Sociologia

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Texto

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Sociologia

Paul B. Horton

Chester L. Hunt

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Tradução de

A uriph ebo Barranca Simões

Revisor Técnico

Sérgio Pessoa de Barros Micelli Prof. da Fundação Getúlio Vargas

McGRAW-HILL São Paulo

Rua Tabapuã, 1.105, Itaim-Bibi CEP 04533

(011) 881-8604 e (011) 881-8528

Rio de Janeiro • Lisboa • Porto • Bogotá • Buenos Aires • Guatemala • Madrid • México • N e w York • Panamá • San Juan • Santiago

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Sociology

Copyright © 1964, 1968, 1972, 1976 by McGraw-Hill, Inc.

Copyright © 1980 da Editora McGraw-Hill do Brasil

1981

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ED ITO R A M C G R A W -H ILL DO BRASIL

Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, guardada pelo sistema “ retrieval” ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, seja este eletrônico, mecânico, de fotocópia, de gravação, ou outros, sem prévia autorização por escrito da Editora.

Planejamento Visual da Capa: Minoru Naruto

C IP-Brasil. C atalogação-na-Fonte C âm ara B rasileira do Livro, SP

H orton, P au l Burleigh, 1916-

H812s Sociologia / P aul B. H o rto n & C hester L. H u n t; tradução de A uriphebo B errance Simões; revisor técnico Sérgio Pessoa de B arros M icelli. — São Paulo : M cG raw -H ill do Brasil, 1980.

Bibliografia.

1. Sociologia I . H unt, C hester Leigh, 1912- II. T ítulo.

80-0201 CDD-301

índice p ara catálogo sistem ático: 1. Sociologia 301

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Sum ário

Prefácio IX

Um — Sociologia e Sociedade 1

1. A ciência e a busca da verdade 3

Algumas fontes da verdade 3

Características do conhecimento científico 6 Observação - a técnica básica do método

científico 8

0 método científico de investigação 14 Métodos normativos de investigação 14

Sociologia como ciência 14

0 desenvolvimento da Sociologia 15

Sumário 15

Perguntas e trabalhos 16

Leitura sugerida 16

2. Campos e métodos da Sociologia 19

0 campo da Sociologia 19

Os métodos da pesquisa sociológica 21 Algumas dificuldades na pesquisa sociológica 26 0 debate sobre o empirismo positivista 28

Sociologia pura e aplicada 28

Os papéis do sociólogo 29

0 estudo da Sociologia 33

Sumário 35

Perguntas e trabalhos 35

Leitura sugerida 35

Dois — Cultura e Personalidade 37

3. Estrutura da cultura 39

Cultura como sistema de normas 41

Estrutura da cultura 44

Etnocentrismo 46

Relativismo cultural 50

Cultura real e ideal 51

Cultura e ajustamento humano 53

Sumário 54 Perguntas e trabalhos 55 Leitura sugerida 55 4. Evolução da cultura 57 Desenvolvimento da cultura 58 Evolução social 63 Sumário 67 Perguntas e trabalhos 68 Leitura sugerida 68 5. Personalidade e Socialização 71 Significado da personalidade 71

Fatores no desenvolvimento da personalidade 71

Socialização e o eu 77

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Perguntas e trabalhos 84

Leitura sugerida 85

6. Papel e status 87

Socialização através de papel e status 87

Status atribuído e adquirido 89

Tens2o motivada por papéis 93

Revolta contra a atribuição de status e papel 98

Sumário 100

Perguntas e trabalhos 100

Leitura sugerida 101

7. Controle social e desvio social 103

Controle social e ordem social 104

Desvio social 111 Sumário 122 Perguntas e trabalhos 123 Leitura sugerida 124 Três — Organização Social 126 8. Grupos sociais 127 O grupo e o indivíduo 129

Algumas das principais classificações de

grupo 130

Tendência moderna à associação em grupos

secundários 135 Dinâmica de grupo 138 Sumário 142 Perguntas e trabalhos 142 Leitura sugerida 143 9. Instituições sociais 145

Desenvolvimento das instituições 147

Traços institucionais 148

Funções institucionais 149

Inter-relações das instituições 150

Função dual dos intelectuais 151

Estruturas institucionais 152

Instituições religiosas 152

Instituições educacionais 156

Instituições governamentais e econômicas 158

Sumário 161 Perguntas e trabalhos 162 Leitura sugerida 162 10. A família 165 Estrutura da família 166 Funções da família 170

A família norte-americana em mudança 172

Evolução da família 178 Futuro da família 182 Sumário 183 Perguntas e trabalhos 184 Leitura sugerida 184 11. Organizações formais 187 Associações voluntárias 188 Estruturas organizacionais 191 A tendência à oligarquia 192 Natureza da burocracia 193

Liberdade versus sujeição 197

Dinâmica organizacional 199

Sumário 199

Perguntas e trabalhos 200

Leitura sugerida 201

12. Classe social 203

Existem classes sociais? 204

O que é classe social? 204

Gênese das classes sociais 205

Tamanho de cada classe social 212

Significância das classes sociais 214

Futuro das classes sociais: do “proletariado”

aos “caçadores de status” 222

Sumário 226

Perguntas e trabalhos 226

Leitura sugerida 227

13. Mobilidade social 229

Natureza da mobilidade social 229

Mobilidade e estrutura social 231

Processo da mobilidade social 235

Custos e ganhos da mobilidade 242

Mobilidade e igualdade 243

Sumário 245

Perguntas e trabalhos 246

Leitura sugerida 246

Quatro — Interação Social 249

14. Processos sociais 251

Natureza dos processos sociais 251

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S U M A R IO V II

Competição 254 Aspectos sociais e culturais da mudança

Conflito 257 populacional

Alternativas ao conflito 261 Fome e a reação triagem

Encadeamento sistêmico 266 Perspectivas da população

Sumário 267 Sociologia da morte

Perguntas e trabalhos 268 Sumário

Leitura sugerida 268 Perguntas e trabalhos

Leitura sugerida

15. Poder social 271

19. A comunidade na sociedade

Natureza do poder social 271 de massa

Poder da elite Poder organizacional

Poder social de massas nffo-organizadas Sociologia do Direito Sumário Perguntas e trabalhos Leitura sugerida 272 278 282 284 286 287 288 A comunidade rural A comunidade urbana Convergência rural e urbana Futuro das cidades

Sumário Perguntas e trabalhos Leitura sugerida 343 347 352 354 355 356 356 359 360 365 375 376 377 378 379

16. Raça e relações étnicas 289

Conceito de raça 289

Visão científica das diferenças de raça 291 Resposta da minoria à Patologia 295 Padrões de relacionamentos étnicos 297 Fatores determinantes de padrões étnicos 309

Perspectivas para o futuro 310

Sumário 311

Perguntas e trabalhos 312

Leitura sugerida 313

17. Comportamento coletivo na sociedade

de massa 315

Natureza do comportamento coletivo 316

Comportamento de multidão 316

Sociedade de massa 325

Comportamento de massa 326

Públicos e opinião pública 329

Sumário 332

Perguntas e trabalhos 333

Leitura sugerida 334

Cinco — Ecologia Humana 335

18. População 337

Conceitos demográficos 337

Composição da população em mudança 338

Migração 341

Seis — Mudança Social e Política

Social ' 381

20. Mudança social e cultural 383

Processos de mudança social 384

Fatores na taxa de mudança 387

Resistência e aceitação quanto à mudança

social 390

Desorganização social e pessoal 395

Planejamento social: A mudança pode ser

dirigida? 400 Sumário 401 Perguntas e trabalhos 401 Leitura sugerida 402 V 21. Movimentos sociais 403

Natureza e definição de movimentos sociais 403 Situações sociais que propiciam movimentos

sociais 404

Suscetibilidade pessoal a movimentos sociais 407

Tipos de movimentos sociais 411

Ciclo de vida dos movimentos sociais 418

Avaliação 419 Sumário 420 Perguntas e trabalhos 420 Leitura sugerida 421 Bibliografia 423 Glossário 451 índice Onomástico 457 índice Analítico 471

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P refácio

0 que um livro didático de introdução à Sociologia deve procurar fazer? Primeiramente, e da maior impor­ tância, acreditamos que deve captar o interesse do estudante e demonstrar tanto o processo como o desafio da observação e análise científica do comportamento social, de maneira agradável e fácil de ler.

Em segundo lugar, tal livro deve buscar cultivar no estudante o hábito da análise científica de dados sociais. A menos que os estudantes consigam uma consciência sofisticada de seu próprio etnocentrismo e uma certa habilidade para objetivar suas observações, o curso de Sociologia terá falhado em um de seus principais objetivos.

Terceiro, um livro didático de introdução à Socio­ logia deve apresentar os conceitos básicos e as matérias descritivas da Sociologia de modo claro e inteligível. Estes conceitos devem ser ilustrados tão vividamente que “se tornam vivos” e passam a ser parte do vocabu­ lário mental do estudante. Os conceitos não devem ser aprendidos simplesmente como definições para decorar, mas sim como nomes exatos e descritivos das maneiras pelas quais as pessoas agem e das coisas que constroem. Os conceitos são muito mais do que um vocabulário profissional a ser usado em estudos avan­ çados: são até mais importantes como instrumentos para identificar e entender um processo ou idéia. Muitos estudantes de Sociologia constatarão que o curso intro­ dutório é também um curso terminal e que os conceitos

básicos devem ser instrumentos para observação e análise sociais continuadas.

Neste livro didático procuramos fazer isso. Se logramos êxito ou não, cabe ao leitor julgar. De modo geral, evitamos fontes esotéricas em favor de outras mais facilmente ao alcance da maioria dos estudantes. Muitas vezes usamos fontes literárias e populares para finalidades de ilustração. Assim o fizemos para enfatizar que a Sociologia é a observação e a análise disciplinada da vida cotidiana e que seus conceitos e introvisões são aplicáveis a tudo o que se passa ao redor do estu­ dante.

Notamos que alguns livros didáticos recentes contêm muito poucas notas de rodapé ou citações. É verdade que tais notas e citações realmente tumultuam um livro. Porém, acreditamos que os estudantes devem ser constantemente relembrados quanto às evidências em que se apóiam as conclusões da Sociologia. Portanto, recorremos amplamente à documentação com vistas a apresentar a Sociologia como uma disciplina cientí­ fica e erudita e não como um exercício em jornalismo popular.

Nesta nova edição incorporamos pesquisas recentes mas sem eliminar de maneira deliberada as pesquisas e as teorias anteriores relevantes, simplesmente para obtenção de um cabeçalho mais atual. Tentamos des­ crever desenvolvimentos novos e controvertidos em Sociologia de modo analítico e objetivo, sem descambar

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em expedientes de proselitismo que não nos parecem válidos em um livro didático de introdução.

Buscamos minimizar a superposição com outros cursos de Sociologia. Este livro n ío é uma enciclopédia disfarçada do currículo inteiro de Sociologia. Intencio­ nalmente, não realçamos a vertente dos “problemas sociais”, por acreditarmos que o curso introdutório deve concentrar-se em princípios e conceitos, deixando tópicos especializados e materiais específicos a cargo de cursos posteriores.

Esta quarta edição é a revisão mais extensa de nosso livro. Os capítulos Instituições Sociais, Classe Social, Mobilidade Social, Raça e Relações Étnicas e População, foram bastante reescritos e quase todos os capítulos sofreram revisões substanciais. Procuramos eliminar vocabulário e análise sexistas. *

* No original sexist, derivado de sexism, ambos termos de nova cunhagem. Sexismo é discriminação baseada no sexo de uma pessoa; especificamente, abrange atitudes e práticas contra as mulheres em empresas, política, artes etc. (N. do T.)

Muitos instrutores podem tirar proveito do Manual, preparado pelos autores, contendo uma vasta gama de sugestões de ensino e um suprimento variado de perguntas e questões objetivas para exame e reflexão, em cada um dos capítulos.

Para esta quarta edição de Sociologia, o Study Guide

and Source Book, que a acompanha, teve a revisão

de Bruce J. Cohen. Durante o estudo e revisão, muitos estudantes julgam útil dispor de uma fonte de matérias correlatas e um padrão de medida para aquilatarem sua mestria nas matérias do texto.

Sentimo-nos gratos a muitas pessoas, especialmente à assessoria da McGraw-Hill por sua competência dedi­ cada, a numerosos de nossos colegas por suas críticas francas e valiosas sugestões, a Bruce J. Cohen por sua cuidadosa preparação dos materiais de apoio e a Frederick J. Ashby por seus desenhos imaginativos.

Paul B. Horton Chester L. Hunt

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UM / SOCIOLOGIA E

SOCIEDADE

Há séculos que os povos têm ponderado sobre as sociedades que

desenvolveram. Alguns de nossos documentos mais antigos,

remontando a cinco mil anos ou mais, registram tais esforços para

analisar e entender a ordem social. Nesta busca, os povos têm

procurado a verdade, recorrendo a muitas fontes, usando muitos

métodos, algumas vezes com grande sucesso e, de outras, nem tanto.

Algumas das fontes da verdade encontram-se descritas no Capítulo 1,

"A Ciência e a Busca da Verdade". Este capítulo mostra que, embora

cada fonte de verdade tenha seus usos, somente através de

investigação científica é que se pode chegar a um conhecimento

confiável a respeito da sociedade humana. O Capítulo 2, “ Campos e

Métodos da Sociologia", diz como os métodos científicos são usados

na investigação sociológica. Todos os fenômenos podem ser estudados

cientificamente, mas as técnicas de estudo precisam estar ajustadas

aos materiais estudados. O Capítulo 2 descreve de que modo os

sociólogos procuram fazer esta adaptação.

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1. A ciência e a bu sca da verd ad e

Em nossa época e por alguns séculos no porvir, para o bem ou para o mal, as ciências, físicas e sociais, serio em grau cada vez maior o ponto de referência aceito em relação ao qual a validade (Verdade) de todo o conhecimento é aquilatada. (G. A. Lundberg. Can Science Save Us? 2 ? edição, Londres, Longmans, Green. p. 36.)

Sociologia: Estudo sistemático do desenvolvimento, estrutura, interação e comportamento coletivo de grupos organizados de seres humanos. (Webster's New Collegiate Dictionary. G. & C. Merriam Co., 1975.)

D

epois de elaborada preparação, um patologista coloca um slide no microscópio e ajusta a lente cuidadosamente. Um grupo de guerreiros Purari toma muito cuidado quando coloca

a canoa na água, porque, se ela não balançar, a incursão não terá êxito. Um homem desce de seu novo carro

utilitário, corta um galho em forquilha, vagueia levan­ do-o suspenso acima do solo, enquanto uma equipe que perfura poços aguarda que o tênue galho diga onde será encentrada a água. Em Feoria, ansiosa pela filha que ainda não tem vinte anos, uma mulher reza pedindo orientação a Deus. Um médico percorre as páginas de um livro de Parasitologia procurando iden­ tificar a esquisita erupção na pele de seu paciente. Um senador esquadrinha os resultados da última sondagem de opinião pública ao mesmo tempo em que pondera sobre como votar no anteprojeto de lei agrícola.

Cada uma destas pessoas está procurando orientação. Seus problemas variam e suas fontes de verdade são diferentes. Onde é que os seres humanos encontrarão a verdade? Como podem saber que a encontraram?

Sociologia: Disciplina intelectual concernente ao desenvolvimento sistemático, conhecimento confiável a respeito das relações sociais humanas em geral e sobre os produtos desses relacionamentos... (Thomas Ford Hoult. Dictionary of Modern Sociology. Totowa, N. V., Littlefield, Adams, 1969. p. 307.)

Sociologia é a apreensão do que todos sabem e sua colocação em palavras que ninguém pode entender.

(Anônimo)

Nos milhSes de anos, mais ou menos, de nossa vida na Terra, temos procurado a verdade em muitos lugares. Quais são alguns deles?

Algumas fontes da verdade

Intuição

Galeno, famoso médico grego do século II d.C., preparou um gráfico elaborado do corpo humano, que mostrava exatamente onde poderia ser penetrado sem que houvesse ferimento fatal. Como é que ele sabia quais eram os pontos vulneráveis? Ele apenas

sabia. Na verdade, ele tinha aprendido uma boa parte

da anatomia humana através de suas observações e das de seus associados; mas, além disso, confiava em que sua intuição lhe diria que zonas eram fatais.

Intuição é qualquer lampejo de introvisão (certa ou errada) cuja fo n te o receptor não pode identificar ou

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explicar totalmente. Hitler confiava muito em sua

intuição, para grande desespero de seus generais. Sua intuição lhe disse que a França n ío lutaria pela Renânia, que a Inglaterra nío lutaria pela Tchecoslováquia, que a Inglaterra e a França nío defenderiam a Polônia e que esses dois países desistiriam quando ele atacasse a Rússia. Ele estava certo nas duas primeiras introvisões e errado nas duas últimas.

A intuiçío é responsável por muitas hipóteses bri­ lhantes que posteriormente podem ser testadas por outros métodos. Talvez o maior valor da intuiçío esteja na formação de hipóteses. Como fonte de conheci­ mento, de conclusões, a intuiçío é menos satisfatória. Em verdade, algumas vezes a intuiçío toma a forma de um salto sagaz para uma conclusío sólida, com base em uma massa de experiência e informaçío semi-relem- bradas. Mas, de que modo tal conhecimento intuitivo pode ser testado e verificado? Com freqüência nío pode. Anaxímandro defendeu uma teoria da evoluçío no século VI a.C., mas nío foi senío no século XIX d.C., que foram encontrados os fatos indicando que sua teoria era essencialmente correta. Muitas vezes o conhe­ cimento intuitivo nío pode ser testado na ocasiío em que é apresentado. Algumas vezes nío pode ser testado, absolutamente, ou pelo menos até que seja muito tarde para que possa fazer qualquer diferença, como, por fim, Hitler o descobriu.

Autoridade

Há dois mil anos, Galeno sabia mais a respeito de anatomia humana do que qualquer outro mortal; tio recentemente quanto em 1800, os médicos ainda o citavam como autoridade. Atribui-se a Aristóteles a sugestío de que se pode juntar um barril de água a um barril de cinzas sem que haja transbordamento e, durante dois mil anos, daí por diante, um estudante que sugerisse fazer tal experiência seria repreendido por sua impertinência. Durante muitos séculos o pensa­ mento criativo foi sufocado pela autoridade aristoté- lica, porque, já que uma autoridade está certa, quaisquer idéias conflitantes têm de estar erradas. A autoridade nío descobre novas verdades, mas pode impedir que a nova verdade seja descoberta ou aceita.

Por mais perigosa que uma autoridade possa ser, n ío podemos passar sem ela. Nossa acumulaçío de conhecimento é excessivamente grande para que qualquer pessoa o absorva, e por isso precisamos confiar em especialistas que coletaram conhecimento confiável em um determinado campo. Uma autoridade é uma fonte necessária e útil de conhecimento - no

campo em que essa pessoa é uma autoridade. A ciência

não reconhece autoridades para as “coisas em geral” .

L.SM ITH, r p.n D. BROm/N, D.D. n.a d a m s, a n H.S.CZUK, M.D T B IA C K . D.C. A.DiCW W MMH P.ST0NE, D.S.C P.N.EARIY, W>.S L.W0N6,M.6,FACS T .Z IN N I. AS.C

Ü J U

O problema do leigo é encontrar uma autoridade qualificada.

A autoridade é de diversas espécies. A autoridade

sagrada repousa sobre a fé de que uma certa tradiçío

ou documento — a Bíblia, o Alcorão, os Vedas — é de origem sobrenatural. Ou é a fé de que um certo grupo ou instituiçío — os curandeiros, os padres, a Igreja — está constantemente recebendo orientaçío sobrenatural. A autoridade secular surge nío da revelação divina, mas da percepção humana. É de duas espécies: autori­ dade cientifica secular e autoridade humanista secular, com base na crença de que certos “grandes homens” tiveram notável introvisío no comportamento humano e na natureza do universo. A busca da verdade pela consulta de “grandes livros” é um exemplo do apelo à autoridade humanista secular.

Alguns campos — serviços de aconselhamento e psicológicos, saúde e dieta, por exemplo — sío tumul­ tuados por muitas “autoridades” auto-estabelecidas, sem treinamento profissional para o que fazem. É provável que a mais reputada das autoridades se tome um tolo incompetente1 quando vai além de sua espe­

1 Nota sobre o problema do sexismo em livros didáticos:

Todos os autores e editores estão perfeitamente cônscios do ressentimento disseminado contra o sexismo em livros didáticos. Os termos “hom em ” , “ele” , “ dele” , “seu” , são comumente usados para fazer referência à raça humana inteira e ao sexo masculino. A língua inglesa tem falta de um conjunto de equi­ valentes neutros para esses termos. Algumas vezes, termos tais como “indivíduo” , “ pessoa” ou um plural podem ser usados, mas amiúde isso ocasiona certo embaraço e falta de clareza. O uso repetido de “ ele ou ela” ou de “ele/ela” tam bém é embaraçoso e interfere no livre curso das idéias. Mas o uso que muitos percebem como insultuoso tam bém interfere com o livre curso das idéias. Os autores deste livro de ensino estão bem cônscios deste problema e eliminaram quase todos os usos genéricos dos term os do gênero masculino.

Deverão as anedotas e ilustrações mostrar mulheres nos papéis que elas realmente ocupam (dona de casa, mãe, garço- nete, secretária, enfermeira etc.)? Retratar as mulheres unica­

m ente em tais papéis estereotipados seria objetável. Tal uso

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A C IÊ N C IA E A BU SCA D A V E R D A D E 5

cialidade. O general que pontifica sobre a prevenção do crime, o executivo empresarial que endossa uma moda passageira sobre alimentos, o médico que dá receitas para problemas entre os trabalhadores e os responsáveis pela administração — cada um desses indivíduos está fazendo de si próprio um tolo. E pode estar fazendo o mesmo em relação a seus interlocutores.

O leigo (e cada pessoa é leiga em todos os campos, exceto no de sua especialidade) nâó tem escolha; ele ou ela tem de confiar em uma autoridade, já que ele ou ela não pode tornar-se um experto (uma experta?)* em tudo. É presunção do leigo discordar das autori­ dades qualificadas sobre uma questão em que elas chegaram a um acordo. 0 problema do leigo é como encontrar e reconhecer uma autoridade qualificada numa dada área de interesse.

Todavia, nenhuma autoridade científica tem a palavra final sobre o conhecimento humano. O cientista respeita a autoridade qualificada, mas ainda questiona seus pressupostos básicos e verifica suas conclusões. Uma pessoa considerada como experto em dado campo merece ter seus pontos de vista seriamente considerados, mas o peso da autoridade não fecha a porta a investi­ gação ulterior. A autoridade científica de hoje é o trampolim para a pesquisa de amanhã. Desta forma, o conhecimento cresce, convertendo inexoravelmente os pronunciamentos “finais” de hoje nos pontos inter­ mediários e ruelas transversais ao longo da estrada do conhecimento em expansão.

Tradição

De todas as fontes da verdade, a tradição é uma das mais tranqüilizadoras. Nela está acumulada a sabedoria das idades, e a pessoa que a desconsidera pode esperar

a limitar as escolhas da mulher. Todavia, retratar as mulheres

som ente em papéis não-convencionais (astronautas, engenheiras,

motoristas de caminhão) seria uma distorção da realidade, porque se estaria falhando em “dizer as coisas como as coisas são” . Este livro procura evitar a formação inconsciente de estereótipos que ajudam a “aprisionar” as mulheres, ao mesmo tem po em que tam bém se esforça em não construir “estereó­ tipos invertidos” que distorceriam a verdade de um modo inaceitável em um livro didático.

* O term o “experta” entre parênteses é do tradutor. Faço o registro louvável da intenção dos autores mas, por razões óbvias, nem sempre poderei ser tão fiel quanto seria desejável. Já nas questões pronominais nesta nota de rodapé, foi necessário introduzir uma certa modificação. A língua portuguesa tam bém não dispõe de muitos neutros e quando é feito uso de um termo no gênero masculino, está sendo abrangido o tão apre­ ciado outro - o feminino. O costume é tão velho quanto o m undo e, quando este nasceu, certamente não existia o conceito de sexismo. (N. do T.)

ser qualificada como desatinada ou tola. Se um certo padrão “funcionou” no passado, por que não continuar a usá-lo?

A tradição, porém, preserva tanto a sabedoria acumu­ lada como a parolagem vazia do passado. A tradição é o sótão da sociedade, entulhado com todas as espécies de costumes úteis e relíquias inúteis. Uma grande parte da “experiência prática” consiste em repetir os enganos de nossos ancestrais. Uma tarefa da Ciência Social é fazer uma separação entre o que é verdade e o que é meramente antigo.

Bom senso

Durante milhares de anos o bom senso das pessoas lhes disse que a te.ra era achatada e que os grandes objetos caem mais depressa do que os pequenos, que a pedra e o ferro eram minerais perfeitamente sólidos e que o verdadeiro caráter era traído pelas caracterís­ ticas faciais; no entanto, hoje sabemos que nenhuma dessas assertivas é verdadeira.

Quando nãó sabemos de onde vêm nossas idéias ou em que se baseiam, algumas vezes chamamo-las de “bom senso”. Se as chamamos de bom senso não preci­ samos prová-las, porque, então, os outros se juntarão a nós no auto-engano de supor que elas já foram provadas. Se alguém faz pressão para uma prova, diz- se-lhe que a idéia já foi prosada pela experiência. 0 termo “bom senso” coloca uma fachada respeitável em todas as espécies de idéias para as quais não há massa sistemática de evidência que possa ser citada.

A TRADIÇÃO E O BOM SENSO DIZEM:

Os homens são intelectualmente superiores às mu­ lheres.

Os resfriados são causados por friagem e pés molha­ dos.

O caráter de uma pessoa transparece no rosto. Quem trapaceia nas cartas trapaceia nos negócios. Poupe a chibata e estrague a criança.

O gênio, ou o quase-gênio, geralmente é franzino, não é prático, é instável e não tem êxito.

A literatura pornográfica encoraja crimes e perversões sexuais.

A raça negra é especialmente talentosa em música, mas inferior em intelecto.

A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA CONSTATA QUE: Nenhum sexo é superior em capacidades intelectuais herdadas.

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Os resfriados são causados por vírus, embora a expo­ sição ao frio possa diminuir a resistência.

Não existe correlação definida entre as características faciais e as da personalidade.

A honestidade em uma situação pouco diz sobre o comportamento de uma pessoa em uma situação diferente.

Os delinqüentes sérios usualmente têm sido punidos com mais severidade do que a maioria dos não-delin­ qüentes.

O grupo de gênios e quase-gênios está acima da média em saúde, ajustamento emocional e renda.

Não existe prova de correlação entre consumo de literatura pornográfica e comportamento sexual desa­ provado.

Os cientistas nío encontram evidência convincente de diferenças em capacidades raciais inatas.

O bom senso e a tradição se acham estreitamente entrelaçados, com muitas proposições de bom senso tornando-se parte do saber tradicional de um povo. Se tiver de ser estabelecida uma distinção, esta pode ser que as verdades tradicionais são aquelas em que há muito se acredita, ao passo que as verdades do bom senso são conclusões aceitas sem crítica (recentes ou antigas), em que atualmente acreditam pessoas de características idênticas.

O que freqüentemente passa por bom senso é a acumulaçío de conjeturas coletivas de um grupo e aprendizagens a esmo de ensaio e erro. Muitas propo­ sições do bom senso sío bocados de conhecimento sólido, grosseiros, úteis. “Uma resposta suave afasta a ira” e “Quem se parece se junta” sío observações práticas da vida social. Mas muitas conclusões do bom senso se baseiam em ignorância, preconceito e inter­ pretação errônea. Quando os europeus medievais perceberam que os pacientes febris estavam livres de piolhos, o que já não ocorria com a maioria das pessoas saudáveis, tiraram a conclusão de bom senso de que o piolho curava a febre e, por isso, salpicavam de piolhos a cabeça dos pacientes com febre. Enquanto esta não baixasse os piolhos não eram eliminados. O bom senso, assim com a tradição, preserva tanto a sabedoria do povo como sua falta de senso, e fazer a triagem é uma tarefa para a ciência.

Ciência

Somente nos últimos duzentos ou trezentos anos é que o método científico se tornou um modo comum de buscar respostas a respeito do mundo natural. A ciência passou a ser a fonte de conhecimento sobre

nosso mundo social em época ainda mais recente; e, no entanto, no breve período desde que começamos a confiar no método científico, aprendemos mais a respeito de nosso mundo do que tinha sido aprendido no dez mil anos precedentes. A espetacular explosío de conhecimento no mundo moderno encontra para­ lelo em nosso uso de métodos científicos. O que torna o método científico tio produtivo? De que modo é diferente dos outros métodos de procurar a verdade?

Características do conhecimento científico

Evidência verificável

O conhecimento científico baseia-se em evidência verificável. Por evidência queremos dizer observações fatuais concretas que os outros observadores podem ver, pesar, medir, contar ou verificar quanto à exatidío. Podemos pensar que a definição é excessivamente óbvia para mencionar; a maioria de nós tem certa cons­ ciência do método científico. Entretanto, há apenas alguns anos os eruditos medievais mantinham longos debates sobre quantos dentes tinha um cavalo, sem se darem ao trabalho de abrir a boca do animal para contá-los.

A esta altura, levantamos a perturbadora pergunta metodológica: “O que é um fato?” Conquanto a palavra pareça enganosamente simples, não é fácil distinguir um fato de uma ilusão largamente partilhada. Supo­ nhamos que definimos um fato como um enunciado

descritivo sobre o qual todos os observadores quali­ ficados estão de acordo. Por esta definição, os fantasmas

medievais eram um fato, já que todos os observadores da época concordavam que os fantasmas eram reais. Portanto, não existe maneira de se estar certo de que um fato é uma descrição exata e não uma impressão errônea. A pesquisa seria mais fácil se os fatos fossem certezas confiáveis, inabaláveis. Já que não o são, o melhor que podemos fazer é reconhecer que um fato é um enunciado descritivo da realidade que, depois de

exames cuidadosos e muitas reverificações, os cientistas concordam em acreditar que é exato.

Tendo em conta que a ciência se baseia em evidência fatual verificável, ela somente pode tratar de questões sobre as quais pode ser encontrada evidência. Perguntas como: “Deus existe?”, “Qual o propósito e o destino da raça humana?” ou “O que faz uma coisa ser bonita?”, não são questões científicas porque não podem ser tratadas fatualmente. Essas questões podem ser terrivel­ mente importantes, mas o método científico não dispõe de instrumentos para tratar delas. Os cientistas podem estudar as crenças humanas a respeito de Deus, do destino humano oú da beleza, ou de qualquer outra coisa, e podem estudar as conseqüências pessoais e

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sociais dessas crenças; são, porém, estudos do compor­

tamento humano, sem qualquer tentativa para estabe­ lecer a verdade ou o erro das próprias crenças.

Portanto, a ciência não tem respostas para tudo e muitas questões importantes não são científicas. O método científico é nossa fonte mais confiável de conhecimento fatual a respeito do comportamento humano e do universo natural, mas a ciência, depen­ dendo de evidência fatual verificável, não pode res­ ponder a perguntas sobre valor, estética ou propósito e significado final, ou fenômenos sobrenaturais. As respostas a tais perguntas precisam ser procuradas na Filosofia, Metafísica ou Religião.

A evidência consiste em fatos verificáveis.

Cada conclusão científica representa a interpretação mais razoável de todas as provas disponíveis — mas amanhã podem aparecer outras. Por conseguinte, a

ciência não tem verdades absolutas. Verdade absoluta

é aquela que se manterá verdadeira em todos os tempos, lugares ou circunstâncias. Toda verdade científica é tentativa, sujeita a revisão à luz de nova evidência. Algumas conclusões científicas (por exemplo, que a Terra é um esferóide, ou que os impulsos inatos são condicionados culturalmente) baseiam-se em uma massa tão grande e coerente de evidência, que os cientistas duvidam que jamais venham a ser derrubadas por nova evidência. E, no entanto, o método cientí­ fico exige que todas as conclusões permaneçam abertas a reexame toda vez que se constata que a nova evidência as contesta.

Esta receptividade à nova evidência é fácil de enunciar, mas nem sempre tão fácil de manter. Os cientistas também são seres humanos; apesar de seu compromisso para com a imparcialidade, algumas vezes recusam-se a examinar uma nova evidência se esta colidir com as tradições científicas estabelecidas. Os colegas de Galileu recusaram-se a olhar através de seu telescópio e ver as luas de Júpiter; Lavoisier insistia em que pedras (meteoritos) não podiam cair do ar porque não havia nenhuma lá; todos os cientistas da Academia de Paris disseram que o fonógrafo de Edison era uma impostura porque a voz humana não podia

ser reproduzida a partir de um disco. A circulação do sangue, de Harvey, os micróbios, de Pasteur, e o desco­ brimento de Simmelweis de que os médicos disseminam a febre puerperal foram rejeitados durante muitos anos após sua descoberta. Um levantamento mais recente [Warner, 1938]2 verificou que muitos dos psicólogos que rejeitaram as constatações de Rhine sobre a per­ cepção extra-sensorial não havia lido publicação alguma de sua pesquisa. Manter uma disposição de mentalidade aberta para examinar nova evidência é tarefa tão difícil que até os cientistas nem sempre logram êxito.

Neutralidade ética

Ciência é conhecimento e este pode ser posto em diferentes usos. A fissão atômica pode ser usada para dar energia a uma cidade ou para incinerar uma nação. Cada uso de conhecimento científico envolve uma escolha entre valores. Nossos valores definem o que é mais importante para nós. A ciência nos diz que o excesso de calefação e o hábito de fumar encurtarão nossa expectativa de vida. Mas será que nos pode dizer o que devemos escolher: vida mais longa ou uma mais indulgente? A ciência pode responder a questões de fato, mas não tem maneira de provar que um valor é melhor que outro.

Por conseguinte, a ciência é eticamente neutra. Procura conhecimento, enquanto os valores da socie­ dade determinam de que modo se deve usá-lo. O conhe­ cimento a respeito de bactérias pode ser usado para preservar a saúde ou para a guerra bacteriológica. O conhecimento de organização grupai pode ser usado para preservar uma democracia ou para estabelecer uma ditadura.

Já que a ciência é eticamente neutra, nenhum campo de indagação é tão sagrado que não possa ser explorado. Algumas vezes as descobertas científicas destroem mitos reverenciados, erodem as instituições estabelecidas e contestam os valores apreciados. Quando Vesálio estava lançando os fundamentos da Anatomia pela dissecção do corpo humano, foi forçado a violar túmulos a fim de obter cadáveres para dissecar, já que o povo considerava o corpo humano como extrema­ mente “sagrado” para ser cortado. Há alguns anos, os estudos de Kinsey sobre o comportamento sexual humano e, mais recentemente, os de Masters e Johnson [1966; 1970] despertaram um coro de protesto dos que julgavam que o comportamento sexual humano é “muito íntim o” para indagação científica. Mas a ciência não reconhece perguntas “impróprias”. Quaisquer

2 As referências entre colchetes são das fontes descritas

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perguntas para as quais possa ser obtida uma evidência verificável é própria para a ciência. Esta atua sob a crença de que, se o conhecimento científico corrói crenças, instituições e práticas estabelecidas, estas precisam ser revisadas.

A ciência pode ser eticamente neutra, mas os cien­

tistas não o são. Cada cientista tem seu próprio sistema

de valores, que não pode divorciar totalmente de seu trabalho. E talvez não deva. Existe um agudo debate entre os cientistas sobre se suas disciplinas científicas devem ou não voltar-se para uma pesquisa neutra em busca de conhecimento ou para a consecução de deter­ minadas metas sociais. Por exemplo, deve um físico aceitar a missão de desenvolver uma bomba mais mortal ou deve o sociólogo mostrar a um governo opressivo e não-democrático como manter seu povo escravizado? Estas questões são discutidas no próximo capítulo, em uma seção sobre os papéis do sociólogo.

Observação — a técnica básica do método científico

A palavra “evidência” continua aparecendo aqui e ali nas discussões de método científico. O que é a evidência e onde se encontra? A evidência consiste em fatos verificáveis de todas as espécies e é encontrada através de observação científica. Mas esta não é a mesma coisa que olhar as coisas. Temos estado a olhar as coisas nossa vida inteira, mas esta atividade não nos faz observadores científicos, assim também como uma vida toda de matar moscas com uma baqueta não nos tom a entomologistas. Em que ponto a observação científica difere de apenas olhar as coisas?

Exatidão

A observação científica é exata. O observador cientí­ fico é extremamente cuidadoso em ter a certeza de que as coisas são exatamente como foram descritas. A declaração: “Meu quintal está cheio de árvores mortas”, é de exatidão incerta, salvo se as árvores foram exami­ nadas por um experto para haver certeza de que estão mesmo mortas e não apenas dormentes. A assertiva: “As famílias são maiores do que costumavam ser” , é de baixa exatidão. Que tamanhos de família e onde são maiores do que eram quando? Se dissermos: “A proporção de famílias norte-americanas com quatro ou mais filhos cresceu substancialmente na última década” , a assertiva é mais exata. A penosa verificação, reverificação e contraverificação para a obtenção de proposições cuidadosamente enunciadas constituem o preço da exatidão científica.

Precisão

A observação científica é precisa. A declaração: “Meu quintal está cheio de árvores mortas”, não é precisa, embora possa ser exata. O que se quer dizer com “cheio de” árvores mortas? Se a frase for: ‘Todas as árvores em meu quintal estão mortas” ou “Há vinte árvores mortas em meu quintal”, a assertiva ganha em precisão. Enquanto a exatidão se refere à verdade ou correção de uma assertiva, a precisão refere-se a

grau ou medida. Se a assertiva acima, a respeito de

tamanho de família, for revisada para se ler: “A pro­ porção de famílias norte-americanas com quatro ou mais filhos, atualmente vivendo com eles, aumentou de 6,6% de todas as famílias em 1948 para 11,1% em 1965, depois declinando para 8,6% em 1972”, teremos uma declaração mais precisa.

Em um experimento de laboratório o cientista pesa, mede, conta ou marca o tempo de cada desenvolvi­ mento com grande cuidado. Um relatório que dissesse: “Usei um pouco de água salgada quente, acrescentei uma pitada de sulfato de cobre e um pouco de ácido nítrico, deixei esfriar por uns m om entos.. . ”, seria quase inútil. Quanto de água? Quão quente? Quanto de sal, sulfato de cobre e ácido? Esfriar durante quanto tempo e até que temperatura? A menos que seja bastante precisa, uma observação é de valor limitado para a ciência.

Já que os relatos científicos buscam precisão, a ciência evita linguagem colorida ou extravagante. En­ quanto a literatura pode visar a despertar os sentimentos do leitor, a ciência visa a transmitir informação exata. As linhas de Tennyson: “A cada momento morre um homem; a cada momento nasce um ”, são boa literatura. Para que fossem boa ciência, deveriam ser: “No mundo inteiro, de acordo com as cifras de 1972, a cada 0,5956 segundos, em média, morre um homem, mulher, ou criança; a cada 0,2448 segundos, em média, nasce uma criança”. A redação literária pode ser intencional­ mente vaga, imprecisa e fantasiosa, estimulando o leitor a ponderar seu significado (por exemplo, se Hamlet estava realmente louco). O alcance dramático do novelista e as imagens provocativas do poeta não têm lugar na redação científica. Não obstante, a redação científica não precisa ser monótona e jamais deve caminhar através de uma massa insuportável de detalhes mal dispostos. A boa redação científica é clara, facil­ mente entendida por um leitor qualificado e obtém seu suspense de uma série legível de fatos e interpre­ tações significantes.

Quanto de precisão se necessita? Isto depende do que estivermos estudando. Na mensuração de átomos, um milionésimo de polegada pode constituir um erro muito grande, ao passo que em uma estação experi­ mental agrícola uma variação de algumas dezenas de

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centímetros talvez n ío tenha importância. Um cientista social poderia observar o comportamento de uma turba de “diversas centenas” de pessoas sem contá-las, assim como um entomologista pode descrever um “grande” enxame de abelhas sem contá-las. A ciência, porém, sempre busca tanta precisão quanto o determinado

problema exige. Se as condições da observação impos­

sibilitam este grau de precisão, o cientista deve suspender o julgamento até que possa conseguir observações mais precisas.

Sistema

A observação científica é sistemática. Uma investi­ gação científica define um problema e, depois, traça um plano organizado para coletar fatos a seu respeito. Suponhamos que a pergunta seja: “Qual a comparação entre a taxa de desistência de estudantes de faculdade que se casam quando ainda na faculdade e a de desis­ tentes solteiros?” Uma pessoa poderia tentar responder, simplesmente lembrando-se dos estudantes que conhe­ ceu; mas esta amostra seria pequena; poderia não ser típica; e a memória das pessoas é imperfeita. As conclusões baseadas em recordações casuais não são muito confiáveis. Se nosso plano de pesquisa solicita uma verificação sistemática nos registros da faculdade de diversos milhares de estudantes, nossas taxas de desistência para estudantes solteiros e casados baseiam-se em dados fatuais confiáveis. A menos que estes dados tenham sido coletados como parte de um programa sistemático e organizado de observação científica, provavelmente serão esporádicos e incompletos. As anedotas, as lembranças pessoais, as opiniões improvi­ sadas e as impressões de viagem podem sugerir hipóteses dignas de teste; mas nenhum cientista fundamentaria uma conclusão em tais dados.

Registros

A observação científica é registrada. A memória humana é notoriamente falível. Os dados que não são registrados n ío merecem confiança. Nenhum cientista de laboratório tentaria memorizar um experimento detalhado. Ele ou ela anota tudo completamente, regis­ trando cada operação e reação, de modo que os proce­ dimentos e constatações possam ser exatamente conhecidos e verificados por outros cientistas.

No campo do comportamento humano, a necessidade de observaçío registrada é menos totalmente compreen­ dida. Suponhamos que um professor tivesse de dizer: “Numerosos estudantes do sexo feminino se graduaram neste campo e, embora alguns executem trabalho exce­ lente, em média nío alcançam os estudantes do sexo

masculino”. O que, exatamente, este professor está dizendo? A menos que realmente tenha registrado e calculado os escores médios para os dois grupos, de fato está dizendo: “Lembrei-me — mentalmente — das notas de centenas de meus alunos e somei mental­ mente os escores, calculei mentalmente as médias para os alunos dos dois sexos; e constatei que a média feminina é mais baixa”. Tal feito de memória seria impossível. Todas as conclusões que se fundamentam na lembrança de uma massa de dados n ío registrados nío sío dignas de crédito.

De fato, tais conclusões baseadas em recordação informal podem ser piores que inúteis, porque geral­ mente expressam os preconceitos do observador, masca­ rados como conclusão científica. Já que a memória é imperfeita, muitas vezes “nos lembramos” das coisas do jeito que as preferimos e não como na realidade foram. O preconceito, o pensamento tendencioso e a atitude habitual, tudo opera para torcer nossas observações a fim de ajustar-se às nossas preferências. Por isso, é importante que a evidência seja registrada tão rapidamente quanto possível; quanto mais tempo esperamos, mais nossos preconceitos, preferências e reflexão posterior podem tê-la distorcido. Os seguintes relatos de um desastre, conforme a narração de um dos sobreviventes, mostram as mudanças progressivas feitas pelo tempo:

As memórias do homem a seu próprio respeito não são exatas. Um mês depois do naufrágio do

Litch /, interroguei os sobreviventes uma segunda

vez. As estórias tinham-se alterado — em certos casos radicalmente. Quando o barco explodiu, era honroso e aceitável que cada um salvasse a própria pele. Mais tarde, quando chegamos mais perto da civili­ zação e da sociedade normal, muitos homens se lembraram de alguma coisa nova, de como tinham lutado para salvar os outros, com risco da própria vida.

As notas que tomei de um sinaleiro, dez minutos depois que foi salvo, lêem: “Depois que saltei de bordo, nadei o mais rapidamente que pude, contra o vento, como o senhor sempre nos disse. Eu estava sem colete salva-vidas e fiquei assustado. Vi alguém flutuando com a cabeça sob a água. Era o s r .. . . Sua espinha estava quebrada; eu sabia disso pela maneira esquisita que ela formava um ângulo logo abaixo do pescoço. Disse a mim mesmo que, se estava morto, de nada valia ele estar desperdiçando seu salva-vidas. Tirei-lhe o salva-vidas, ao qual me agarrei. Não sei o que aconteceu ao corpo do sr. . . . ”

Quando entrevistei o mesmo homem um mês mais tarde, ele me disse isto: “Nadei afastando-me do barco tão rapidamente quanto pude. Nadei contra o vento como o senhor sempre nos disse. Vi alguém

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flutuando com a cabeça sob a água. Era o sr. . . . Embora sua espinha estivesse quebrada e sua cabeça submersa, calculei que um médico talvez pudesse fazer alguma coisa por ele. Puxei sua cabeça para fora da água e amarrei os cordões do salva-vidas sob seu queixo, de modo que a cabeça permanecesse no ar. Fiquei na água cerca de uma hora, apenas agarrando-me ao salva-vidas do s r .. . . para um descanso ocasional. Vi uma jangada a cerca de quinhentos metros. Pensei que nela talvez houvesse um médico ou um enfermeiro. Nadei até ela. O médico não estava lá. Remamos até onde o s r .. . . tinha estado, mas não encontramos sinal dele.” Encontrei o sinaleiro numa rua em Washington, há dois meses — cinco anos após o naufrágio do

Litch. Sua estória tinha mudado mais. Agora era

ele, sinaleiro, que estava com o salva-vidas. Quando viu que o sr. . . . tinha a espinha quebrada, o sina­ leiro despiu-se do salva-vidas e deu-o ao oficial ferido. “Eu sabia que ele estava morto, mas imaginei que talvez houvesse uma chance em mil de que ele pu­ desse ser salvo. Era meu dever tentar ajudá-lo, por isso, dei-lhe meu salva-vidas.” (William J. Lederer.

A li the Ships at Sea. Nova York, William Morrow,

1950. p. 203-204.)

Objetividade

A observação científica é objetiva. Isto significa que, tanto quanto seja humanamente possível, a obser­ vação não é afetada pela própria crença, preferências, desejos ou valores do observador. Por outras palavras,

objetividade significa capacidade para ver e aceitar os fatos como são e não como alguém poderia desejar que fossem. É bastante fácil ser objetivo quando

observamos algo sobre o que não temos preferências ou valores. E bastante fácil estudar objetivamente as práticas de cruzamento da mosca da fruta, mas menos fácil ver as práticas de cruzamento do ser humano, com frieza objetiva. Em qualquer matéria em que estejam envolvidas nossas emoções, crenças, hábitos e valores, é provável que vejamos o que quer que esteja de acordo com nossas necessidades e valores emocionais. Poucos norte-americanos, por exemplo, poderiam registrar uma descrição detalhada da atuação do sistema de família polígama sem incluir muitas palavras e frases que trairiam sua desaprovação. Se um conjunto de observações científicas for reportado objetivamente, o leitor não poderá dizer se o observador gosta ou não do que ele ou ela reportou. Entretanto, muitos expe­ rimentos têm demonstrado que até as mais simples de nossas observações são afetadas por nossos sentimentos e expectativas. Por exemplo, em uma investigação [Harvey, 1953] a maioria dos observadores julgou que

um disco branco, impresso com o nome “Eisenhower”, era maior do que os discos do mesmo tamanho com os nomes tirados aleatoriamente da lista telefônica; as crianças pobres geralmente atribuíam maior tamanho às moedas que as crianças de lares prósperos; e uma folha de árvore, feita com um pedaço de pano verde, foi julgada mais verde do que um pedaço do mesmo pano com a forma de um jumento.

Muitas perguntas que deveriam ser nitidamente científicas despertam violenta controvérsia, porque achamos difícil ser objetivos ou, até mesmo, ter a certeza de quando estamos sendo objetivos. A pergunta: “Fumar cigarros favorece o câncer do pulmão?” , não é uma pergunta científica impossivelmente difícil; e, no entanto, cada novo estudo provoca amarga reação emocional. Atualmente os dados são bastante conclu­ sivos, mas esta conclusão é desagradável para muita gente. A indústria do fumo, que pode tirar uma mon­ tanha de conclusão de um montículo de evidência científica, quando prepara alegações de propaganda, insiste em que precisamos de mais evidência antes de tirarmos conclusões sobre esta questão. Os fumantes de cigarros, com apetite para defesa, também estão praticando seu recém-descoberto hábito de reter julgamento até que haja mais dados em disponibilidade. Alguns ardentes batalhadores contra o cigarro “sabiam” da resposta muito antes de serem efetuados quaisquer estudos. Sobre esta questão poucos estão desinteressados e poucos podem ser totalmente objetivos.

Ser objetivo talvez constitua a mais pesada de todas as obrigações científicas. Não basta estarmos dispostos a ver os fatos como eles são. Precisamos conhecer nossos vieses para nos salvaguardarmos contra eles. Um viés é simplesmente uma tendência, usualmente

inconsciente, de ver os fatos de uma certa maneira, em conseqüência dos hábitos, desejos, interesses e valores da pessoa. Assim, em um incidente racial, um observador

vê um branco insultando ou abusando de um preto, enquanto outro observador vê um preto agindo presun­ çosa e provocadoramente. Um observador vê as pessoas negras afirmando corajosamente seus direitos

demo-Objetividade significa capacidade para ver e aceitar os fatos como são e não como alguém poderia desejar que fossem.

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cráticos, enquanto outro os vê fazendo exigências excessivas.

Raramente os fatos são tão indiscutíveis que o viés não os distorça. Percepção seletiva é a tendência de ver

ou ouvir somente os fatos que apóiam nossas crenças e omitir os demais. Muitos experimentos têm demons­

trado que a maioria das pessoas que observam uma situação social verá e ouvirá somente o que esperam ver e ouvir. Se a coisa que esperamos ver está ausente, nós a vemos mesmo assim! Isto foi demonstrado de modo impressionante em um famoso experimento [Allport e Postman, 1947], no qual se mostrou a obser­ vadores o quadro de um homem branco, mal vestido, segurando uma navalha aberta e discutindo violenta­ mente com um homem preto bem vestido cuja postura era apologética e conciliatória; depois, solicitou-se aos observadores que descrevessem a cena. Alguns “viram” a navalha na mão do preto, onde esperavam que esti­ vesse. Outros perceberam o quadro corretamente, mas passando adiante a descrição da cena (A descreveu-a a B, que a descreveu a C, e assim por diante), em breve fizeram com que a navalha estivessem na mão do preto, onde “devia estar” . Embora os observadores não estivessem emocionalmente envolvidos na situação, tivessem bastante tempo para estudá-la e fizessem um esforço consciente para serem exatos no que viram e reportaram ou ouviram, seus vieses inconscientes ainda levaram muitos deles a “ver” ou “ouvir” um fato ine­ xistente.

Quem é propenso a duvidar de que as pessoas amiúde vêem e ouvem o que esperam ver e ouvir, deve tentar um experimento simples. Em uma festa, cumprimente cada convidado que chega com um amplo sorriso, um cordial aperto de mão e a frase murmurada: “É uma pena que você esteja aqui esta noite”, e despeça-se de cada um que parte com: “Muito contente de que você tenha de ir embora tão cedo!” Muitos ouvirão o que esperam ouvir e não o que na realidade foi dito. Por isso é que, se uma pessoa está convicta de que os pretos são preguiçosos, os judeus agressivos e persis­ tentes, os negociantes fraudulentos ou os policiais brutais, ela raramente “vê” qualquer coisa que esteja em conflito com estas expectativas. O viés é como uma peneira que áó deixa passar aquilo que se supõe deva passar. O viés impede nossas percepções, em geral admitindo à nossa consciência unicamente as que concordam com os vieses.

Assim, algumas ameaças comuns à objetividade são interesses adquiridos, hábito e viés. A objetividade não chega facilmente a um observador, mas pode ser aprendida. Uma pessoa pode tornar-se mais objetiva quando se conscientiza dos vieses pessoais e dá margem para que sejam descontados. Por meio de rigoroso treinamento em metodologia científica, pelo estudo de muitos experimentos e notando uma boa quantidade

de exemplos de usos objetivos e não-objetivos de dados, um observador pode, por fim, desenvolver uma certa habilidade em penetrar muitas camadas de auto-engano e perceber fatos com maior grau de objetividade científica. O cientista também tem um outro aliado poderoso — a crítica dos colegas. O cientista publica trabalhos para que estes possam ser verificados por outros cientistas, que talvez não partilhem de seus vieses e que enfrentem o problema com um ponto de vista diferente. Este processo de publicação e crítica significa que o trabalho inferior em breve é revelado, e o cientista que permite que os vieses ditem os usos de dados está sujeito a severas críticas.

Ao redigir observações, o cientista usa linguagem objetiva. Por exemplo, consideremos estas assertivas:

O crescente comprometimento militar norte-ame­ ricano no Vietnã foi acompanhado de demonstrações de paz mais freqüentes e por debate público cada vez maior sobre a sabedoria desta política.

A crescente agressão norte-americana no Vietnã despertou um coro cada vez maior de indignação pública, por nossa negativa arrogante e brutal de autogovemo ao povo vietnamita.

Nossa determinação cada vez maior de evitar a escravização do Vietnã pelos comunistas foi moles­ tada pelo crescente frenesi de nossos próprios simpa­ tizantes comunistas e pelos apaziguadores de paz-a- qualquer-preço.

A primeira destas declarações está escrita em lingua­ gem neutra e descritiva do cientista social, ao passo que as outras duas são ardentemente partidárias. A redação polêmica pode ser apropriada em debates, mas não em ciência.

Nos últimos anos têm aparecido trabalhos polêmicos nas reuniões anuais das sociedades acadêmicas, tais como a American Sociological Association e nas novas revistas dedicadas à Sociologia “radical”. Nestes trabalhos, a objetividade, neutralidade e paixão rigorosa por exatidão são relegadas em favor de generalizações abrangentes e totalizantes, acusações estridentes e com­ prometimento apaixonado para com a ação social. Isto não significa que o método científico esteja mudando. Tais eventos refletem um debate que atualmente se desenvolve com violência em todas as ciências, sobre se o principal comprometimento dos autores é com o conhecimento científico ou com a ação social [Horton e Bouma, 1971].

Observação treinada

As observações científicas são feitas por observadores

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cruzando o céu, porém os observadores mais sofisti­ cados possuem certo conhecimento que lhes diz que nío é isso exatamente o que acontece. Os observadores nío-treinados nío sabem o que olhar ou como inter­ pretar o que vêem. N ío conhecem as armadilhas que conduzem à observação inexata, nem tampouco estão plenamente conscientes dos truques que suas próprias limitações e vieses podem fazê-los sofrer. Relatórios surpreendentes de fenômenos estranhos geralmente provêm de pessoas de pouca instrução e não-sofisticadas e são descontados pelos expertos. Quando são relatadas algumas observações notáveis, o cientista desejará saber: (1) Qual o nível geral de instrução e sofisticação do observador? Tal pessoa é membro de um grupo eivado de superstições ou de uma população bem infor­ mada e algo cética? (2) Qual o seu conhecimento ou treinamento especial neste campo particular? Será que este observador tem o conhecimento necessário para discernir se este evento possui uma explicação perfei­ tamente natural? Assim, o biólogo entre os passageiros de um navio tem menos probabilidade de ver um monstro marinho do que os membros da tripulação, e o meteorologista vê menos discos voadores do que as pessoas que não têm conhecimento especial dos fenômenos atmosféricos.

No momento, há uma explosão de interesse público por fenômenos psíquicos e ocultos. Um livro alegando que as plantas têm consciência e reagem aos sentimentos humanos tomou-se um best-seller [Tompkins e Bird, 1973], embora em geral os cientistas nío se tenham deixado impressionar [First, 1973], e não haja relatórios autenticados de que alguém tenha, com seu ódio, afastado o capim daninho do gramado. Uri Geller, que de certa feita trabalhou em teatro como mágico, atualmente está atraindo muita atenção como psíquico e chegou até a impressionar uma equipe de físicos do Stanford Research Institute [Science News, 20 jul. 1974, p. 46]. Mas os físicos e outros cientistas, quaisquer que sejam suas credenciais como cientistas, não sío observadores treinados de prestidigitaçío. Os mágicos de teatro consideram os cientistas tão fáceis de serem enganados como quaisquer outras pessoas e, em geral, consideram Geller e outros psíquicos como homens de espetáculo sem poderes psíquicos. [Weil, 1974;

Business Week, 26 jan.1974 , p. 76-78], Evidentemente,

um “observador treinado” precisa ter treinamento na espécie de observação que está fazendo.

Muitos eventos ocorrem sem que haja qualquer observador científico por perto. Se cada monstro ma­ rinho emergisse ante um painel de ictiólogos, cada fantasma se materializasse ante o olhar perscrutador de psicólogos e cada revolução fosse realizada ante uma equipe de sociólogos visitantes, nosso conheci­ mento seria muito mais completo. Mas, para muitos fenômenos, os únicos relatórios que temos são as

impressões casuais de observadores nío-treinados que presenciaram tais eventos; estes relatórios podem ser interessantes e possivelmente úteis, mas precisam ser interpretados com a maior cautela pelos cientistas.

Condições controladas

A observação científica é feita sob condições contro­

ladas. Os laboratórios desfrutam de popularidade com

os cientistas porque são lugares apropriados para con­ trole de calor, luz, pressão, intervalos de tempo ou o que quer que seja importante. Temos um experimento científico quando controlamos todas as variáveis

importantes exceto uma, e depois vemos o que acontece

quando fazemos variar esta última. A menos que todas as variáveis exceto uma tenham sido controladas, não podemos estar certos de qual a que produziu os resul­ tados. Por exemplo, se desejarmos estudar os efeitos dos fosfatos no crescimento de uma planta, todos os demais fatores — semente, solo, água, luz solar, tempe­ ratura, umidade — precisarão ser os mesmos para todos os terrenos de amostra; depois, as quantidades variáveis de fosfatos nos diferentes terrenos de teste podem ser responsáveis pelas diferentes taxas de crescimento. Esta é a técnica básica em toda experimentação científica — permitir que uma variável varie mantendo constantes todas as demais variáveis.

Existem procedimentos para análise multidimen-

sional que permitem ao pesquisador trabalhar com duas

ou mais variáveis de cada vez. Este, porém, é apenas um refinamento do procedimento básico de manter todas as demais variáveis constantes, visando a medir o impacto daquela (ou daquelas) sob estudo.

A falha em controlar todas as variáveis é um erro dos mais comuns no método científico e responde pela maioria das falsas conclusões. Por exemplo, há alguns anos, a promoção de anti-histamínicos, como cura para resfriados, fundamentou-se em diversos experimentos, nos quais metade dos pacientes que diziam estar com sintomas de resfriado recebia uma pílula anti-histamínica, enquanto a outra metade recebia uma pílula sem medicamento algum. Esta última metade era o “grupo de controle”, usado como base para medir a eficácia da nova pílula no grupo-teste. Os resultados foram encorajadores, com muito mais pessoas do grupo de teste reportando que seus resfriados tinham desapa­ recido. Estas constatações foram relatadas com entu­ siasmo e sem crítica nas revistas populares, e dúzias de laboratórios fabricantes de “cortadores de resfriado” entraram “na onda” compensadora.

Estes experimentos foram conduzidos com hones­ tidade, mas a pesquisa ulterior revelou um erro sério no método. Embora as pessoas que se apresentavam para tratamento acreditassem que estavam recebendo

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Referências

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