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Formação Docente em Saúde: entrelaçando estudos qualitativos
Sylvia Helena Batista1 e Nildo Alves Batista2
1 Departamento de Saúde, Educação e Sociedade, Universidade Federal de São Paulo, Campus Baixada Santista,
Brasil. [email protected];
2 Departamento de Saúde, Educação e Sociedade, Universidade Federal de São Paulo, Campus Baixada Santista,
Brasil. [email protected]
Resumo. Este texto tem como objetivo analisar quatro pesquisas desenvolvidas no período de 2004 a 2017 a partir da abordagem qualitativa. Assumir a pesquisa qualitativa como abordagem metodológica para investigar a formação docente em saúde demandou imersões no campo das representações sociais, da pesquisa sobre a própria prática, da escuta sensível e da pesquisa colaborativa. A partir de documentos estruturou-se uma descrição narrativa fundamentada no referencial indiciário. As análises possibilitaram compreender a formação docente em saúde a partir das histórias e trajetórias, dos indícios para o desenvolvimento docente e das relações com as políticas indutoras do Ministério da Saúde e da Educação do Brasil. Nos percursos das estratégias de desenvolvimento docente, as pesquisas sinalizam pistas para o redimensionamento e/ou criação de propostas de formação de professores da área da saúde: formação in loco, valorização do trabalho docente, atuação na perspectiva interprofissional, parceria universidade-serviço-comunidade, reconhecimento dos saberes da prática , sustentabilidade institucional.
Palavras-chave: Docência em saúde; pesquisa qualitativa; formação docente; políticas públicas. Faculty Development in health: intertwining qualitative studies
Abstract. This text aims to analyze four researches developed in the period from 2004 to 2017 from the qualitative approach. Assuming qualitative research as a methodological approach to investigating teacher education in health care required immersions in the field of social representations, research on practice itself, sensitive listening and collaborative research. From documents, a narrative description based on the indicative frame was structured. The analyzes made it possible to understand the teacher education in health from the histories and trajectories, the indications for the teacher development and the relations with the inductive policies in Brazil. In the spaces and places of teacher training, the researches point to clues for the re-dimensioning and / or creation of proposals for the training of teachers in the health area: in loco formation, valorization of teaching work, acting in the interprofessional perspective, university-service partnership -community, recognition of the knowledge of the practice, institutional sustainability.
Keywords: Teaching in health; qualitative research; teacher training; public policy.
1 Introdução
Nos percursos investigativos, assumimos que a formação ...
traz em si uma intencionalidade que opera tanto nas dimensões subjetivas (caráter, mentalidade) como nas dimensões intersubjetivas, aí incluídos os desdobramentos quanto ao trajeto de constituição no mundo de trabalho (conhecimento profissional). Portanto, não se trata de algo relativo a apenas uma etapa ou fase do desenvolvimento humano, mas sim como algo que percorre, atravessa e constitui a história dos homens como seres sociais, políticos e culturais(Batista, 2001, p.134)
A compreensão acima traz as marcas das leituras das obras de L.S. Vygotsky (1995), reconhecendo os planos epistemológico e prático (experiencial) no processo de aprendizagem. No plano epistemológico, aprender articula cognição, afeto e cultura em uma perspectiva histórico-social, trazendo a questão da mediação e da intersubjetividade. Configura-se, assim, a formação como processo na medida em que se questionam opções disciplinares, institucionais e educacionais.
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Processo que se movimenta em direções múltiplas, conhecendo a contradição, os conflitos, mas também produzindo as possibilidades de negociação. A aprendizagem no plano prático (experiencial) vincula-se ao cotidiano, evidenciando que aprender e fazer apresentam dinâmicas de conexão, complementariedade, descontinuidades e atribuição de significados. Nesse âmbito, emerge a formação como projeto: possibilidade de construir novos sentidos para a formação, procurando configurar espaços de aprendizagem que estejam coadunados com as necessidades e demandas sociais e dos sujeitos envolvidos e coautores de uma dada situação educativa. Bahia, Haddad, Batista & Batista (2018), ao investigarem os Projetos no âmbito do Edital Pró-Ensino na Saúde afirmam que as análises sobre as potências das políticas indutoras demandam cuidado permanente com as questões relativas à continuidade, sustentabilidade e reconhecimento científico-institucional. Os estudos de Costa et al (2015) e Batista et al (2015) corroboram a assertiva acima, possibilitando ampliar a compreensão das influências e ecos na docência em saúde das políticas indutoras implementadas no processo de reorientação da formação em saúde, na perspectiva da integração entre ensino e serviço, conjugando os esforços realizados pelo Ministério da Educação e pelo Ministério da Saúde do Brasil. Inscreve-se a docência perante novos contextos de aprendizagem e ampliação de interlocutores e mediações presentes: a realidade dos serviços, as necessidades das pessoas e dos serviços de saúde, os usuários, os preceptores, os estudantes. As propostas que privilegiam a criação de grupos de docentes, produzindo condições solidárias e de apoio, modificando resistências dos sujeitos envolvidos diante dos sistemas de socialização profissional, de inovação pedagógica, de construção de novas práticas pedagógicas. (FREITAS et al, 2016; Opfer & Pedder, 2011)
A formação docente em saúde enriquece-se com a perspectiva de rede. A rede incorpora, dialeticamente, constituintes individuais e sociais, ancorando-se na circulação simbólica, nas interações horizontais, na organização coletiva (Mauss, 2003; Mauss & Hubert, 2005). Os movimentos voluntários (busca de parceiros, cenários e ferramentas de formação) e os movimentos institucionais (espaços intencionalmente construídos, fomentados) tecem e re-tecem modos de ser e fazer no campo da formação docente em saúde.
Vaniel, Laurino & Novello (2013) agregam as redes de conversação como constituintes nos processos de formação, possibilitando pensar o formar-se como prática colaborativa, que inclui o outro e constrói relações de coautoria, configurando movimentos de reflexão sobre a própria prática, transformando-a:
“é o conversar e o problematizar que desejamos e nos quais acreditamos que possibilitam a transformação reflexiva e a reflexão-ação ética em todo fazer...” (p.149)
No cotidiano acadêmico, professores, estudantes, profissionais dos serviços e usuários têm no diálogo uma via de conversação e de troca: dialogar implica confrontar-se com a dimensão política, num movimento de tornar as relações pedagógicas mais horizontais, pois ao educando não cabe apenas escutar e obedecer ao educador, mas ambos aprendem nas relações dialógico-dialéticas. A perspectiva dialógica valoriza as relações entre formador e professor-estudante, os saberes construídos por eles, a prática como objeto de estudos e a análise destes sob a luz de teorias educacionais. Freire (2009) afirma que a prática educativa deve estar revestida de um saber fazer e um saber-ser exercitados, onde “a reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação teoria/prática, sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá e a prática, ativismo” (p. 24). Os processos de desenvolvimento docente como espaço de aprendizagem da docência a partir da tessitura de redes formativas implicam reconhecer a prática e a reflexão sobre a mesma, o estudo sobre as dimensões pedagógicas e acadêmico-políticas da docência em saúde, a institucionalidade das propostas formativas, a produção compartilhada com outros professores e preceptores, e a interação com os estudantes como pontos de redes
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potentes para a produção do movimento, da colaboração, da conversação. O objetivo deste texto abrange a sistematização descritivo-analítica de quatro pesquisas, desenvolvidas no período de 2004 a 2017. Nesse escopo, projeta-se analisar esse conjunto de estudos que, a partir da abordagem qualitativa, buscaram privilegiar vozes de documentos, vozes e práticas docentes e suas imbricações com as histórias institucionais e as políticas públicas.
2 Conhecendo as pesquisas
2.1. Pesquisa Docência em Saúde: propostas, concepções e práticas de
formação/desenvolvimento
Essa pesquisa foi desenvolvida no período de 2004-2007 e assumiu como objeto de estudo a docência em saúde. Assumiu como objetivo analisar concepções, propostas e práticas de formação que permeiam processos de aprendizagem da docência universitária de professores dos cursos de graduação da área da saúde de uma universidade pública do Estado de São Paulo. Para caracterizar os espaços de formação docente, mapeando seus conteúdos, estratégias e políticas de inserção institucional optamos pela análise documental. Os movimentos analíticos empreendidos possibilitaram configurar como apontamentos: (1) em relação aos espaços de formação/desenvolvimento docente que têm sido construídos nos cursos de graduação em saúde e quais os seus focos privilegiados de conteúdos e estratégias e (2) em relação a como a subjetividade/intersubjetividade do professor tem sido abordada em espaços de formação que se destinam a docentes atuantes nestes cursos e às concepções de trajetórias de formação dos próprios professores e professoras.
2.2. Pesquisa Professores iniciantes e professores experientes em propostas inovadoras na graduação em saúde: um estudo sobre formação e docência
Essa pesquisa foi desenvolvida no período de 2007-2010 e teve como objetivo analisar trajetórias, concepções, práticas pedagógicas, motivações e expectativas de professores iniciantes e experientes que estão inseridos no projeto de uma universidade pública federal situada no Estado de São Paulo. O caminho metodológico escolhido privilegiou a fala dos professores sobre suas experiências e trajetórias em relação à docência, procurando rastrear as condições subjetivas e intersubjetivas que num dado contexto configuram um modo de ser professor de graduação em saúde e os registros documentais construídos no Programa de Desenvolvimento Docente.
Uma dimensão que foi apreendida nas entrevistas referiu-se às expectativas e desejos de responder ao projeto pedagógico inovador de uma maneira comprometida, transformadora: as questões da educação interprofissional, da interdisciplinaridade, da integralidade e do cuidado parecem ter ecos no processo de tornar-se professor.
2.3. Pesquisa Redes de formação docente em saúde: por entre pesquisas, experiências e saberes
Essa pesquisa foi desenvolvida no período de 2010 a 2013, e assumiu como objetivo nuclear analisar a produção científica divulgada por meio de artigos publicados em periódicos nacionais que abordem a temática formação docente em saúde por meio de revisão sistematizada de literatura. O caminho metodológico compreendeu revisão sistemática da produção científica nacional sobre formação docente em saúde e análise de programas nacionais de desenvolvimento
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docente em saúde. O percurso investigativo ampliou as perspectivas sobre a formação docente em saúde, possibilitando mapear uma instigante teia entre os achados da literatura e as propostas nacionais de desenvolvimento de professores do ensino superior, com as singularidades do campo da saúde. A revisão sistemática da literatura abrangeu artigos originais publicados em periódicos nacionais que tematizavam a formação docente em saúde, publicados nas bases Lilacs e Scielo, no período de 2007 e 2012. A segunda fase da pesquisa compreendeu o estudo documental sobre as experiências nacionais Formação de Ativadores de Mudanças na Graduação em Saúde (Ministério da Saúde/Fiocruz/Rede Unida) e Programa de Desenvolvimento Docente para Educadores Médicos do Instituto Regional de Educação Médica FAIMER Brasil (Universidade Federal do Ceará/ Ministério da Saúde – Departamento de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde/ Organização Pan-Americana de Saúde).
2.4. Pesquisa Modos de formar docentes em saúde: trajetórias, concepções e práticas docentes no âmbito do Pró-Saúde e PET-Saúde
Essa pesquisa foi desenvolvida no período de 2013 a 2017 e definiu-se como objetivo geral analisar trajetórias, concepções, práticas pedagógicas, motivações e expectativas de professores atuantes no Pró-SAÚDE e no PET-SAÚDE em dois campi de uma universidade pública situada no Estado de São Paulo. O caminho metodológico escolhido abrangeu a narrativa de 13 professores sobre suas experiências e trajetórias em relação à docência, procurando rastrear as condições subjetivas e intersubjetivas que, num dado contexto, configuram um modo de aprender e formar em saúde e as imbricações com as políticas indutoras para a transformação do ensino na saúde, especificamente com o Pró-SAÚDE e o PET-SAÚDE. A análise das narrativas possibilitou apreender que O PRÓ-SAÚDE e PET-SAÚDE foram, de maneira geral, descritos como potenciais espaços de Educação Interprofissional. No entanto, fica clara a necessidade de que iniciativas como o PET-SAÚDE possam ser ampliadas a mais estudantes, profissionais e docentes, configurando uma inserção curricular estruturante da formação. Os movimentos analíticos das narrativas permitem reconhecer a importância da formação in loco, a valorização do trabalho docente em detrimento da supervalorização da pesquisa como métrica central da avaliação docente, a formação de cidadãos e profissionais para atuarem no SUS e a integração entre universidade, serviço e comunidade como pilares fundamentais para o desenvolvimento de projetos que tenham como objetivo a reorientação da formação em saúde nos diferentes espaços e para diferentes atores.
3 Metodologia: os Processos de Produção e Análise de Dados
O pesquisar, no âmbito da produção das ciências, envolve uma postura de interrogar a realidade, problematizando-a e procurando construir explicações que signifiquem um avanço no e para o processo de conhecimento: “pesquisa é uma atitude e uma prática teórica de constante busca que define um processo intrinsecamente inacabado e permanente”(Minayo, 2010, p.23).
Partimos da compreensão de que tanto o objeto como o sujeito são construções sócio-históricas. Bernardes et al (2011), afirmam que o modo como acessamos a realidade é o que institui os objetos; a realidade não existe independentemente do nosso modo de acessá-la, no caso, pela linguagem e pelas formas que usamos para falar dela. Segundo Spink(2013) essa perspectiva difere da epistemologia tradicional porque para o empirismo o objeto é a determinação final do conhecimento, e para o idealismo as categorias universais do conhecimento estão na mente do sujeito. É impossível separar a descrição simbólica e linguística da realidade. Ao descrever determinado objeto, de certo modo, o (re) inventamos.
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3.1. Os Processos de Produção de Dados
As pesquisas privilegiaram vozes dos professores e de documentos. As vozes docentes incidiram sobre suas vidas, suas experiências e trajetórias em relação à docência, procurando rastrear as condições subjetivas e intersubjetivas que num dado contexto configuram modos de ser professor de graduação em saúde e a maneira pela qual essas condições têm sido contempladas nos espaços de formação de professores universitários. As vozes de documentos abrangeram a revisão sistemática da literatura e análise documental, procurando conhecer experiências de formação e literatura científica.
3.1.1. As vozes dos professores: entrevista semiestruturada e entrevista narrativa
Ao revelar condições estruturais, normas e opiniões, a fala possibilita mapear o sistema de referência que informa, orienta e conduz uma maneira de conceber e de agir, que não é somente de um único ator social, e sim reflete situações históricas, econômicas e culturais específicas que são compartilhadas pelos membros de uma sociedade (Thiollent, 1987).
E nessa interação entre pesquisador/a e o/a outro/a, reconhecer que ambos estão inscritos em determinado tempo histórico e constituídos de valores e crenças demanda o exercício da reflexão como atitude ético-científica: o que se deseja? Para que se deseja? Para quem se deseja? A quais destinos acadêmicos, políticos, éticos são endereçados os questionamentos propulsores da pesquisa?
Seria, na perspectiva de Bourdieu (2007), a reflexividade reflexa que possibilita perceber e controlar, nos momentos de produção de dados, as implicações das estruturas sociais em que todos e todas nós somos tributários. Nesse entendimento, a entrevista é um ato de construção partilhada, em que o pesquisador apoia o pesquisado na expressão de sua verdade, de seu pensamento, de seus desejos e projetos: pontos de vista que interagem, alteram-se e alteram as condições de produção da própria entrevista.
3.1.1.1 A Entrevista Semiestruturada
A entrevista semiestruturada coloca em relevo dimensões pessoais e percepções dos professores sobre suas práticas docentes, concepções e motivações perante um projeto pedagógico inovador em saúde. Assumimos, como objetivo, apreender os movimentos dos docentes em relação às suas concepções e trajetórias de formação. O registro foi gravado e objetivou dar visibilidade ao material produzido e permitir a contínua reflexão, análise e redimensionamento dos instrumentos, durante toda a fase de produção de informações.
Na pesquisa DOCÊNCIA EM SAÚDE: PROPOSTAS. CONCEPÇÕES E PRÁTICAS DE FORMAÇÃO/DESENVOLVIMENTO entrevistamos as professoras coordenadoras de cursso de graduação da área da saúde. Foram momentos preciosos de encontro com docentes egressos da própria universidade. Foram entrevistas marcadas pelas lembranças de “professores inesquecíveis“ (relatados como modelos para as práticas docentes que desenvolviam) e uma sensação de surpresa com o foco do estudo relativo à formação docente. Foram ricas as possibilidades de lermos juntos, durante as entrevistas, trechos dos Projetos Pedagógicos que se referiram à docência e formação de professores (haviamos previamente feito a análise dos Projetos Pedagógicos dos Cursos), descortinando possibilidades e perspectivas que, isoladamente, não tínhamos.
Na pesquisa PROFESSORES INICIANTES E PROFESSORES EXPERIENTES EM PROPOSTAS INOVADORAS NA GRADUAÇÃO EM SAÚDE: UM ESTUDO SOBRE FORMAÇÃO, DOCÊNCIA E INOVAÇÃO, as entrevistas envolveram professores que eram colegas do cotidiano de implantação de um campus universitário. Percebemos relações
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de aproximação e de afastamento quanto ao aceite para participar do estudo, mas todos que responderam ao convite, ainda que fosse para declinar, demonstraram interesse vívido por falar e partilhar sobre as experiências docentes. Nas pesquisas realizadas e nas quais foram realizadas a entrevista semiestruturada, foi possível reconhecer a potência dos espaços de conversação, e redes de compreensão foram sendo tecidas, junto e com os professores e professoras entrevistadas. Avaliamos a força da entrevista semiestruturada tanto no que se refere à abertura para o diálogo, como à possibilidade de colocar-se junto, em uma escuta ativa e sensível (Aragaki et al, 2014)
3.1.1.2 Entrevista Narrativa
A entrevista narrativa foi empreendida na pesquisa MODOS DE FORMAR DOCENTES EM SAÚDE: TRAJETÓRIAS, CONCEPÇÕES E PRÁTICAS DOCENTES NO ÂMBITO DO PRÓ-SAÚDE E PET-SAÚDE,pelo interesse em apreender as representações dos professores sobre suas trajetórias e concepções, possibilitando que participantes e pesquisadores pudessem intercruzar histórias de vidas, contextos institucionais e políticas indutoras de reorientação da formação em saúde.
A narrativa hoje tem sido utilizada como um dispositivo metodológico tanto no ensino quanto na pesquisa, e diversos pesquisadores têm se aprofundado no tema trazendo discussões muito pertinentes sobre seu uso e modos de construção (Muylaert et al, 2014; Evangelista, 2011). De acordo com os estudos de Jovchelovich & Bauer (2002), compreendem-se entrevistas narrativas como um percurso que parte de questões exmanentes (questões da pesquisa ou de interesse do pesquisador) a questões imanentes (as questões trazidas pelos participantes). Esse movimento estabelece uma cooperação entre pesquisador/a e pesquisado/a, considerando que os significados vão emergindo na interação dialógica. Os professores e professoras que
participaram desse processo relataram como percebem as suas atuações nos Programas Pró-Saúde e PET-Pró-Saúde, relacionadas com suas experiências anteriores na própria instituição e em situações vivenciadas no âmbito do Ministério da Saúde: as fortalezas, os nós críticos e as contradições foram trazidas com bastante força, mobilizando sentimentos e afetos.
3.1.2 A Análise Documental
A análise documental foi desenvolvida em três dos quatro estudos realizados: DOCÊNCIA EM SAÚDE: PROPOSTAS, CONCEPÇÕES E PRÁTICAS DE FORMAÇÃO/DESENVOLVIMENTO, PROFESSORES INICIANTES E PROFESSORES EXPERIENTES EM PROPOSTAS INOVADORAS NA GRADUAÇÃO EM SAÚDE: UM ESTUDO SOBRE FORMAÇÃO E DOCÊNCIA E INOVAÇÃO e REDES DE FORMAÇÃO DOCENTE EM SAÚDE: POR ENTRE PESQUISAS, EXPERIÊNCIAS E SABERES.
Moraes, Guimarães & Guarido (2007) afirmam que a expressão análise documental carrega os conceitos de análise e de documento: análise porque liga-se à decomposição dos conteúdos e informações; e documento posto que é registro. Considerada como uma técnica exploratória bastante valiosa, a análise documental permite desvelar aspectos novos de um tema ou problema, utilizando diversos documentos para obter possibilidades de compreensão do agir humano (Ludke & André, 1986; Bogdan & Biklen, 1994; Denzin & Lincoln, 2006). Para Spink (2013) e Medrado (2013), quaisquer formas de registro humano, como livros, arquivos, notas
autobiográficas, produções de organizações públicas, atas, fitas de vídeo, fotografias e jornais são consideradas documentos. Os documentos podem ser definidos como o conjunto de informações registradas num suporte; são materiais escritos que se constituem em práticas discursivas, com
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representação de valores, saberes e fazeres diferentes, e que explicitam diferentes comportamentos humanos, num determinado momento sócio-histórico.
A opção de ouvir as falas dos documentos que registrassem experiências de formação docente assentou-se no entendimento de que os registros dos movimentos e demandas existentes num dado momento institucional constituíam-se de fontes privilegiadas para a compreensão dos caminhos que a formação docente assume em diferentes contextos institucionais.
Ao narrar as incursões no campo da análise documental, possibilitando uma apropriação maior dos sentidos trazidos pelos documentos (projetos pedagógicos, registros de encontros docentes, propostas formativas), aprendendo que na pesquisa documental trava-se uma batalha no corpo, marcado pela história de forma a fazer a escrita de outras histórias abertas às multiplicidades das maneiras de viver e de ser (Lemos et al, 2015, p. 468).
3.1.3 A Revisão Sistemática da Literatura
Na pesquisa REDES DE FORMAÇÃO DOCENTE EM SAÚDE: POR ENTRE PESQUISAS, EXPERIÊNCIAS E SABERES, empreendemos a revisão sistemática de literatura na perspectiva de apreender as vozes de artigos publicados em periódicos nacionais que tematizassem a formação docente em saúde. A revisão sistemática de literatura é uma técnica científica que ocorre por meio de uma revisão planejada que responde a uma pergunta específica e utiliza métodos explícitos e sistemáticos para identificar, selecionar e avaliar criticamente os estudos, diminuindo através de sua estratégia científica o viés na seleção de estudos, permitindo sintetizar estudos sobre problemas relevantes de forma objetiva e reproduzível por meio de método científico, traçando um panorama do assunto. Para esse estudo, nos fundamentamos em Mulrow (2018), Muñoz et al (2002), Galvão, Sawada &Trevizan (2004), Cook & Mulron (2018). Escolhemos as bases de dados LILACS e SciELO, visto que compreendem grande número de publicações nacionais da área da saúde. Os descritores selecionados para a aplicação na base de dados LILACS foram inicialmente formação, docente e saúde. Foram analisados seus significados no DeCS – Descritores em Ciências da Saúde –, criado para uso na indexação de artigos de revistas científicas, livros, anais de congressos, relatórios técnicos e outros tipos de materiais, assim como na pesquisa e recuperação de assuntos da literatura científica nas bases de dados LILACS e outras.
3.2. Os Processos de Análise de Dados
Faz-se fundamental explicitar como compreendemos o processo de análise de dados qualitativos: é o processo de construção de sentido além dos dados, e essa construção se dá consolidando, limitando e interpretando o que as pessoas disseram e o que o pesquisador viu e leu, isto é, o processo de formação de significado. A análise dos dados é um processo complexo que envolve retrocessos entre dados pouco concretos e conceitos abstratos, entre raciocínio indutivo e dedutivo, entre descrição e interpretação. (Taquette, 2016) As falas dos professores e professoras, os trechos dos documentos analisados e as informações captadas da revisão sistemática foram analisadas e relacionadas aos objetivos da pesquisa e aos referenciais teóricos usados na mesma. As análises realizadas tiveram o propósito de dar visibilidade aos posicionamentos dos sujeitos, documentos, artigos, rupturas e permanências na produção dos diversos sentidos a respeito da formação docente e docência em saúde, configurando a construção de uma rede interpretativa. Procuramos entender o contexto, as razões e as lógicas de falas, ações e inter-relações entre grupos e instituições. (Ginsburg, 1990)
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Os dados compuseram um panorama complexo e multideterminado ao qual adentramos com as ferramentas da análise de conteúdo, do tipo temática (Franco, 2008).Esse percurso analítico fundamenta-se na perspectiva de Minayo (2010), que afirma ser a interpretação o ponto de partida (porque se inicia com as próprias interpretações dos participantes) e é o ponto de chegada (porque é a interpretação das interpretações). Ao percorrer os itinerários da análise de conteúdo, do tipo de temática, buscamos o rigor na aplicação dos procedimentos analíticos.
4 Conclusões: potências da pesquisa qualitativa a investigação sobre a formação
docente em saúde
A tessitura da produção e da análise dos dados possibilitou um eixo estruturante quando se assume a pesquisa qualitativa como fundamento epistemológico e metodológico das investigações realizadas e nessse trabalho, discutidas: a pesquisa qualitativa como uma construção em rede. Uma rede construída entre pessoas e partícipes de tempos históricos comuns pode ser apreendida quando da realização de entrevistas semi-estruturadas e das entrevistas narrativas, pois demandou a sensibilização dos participantes, bem como a escuta sensível dos pesquisadores frente a fatos/ocorrências/eventos/evocações que, ao serem trazidos no percurso da captação dos dados, mostraram-se como dispositivos para significar a docência em saúde e os processo formativos vividos. As vozes docentes expressaram pluralidade e diversidade e uma condição comum expressou-se como singular: pesquisadores e participantes partilham do cotidiano da docência em saúde e as entrevistas foram experienciadas como encontros em que circularam ideias, crenças, frustrações e projetos. Aqui se inscreve um caminho que analisamos como potente na construção da rede: a criação de contextos investigativos colaborativos e de significação partilhada. As vozes dos documentos exigiram que, para além das resignificações intersubjetivas, as meso e macrodeterminação da docência em saúde ( políticas institucionais, políticas públicas, diretrizes curricualres, dentre outras) pudessem ter visibilidade e ampliassem as possibilidades de compreensão da produção do próprio ser docente em saúde. Os movimentos de tecer as relações entre os documentos, as experiências docentes e possíveis desdobramentos e/ou ecos em políticas públicas de formação docente exigitam movimentos de captação de dados e análise que ao “ler”o documento, fossem empreendidos movimentos de contextualização, amplificação e imersão nas sigularidades dos espaços institucionais.
As vozes da revisão sistemática da literatura agregaram novos fios na tessitura da rede investigativa sobre formação docente em saúde, trazendo indícios/rastros que imbricaram recortes do objeto de estudo, autores privilegiados, escolhas metodológicas e principais conclusões. A rede em construção, dessa forma, pode ser tensioanda por opções de pesquisa que a despeito de assumirem a pesquisa qualitative, em vários momentos, adotou a dimensão da quantificação como métrica principal. A triangulação empreendida e analisada no presente trabalho – vozes docentes, vozes dos documentos e vozes ad revisão sistemática – mostra-se potente pela diversidade de procedimentos e instrumentos de produção de dados, bem como corrobora com a relevância da análise de conteúdo como caminho analítico, em que pese ter sido o único caminho de análsie percorrido nos diferentes estudos. Nesse sentido, os pesquisadores identificam que produziram na rede em cosntrução contradições e silêncios que demandam a continuidade de investigações: que outros caminhos analíticos podem ser percorridos? Como aprofundar as vozes dos docentes por meio das entrevistas recorrentes e articulando com observação participante e pesquisa ação?
O desafio da pesquisa qualitiativa sobre o desenvolvimento docente em saúde emerge com vigor quando se situa a formação docente em saúde em perspectiva: uma pesquisa que seja promotora
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de uma perspectiva de produção rigorosa do conhecimento científico, visto que é histórica; promotora de aprendizagens significativas, posto que são humanas; promotora de inserções críticas nos diferentes espaços da produção de saberes.
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