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O papel do psicólogo junto ao adolescente em conflito com a lei

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Academic year: 2021

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Políticas e Saúde Coletiva - Belo Horizonte – vol. 2, nº 04, novembro de 2017 pag. 42

O papel do psicólogo junto ao adolescente

em conflito com a lei

The psychologist’s role with the teenager’s lawbreaker

Ana Lívia Amaral* Cristina Alvarenga

Andréia Ribeiro Sabrina de Pedro Lacerda

Rogéria Araújo Gontijo

Resumo: este artigo tem por finalidade retratar o adolescente em conflito com a lei.

Será dado enfoque ao trabalho do psicólogo apresentando as práticas psicológicas utilizadas frente às constantes mudanças sociais nas últimas décadas até a atualidade. Busca-se elucidar o perfil psicossocial destes adolescentes que praticaram atos infracionais e encontram-se submetidos a processos judiciais e em cumprimento de medidas sócio-educativas. Abordar-se-á o trabalho do psicólogo junto aos adolescentes infratores, em especial a medida de internação. O mapeamento desta realidade terá como método empírico através de entrevistas realizadas, método bibliográfico e documental, analisando-se o material aferido, e vislumbrando como o psicólogo lida com este adolescente em conflito com a lei. Estes trabalhos foram realizados pelos psicólogos em conjunto com uma equipe multiprofissional, sendo o trabalho interdisciplinar. A atuação do psicólogo é respaldada em três eixos: o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), o Estatuto da Criança e do Adolescente

*Discente no curso de Psicologia da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. [email protected]

Discente no curso de Psicologia da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. [email protected]

Discente no curso de Psicologia da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. [email protected]

Discente no curso de Psicologia da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. [email protected]

Docente do Curso de Psicologia da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. [email protected]

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(ECA) e o Código de Ética do Psicólogo. O PIA, plano individual de atendimento, parte integrante do SINASE, visa um acolhimento do adolescente e seu amparo em seus múltiplos aspectos (avaliação inicial nas áreas: jurídica, psicológica, social, pedagógica e de saúde; acesso a programas de escolarização, esporte, saúde, cultura, lazer, profissionalização e de assistência religiosa; garantia de condições adequadas de habitação, alimentação e vestuário; acesso a documentação). Este estudo tem como foco o trabalho do psicólogo com o adolescente que está na internação visando sua responsabilização frente aos seus atos. O alicerce da atuação do psicólogo junto a estes adolescentes encontra-se na escuta do sujeito singularizado e subjetivado.

Palavras-chave: adolescente; ato infracional; responsabilização; práticas psicológicas;

medida sócio educativa de internação.

Abstract: this articleis intended to discussing the teenager in conflict with the law. It

will be mentioned the work of the psychologist presenting the psychological practices used in the face of the constant social changes in the last decades until the present time. It is sought to mention the psychosocial profile of adolescents who commit infractions and are subject to legal proceedings and in compliance with socio-educational measures. The psychologist's work will be approached with the adolescent offenders, especially the institutionalization measure. The mapping of this reality will have as empirical method through interviews, bibliographical and documentary method, analyzing the measured material, and glimpsing how the psychologist deals with this adolescent in conflict with the law. These works were carried out by the psychologists together with a multiprofessional team, being the interdisciplinary work. The psychologist's work is supported by three axes: the National Socio-Educational Care System (SINASE), the Child and Adolescent Statute (ECA) and the Psychologist's Code of Ethics. The PIA, individual service plan, which is an integral part of SINASE, aims to welcome adolescents and their support in their multiple aspects (initial assessment in the areas of: legal, psychological, social, pedagogical and health, access to schooling programs, health, culture, leisure, professionalization and religious assistance, guaranteeing adequate housing, food and clothing, access to documentation). This study focuses on the work of the psychologist with the adolescent who is hospitalized with a view to being responsibility to his actions. The base of the performance of the psychologist with these adolescents lies in the listening of the individual and subjective subjectivated.

Keywords: adolescent; infraction; responsibility; psychological practices; institutionalization’s socio-educational measure.

Introdução

Não há como falar em Bem-Comum sem falar do Bem-Estar individual que cada sujeito, em particular, pode experimentar ao longo de sua vida. A Psicologia, ciência nova, porém rica e desafiadora em seus muitos percursos multiprofissional e interdisciplinar, vem a cada instante mostrando direcionamentos, atravessamentos e

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articulações tirando o profissional de um lugar confortável e transportando-o para outro nada estável, onde se depara com as grandes e constantes transformações sociais ocorridas nestes últimos anos.

O objetivo deste trabalho é estudar-se o universo do psicólogo engajado junto ao tratamento e amparo do adolescente em conflito com a lei durante o cumprimento de medidas socioeducativas de internação. Para tal foi realizada entrevista com Psicólogos atuantes neste setor, além da análise bibliográfica referente ao tema.

Durante este trabalho realizado pelos psicólogos entrevistados constatou-se que tal abordagem com os adolescentes ocorre através de um estudo multiprofissional e interdisciplinar. O adolescente é acompanhado periodicamente por diversos profissionais e uma vez a cada três meses esta equipe se reúne para discutir entre as diversas formas de tratamento a serem ministradas com o sujeito.

A importância da presença do profissional da psicologia, na equipe multidisciplinar que acolhe este adolescente, encontra-se na capacidade de observar o sujeito através de um olhar ímpar. A escuta deste adolescente e este olhar do psicólogo, possibilitam uma compreensão do sujeito mais singularizada e subjetivada frente ao ato que este cometeu. Busca-se a dificuldade do sujeito que o levou a prática de tal ato e a compreensão de seus conflitos através de um autoconhecimento auxiliado em sua jornada pelos psicólogos.

Metodologia

Para a elaboração deste trabalho, realizou-se uma pesquisa bibliográfica e documental, na qual foram consultados artigos e livros de vários autores e legislações, que serão referenciados ao final deste estudo. Para a coleta de alguns dados foi utilizada a pesquisa empírica lançando-se mão da abordagem qualitativa. Para tanto, realizou-se uma entrevista com profissionais psicólogos que trabalham com adolescentes em conflito com a lei na medida sócio-educativa de internação. A entrevista foi gravada e transcrita, com autorização do Conselho de Saúde, e, após esse processo, foi realizada a luz da analise do discurso, termo instituído por Bardin (1977), uma amostragem dos dados da oitiva destes adolescentes. Visou-se selecionar os trechos essenciais, sem que seu conteúdo fosse alterado.

O que vem a ser adolescência

A adolescência é um período da vida marcado por grandes mudanças fisiológicas, psicológicas, pulsionais, afetivas, intelectuais e sociais experienciadas em um determinado momento histórico-cultural. Trata-se de um momento descobertas, conflitos, escolhas e incertezas, onde ocorrem fenômenos subjetivos, familiares e sociais estão envolvidos nesse processo permeado por mudança (PAPALIA; OLDS, 2010).

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A adolescência é uma construção social que vem coberta de características específicas. O jovem hoje descrito é diferente do jovem de outros tempos. O contexto atual de juventude começou a ser moldado nos meados do século XX, quando o jovem passou de coadjuvante para ator principal. Inicia-se uma exaltação deste jovem que não se enquadra mais como criança e ainda não é um adulto. Stanley Hall foi o primeiro em 1904 que se aventurou a escrever e demarcar tal fase. Seria, desta forma, uma fase entre a infância e a vida adulta, onde o adolescente passa por uma série de transformações físicas e psicológicas.

ssas sociedades reconhecem um longo período de transição conhecido como

adolescência, uma transição no desenvolvimento entre a infância e a idade adulta

que envolve grandes e interligadas mudanças físicas, cognitivas e psicossociais. (PAPALIA; OLDS, 2001, p.310).

A perspectiva temporal do adolescente mudou com o passar dos anos. As características dos dias atuais apresentam-se menos previsíveis, e desta forma os planos de vida estão mais ligados à autonomia do indivíduo. Nas sociedades do passado, havia dúvidas quanto ao futuro devido às epidemias, guerras, etc., mas a posição de cada um na vida se tornava bastante previsível pela história da família e pelo contexto social.

Para o adolescente moderno, a questão da incerteza da idade é amplificada por outras nuances que derivam desse leque de perspectivas, como a vasta disponibilidade de possibilidades sociais e de situações nas quais manifestam o livre-arbítrio.

Freud (1996) preferiu o termo puberdade à adolescência. Segundo ele, em seu 3º Ensaio da Teoria da Sexualidade, neste período se atualizariam as fantasias construídas na infância que permaneceram latentes até então. Aqui haveria o afrouxamento dos laços familiares, bem como o desligamento da autoridade dos pais.

A adolescência dura quase uma década, aproximadamente dos 12 ou 13 anos até o início dos 20 anos. Não há definição clara para seu ponto de início ou fim. Geralmente considera-se que a adolescência inicia-se na puberdade, o processo que leva à maturidade sexual, ou fertilidade – capacidade de reprodução psicossocial (PAPALIA; OLDS, 2001, p.310).

O novo contexto social vivido hoje debaixo do reinado do capitalismo “selvagem”, coloca as relações familiares e sociais fragilizadas, vulneráveis e consequentemente suscetíveis a inúmeros fatores de risco, daí as novas angústias dos adolescentes. Pode-se destacar aqui a baixa autoestima, a falta de autocontrole, comportamento antissocial, o uso de álcool e drogas ilícitas, isolamento social, dentre outras.

Hoje, os adolescentes têm a necessidade de testar limites. Para Calligaris (2000) a adolescência seria uma moratória entre a infância e a vida adulta. Este interregno poderia gerar um conflito, uma crise, pois o adolescente não é mais uma criança,

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entretanto, ainda não é aceito no mundo dos adultos. Assim, “ele tenta impor pela força, ou mesmo pela violência, o que aparentemente não é ouvido” (CALLIGARIS 2000). O autor ainda acrescenta que “existe uma parceria de adolescência e delinquência, porque o adolescente, por não ser reconhecido dentro do pacto social, tentará ser reconhecido ‘fora’ ou contra ele”.

Histórico da Legislação Sobre Criança e Adolescente no Brasil

Em 1926, passou a vigorar o Código de Menores que previa a impossibilidade de recolhimento à prisão comum ao menor de dezoito anos que houvesse praticado ato infracional;

Em 1940, com o advento do Código Penal, fixou-se o limite da inimputabilidade aos menores de 18 anos, os quais não seriam submetidos a processo criminal e sim a procedimento e normas previstas em legislação especial;

Em 1969, o Decreto-Lei 1004 voltou a adotar o caráter da responsabilidade relativa dos maiores de 16 anos, de modo que a estes seria aplicada a pena reservada aos imputáveis com redução de 1/3 até a metade, se fossem capazes de compreender o ilícito do ato por eles praticados;

Em 1973, a Lei 6016 modificou novamente o texto do art. 33 do Código de 1969, de modo que voltou a considerar os 18 anos como limite da inimputabilidade penal. Em 1979, o Código de Menores, instituído pela Lei nº 6697, disciplinou a lei penal de aplicabilidade aos menores. No âmbito da assistência e da proteção alcançou avanços significativos na legislação brasileira;

Em 1988, com o advento da Constituição Federal, esta corroborou, em seu art. 228, os arts. 1º, II e 41, § 3º do então Código de Menores, vigente ainda à época, no sentido da inimputabilidade penal dos menores de dezoito anos;

Em 1990, surge a Lei 8069 - o Estatuto da Criança e do Adolescente - que veio garantir proteção integral à criança e ao adolescente, passando a considerá-los como pessoas de direitos e em condições peculiares de desenvolvimento. Nessa perspectiva o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), além de direitos e garantias, trouxe as medidas socioeducativas adequadas à realidade.

Conceitos e Legislação Atual

 Criança e adolescente: Considera-se criança a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos, e, em alguns casos, entre dezoito e vinte e um anos de idade. Art. 2º, ECA.

 Ato infracional: Considera-se ato infracional a conduta descrita como crime ou contravenção penal. Art. 103, ECA. Esta denominação aplica-se aos inimputáveis.  Inimputável: Aquele que não pode responder por si judicialmente. Art. 228, CF e

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 A Constituição Federal de 1988, em seu art. 227, traz os compromissos sociais do Estado, da sociedade e da família para com a criança e o adolescente. E em seu parágrafo 3º, inciso V, traz que “o direito à proteção especial abrangerá obediência aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, quando da aplicação de qualquer medida privativa de liberdade”.

 O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 5º, reza: Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punindo na forma da Lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Com o advento do ECA (Estatuto da Criança e Adolescente), criou-se a expressão ‘ato infracional’. A partir deste marco o legislador passou a denominar o menor infrator (expressão em desuso) como sendo o autor de atos infracionais, nos moldes do art. 103 deste diploma legal. Art. 103: considera-se ato infracional a conduta descrita como crime ou contravenção penal.

Medidas Socioeducativas

As medidas socioeducativas são determinações dadas por autoridades competentes - Juízes das Varas da Infância e Juventude - a adolescentes que cometeram atos infracionais.

Traz o Art. 112 do ECA: “Verificada a prática de ato infracional, a autoridade competente poderá aplicar ao adolescente as seguintes medidas:

 Da advertência – Art. 115, ECA.

 Da obrigação de reparar o dano – Art. 116, ECA.

 Da prestação de serviços à comunidade - Art. 117, ECA.  Da liberdade assistida - Art. 118, ECA.

 Do regime de semiliberdade - Art. 120, ECA.

 Da internação - Constitui medida privativa da liberdade, sujeita aos princípios da brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.

Será permitida a realização de atividades externas. A medida deve ser reavaliada no máximo a cada seis meses e o período máximo de internação não excederá a três anos. Atingido este limite, o adolescente deverá ser liberado, colocado em regime de semiliberdade ou de liberdade assistida. A liberação será compulsória aos vinte e um anos de idade.

A medida de internação só poderá ser aplicada quando: tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência à pessoa; por reiteração no cometimento

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de outras infrações graves; por descumprimento reiterado e injustificável da medida anteriormente imposta.

A internação deverá ser cumprida em entidade exclusiva para adolescentes, em local distinto daquele destinado ao abrigo, obedecida rigorosa separação por critérios de idade, compleição física e gravidade da infração. Serão obrigatórias atividades pedagógicas.

São direitos do adolescente privado de liberdade, entre outros:

Ser tratado com respeito e dignidade; receber visitas, ao menos, semanalmente; habitar alojamento em condições adequadas de higiene e salubridade; receber escolarização e profissionalização; realizar atividades culturais, esportivas e de lazer; ter acesso aos meios de comunicação social; receber assistência religiosa, segundo a sua crença, e desde que assim o deseje. Arts.121 a 124, ECA.

“É dever do Estado zelar pela integridade física e mental dos internos, cabendo-lhe adotar as medidas adequadas de contenção e segurança.” Art. 125, ECA. Art. 101 do ECA nos traz:

Verificada qualquer das hipóteses previstas no art. 98 (As medidas de proteção à criança e ao adolescente são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nesta Lei forem ameaçados ou violados), a autoridade competente poderá determinar, dentre outras, as seguintes medidas:

I. encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de responsabilidade;

II. orientação, apoio e acompanhamento temporários;

III. matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino fundamental;

IV. inclusão em programa comunitário ou oficial de auxílio à família, à criança e ao adolescente;

V. requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em regime hospitalar ou ambulatorial;

VI. inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamento a alcoólatras e toxicômanos.

VII. acolhimento institucional;

VIII. inclusão em programa de acolhimento familiar; IX. colocação em família substituta.

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Políticas e Saúde Coletiva - Belo Horizonte – vol. 2, nº 04, novembro de 2017 pag. 49 O adolescente e o ato infracional

O adolescente não nasce infrator. Nesta perspectiva ele é um produto do meio, havendo possibilidade de modificação dessa realidade com a intervenção de vários segmentos societários articulados, escutando esse sujeito e seus familiares.

O adolescente, dentro de sua condição de “invisibilidade”, procura maneiras para “mostrar-se visível”, devolvendo à sociedade o que dela recebeu: violência. Como exemplo podemos citar o caso do adolescente Sandro do ônibus 174, onde há toda uma construção histórica de sua vida e de suas mazelas. Neste documentário observa-se que o adolescente sentiu-se poderoso, visto, valorizado, especialmente pela projeção que a mídia lhe conferiu.

É relevante que estudemos os conflitos vivenciados pelos adolescentes e o caráter punitivo ou socioeducativo das medidas de que são alvo. É preciso entender que as causas da violência praticada por esses adolescentes estão na própria sociedade, bem como na estrutura familiar em que se encontra inserido. Devemos considerar especialmente os fatores psicológicos e estruturas psíquicas que se desenvolvem num indivíduo frente à realidade de uma sociedade excludente, sendo que o adolescente é tanto vítima quanto vitimizador.

Mas como os psicólogos lidam com estes adolescentes? Quais são as razões motivadoras de tais delitos? Qual seria o papel do psicólogo neste processo de reconhecimento e reestruturação deste adolescente em conflito com a lei? Como o psicólogo trabalha com o sujeito e o reconhecimento de seus atos? Como o psicólogo o auxilia neste percurso de autoconhecimento e recuperação?

O psicólogo juntamente com uma equipe interdisciplinar, promove a escuta do adolescente e seus familiares. Nesta jornada, conta com o apoio das redes públicas através do Centro de Referência Especializada de Assistência Social (CREAS), Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), liberdade assistida, Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPs ad), bem como a rede de saúde mental representada pelo Centro Psíquico da Infância e Adolescência (CEPAE) situado em Belo Horizonte, para os casos de transtornos psíquicos nos adolescentes, já que neste município não há órgãos específicos para tal fim. Tal rede de apoio ao adolescente compõe uma rede de incompletude institucional, ou seja, diversas instituições trabalhando em conjunto.

O foco será mapear o papel do psicólogo no trato com estes adolescentes submetidos a medidas sócio-educativas de internação. Para estes casos mais graves o Estado disponibiliza nos Centros Socioeducativos, psicólogos destinados à ressocialização destes menores infratores à sociedade.

A contribuição da Psicologia

No Brasil, o acompanhamento psicológico ao adolescente infrator inicia-se, em geral, somente após a aplicação da medida sócio-educativa. Este menor é encaminhado por

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um juiz a um centro de acompanhamento composto por psicólogos e assistentes sociais que vão fazer um mapeamento de “quem é este jovem” e todos os acontecimentos de sua vida que o levaram até aquele momento.

O trajeto judicial percorrido pelo adolescente em conflito com a lei inicia-se no momento em que este pratica uma conduta tipificada pelo Código Penal. Após o delito, se o menor for surpreendido em flagrante, será detido de pronto por uma autoridade. Se a autoria do fato for desconhecida somente ocorrerá à apreensão em momento posterior, após o devido processo legal. Em caso de flagrante delito os pais são comunicados juntamente com o Ministério Público, e mediante um termo circunstanciado, onde os genitores se responsabilizam pelo comparecimento do adolescente ao judiciário, quando requisitado, o menor é liberado. Se, contudo, por motivo de segurança pessoal ou por motivo de ordem pública entender o juiz em não liberar o menor, este permanecerá detido em local apropriado por prazo não superior a 45 dias. Neste prazo de 45 dias, prevê a lei que o juiz deverá sentenciar o adolescente aplicando-lhe uma penalidade. Cabe esclarecer que enquanto o adolescente encontra-se à disposição do juízo, deverá permanecer em local apropriado; na inexistência desse local o adolescente será alojado em cela separada dos adultos. Após ser proferida a sentença o menor deverá ser liberado, ou permanecerá sob a custódia do Estado em local apropriado e com o devido acompanhamento de uma equipe multidisciplinar.

O papel do psicólogo neste processo entre o cometimento do delito e o término do cumprimento da sentença inicia-se com uma entrevista realizada com o menor, seus familiares, escola, conselho tutelar, dentre outros, buscando-se informações sobre este adolescente. Após esta investigação articulada monta-se um relatório que é encaminhado ao juiz para que este analise as possíveis razões que poderiam ter levado o adolescente a cometer um ato infracional, para assim poder definir eventuais estratégias de intervenção.

O Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), possibilita que as instituições governamentais e não governamentais que executam as medidas socioeducativas passam a contar com referenciais comuns, diretrizes mínimas a serem adotadas em todo o território nacional. O SINASE é o conjunto ordenado de princípios, regras e critérios, de caráter jurídico, político, pedagógico, financeiro e administrativo, que envolve desde o processo de apuração de ato infracional até a execução da medida socioeducativa (CFP, 2010).

Entre os jovens que cometem atos infracionais, a literatura vem demonstrando que estes apresentam em sua maioria características comuns, quais sejam:

Violação persistente de normas e regras sociais, comportamento desviante das práticas culturais vigentes, dificuldade para socializar, uso precoce de tabaco, de drogas e bebidas alcoólicas, história de comportamento antissocial, envolvimento em brigas, impulsividade, humor depressivo, tentativas de suicídio, ausência de sentimento de culpa, hostilidade, destruição de patrimônio público, institucionalização, incidentes de atear fogo, vandalismo, rejeição por parte de

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professores e colegas, envolvimento com pares desviantes, baixo rendimento acadêmico, fracasso e evasão escolar (GALLO, 2008).

A intenção do Estado é para que este adolescente seja readaptado e não volte a cometer delitos, entretanto apenas com as medidas de segurança não se está obtendo êxito. Para alcançar tal intento seria necessário um acompanhamento durante todo o período do cumprimento de tais medidas sócio-educativas, visando minimizar os impactos sofridos até aquele momento por este menor amparando-o psicologicamente. Este trabalho deve ser feito também com os familiares dos adolescentes para obter-se melhores resultados. Um trabalho preventivo, especialmente o psicológico, deveria ser desenvolvido mais profundamente nas escolas. É mais fácil através do meio acadêmico perceber-se um desvio comportamental ou atitudes antissociais e violentas, devendo tal adolescente ser amparado neste momento. Hoje a realidade é diversa não dispondo as escolas, em sua grande maioria, de profissionais habilitados (psicólogos e assistentes sociais) para fazer tal interferência oportuna.

Um estigma que deve ser rompido e evitado através do acompanhamento psicológico é a rotulação destes adolescentes. Termos utilizados pela sociedade e por eles próprios, por exemplo, “eu sou um 121, eu sou um 157, eu sou um 22” (tipos penais) trazem uma significância negativa e pejorativa. Os psicólogos atuam no intuito de desconstruir tais rótulos.

Há de se esclarecer que a violência entre os adolescentes não está restrita aos menores desamparados por suas famílias ou aos púberes com menor renda aquisitiva. O conflito com a lei pode abarcar qualquer jovem, independentemente de sua situação econômica ou ambiente familiar estruturado. Tal assertiva pode ser confirmada pelo crescente número de crimes cometidos por adolescentes oriundos de famílias com um poder aquisitivo privilegiado e supostamente bem estruturadas.

Considerações Finais

Após abordagens teóricas e empíricas, documentais e bibliográficas consideramos que a Psicologia, em sua busca pelo bem comum, articulando-se com vários segmentos profissionais, vem se destacando ao promover a responsabilização destes jovens em conflito com a lei perante a sociedade, através de oficinas e outras frentes de trabalho. O Estado, através da legislação, assegura direitos e garantias aos adolescentes, mas não oferece condições de efetivação desses direitos e garantias, porque o ensino público oferecido e a saúde pública são de má qualidade, há uma enorme taxa de desemprego, famílias com baixíssimas remunerações, fome, grande desigualdade social, o que contribui bastante para a exclusão deste jovem, levando-o ao cometimento das infrações.

A sociedade é extremamente preconceituosa e cria uma barreira para a reintegração do adolescente, posto que ela não tenha a visão de que esse adolescente não é apenas

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vitimizador, mas também vítima. O adolescente que chega a delinquir é aquele que por vezes já se encontra à margem da sociedade. A rejeição social e o preconceito são barreiras difíceis de serem transpostas, o que dificulta a reinserção adequada deste jovem ao meio social comum a todos os demais indivíduos.

Muitas vezes, o início da vida infracional se explica na violência social (precarização das condições mínimas de desenvolvimento e sobrevivência). É muito difícil reconhecermos o cidadão, o ser humano, que existe por trás do indivíduo autor de ato infracional, porque analisamos o ato isoladamente, e não dentro de um contexto social. Há uma necessidade imperiosa de uma conscientização social para auxiliar estes adolescentes em conflito com a lei no seu regresso à sua comunidade de forma harmoniosa. O preconceito e a indisposição social predispõem e impulsionam a reincidência criminal. Apenas quando houver esta conscientização é que poderemos nos aproximar de uma construção sociocultural adequada e do resgate dos adolescentes em situação de risco. Hoje estes direitos e garantias do adolescente são constitucionalmente assegurados visando sempre à obtenção de um bem comum.

Este artigo não tem a pretensão de esgotar o tema proposto, sendo apenas uma pequena abordagem da questão em voga.

Referências

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, LDA, 1977.

BRASIL, Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, Lei Federal 8.069, de 13/07/90. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p.

BRASIL. Sistema Nacional de Atendimento socioeducativo (SINASE). Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, 2006.

CALLIGARIS, C. A Adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000.

CFP-Conselho Federal de Psicologia. Referências técnicas para atuação de

psicólogos no âmbito das medidas socioeducativas em unidades de internação.

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FREUD, S. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Trad. J. Salomão. In: _____.

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Rio de Janeiro: Imago, 1996, v.7, p.119-231. (original de 1905).

GALLO, A. E. Atuação do psicólogo com adolescentes em conflito com a lei: a experiência do Canadá. Psicol. Estud, v. 13, n. 2, p. 327-334, 2008. Disponível em:

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PAPALIA, D.E.; OLDS, S. O mundo da criança: da infância à adolescência. Porto Alegre: AMGH, 2010.

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