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Parentalidade em famílias multiproblemáticas : como os técnicos a avaliam

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Academic year: 2021

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FACULDADE DE MEDICINA DE LISBOA

P

ARENTALIDADE EM

F

AMÍLIAS

M

ULTIPROBLEMÁTICAS

:

C

OMO OS

T

ÉCNICOS A

A

VALIAM

Rute Isabel Ribeiro de Oliveira Piedade Valente

Mestrado em Vitimização da Criança e do Adolescente

(1ª edição)

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A impressão desta dissertação foi aprovada pela Comissão

Coordenadora do Conselho Científico da Faculdade de

Medicina de Lisboa em reunião de 28 de Setembro de 2010.

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FACULDADE DE MEDICINA DE LISBOA

P

ARENTALIDADE EM

F

AMÍLIAS

M

ULTIPROBLEMÁTICAS

:

C

OMO OS

T

ÉCNICOS A

A

VALIAM

Rute Isabel Ribeiro de Oliveira Piedade Valente

Mestrado em Vitimização da Criança e do Adolescente

(1ª edição)

Dissertação orientada pela Professora Doutora Maria Teresa Ribeiro

Co-orientação pela Professora Doutora Luísa Branco Vicente

Todas as afirmações efectuadas no presente documento são da

exclusiva responsabilidade do seu autor, não cabendo qualquer

responsabilidade à Faculdade de Medicina de Lisboa pelos

conteúdos nele apresentados.

(4)
(5)

As palavras parecem sempre insuficientes quando nos propomos a descrever com elas o que nos vai na alma… Agradecer, de forma adequada, àqueles que, de diferentes maneiras, comigo partilharam este trabalho não é tarefa fácil, por isso, desde já, a todos, os meus sinceros agradecimentos.

Existem, no entanto, alguns agradecimentos especiais que não posso deixar de reforçar.

À Professora Doutora Maria Teresa Ribeiro, um profundo agradecimento, não só pela orientação imprescindível para a realização deste trabalho, como pela confiança em mim depositada para o realizar e por todo o apoio, dedicação, disponibilidade e incentivo que sempre me dispensou.

À Santa Casa da Misericórdia de Lisboa agradeço a disponibilidade para desenvolver as acções conducentes a esta investigação. Em especial, um agradecimento a todos os Técnicos que aceitaram participar no estudo, permitindo a sua realização.

Aos Professores e Colegas de mestrado, um muito obrigada pela partilha, incentivo e amizade ao longo deste percurso.

A todos os meus Amigos que, de uma forma ou de outra, me ajudaram a manter o rumo e (re)definir objectivos e prioridades, a minha gratidão por continuarem próximos apesar da minha distância.

(6)

realizado este projecto:

Ao meu Irmão, pelo afecto e amizade que nos une, mesmo quando os nossos caminhos começam a distanciar-se…

Ao Marco, pela compreensão e ternura durante todo este tempo, pela serenidade e paciência com que sempre me ouviste, por fazeres teus os meus projectos…

À minha Mãe e ao meu Pai, pilares na minha vida, pelo amor, carinho e dedicação incondicionais, por acreditarem nos meus sonhos, pela protecção e segurança que me fazem querer ir mais além…

(7)

No contexto de protecção da criança, as Famílias “Multiproblemáticas” são uma das principais realidades com que os técnicos se deparam. Dada a importância da relação que se estabelece entre profissionais e estas famílias, e enquadrados no modelo Ecossistémico, conceptualizámos o desenvolvimento dos guiões de avaliação do profissional implicando a interrelação recursiva dos contextos dos quais faz parte. Quisemos, então, compreender as implicações de variáveis pessoais (experiência parental, bem-estar psicológico, satisfação com a vida profissional e familiar, facilitação trabalho-família), profissionais (local de trabalho e experiência nesse local, experiência no trabalho com famílias multiproblemáticas, formação académica) e culturais (valores e crenças acerca da parentalidade) dos técnicos que trabalham com esta população na cidade de Lisboa, nos seus guiões de avaliação sobre a parentalidade.

A amostra é constituída por 115 técnicos que desenvolvem o seu trabalho com famílias multiproblemáticas na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Os instrumentos utilizados são: Escala de Bem-estar, Questionário de Avaliação da Satisfação com a Vida

Profissional e Vida Familiar, Questionário de Avaliação de Facilitação Trabalho-Família, Questionário de Avaliação de Crenças Maternas, Etapas de Desenvolvimento e Valores Desejados para os Filhos, e Questionário de Avaliação Técnica da Parentalidade construído

para o estudo (incluindo dados sócio-demográficos e avaliação de aspectos da parentalidade). Os resultados indicam que todas as variáveis estudadas, destacando-se os valores desejados para os filhos – independência/auto-regulação, têm influência significativa nos guiões de avaliação técnica da parentalidade em famílias multiproblemáticas, especialmente no que se refere às funções parentais e aos determinantes dos comportamentos educativos/disciplinares parentais.

(8)

In the context of child protection, “multiproblematic” families are one of the main realities that professionals face. Given the importance of the relationship established between professionals and this type of families, and consistent with the ecosystem approach, we conceptualize the development of professional evaluation scripts involving the recursive interplay of the several contexts in which these professionals are included. We wanted to understand the implications of personal (parental experience, psychological well-being, satisfaction with work and family life, work-family facilitation), professional (work place and experience in the work place, experience working with multiproblem families, academic) and cultural variables (values and beliefs about parenting) in the professional’s parenting evaluation scripts, working with this population in the city of Lisbon.

The sample consists of 115 professionals who work with multiproblem families at Santa Casa da Misericordia de Lisboa. The instruments used were: Scale of Psychological Well-being, Questionnaire for Assessment of Satisfaction with Working Life and Family Life, Questionnaire for Assessment of the Work-Family Facilitation, Questionnaire for Assessment of Maternal Beliefs, Children’s Stages of Development and Desired Values for Children, and Questionnaire for Technical Assessment of Parenting developed for this study (including socio-demographic data and evaluation of parenting aspects).

The results indicate that all variables studied, highlighting the desired values for children – independence/self-regulation, have significant influence on the scripts for technical assessment of parenting in multiproblem families, especially regarding the parental role and the determinants of educational/disciplinary conduct of parents.

(9)

1 – O ECOSSISTEMA FAMILIAR E A PARENTALIDADE 4

1.1 – A Família 5

1.2 – A Família como Sistema 7

1.2.1 – Definição e Conceptualização do Sistema Família 8

1.2.2 – Características e Propriedades do Sistema Familiar 10

1.2.2.1 – Estrutura Familiar 10

1.2.2.2 – Stress, Crise, Mudança(s) e Desenvolvimento do Sistema Familiar 12

1.2.3 – Cibernética de Primeira Ordem e de Segunda Ordem 13

1.3 – A Familiar como Contexto de Desenvolvimento Humano 19

1.3.1 – O Modelo Ecológico do desenvolvimento Humano 20

1.3.1.1 – Estrutura do Ambiente Ecológico 22

1.3.2 – O Modelo Bioecológico 26

1.3.3 – O Contexto Ecológico da Família 34

1.4 – O Ecossistema Familiar 36

1.4.1 – Análise Ecossistémica da Família 38

1.4.1.1 – Relações Pessoa-Contexto e Relações Contexto-Pessoa 39

1.4.1.2 – Mudanças Evolutivas na Família 41

1.5 – Parentalidade 42

1.5.1 – Mudanças Ligadas à Parentalidade 43

1.5.1.1 – Individuais 44

1.5.1.2 – Subsistema Parental 44

1.5.1.3 – Ciclo Vital 46

1.5.1.3.1 – Família com Filhos Pequenos 46

1.5.1.3.2 – Família com Filhos na Escola 47

1.5.1.3.3 – Família com Filhos Adolescentes 48

1.5.2 – Análise Ecossistémica da Parentalidade 49

1.5.2.1 – Funções Parentais 50

1.5.2.2 – Competências Parentais 52

1.5.2.3 – Papéis Parentais 54

1.5.2.4 – Padrões/Estilos Educativos Parentais 55

1.5.2.5 – Comportamentos Educativos/Disciplinares Parentais 56

1.5.2.6 – Determinantes dos Comportamentos Educativos/Disciplinares

Parentais 59

2 – FAMÍLIAS “MULTIPROBLEMÁTICAS” 74

2.1 – Conceptualização 74

2.1.1 – Contexto Histórico 74

2.1.2 – Pobreza e Exclusão Social 77

2.1.3 – Conceito 78 2.1.3.1 – Definição e Operacionalização 80 2.2 – Características 83 2.2.1 – Estrutura Familiar 84 2.2.1.1 – Estruturas Típicas 84 2.2.1.2 – Limites 89

(10)

2.2.2 – Funcionamento Familiar 96

2.2.2.1 – Comunicação 96

2.2.2.2 – Organização 99

2.2.2.3 – História e Ciclo de Vida 101

2.2.2.4 – Economia 103

2.2.2.5 – Redes Sociais 104

2.2.2.6 – Recursos e Competências 106

3 – OS TÉCNICOS 109

3.1 – Relação entre as famílias multiproblemáticas e os serviços sociais 109

3.1.1 – Especificidades da Intervenção com famílias multiproblemáticas 111

3.1.1.1 – Emoções 112

3.1.1.2 – Burocracia, formação dos profissionais e atitudes sociais 114

3.1.1.3 – Fronteiras 115

3.1.1.4 – Diluição do processo familiar 116

3.1.1.5 – Mitos e crenças 117

3.1.1.6 – Narrativas 119

3.2 – O técnico enquanto instrumento de intervenção 121

3.2.1 – Características pessoais 126

3.2.2 – Características dos contextos profissionais 129

3.2.2.1 – Metacontextos profissionais 133

3.2.3 – Características culturais 134

4 – CONCEPTUALIZAÇÃO DO ESTUDO EMPÍRICO 139

4.1 – Objecto de Estudo 139

4.2 – Objectivos e Questões de Investigação 143

4.3 – Metodologia 148

4.3.1 – Selecção da Amostra e Procedimentos 148

4.3.2 – Instrumentos 149

4.3.2.1 – Escala de Bem-Estar Psicológico – versão reduzida (EBEP-R) 150

4.3.2.1.1 – Propriedades psicométricas: Fiabilidade 151

4.3.2.2 – Escala de Satisfação com a Vida Profissional e com a Vida

Familiar 151

4.3.2.2.1 – Propriedades psicométricas: Fiabilidade 152

4.3.2.3 – Escala de Facilitação Trabalho-Família 153

4.3.2.3.1 – Propriedades psicométricas: Fiabilidade 154

4.3.2.4 – Questionário de Avaliação de Crenças Parentais 154

4.3.2.4.1 – Propriedades psicométricas: Fiabilidade 156

4.3.3 – Questionário 158

4.3.3.1 – Dados Socio-demográficos 159

4.3.3.2 – Avaliação Técnica da Parentalidade em Famílias

Multiproblemáicas 163

(11)

5.2.1 – Variáveis Sócio-Demográficas 173 5.2.1.1 – Idade 173 5.2.1.2 – Estado Civil 177 5.2.2 – Variáveis Independentes 180 5.2.2.1 – Experiência Parental 180 5.2.2.2 – Bem-Estar Psicológico 182

5.2.2.3 – Satisfação com a Vida Profissional 184

5.2.2.4 – Satisfação com a Vida Familiar 185

5.2.2.5 – Facilitação Trabalho-Familia 189

5.2.2.6 – Experiência de Trabalho com Famílias Multiproblemáticas 190

5.2.2.7 – Local onde Desempenham Funções 191

5.2.2.8 – Experiência na Função que Desempenha Actualmente 193

5.2.2.9 – Formação Académica 195

5.2.2.10 – Valores Desejados para os Filhos: Conformismo 198

5.2.2.11 – Valores Desejados para os Filhos: Independência/Auto-regulação 200

6 – DISCUSSÃO E CONCLUSÕES 203

6.1– Discussão 203

6.1.1 – Influência da Idade e Estado Civil na avaliação técnica da parentalidade 203

6.1.2 – Influência da Experiência Parental na avaliação técnica da parentalidade 205

6.1.3 – Influência do Bem-Estar Psicológico na avaliação técnica da parentalidade 206

6.1.4 – Influência da Satisfação com a Vida Profissional e a Satisfação com a

Vida Profissional na avaliação técnica da parentalidade 208

6.1.5 – Influência da Facilitação Trabalho-Família na avaliação técnica da

parentalidade 210

6.1.6 – Influência da Experiência de Trabalho com Famílias Multiproblemáticas

na avaliação técnica da parentalidade 211

6.1.7 – Influência do Local onde os Técnicos Desempenham Funções e

Experiência de Trabalho nesse local na avaliação técnica da parentalidade 212

6.1.8 – Influência da Formação Académica na avaliação técnica da

parentalidade 215

6.1.9 – Influência dos Valores Desejados para os Filhos - Conformismo e

Independência/auto-regulação na avaliação técnica da parentalidade 216

6.2 – Conclusões 219

6.2.1 – Síntese Conclusiva 219

6.2.2 – Limitações do estudo 220

6.2.3 – Implicações para o futuro 222

BIBLIOGRAFIA 224

(12)

(2006) e no estudo actual

Tabela 2 – Valores de Consistência Interna (alpha de Cronbach) da Escala de Satisfação com a Vida Profissional e com a Vida Familiar no estudo Chambel & Marques-Pinto (2008) e no estudo actual 153 Tabela 3 – Valores de Consistência Interna (alpha de Cronbach) da Escala de Facilitação do Trabalho na Família no estudo Chambel & Marques-Pinto (2008) e no estudo actual 154 Tabela 4 – Valores de Consistência Interna (alpha de Cronbach) do Questionário de Crenças Maternas, no

estudo de Calheiros (2004) e no estudo actual 156

Tabela 5 – Valores de Consistência Interna (alpha de Cronbach) do Questionário de Etapas de Desenvolvimento no estudo de Calheiros (2004) e no estudo actual 157 Tabela 6 – Valores de Consistência Interna (alpha de Cronbach) do Questionário de Valores Desejados para

os Filhos no estudo de Castro (1997) e no estudo actual 157

Tabela 7 – Variáveis e categorias de avaliação referentes aos dados sócio-demográficos 160 Tabela 8 – Áreas, variáveis dependentes e categorias referentes à avaliação da parentalidade em famílias

multiproblemáticas através do Questionário 165

Tabela 9 – Valores de Consistência Interna (alpha de Cronbach) do Questionário de Avaliação Técnica da

Parentalidade 167

Tabela 10 – Caracterização da amostra de acordo com as variáveis sócio-demográficas 170 Tabela 11 – Diferenças entre a idade dos técnicos relativamente à sua avaliação da Função Parental disponibilização/estruturação para a criança de um mundo físico organizado e previsível, com espaços, objectos e tempos que possibilitem a existência de rotinas/estabilidade (Teste de Tukey)

174

Tabela 12 – Influência da Idade dos técnicos na sua avaliação dos Determinantes dos comportamentos educativos/disciplinares Parentais (Testes de Kruskal-Wallis) 175 Tabela 13 – Diferenças entre a idade dos técnicos relativamente à sua avaliação dos determinantes: gravidade do comportamento inadequado da criança; número de crianças no agregado; intervalo de tempo entre o nascimento das crianças; idade dos pais/cuidadores; sexo dos pais/cuidadores; nível intelectual dos pais/cuidadores; e influência da rede de apoio à família (Teste de Tukey)

176

Tabela 14 – Diferenças entre a idade dos técnicos relativamente à sua avaliação dos determinantes crenças e valores dos pais/cuidadores e história da relação dos pais/cuidadores com os seus próprios pais/cuidadores (Teste de Tukey)

177

Tabela 15 – Diferenças entre o estado civil dos técnicos relativamente à sua avaliação da função parental responder às necessidades de compreensão cognitiva das realidades extra-familiares da criança (Teste de Tukey)

178

Tabela 16 – Diferenças entre o estado civil dos técnicos relativamente à sua avaliação das competências

parentais relacionamento com a criança e encorajamento (Teste de Tukey) 179 Tabela 17 – Diferenças entre o estado civil dos técnicos relativamente à sua avaliação do papel parental

parceiros de interacção (Teste de Tukey) 179

Tabela 18 – Diferenças entre a experiência parental dos técnicos relativamente à sua avaliação das funções parentais: satisfação das necessidades básicas de cuidado, protecção, saúde e sobrevivência; satisfazer as necessidades de afecto, confiança e segurança que se traduzem pela construção de relações de vinculação; cuidarem de si próprios como pais; respeitar a Lei e contribuir para a segurança da sociedade (Estatísticas descritivas)

(13)

determinante número de crianças no agregado (Estatísticas descritivas) 182 Tabela 21 – Diferenças entre o bem-estar psicológico dos técnicos relativamente à sua avaliação da competência parental pôr em marcha um projecto vital educativo (Estatísticas descritivas) 183 Tabela 22 – Diferenças entre o bem-estar psicológico dos técnicos relativamente à sua avaliação dos determinantes crenças e valores dos pais/cuidadores; grupo cultural de origem do agregado familiar; e rede de apoio à família (Estatísticas descritivas)

183

Tabela 23 – Diferenças entre a satisfação com a vida profissional dos técnicos relativamente à sua avaliação da função parental satisfação das necessidades mais básicas de cuidado, protecção, saúde e sobrevivência (Estatísticas descritivas)

184

Tabela 24 – Diferenças entre a satisfação com a vida profissional dos técnicos relativamente à sua avaliação do determinante temperamento da criança (Estatísticas descritivas) 185 Tabela 25 – Diferenças entre a satisfação com a vida familiar dos técnicos relativamente à sua avaliação da função parental responder às necessidades de compreensão cognitiva das realidades extra-familiares da criança (Estatísticas descritivas)

186

Tabela 26 – Influência da satisfação com a vida familiar dos técnicos na sua avaliação das Competências Parentais (Testes de Mann-Whitney)

186

Tabela 27 – Diferenças entre a satisfação com a vida familiar dos técnicos relativamente à sua avaliação das capacidades parentais: pôr em marcha um projecto vital educativo; dar conteúdo ao projecto educativo; gestão de humor e competências de coping; e prevenir problemas em situações de alto risco (Estatísticas descritivas)

187

Tabela 28 – Influência da satisfação com a vida familiar dos técnicos na sua avaliação dos Determinantes nos comportamentos educativos/disciplinares parentais (Testes de Mann-Whitney)

188

Tabela 29 – Diferenças entre a satisfação com a vida familiar dos técnicos relativamente à sua avaliação dos determinantes: posição da criança na fratria; nível intelectual dos pais/cuidadores; personalidade dos pais/cuidadores e crenças e valores dos pais/cuidadores (Estatísticas descritivas)

189

Tabela 30 – Diferenças entre a facilitação trabalho-familia dos técnicos relativamente à sua avaliação da função colocar objectivos de desenvolvimento adequados e ter expectativas realistas face à criança (Estatísticas descritivas)

189

Tabela 31 – Diferenças entre a facilitação trabalho-familia dos técnicos relativamente à sua avaliação da competência prevenir problemas em situações de alto risco (Estatísticas descritivas)

190

Tabela 32 – Diferenças entre o local onde os técnicos desempenham funções relativamente à sua avaliação do papel preparação e disponibilização de oportunidades de estímulo e aprendizagem em contextos extra familiares (teste de Tukey)

192

Tabela 33 – Diferenças entre o local onde os técnicos desempenham funções relativamente à sua avaliação

do determinante rede de apoio familiar (teste de Tukey) 192

Tabela 34 – Diferenças entre a experiência na função que os técnicos desempenham actualmente relativamente à sua avaliação da função satisfação das necessidades mais básicas de cuidado, protecção, saúde e sobrevivência (teste de Tukey)

193

Tabela 35 – Diferenças entre a experiência na função que os técnicos desempenham actualmente relativamente à sua avaliação dos determinantes: comportamento inadequado consistir numa transgressão moral ou numa transgressão convencional; e idade dos pais/cuidadores (Teste de Tukey)

(14)

Tabela 37 – Diferenças entre a formação académica dos técnicos relativamente à sua avaliação das competências: suporte e comunicação com o parceiro; e gestão de humor e competências de coping

(Teste de Tukey)

197

Tabela 38 – Diferenças entre a formação académica dos técnicos relativamente à sua avaliação do

determinante temperamento da criança(Teste de Tukey) 198

Tabela 39 – Diferenças entre os valores desejados para os filhos - conformismo dos técnicos relativamente à sua avaliação do papel instrutores indirectos (Estatísticas descritivas) 199 Tabela 40 – Diferenças entre os valores desejados para os filhos - conformismo dos técnicos relativamente à sua avaliação dos determinantes: crenças e valores dos pais/cuidadores; e classe social (incluindo o nível económico, o nível educacional e o nível profissional) do agregado familiar (Estatísticas descritivas)

199

Tabela 41 – Diferenças entre os valores desejados para os filhos – independência/auto-regulação dos técnicos relativamente à sua avaliação da função colocar objectivos de desenvolvimento adequados e ter expectativas realistas face à criança(Estatísticas descritivas)

200

Tabela 42 – Diferenças entre os valores desejados para os filhos – independência/auto-regulação dos técnicos relativamente à sua avaliação da competência Gestão de humor e competências de coping

(Estatísticas descritivas)

201

Tabela 43 – Diferenças entre os valores desejados para os filhos – independência/auto-regulação dos técnicos relativamente à sua avaliação da competência preparação e disponibilização de oportunidades de estímulo e aprendizagem em contextos extra-familiares(Estatísticas descritivas)

201

Tabela 44 – Diferenças entre os valores desejados para os filhos – independência/auto-regulação dos técnicos relativamente à sua avaliação do determinante factores de stress com que a família se depara (Estatísticas descritivas)

(15)

INTRODUÇÃO

Ao longo do tempo o ser humano fez e faz diferentes representações da infância e da criança, como resultado de uma evolução dos sentimentos e das atitudes para com esta faixa etária da vida (Ariès, 1962). A necessidade de protecção das crianças e a defesa dos seus direitos em relação aos pais, família e sociedade são, definitivamente, contempladas na Convenção dos Direitos da Criança pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ratificada, em 1990 pela Assembleia da República Portuguesa) (Calheiros, 2006). Esta refere o papel vital da família enquanto “…elemento natural e fundamental da sociedade e meio natural para

crescimento e bem-estar de todos os seus membros, e em particular das crianças…”, devendo

ser-lhe dada “…a protecção e a assistência necessárias para desempenhar plenamente o seu

papel na comunidade…” (UNICEF, 1989; Diário da República – I Série – A N.º 211/99).

A parentalidade emerge, assim, da interacção entre os recursos e capacidades parentais, as necessidades de desenvolvimento da criança e factores familiares e ambientais, afastando-se da ênfase num estilo parental particular. Estamos, então, perante uma concepção ecossistémica da parentalidade, que tem subjacente a existência de diferentes formas pelas quais os pais gerem as suas responsabilidades o que, por sua vez, reflecte os recursos e apoios que têm disponíveis, bem como as suas capacidades e características (Calheiros, 2006; Quinton, citado por Pecnik, Daly, & Lalière, 2006; Voydanoff & Donnelly, 1998).

Actualmente em Portugal, “… a promoção dos direitos e a protecção das crianças e

dos jovens… tem por pressuposto essencial uma intervenção que permita assegurar às famílias condições para garantirem um desenvolvimento pleno das crianças e dos jovens no âmbito do exercício de uma parentalidade responsável.” (DL n.º12/2008).

(16)

Um dos principais desafios com que os técnicos se deparam no contexto de protecção da criança são os sistemas familiares designados de Famílias “Multiproblemáticas”. O trabalho com estas famílias constitui um desafio para todos os profissionais, uma vez que estas apresentam frequentemente uma grande carga de sofrimento, incongruências, violência e miséria, encontrando-se frequentemente envolvidas com numerosos e diversificados serviços e profissionais.

Com o desenvolvimento das teorias da cibernética de segunda ordem, do construtivismo, do construcionismo social e das narrativas, começou a enfatizar-se a importância do observador na construção da realidade observada, passando a ser dada uma crescente relevância ao papel do profissional na conceptualização e estabelecimento de procedimentos de avaliação e intervenção junto dos sistemas familiares, dado que as suas características moldam a percepção e interpretação dos acontecimentos.

Tendo em conta que os técnicos são frequentemente chamados a dar o seu parecer sobre a situação das crianças nestes agregados, e, por conseguinte, relativamente a aspectos da parentalidade; e que os modelos conceptuais dos profissionais, a sua história, os pressupostos culturais e os contextos institucionais nos quais trabalham influenciam profundamente a forma como estes organizam e distinguem determinados aspectos, o presente trabalho tem como objectivo central compreender algumas características pessoais, profissionais e culturais dos técnicos que trabalham com famílias multiproblmáticas, que poderão influenciar a sua avaliação relativamente à parentalidade nestas famílias.

Esta dissertação encontra-se organizada em seis capítulos que procuram descrever de modo estruturado e sequencial, todo um percurso da presente investigação.

O primeiro capítulo enquadra a família, e em especial a parentalidade, enquanto instâncias privilegiadas para o desenvolvimento humano. São apresentadas as perspectivas teóricas que se

(17)

têm vindo a demonstrar com maior pertinência para uma compreensão mais aprofundada deste fenómeno, nomeadamente a Perspectiva Sistémica, especialmente no que toca à Cibernética de de segunda ordem e o Modelo Ecológico do Desenvolvimento Humano, particularmente na reformulação em Modelo Bioecológico, e a conjugação de ambas no enfoque Ecossistémico.

O segundo capítulo aprofunda as especificidades das famílias “multiproblemáticas”. É identificada a origem histórica deste conceito, o seu enquadramento e a sua definição. É ainda realizada uma análise das principais características destas famílias, ao nível da sua estrutura e funcionamento, dado serem estas as dimensões que têm vindo a ser referenciadas na literatura como de maior importância para compreensão da dinâmica familiar.

O terceiro capítulo guia-nos num reflexão sobre a intervenção que tem vindo a ser adoptada com estas famílias. São também conceptualizados os profissionais enquanto instrumentos de trabalho, sendo descritos e analisados alguns factores pessoais, contextos institucionais e pressupostos culturais, que moldam a percepção e interpretação dos acontecimentos por parte dos técnicos; e, como tal, devem ser tidos em conta para a compreensão da relação entre os profissionais e as famílias com as quais intervêm.

O enquadramento teórico desenvolvido ao longo dos primeiros três capítulos enquadra a análise da concepção do estudo. No quarto capítulo são designados os objectivos e questões de investigação, bem como a metodologia de investigação, na qual é descrita a da amostra, os procedimentos para a recolha de dados e os instrumentos de avaliação utilizados. Num quinto capítulo, damos a conhecer os resultados deste trabalho e análise efectuada, tendo por base as questões de investigação definidas. Por último, no sexto capítulo são discutidos os resultados alcançados, bem como é realizada uma reflexão acerca das limitações do presente estudo e das suas implicações para futuras investigações.

(18)

1 – O ECOSSISTEMA FAMILIAR E A PARENTALIDADE

“A Família é um sistema social aberto, dinâmico, com objectivos e autoregulado. Apresenta certas características – tais como a sua estruturação de género e geração – que o diferem de outros sistemas sociais. Além disto, cada sistema individual familiar está configurado pelas suas próprias características estruturais particulares (tamanho, complexidade, composição, estádio vital), pelas características psicobiológicas dos seus elementos individuais (idade, género, fertilidade, saúde, temperamento, etc.) e pela sua posição sociocultural e histórica num contexto mais amplo.”

(Broderick, citado por Fuster & Ochoa, 2000, p. 141).

Neste capítulo, começaremos por fazer um enquadramento conceptual das perspectivas teóricas que se têm vindo a demonstrar com maior pertinência para uma compreensão mais aprofundada da família, e consequentemente da família “multiproblemática”, bem como da parentalidade enquanto instâncias privilegiadas para o desenvolvimento humano. Desta forma, serão evidenciados a Perspectiva Sistémica, especialmente no que toca à mudança de perspectiva de cibernética de primeira para a de segunda ordem, o Modelo Ecológico do Desenvolvimento Humano, tendo em conta a sua evolução até à reformulação mais actual em Modelo Bioecológico, e a conjugação de ambas, nomadamente o enfoque Ecossistémico. Posteriormente, tendo em conta estas perspectivas, serão analisados os principais factores que têm vindo a ser evidenciados de especial relevância para a avaliação da parentalidade e as suas consequências no processo de desenvolvimento humano.

(19)

1.1 – A Família

O conceito de família remete para uma “união de pessoas que compartilham um

projecto vital de existência em comum, o qual se quer duradoiro, sendo nele que se geram fortes sentimentos de pertença a esse grupo, existe um compromisso pessoal entre os seus membros e estabelecem-se intensas relações de intimidade, reciprocidade e dependência”

(Palácios & Rodrigo, 1998, p.33). Neste contexto, a família pode ser definida como um núcleo que facilita e promove o desenvolvimento dos adultos e crianças nela implicados. Da perspectiva das crianças, a família é um contexto de desenvolvimento e socialização, já da perspectiva dos pais, é um contexto de desenvolvimento e de realização pessoal ligado ao adulto e às etapas de vida posteriores. Fazer-se adulto numa família pressupõe o estabelecimento de um compromisso de relações íntimas e privilegiadas com outra pessoa (o/a parceiro/a). Quanto mais rica for a relação que se gera entre as duas pessoas, mais numerosos e profundos são os elementos de subjectividade colocados em jogo, pelo que não se pode falar de uma unidade de subsistência e reprodução, mas sim de um núcleo de existência em comum, de comunicação, de afecto e de troca sexual.

Quando consideramos os pais não só como promotores do desenvolvimento dos seus filhos, mas também como sujeitos que estão eles próprios em desenvolvimento, emergem uma série de funções da família, enquanto cenário (Palácios & Rodrigo, 1998): (1) onde se constroem pessoas adultas com uma determinada auto-estima e um determinado sentido de si mesmo, e que experimentam um certo nível de bem-estar psicológico na vida quotidiana face aos conflitos e situações stressantes; 2) de preparação onde se aprende a encarar desafios, assim como a assumir responsabilidades e compromissos que orientam a acção dos adultos para uma dimensão produtiva, plena de realizações e projectos integrados no meio social; (3) de encontro entre gerações onde os adultos ampliam os seus horizontes vitais formando uma

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ponte entre o passado (geração dos avós) e o futuro (geração dos filhos); (4) de apoio social para as diversas transições vitais que o adulto vai realizar: procura de parceiro, de trabalho, de casa, de novas relações sociais, reforma, morte, etc.

A família é uma unidade tão próxima e quotidiana para todos nós que pode produzir-se a falsa impressão que, através do senso comum e observações incidentais, a podemos compreender sem dificuldade. Mas na realidade, a família é um objecto de estudo complexo e dinâmico, que não facilita a sua análise científica (Rodrigo & Palacios, 1998).

O estudo da família, por parte dos psicólogos, tem sido realizado tendo por base diversos enfoques conceptuais. Os primeiros enfoques a serem utilizados neste âmbito foram o psicanalítico e o da aprendizagem social. Embora tivessem um objectivo válido (analisar a influência da família no desenvolvimento psicossocial das crianças), tiveram pouco protagonismo devido à sua ênfase excessiva num nível de análise individualista, com pouco alcance para explicar o mundo familiar e as redes de relações interpessoais. Nas décadas posteriores aos anos cinquenta apareceram outros estudiosos que corrigiram o dito erro de perspectiva; referimo-nos, entre outras, à perspectiva do interaccionismo simbólico, às teorias das trocas sociais e às teorias do conflito, as quais têm tido grande vigência até hoje. Estas orientações, servindo-se da analogia da família com o grupo social, descobriram importantes propriedades da mesma relativas à dinâmica relacional entre os seus membros, os processos de percepção mútua e de atribuição de significados e a análise das relações familiares em termos de custos e benefícios em casos de transições e crises (Musitu & Herrero, citados por Rodrigo & Palacios, 1998). Contudo, as duas teorias clássicas que, sem dúvida, tiveram um impacto mais significativo nesta área foram a teoria geral dos sistemas e o modelo ecológico. A conjugação de ambas veio consolidar um pilar fundamental no estudo da família, o enfoque ecossistémico (Rodrigo & Palacios, 1998).

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1.2 – A Família como Sistema

O surgimento e desenvolvimento da perspectiva sistémica enquadra-se num contexto de mudança de paradigma, passando-se do estudo do indivíduo isolado (pensamento analítico), para o estudo das relações entre ele e o meio em que se integra, sendo estes impossíveis de separar (pensamento sistémico) (Relvas, 1999; Relvas, 2003). Esta mudança de paradigma foi facilitada pelo desenvolvimento de novas abordagens na área da Psicologia que foram dedicando uma crescente atenção aos fenómenos relacionais e ao estudo do indivíduo integrado no meio envolvente, tornando-se a noção de contexto mais clara (Relvas, 1999).

A perspectiva sistémica sobre a família surgiu intrinsecamente ligada ao movimento da terapia familiar nos anos 50, nos EUA (Hoffman, 2003; Relvas, 1999; Relvas, 2003; Sampaio & Gameiro, 2002). Este movimento foi-se desenvolvendo através da integração de conceitos de outras áreas do conhecimento que não a psicoterapia, concretamente a teoria geral dos sistemas (Ludwig Von Bertalanffy), da cibernética1 (Norbert Wienner; H. Von Foerster) e da teoria da comunicação humana (Gregory Bateson e Grupo de Paulo Alto) (Alarcão, 2002; Gameiro, 1992; Hoffman, 1981; Relvas, 1999).

A teoria geral dos sistemas, cujas primeiras formulações se devem a H. Von Bertalanffy (1901-1972), abarca uma série de conceitos e leis válidas para a análise da organização de fenómenos de forma unificada e não como entidades independentes, implicando um novo modelo interdisciplinar e um novo paradigma na ciência (Musitu, Buelga & Lila, citados por Rodrigo & Palácios, 1998; Relvas, 2003). A terapia familiar vai buscar a esta a noção fundamental de sistema que aplica à compreensão do seu objecto de estudo, a família (Relvas 1999; Relvas 2003). Da cibernética, retira os conceitos explicativos da

1A cibernética pode ser definida como a ciência que estuda os mecanismos de controlo e regulação da informação

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regulação, funcionamento e evolução do sistema familiar (mecanismos de homeostase/feedback negativo e de morfogénese/feedback positivo), tanto no sentido da explicação da normalidade como da patologia, o que implica que não haja diferença qualitativa entre normal e patológico (Relvas, 1999). Às teorias da comunicação, nomeadamente o importante contributo de Gregory Bateson (1904-1980) e do Grupo de Palo Alto, a terapia familiar vai buscar a grelha de análise para a compreensão e intervenção sobre o que se passa na família em termos de interacção (relações entre os membros do sistema e deste com a sociedade), elemento fundamental da compreensão/explicação do comportamento (Benoit, 1997; Hoffman, 1981; Relvas, 1999, 2003).

1.2.1 – Definição e conceptualização do sistema familiar

Segundo as bases teórico-epistemológicas da terapia familiar a noção de família é o conceito chave, ela é o micro-meio primário “natural” do indivíduo (Relvas, 1999). Uma família funcional permitirá a realização de duas funções fundamentais: o assegurar da continuidade do ser humano (é nela que o indivíduo nasce, cresce, reproduz-se e morre, num processo contínuo ao longo das gerações, transmitindo vida) e uma segunda função, que decorre desta primeira, que consiste na possibilidade de fazer a articulação indivíduo /sociedade, ou seja, torna possível o equilíbrio entre o crescimento e individuação (a nível afectivo, cognitivo e comportamental) e a socialização de cada membro da família (Alarcão, 2002; Relvas, 2000; Pinsof, citado por Ribeiro, 1997).

A família é portanto, um espaço privilegiado de aprendizagem de dimensões significativas da interacção social como: os contactos corporais, a linguagem, a comunicação e as relações interpessoais (Alarcão, 2002).

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São várias as definições de família encontradas no âmbito do paradigma sistémico e apesar de não serem definições “uniformes”, na medida em que variam em função da tónica colocada pelos diferentes autores, todas são unificadas por uma noção oriunda da teoria geral dos sistemas (Von Bertalanffy, citado por Alarcão, 2002), ou seja, a noção de Sistema, a qual foi sendo refinada pela evolução conceptual deste paradigma sistémico ultrapassa a mera ligação biológica ou legal. Na definição de Andolfi (citado por Alarcão, 2002) pode verificar-se o avanço que permitiu a concepção sistémica para caracterizar a família como algo mais do que a soma dos indivíduos que a compõem, a “família é entendida, na sua complexidade,

como um sistema de interacções que supera e articula dentro dela os vários elementos individuais; deste modo, a exploração das relações interpessoais e das normas que regulam a sua vida como grupo é necessária para a compreensão do comportamento de cada um dos membros que a formam”, o autor acrescenta ainda que “a família é um sistema entre sistemas e que é essencial a exploração de relações interpessoais, e das normas que regulam a vida dos grupos significativos a que o indivíduo pertence, para uma compreensão do comportamento dos membros (…)” (p. 40).

Numa primeira fase de conceptualização teórica da família numa base sistémica, o foco recaía essencialmente sobre os aspectos observáveis e redundantes. O aspecto mais relevante da família referia-se à definição das suas características funcionais e estruturais (totalidade, equifinalidade, abertura, finalidade, estruturação em subsistemas e hierarquização sistémica) (Bertalanffy cit. por Relvas, 1999; Watzlawick, Beavin & Jackson, 1993). A família era, assim, considerada como uma realidade separada do observador o qual, a partir de uma posição externa e de forma neutra, era capaz de o definir objectivamente e descrevê-lo.

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1.2.2 – Características do Sistema Familiar

Como referido, na perspectiva sistémica há uma clara preocupação em ir além do nível individual e intrapsíquico e em olhar e trabalhar com a unidade familiar como um sistema aberto a influências do meio exterior, passando o indivíduo a ser conceptualizado como parte de sistemas mais vastos (Gonçalves, 2007). Segundo Jackson (citado por Relvas, 1999) “temos

necessidade de medidas que não reduzam a unidade familiar à soma dos indivíduos; temos necessidade de medir as características da unidade familiar supra-individual para as quais não temos actualmente quase nenhuma terminologia. Podemos fazer apelo ao nosso bom-senso. O todo é mais do que a soma das suas partes, é tudo o que nos interessa” (p. 34). O

autor fazia, claramente, apelo a uma propriedade dos sistemas, a Totalidade2.

1.2.2.1 – Estrutura Familiar

Para a compreensão do funcionamento familiar em geral, e do funcionamento das famílias multiproblemáticas em particular, é essencial enfatizar a estrutura familiar.

Vários autores, (cfr. Minuchin, 1982; Minuchin, Colapinto & Minuchin 1998), relativamente à estrutura familiar (dimensão espacial), consideram que para um adequado funcionamento do sistema familiar, as fronteiras3 dos subsistemas4 deverão ser nítidas5. A

2 Para além desta propriedade também são importantes: a Equifinalidade segundo a qual uma mesma finalidade

da família pode ser alcançada a partir de condições iniciais diferentes e de que condições iniciais semelhantes podem desencadear diferentes metas, sendo portanto os padrões interaccionais, a organização familiar e o processo do sistema familiar mais significantes do que a situação inicial do sistema ou do que qualquer causa identificável; e a Circularidade, segundo a qual a causalidade não é entendida como um fenómeno linear (em que um determinado efeito é explicado por uma determinada causa), mas sim mediada pela relação entre os membros da família e portanto circular (os comportamentos dos diferentes membros da família influenciam-se mutuamente) (Jones, 1999; Rodrigo & Palacios, 1998; Watzlawick et al, 1993)

3

As fronteiras podem ser conceptualizadas como um conjunto de regras e padrões que definem quem e como participa no sistema familiar. A sua função é proteger a diferenciação do sistema. Cada subsistema familiar tem funções particulares e faz exigências específicas aos seus membros (ex. subsistema parental com funções executivas, tem a seu cargo a protecção e educação das gerações mais novas sendo, na maior parte das vezes, constituído pelos pais) (Alarcão, 2002; Minuchin, 1982; Relvas, 1999; Relvas, 2000). O que define e delimita

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complexidade das relações dinâmicas, resultante desta condição, é gerida através da comunicação que tem um papel fulcral e que constitui e caracteriza a interacção familiar, a partir da qual se vão construindo no tempo as normas e regras próprias de cada grupo familiar. Dessa construção resulta a organização/diferenciação da família nos vários subsistemas, as relações estabelecidas entre eles e no interior de cada um, isto é, a Estrutura Familiar (Relvas, 2000).

Os elementos individuais da família participam e pertencem a diferentes sistemas (ou subsistemas). Daqui se pode depreender: (1) os limites dos vários sistemas (ou subsistemas) são permeáveis, permitindo a passagem selectiva de informação, e (2) a compreensão de cada sistema ou subsistema exige o conhecimento dos contextos em que participa, o que requer uma análise das relações horizontais (i.e., aquelas que têm lugar dentro do mesmo subsistema) e das relações verticais (ou seja, as que acontecem entre diferentes subsistemas e sistemas). A esta hierarquia de sistemas (ou subsistemas) chama-se Hierarquia Sistémica (Alarcão, 2002).

Muitas vezes pode haver, entre diferentes culturas, discordância quanto às delimitações exactas da família. É importante recordar que, embora as famílias sejam unidades biológicas relacionadas com diferentes configurações e as mais diversas composições nas várias culturas, atribuir-lhes características e propriedades de um sistema é da responsabilidade do observador (Jones, 1999).

todos os sistemas (familiar, escola, trabalho, comunidade, etc.) e subsistemas são os papéis e funções, as normas e os estatutos que os indivíduos ocupam. Uma nítida delimitação destes limites interaccionais permite a cada um, em cada momento e em cada espaço, saber o que pode esperar de si próprio, dos outros e o que podem os outros esperar dele (Alarcão, 2002).

4 Cada família é um todo que contem totalidades mais pequenas - os Subsistemas (e.g. individual – constituído

pelo indivíduo, que para além das funções e papéis familiares tem também outros noutros sistemas; conjugal – composto por marido e mulher; parental – normalmente constituído pelos mesmos cônjuges só que agora com funções parentais, e fraternal – constituído pelos irmãos, principal grupo de socialização extra-familiar e de experimentação de relações entre iguais, competição e brincadeiras), mas a família é também parte de sistemas mais vastos que integra – os Suprassistemas (e.g. comunidade, sociedade) que se encontram ligados e organizados de forma hierárquica (Alarcão, 2002; Minuchin, 1982).

5 Entenda-se aqui fronteiras nítidas como linhas invisíveis que permitem uma delimitação clara sobre quem

participa no sistema e como o faz, e que possibilitam uma adequada regulação da passagem da informação entre a família e o meio exterior, bem como entre os diversos subsistemas (Minuchin, 1982).

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1.2.2.2 – Stresse, Crise, Mudança(s) e Desenvolvimento do Sistema Familiar

Do ponto de vista sistémico, não só é importante a estrutura dos subsistemas da família (se existem limites claros e permeáveis entre os subsistemas; se cada subsistema tem relações coesas, etc.), mas também o desenvolvimento/funcionamento adaptativo da família perante as pressões e mudanças externas (se a família se adapta e reorganiza de forma flexível mediante as mudanças; se perante as mudanças se mantém rígida ou se se desorganiza) – dimensão temporal (Rodrigo & Palácios, 1998).

A família é um grupo com uma história que se vai construindo progressivamente ao longo do tempo (Alarcão, 2002; Relvas, 2003). Esta noção implica que cada família se vá transformando no curso da sua vida em três aspectos essenciais: estrutura, interacções e funcionamento. Cada família dita “normal” ou “sã” percorre um Ciclo Vital (uma sequência previsível de transformações na sua organização, em função do cumprimento de tarefas bem definidas), marcado por etapas de desenvolvimento, desde o seu surgimento até à sua extinção6. Estas etapas, com características próprias, podem muitas vezes co-existir e sobrepor-se e são caracterizadas por uma tentativa de alcançar objectivos específicos que concorrem para a obtenção do seu objectivo último: a sobrevivência do sistema familiar e o cumprimento das suas funções globais (Relvas, 2000). Um factor importante que surge associado a este desenvolvimento por etapas é o Tempo. Pode considerar-se a existência de um

Tempo Processual e de um Tempo Familiar. O primeiro refere-se aos momentos estruturais

que progressivamente se vão articulando na família, onde se verifica um jogo de papéis e posições que vão tendo diferente relevo; o segundo diz respeito à forma como cada família vivencia o tempo processual (Alarcão, 2002; Relvas, 2000).

6 Um dos primeiro modelos é o de Duvall, Hill e Rodgers (citados por Relvas, 2000), que perspectiva o ciclo vital

nas seguintes fases: Formação do casal, Família com filhos pequenos, Família com filhos na escola, Família com filhos adolescentes e Família com filhos adultos (empty-nest).

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A mudança no sistema familiar situa-se no intercruzamento deste dois tempos, ou seja, a família vai sendo sujeita a mudanças permanentes, mais ou menos acentuadas e causadoras de stresse, mas que lhe permitem a necessária evolução na continuidade. Deste modo, toda a mudança causa stresse, independentemente da causa positiva ou negativa que lhe está associada. Estas flutuações permanentes, ao atingirem determinada amplitude, implicam a reestruturação do próprio sistema, na medida em que provocam alterações qualitativas no seu funcionamento. É, assim, uma mudança descontínua, entendida como ruptura processual, imprevisível e irreversível (Alarcão, 2002; Ausloos, 2003; Relvas, 2000).

Os momentos de mudança correspondem às chamadas crises. Estas são situações em que a adaptação e o equilíbrio interno ou externo de um sistema ou de um indivíduo estão perturbados. Na família, a crise é experienciada como um momento de tensão que pode surgir associado ao ciclo vital da família – crise normativa (e.g. casamento); ou inesperadamente como resultado de uma série de acontecimentos imprevisíveis (e.g. morte de um filho)7 (Alarcão 2002).

1.2.3 – Cibernética de Primeira Ordem e de Segunda Ordem8

Inicialmente, a mudança era vista como contrária à estabilidade e à adaptação (Gameiro, 1992). A evolução dos sistemas era compreendida tendo por base os mecanismos de

feedback, provenientes da teoria cibernética. Isto é, supunha-se que um sistema iria reagir à

7 Segundo Minuchin (1982) a crise comporta um aspecto paradoxal, na medida em que pode ser,

simultaneamente, uma ocasião de crescimento e evolução ou um risco de patologia, pois o sistema tanto pode responder à crise transformando o seu modelo relacional, como pode fugir à mudança, pondo em causa a sua própria sobrevivência.

8A cibernética de primeira ordem corresponde a um primeiro período de desenvolvimento desta ciência e

conceptualiza o sistema familiar observado como estando separado do observador e enfatiza a compreensão dos mecanismos de estabilidade dos sistemas (Alarcão, 2002). A cibernética de segunda ordem corresponde a um segundo período em que há uma marcada reflexão sobre as teorias e a inclusão do sistema observador no sistema observado (sistemas observantes). Preocupa-se, ainda, em compreender os processos de auto-organização, autonomia e individualidade dos sistemas (Alarcão, 2002; Jones, 1999)

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informação dos elementos ou do ambiente com ampliação ou inibição de padrões, de forma a assegurar a sua própria continuidade. O feedback negativo mantinha a estabilidade do sistema, mediante a reintrodução de informação auto-correctiva (Morfostase), já o feedback positivo era responsável pelo desenvolvimento de modificações que conduziam à transformação do sistema (Morfogénese). A sobrevivência do sistema dependeria da sua capacidade para corrigir os desvios provenientes dos feedbacks permanentes com o exterior, de forma a conseguir alcançar novamente uma situação de estabilidade. A correcção destes desvios ocorreria através de mecanismos homeostáticos, os quais, mediante um equilíbrio entre os dois mecanismos de morfostase e morfogénese, permitiriam a manutenção da estabilidade do sistema (Alarcão, 2002; Relvas, 1999).

Com a evolução conceptual para uma segunda fase, a cibernética de segunda ordem, perspectiva um modelo evolutivo dos sistemas, onde são valorizadas as potencialidades de desenvolvimento e de equilíbrio dinâmico e consideradas as dimensões histórica e temporal do sistema. Neste contexto, a evolução dos sistemas está relacionada com propriedades intrínsecas ao próprio sistema, tal como a natureza das interacções entre os elementos que o constituem (Alarcão, 2002; Elkaim; Hoffman, citados por Gonçalves, 2007).

Desta forma, o sistema familiar, para além de ser compreendido como uma totalidade que persegue um objectivo através de um jogo de processos de feedback determinantes da sua estrutura, passa também a ser visto como possuidor de autonomia e capacidade

auto-organizativa (capacidade de modificar a sua estrutura espontaneamente quando as condições

internas ou externas mudam), com vista ao alcance de uma estabilidade ao nível da sua organização, evoluindo para níveis de complexidade crescentes (Minuchin & Fishman, 1981; Morin, 2003; Maturana & Varela, citados por Relvas, 1999). Isto é, recebe as informações e instruções, mas vai processá-las segundo as suas regras de organização, ou seja, os sistemas

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humanos transformam-se a si mesmos (Sousa, Hespanha & Grilo, 2007), possuindo uma organização que lhes confere uma certa continuidade/estabilidade, uma individualidade e uma autonomia (Relvas, 1999). Ou seja, a noção de regulação/equilíbrio da primeira cibernética é substituída pela de mudança/evolução da segunda cibernética, onde a auto-organização, relação, função e estrutura são conceitos centrais (Jones, 1999; Relvas, 1999).

Segundo Alarcão (2002), a autonomia do sistema reflecte-se na sua interacção com o meio envolvente, encontrando-se o meio e o sistema “acoplados um ao outro, sendo que os

pontos de acoplagem são as perturbações” (p.28), sendo a estrutura do sistema e não o meio

quem define as perturbações permitidas. Os sistemas vivos são, assim, operacionalmente fechados e informacionalmente abertos, isto é, entidades dotadas de uma lógica interna, responsáveis pelo resultado das operações feitas a partir das perturbações decorrentes da acoplagem com o meio. De acordo com Costa (citado por Sousa, 2005), a mudança apenas ocorre se houver um “ajustamento entre os sistemas em presença e, para que se acoplem, têm

de ter a capacidade de se perturbarem mutuamente” (p.97). A mudança efectua-se, assim, no

sentido seleccionado pelo sistema, não lhe retirando, deste modo, a sua identidade e originalidade (Benoit et al., citado por Sousa, 2005). Dell (citado por Sousa, 2005) propõe, neste contexto, a substituição do conceito de homeostase pelo conceito de coerência, o qual se refere à interdependência ao nível do funcionamento mediante a qual todos os aspectos de um sistema se complementam. Sistema e meio são vistos, não como entidades separadas, mas antes como um todo coerente e organizado, formando entre si um outro sistema, sendo que “qualquer comportamento do sistema afecta recursivamente a própria coerência do sistema” (Gameiro, 1992, p. 203)

Também ligada ao conceito de organização do sistema, está a noção de auto-referência segundo a qual o terapeuta passa a ser visto como membro de um sistema para cuja

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constituição ele próprio contribui ao longo do processo de descrição desse mesmo sistema (Elkaim, cit. por Gonçalves, 2007). Neste modelo de sistemas observantes considera-se que a descrição de qualquer sistema comporta uma dimensão subjectiva relativa ao observador que o observa, sendo a observação uma construção decorrente da interacção recursiva entre o sistema observado e o sistema observador (Alarcão, 2002).

A cibernética de segunda ordem, ao enfatizar o papel do observador na construção da realidade observada, integra as influências da abordagem epsitemológica construtivista (Botella, 2007) e do construccionismo social (Anderson e Goolishian, 1988; Hoffman, 1990; Gergen, citado por Relvas & Alarcão, 2007).

O constructivismo enquadra-se numa perspectiva pós-moderna, a qual considera que existem múltiplas verdades, múltiplas percepções e múltiplas definições de um acontecimento, não sendo possível aceder à realidade de forma neutra, questionando-se a existência de uma realidade objectiva (Boss, 2002; Hoffman, 2003).

Pode dizer-se que o movimento do construcionismo social assenta em três grandes vertentes: o poder constitutivo da linguagem, a construção relacional do significado e o posicionamento histórico-cultural de qualquer descrição ou teorização (Freedman & Combs, 1996). Defende, assim, que a realidade é construída socialmente, através de histórias ou narrativas mediante as quais as pessoas descrevem as suas experiências (Relvas & Alarcão, 2007), sendo criada na intersubjectividade da linguagem (fenómeno comunicacional global, das palavras aos significados) (Gonçalves, 2003; Relvas & Alarcão, 2007). Esta visão está presente na frase de Wittgenstein quando refere que são as fronteiras da linguagem de cada indivíduo que definem os limites do seu mundo (Gergen & Warhuus, 2007).

Para Anderson e Goolishian (1988) os sistemas humanos apenas existem no domínio do “significado ou da realidade linguística intersubjectiva” (p. 377), uma vez que é através da

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linguagem que atribuímos significado à experiência, de forma a torná-la inteligível para o próprio e para os outros (White & Epston, 1990). Esta atribuição de significado implica, então, um processo de construção (Botella, 2007), dado que a descrição da compreensão dos acontecimentos passa a ser vista como uma pontuação do observador, pelo que é ambígua (White & Epston, 1990).

Como se defende a não existência de realidades absolutas, dado que como referem Aldous Huxley (citado por por Freeman, Epston & Lobovits, 1997) “a experiência não é o que

acontece, é o que se faz com o que acontece”, a realidade é construída, organizada e mantida

através da forma narrativa. Neste contexto tanto o construtivismo como o construcionismo social defendem que a experiência pessoal possibilita múltiplas compreensões e interpretações (Nichols & Schwartz, citados por Gonçalves, 2007). Surge, assim, uma nova leitura da máxima de Korzybski’s que Bateson defendia – “o mapa não é o território” – uma história, nunca é a apreciação objectiva da realidade, mas sim um “mapa” que se vai expandindo ao longo do tempo. À medida que as pessoas reescrevem e aceitam as histórias alternativas (i.e., novas narrativas), surgem novas imagens de si e dos outros, novas possibilidades nas relações e novos futuros (Freedman & Combs, 1996; White & Epston, 1990).

O “Movimento Narrativo Pós-Moderno” (McLeod, citado porRelvas & Alarcão, 2007) tem por base a perspectiva hermenêutica, segundo a qual a vida e as histórias estão internamente relacionadas e o sentido da primeira não pode ser determinado fora das histórias que se contam sobre ela. Consequentemente, a vida não pode ser vista como algo intocável pela adequação de uma história, nem um significado de uma história pode ser determinado sem qualquer referência à vida humana como é vivida. É nesta perspectiva que a relação entre a história e a “realidade” não é nem de continuidade nem de descontinuidade, mas sim

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hermenêutica, uma vez que o significado implícito da vida é tornado explícito nas histórias; ou seja, a vida humana é a interpretação de histórias (Widdershoven, 1993).

Existem histórias/narrativas que, com o tempo, se vão tornando dominantes, constituindo referências com as quais as pessoas vão organizando as suas experiências, a fim de darem coerência e sentido ao mundo (embora excluam acontecimentos que nelas não se enquadrem). As narrativas promovem, assim, uma atenção selectiva face a determinados acontecimentos e experiências e uma desatenção relativamente a outros acontecimentos e experiências que não se enquadram nessas narrativas, existindo, desta forma, uma tendência para o desenvolvimento de uma estabilidade narrativa ao longo do tempo (Gonçalves, 2007). White (citado por Freedman & Combs, 1997) escreve que as narrativas culturais nasceram das narrativas individuais, contudo, as histórias culturais determinam as nossas narrativas pessoais, uma vez que as pessoas dão significado às suas vidas através de histórias. Esta ideia vai de encontro ao princípio da complexidade sistémica, patente na ideia de hologramaticidade relacional (Morin, citado por Gonçalves, 2007), em que as partes (narrativas individuais) estão inscritas no todo (narrativas cultural), e este só ganha significado em função das primeiras. As narrativas da cultura a que pertencemos influenciam a forma como vivenciamos acontecimentos de vida particulares e tratamos os outros como significantes ou não. Cada acontecimento relembrado constitui uma história, que em conjunto com as narrativas de mais acontecimentos constituem a narrativa da vida, e experiencialmente falando, as narrativas da nossa vida são a nossa vida (Freedman & Combs, 1996).

É neste sentido que vários autores têm defendido que a forma predominante pela qual os seres humanos dão unidade e sentido às suas vidas é através da narrativa, organizando a multiplicidade de auto-definições através de histórias. De facto, pensamos sobre o mundo, sobre nós próprios e sobre os outros através da produção de histórias que partilhamos ou que

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guardamos para nós. Assim, pode-se conceptualizar estas narrativas como organizações de conhecimentos no tempo e no espaço para os indivíduos, de todas as idades e culturas, atribuírem significado ao seu ambiente e às suas próprias vidas (Hermans, 2007).Sendo que, o modo pelo qual interpretamos os acontecimentos, afecta a forma como nos comportamos e interagimos com os outros (Freeman et al., 1997). Desta forma, as narrativas dão significado e coerência às experiências e estruturam as relações com os outros (Relvas & Alarcão, 2007).

1.3

– A Família como Contexto de Desenvolvimento Humano

Um outro importante marco teórico no estudo da família é a perspectiva ecológica, a qual surge no final dos anos sessenta, tendo como uma figura central Urie Bronfenbrener. Em 1979, na obra “The Ecology of Human Development”, o autor propôs um modelo do desenvolvimento humano, inovador na forma como conceptualizava a pessoa em desenvolvimento, o meio e, acima de tudo, a relação entre ambos. Este modelo teve um forte impacto no campo do desenvolvimento humano, promovendo, durante os anos 80, o interesse no papel do sistema ecológico no curso de vida dos indivíduos (Lerner, Rothbaum, Boulos & Castellino, 1995) e da família (Fuster & Ochoa, 2000).

Segundo o autor, o desenvolvimento humano tem lugar no contexto das relações familiares, sendo esse desenvolvimento resultado não só dos factores ontogénicos, mas também da interacção das características genéticas da pessoa com o contexto familiar imediato e, eventualmente, com outros componentes do ambiente (Fuster & Ochoa, 2000).

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1.3.1 – O Modelo Ecológico de Desenvolvimento Humano

No seu Modelo Ecológico do Desenvolvimento Humano, Brofenbrenner (1979) procura fornecer um esquema conceptual para a descrição e inter-relação de estruturas e processos, tanto no ambiente próximo como no mais distante, na medida em que moldam o desenvolvimento humano ao longo da vida. Constitui, assim, uma teoria das inter-relações ambientais e do seu impacto nas forças que afectam de forma directa o crescimento psicológico. Especificamente, preocupa-se com a acomodação progressiva entre um organismo humano em crescimento e o seu ambiente imediato, e a forma pela qual esta relação é mediada por forças do meio físico e social mais vasto.

A Ecologia do Desenvolvimento Humano é conceptualmente definida pelo autor como “o estudo científico da progressiva acomodação mútua entre um ser humano em crescimento

activo e as propriedades em mudança dos cenários imediatos em que a pessoa em desenvolvimento vive, sendo este processo afectado pelas relações entre estes cenários, e pelo contexto mais vasto em que os cenários estão embebidos” (p.21). Esta definição sugere que a

pessoa em desenvolvimento não é vista como uma mera tábua rasa na qual o ambiente faz o seu impacto, mas sim como uma entidade dinâmica em crescimento, que progressivamente move e reestrutura o ambiente em que reside. Denota, também, que a interacção entre a pessoa e o ambiente é vista como bidireccional, isto é, recíproca, uma vez que não só a pessoa influencia o ambiente, como o ambiente influencia a pessoa. Considera ainda que o ambiente relevante para o processo de desenvolvimento não se limita a um único cenário imediato (local onde a pessoa pode realizar interacções cara-a-cara, tal como a casa), estendendo-se às interligações entre esses cenários, bem como às influências externas da evolvente mais vasta. Desta forma, o desenvolvimento das capacidades humanas dependem, significativamente, de contextos mais latos, sociais e institucionais, sendo o processo de

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desenvolvimento humano estruturado, pelo autor, em quatro sistemas de influências que vão desde as mais distantes às mais próximas do indivíduo (micro, meso, exo e macrossistema), sistemas estes que configuram e definem o meio, ou ambiente ecológico9. No nível mais interno do esquema encontra-se uma das unidades básicas de análise, a díade/sistema de duas pessoas, caracterizada como uma estrutura de relações recíprocas (e.g. díade mãe-criança). Contudo, este primeiro nível de contextos imediatos vai além da díade, atribuindo, em termos de desenvolvimento, igual importância aos N+2 sistemas – tríades, tétrades e estruturas interpessoais maiores. Ou seja, a capacidade da díade como contexto efectivo de desenvolvimento está dependente da presença e participação de terceiros partidos (e.g. marido, amigos e vizinhos). O mesmo princípio triádico se aplica às relações entre contextos10.

Bronfenbrenner (1979) refere que, no comportamento e no desenvolvimento, deve ser enfatizada a forma como o ambiente é percebido e não a forma pela qual poderá existir na realidade “objectiva”, isto é, o comportamento e desenvolvimento individual deve ser visto enquanto resultado da interacção entre pessoas e o meio. Neste contexto, o desenvolvimento humano11 refere-se à concepção evolutiva e relação da pessoa com o ambiente ecológico, bem como a capacidade crescente desta para descobrir, manter, ou alterar as suas propriedades. Nesta definição existem alguns aspectos que vale a pena realçar, nomeadamente, o facto de o desenvolvimento envolver uma mudança, que não é efémera nem limitada à situação (não é apenas um processo de adaptação à situação), nas características da pessoa,

9 Assim, nesta abordagem, o ambiente é tanto influencia o comportamento do indivíduo, como sofre alterações

decorrentes das acções deste (Bronfenbrenner, 1979).

10 A capacidade de um contexto (e.g. casa, escola, trabalho) para funcionar eficazmente como cenário de

desenvolvimento depende da existência e natureza das relações sociais entre contextos, incluindo a participação conjunta, comunicação, e a existência de informação em cada cenário sobre o outro (Bronfenbrenner, 1979).

11 O Desenvolvimento Humano é definido pelo autor como o “processo através do qual o sujeito em desenvolvimento adquire uma concepção mais alargada, diferenciada e válida do ambiente ecológico, tornando-se motivada e apta para tornando-se envolver em actividades que lhe permitem melhor compreender, manter ou reestruturar as propriedades desse mesmo meio” (p.27).

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Figura 1: Modelo Ecológico do Desenvolvimento Humano (adaptado de Rodrigo & Palacios, 1998)
Figura 2: Modelo Multidimencional da Parentalidade (adaptado Pecnik et al., 2006)
Figura 3: Quadro conceptual da articulação das dimensões e variáveis abrangidas pelo estudo empírico Factores Pessoais
Tabela 2 - Valores de Consistência Interna (alpha de Cronbach) da Escala de Satisfação com a   Vida Profissional e com a Vida Familiar no estudo Chambel e Marques-Pinto (2008) e no estudo actual
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Referências

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