MESTRADO EM TEORIA LITERÁRIA
ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: TEORIA LITERÁRIA
MARIA FIRMINA DOS REIS: AS VOZES QUE EMERGEM DO CONTEXTO DE LEITURA
DA OBRA ÚRSULA
JOÃO CARLOS DOS PASSOS
CURITIBA 2020
MARIA FIRMINA DOS REIS: AS VOZES QUE EMERGEM DO CONTEXTO DE LEITURA
DA OBRA ÚRSULA
Dissertação apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Teoria da Literatura, do Programa de Pós-graduação em Teoria Literária do Centro Universitário Campos Andrade.
Orientadora: Profa. Dra. Ângela Maria Rubel Fanini.
CURITIBA 2020
JOÃO CARLOS DOS PASSOS
MARIA FIRMINA DOS REIS: AS VOZES QUE EMERGEM DO CONTEXTO DE LEITURA DA OBRA ÚRSULA
Dissertação aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre pelo Curso de Mestrado em Teoria Literária do Centro Universitário Campos de Andrade – UNIANDRADE, pela seguinte banca examinadora:
___________________________________________ Profª. Dra. Angela Maria Rubel Fanini (UNIANDRADE)
___________________________________________ Profª. Dra. Mail Marques de Azevedo (UNIANDRADE)
___________________________________________ Profª. Dra. Gleyds Silva Domingues (FABAPAR)
____________________________________________ Prof. Dr. Wilton Fred Cardoso de Oliveira (UTFPR)
A Deus, por ser essencial em minha vida e me proporcionar a alegria de concretizar mais um sonho.
Aos meus familiares, o apoio e a confiança, em especial à minha esposa e filhas, que acreditaram na minha capacidade em concluir mais uma etapa da minha formação acadêmica. Obrigado pelo apoio nos momentos mais conturbados.
A todos aqueles que torcem pelo meu sucesso profissional e pessoal, especialmente, ao pesquisador Rafael Balseiro Zin, que disponibilizou em sua rede social a obra Maria Firmina: Fragmentos de uma vida, publicação essencial para esta pesquisa. Agradeço-lhe a atenção, apoio e orientação!
A todos os autores e autoras que também se debruçaram sobre a obra
Úrsula de Maria Firmina dos Reis, cujas valiosas pesquisas aqui procuramos trazer.
Desculpem-nos se interpretamos de um modo nosso a vossa pesquisa, mas como diz Guimarães Rosa, “cada um vê as coisas dum seu modo”. Nosso trabalho não seria possível sem vossa meritória pesquisa.
Em memória de Maria Firmina dos Reis, pilar desta dissertação, que me fez refletir sobre o quanto as classes oprimidas sofriam e ainda sofrem sob o jugo de sistemas opressores.
À minha professora e orientadora Ângela Maria Rubel Fanini, por ter aceitado me orientar e, acima de tudo, por ter me ajudado a crescer academicamente e auxiliado neste trabalho desenvolvido para a obtenção do título de mestre.
“Quem busca o conhecimento e o acha obterá dois prêmios: um por procurá-lo, e outro por achá-lo. Se não o encontrar, ainda restará o primeiro prêmio”.
i SUMÁRIO LISTA DE TABELAS ... iv LISTA DE ILUSTRAÇÕES ... v LISTA DE GRÁFICOS ... vi RESUMO ... vii ABSTRACT ... viii INTRODUÇÃO ... 1
1 A PRESENÇA DE ESCRITORAS NO MUNDO LITERÁRIO NA AMÉRICA LATINA ... 6
2 MARIA FIRMINA DOS REIS E A OBRA ÚRSULA ... 12
3 O MOVIMENTO NEGRO E A DEMOCRACIA RACIAL EM LITERATURAS DE AFRODESCENDENTES ... 19
3.1 O ENSINO DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA E AFRICANA ... 27
4 ANÁLISE DE TRABALHOS SOBRE O ROMANCE ÚRSULA DE MARIA FIRMINA DOS REIS ... 29
4.1 MARIA FIRMINA, FRAGMENTOS DE UMA VIDA ... 30
4.2 A DIÁSPORA AFRO-BRASILEIRA EM ÚRSULA DE MARIA FIRMINA DOS REIS ... 33
4.3 NA CONTRAMÃO: A NARRATIVA ABOLICIONISTA DE MARIA FIRMINA DOS REIS..35
4.4 LITERATURA E HISTÓRIA NO ROMANCE FEMININO DO BRASIL NO SÉCULO XIX: ÚRSULA ... .37
4.5 A REPRESENTAÇÃO DO HERÓI MARGINAL NA LITERATURA AFRO-BRASILEIRA: UMA RELEITURA DOS ROMANCES ÚRSULA DE MARIA FIRMINA DOS REIS E PONCIÁ VICÊNCIO DE CONCEIÇÃO EVARISTO... 40
4.6 O NEGRO E A MULHER EM ÚRSULA DE MARIA FIRMINA DOS REIS ... 44
4.7 A MENTE, ESSA NINGUÉM PODE ESCRAVIZAR: MARIA FIRMINA DOS REIS E A ESCRITA FEITA POR MULHERES NO MARANHÃO ... 46
4.8 A ESCRITA DE MARIA FIRMINA DOS REIS: SOLUÇÕES PARA UM PROBLEMA EXISTENCIAL ... 47
4.9 MARIA FIRMINA DOS REIS, VIDA E OBRA: UMA CONTRIBUIÇÃO PARA A ESCRITA DA HISTÓRIA DAS MULHERES E DOS AFRODESCENDENTES NO BRASIL ... 49
ii
4.11 A LITERATURA AFRO-BRASILEIRA DE AUTORIA FEMININA: UM ESTUDO DE ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS ... 54 4.12 ÚRSULA: A VOZ DOS EXCLUÍDOS DO SÉCULO XIX NO ROMANCE DE MARIA FIRMINA DOS REIS ... 56 4.13 MULHERES NEGRAS LETRAS E LITERATURA: UMA ANÁLISE DA CONDIÇÃO DA MULHER NEGRA NO FINAL DO SÉCULO XIX A MEADOS DO SÉCULO XX ... 57 4.14 RELAÇÕES DE GÊNERO NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX NA PERSPECTIVA DE MARIA FIRMINA DOS REIS ANÁLISE DO ROMANCE ÚRSULA... 60 4.15 A LITERATURA AFRODESCENDENTE DE MARIA FIRMINA DOS REIS ... 62 4.16 A ESCRITORA MARIA FIRMINA DOS REIS: HISTÓRIA E MEMÓRIA DE UMA PROFESSORA NO MARANHÃO DO SÉCULO XIX ... 65 4.17 MARIA FIRMINA DOS REIS E SUA ESCRITA ANTIESCRAVISTA ... 67 4.18 A INVISIBILIDADE DA LITERATURA DE MARIA FIRMINA DOS REIS ... 71 4.19 “VOU CONTAR-TE O MEU CATIVEIRO” MARIA FIRMINA DOS REIS E A REEDIÇÃO DE ÚRSULA NO SEU CENTENÁRIO DE MORTE ... 72 4.20 A REPRESENTAÇÃO DE MULHERES NEGRAS NA LITERATURA AFRO-BRASILEIRA: UMA LEITURA DE A ESCRAVA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS E MINHA MÃE DE LUÍS GAMA. ... 73 4.21 A VOZ FEMININA E NEGRA NA LITERATURA BRASILEIRA OITOCENTISTA: A AUTORA E AS PERSONAGENS EM ÚRSULA ... 76 4.22 MARIA FIRMINA DOS REIS: A TRAJETÓRIA INTELECTUAL DE UMA ESCRITORA AFRODESCENDENTE NO BRASIL OITOCENTISTA ... 79 4.23 A IMPORTÂNCIA DE MARIA FIRMINA NA LITERATURA ... 81 4.24 DAS RAZÕES LITERÁRIAS E SOCIAIS AS QUAIS ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS, FOI INVISIBILIZADA ... 82 4.25 MARIAS QUE CONTAM HISTÓRIAS: A ESCRITA DA VIDA E AS MARCAS DE UMA ESCRITA NEGRA EM TRÊS AUTORAS BRASILEIRAS ... 84 4.26 O MUNDO DA VIDA E O MUNDO DO TEXTO EM ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS ... ...85 4.27 A IMPORTÂNCIA DA OBRA ÚRSULA DE MARIA FIRMINA DOS REIS: UM LIBELO CONTRA A ESCRAVIDÃO EM FORMA DE ROMANCE... 86
5 COMENTÁRIOS SOBRE AS PRODUÇÕES QUE SE REFEREM AO NOME DA ESCRITORA MARIA FIRMINA DOS REIS, BEM COMO SUA OBRA ÚRSULA ... 88
iii
CONSIDERAÇÕES FINAIS...93
REFERÊNCIAS...96
iv
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - As menções sobre Maria Firmina dos Reis ... 30
Tabela 2 - O 5º romancista da literatura brasileira a publicar um romance em livro (ordem regressiva) ... 31
Tabela 3 - Pesquisas com pontos em comum. Representatividade e leitura afro-brasileira ... 89
Tabela 4 - Invisibilidade da autora... 89
Tabela 5 - Leitura comparativa (obra Úrsula com outras produções brasileiras) ... 90
Tabela 6 - Trajetória da autora ... 90
Tabela 7 - Quantidade total de cada pesquisa com pontos em comum ... 90
Tabela 8 - A frequência das pesquisas referentes a Maria Firmina dos Reis a partir de 1975 ... 91
v
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 - Jornal das senhoras... 104
Figura 2 - Capa original da obra Úrsula (1859) ... 105
Figura 3 - Maria Firmina: fragmentos de uma vida ... 106
Figura 4 - Anúncio de venda de escravo no jornal A província de São Paulo...106
Figura 5 - Anúncio de escravos no Correio Paulistano ... 107
Figura 6 - Anúncio de venda de escrava ... 107
Figura 7 - Anúncio de venda de ama de leite ... 108
Figura 8 - Jornal Pacotilha ... 109
Figura 9 - Jornal Pacotilha ... 110
Figura 10 - Possível retrato de Maria Firmina dos Reis...111
Figura 11 - Maria Firmina em quadro pintado em homenagem ao seu pioneirismo histórico no país ... 111
vi
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Visualizando a formação acadêmica dos autores das pesquisas analisadas ... 91
vii RESUMO
A presente dissertação visa resgatar as ideias de Firmina por meio da pesquisa na fortuna crítica1 a que tivemos acesso até o presente momento, e, portanto, os temas abordados serão a obra Úrsula e a vida de Maria Firmina, uma vez que a autora representa a escrita negra e antiescravista oitocentista. É sabido que a escritora em tela teve reconhecimento em sua localidade, São Luís do Maranhão, mas não atingiu visibilidade em âmbito nacional em sua época. Isso, com certeza, devido ao cenário patriarcal em que o campo literário era majoritariamente ocupado por escritores brancos do sexo masculino. A autora só veio a lúmen no século XX, na década de sessenta, por intermédio do crítico Horácio de Almeida. Após esse período, tem sido resgatada em diversas pesquisas, já dentro de um crescente movimento feminista e de caráter de resistência negra. Livros, artigos, blogs, teses e dissertações, além de outros projetos acadêmicos, enriquecem a fortuna crítica da escritora. Para embasar essas investigações acadêmicas, os autores Horácio de Almeida, Antônio Candido, Rafael Zin, Ivo Queiroz, Vanessa Cavalcanti, Régia Agostinho da Silva, Nascimento Morais Filho, entre outros estudiosos da literatura e cultura e história negras, foram fundamentais para enriquecer e analisar os estudos que estão sendo realizados.
Palavras-chave: Escrita feminina. Escravidão. Romance abolicionista. Maria Firmina dos Reis.
1
viii ABSTRACT
The present dissertation aims to rescue Firmina's ideas through the research on the critical fortune2 that we had access to the present moment, and, therefore, the work Úrsula and the life of Maria Firmina will be the themes approached, since the author represents the 19th century black and anti-slavery writing. It is known that the writer on screen had recognition in her locality, São Luís do Maranhão, but did not reach national visibility in her time. This is certainly due to the patriarchal scenario in which the literary field was mostly occupied by white male writers. The author only came to light in the twentieth century, in the sixties, through the critic Horácio de Almeida. After this period, it has been rescued in various research, already within a growing feminist movement and character of black resistance. Studies and collection of articles, theses, dissertations, books, blogs, among other academic projects, emphasize the life of the writer and her work. To support these academic investigations, the authors Horácio de Almeida, Antônio Candido, Rafael Zin, Ivo Queiroz, Vanessa Cavalcanti, Régia Agostinho Silva, Nascimento Morais Filho, among other scholars of black literature and culture and history, were fundamental to enrich and analyze the studies that are being conducted.
Keywords: Female writing. Slavery. Abolitionist romance. Critical fortune. Maria Firmina dos Reis.
2
INTRODUÇÃO
Este trabalho de pesquisa concentra-se nas investigações desenvolvidas sobre a escritora afro-brasileira Maria Firmina dos Reis (11/03/1822 – 11/10/1917), particularmente na fortuna crítica de seu romance Úrsula, cuja primeira impressão data de 1859. Desde a descoberta casual na década de 1960, pelo pesquisador Horácio de Almeida, de uma edição original do romance, no Rio de Janeiro, o livro foi reimpresso diversas vezes, atualizando-se a linguagem, mas sem mudar a essência do enredo.
Focalizaremos, assim, em um texto unificado, o cenário cronológico das perspectivas teóricas e socioculturais usadas na crítica/abordagem do romance, com ênfase no estudo de Rafael Zin, Ivo Queiroz, Vanessa Cavalcanti, Régia Agostinho da Silva3, Nascimento Morais Filho4, Antônio Candido5, entre outros pesquisadores da literatura e da cultura negra. Com o levantamento de Maria Firmina dos Reis, este trabalho procura demonstrar não apenas o valor de uma obra que deu origem a um número considerável de pesquisas, mas a importância da crítica literária como documento de época.
Conforme Fanini e Ventura (2018), o século XIX é composto por acontecimentos revolucionários, como “[...] a vinda da família real em 1808, a independência do país em 1822, a abolição da escravidão em 1888 e a proclamação da República em 1889, [...] o país sai da condição de colônia portuguesa e chega à República.” (FANINI; VENTURA, 2018, p.207-208). Essas pesquisadoras evidenciam, em suas investigações, a questão da resistência negra ao cativeiro no século XIX, analisando obras literárias em que a questão afro-brasileira se destaca. O Brasil é um país que possui um misto de culturas, e com a literatura não foi diferente. De acordo com Candido (2000), a literatura brasileira provém do seio literário português: [...] A sua formação tem, assim, caracteres próprios e não pode ser estudada como as demais [...]. (CANDIDO, 2000, p.9). A literatura brasileira, embora iniciada com os portugueses que aqui aportaram, carrega a mistura de
3
Professora do Departamento de História da Universidade do Maranhão. Mestre em História Social na Universidade Federal do Ceará.
4
Professor, poeta e folclorista maranhense. Autor da obra Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
5
Sociólogo, crítico literário, ensaísta e professor brasileiro, figura central dos estudos literários no Brasil.
outras literaturas, visto que o discurso literário é sempre carregado de vozes que advêm de vários locais e épocas.
O início da colonização do Brasil pelos portugueses coincidiu com a mais brilhante época da história deste povo e particularmente com o mais notável período da sua atividade mental. É o século chamado áureo da sua língua e literatura, o século dos seus máximos prosadores e poetas, com Camões à frente. (VERÍSSIMO, 1915, p. 17)
De acordo com Veríssimo (1915), no contexto inicial da colonização, temos o subjugo dos indígenas e africanos, ou seja, o pensamento europeu carregado de preconceito visionava índios e negros como meros instrumentos serventes. Atualmente, a ideologia é ultrapassada, uma vez que a cultura afrodescendente contribuiu para a formação identitária do país, e, sem essas contribuições culturais, incluindo as literárias, o país não existiria. A literatura brasileira nunca ficou alheia ao povo negro, constituindo vários enredos e personagens que resistem à escravidão. A saber, José de Alencar, Aluísio Azevedo, Machado de Assis, Bernardo Guimarães, entre tantos ficcionistas do oitocentos se debruçaram sobre a questão negra.
A sociedade que aqui existiu no primeiro século da conquista e da colonização (1500-1600) e a que desta se foi desenvolvendo pela sua multiplicação, logo aumentada pelo cruzamento com aquelas raças, era em suma a mesma de Portugal nesse tempo, apenas com o amesquinhamento imposto pelo meio físico em que se encontrava. A todos os respeitos nela predominava o português. Índios e negros eram apenas o instrumento indispensável ao seu propósito de assenhorear e explorar a terra e à necessidade de sua preparação. (VERÍSSIMO, 1915, p. 18)
Nas palavras de Veríssimo (1915), notamos que não havia valorização do indígena e do africano, sendo que eles são reconhecidos hoje de forma econômica e cultural para a formação brasileira. No entanto, esse trecho repassa a ideia de pensamento social do século XIX, que, no período oitocentista, era um tema visto com naturalidade, pois a sociedade estava constituída com ideologias escravistas. A literatura, no entanto, divergia e destacava personagens com agência e ativismo social contra a escravatura. Nossa autora foi precursora nessa visão crítica e oposta ao racismo oitocentista.
Por toda a América Latina, tivemos o desenvolvimento de grandes centros urbanos que aos poucos passaram a presenciar a busca não só pela independência política, mas também cultural e literária. Nesta perspectiva, Bakhtin e Volochínov evocam:
As condições da comunicação verbal, suas formas e seus métodos de diferenciação são determinados pelas condições sociais e econômicas da época. As condições mutáveis da comunicação sócio-verbal precisamente são determinantes para as mudanças de formas que observamos no que concerne à transmissão do discurso de outrem. (BAKHTIN; VOLOCHÍNOV, 2009, p. 157)
Com isso, a inserção da literatura latina passou a ser possível após o nascimento de gerações dentro das colônias, os chamados “criollos”, e após a miscigenação não só de raças, mas também a mestiçagem de culturas, como já mencionado.
A literatura brasileira é fruto de vozes sociais diversas. Nela, encontramos registros de outras culturas que se debruçavam sobre nossa realidade. No caso da literatura que trata da questão afro-brasileira, os registros ocorrem, mormente no século XIX, quando a abolição se acirra. É, então, que a autora Maria Firmina dos Reis se coloca sobre esse assunto, trazendo vozes sociais sobre essa temática para dentro do romance Úrsula. E, conforme Bakhtin e Volochínov “[...] nas formas pelas quais a língua registra as impressões do discurso de outrem e da personalidade do locutor, os tipos de comunicação socioideológica em transformação no curso da história manifestam-se com um relevo especial” (2009, p. 157). Portanto, o enredo de Maria Firmina se torna especial ao se tratar diretamente da valorização de seus personagens escravizados, dando uma nova visão à história do povo africano no Brasil.
Durante o século XIX, as mulheres da classe alta recebiam instrução destinada a formar boas donas de casa. Algumas frequentavam escolas para aprender canto, escrita e leitura e outro idioma, e até dar ordens aos empregados domésticos, gerenciando o espaço doméstico. De acordo com Cunha (2016) havia dois tipos de mulheres na sociedade elítica: a que apreciava seu conforto e sossego, e a que almejava ter seu espaço e reconhecimento garantido na sociedade.
Em sua maioria as mulheres pertencentes à elite brasileira não desempenhavam nenhuma tarefa doméstica, pois tinham seus empregados ou escravos para executar e muitas gostavam de ficar à toa, já outras detestavam a vida sem ocupação e ficavam descontentes, principalmente porque não tinham nenhum direito à participação política e nem cursar escola de ensino superior. Além disso ansiavam por tornar-se pessoas úteis à sociedade. Podemos assim dizer, que o desejo de sair do tédio, executar tarefas importantes, poder cursar escolas de ensino superior e até mesmo escrever em jornais, estimulou o desejo de mudança. (CUNHA, 2016, p.7)
As classes médias eram compostas por mulheres que tinham uma pequena condição que lhes dava acesso a alguns privilégios, que eram os estudos e informações básicas sociais: “[...] muitas mulheres da classe média e alta queriam o desenvolvimento integral de suas potencialidades, dentro e fora de casa [...]” (CUNHA, 2016, p.7). Nesse contexto, Maria Firmina se enquadra como um sujeito feminino pertencente à classe média social e trabalhadora, como professora concursada. Reservavam-se para classes baixas as atividades como: cerzideiras, lavadeiras, costureiras, serventes e empregadas, que desempenhavam as tarefas domésticas orientadas pelas patroas, ou seja, as orientações de gestoras do lar. Já as atividades que envolvessem participações no meio social eram de exclusividade elítica.
Contudo, muitas mulheres do século XIX, em especial da classe média, tentavam se mostrar mais presentes em determinadas decisões, buscando a liberdade de expressão:
[...] queriam poder empenhar-se em alguma atividade ou emprego respeitável que lhes desse renda, bem como almejavam abrir seus próprios negócios e o que mais chocava os homens era a defesa que algumas mulheres faziam do direito à participação política por meio do voto. (CUNHA, 2016, p. 7)
Desse modo, a participação das mulheres, em todo o desenvolvimento cultural e literário, revela a importância de se conhecerem alguns nomes, e, principalmente, ressaltar aqueles que foram marginalizados pelo sistema patriarcal da época, destacando suas contribuições para a literatura latino-americana.
Sendo assim, analisaremos a fortuna crítica da obra da escritora, brasileira e negra, Maria Firmina, que escreveu a obra Úrsula no século XIX, impressa no ano de 1859, quando ainda imperava a escravidão no Brasil. Vamos nos deter, sobremodo, nas leituras constantes da fortuna crítica selecionada por nós, no intuito de demonstrar que a escritora tem visibilidade no mundo acadêmico. “No contexto da resistência, as mulheres negras jamais foram coadjuvantes, pois cumprem corajosamente o papel de combatentes, arquitetas de outra sociedade” (QUEIROZ, 2018, p. 86).
Nesse sentido, podemos considerar que as crioulas tiveram um papel de suma importância na construção social, pois mesmo sendo coagidas, nunca
deixaram de ambicionar a liberdade e relembrar suas raízes, e são essas atitudes determinativas que encontramos na literatura de Maria Firmina. Outras mulheres negras foram importantes nos séculos coloniais e imperiais, e pesquisas atuais que se referem a esse tema já se avolumam. Dessa forma, esta investigação se encontra nessa perspectiva, ou seja, objetiva trazer a público a obra e a figura de Maria Firmina, auxiliando na valorização da importante escritora oitocentista brasileira. Vale destacar que os trechos transcritos foram retirados da versão fac-similar impressa, no ano de 1975, da obra Úrsula, mantendo a grafia da época com o objetivo de preservar a sua originalidade, assim como as leis decretadas no século XIX também possuem a sua forma original da escrita.
Por se tratar do primeiro romance brasileiro escrito por uma afrodescendente, que denuncia a crueldade do sistema escravista, este trabalho tem dois objetivos principais: justificar por meio da análise do romance seu caráter de ficção protoabolicionista e demonstrar, mediante o estudo da fortuna crítica da obra – livros, artigos, blogs, dissertações e teses – a contribuição da mulher negra para a literatura brasileira.
Pontuamos que nossa pesquisa sobre a escritora se dá a partir do ano de 1975, tendo como referência, no primeiro momento, o livro Maria Firmina: fragmentos de uma vida, publicado por José Nascimento Moraes Filho. Posteriormente tivemos acesso a outros materiais, que passam a ser datados a partir do ano de 2004 até o ano de 2019. Salientamos que entre os anos de 1975 até 2004, poucas pesquisas sobre a escritora foram realizadas e esses trabalhos não estavam disponíveis para consulta.
1 A PRESENÇA DE ESCRITORAS NO MUNDO LITERÁRIO DA AMÉRICA LATINA
No decorrer da história literária da América Latina e Central, a primeira mulher a entrar no mundo da escrita e literatura, uma área dominada pelo mundo masculino, foi uma freira mexicana, bastarda e crioula, filha de um fidalgo basco, conhecida como Sor Juana Inés de La Cruz (1648 – 1695) “[...] Sor Juana Inés de la Cruz foi um dos expoentes da poesia em língua espanhola no século XVII, o ‘Século de Ouro Espanhol’ [...]” (GABRIEL, 2018, s/p). Foi perseguida dentro dos setores da igreja, por padres, bispos e inquisidores, pelo fato de escrever e retratar seus pensamentos em forma de obras e poesias, que descreviam o cotidiano do convento e do povo em geral.
Sor Juana manejou como ninguém os maneirismos do barroco – a retórica elevada, o virtuosismo linguístico, o gosto pela contradição e pelo exagero. Compôs poemas, comédias teatrais, defendeu o direito da mulher à educação e se envolveu num acirrado debate teológico com o padre Antônio Vieira, expoente do barroco luso-brasileiro. (GABRIEL, 2018, s/p, grifo do autor)
Sor Juana é símbolo de resistência e feminismo, contra uma sociedade machista que não conseguiu oprimi-la por completo. “[...] Em seus últimos anos, renunciou às letras devido à perseguição das autoridades católicas. [...] Na falta de documentos – a vasta correspondência de Sor Juana se perdeu [...]” (GABRIEL, 2018, s/p). À semelhança de Maria Firmina, poucos documentos restaram de Sor Juana de La Cruz, resgatados por historiadores.
Não muito distante do fato relatado a respeito de Sor Joana Inés de La Cruz, temos no Brasil do século XIX a mesma concepção sobre as mulheres, sendo estas privadas de expressarem seus sentimentos e ideias, reprimidas e consideradas de baixa intelectualidade para escrever livros, contos e poesias. Porém, algumas resistiam a esse desmando e escreviam desafiando o sistema patriarcal instituído na época.
Nesse momento, pensamos em mulheres brancas, intelectuais e reprimidas, e esquecemos que durante o século XIX, havia no Brasil um grande número de mulheres negras, ainda em regime de escravidão, enquanto o país passava por um processo de miscigenação, que viria a formar a cultura do povo brasileiro, mesclando conhecimentos de diferentes povos: europeus, africanos e indígenas.
Os escravistas brasileiros disseminaram a degradação das condições de vida das mulheres negras. Atribuíram-lhes o trabalho no eito dos canaviais e no ambiente doméstico. Elas atuaram na culinária, foram educadoras, escravas de companhia, amas de leite, escravas sexuais, vendedoras, parteiras, benzedeiras, mães de santo, raizeiras (curavam afecções por meio do conhecimento tradicional etno-botânica africana) e as mais diversas funções que lhes couberam. (QUEIROZ, 2018, p. 86)
Contudo, é nesse contexto que Maria Firmina dos Reis escreve Úrsula, sendo a primeira mulher brasileira a produzir um romance antiescravista na literatura nacional, quebrando as barreiras que submetiam às mulheres negras, que eram consideradas de pouco valor e estereotipadas quando descritas.
[...] Estereótipos típicos como os da “mulata sensual e fogosa” e o da “negra abnegada, submissa e dedicada incondicionalmente ao trabalho”, por exemplo, permearam e ainda permeiam o imaginário da nossa gente, revelando, assim, as marcas profundas de uma sociedade que foi estruturada com base no racismo, no sexismo e no patriarcalismo. [...] (ZIN, 2016, p. 84)
A obra Úrsula (1859) trazia em seu conteúdo a nobreza da cultura africana. Literatura impressa e publicada no ano de 1859, e de acordo com Zin (2019), Muzart (1999) e Lobo (1993), resgatada em um sebo na cidade do Rio Janeiro, em 1962, por Horácio de Almeida, historiador bibliófilo paraibano, enquanto realizava uma pesquisa sobre autores maranhenses: “[...] se trata da maior raridade bibliográfica das letras maranhenses [...] Encontrou-a Horácio de Almeida [...], num lote de livros velhos, e adquiriu-a [...]” (DUARTE et al, 2018, p. 17). A obra Úrsula estava assinada apenas como Uma maranhense, mas Almeida descobriu o nome verdadeiro da autora ao explorar a identidade dos pseudônimos no Dicionário por Estados da Federação.
Como realça Zin (2019), Maria Firmina foi perdendo seu espaço e acabou esquecida por algum tempo, uma vez que os próprios pesquisadores literários não a enfatizaram em seus estudos.
[...] o bibliófilo salienta a ausência de registros sobre a escritora nos estudos dedicados à produção literária maranhense. Possivelmente, por ter sido redescoberta tardiamente, Firmina ficou esquecida, também, entre os principais estudiosos da literatura brasileira. (ZIN, 2019, p.29)
Com relação aos pseudônimos, podemos dizer que eram usados justamente para camuflar a identidade feminina diante da sociedade, que, muitas vezes, não
atribuía total credibilidade às escritoras. Por isso, acreditamos que Firmina tenha escolhido ser identificada como Uma maranhense para não sofrer represálias, já que seus romances eram de cunho antiescravista.
As mulheres, embora desvalorizadas, ainda conseguiam espaço na sociedade. Tudo dependia da classe social a que pertenciam. Na elite urbana, estudavam línguas, música, piano e aprendiam como ser uma mãe exemplar na criação dos filhos e boas maneiras, destinadas ao lar.
Em relação à educação feminina, tem-se que as filhas das elites geralmente recebiam uma instrução voltada para as atividades do lar e para os círculos de convivência social. Para tanto contava com o concurso das preceptoras e estrangeiras e/ou dos colégios femininos leigos ou religiosos, cujo ensinamento via de regras resumia às primeiras letras, francês, música, piano e prendas femininas. (VEIGA, 2007, p. 191)
Desse modo, a educação dessas mulheres era voltada justamente para o comportamento em público e nos lares. E, como reforçam Pinsky e Pinsky (2005):
A educação formal para mulheres não era muito valorizada no século XIX. A formação adequada – que para muitos se distinguia da instrução – serviria, conforme a ideologia dominante, apenas para torná-las boas cumpridoras de seus papéis femininos. Assim, as disparidades entre os sexos eram também reforçadas pela educação diferenciada para rapazes e moças. (PINSKY; PINSKY, 2005, p. 274,275)
As mulheres passaram a ter maior aceitação nos meios estudantis e educacionais a partir dos anos de 1827, quando foi autorizada sua participação na educação formal, mas com certas restrições, como ressalva a lei de 15 de outubro de 1827, transcrita abaixo:
Art 6º Os Professores ensinarão a ler, escrever as quatro operações de arithmetica, pratica de quebrados, decimaes e proporções, as noções mais geraes de geometria pratica, a grammatica da lingua nacional, e os principios de moral christã e da doutrina da religião catholica e apostolica romana, proporcionados à comprehensão dos meninos; preferindo para as leituras a Constituição do Imperio e a Historia do Brazil.
Art 11º Haverão escolas de meninas nas cidades e villas mais populosas, em que os Presidentes em Conselho, julgarem necessario este estabelecimento.
Art 12º As mestras, além do declarado no art 6º, com exclusão das noções de geometria e limitando a instrucção da arithmetica só as suas quatro operações, ensinarão tambem as prendas que servem à economia domestica; e serão nomeadas pelos Presidentes em Conselho, aquellas mulheres, que sendo brazileiras e de reconhecida honestidade, se mostrarem com mais conhecimentos nos exames feitos na fórma do art. 7º (BRASIL, 1827, s/p).
Nas classes média e alta havia instrução formal. Sendo assim, a boa educação era de exclusividade elítica e classe social média. E era dessa última que a autora Maria Firmina fazia parte. Após completar cinco anos de idade, Maria Firmina passou a morar com uma de suas tias maternas que tinha melhor condição de vida. Com a promulgação da Lei de 1827, que permitia a entrada de meninas nas instituições de ensino, Maria Firmina pôde estudar.
A presença de meninas nos estabelecimentos escolares só foi permitida por lei no Brasil a partir de 1827. O acesso à universidade foi liberado em 1879, mas poucas tinham a coragem de enfrentar os preconceitos então existentes com relação às mulheres com curso superior. “Lugar da mulher é em casa, cuidando da família”. Estudar, só se for para aperfeiçoar-se nos papéis de esposa e mãe. (PINSKY; PINSKY, 2005, p.498)
Ainda que a educação superior fosse liberada para as mulheres, o preconceito imposto socialmente as coagia, pois por muito tempo foram vistas como regentes dos lares, que não necessitavam de conhecimentos além daqueles que fossem destinados aos cuidados da casa e dos seus empregados.
Contudo, de acordo com Barbosa (2013), muitos assentiam que a mulher não necessitava de instruções, ou seja, “[...] nem todas as famílias entendiam que as mulheres precisavam ter um ensino vasto, pois muitos acreditavam que para ser mulher era necessário conhecer apenas os afazeres domésticos” (BARBOSA, 2013, p. 4).
As mulheres das classes menos abastadas eram educadas desde a mais tenra idade para todo tipo de trabalho doméstico, como: cuidar dos irmãos menores, trabalho nas plantações e colheitas e raramente recebiam instruções relacionadas aos ensinamentos escolares.
O trabalho doméstico[...]configuraram uma estrutura social de trabalho diversificada, algumas trabalhavam em troca de casa e comida, outras teciam relações de contrato de trabalho que em muitos casos estabelecia prestações de serviços diárias ou mensais, que estavam pautadas na informalidade e nos laços de favor ou compadrio. (PEREIRA, 2011, p.3)
Os trabalhos realizados por mulheres negras escravas não se diferenciavam muito dos trabalhos realizados pelas mulheres brancas da classe social mais baixa, salvo que as escravas sofriam castigos corporais por motivos fúteis. Mulheres afrodescendentes realizavam trabalho de domésticas (em alguns casos, e eram
alugadas para outras famílias), também trabalhavam no eito, onde eram enviadas para realizarem trabalhos pesados nas plantações, e todo tipo de serviço que exigisse força braçal.
As negras tinham destinos semelhantes aos das mulheres brancas pobres, ambas ausentes do processo sistemático de escolarização. Para as escravas, a educação acontecia no dia a dia, na violência que muitas sofriam ao realizar seu trabalho, na luta pela sobrevivência, na resistência e na fuga. Também eram abusadas por seus senhores e, muitas vezes, por outros homens. Na literatura de Firmina, este fato é relatado pela personagem Preta Suzana, em Úrsula (1859) “[...] E eu tambem os soffri, como elles, e muitas vezes com a mais cruel injustiça” (REIS, 1859, p. 94).
Todavia, independentemente da classe à qual as mulheres pertenciam, muitas almejaram a liberdade, lutando pelos direitos de igualdade, como realça Cavalcanti (2005):
De uma luta, primordialmente, travada para “sair” do espaço privado, ocupar lugares públicos e a cidadania de direito, o processo histórico vivenciado nesse período foi ritmado pelo enfrentamento e pela busca das mulheres em adquirir os direitos dos quais estavam privadas e para construir uma dinâmica, uma práxis diferente da pretendida anteriormente, uma ordem exclusivista e de minorias ocultadas. A “politização do privado” descortina-se como pauta e agenda, e não mais como um dos silêncios da esfera doméstica que caracterizavam os finais do século XIX e a primeira metade do XX. (CAVALCANTI, 2005, p. 244)
As mulheres buscam a liberdade de expressão, e um dos primeiros passos para essa emancipação, que é poder escrever e se expressar através das artes gráficas, foi o surgimento do Jornal das Senhoras6, fundado por mulheres na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1852, mantendo suas publicações até o ano de 1855.
[...] Sua primeira diretora foi Joanna Paula Manso de Noronha, criadora do jornal. De origem argentina Joanna passou por países como Uruguai, Estados Unidos, Cuba, chegando ao Brasil e fundando o jornal, porém permanece apenas o primeiro semestre na direção do jornal, deixando a direção para uma das colaboradoras chamada Violante Atabalipa Ximenes de Bivare Vellasco, permanecendo na direção do mesmo até meados de 1853. (BARBOSA, 2013, p.2)
6
Para ilustrar esse fato temos, em anexo7, uma página retirada do Jornal das
Senhoras, publicada no ano de 1853, no dia 12 de dezembro. Assim, notamos que o
conteúdo do Jornal das Senhoras é completamente voltado ao público feminino de determinada classe social (elítica e classe média), excluindo as classes baixas e as escravas, ou seja, ele enfatizava a moda, a literatura, a arte, o teatro e a crítica, sendo enraizada em fatos cotidianos na vida de mulheres abastadas. As escravas eram proibidas de se alfabetizarem.
Precisamos frisar que o Brasil neste período mantinha um sistema escravista, uma educação precária com alto índice de analfabetismo e um custo de vida elevado, sendo poucas as mulheres que possuíam acesso ao Jornal das Senhoras, já que este era particular e para manter suas publicações, precisava ser vendido. Sendo assim, podemos imaginar que suas leitoras e também a diretora e as redatoras deste periódico, viviam em uma posição social a qual as favoreciam economicamente, onde muitas destas senhoras desfrutavam de viagens a outros países e uma boa educação. Situações como estas também eram divulgadas pelo jornal [...]. (BARBOSA, 2013, p. 5)
Apesar de o Jornal das Senhoras ser um símbolo de destaque do sexo feminino na sociedade, ele não tinha cunho popular, destinando-se, como apontamos anteriormente, apenas às mulheres de classe média ou alta, uma vez que era um jornal que exigia a assinatura paga da leitora, como realça Barbosa (2014):
Sobre os locais onde poderiam ser feitas as assinaturas do JS, na 1ª edição, a redatora divulga que “subscreve-se para este Jornal nas casas dos Snrs. Wallerstein e C. n. 70, A. e F. Desmarais n. 86, Mongie n. 87, rua do Ouvidor; e na Tipografia Parisiense, rua Nova do Ouvidor, n. 2016”, custando 3$000 réis, por três meses para a corte, e 4$000 réis, pelo mesmo período, para as províncias. (BARBOSA, 2014, p. 7)
Dessa maneira, observamos que a assinatura do Jornal das Senhoras não era acessível às camadas populares. E esse fato mostra que as classes inferiores, ou seja, mulheres populares e trabalhadoras como as domésticas, lavadeiras, costureiras e escravas, não tinham condições de ter acesso a esse material, pois, além do seu custo exacerbado, o analfabetismo era realidade para maioria das mulheres pobres. Já para as escravas, a alfabetização era, inclusive, proibida, como enfatizamos.
E assim, o Jornal das Senhoras não teve suas edições tão duradouras, sendo editado apenas durante cinco anos, uma vez que suas publicações foram
7
dispensadas a partir de 1855. Assim, escritoras como Maria Firmina não tiveram a chance de publicar suas histórias, sendo esta esquecida por décadas, até o resgate de sua primeira obra abolicionista, Úrsula (1859). Dentro desse contexto inóspito é que encontramos Maria Firmina e sua obra, importante do ponto de vista da literatura de autoria feminina e absolutamente inédita.
2 MARIA FIRMINA DOS REIS E A OBRA ÚRSULA
Escritora, professora, negra e ativista da causa escravista, Maria Firmina dos Reis, como primeiramente pesquisado, era “bastarda”, registrada por João Esteves, filha da portuguesa Leonor Felippa dos Reis e pai escravo, nasceu no Maranhão, na Ilha São Luís, no dia 11 de março de 1822.
Como informa Duarte et al (2018), nos registros de Firmina aparece o nome do pai, sem maiores informações, a não ser o fato de ser negro. Sua mãe, Leonor Felippa dos Reis, aparece como branca e de origem europeia, porém, em documentos recém-pesquisados, consta que a matriarca fora uma mulata alforriada, ex-escrava de um grande senhor chamado Comendador Caetano.
Maria Firmina foi criada sem a presença do pai ou sujeitos do sexo masculino em sua infância e juventude e viveu em um ambiente feminino composto pela mãe, avó e suas primas. Mais tarde, mudou-se para o município de Viamão, na vila de São José dos Guimarães. Rafael Zin (2019) registra que a escritora foi acolhida pela tia materna, mulher de família de pequenas posses, sendo ela, o pilar que sustentou a perseverança e a força de vontade que Maria Firmina tinha em transformar o mundo com os seus pensamentos.
Maria Firmina, autodidata, estudou para formar-se professora e praticou o magistério durante muitos anos, vencendo o concurso público Cadeira de Instrução
Primária8, para lecionar Primeiras Letras na cidade de Guimarães, no interior do
Maranhão (1847). Aos 37 anos de idade, publicou Úrsula9 (1859), o romance
indianista Gupeva10 (1861), as poesias Cantos à beira-mar11 (1871) e o conto “A
escrava”12
(1887), utilizando-se do pseudônimo “Uma maranhense”. Conforme
8
Concurso que permitia lecionar as Primeiras Letras.
9
Primeiro romance de abordagem abolicionista.
10
Conto indianista, no qual a autora procurou abordar a questão do índio na sociedade oitocentista.
11
Única obra poética de Maria Firmina dos Reis, publicada em 1871.
12
Correia (2013), após sua aposentaria em 1880, a escritora fundou a primeira escola primária mista e gratuita do Estado, compondo o hino para a libertação dos escravos, transcrito abaixo, em louvor da comemoração do dia 13 de maio de 1888:
Salve, Pátria do Progresso! Salve! Salve Deus a Igualdade! Salve! Salve o sol que raiou hoje Difundindo a Liberdade!
Quebrou-se enfim a cadeia Da nefanda Escravidão! Aqueles que antes oprimias,
Hoje terás como irmãos! (REIS, 1888 apud DUARTE et al, 2018, p. 76).
Na maior parte de sua vida, Maria Firmina viveu e presenciou a escravidão, se deparando com leis que, supostamente, abrandariam o sistema escravocrata. Como exemplo disso, temos a Lei Eusébio de Queirós13; Lei do Ventre Livre ou Lei Rio Branco14; a Lei dos Sexagenários ou Saraiva Cotegipe15, e por fim, a Lei Áurea em 1888. Maria Firmina testemunhou o fim do imperialismo no ano de 1889 e o início da República no Brasil, e tais acontecimentos foram observados da província onde viveu. E, em sua trajetória, soube reproduzir a história através do seu olhar como mulher e negra, situação que lhe proporcionava essa experiência. O livro
Úrsula e outras obras (2018), reeditado pela câmara de deputados de Brasília,
mantém a fidelidade da escrita de suas obras.
Uma lágrima
Sobre o sepulcro de minha carinhosa mãe. E eu vivo ainda!? Nem sei como vivo!... Gasto de dor o coração me anseia: Sonho venturas de um melhor porvir, Onde da morte só pavor campeia. Lá meus anseios sob a lousa humilde Dormem seu sono de silêncio eterno! Mudos à dor, que me consome, e gasta. Frios ao extremo de meu peito terno. Ah! Despertá-los quem pudera? Quem?
Ah! campa... ah, campa! Que horror, meu Deus!
13
Aprovada em 4 de setembro de 1850, a lei proibiu o tráfico de escravos africanos no Brasil.
14 Lei abolicionista, promulgada em 28 de setembro de 1871, que reconhecia como libertos todos os
filhos de mulheres escravas nascidos a partir desta data.
15
Por que tão breve – minha mãe querida, – Roubaste, oh morte, destes braços meus?!!... Oh! não sabias que ela era a harpa
Em cujas cordas eu cantava amores,
Que era ela a imagem do meu Deus na terra, Vaso de incenso trescalando odores?! Que era ela a vida, os horizontes lindos, Farol noturno a me guiar p’ra os céus; Bálsamo santo a serenar-me as dores, Graça melíflua, que vem de Deus!
Que ela era a essência que se erguia branda Fina, e mimosa de uma relva em flor!
Que era o alaúde do bom rei – profeta, Cantando salmos de saudade, e dor! [...]
(REIS, 2018, p. 181).
O trecho retirado da dedicatória de Maria Firmina à sua mãe revela o tempo breve que juntas passaram, traduzindo o sentimento de saudade e dor, transmitindo sua emoção a todos aqueles que leem seus poemas. A autora também exalta a sua terra, como no poema Minha terra:
Maranhão! Açucena entre verdores, Gentil filha do mar – meiga donzela, Que a nobre fronte, desprendida a coma, Dos seios do Oceano levantaste!
Quanto és nobre, e formosa – sustentando Nas mãos potentes – como cetro de Ouro, O Bacanga caudal, – o Anil ameno! O curso de ambos tu, Senhora – domas, E seus furores a teus pés se quebram. Oh! como é belo contemplar-te posta Mole sultana num divã de prata, Cobrando amor, adoração, respeito; Dando de par ao estrangeiro – o beijo, E a fronte ornando de lauréis viçosos! Pátria minha natal, – ninho de amores... Ai! miséria de mim... quisera dar-te Na lira minha mavioso canto, Canto exaltado que elevar-te fora ‘Té onde levas a nobreza tua! Porém o estro deserdado, e pobre, Sonha, e não pode obrar o seu intento. Campeia indolente no leito gentil, Cercada das vagas amenas, danosas; Das vagas macias, quebradas, cheirosas Do salso Bacanga, do fértil Anil.
[...]
Maria Firmina publicou vários contos, histórias, poesias, enigmas e até charadas. Conforme Bora (2004), “[...] colaborou assiduamente com vários jornais literários, entre eles, A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O
País, Pacotilha, Federalista [...]” (BORA, grifo do autor, 2004, p.79), sendo uma
cidadã intelectual, que se dedicou a apoiar movimentos voltados para o ensino, cultura, leitura, escrita e a causa abolicionista.
Com o intuito de estimular a escrita, de fomentar a leitura e o debate em torno dos textos, bem como de propagandear o nome das autoras, muitos jornais da época traziam em suas edições anúncios que ofereciam ao público as respectivas obras produzidas por elas, além de algumas críticas voltadas para um melhor entendimento desse novo universo literário, ainda que a maioria das publicações fosse bastante enxuta e sem um maior aprofundamento na análise. E foi justamente nesses periódicos que o nome da escritora maranhense passou a ser visto com maior frequência pelo conjunto da população. (ZIN, 2018, p. 20)
A respeito de seus manuscritos publicados, alguns pesquisadores acreditam que Maria Firmina tenha sido apoiada por seu primo de parte materna, Francisco Sotero dos Reis, escritor que compunha a sociedade de escritores da época, influente nas publicações literárias e jornalísticas do Maranhão. Maria Firmina reconhece a influência cultural positiva que Sotero teve em sua vida, o que expressa em diversos poemas (LOBO, 1993). Um dos poemas dedicado a ele é conhecido como Minha terra, publicado no livro de Maria Firmina, Cantos a beira-mar, publicado originalmente no ano de 1871 e relançado novamente em 2018 pela Edições Câmera Brasília (DF).
Os romances escritos por Maria Firmina abordavam causas abolicionistas, apresentando os negros como pessoas nobres e que mereciam o direito de conviver em sociedade, e, de acordo com Bakhtin (1997), os sujeitos que compõem um enredo literário traduzem as vozes sociais formalizadas esteticamente pelo autor. As vozes abolicionistas eram uma constante na sociedade brasileira. Maria Firmina as ouve e as faz migrar para o interior do romance na fala das personagens. Desse modo, Úrsula (1859) narra uma trágica história sobre a escravidão, ocorrida em local não especificado, definido apenas como a “mais rica das províncias do Norte” (REIS, 1859, p. 10).
No romance, a personagem negra denominada como Preta Suzana tem atitudes que contestam o sistema escravocrata do período. Em suas falas, transmite aos outros personagens da saga, principalmente ao personagem Túlio, seu filho adotivo e escravo, toda sua experiência desde o tempo em que fora capturada em África e feita escrava, sendo arrancada do seio de sua família por bárbaros sem alma e coração, aportando em terras distantes, no Brasil. No trecho seguinte, a escrava destaca a dor de ter deixado a filha para trás “[...] uma filha, que era a minha vida, minhas ambições, a minha suprema ventura [...] essa filha tão extremamente amada, ah, Túlio! Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! Tudo, tudo, até a própria liberdade” (REIS, 1859, p. 92). Preta Suzana é descrita como uma pessoa magra, cabelos brancos, que carrega toda a melancolia da escravidão, suas vestes são simples. Essa personagem, retratada como uma pessoa fisicamente frágil, se mostra como uma defensora da liberdade e igualdade para todos. Suas palavras retratam amor, coragem, fé, resistência e desconfiança do povo negro escravo. Embora frágil, sua fala é vigorosa, histórica e de resistência negra. O tipo físico, combalido pelos maus tratos, contrapõe-se a uma mente forte e determinada no ativismo negro.
Maria Firmina relata mediante seus personagens as torturas físicas e psicológicas sofridas pelos escravos, e tudo isto sob os olhos da Igreja e da sociedade da época. Preta Suzana foi comprada pelo Comendador Fernando P., senhor cruel com os escravos e que não tinha remorso algum em castigar seus serviçais por quaisquer motivos. Na trama, Preta Suzana se torna próxima de Úrsula, a protagonista, ao auxiliar a mãe enferma da moça. Assim, a escrava idosa toma espaço no enredo, ao personificar o sofrimento do regime escravo, tendo a sua presença representada como símbolo de resistência ao sistema opressor, uma vez que a personagem morre torturada pelo seu senhorio, Comendador Fernando P, ao acobertar a fuga de Úrsula e seu pretendente. Porém, a personagem tem fala própria, em que narra não só a história pessoal, mas a de um povo escravizado.
O segundo personagem do enredo é Túlio, jovem escravo nascido na região onde se passa o romance. Como um nobre de coração puro, Túlio não mede esforços para ajudar o próximo, destacando sua lealdade, e mesmo sofrendo violentas agressões em determinado momento da história, não deixa de ser bom. A sua empatia com o próximo também se destaca nas primeiras passagens do enredo
em que o escravo resgata Tancredo, jovem advogado branco, que futuramente se tornaria seu grande amigo.
Reunindo todas as suas forças, o jovem escravo arrancou de sob o pé ulcerado do desconhecido o cavallo morto, e deixando-o por um momento correu à fonte para onde uma hora antes se dirigia, encheu o cântaro, e com extrema velocidade voltou para junto do enfermo, que com desvelado interesse procurou reanimar. Banhou-lhe a fronte com água fresca, depois de ter com piedosa bondade collocado-lhe a cabeça sobre seus joelhos. Só Deus testemunhava aquella cena tocante e admirável, tão cheia de unção e de caridoso desvelo! E ele continuava a sua obra de piedade, esperando ansioso a ressureição do desconhecido, que tanto o interessava. (REIS, 1859, p. 14)
O esforço que Túlio faz para trazer Tancredo à vida, deixa claro que o personagem tem um objetivo muito maior do que apenas servir aos seus senhores, ou seja, há humanidade em suas ações, e são essas qualidades que Firmina reforça durante todo o romance. O jovem também questiona o regime escravocrata, realçando a sua indignação ao ver seu povo subjugado: “[...] –Covarde! – bradou Túlio acceso em legítima cholera– que acção tão vil pratiquei eu algum dia que possa merecer-vos semilhante conceito?” (REIS, 1859, p. 168).
Túlio, na tentativa de ajudar o casal de amantes, Úrsula e Tancredo, em uma emboscada feita por capangas e seu senhor, o Comendador Fernando P., é alvejado por disparos de arma de fogo e cai desfalecido ao solo. Na escrita de Maria Firmina, Túlio assume papel importante na história, dando sua vida em sacrifício e salvando duas pessoas brancas, demonstrando, assim, toda a compaixão que teve com seus semelhantes, embora a sociedade escravista não o visse como semelhante. Os brancos o viam como objeto mercantilizável. Ele, no entanto, demonstra sua grandeza de caráter, auxiliando seus algozes.
Por fim, apresentamos Antero, terceiro personagem descrito como um velho escravo, servente ao Comendador Fernando e acometido pelo vício alcóolico. Essa figura sai do padrão “escravo nobre” com um objetivo brilhante, repassando que Antero representa a visão que a sociedade oitocentista tinha do escravo (NASCIMENTO, 2009), que eram considerados como pessoas sem instrução, cultura ou religião, dotadas de vícios, serventes, obedientes e submissos a quaisquer trabalhos impostos pelos senhores. As atitudes submissas de Antero são apresentadas nesta passagem de Úrsula (1859), “[...] elle mostrou-se rigido, e atirou com o prisioneiro para um quarto humido e nauseabundo, e mostrou interessar-se
vivamente em cumprir as ordens, que recebera. Depois collocou-se à porta, qual fiel cão de fila quem o dono deixou de guarda à sua propriedade ameaçada por ladrões” (REIS, 1859, p. 170).
O escravo idoso tem menos destaque dentro da obra, mas marca presença nos relatos sobre o sistema escravocrata e ao reavivar lembranças da sua liberdade, que fora usurpada há muitos anos. Sendo escravo que serve ao Comendador Fernando, um senhor brutal, o cativo teme perder a vida devido aos castigos impostos. Antero recorda a saudade da terra mãe e da liberdade, “– Pois ouça-me, senhor conselheiro: na minha terra há um dia em cada semana que se dedica à festa do fetiche, e nesse dia, como não se trabalha, a gente diverte-se, brinca, e bebe. Oh! lá então é vinho de palmeira mil vezes melhor que cachaça, e ainda que tiquira” (REIS, 1859, p. 172-173).
No decorrer do romance, o velho escravo fica incumbido de vigiar Túlio, que havia sido capturado pelo Comendador Fernando P. Durante sua conversa com o cativo, Antero conta para o jovem Túlio sobre o terrível destino que a mãe do jovem sofreu nas mãos do patrão, o Comendador Fernando P. O velho negro busca refúgio de todo o sofrimento se embriagando, mas absorve seu sentimento de arrependimento com relação ao vicio que o acomete: “– Maldito vicio é este! E que não possa eu vencer semilhante desejo!” (REIS 1859, p. 170).
Em tom saudoso, Antero relembra de sua terra natal, local não determinado no romance, onde com o seu trabalho ele sempre conseguia comprar tabaco e cachaça sem precisar esmolar para ninguém. “[...] no meo tempo bebia muitas vezes, embriagava-me, e ninguém me lançava isso em rosto; porque para sustentar meo vicio não me faltavam meios. Trabalhava, e trabalhava muito, o dinheiro era meo, não o esmolei” (REIS, 1859, p. 172).
Durante o cativeiro, o jovem Túlio oferece a Antero dinheiro para este saciar seu vício. O velho negro agradece o jovem como se aquele ato fosse digno do mais profundo sentimento de gratidão. Contudo, o jovem escravo escapa após o idoso embriagar-se com bebidas compradas com o dinheiro concedido pelo jovem prisioneiro.
O personagem não sofre as consequências do castigo físico e tem sua vida poupada devido à estratégia elaborada por Túlio, que após se livrar das correntes que o prendiam, acorrentou o velho escravo para que este não sofresse a ira de seu senhor. Antero, para sobreviver ao cativeiro, alia-se ao Senhor proprietário como estratégia de permanecer vivo. A escravidão degrada o escravo. Esse personagem é importante ao representar essa maneira de sobreviver humilhante que o sistema obrigava o escravo a trilhar.
Assim, vemos que Úrsula (1859) é um romance que demonstra a força e a resistência dos personagens negros, pois Maria Firmina traz as ideologias antiescravistas enraizadas em seus figurantes, em toda a trama. São vozes de seres humanos escravizados que resistem ao cativeiro. Os enredos de Maria Firmina são contrários a certas obras românticas da época, em que se idealizaram as relações sociais. Conforme Fanini (2013), “Muitos romances, sobretudo os indianistas, idealizam as relações entre o colonizador e o autóctone, construindo uma genealogia brasileira sem conflitos” (FANINI, 2013, p. 25). Na relação europeu e escravos, a literatura, no entanto, demonstra esses conflitos como é o caso de Maria Firmina. Coube à autora ser a precursora dessa literatura de denúncia.
Maria Firmina deixou um importante legado para a literatura brasileira, mas não foi celebrada em vida. Não constou de nossas antologias da literatura brasileira em decorrência do universo patriarcal que não dava crédito a autoras. A brilhante escritora faleceu em 11 de outubro de 1917, aos noventa e dois anos, cega e pobre, no município de Guimarães, no Maranhão. Seus escritos, infelizmente, foram perdidos, e, por isso, não existem arquivos de todos os fatos de sua vida: se chegou a se casar e teve herdeiros; onde viveu; morou; seu círculo de amizades. Entretanto, a obra que nos legou é em si importante documento literário histórico.
3 O MOVIMENTO NEGRO E A DEMOCRACIA RACIAL EM LITERATURAS AFRODESCENDENTES
Reconhecemos que a resistência dos afrodescendentes se dá desde os primórdios escravocratas, quando se utilizavam dos quilombos como refúgio e local para ações emancipatórias, com o intuito de libertar aqueles que ainda estavam escravizados. Esta ideia vai ao encontro de Lopes (2014):
Ao longo dos primeiros séculos de colonização, uma forma nítida de resistência e resiliência coletiva eram os quilombos que se espalhavam ao longo do território nacional, onde negros fugidos se uniam e lutavam distinta ou indistintamente, pois poderiam articular-se a outros movimentos, pela libertação de outros negros na intentada contra a máquina opressora imposta pelos brancos. (LOPES, 2014, p. 9)
Sendo assim, sabemos que a luta dos africanos e afrodescendentes foi muito além do desejo de liberdade, era um clamor pelo reconhecimento como ser humano, valorização, direitos dentro da sociedade, e, principalmente, o direito de obter conhecimento e instrução educativa. As lutas pela liberdade sempre houve. A ideia de passividade à escravidão não se sustenta, pois inúmeros documentos históricos e culturais revelam a resistência cotidiana no âmbito pessoal e coletivo dos escravos.
As instituições de ensino no Brasil do século XIX eram frequentadas por crianças pobres brancas, mestiças e negras, desde que fossem libertas. Os escravos não tinham acesso à aprendizagem da escrita e leitura, que na visão dos senhores não tinham utilidades, pois o propósito era apenas compreender o trabalho de seu dia a dia e obedecer às ordens pré-determinadas. No romance Úrsula (1859), destacamos uma passagem reproduzida pela personagem Preta Suzana: “O commendador Fernando P. derramava sem se horrorisar o sangue dos desgraçados negros por uma leve negligencia, por uma obrigação mais tibiamente cumprida, por falta de intelligencia”. (REIS, 1859, p. 94)
Dessa maneira, percebemos que os escravos eram tratados, na maioria das vezes, como mercadoria16 ou objetos descartáveis, que não precisavam de orientações escolares ou conhecimento, e somente o fato de compreenderem as regras do senhorio contava como formação educacional. Conforme os dispositivos jurídicos imperiais, a Lei nº 01, de 14 de janeiro de 1837, revela a proibição de escravos frequentarem instituições escolares e cursos noturnos. “São proibidos de frequentar as escolas públicas: Primeiro: Todas as pessoas que padecem de moléstias contagiosas. Segundo: os escravos e os pretos africanos, ainda que sejam livres ou libertos” (FONSECA, 2002, p. 12). Essa lei aplicava-se aos adultos, já que as crianças livres ou escravas libertas podiam ter acesso ao ensino básico oferecido aos desfavorecidos.
16
Em anexos encontram-se fragmentos de jornais e periódicos da época anunciando os negros como mercadoria.
Quando, enfim, os afrodescendentes e as classes de extrema pobreza conseguiram o acesso às instituições, foram desprezados e tratados como inferiores, e, segundo Veiga (2008):
[...] foi possível detectar claramente que a clientela escolar denominada como desfavorecida pertencia à classe pobre de diferentes origens étnicas – brancos, negros e mestiços. Destaca-se que, em geral, houve certa homogeneização no tratamento desse grupo – pobres, negros e mestiços – como inferior, a partir de sua representação como grupo não civilizado. (VEIGA, 2008, p. 506)
Ao mesmo tempo em que esses grupos desfavorecidos e excluídos começavam a fazer parte do meio social, ainda eram malvistos, sendo considerados como menos capacitados e ignorantes.
Embora marginalizados, os afrodescendentes sempre resistiram e lutaram por direitos. Levantes, quilombos, vinganças, fugas, negociações cotidianas fizeram parte desses movimentos de resistência. Os negros e as negras trazidos para o Brasil sabiam agir em prol de sua sobrevivência e resistiam dentro dos limites impostos pelo cativeiro. Maria Firmina narra esses fatos no romance Úrsula (1859).
No século XX temos o resgate em definitivo da obra escrita por Maria Firmina, feito este realizado pelo pesquisador Horácio de Almeida17, e, curiosamente na década de 60, época complexa, em que as ideologias de esquerda estavam se fortalecendo no país. O regime militar se firmou no Brasil para coibir as vozes e ações da esquerda, torturando, exilando e matando os oponentes. A obra de Maria Firmina, nesse contexto, sinaliza para a resistência política dos desfavorecidos. São vozes que foram abafadas, mas que emergem via literatura de estrato afro-brasileiro.
Maria Firmina, naquele momento de ditadura, despontava com sua obra, cem anos depois, tratando da opressão sobre os pobres e desvalidos. Como afirma Moraes (2005), “A partir de meados dos anos 60, o Brasil e vários países da América Latina foram dominados por ditaduras militares que se notabilizaram pelo
17 Fundou o jornal “O Luzeiro” (1927), enquanto ainda era estudante. Formou-se em Direito, pela
Faculdade de Direito (RE) no ano de 1930. Advogou de 1931 a 1946 e nesse período tornou-se membro do Conselho Administrativo do Estado. Escreveu uma obra ampla sobre a história de Recife, tendo como exemplo: Brejo de Areia (1958) e História da Paraíba (1966 e 1978). Membro fundador da Academia Paraibana de Letras, pertenceu à Academia Carioca de Letras do Brasil (da qual foi presidente), da Sociedade dos Homens de Letras do Brasil, do Sindicato dos Escritores do RJ, do IHG/PB e do IHG/SP.
emprego da tortura e da violência contra os movimentos de contestação” (MORAES, 2005, p. 509). Ou seja, a ditadura instaurou uma época sombria para todos aqueles que não se enquadravam no perfil imposto pela sociedade. Porém, a obra Úrsula, nesse contexto, serve de refrigério no quadro de terror instalado pelos militares.
Ainda na década de 1960, há outra figura negra, Carolina Maria de Jesus, também escritora, mas não menos importante que Maria Firmina dos Reis. Nascida em 14 de março de 1914, Carolina Maria de Jesus, negra e favelada, trouxe em suas histórias as vivências de sua realidade. Sua principal obra é Quarto de despejo:
diário de uma favelada, publicada no ano de 1960.
[...] Carolina, que mostrava seus escritos aos profissionais da assistência social e religiosos que iam prestar assistência aos “favelados”. Em 1958, mostrou a um jovem repórter, Audálio Dantas, da Folha da Noite, designado para fazer matéria sobre a favela do Canindé, os seus escritos em cadernos que reaproveitava. Impressionado com o que leu, Audálio compilou algumas páginas e intitulou “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”. (ALVES, 2014, s/p, grifo no original)
A escritora também é autora de outras obras, entre essas, encontramos Casa de alvenaria, publicada em 1961, enredo que destaca as divergências sociais que as classes não favorecidas enfrentavam. Curiosamente, essa escritora também é descoberta em pleno regime ditatorial e serve, também, de protesto contra a ditadura, porém, seus manuscritos, bem como os de Maria Firmina, foram desprezados. Todavia, ambas são representações de épocas diferentes, mas que focalizam o mesmo problema: o menosprezo pelas classes desfavorecidas. Carolina de Jesus conheceu a fama, mas também como Maria Firmina, faleceu pobre e desprezada. Poucas são as antologias e livros didáticos que informam seu nome no rol das obras literárias. Mulheres escritoras que raramente constam de grades curriculares dos cursos de Letras. Carolina difere de Maria Firmina também pela classe social, uma vez que foi favelada, não tendo o amparo da família como Maria Firmina. Entretanto, ambas escrevem com o intuito de contar a saga dos desfavorecidos.
Assolado por um período de mais de vinte anos (1964-1985) de submissão ditatorial, podemos relatar que vários movimentos negros surgiram das minorias oprimidas socialmente ao longo da história do cativeiro no Brasil e após a abolição.
O MNU18 foi resposta às causas não justificadas de agressões contra os negros que há muito não deveriam sofrer discriminações numa sociedade que já abolira a escravidão. De acordo com Brasil (2016), a fomentação inicial do movimento se deu após episódios ocorridos em 1978.
Era 18 de junho de 1978 quando Robson Silveira da Luz, um feirante negro de 27 anos, foi acusado de roubar frutas em seu local de trabalho. Levado para o 44º departamento de polícia de Guaianazes, zona leste de São Paulo, foi torturado e morto por policiais militares sob a chefia do delegado Alberto Abdalla. Semanas depois, um grupo de 4 jovens foi impedido de jogar vôlei no hoje extinto Clube de Regatas Tietê. Fazia 90 anos da abolição da escravatura. (BRASIL, 2016, s/p)
Portanto, como resposta às atitudes inaceitáveis contra os negros, no dia 7 de julho de 1978, data em que atualmente se comemora a luta contra o racismo, iniciaram-se as passeatas que lutavam pelos direitos dos negros na sociedade.
O Movimento Negro politiza a ideia de raça e a interpreta como estrutural e estruturante na perspectiva de se compreender a complexidade do quadro de discriminação e desigualdade no Brasil, ou ainda, a interpreta afirmativamente como construção social, rompendo com ideias distorcidas, negativas e naturalizadas sobre raça. Desse modo, coloca em xeque o mito da democracia racial, quebrando formas de resistências das forças conservadoras representadas pelo capital e por grupos privilegiados. (SILVA, 2018, p. 350)
Dessa forma, sendo um movimento de cunho político e que procura garantir os direitos das minorias desprezadas, tem apoiadores que lutam por uma causa maior do que apenas espaço na sociedade. O reconhecimento, a liberdade de expressão e a extinção do racismo são apenas alguns dos princípios básicos do movimento. Ele não conseguiu atingir a população afrodescendente de modo substantivo, pois muitos são os fatores impeditivos. Talvez os afrodescendentes não tenham aderido ao movimento prontamente, por causa da falta de acesso a informações e defasagem na educação formal. Podemos destacar o fato de que viveram oprimidos política e socialmente durante décadas e, por isso, ainda tinham receio em se juntar à causa recém-organizada.
Mas no final dos anos 1980, as vozes conscientizadoras conseguiram de modo mais abrangente atingir um público maior e, por esse caminho, começaram a conquistar um lugar de luta e reivindicação definitivo para a causa negra.
18