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(2) 1. JIHAD HASSAN HAMMADEH. ISLAM E MÍDIA: UM DIÁLOGO POSSÍVEL?. Dissertação apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para obtenção do grau de Mestre. Orientador: Profa. Dra. Magali do Nascimento Cunha (agosto de 2016 a dezembro de 2017) e Prof. Dr. Roberto Joaquim de Oliveira (março de 2018 a janeiro de 2019).. São Bernardo do Campo 2019.
(3) A dissertação de mestrado intitulada: ISLAM E MÍDIA: UM DIÁLOGO POSSÍVEL? elaborada por JIHAD HASSAN HAMMADEH, foi apresentada e aprovada em 15 de março de 2019, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Roberto Joaquim de Oliveira (Presidente/UMESP), Prof. Dr. Herom Vargas (Titular/UMESP) e Profa. Dra. Francirosy Barbosa (Titular/USP).. __________________________________________________ Prof. Dr. Roberto Joaquim de Oliveira Orientador e Presidente da Banca Examinadora. __________________________________________________ Prof. Dr. Luiz Roberto Alves Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de Concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa: Comunicação midiática, processos e práticas socioculturais.
(4) FICHA CATALOGRÁFICA. H182i. Hammadeh, Jihad Hassan Islam e mídia: um diálogo possível? / Jihad Hassan Hammadeh. 2019. 108 p. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) --Diretoria de PósGraduação e Pesquisa da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2019. Orientadores: Magali do Nascimento Cunha; Roberto Joaquim de Oliveira. 1. Comunicação – Jornalismo 2. Mídia e religião 3. Islã 4. Muçulmanos 5. Revista Veja – Análise de conteúdo I. Título. CDD 302.2.
(5) 3. Dedico este trabalho a Deus; depois, à Comunidade Islâmica Brasileira; aos meus pais, Hassan e Widad; à minha esposa Nadia, que sempre me apoiou e incentivou a concluir este trabalho, como também, esteve ao meu lado em todos os momentos alegres e difíceis; aos meus filhos, Nur, Hassan e Mahmud; aos meus irmãos, Rikan, Rihab, Yahia e Mariam; aos meus sobrinhos, Abdo, Lina, Adam e Iyad; aos meus sogros, Mahmud e Aicha; aos meus cunhados, Jamal, Hani, Rafat, Jamila e Salah e Muna..
(6) AGRADECIMENTOS. Agradeço a Deus, em primeiro lugar, por todas as bênçãos, dádivas e por colocar pessoas maravilhosas na minha trajetória. À professora Dra. Magali do Nascimento Cunha, que iniciou a minha orientação e me ajudou com toda a receptividade, gentileza e sabedoria. Ao professor Dr. Roberto Joaquim, que me recebeu com bastante entusiasmo, paciência e assumiu esta tarefa de continuar a minha orientação, me incentivando e acreditando no meu trabalho. Aos meus professores do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, os quais me ensinaram muito e pelos quais tenho muito respeito e gratidão. Aos meus amigos alunos do programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, pelo convívio respeitoso e pela troca de experiência. Ao meu grande amigo Carlos Humberto, enviado por Deus no momento mais difícil da minha pesquisa para me apoiar e auxiliar. À Professora Dra. Francirosy Campos Barbosa, que me incentivou a terminar este curso, junto com o GRACIAS (Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes). Ao Dr. Adib Abdouni, que sempre se colocou à disposição e contribuiu muito com a minha pesquisa. À Dra. Jamila Hussein, pela colaboração com a minha pesquisa. Ao Sr. Ahmad Ali Saifi, meu primo, que me apoiou durante a minha vida acadêmica. Ao professor Jaime Guedes, e à professora Dra. Jamile Rassoul Salem, que me apoiaram na minha vida acadêmica, no Brasil. A todos os meus alunos, principalmente, de quarta-feira, pelo suporte. E a todos que contribuíram, direta ou indiretamente, para a conclusão deste trabalho! Que Deus abençoe a todos!.
(7) 4. RESUMO Este trabalho tem como objetivo compreender como a religião islâmica e os muçulmanos foram retratados na revista Veja durante o ano de 2016. Temos como hipótese que, a partir de um viés que relaciona a religião islâmica e seus praticantes ao terrorismo e atos de violência, as representações nas mídias noticiosas, em especial na revista Veja, são majoritariamente negativas. Utilizando-nos de referenciais teóricos dos estudos sobre o Islam, realizamos uma análise de conteúdo buscando categorizar as reportagens que fazem parte de nossa amostra por acessibilidade em: conteúdos relacionados à violência; não relacionados à violência e os que não abordam a temática religiosa. Obtivemos em nossos resultados a comprovação da hipótese inicial, já que na maioria dos conteúdos jornalísticos ligados à religião islâmica e aos muçulmanos foram encontrados mais elementos que os relacionavam à violência e ao terrorismo, do que sua simples apresentação como religiosos. Palavras-chave: Comunicação. Jornalismo. Religião. Islam. Muçulmanos..
(8) 5. ABSTRACT This work aims to understand how Islam and Muslims were portrayed in Veja magazine during the year 2016. We hypothesize that, from a bias that relates the Islamic religion and its practitioners to terrorism and acts of violence, the representations in the news media, especially in Veja magazine, are mostly negative. Using theoretical references from the studies on Islam, we conducted a content analysis to categorize the reports that are part of our sample for accessibility in: contents related to violence; not related to violence and those that do not approach the religious theme. We obtained in our results the proof of the initial hypothesis, since in the majority of the journalistic contents connected to Islam and the Muslims were found more elements that related them to the violence to the terrorism of general way, than its simple presentation like religious. Keywords: Communication. Journalism. Religion. Islam. Muslims..
(9) 6. LISTA DE FIGURAS. Figura 1 - Mapa da região arábica .............................................................................20 Figura 2 - Bandeira utilizada pelo ISIS ......................................................................61 Figura 3 - O jogo da Sobrevivência........................................................................... 72 Figura 4 - Até onde vai o terror ..................................................................................73 Figura 5 - As trevas contra a luz................................................................................ 76 Figura 6 - Contra a liberdade .................................................................................... 78 Figura 7 - Terrorismo à brasileira ............................................................................. 80 Figura 8 - A máfia do turbante .................................................................................. 81 Figura 9 - O destemido Khan .................................................................................... 84 Figura 10 - Celebração muçulmana em mesquita, em São Paulo ........................... 85 Figura 11 - Ao gosto muçulmano .............................................................................. 87.
(10) 7. LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Quantidade de resultados por palavra-chave ..................................67 Tabela 2 - Quantidade de resultados sem repetições ..................................... 68 Tabela 3 - Dados quantitativos por categoria .................................................. 70.
(11) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ................................................................................................. 12 CAPÍTULO 1 .................................................................................................... 20 ISLAM: ORIGENS E TRAJETO HISTÓRICO.................................................. 20 1.1. O papel de Mohamad (Maomé) .......................................................... 22. 1.2. Princípios norteadores do Islam .......................................................... 28. CAPÍTULO II .................................................................................................... 36 A DESCONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO MUÇULMANO E DO ISLAM ... 36 2.1 O cinema como ferramenta de desconstrução ........................................ 38 2.2 O novo ciclo de desconstrução: 11 de setembro ..................................... 43 2.3. O “discurso conciliador” e a criação do ISIS ....................................... 54. CAPÍTULO III ................................................................................................... 65 ANÁLISE DO ISLAM E DA REPRESENTAÇÃO DO MUÇULMANO NA REVISTA VEJA ............................................................................................... 65 3.1 O caso precursor: processo da UNI - União Nacional das Entidades Islâmicas ....................................................................................................... 65 3.2 Levantamento de dados e análise quantitativa ....................................... 67 3.3 Destaques descritivo-analíticos ............................................................... 71 3.3.1 Abordagem violenta........................................................................... 72 3.3.2 Abordagem não violenta.................................................................... 83 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................. 90 REFERÊNCIAS ................................................................................................ 94 APÊNDICES .................................................................................................. 100.
(12) 12. INTRODUÇÃO Segundo o pesquisador Paulo Hilu Pinto (2010), os dados estatísticos apontam que os muçulmanos são aproximadamente 1,3 bilhão, ultrapassando o número de católicos, de acordo com dados do próprio Vaticano. A região com o maior número de muçulmanos é o subcontinente indiano, onde há cerca de 400 milhões de fiéis que se distribuem por Paquistão, Bangladesh, Índia e Sri Lanka. O país com maior população muçulmana é a Indonésia, onde cerca de 90% dos seus 200 milhões de habitantes seguem o Islam. Existem entre 5 e 6 milhões de muçulmanos nos EUA e 1 milhão na Espanha; já na América Latina, Argentina e Brasil despontam como países com o maior número de muçulmanos, 750.000 mil e 1 milhão, respectivamente. Ainda que constituam estimativas, as estatísticas revelam certamente o crescimento da religião. Se, por um lado, é notório o crescimento da religião no mundo; por outro, temos o total desconhecimento das pessoas sobre quais são os fundamentos da religião, no que creem os muçulmanos. Este desconhecimento foi determinante após o 11 de setembro de 2001, data que marcou os atentados às Torres Gêmeas nos Estados Unidos. O Islam no Brasil, ou em qualquer outra parte do mundo, virou notícia, em sua maioria, com conotações distorcidas ou incompletas que acabaram por prejudicar a imagem dos seguidores da religião, que passaram a ser vistos como “terroristas. Apesar deste deslocamento na imagem do muçulmano, sendo ele apresentado essencialmente como violento, o crescimento da religião islâmica tem provocado reações de setores da sociedade, principalmente, pelo receio de uma mudança nos padrões políticos, ideológicos e comportamentais. No Brasil, a desinformação vem aparecendo com o discurso de ódio a respeito de algo improvável que é a implantação da Sharia (Lei Islâmica) em um país não islâmico. Falta o entendimento de que em países de minoria islâmica os muçulmanos se adequam às leis do país em que vivem, não havendo conflito quanto a isso. Neste sentido, novas formas de difamação vêm sendo disseminadas por uma parcela das mídias, na representação pejorativa e pouco verdadeira de expressões islâmicas, centradas em práticas políticas terroristas. Isto parece se dar por falta de conhecimento sobre o Islam, ou mesmo, premeditadamente. Entretanto, tais informações que circulam geram intolerância, discriminação, preconceito e perseguição contra os muçulmanos, contribuindo para o aumento da instabilidade.
(13) 13. social, já que se constrói uma imagem negativa e distorcida da religião Islâmica e de seus seguidores. Atentados ocorridos, por exemplo, na França, nos últimos anos, destacam fortemente a presença de muçulmanos. A religião é sempre destaque e não o próprio autor do crime, coisa que não é noticiada quando se trata de um criminoso cristão, não se diz a religião do criminoso, mas em se tratando de um muçulmano, ou de origem, isto vira notícia. Atentados ocorridos no Charles Hebdo, Bataclan, por exemplo, geraram episódios negativos dentro da comunidade islâmica brasileira como agressões às mulheres e homens, pichação de mesquitas, entre outros. Cabe perguntar: é possível que a mídia passe a usar ou deixe de usar os termos jihadismo, Estado Islâmico, Sharia, Guerra Santa? O termo “Estado Islâmico” é um dos que mais traz danos à comunidade, pois associa o Islam e os muçulmanos ao terrorismo do DAESH colocando todos como terroristas. O Islam é uma religião milenar e universal, governou grande parte do mundo por séculos, influenciou todas as civilizações e foi influenciada por elas também, trouxe contribuições em todas as áreas do conhecimento da sua época, as metrópoles muçulmanas, suas universidades, os diversos sistemas e pensadores eram referência para o mundo, principalmente, para a Europa. Análises orientalistas sempre foram destaques, conforme apontou Edward Said (1996), a visão do Outro muçulmano como dono do petróleo e mesmo transformando contextos islâmicos distintos em grupos homogêneos, deram aos muçulmanos uma imagem totalmente caricatural, mas não condizente com a realidade. Observamos que o noticiário das grandes mídias apresenta, em geral, um Oriente Médio (região de referência do mundo islâmico) problemático e cheio de conflitos internos e externos, mesmo que se tenha conhecimento de que tais conflitos são muitas vezes fabricados para gerar instabilidade nestas populações e atender a interesses políticos e econômicos de terceiros. De fato, na região, há uma população que sofre e é cada vez mais marginalizada e tratada com hostilidade, tanto dentro dos próprios países de origem como fora deles na condição de refugiados. Segundo Gomes (2014):. [...] o jornalismo assim como seus pressupostos empresariais e políticos semeiam construções de discurso que ferem a alteridade e impedem o fazer jornalístico, de desenvolver (de constituir) a representação do muçulmano como um Outro mais conectado com seus valores complexos, pois os olhos.
(14) 14. do repertório jornalístico se alicerçam na hegemonia social atual (GOMES, 2014, p. 83).. A autora, em seu artigo, explora que tanto as matérias da Folha de S.Paulo quanto do Estado de S.Paulo não se preocupam em explicar termos chaves do Islam, a fim de contextualizar as informações aos seus leitores, e que, após o atendado de 11 de setembro, verifica-se na notícia que o muçulmano foi equiparado como estrangeiro invasor, além de ressaltar que a cultura islâmica é “chocante” para o laicismo francês (GOMES, 2014, p. 82). Montenegro (2002, p. 72) já assinalava dados de pesquisa em suas publicações internacionais e nos sites da Ummah global e revelou quão delicada é a relação entre a mídia e o Islam. Até as publicações da Muslin World Ligue, revista editada na Arábia Saudita e distribuída nas comunidades sunitas de todo o mundo, revelam esta preocupação com o tratamento que é dado ao Islam pelos meios de comunicação internacionais. Douglas Kellner (2001), em seu livro, A Cultura da Mídia, diz: Há uma cultura veiculada pela mídia, cujas imagens, sons e espetáculos ajudam a urdir o tecido da vida cotidiana, dominando o tempo e lazer, modelando opiniões políticas e comportamentos sociais e fornecendo o material com que as pessoas forjam sua identidade (KELLNER, 2001, p. 9).. Portanto, quando as mídias mostram o Islam e os muçulmanos como personagens hostis, por meio de associações e termos pejorativos, escolhidos estrategicamente como “terrorismo islâmico”, “terrorista muçulmano”, “fanatismo islâmico”, “Estado Islâmico”, entre muitos outros, isso representa a Comunidade Islâmica, tanto mundial quanto brasileira, de forma parcial e acaba construindo um imaginário hostil das pessoas não muçulmanas em relação aos muçulmanos, como também, dos muçulmanos, em relação aos não muçulmanos. Se, de um lado, trabalha-se com o preconceito; de outro, cria-se desconfiança e medo, o que gera uma instabilidade social não conhecida antes no Brasil. Em terras brasileiras, os muçulmanos “sempre” foram vistos como os demais grupos pertencentes à população, pessoas que contribuem para o crescimento e desenvolvimento do país, independentemente se eram de origem brasileira ou não. Mas cabe dizer que foi proibido até a Proclamação da República, em 1889, que templos de outras religiões fossem erigidos no Brasil..
(15) 15. O interesse ao Islam e ao muçulmano se mostra presente na porcentagem de notícias dedicadas ao tema, apesar de em números absolutos não ser a segunda religião mais praticada no Brasil, é a segunda religião mais noticiada nos veículos de comunicação, conforme confirma Cunha (2016):. Verifica-se que a maior incidência é a cobertura noticiosa de temas referentes ao cristianismo (73%), seguida do islamismo (19%). Fica evidente o predomínio do cristianismo como religião mais valorizada nas notícias, o que corresponde ao fato de o Brasil ser um país majoritariamente cristão. Contudo, não é a segunda religião do Brasil o espiritismo, a mais frequentemente representada nas notícias, e, sim, o Islamismo (CUNHA, 2016, p. 9).. Esse dado torna ainda mais relevante nossa reflexão sobre como as representações dos muçulmanos e do Islam estão sendo feitas nessas publicações, devido ao seu impacto social. Nesta pesquisa, importa revisar abordagens que tratam da representação negativa do Islam, assim como os desdobramentos dessas representações e o incômodo com tal exibição - em especial a do noticiário - tem gerado nas ações de muçulmanos no país, que também é objeto desta pesquisa. Nesse sentido, a questão que impulsiona esta pesquisa é: Como a revista Veja representou o Islam e os Muçulmanos durante o ano de 2016 e quais os possíveis desdobramentos dessa representação? Nossa hipótese é a de que a representação dos muçulmanos e do Islam na revista Veja possui uma caracterização majoritariamente negativa, ligando a religião e seus fiéis à prática de atos de violência e terrorismo. Com isso, nosso principal objetivo é justamente compreender como a Veja apresenta os muçulmanos e o Islam em suas reportagens, tendo como objetivos específicos:. - Classificar as matérias selecionadas levando em consideração as relações estabelecidas entre muçulmanos e Islam com terrorismo e com a violência de maneira geral.. - Apresentar os valores que baseiam os preceitos do Islam.. - Demonstrar como a imagem do muçulmano e do Islam foi descontruída pela imprensa após o atentado de 11 de setembro de 2001..
(16) 16. A importância de uma pesquisa sobre o modo como a mídia noticiosa divulga materiais sobre o Islam e como as Instituições respondem a essas matérias é fundamental para mapear formas de enfrentamento contra a islamofobia que cresce no Brasil. A intolerância religiosa não é mais algo presente apenas no cotidiano de religiões afro-brasileiras, mas passou a fazer parte do cotidiano dos muçulmanos, sendo as mulheres o maior alvo quando essas circulam pelas ruas das cidades brasileiras, ou qualquer outro muçulmano em redes sociais. É comum em situações on-line acompanharmos os discursos de ódio que proliferam em páginas de Facebook, Twitter, Blogs, etc. Dados registrados pela Coordenadoria da Igualdade Racial - CEPPIR/2015 - afirmam que de janeiro a agosto de 2015 a intolerância aos muçulmanos no Rio de Janeiro aumentou de 3% a 20%, sendo as mulheres os maiores alvos desta intolerância. Os discursos de ódio que se proliferam contra os fiéis do Islam destacam sempre um desconhecimento profundo da religião e de seus termos, chegando a tomar material islâmico e distorcer textos ou falas para atrair ainda mais pessoas para este discurso descontextualizado. Nessas condições, os muçulmanos passam a ser uma ameaça. Há muçulmanos na comunidade que são atacados com frequência, levando-os à justiça para dar entrada em processos criminais e civis. Consideramos que a mídia deve ter responsabilidade social ao divulgar reportagens e informações relacionadas às religiões, principalmente quando estas são alvo de preconceito social, como meio para evitar que novas formas de intolerância se formem, por isso, é preciso ter consciência que informações distorcidas e equivocadas levam a erros, gerando uma instabilidade social dentro da comunidade, o que já podemos perceber com o número de mulheres que vem retirando o hijab (véu islâmico), tanto por segurança quanto por serem discriminadas em entrevistas de emprego. Nosso trabalho, portanto, se justifica por contribuir para que novas abordagens possam ser tomadas na cobertura relacionada ao Islam e aos muçulmanos, tanto na revista Veja quanto em outras publicações. Recorremos às fontes nativas (neste caso, o Alcorão e a Sunnah), assim como trabalhos de historiadores, antropólogos, sociólogos e outros que consolidam este campo específico, tais como Hourani (2001), Armstrong (2001), Enzo Pace (2005),.
(17) 17. Paulo Hilu Pinto (2010). Esses autores dão mapas variados deste histórico denso feito por Hourani sobre os povos árabes e o advento do Islam e as mudanças do período, bem como trabalhos importantes de Karen Armstrong que revelam, a partir de uma perspectiva considerável, a biografia do Profeta e o modo como este era respeitado por seu grupo, mas também aponta as dificuldades encontradas pelo mesmo na transmissão da religião. De acordo com a autora, o Islam é tolerante quanto às demais religiões, tem respeito por elas, mas não tolera quem ataque a figura do profeta. Há certamente algo de intocável quando se trata da imagem do Profeta. Isto já foi explorado por Barbosa (2006) na ocasião do atentado ao jornal da Dinamarca. No Islam não se cultuam imagens e nem se representam imagens dos Profetas (Abraão, Moisés, Jesus, Muhammad). Para os muçulmanos, isso é sinal de grande agressão. Enzo Pace (2005), por sua vez, faz uma descrição minuciosa e importante de todos os elementos que compõem o Islam desde a sua formação, a sucessão pósfalecimento do Profeta. Um livro que introduz bem o Islam aos não muçulmanos. Pinto (2010) traz um mapa geral do Islam na atualidade, desde dados estatísticos e as divergências de grupo e suas formas de associação. Os estudos de Edward Said embasam a discussão pelo viés da compreensão da representação do Orientalismo, além de textos de pesquisadoras como Montenegro (2002) e Barbosa (2006). Em seu livro, O Orientalismo, Edward Said (1996) aborda a ideia do Oriente mais próximo de nós, da Europa, pois é no contexto da cultura europeia que este termo surge. É o Próximo Oriente, às vezes referido como o Levante que coincide com um espaço de cultura predominantemente árabe-islâmica. O termo “Orientalismo” será entendido aqui como um conjunto de conhecimentos relativos ao espaço da cultura islâmica, expressa nas línguas árabe, persa e turca, correspondendo, a grosso modo, ao Próximo Oriente, ao Norte de África - que geograficamente não está situado ao Oriente da Europa - e, numa perspectiva histórica, aos territórios, outrora islâmicos, da Península Ibérica, da Sicília e dos Balcãs. O que Said busca evidenciar é a criação deste Oriente dentro do contexto político e cultural e não com a espacialização em si. Tem-se uma visão do Outro muçulmano. Por meio de textos diversos – descrições de viagens, tratados filológicos, poemas e peças, teses e gramáticas –, Said mostra os vínculos estreitos que uniram.
(18) 18. a construção dos impérios e a acumulação de um fantástico e problemático acervo de saberes e certezas europeias. Silvia Montenegro (2002), por sua vez, vai adensar sua análise para apresentar a intensificação da imagem do muçulmano pós 11 de setembro e o quanto as matérias buscavam entender quem eram no Brasil os novos revertidos, em geral, jovens de periferia inspirados na figura de Malcom X, mas esses mesmos jovens que vão se consolidando dentro do mapa do crescimento islâmico, dez anos depois, viram reféns de matérias negativas como o da revista Veja (2016). Barbosa (2006), em seu artigo, abordou a primeira controvérsia ocorrida com a imagem do Profeta sendo usada de forma pejorativa no Jornal Jyllands Posten da Dinamarca. A autora ressalta a ideia de preservação da imagem dos Profetas no Islam e o modo como os muçulmanos entendem a ideia de representação imagética, dando ênfase aos porquês as imagens publicadas afetavam diretamente os religiosos e seus dogmas. Mídia e religião tem sido a temática da professora Magali do Nascimento Cunha. Em “Religião no noticiário: marcas de um imaginário exclusivista no jornalismo brasileiro” (2016). A autora, citando Maffesoli, explica a construção do universo religioso dominado por católicos quando se trata da exposição da mídia, expõe este papel assumido pela imprensa de silenciar outras religiões que não seja a católica. Como a autora afirma, um Deus confessado católico-romano. Realizamos pesquisa bibliográfica e documental, para a análise de conteúdo. Posteriormente, foi montada uma amostra por acessibilidade, por meio de 120 menções realizadas a seis palavras-chave selecionadas: Islã, Islam, Islamismo, Terrorismo, Estado Islâmico e Muçulmano. A busca foi realizada no acervo digital da Veja durante o ano de 2017. A revista Veja é a mídia-referência no estudo porque foi o tema principal de várias reuniões das instituições islâmicas e reclamações de muitos muçulmanos, a partir da publicação de uma matéria pejorativa em 2011, alvo do primeiro processo coletivo promovido pela comunidade islâmica no Brasil, por meio da Uni - União Nacional das Entidades Islâmicas. Entendendo esta pesquisa como um estudo de caso, trabalhamos com a análise de conteúdo sugerida por Bardin, na qual são definidas categorias prévias de análise, levando em consideração elementos quantitativos para a descrição analítica posterior..
(19) 19. Este trabalho está dividido em três capítulos. No primeiro, Islam – origens e trajeto histórico, buscou-se contextualizar historicamente a religião islâmica, abordando a importância de Mohamad (Maomé), assim como os preceitos básicos do Islam. Já no segundo capítulo, A desconstrução da identidade do muçulmano e do Islam, mostrou-se como, com o auxílio do cinema e após o atentado de 11 de setembro, ações foram tomadas para a desconstrução da imagem muçulmana. Foi dada atenção especial às decisões tomadas pelos Estados Unidos, assim como a repercussão da imprensa que, de maneira geral, colaborou com essa estigmatização. No terceiro e último capítulo, Análise do Islam e da imagem do muçulmano na revista Veja, buscou-se compreender e classificar a abordagem das reportagens da publicação sobre a temática islâmica, assim como apresentar o processo movido pela Uni - União Nacional das Entidades Islâmicas, como desdobramento dessas representações..
(20) 20. CAPÍTULO 1 ISLAM: ORIGENS E TRAJETO HISTÓRICO. A palavra “árabe”, no idioma árabe, significa “nômade”, “beduíno”, isso porque os habitantes da Península Arábica se caracterizam pela forma como viviam nesta área do Oriente Médio, lugar estratégico entre várias regiões, porém, nunca foi alvo da ambição dos conquistadores e impérios, pois, apesar de ser uma vasta área, não possuía muitas riquezas conhecidas na época, já que era um vasto deserto povoado por tribos que criavam camelos e carneiros e que andavam em busca de água e vegetação para alimentar seus animais. A Península Arábica, como relata Mohamad (1989), se encontra na Ásia, porém, separa-se da África pelo Mar Vermelho, mas, ao Norte, há uma ligação com o continente africano e com a Europa, através do canal de Suez que leva ao Mar Mediterrâneo. A Arábia se encontra estrategicamente entre os três continentes, sendo a maior península do mundo, ligando-se ao continente somente pelo Norte. Está cercada de mar por todos os lados exceto uma faixa estreita de terra ao norte. No Oeste tem o Mar Vermelho, o Oceano Índico ao Sul, a Leste, o Golfo Pérsico e o Eufrates ao Noroeste. Os árabes chamam-lhe ‘JAZIRATUL ARAB’ que significa literalmente ‘A Ilha Árabe’ (MOHAMAD, 1989, p.12).. A área total desta Península é de, aproximadamente, um milhão e setecentos mil quilômetros quadrados, com algumas partes férteis, como o Iêmen e as regiões de Najd e Hijaz, porém seus habitantes viviam em tendas e vagavam pelo deserto, já que suas montanhas não podiam ser cultivadas pela escassez de água e chuva. Quanto ao Mediterrâneo, situava-se a Grande Síria, ocupando um ponto estratégico e repleto de riquezas naturais, alvo da ambição dos conquistadores e impérios da época. “O clima da Arábia é extremamente seco, com exceção de algumas zonas costeiras e locais com água; a tâmara é a fruta principal e a sua população dedica-se mais ao comércio” (MOHAMAD, 1989, p.13). Como podemos ver na Figura 1, a região fica próxima ao Norte da África e relativamente próxima à Europa Ocidental. Trata-se de um ponto estratégico, pois.
(21) 21. além de possuir saídas ao mar é rota de comércio entre os continentes europeu, asiático e africano. Figura 1 - Mapa da região arábica. Fonte: Google Maps. O Oriente Médio no século XIV encontrava-se dividido geográfica e politicamente em vários clãs e tribos. Esses grupos de tribos seguiam orientações e obedeciam aos impérios dominantes da época, como era o caso do Império Bizantino, que dominava a Grande Síria e o Império dos Sassânidas, que abarcava o que chamamos hoje de Irã, Iraque e Ásia Central. Além desses impérios, havia também os impérios dos dois lados do Mar Vermelho, do lado africano tinha a Etiópia e do lado asiático o Iêmen. Todos eles tinham grande influência na região, portanto, também havia disputas entre essas forças dominantes que, inclusive, levaram os dois maiores impérios da época a dois confrontos diretos e indiretos. O Império Bizantino e o Sassânida se digladiaram de 540 a 629, sendo que o primeiro confronto foi vencido pelo Sassânida e o segundo pelo Bizantino.. Por todo o Oriente Próximo, muita coisa estava mudando no século VI e início do VII. Os impérios Bizantino e Sassânida empenhavam-se em longas guerras, que se estenderam, com intervalos, de 540 a 629. Guerras travadas sobretudo na Síria e no Iraque (HOURANI, 2001, p. 27).. Quanto à Arábia, não tinha um governo central, isso porque era formada por tribos dispersas e nômades, além de algumas poucas que estavam estabilizadas e.
(22) 22. fixas em regiões férteis, oásis, rotas ou centros comerciais, como é o caso de Najd, Iêmen e Hizah, região na qual se encontram as cidades de Iatrib, hoje composta por Medina e Meca, capital religiosa da Arábia naquela época. Meca reunia os árabes anualmente fora das caravanas comerciais para a prática do ritual da Peregrinação. Sua importância era muito grande pela presença da Caaba, o local de adoração dos árabes antes do Islam, por muitos séculos, apesar de ali existirem várias imagens e deuses, pois eles eram politeístas, mas acreditavam num criador único, e para este criador faziam o ritual. Apesar de o Império Bizantino seguir a religião Cristã e o Império Sassânida seguir o Zoroastrismo, essa predileção não influenciou muito as tribos árabes, pois elas se mantinham firmes em suas crenças e sofriam poucas influências. Normalmente, as tribos seguiam seus líderes em questões políticas e religiosas. As únicas tribos que sofriam influência por parte dos impérios eram aquelas que habitavam o norte da Península Arábica, pela proximidade dos centros controlados pelos impérios. O poder e influência dos impérios afetaram partes da Península Arábica, e por muitos anos os pastores árabes nômades do norte e do centro da península vinham-se mudando para o campo da área hoje chamada de Crescente Fértil: o interior da Síria, a região a oeste do Eufrates no baixo Iraque e aquela entre o Eufrates e o Tigre (a Jazira) eram de população em grande parte árabe. Eles trouxeram consigo seu ethos e suas formas de organização social (HOURANI, 2001, p. 27).. Foi nessa região repleta de diversos povos, tribos, clãs, hábitos e costumes que nasceu o derradeiro profeta do Islam, Mohamad, que viria a transformar definitivamente a Península Arábica e seus habitantes.. 1.1 O papel de Mohamad (Maomé) Passados 570 anos do nascimento de Jesus, nasce em Meca uma criança chamada Mohamad, ‘o louvado’, em árabe, conhecido no Brasil como Maomé. Seu pai, chamado Abdullah Bin Abdul Muttalib, era de uma família nobre de Meca, do clã dos Coraixitas e era comerciante, levava caravanas com mercadorias para Damasco e trazia mercadorias desta cidade para Makkah. Casou-se com uma mulher chamada.
(23) 23. Aminah, mas logo depois do casamento, ele adoeceu durante uma viagem comercial. Essa doença o levou à morte, deixando assim, sua esposa viúva e grávida. Mohamad nasceu no ano que os árabes chamaram de “Ano do Elefante”, já que os árabes pré-islâmicos não tinham uma contagem de anos como os cristãos ou os judeus, mas usam fatos que se destacavam em determinado ano para fazer essa contagem. Um desses eventos extraordinários foi o ataque do vice-regente de Abissínia, atual Etiópia, chamado Abrahah, estabelecido no Iêmen, contra a Caaba, local construído pelo profeta Abraão e seu filho Ismael, com o intuito de servir como local de peregrinação e adoração a Deus. Os árabes mantiveram este local, desde então, com esta finalidade, promovendo esse ritual anualmente, dando suporte a todos os peregrinos vindos de diversas localidades e distâncias. Abrahah decidiu construir uma catedral em homenagem ao Imperador Negus, com o intuito de transformá-la em um centro de peregrinação maior que o de Meca. Naquela época, o Iêmen estava sob domínio da Abissínia, e Abrahah era o seu vice-regente. Ele mandou construir uma suntuosa catedral em Saná, na esperança de que a cidade tomasse o lugar de Meca como o centro de peregrinação mais frequentado da Arábia. Na construção, ele utilizou o mármore de um palácio em ruínas que fora da rainha de Sabá, e no interior do templo, colocou cruzes de ouro e prata, e púlpitos de marfim e ébano. Ao escrever ao imperador, o Negus, anunciou: ‘Majestade, em vosso nome construí uma igreja como jamais foi erguida por outro monarca; não descansarei até torná-la o centro de peregrinação dos árabes (LINGS, 2010, p. 36).. Abrahah, ao divulgar o plano a todas as pessoas, acendeu a ira dos árabes que levavam suas caravanas frequentemente ao Iêmen. Eles se sentiram muito ofendidos e se encheram de raiva e ódio contra o vice-regente e seu projeto. A notícia se espalhou entre as tribos árabes, que eram politeístas ainda nesse momento, um desses árabes, tomado pela raiva, decide ir até Saná e profanar o templo, o que o faz durante uma noite, conseguindo retornar ao seu povo em segurança. Ao saber do ocorrido, Abrahah jurou que, em represália, arrasaria completamente a Caaba. Após os preparativos, pôs-se em marcha para Meca com um grande exército, em cuja vanguarda posicionou um elefante. Algumas tribos árabes ao norte de Saná tentaram impedir seu avanço, mas foram derrotados e se puseram em fuga (LINGS, 2010, p. 36).. O fato de o elefante estar à frente do exército demonstrava poder, já que representava um tanque de guerra, nos dias de hoje. Esse elefante era muito famoso.
(24) 24. e muitas estórias eram contadas a respeito dele. Ele era branco e tinha o nome de Mahmud, algo inusitado para os árabes da época. Apesar de ser um exército enorme, bem armado, não temendo nada nem ninguém e sem encontrar resistência até chegar em Meca, Abrahah não teve êxito e retornou sem sucesso, porém, ferido. E, mais tarde, logo ao chegar em Saná, morreu. Por este fato, esse ano passou a ser chamado de “Ano do Elefante” e nele, nasce Mohamad. Logo após o seu nascimento, Mohamad é amamentado pela mãe por um tempo e, logo depois, é entregue a uma beduína árabe, chamada Halima, que o levou para viver junto com ela e sua tribo. A beduína completou sua amamentação e o ensinou a falar corretamente o idioma árabe. No entanto, era hábito dos nobres em Macca, como sinal de luxo e de complexo, as próprias mães amamentarem os seus filhos. Temporariamente, no início, se a criança ficasse em casa, as mulheres da família ajudavam a amamentar a criança, mas depois procuravam uma senhora permanente para amamentá-la. O objetivo disso era, porque os coraixitas amavam a sua língua. Não era reconhecido como líder a pessoa que não fosse eloquente na língua. Por isso, preocupavam-se em melhorar a sua língua logo de infância, mas isso não era possível na cidade, não só por causa dos estrangeiros que se deslocavam sempre para lá em negócios, como também, por causa dos escravos não árabes que lá viviam, e porque as crianças misturavam-se mais com eles. Dessa forma, era impossível melhorar a sua língua. Por isso, os coraixitas escolheram certas tribos, cuja língua árabe fosse eloquente, para que as mulheres dessas tribos viessem a Macca buscar as crianças coraixitas a fim de viver com elas nas aldeias. Aí, eram amamentadas por elas, aperfeiçoavam a sua língua e viviam num ambiente impoluto. A questão não era só posta no caso da língua, mas também no caso da saúde. Esta tradição manteve-se até o tempo dos Omidas, quando o Império Islâmico era enorme (MOHAMAD, 1989, p. 50).. Ao retornar para a sua mãe, com três anos de idade, Mohamad vive com ela até ele completar 6 anos, então ela morre, e ele passa a ser cuidado por seu avô paterno, Abdul Muttalib, tido como um dos maiores e mais respeitados líderes de Meca, porém, ao completar 9 anos, este morre e sua guarda passa para o seu tio paterno Abu Talib, um mercador famoso e muito respeitado, que zela por ele como sendo seu próprio filho. Ensina-lhe a pastorear e a arte do comércio, inclusive o leva numa viagem a negócios, porém, não completa a viagem, na metade do caminho, por orientação de um monge cristão, o leva de volta à Meca por uma questão de segurança. Mohamad se torna um jovem educado e famoso por duas características comportamentais, nunca mentia e era de confiança, tanto que passou a ser apelidado.
(25) 25. de “o verdadeiro, o fidedigno”. Os coraixitas guardavam muitos de seus pertences com ele, pois temiam guardá-los com outras pessoas. Mais tarde, ele começou a trabalhar para uma empresária muito rica e viúva por duas vezes, chamada Khadija, passou a gerenciar as caravanas de sua patroa, até que, certo dia, ela vendo a honestidade do rapaz, pediu ao tio dela que intercedesse junto ao jovem Mohamad para casar-se com ela, o que de fato aconteceu, e os dois se casaram, ela sendo 15 anos mais velha do que ele. Na época, ela tinha 45 anos, e ele 25, como descreve Armstrong (2002). Mohamad teve com Khadija seis filhos, quatro meninas, Fátima, Zainab, Um Kultum e Ruqaia, e dois meninos, que morrem ainda bebês, Al Kassim e Abdullah. Todos os filhos morrem antes dele, menos Fátima que faleceu seis meses depois dele. Mohamad tinha o hábito de retirar-se para meditar e refletir sobre a criação, não aceitava o politeísmo praticado pelos árabes da época e buscava a reflexão, fazendo um retiro periódico na montanha Annur, em uma caverna chamada Hirá nos arredores de Meca. Esses retiros foram se intensificando cada vez mais, à medida que se aproximava de completar 40 anos. Acredita-se que, ao completar 40 anos, teve uma revelação de Deus, por meio do Anjo Gabriel e, a partir desse momento, passou a receber revelações e as divulgou para as demais pessoas do seu povo, convocando-os a seguir uma nova lei que abolia essa forma de adoração deles, trazendo um conjunto de regras morais e éticas. Ciente de sua missão profética, Muhammad começou a recitar no seu círculo doméstico e de amizades as palavras divinas que lhe eram reveladas pelo anjo. Logo sua esposa e seus amigos e parentes, como Abu Bakr e Ali, tornaram-se os primeiros seguidores da mensagem divina que ele recitava (PINTO, 2010, p. 40).. Essa divulgação se estendeu por 13 anos em Meca, porém, repletos de desafios e perseguições, seu povo não aceitava mais sua pregação, pois estava se tornando incômoda e os atingia em sua forma de vida, já que o culto aos ídolos era uma prática comum na região à época:. Se no início a pregação de Muhammad foi tolerada pela elite de Meca, a sua denúncia do culto aos ídolos se tornou inaceitável para os clãs dominantes dos Quraysh que tiravam boa parte de sua riqueza do controle da peregrinação à Caaba. Assim, Muhammad e seus seguidores passaram a ser perseguidos e mesmo agredidos pelos membros dos clãs poderosos em Meca (PINTO, 2010, p. 41)..
(26) 26. Mohamad decide deixar sua cidade natal para levar essa nova religião a outras tribos que estariam dispostas a segui-la. Ele encontra no povo de Medina, que ficava a 450 quilômetros de distância de Meca, esse desejo, e firma com eles um acordo de aceitação dessa religião, em troca, Mohamad se mudaria para a cidade deles, lideraria e organizaria este povo, ensinando os preceitos religiosos. Ele viu que esta era uma forma de ampliar a divulgação da sua religião para um maior número de pessoas, além de ter o apoio de duas tribos conhecidas e respeitadas entre os árabes, levando em consideração a cidade que era rota das caravanas para a Síria, na época. Mohamad começa a incentivar seus seguidores de Meca a viajarem, definitivamente, para a cidade de Medina, pois viver em Meca com liberdade para praticar a religião já não era mais possível, até que a maior parte deles se muda, muitas vezes, de forma sigilosa para que os coraixitas não muçulmanos não os impedissem, até que chega a vez de ele migrar, então, ele, já com 53 anos, sai de Meca, junto com seu grande amigo Abu Bakr, em direção à Medina. Essa viagem é chamada, em árabe, de Hijra, que significa migração e que se torna, mais tarde, o Marco Zero do Calendário Islâmico. A ida de Muhamad e seus companheiros de Meca para Medina, chamada de hijra (migração), ocorreu em 622 a.d. A hijra ou hégira, na sua forma aportuguesada, marca o início do calendário muçulmano (PINTO, 2010, p. 41). Ao chegar em Medina, os muçulmanos fundam o primeiro governo islâmico, então, dá-se início a uma nova fase da expansão islâmica, agora, de forma organizada e estruturada, o que faz com que os muçulmanos passem, mais tarde, a ter relações diplomáticas com outros impérios da época, como também, guerras e conflitos. Mohamad vive em Medina mais 10 anos e morre de forma natural, aos 63 anos. Ele é enterrado em sua casa, em Medina. Encerra-se, assim, com a sua morte, a revelação do Alcorão, porém, o governo se mantém através de seus sucessores, chamados “califas”, dando mais tarde origem às dinastias islâmicas, como a Omíada, Abassíada e Otomana. Essas informações estão conditas no Alcorão, que se trata da principal obra para estudo da vida de Mohamad, apesar disso, a abordagem histórica sobre a vida do profeta acaba sendo um desafio, como afirma Pinto (2010):.
(27) 27. As principais fontes para o estudo da vida de Mohamad são o texto do Alcorão, que se refere a vários episódios que marcaram a vida do profeta, as coleções de Hadith ou tradições orais sobre a vida do profeta, e a Biografia do Profeta (Sirat al-Nabawi) compilada por Ibn Ishaq (m.768 ou 769) e posteriormente editada e revisada por Ibn Hisham (m.833 ou 834). Embora o número de fontes sobre Muhammad seja relativamente grande, a construção de uma abordagem histórica sobre sua vida enfrenta vários desafios (PINTO, 2010, p. 38).. Alcorão, em árabe, significa recitação, é formado por cento e quatorze suratas (capítulos), nos quais se encontram histórias dos povos passados, leis que regulamentam a vida do muçulmano, tanto pública quanto privada, como também leis que regem governos e instituições, públicas e privadas e aborda o lado espiritual do ser humano. Acredita-se que o Alcorão tenha sido revelado na língua árabe, mantendo-se assim, até hoje, mesmo com as traduções para diversos idiomas, e que só é tido sagrado e possível de ser recitado durante as orações se for na língua original. Isbelle (2002, p.47) afirma que “existem traduções nos mais variados idiomas, mas elas não são consideradas sagradas por se tratar da interpretação dada pelo tradutor ao texto. Confia-se que tenha sido revelado a Mohamad na montanha “Annur”. Em seu retiro espiritual, veio até ele o anjo Gabriel e o abraçou, dizendo-lhe depois disso: “Lê”. Então, ele responde: “eu não sei ler”. Isso ocorre por três vezes consecutivas e, então, o anjo continua a recitação de vários versículos que dizem:. Lê, em nome de teu Senhor, que criou! Que criou o ser humano de uma aderência. Lê, e teu Senhor é O mais Generoso, Que ensinou a escrever com o cálamo, Ensinou ao ser humano o que ele não sabia. (ALCORÃO, surata 96, versículos 1 a 5).. O Alcorão foi sendo revelado a Mohamad ao longo de 23 anos, de acordo com os eventos e acontecimentos da época, sua revelação divide-se em duas eras: a de Meca, que é a época anterior à migração; e a era de Medina, que é posterior à migração. Os capítulos anteriores à migração abordam dois temas fundamentais, o fortalecimento da fé na unicidade de um único Criador e a história dos povos.
(28) 28. passados, enquanto que os capítulos pós-migração falavam basicamente sobre leis e regras. Narra-se que Mohamad recebia a revelação divina e as recitava para os seus companheiros e seguidores. Então estes anotavam e memorizavam os versículos e suratas e depois liam para ele e, assim, Mohamad os orientava sobre a ordem na qual o Alcorão deveria ser organizado. Por conta desse procedimento, por vezes, Mohamad é chamado de profeta ummi, como conta Armstrong: “No Alcorão, Maomé é muitas vezes chamado de o profeta ummi, o profeta iletrado, e a tese de seu analfabetismo dá ênfase à natureza milagrosa de sua inspiração (ARMSTRONG, 2001, p. 102). Quando Mohamad morre, a maior parte dos muçulmanos tinha o Alcorão de memória, porém, quando um grande grupo de memorizadores morreu, numa das batalhas, na época dos “califas” (sucessores), esse califa decidiu compilar o Alcorão num livro só para que nada nele se perdesse, se caso outros memorizadores viessem a falecer.. 1.2 Princípios norteadores do Islam. A religião islâmica não restringe a prática da religião aos limites das mesquitas, mas estende-a a todos os aspectos da vida de seus seguidores, ou seja, o indivíduo muçulmano deve preocupar-se sempre com os princípios morais, sociais, éticos, entre outros, pois a religião abrange todos os âmbitos da sua vida, constituindo um “código de vida” para os mesmos, como diz Sami Isbelle (2002), em seu livro, “Islam, A sua crença e a sua prática”. Todas as práticas diárias de um muçulmano podem ser consideradas como uma adoração a Deus, de acordo com a intenção e a sinceridade com que é realizada. Como, por exemplo, o simples fato de se alimentar de forma saudável, com o intuito de manter a saúde e preservar o corpo que Deus nos deu. Ou tomar banho com a intenção de se purificar para as orações, ajudar o próximo através da caridade ou aliviando o seu sofrimento. Trabalhar de forma honesta sem prejudicar os outros, nunca apossar-se de algo que não lhe é de direito, retirar um obstáculo do caminho.
(29) 29. das pessoas, relacionar-se com carinho e paciência com seus pais, assim como manter os vínculos familiares também são formas de agradar a Deus e adorá-Lo. O Islam constitui um conjunto de regras e normas divinas para que seus seguidores encontrem em suas vidas: felicidade, harmonia, paz, justiça, equilíbrio mental, físico e espiritual, além do equilíbrio entre o ser humano e as demais criaturas de Deus, bem como o meio no qual estão inseridas, de modo que a harmonia e a tranquilidade prevaleçam e a paz reine entre todos os seres vivos e o meio ambiente. A religião islâmica é norteada por dois pontos principais: a crença e a prática. A crença corresponde a todas as questões teóricas que compõem a construção do indivíduo muçulmano em suas convicções, na forma de estruturar sua fé, bem como compreender como deve ser a adoração a Deus. O Islam está alicerçado em seis pontos principais da crença ou também chamados de pilares da crença, que são:. 1. Acreditar e Adorar a Deus Único, sem atribuir parceiros ou semelhantes a Ele. Isso significa adorar a Deus exclusivamente, sem associar nada a Ele;. 2. Acreditar nos anjos como criaturas de Deus e subordinadas às suas ordens;. 3. Acreditar nos livros revelados por Deus aos profetas, as Escrituras, reveladas a Abraão e Moisés, a Torá, revelada a Moisés, os Salmos, revelados a Davi, o Evangelho, revelado a Jesus e o último o livro, o Alcorão Sagrado, revelado a Mohamad;. 4. Acreditar em todos os profetas;. 5. Acreditar na Predestinação (Destino), o ser humano tem o livre arbítrio, porém algumas questões fazem parte do destino como: dia do nascimento, dia da morte, quem serão seus pais, suas características físicas;.
(30) 30. 6. Acreditar no Dia do Juízo final, será o dia em que todos serão ressuscitados e julgados por Deus, segundo suas ações.. Já as questões práticas da Religião Islâmica estão fundamentadas em cinco pontos principais:. 1. Shahada, Testemunhar que Deus é Único e que os profetas (Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Mohamad) são seus servos e mensageiros;. 2. Salat, praticar a oração, como foi ensinada pelo profeta Mohamad, cinco vezes ao dia; 3. Pagar o Zakat (tributo de 2,5% do lucro líquido anual, que as pessoas que têm condições financeiras devem dar aos pobres); 4. Jejuar durante o mês do Ramadan, o muçulmano deixa de comer, beber, ter relações com o cônjuge do nascer ao pôr do sol; 5. Fazer a peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida, para aqueles que possuem condições físicas e financeiras para isso.. Um dos elementos relevantes que o Islam promove na vida de seus adeptos é a comunicação, pois ele enxerga através dela uma difusão dos preceitos islâmicos, como também uma integração entre as pessoas e instituições. O Alcorão fala sobre isso: “E vos fizemos como nações e tribos, para que vós conheçais uns aos outros” (ALCORÃO, Surata 49, versículo 13). Nesta passagem, o Alcorão explica para os seres humanos sobre a finalidade da criação deles, como devem se relacionar, e afirma que não devem se isolar, mas interagir, independentemente de serem grupos, famílias ou indivíduos, diferentes ou iguais, pois esta atitude os aproximará e para se manterem assim devem se comunicar. A comunicação no Islam tem vários níveis, entre o muçulmano e seu criador, consigo mesmo, com seus familiares, semelhantes, dentro do mesmo grupo religioso,.
(31) 31. fora dele, e a comunicação com as instituições. Para cada nível, há uma forma e regras que organizam essa comunicação para que se tire o máximo proveito dela e que seja assertiva. Os primeiros versículos e ordens de Deus para Mohamad é que ele avise e anuncie para os seus familiares mais próximos sobre o que acabara de receber. Exemplo disso, é o versículo alcorânico, na Surata 26, Al Chuaraa, versículo 214: “E anuncie aos seus familiares próximos”. Estima-se que o número de muçulmanos no mundo chegue a um bilhão e setecentos milhões de pessoas, entre eles, os árabes, que representam 15% aproximadamente deste total, e os demais são de diferentes nacionalidades. Certamente eles têm muita influência, porém, ao mesmo tempo, a mídia os liga, frequentemente, ao terrorismo, fanatismo e intolerância religiosa. Vale citar que a segunda maior organização intergovernamental, após as Nações Unidas, é a Organização de Cooperação Islâmica (OCI), com adesão de 57 países islâmicos. Não há como negar a influência da Civilização Islâmica e dos árabes para o mundo em questões científicas, porém, se faz necessário saber o que o Islam fala sobre a questão dos Direitos Humanos, principalmente na atualidade, já que aparece muitas vezes como sendo contrário a esses direitos, ainda mais, por alguns países que se denominam islâmicos infringirem esses direitos, como também, alguns grupos que se denominam da mesma forma praticarem atos totalmente contrários a esses direitos. Por isso, cito aqui alguns pontos relevantes, que falam sobre liberdade de expressão e justiça da Declaração Islâmica Universal dos Direitos Humanos1, na qual cita-se todos os direitos do homem estabelecidos no Islam, sendo a pessoa muçulmana ou não.. 1. Na Declaração dos Direitos Humanos, a menos que o contexto propicie de outra forma: a. o termo "pessoa" refere-se tanto ao homem quanto à mulher. b. O termo "Lei" significa a Chari’ah, ou seja, a totalidade de suas normas provém do Alcorão e da Sunnah e de quaisquer outras leis que tenham sido baseadas nessas duas fontes, através de métodos considerados válidos pela jurisprudência islâmica. - Cada um dos direitos humanos enunciados nesta declaração traz uma obrigação correspondente. - No exercício e gozo dos direitos citados, toda pessoa se sujeitará apenas aos limites da lei, assim como por ela se obriga a assegurar o devido reconhecimento e respeito pelos direitos e liberdade dos outros, e de satisfazer as justas exigências de moralidade, ordem pública e bem-estar geral da Comunidade (Ummah)..
(32) 32. Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é Sapientíssimo e está bem inteirado (ALCORÃO, Surata 49, versículo13).. II – Direito à Liberdade a. O homem nasce livre. Seu direito à liberdade não deve ser violado, exceto sob a autoridade da Lei, após o devido processo.. b. Todo o indivíduo e todos os povos têm o direito inalienável à liberdade em todas as suas formas, física, cultural, econômica e política – e terá o direito de lutar por todos os meios disponíveis contra qualquer infringência a este direito ou a anulação dele; e todo indivíduo ou povo oprimido tem o direito legítimo de apoiar outros indivíduos e/ou povos nesta luta.. III – Direito à Igualdade e Proibição Contra a Discriminação Ilícita. a. Todas as pessoas são iguais perante a lei e têm direito a oportunidades iguais e proteção da Lei.. b. Todas as pessoas têm direito a salário igual para trabalho igual.. c. A ninguém será negada a oportunidade de trabalhar ou será discriminado de qualquer forma, ou exposto a risco físico maior, em razão de crença religiosa, cor, raça, origem, sexo ou língua.. IV – Direito à Justiça. a. Toda a pessoa tem o direito de ser tratada de acordo com a Lei e somente na conformidade dela..
(33) 33. b. Toda a pessoa tem não só o direito, mas também a obrigação de protestar contra a injustiça, de recorrer a soluções prevista em Lei, com relação a qualquer dano pessoal ou perda injustificada; para a autodefesa contra quaisquer ataques contra ela e para obter apreciação perante um tribunal jurídico independente em qualquer disputa com as autoridades públicas ou outra pessoa qualquer. c. É direito e obrigação de todos defender os direitos de qualquer pessoa e da comunidade em geral (hisbah). d. Ninguém será discriminado por buscar defender seus direitos públicos e privados. e. É direito e obrigação de todo muçulmano recusar-se a obedecer a qualquer ordem que seja contrária à Lei, não importa de onde ela venha. VIII – Direito à Proteção da Honra e da Reputação. Toda a pessoa tem o direito de proteger sua honra e reputação contra calúnias, ataques sem fundamento ou tentativas deliberadas de difamação e chantagem.. X- Direitos das Minorias. a. O princípio alcorânico "não há compulsão na religião" deve governar os direitos religiosos das minorias não muçulmanas.. b. Em um país muçulmano, as minorias religiosas, no que se refere às suas questões civis e pessoais, terão o direito de escolher serem regidas pela Lei Islâmica ou por suas próprias leis. XII – Direito de Liberdade de Crença, Pensamento e Expressão a. Toda a pessoa tem o direito de expressar seus pensamentos e crenças desde que permaneça dentro dos limites estabelecidos pela Lei. Ninguém, no entanto,.
(34) 34. terá autorização para disseminar a discórdia ou circular notícias que afrontem a decência pública ou entregar-se à calúnia ou lançar a difamação sobre outras pessoas.. b. A busca do conhecimento e da verdade não só é um direito de todo muçulmano como também uma obrigação. c. É direito e dever de todo muçulmano protestar e lutar (dentro dos limites estabelecidos em Lei) contra a opressão, ainda que implique em desafiar a mais alta autoridade do estado. d. Não haverá qualquer obstáculo para a propagação de informação, desde que não prejudique a segurança da sociedade ou do estado e que esteja dentro dos limites impostos pela Lei. e. Ninguém será desprezado ou ridicularizado em razão de suas crenças religiosas ou sofrerá qualquer hostilidade pública; todos os muçulmanos são obrigados a respeitar os sentimentos religiosos das pessoas.. XIII – Direito à Liberdade de Religião. Toda a pessoa tem o direito à liberdade de consciência e de culto, de acordo com suas crenças religiosas.. XXI – Direito à Educação a. Toda pessoa tem direito a receber educação de acordo com suas habilidades naturais.. b. Toda pessoa tem direito de escolher livremente profissão e carreira e de oportunidade para o pleno desenvolvimento de suas inclinações naturais. XXII – Direito à Privacidade.
(35) 35. Toda pessoa tem direito à proteção de sua privacidade. XXIII – Direito de Liberdade de Movimento e de Moradia. a. Considerando o fato de que o Mundo do Islam é verdadeiramente a Ummah Islâmica, todo muçulmano terá o direito de se mover livremente dentro e fora de qualquer país muçulmano.. b. Ninguém será forçado a deixar o país de sua residência ou ser arbitrariamente deportado sem o recurso do devido processo legal.. Essa declaração mostra que, para além do preconceito, existe uma cultura de paz e respeito à diversidade ligada ao Islam e aos muçulmanos. As especificidades apresentadas em cada um dos itens garantem o respeito e tolerância a diferentes matrizes de pensamento e condição social. Colocando em cheque o posicionamento da imprensa mundial com relação a essa religião. O segundo capítulo exibe como o preconceito acabou por descontruir a imagem do muçulmano, enquanto indivíduo pacífico, ligando-o ao terrorismo e à violência. Foi analisado com mais detalhes a repercussão após o atentado de 11 de setembro de 2001, ponto marcante para essa virada na representação islâmica..
(36) 36. CAPÍTULO II A DESCONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DO MUÇULMANO E DO ISLAM. Se olharmos para a História, mais precisamente para o século VI e VII, constataremos que existiam dois grandes impérios hegemônicos na época, no Oriente, o Império Persa e o Império Romano Oriental. Eles dividiam o Oriente Médio entre eles, uma parte dos árabes pré-islâmicos era subordinada aos romanos; e a outra, aos persas. Os árabes, apesar de serem grandes comerciantes e viajantes, de terem uma cultura muito rica, eram controlados e influenciados política e militarmente pelos dois impérios. Os persas representavam o Oriente, enquanto os Romanos, o Ocidente. Portanto, havia uma disputa entre os dois impérios, guerras, colonizações, conflitos, mas sempre que se desentendiam, utilizavam seu controle e manipulação sobre as tribos árabes para defenderem seus interesses. Por outro lado, essas tribos, por não terem uma unidade ou alguém que os unissem em torno de seu próprio eixo, formando, assim, seu próprio império ou governo, viviam dispersos, divididos, guerreavam entre si pelos menores motivos, o que facilitou o controle sobre eles. Após os árabes se reunirem em volta de um homem chamado Mohamad, nascido em Makkah, em 570 da Era Cristã, ao completar 40 anos, Mohamad inicia um chamado para as pessoas se unirem em torno do Alcorão. Este profeta estabelece um projeto de governo embasado na criação de ações sociais, educacionais e espirituais, a fim de que mais tarde fosse criado um exército que pudesse defender esse novo governo, como também, ampliá-lo. Criou uma rede de comunicação entre as diversas tribos árabes e governos não árabes, tentando evitar ataques e hostilidades, utilizou uma ferramenta muito poderosa entre os árabes e que tem efeitos até os dias de hoje, o poema, então, muniu-se de vários poetas ao seu redor para defenderem essa nova religião da difamação contra ele e contra os muçulmanos, que também eram feitos através dos poetas da época. Entre os governos não árabes, ele estabeleceu um canal de comunicação por meio de cartas amistosas e convidativas para um diálogo pacífico, o que tranquilizou muitos governantes da época, porém, muitas tribos árabes, apegadas aos costumes.
(37) 37. antigos e rituais religiosos politeístas, organizaram-se para impedir o fortalecimento desse novo governo, temendo que sua posição e influência fossem prejudicadas, inclusive, com o apoio dos impérios da época, porém, após cada derrota diante dos muçulmanos, o número de adesão ao Islam aumentava, o que preocupava muito o poder dominante, mas tudo isso não impediu esse crescimento e nem a queda desses dois impérios pelas mãos dos que antes eram subjugados, mas agora, organizados e disciplinados, se transformaram no grande Império Islâmico, chegando em menos de 103 anos de existência a entrarem na Península Ibérica (que passou a chamar-se Andaluzia) como conquistadores, o que provocou um grande sentimento de humilhação na Europa, apesar de todas as contribuições que a Cultura Islâmica trouxe para o continente. Além disso, provocou um sentimento de vingança entre os europeus e a Igreja contra os muçulmanos, então, os reis cristãos locais iniciam incursões contra o império oriental recém-chegado, o qual perdurou até a expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica, em 1492. Certamente esta passagem da História agravou muito a diferença e a distância entre o Ocidente, representada agora pelos europeus cristãos, e o Oriente, representada pelos muçulmanos, criando assim, uma série de guerras ao longo dos séculos, que permanecem até os dias de hoje. Devemos ter em mente que a criação de uma imagem hostil e negativa do outro, como acontece hoje através dos meios de comunicação, de forma geral; e do cinema, de forma particular, era feita também, naquela época, na Andaluzia, porém, através de outras ferramentas, como livros, teatro, contos, entre outros. Não podemos deixar de mencionar o início das Cruzadas, criada pelo Papa Urbano II, em 1095. O Papa utilizou-se de uma rede de comunicação muito forte e eficiente - as igrejas - que incentivavam os fiéis a fazerem doações para o projeto de libertação da Terra Santa das mãos dos infiéis e bárbaros árabes, como passaram a ser conhecidos os muçulmanos da época, os quais podem ser identificados hoje nos filmes, noticiários e discursos religiosos como terroristas islâmicos, ou terrorismo islâmico. Essas pessoas foram convencidas que isso era um ato de fé, de fato, pois, foi-lhes passado uma imagem hostil e negativa do outro, de uma forma narrativa que não lhes permitia outra reação, senão, aderir e se convencer de que estavam fazendo o certo, o que levou milhares de pessoas a se voluntariarem como soldados (MAALOUF, 2007)..
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