 146 148 150. 156 156 163 168 171 176 182. Contexto da formação dos educadores................................................................. Antropologia filosófica e a educação................................................................... A Antropologia da amorevolezza e a formação dos educadores.......................... 187 189 190 193. CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................... 205. REFERÊNCIAS........................................................................................ 212. LISTA DE REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES............................ 223.
(10) 9. Introdução.
(11) 10. INTRODUÇÃO. A Contextualização Histórica, o Interesse e a Perspectiva da Pesquisadora – O cristianismo, em diversas épocas históricas, realizou ações sociais, as quais foram significativas e aconteceram especialmente na época da Revolução Industrial, como resposta às consequências do desenvolvimento acelerado do Capitalismo, que dava origem a novas formas de pobreza e exclusão social. Um dos campos em que a ação social do cristianismo se tornou ampla foi no âmbito da educação, pois algumas experiências de práticas educativas foram realizadas a partir dos princípios e valores humanos e religiosos considerados pelo cristianismo. Esses princípios e valores sempre tiveram como perspectiva contribuir para a melhoria da formação cultural e humana do ser humano nos diversos contextos e épocas. As experiências e propostas formativas realizadas pelo cristianismo foram registradas, refletidas e elaboradas historicamente por diversas instituições, as quais foram gradativamente fundadas para atender às necessidades educativas. É a partir desse contexto que encontramos os registros, relatos e aprofundamentos teóricos das experiências realizadas pela educação salesiana. Como exemplo destacamos o desenvolvimento e experiência educativa salesiana – uma proposta que nasceu com o educador e sacerdote São João Bosco, na Itália, no século XVIII. Particularmente, assumimos o compromisso religioso na instituição fundada por Dom Bosco para a educação e dedicamo-nos inteiramente à experiência da prática educativa na perspectiva da pedagogia salesiana e, mediante a oportunidade de conhecer essa pedagogia, pudemos encontrar uma riqueza de ideais e princípios que permeiam as perspectivas da filosofia da educação salesiana. Assim, a partir dos estudos que realizamos sobre a filosofia salesiana e das experiências com a prática educativa, foi possível observar as diversas possibilidades de novos conhecimentos e a investigação sobre categorias que poderiam contribuir como novas propostas para a prática educacional. Com os aprofundamentos teóricos que realizamos sobre a perspectiva educativa salesiana foi possível conhecer mais cuidadosamente o contexto histórico do surgimento e do desenvolvimento da educação salesiana, bem como a oportunidade de realizar um confronto interdisciplinar, a partir dos enfoques históricos, teológicos e pedagógicos.
(12) 11. possibilitaram a construção de uma visão ampla das dimensões que envolviam a prática da pedagogia e filosofia salesiana. Ao dar continuidade aos estudos na pós-graduação, com a realização do mestrado em Gestão Educativa, realizamos o confronto entre as Ciências da Educação e a pedagogia salesiana por meio do estudo de um dos documentos que apresenta algumas orientações, intenções e projeção para essa proposta. A partir desse estudo, os horizontes teóricos ampliaram-se e, mais uma vez, constatei, concretamente, as possibilidades de realizar aprofundamentos mais significativos de elementos que envolvem a filosofia da educação salesiana. Com isso, surgiu a intenção de dar continuidade à pesquisa realizada na dissertação do mestrado em educação1, na tese de doutorado, abordando outros aspectos do ideal da filosofia salesiana. É neste contexto das diversas possibilidades de compreensão dos aspectos que possam envolver a educação, que intuímos a busca por uma compreensão do sentido da amorevolezza na educação salesiana. A proposta educativa salesiana possui uma riqueza de perspectivas e valores, e nesse conjunto, encontramos a proposta de realização de uma prática educativa, que apresenta como referência o valor da amorevolezza. A amorevolezza, na língua italiana, significa a demonstração de afeto, de bondade e de sentimentos de simpatia e amizade e, especialmente, o termo “volezza” está relacionado à afeição, ao cuidado. Na linguagem religiosa a amorevolezza possui o sentido da caridade, da manifestação de solidariedade, de acolhimento e, para a pedagogia salesiana, a amorevolezza apresenta um enfoque, não somente sobre a relação professor e alunos, mas sobre as diversas possibilidades relacionais e comunicativas da educação. A perspectiva da amorevolezza para a prática educativa paulatinamente foi aprofundada na experiência educativa salesiana por meio dos estudos realizados, que permitiram observar muitas possibilidades de investigação da pedagogia da amorevolezza e a possibilidade de uma maior apropriação e reflexão em relação a essa questão da filosofia educativa salesiana. Frente às possibilidades e desdobramentos que emergem dessa experiência educativa, e por meio de uma ampla integração interdisciplinar, foi possível realizarmos um aprofundamento a partir do ponto de vista antropológico e ontológico em torno dos sentidos que perpassam a experiência da amorevolezza salesiana. 1. SOARES, Silvana. Contextualização e as perspectivas da educação salesiana a partir do documento das linhas orientadoras da missão educativa do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora. 2015. 130 p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Humanidades e Direito da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2015. Orientação: Dra. Roseli Fischmann..
(13) 12. O contexto da própria realidade social, cultural e econômica que experimenta uma constante transformação, suscita a necessidade de repensar elementos que visam contribuir para que a educação possa considerar a pessoa. Nesse sentido, é relevante a proposta de analisarmos e aprofundarmos continuamente os valores que poderão contribuir para a educação, em vista da formação integral e, especialmente, direcionada à valorização da vida.. O Problema e a Questão Fundante da Pesquisa – emerge em relação aos vários elementos abordados anteriormente, e assim, evidenciamos o seguinte problema: Que aspectos antropológicos e ontológicos emergem do sentido da amorevolezza na filosofia da educação salesiana?. O Objetivo Geral da Pesquisa – é descrever os aspectos antropológicos e ontológicos da amorevolezza na filosofia educativa salesiana e aprofundá-los numa perspectiva fenomenológica, para interpretar os desdobramentos desta filosofia educativa, a fim de investigar e indicar os elementos que emergem como contribuição e fundamentos filosóficos para a Educação.. Os Objetivos Específicos da Pesquisa – são centrados nas perspectivas de contextualizar o desenvolvimento das instituições educativas salesianas e da sua experiência educativa; analisar e descrever o sentido que possui o princípio da amorevolezza, a partir do ponto de vista antropológico e ontológico; verificar, a partir do ponto de vista fenomenológico, o sentido da amorevolezza na filosofia educativa salesiana; interpretar o sentido filosófico da amorevolezza para a Educação, bem como investigar cuidadosamente e indicar os elementos da filosofia educativa da amorevolezza para a Educação.. A Relevância e Justificativa da Escolha do Tema – emergem em relação à possibilidade de refletir, aprofundar e interpretar o sentido da amorevolezza na filosofia da educação salesiana, e torna-se um espaço significativo de busca de uma maior amplitude das intenções que estão presentes em sua experiência, assim como a possibilidade de contribuir com estes aspectos para o pensamento e a reflexão das ciências da educação. A investigação a respeito dos aspectos antropológicos e ontológicos em relação à presença da amorevolezza como uma das vias e princípios orientadores da filosofia da educação salesiana justifica-se, em primeiro lugar, pela possibilidade de reinterpretação de.
(14) 13. elementos teóricos que envolvem a experiência da educação salesiana. E em segundo lugar por favorecer a reinterpretação e o desvendamento de aspectos que possam envolver a sua antropologia e ontologia. Tal esforço de investigação poderá indicar elementos de projeção para o seu futuro e possíveis contribuições filosóficas para a Educação. A busca de uma compreensão da amorevolezza, a partir de uma visão que contempla os vários aspectos de como essa se apresenta, de forma aliada a um olhar interdisciplinar, permite vislumbrar as várias referências que envolvem a questão, além de ser fundamental para a realização de uma leitura que valoriza o seu sentido. Essa realidade da visão complexa visa compreender o todo da realidade de um objeto e o seu contexto com os elementos que o envolvem. A investigação construída a partir dessa visão possibilita a busca de uma interpretação dos vários aspectos e sentidos antropológicos e ontológicos presentes na amorevolezza da educação salesiana e permite a superação de uma visão somente empírica, histórica, fragmentada e superficial das intenções que possui. O esforço de interpretação amplia os horizontes dos sentidos e das perspectivas que estão presentes na amorevolezza. Poder investigar e aprofundar nos espaços de tempo histórico a preciosidade da experiência educativa de Dom Bosco, justamente no período em que recordamos os duzentos anos de seu nascimento, significa compreender e reler, no tempo, a experiência de um educador comprometido com a educação das crianças e jovens, especialmente dos mais pobres, com a formação integral da pessoa e com a prática do humanismo no processo educativo. As suas intenções e práticas como educador perpetuam-se em um longo arco de história e se desenvolveram em diferentes culturas. Observamos a urgência de se repensar e refletir constantemente sobre os fundamentos e princípios que orientam a educação. As mudanças de paradigmas que ocorrem no campo das ciências e nos diversos contextos socioculturais exigem do educador o desenvolvimento de competências para atender às novas necessidades educativas e criar intenções significativas sobre o que se pretende para o futuro da educação e da vida social. É impossível realizar práticas educativas sem referenciais que possam oferecer elementos de reflexões sobre a experiência da prática educativa. Os educadores precisam construir sentidos para a sua prática e só poderão realizar essa construção a partir de novas reflexões, estudos e aprofundamentos. Trata-se de buscar continuamente a apropriação, a compreensão e o aprofundamento das intenções e propósitos sobre as questões que irão.
(15) 14. influir sobre a educação, sobre a formação do ser humano e da sociedade. As aproximações teóricas sobre o princípio da amorevolezza, presente na educação salesiana, indicam elementos para uma leitura e compreensão interdisciplinar, especialmente, no que se refere aos conhecimentos em relação aos seus aspectos antropológicos e ontológicos. Com isso, torna-se possível aprofundar, buscar os sentidos e interpretar de forma significativa diversos elementos que emergem destes âmbitos de conhecimentos e que possibilitam uma análise sobre os horizontes da reflexão a respeito dos elementos filosóficos que envolvem a amorevolezza na prática educativa salesiana. O mapeamento desse conjunto orgânico de perspectivas que interagem na filosofia da amorevolezza e na experiência educativa salesiana indicam contribuições concretas e significativas para a Educação. Algumas perspectivas da amorevolezza salesiana trazem elementos significativos para a educação, no sentido de que essa apresenta uma visão sobre a pessoa humana como ser de relação e aberto para a apropriação de valores educativos. Esse olhar favorece para que se possa compreender a educação para além da simples tarefa de transmitir conhecimentos culturais, mas com a missão de contribuir para a formação da pessoa e de uma nova humanidade. A prática da pedagogia e do ambiente é o espaço no qual se constrói um cotidiano escolar enriquecido com diversos valores humanos, os quais favorecem a formação de subjetividades com a capacidade de autonomia, de exercer a sua cidadania e de reconhecer a sua contribuição para a transformação da sociedade, de conviver socialmente de forma integrada. Dom Bosco desenvolve uma experiência pedagógica e educativa com as crianças e jovens e dessa experiência encontramos algumas referências escritas por ele e que retratam o seu pensamento, embora não sejam obras que reflitam um sistema teórico profundamente elaborado, mas indicam valores significativos e as orientações sobre a sua experiência pedagógica. Na pedagogia salesiana a dimensão da reciprocidade, da relação é um dos eixos centrais para a prática educativa. No ano de 1877, Dom Bosco escreve: “O Sistema Preventivo na Educação da Juventude”. Nesse documento não encontramos somente uma síntese das ideias pedagógicas, mas também a consolidação de sua experiência educativa. Valoriza o aspecto de uma comunidade que experimenta a prática e a eficácia do sistema preventivo. As finalidades educativas de Dom Bosco não possuem o resultado de uma teoria orgânica da educação. Confluem, porém, em uma experiência educativa com.
(16) 15. elementos culturais, religiosos, sociais e políticos. Dom Bosco integra algumas dimensões que são consideradas importantes para o desenvolvimento da educação da juventude, valorizando diversas dimensões que integram a vida humana e o seu processo de formação. Segundo Dom Bosco, o seu método educativo baseia-se em três elementos: a razão, a religião e amorevolezza, que formam o seu sistema educativo. O projeto educativo salesiano é permeado pela espiritualidade de São Francisco de Sales: o amor, a caridade, a docilidade e o humanismo cristão, que têm em vista uma metodologia educativa que pensa no valor da vida e da pessoa. No centro do processo educativo encontra-se o jovem na sua realidade, com seus aspectos positivos e com as suas fragilidades, e que apresenta necessidades formativas. O acompanhamento é uma modalidade relacional, no qual se aplica o método preventivo. É realizado por meio da relação interpessoal. O acompanhamento é compreendido dentro do significado da prevenção que consiste, não só em evitar experiências negativas, mas também no educar em uma prospectiva positiva (RUFFINATO; SÉÏDE, 2010, p. 275277). Nas práticas docentes estão representados interesses subjacentes que, muitas vezes, representam as intenções de forças e poder na sociedade. Assim, analisar o papel do docente na produção e desenvolvimento do mundo cultural é muito importante para o futuro da sociedade. Como indica Foucault (1984), cabe à escola repensar o espaço de formação da subjetividade e de produção de saber e poder. Ou seja, a formação cultural da subjetividade dependerá da consciência em relação ao saber que o profissional da educação desenvolve, pois a sua prática articula intenções sobre a dimensão cultural. A educação é um espaço de construção de valores culturais, saberes e conhecimentos. Os sujeitos possuem a capacidade de aprender e, consequentemente, de construir as aprendizagens nas relações sociais. O ambiente e a prática escolar são marcados por tensões e conflitos em relação às crenças, valores e concepções. Trata-se de um campo no qual se percebe, nitidamente, a presença de um conjunto de forças que atua, muitas vezes, reproduzindo os valores hegemônicos da sociedade ou, por outro lado, também participando da sua transformação (GUIRAUD, 2008-2009). A escola apresenta-se, portanto, como um lugar fundamental de constituição da subjetividade e de construção de sujeitos (PRATA, 2005, apud GUIRAUD, 2008-2009). Assim, é necessário que os educadores possam orientar e administrar essa construção e seus desdobramentos, de acordo com princípios.
(17) 16. significativos, e não se atenham simplesmente em reproduzir os padrões, as forças e os poderes conflitantes que reforçam os contravalores da sociedade. Nesse contexto, é importante pensar em princípios que possam orientar a formação dos professores, pois a construção da subjetividade é complexa, ou seja, o todo da realidade precisa ser considerado para que se compreendam os vários aspectos que envolvem a configuração sócio-histórica em que se situa. Tal construção está articulada com as relações de poder que acontecem na escola (GUIRAUD, 2008-2009), e torna-se fundamental que os educadores busquem assumir intenções educativas capazes de colaborar com uma nova lógica mundial e com novas relações entre os atores sociais e que sejam baseadas na reciprocidade humana, para que a história das reproduções ideológicas da sociedade possa romper e se construam novas relações humanas, pois a nova lógica cultural e política surgirão a partir de uma prática docente intencional e articulada com um projeto educativo significativo e que tenha em vista a formação da pessoa e da sociedade. Conforme visto anteriormente, o conjunto dos princípios teóricos que envolvem a amorevolezza na educação salesiana necessita de uma compreensão interdisciplinar para que se possam desvendar os diversos eixos e categorias que perpassam esta perspectiva de pensamento para a prática educativa. Os aspectos da dimensão antropológica e ontológica oferecem elementos que são necessários para a construção de uma prática educativa integral que pense na totalidade da formação da pessoa. A amorevolezza na pedagogia salesiana possui em si diversos elementos que provocam uma reflexão sobre a educação e traz um contributo significativo, pois implica, em primeiro lugar, considerar a educação, não simplesmente como espaço de transmissão cultural, mas de formação integral da pessoa. A questão da formação integral da pessoa não é uma questão nova para a educação, vistos os esforços para uma contínua discussão e aprofundamento, mas a pedagogia da amorevolezza salesiana é uma experiência concreta com intenções ontológicas, as quais direcionam alguns desdobramentos pedagógicos, que possibilitam a superação de uma visão fragmentada da Educação. A partir do aprofundamento da pedagogia da amorevolezza salesiana observamos que a reciprocidade é uma via privilegiada, por considerar um conjunto de elementos para os processos formativos e para a educação. Indica a projeção de processos educativos que visam a um novo modelo de sociedade; ao desenvolvimento de processos de formação para a consciência de uma identidade planetária e terrena, garantindo a solidariedade.
(18) 17. intelectual e moral da humanidade e uma nova relação entre as pessoas; à projeção de um modelo educativo numa perspectiva intercultural, inclusiva e solidária, que privilegie a realidade multicultural e o desenvolvimento da capacidade do ser humano de estabelecer relações de convivência com o diferente; à construção de um modelo educativo que forme as pessoas para a ética.. Os Referenciais Teóricos – foram construídos a partir de escritos históricos realizados por Dom Bosco, resgatados de suas fontes escritas e de Maria Domingas Mazzarello, e pelos principais estudiosos da proposta educativa salesiana: Pietro Braido, Cavagliá, Ruffinatto e Posada. Os estudos realizados sobre a proposta educativa salesiana indicam diversos elementos que contribuem para o aprofundamento e uma compreensão transversal do seu significado. A experiência do Sistema Preventivo na educação salesiana pensada por Dom Bosco é uma prática educativa integrada à reflexão e à experimentação (BRAIDO, 2004, p. 15). O sentido da amorevolezza na educação salesiana possui a sua fonte de inspiração no cristianismo e se apoia no ideal da caridade. Portanto, a amorevolezza é vivida, enunciada, compreendida entre as experiências humanas cristãs educativas com um olhar social (BRAIDO, 1999). Nas memórias relatadas por Dom Bosco, encontram-se diversas experiências de acolhida e de amor aos jovens que viviam em situações de abandono e pediam um abrigo e hospitalidade (BOSCO, 1982, p. 196-197). Dom Bosco assumia uma atitude humana na acolhida dos jovens mais necessitados, assim, expressava o sentido do amor educativo e efetivo na dedicação a esses jovens (BRAIDO, 1995, p. 145). Dom Bosco manifesta que os jovens educandos são sensíveis ao bem e são ricos de possibilidades, e o educador deverá acessar o coração e fazê-lo vibrar (RUFFINATTO, 2008, p. 404). Neste sentido, é possível observar que os princípios de Dom Bosco em relação à educação possuem uma profunda intuição antropológica. Como Dom Bosco, Maria Domingas Mazzarello realiza a mesma experiência educativa, tendo presente o sentido do amor educativo. Segundo Ruffinatto (2004), Maria Domingas Mazzarello assume o mesmo estilo educativo, possuindo o segredo de fazer-se querer bem e amar a todas as jovens. A relação educativa permeada pela amorevolezza visa orientar a pessoa privada do amor a uma experiência fundamental no desenvolvimento de sua identidade, da sua personalidade, e que a potencia para a capacidade de dar e receber o amor (BRAIDO, 1995, p. 146)..
(19) 18. Para os referenciais em relação à antropologia e à ontologia, foram considerados autores que iluminam a possibilidade de compreensão dos sentidos que se pode observar na perspectiva da amorevolezza, na proposta educativa salesiana. Como demonstra Santos-Neto (2003, p. 33-34), na antropologia do Sistema Preventivo de Dom Bosco existe uma inteireza, ou seja, existe a valorização do corpo, da razão, sentimento, espiritualidade. O Sistema Preventivo é compreendido pelo autor como inteireza holotrópica, um olhar para o todo. O amor é central na antropologia de Dom Bosco. Edith Stein (2007) apresenta uma questão antropológica sobre o sentido da estrutura da pessoa humana e, a partir de uma perspectiva fenomenológica, procura compreender a pessoa constituída por uma unicidade: corpo, alma e espírito. Nesse contexto da reflexão da antropologia de Edith Stein, é possível compreender que Dom Bosco reflete no Sistema Preventivo uma concepção antropológica que enfoca uma unicidade. A pessoa humana constituída por essa unicidade é um ser no mundo. Por ser um corpo vivo, possui um conjunto de possibilidades que a torna capaz de construir sentidos (JOSGRILBERG, 2015). A pessoa humana é dotada pela capacidade de buscar sentidos. Dom Bosco e Maria Domingas Mazzarello, quando realizam a proposta educativa a partir da experiência da amorevolezza na realidade, demonstram que a pessoa constrói sentidos quando se sente acolhida e amada, e vivencia a experiência da amorosidade. Merleau-Ponty (1971) analisa o aspecto da percepção e demonstra que as pessoas experimentam e percebem por meio da sensação e do encontro com os sentidos, o que possibilita a coexistência e comunhão com o mundo e a realidade. Com isso, é possível verificar que o sentir se relaciona com a dimensão da afetividade. A pessoa se encontra em relação com o mundo e por meio da sensibilidade poderá construir sentidos. O pensamento de Guardini (1963) confirma que o ser pessoa é ser que se constitui de uma interioridade, outro aspecto que amplia a compreensão antropológica da pessoa como ser que possui uma potencialidade interior. O aspecto da interioridade influi fortemente na constituição do ser pessoa que interioriza as virtudes e os valores. Max Scheler (1957), no ensaio “Ordo Amoris”, demonstra uma compreensão fenomenológica de que a vida se movimenta em torno do movimento do coração. O coração é a essência mais íntima de um indivíduo, e é preciso conhecer o sistema das suas valorações e preferências axiológicas. Esse sistema se refere ao ethos e afirma: “O núcleo fundamental deste ethos é a ordem do amor [...]”. Dom Bosco constantemente apresenta.
(20) 19. alguns pensamentos fazendo referência ao sentido do coração. Conforme afirma Dom Bosco: “Recordai-vos de que a educação é coisa do coração” (BOSCO, aos cuidados de PRELLEZO, In: BRAIDO, 1997, p. 332). Paulo Freire enfatiza a importância da relação próxima e afetiva do educador com os educandos, a relação dialógica, a demonstração do amor como compromisso com a pessoa. Freire (1980, p. 93-94) afirma que: “[...] não há diálogo, porém, se não há um profundo amor ao mundo e aos homens”. A escolha metodológica para a realização da investigação orientou-se a partir da Fenomenologia, que tem em vista compreender o todo e os desdobramentos dos sentidos, das possibilidades, o desvendar do modo de ser para se chegar à essência. A Fenomenologia permite ampliar descritivamente a consciência de algo, da linguagem que envolve os aspectos antropológicos e ontológicos da amorevolezza, bem como buscar os sentidos e o sentido do modo de ser, as significações, a profundidade e a amplitude, os desdobramentos circulares da amorevolezza na experiência educativa salesiana, de modo a ampliar os horizontes acerca dos aspectos antropológicos e ontológicos que caracterizam esta experiência educativa. Ao reconhecermos a importância da contextualização referente a um objeto de pesquisa, verificamos que esta favorece a compreensão do entorno de sua existência/ocorrência e permitiu-nos realizar uma análise das diversas prospectivas que delineiam a construção do seu conhecimento e do conhecimento dos fenômenos a ele vinculados, possibilitando conhecer o contexto em que este objeto de pesquisa se constitui ou se constituiu. Além disso, a contextualização permitiu identificar os processos que envolvem o conhecimento e os fenômenos integrados às suas complexas relações sistêmicas, de modo a situar o objeto de pesquisa nos vários âmbitos das ciências e das disciplinas, a fim de interpretar mais profundamente a realidade na qual ele existe/ocorre e considerar a relação dos conhecimentos e da interdisciplinaridade que dele emanam. O método de análise de conteúdo será usado como ferramenta para a compreensão da construção de significados, bem como para analisar os conteúdos dos dados coletados, de modo a considerar as influências nas produções dos textos, para realizar uma releitura dos conteúdos e discursos presentes. A partir dos princípios da Hermenêutica Circular, para efeito deste trabalho, foram individualizados alguns elementos da pedagogia salesiana que contribuem para os processos educativos, com a finalidade de propor, em especial, os valores da cultura da.
(21) 20. preventividade, da pedagogia do ambiente educativo, da comunidade educativa, do projeto educativo, da pedagogia do coração e da reciprocidade educativa como referenciais para os processos e relações educativas, e para a formação e prática do educador, de forma a contemplar os aspectos transversais do sistema educativo salesiano: social, cultural e comunicativo. A coleta de dados foi realizada por meio da pesquisa documental em fontes primárias: autobiografias, relatos, memórias, e também foi utilizada a revisão bibliográfica, que permitiu o confronto com outros textos, a realização de intertextualidade e a relação com os textos na história e da história nos textos. A valorização da complexidade que envolve os conhecimentos auxilia na busca de uma compreensão ampla do todo de um determinado objeto, expressa uma intenção de superar a fragmentação do saber e construir um conhecimento multidimensional. É importante considerar as dimensões para se chegar a desvendar os aspectos que estão presentes no conhecimento. É um caminho pertinente que colabora para que se possa descobrir e evidenciar os elementos subjacentes ao objeto a ser conhecido. Neste sentido, a pedagogia salesiana integra dimensões que articulam uma totalidade dos processos educativos, de modo a realizar um aprofundamento em torno deste objeto, exigindo, naturalmente, a integração de uma metodologia que favoreça a busca desses pontos subjacentes aos princípios que a envolvem. Encontrar elementos teóricos no desenvolvimento de um pensamento pedagógico remete-nos, diretamente, à técnica de pesquisa documental, que visa produzir resultados e reunir dados segundo esquemas específicos, com a finalidade de analisá-los.. O Plano de Abordagem do Tema – será articulado em cinco capítulos, a seguir, conforme enunciado. No primeiro capítulo é apresentada uma contextualização histórica do surgimento da experiência educativa salesiana, de sua origem e processo de desenvolvimento. O enfoque sobre a biografia dos educadores Dom Bosco e Maria Domingas Mazzarello, os protagonistas da experiência educativa salesiana. Alguns elementos históricos descrevem o ambiente e os acontecimentos que conduziram o surgimento da obra educativa salesiana. O segundo capítulo aprofunda o Sistema Preventivo pensado por Dom Bosco. Os elementos da Razão, Religião e Amorevolezza retratam os princípios e as intencionalidades da proposta educativa advinda da experiência prática que se constituíram como fundamentos essenciais da educação salesiana, ou seja, são.
(22) 21. apresentados referenciais que inspiraram e inspiram a prática de uma educação centrada na amorevolezza. No terceiro capítulo, retoma-se o referencial histórico e são indicadas algumas referências da experiência concreta da vida de Dom Bosco e de Maria Domingas Mazzarello, como principais protagonistas da experiência educativa salesiana permeada pela amorevolezza educativa, de modo a possibilitar a descrição das intenções e vivências práticas em relação à amorevolezza, que ambos realizaram na Educação, e a observar a configuração da gênese deste princípio na pedagogia e filosofia salesiana. Os aprofundamentos do quarto capítulo retratam os pressupostos do sentido para a compreensão fenomenológica da amorevolezza: a compreensão antropológica no pensamento salesiano e o seus sentidos ontológicos, a relação do sistema educativo salesiano com o pensamento de Stein sobre a pessoa humana e a fenomenologia do Sentir de Merleau-Ponty como elementos significativos para a compreensão da amorevolezza salesiana à luz da Fenomenologia. No quinto capítulo são explicitados alguns elementos antropológicos e ontológicos que possibilitam a busca da compreensão do sentido do amor em relação à pessoa. Sendo assim, é possível verificar os desdobramentos do princípio da amorevolezza na perspectiva filosófica e educativa, a análise do sentido do coração na filosofia da linguagem e do sentido do ordo amoris de Max Scheler como aspectos significativos para a compreensão do sentido da amorevolezza salesiana. O sexto capítulo aprofunda alguns aspectos da amorevolezza salesiana e o seu sentido na experiência prática da vivência da educação salesiana, retomando os vários elementos que a integram. Neste sentido, são descritos os diversos desdobramentos dos aspectos relacionais da amorevolezza para a educação salesiana e é identificada a amplitude do sentido da amorevolezza para a filosofia da educação. Com isso, são considerados o aprofundamento da formação dos professores em relação à antropologia da amorevolezza e suas contribuições para a filosofia da educação.. .
(23) 22. Capítulo I Contextualização Histórica e Pedagógica dos Princípios do Sistema Educativo Salesiano.
(24) 23. 1 CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA E PEDAGÓGICA DOS PRINCÍPIOS DO SISTEMA EDUCATIVO SALESIANO Para aprofundar os aspectos ontológicos e antropológicos da amorevolezza na educação salesiana, partimos de uma contextualização histórica2, pedagógica e sociocultural do tempo e espaço, na qual surge a fundação das obras educativas salesianas e a sua experiência educativa protagonizada por Dom Bosco, como fundador, e Maria Domingas Mazzarello, como cofundadora. Com isso, pretendemos demonstrar o contexto sociocultural da Itália no século XIX e verificar as intencionalidades que permearam a construção e constituição dos propósitos educativos orientados para o sentido da amorevolezza na educação salesiana.. 1.1 Biografia de Dom Bosco É importante situarmos alguns elementos da história de vida de Dom Bosco e Maria Domingas Mazzarello, porque ambos foram os principais protagonistas da idealização e colaboração nas ações que conduziram à projeção e realização da educação salesiana. A biografia de Dom Bosco remete-nos à realidade concreta da vida da sociedade do século XIX. Assim, apontamos alguns fatos de sua vida e os principais elementos que configuram sua experiência apostólica com os ideais e as ações que conduzem a sua proposta educativa. No ano de 1815, em Murialdo, povoado de Castelnuovo d´Asti, no dia 16 de agosto, nasceu Dom Bosco na zona rural chamada “Os Becchi”, na província de Turim. Ele mal conheceu o pai Francisco, que morreu quando João tinha dois anos de idade. Viveu com sua mãe, Margarita Occhiena, uma avó paterna, Margarita Zucca, muito venerada, e o irmão, Antônio, nascido do primeiro casamento de Francisco, e um irmão menor, José. Com a morte repentina de Francisco, Margarita permanece com os três filhos e a avó paterna, assumindo a responsabilidade de ganhar o sustento da família com o trabalho no campo. Dom Bosco desejava estudar, mas seu irmão Antônio opunha-se à sua ida ao colégio. Sua mãe Margarida procurou favorecê-lo para que pudesse estudar, porém, encontrou a oposição decidida de Antônio. 2. O primeiro capítulo é uma continuidade da pesquisa realizada no mestrado por Soares (2015)..
(25) 24. Aos 13 anos, Dom Bosco trabalhou como serviçal por 20 meses nas terras da Família Moglia (1828-1829). Frequentou a escola pública em Castelnuovo e depois em Chieri, onde passou dez anos (1831-1841): quatro na escola pública e seis no seminário maior. Neste período, Dom Bosco, ao lado da formação cultural, trabalhava para o próprio sustento. Aos 20 anos, iniciou sua vida como seminarista em Chieri. Seu caminho eclesiástico aconteceu em um clima rigoroso, com uma linha jansenista, portanto, foi iniciado muito mais na vida de piedade que nas ciências (BRAIDO, 2008). Logo após a ordenação, foi para o Convento Eclesiástico3, onde encontrou um ambiente muito diferente do Seminário de Chieri. Essa experiência foi muito positiva para completar a sua formação sacerdotal. Sob a orientação espiritual do Padre Cafasso que, conhecendo-o a fundo e percebendo suas potencialidades, lançou-o numa atividade pastoral e educativa. A influência de Cafasso foi profunda, depois que se tornou sacerdote. Ele era professor de Teologia Moral, possuia uma teologia muito mais humana. Por vinte anos Dom Bosco o teve como diretor espiritual. Com o incentivo de Cafasso, Dom Bosco entrou em contato com os problemas da capital de Savoia e amadureceu a clara intuição de ter encontrado um campo de ação: realizar um apostolado juvenil, sobretudo, junto aos jovens que se encontravam em perigo e marginalizados. Surgiram os oratórios, que não possuíam o objetivo de realizar rituais religiosos, mas como uma nova forma de pastoral. A finalidade principal era ajudar os jovens em situação de pobreza. A realidade da pobreza, especialmente, do mundo juvenil, foi dramática, como consequência dos fatores econômicos, culturais, estruturais e humanos, uma situação de verdadeira exclusão social. Em 1840, Dom Cocchi fundou o Oratório dell´Angelo Custode. Foi o iniciador, mas não deu continuidade e constância no sentido de organização. No ano de 1852, a diocese confiou a Dom Bosco a missão de dar continuidade ao trabalho dos oratórios (BRAIDO, 2004). A instituição chamada “Oratório” já existia na Itália na época de São Filipe Neri (DICASTÉRIO..., 1998). Em Turim, à época, mantinha-se viva a tradição espiritual de São Filipe Néri, com a qual Dom Bosco entrou em contato no ambiente do seminário,. 2 O Convento Eclesiástico foi fundado por Brunone Lanteri e Luigi Guala. Luigi Guala deu início a um curso de teologia moral privado, inspirado em Santo Alfonso. No ano de 1814, tal curso foi reconhecido legalmente por Vittorio Emanuele I e, no ano 1817-1818, com 12 alunos, se transformou em um Convento Eclesiástico. No final de maio de 1834 entrou como aluno Dom Giuseppe Cafasso, que, no outono de 1837, foi escolhido como repetidor (BRAIDO, 2003)..
(26) 25. onde se familiarizou com a figura do fundador do Oratório, cuja capela era consagrada a São Filipe Néri e a São Francisco de Sales (BRAIDO, 2004, p. 136). Dom Bosco sentiu o impacto da realidade urbana de Turim, ao perceber as graves condições de miséria – o cenário da juventude pobre, abandonada e necessitada de assistência (BRAIDO, 2004, p. 173). Foi a partir do olhar para essa realidade que Dom Bosco se inspirou para realizar um projeto educativo com a juventude. Como ele mesmo afirmou em um dos documentos narrativos da sua experiência com os jovens nas “Memórias do Oratório”: Durante o inverno preocupei-me em consolidar o pequeno Oratório. Embora minha finalidade fosse recolher somente os meninos em maior perigo, de preferência os que deixavam a cadeia, todavia, para ter uma base sobre a qual fundar a disciplina e a moralidade, convidei alguns outros de boa conduta e já instruídos. (BOSCO, 2005, p. 126). O Oratório, segundo a descrição de Dom Bosco, era um espaço de encontro com adolescentes e jovens com a intenção de realizar atividades de recreação, esporte, lazer. Porém, além da recreação existia a intenção de propor a catequese e orientar os jovens para a vida (BOSCO, 2005). A ideia de fundar um oratório nasceu quando Dom Bosco começou a frequentar as prisões na cidade de Turim, onde se encontravam os jovens, e Dom Bosco constatou que a infelicidade vivida por eles devia-se à falta de formação moral e religiosa, e que nestes meios educativos poderiam se conservar como bons. Dom Bosco, começou a catequisar nos cárceres e depois na sacristia da Igreja de São Francisco de Sales, em Turim. Nas reuniões com os jovens realizava cantos, brincadeiras, contos morais e religiosos (FERREIRA, 2008, p. 63-64). Na verdade, voltar-se com predileção ao apostolado juvenil não foi em Dom Bosco o efeito de uma conversão repentina ou localizável num episódio de premonição, uma espécie de iluminação no caminho de Damasco. Foi fruto de evolução consumada no arco de meses e de anos, em contato com os fenômenos típicos de uma metrópole em pleno desenvolvimento, como era Turim. Passo a passo vinha a predominar a atração pelo cuidado dos jovens, sobretudo, em dificuldade e em perigo, encarcerados, marginais, imigrados. (BRAIDO, 2008, p. 166). Os processos de desenvolvimento e organização da primeira experiência oratoriana de Dom Bosco, em Turim, caracterizaram-se pela preocupação com o resgate urgente e preventivo dos jovens delinquentes, bem como pela busca destes jovens em perigo nos subúrbios, nas ruas e praças, onde existiam os maiores desafios humanos (PERAZA, 2006)..
(27) 26. Dom Bosco preocupou-se com a localização de lugares adequados para reunir os jovens; criou grupos, um clima de família com relações estáveis para os jovens; desenvolveu um clima juvenil, lúdico, festivo, catequético, de oração e de divertimentos. Tudo isso era uma forma genial e, neste princípio, as práticas da pedagogia salesiana já se desenvolviam e eram atendidas as necessidades fundamentais. A organização do Oratório de Dom Bosco foi se desenvolvendo e os objetivos foram se tornando mais amplos em relação a sua proposta educativa. Alguns elementos e valores foram sendo aprofundados e vivenciados com o tempo (PERAZA, 2006). As primeiras experiências do Oratório aconteceram em uma casa muito simples e as atividades foram realizadas praticamente na rua. O pátio da rua se tornou um espaço pedagógico. No pátio aconteciam as relações de forma espontânea e se tornou o lugar do encontro, da acolhida, do diálogo, do movimento associativo, da progressiva capacitação dos mestres, da formação dos artesãos (PERAZA, 2006). As sucessivas construções formavam, não somente o espaço de atividades religiosas e lúdicas, mas a escola, a casa de acolhida para os meninos, as oficinas profissionalizantes, o espaço para a alfabetização, a capacitação artesanal, o ensino da música, a capacitação em oficinas, a educação escolar, o associacionismo juvenil. Finalmente, as múltiplas iniciativas artísticas e esportivas da época, os passeios e as publicações de leituras populares de índole educativa, cultural, religiosa e moral eram realizadas nestes locais (PERAZA, 2006). Diante da dramática realidade de pobreza e de exclusão social do mundo juvenil, provocada por diversos fatores econômicos, culturais, sociais e humanos, a finalidade principal do Oratório era a de realizar ações preventivas que procuravam atender os jovens em situação de pobreza. O Oratório tornou-se um ambiente de encontro e reencontro social e pedagógico espontâneo, ambiente de valores sociais e religiosos, onde era promovida a formação em todas as dimensões: profissional, religiosa, moral e intelectual. Fundamentalmente, o Oratório transformou-se em um espaço de desenvolvimento dos direitos humanos para os jovens privados das necessidades essenciais, para os jovens trabalhadores escravos, adolescentes sem casa e sem pátria e que eram privados do laço familiar e afetivo. A vida de Dom Bosco retratava uma experiência familiar com dificuldades, não somente econômicas, mas especialmente afetivas em consequência da perda do pai no início de sua infância. Mas, ao longo de sua vida, soube canalizar as energias da sua.
(28) 27. existência para uma ação concreta, em favor do outro. Também pôde encontrar pessoas significativas, que foram um verdadeiro suporte em sua vida, como a própria mãe e, depois, os seus diretores espirituais. Estas referências foram sinais concretos que orientaram sua existência para um projeto de vida. Dom Bosco teve a capacidade de compreender e colher o que havia de melhor no seu tempo em relação aos referenciais teóricos e práticos para a realização de uma missão educativa que idealizou. Isso foi muito presente em suas escolhas, porém, conseguiu interpretar as diversas linhas de conhecimentos, orientando-as para um estilo próprio. Inventou um movimento espiritual de acordo com o seu estilo e elaborou propostas educativas significativas. Dom Bosco realizou diversos registros e obras que foram publicadas. Entre essas obras estão os escritos pedagógicos para os jovens como: História Eclesiástica (1845), História Sagrada (1847), História da Itália (1855), Jovem Preparado (1847). Encontramos os Documentos escritos da sua pedagogia narrativa: Primeiras Memórias do Oratório (1854), A Força da Boa Educação (1855), as bibliografias dos jovens – Domenico Savio (1859), Michele Magone (1861), Francesco Besucco (1864). Escritos normativos e pedagógicos: As recordações confidenciais aos diretores (1863), O diálogo entre Dom Bosco e o Mestre Francesco Bodrato (1864), As Memórias do Oratório de 1815 a 1855, Recordações aos Missionários (1875), O Sistema Preventivo na Educação da Juventude (1877), Os regulamentos para o Oratório e as Casas (1877), As Circulares sobre os Castigos (1883), Duas cartas de Roma (10 de maio de 1884), Memórias de 1841 a 18841886, Cartas a Salesianos na América (1885)4 – (CAVAGLIÁ, 2000-2002, tradução nossa). No mês de Janeiro, de 1888, morreu Dom Bosco. Em 1934 foi proclamado santo 5 pela Igreja. Reconhecido como alguém que realizou muitas ações de caridade no meio dos. 4. Citação Original das obras escritas por Dom Bosco: Storia Ecclesiastica (1845), Storia Sacra (1847), Storia di Italia (1855), Giovane Provveduto (1847). Documentos de pedagogia narrativa: Prime Memorie dell´Oratorio (1854), La forza della buona educazione (1855), as bibliografias dos jovens – Domenico Savio (1859), Michele Magone (1861), Francesco Besucco (1864). Escritos normativos e pedagógicos: I ricordi confidenziali ai Direttori (1863), Il dialogo Tra Don Bosco e il maestro Francesco Bodrato (1864), Le memorie dell´Oratorio dal 1815 a 1855, Ricordi ai missionari (1875), Il Sistema Preventivo Nell´Educazioni della Gioventù (1877), I regolamenti per l´Oratorio e le case (1877), La circolari sui castighi (1883), Due lettere da Roma (10/5/1884), Memorie dal 1841 a 1884-86, Letterre ai Salesiani in America (1885). 5. A proclamação da santidade de São João Bosco é realizada por meio de um decreto do Papa Pio XI: “Lettera Decretale di sua santità pio XI geminata laetitia". A consideração de uma pessoa como santa é o reconhecimento da Igreja pelas virtudes e valores da fé cristã que vivenciou em sua vida (N.A.)..
(29) 28. jovens pobres. O esplendor de sua ação manifesta-se nas diversas obras educativas que construiu para cuidado e a educação dos jovens pobres.. 1.2 Biografia de Maria Domingas Mazzarello No itinerário histórico de Maria Domingas Mazzarello encontramos os elementos importantes que retratam a contextualização do surgimento do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, durante o Ressurgimento na Itália. Parte-se da biografia da cofundadora, pois ela nos remete aos referenciais mais profundos da existência do Instituto e das origens da sua missão educativa. Maria Domingas Mazzarello nasce no ano de 1837, em Mornese, lugarejo que se insere em um quadro de posição de fronteira, entre a Ligúria e o Piemonte. Uma terra de agricultores. Maria foi a primogênita dos treze filhos de José e de Madalena Calcagno. Aprendeu a leitura com o seu próprio pai. O ambiente familiar era um espaço rural, permeado pela religiosidade típica da restauração: austera, devota e de amor a Deus. A vida era pobre e precária, mas não miserável, e as relações do povo com a comunidade eram exclusivas e restritas à vida da paróquia (FERNANDES, 2006, p. 108). Maria Domingas Mazzarello viveu a sua infância e a adolescência no bairro do pequeno lugarejo chamado Mazzarelli, até o final de 1848, ou início de 1849, quando a família se transferiu para a Valponasca, uma casinha no campo, próxima a Mornese, para trabalhar como arrendatários. Maria empenhava-se nos trabalhos domésticos e do campo, mas também participava intensamente da vida paroquial (FERNANDES, 2006, p. 108). No ano de 1847, chegou a Mornese Padre Domingos Pestariono, nativo de Mornese e formado no Seminário de Gênova, animado por um grande ardor apostólico e uma profunda renovação pastoral. Maria Domingas recebeu dele a formação catequética e a direção espiritual com uma orientação para a vida sacramental e leituras espirituais (FERNANDES, 2006, p. 109). No ano de 1855, formou-se em Mornese, a Pia União das Filhas de Maria Imaculata (FMI), pela iniciativa da jovem Mornesina Angela Maccagno. O grupo foi animado por Padre Pestarino e orientado por Padre José Frassinetti. Tratava-se de um grupo de associação de jovens, unidos entre si pelo vínculo da piedade e da amizade espiritual, procurando viver os conselhos evangélicos e o bem ao próximo com o apostolado (FERNANDES, 2006, p. 109)..
(30) 29. Os anos passados na Valponasca foram um tempo de personalização da própria fé, de interiorização, de unificação ao serviço na comunidade eclesial (DELEIDI; KO, 1995, p. 45). Maria Domingas Mazzarello viveu em seu itinerário um tempo de grande sofrimento, no qual novas opções orientaram sua existência. Com a chegada da epidemia do tifo, em Mornese, Maria Domingas Mazzarello assumiu a missão de ajudar a família de um tio, na qual todos estavam contagiados pelo mal. Com isso, também foi contagiada pela doença que a deixou em uma situação de fragilidade física (CAPETTI, 1981, p. 7978). Depois da doença, Maria Domingas Mazzarello sentiu-se frágil e impossibilitada de continuar a realizar o trabalho no campo. Nesse momento, amadureceu em Maria Domingas a intuição de aprender o trabalho de costureira, com o fim de reunir as meninas para ensinar a costurar, afastando-as dos perigos, por meio da educação (FERNANDES, 2006, p. 31-32). A preocupação de Dom Bosco com a educação estende-se também às jovens, sentindo-se inspirado a realizar a mesma proposta educativa com as jovens. Escolherá Maria Domingas Mazzarello para realizar o ideal educativo salesiano. Recebeu o título de cofundadora durante o seu processo de beatificação, conferindo-lhe participação ativa no processo de fundação de um instituto religioso feminino, o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA) – (FERNANDES, 2006, p. 16-17). A vocação de Maria Domingas Mazzarello surge a partir da sua experiência de participação efetiva como seguidora do cristianismo e do seu compromisso na realização dos valores cristãos como é a opção por uma vida dedicada a Deus e ao serviço daqueles que mais precisam de solidariedade. Tal opção se manifesta, de fato, nas jovens Filhas de Maria Imaculada como expressão e prolongamento do amor totalizante, desejoso de envolver a todos na mesma caridade, especialmente as jovens do lugarejo (FERNANDES, 2006, p. 41). Em Mornese, Maria Domingas Mazzarello apresentou os traços originais da educação salesiana. Possuia as características de uma vocação pedagógica amadurecida no contato com as jovens empobrecidas de Mornese. Sua arte educativa exprimia uma relação caracterizada pelo amor delicado e forte, em grau de potenciar as possibilidades de cada pessoa (RUFFINATTO, 2003b, p. 66-72). Maria Domingas Mazzarello assumiu a educação preventiva com docilidade, amor e vigilância, favorecendo o crescimento, a partir do diálogo em um clima de afeto sincero.
(31) 30. e profundo (RUFFINATTO, 2003b, p. 66-72). Na personalidade de Maria Domingas Mazzarello evoluía o germe da bondade e da maternidade espiritual, junto à sua vocação pedagógica e religiosa (MACCONO, 1960, p. 274-275 apud RUFFINATO, 2003b, p. 68). Apesar de não possuir uma formação acadêmica, Maria Domingas Mazzarello realizou o Sistema Educativo Salesiano com as jovens, desempenhando um papel orientador na formação da comunidade educativa, na preparação das jovens que deveriam ser as novas cooperadoras e educadoras no estilo salesiano. Das fontes escritas por Maria Domingas Mazzarello, temos apenas um epistolário. Dessas cartas podemos colher o ideal do “cuidar” da pessoa, favorecendo o seu desenvolvimento em todos os sentidos. Também é notável sua capacidade de liderança em relação ao acompanhamento e a uma comunicação aberta preocupada com o crescimento humano (RUFFINATO, 2003b, p. 13). Os traços biográficos de Maria Domingas Mazzarello, considerados desde sua juventude, nos permitiram perceber o forte desejo de dedicar-se a Deus na vida apostólica, não somente como fruto de um desejo pessoal, mas porque se sentiu chamada para realizar o projeto educativo. Acolheu o dom do desígnio divino e deu-lhe uma resposta livre. Na Igreja, os dons concedidos, o dom por excelência, sinalizaram e acompanharam o início de um projeto e habilitaram os que se sentiam chamados. Na raiz de cada tarefa ou missão existia este dom (FERNANDEZ, 2006, p. 37). A vida de Maria Domingas Mazzarello desenvolveu-se em um contexto simples, com uma situação econômica um pouco melhor do que a de Dom Bosco, porém, é de se valorizar o aspecto da vida cristã cultivada intensamente na sua existência. A presença significativa de Padre Pestarino e José Frassinette ofereceu os fundamentos sólidos para a construção de uma personalidade permeada de valores cristãos, especialmente do amor a Deus e ao próximo, com profundidade e grandeza. A experiência religiosa de Maria Domingas Mazzarello tornou-se profunda, expressando as consequências da escolha de Deus e da missão educativa que desempenhou. O seu itinerário histórico-espiritual apontou, com intensidade, um caminho preparado pelo mistério de Deus para a concretização de um grande projeto para a existência do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora. Podemos verificar que os fatos e acontecimentos da vida de Maria Domingas Mazzarello, foram desenhados para o seu perfeito encontro com Dom Bosco. A sua preparação apostólica, bem como a experiência de caridade tecida por uma profunda.
Outline
A missão carismática salesiana e a missão educativa nas cartas de
A compreensão do sistema preventivo a partir do conceito e da
A pessoa humana e a sua potencialidade relacional e dialógica
A integração da corporeidade
A fenomenologia do sentir e a percepção da realidade
A ordem do amor
A formação das virtudes e os valores éticos
A comunidade como via para a prática da amorevolezza
A constituição do ser pessoa no ambiente relacional
A Antropologia da amorevolezza e a formação dos educadores
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