• Nenhum resultado encontrado

Currículo: entre a inclusão e a integração

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Currículo: entre a inclusão e a integração"

Copied!
6
0
0

Texto

(1)

Lantuna, v.1, n.1, jan-jul, 2014 147

Currículo: entre a inclusão e a integração

Liliana Rodrigues1

Currículo: entre a inclusão e a integração

Falar de inclusão é recusar a rotulação que limita o homem e o mundo. De diversos modos se pode entender o conceito de inclusão. De um ponto de vista situacional a inclusão refere-se à partilha do espaço, neste caso pelo ensino secundário regular e pelo ensino secundário profissional na mesma extensão física. A inclusão entendida numa perspectiva social corresponderá a todas as interacções repartidas entre grupos diferentes (por exemplo, o convívio dos alunos e dos professores durante as pausas lectivas) e de uma perspectiva funcional poderemos entender a componente sociocultural e científica comungada tanto pelos alunos do ensino regular como do ensino profissional.

A interacção escolar dos alunos não se resume a uma dimensão etária (“interacção

1Universidade da Madeira (UMa). Professora Auxiliar da Uma. Coordenadora do Centro de Desenvolvimento Académico (CDA-UMa). Investigadora do Centro de Investigação em Educação da UMa (CIE-UMa). Doutorada em Educação na Especialidade de Currículo. Mestre em Educação na área de Supervisão Pedagógica. Pós-Licenciada em RFE – Filosofia. Licenciada em Filosofia. Email: [email protected]

Resumo

A integração apela à complacência e à consideração para com o outro, o diferente, o diverso. Isto é, reconhece a diversidade e a mesmeidade como essências naturalizadas e cristalizadas. Daqui decorre uma pedagogia centrada na identidade e não na diferença. Por consequência, ocorre a exclusão e não a inclusão. Limitarmo-nos a celebrar a identidade e a diferença é como celebrar a vida e a morte, quer dizer, é não perceber que a morte não faz parte da vida (é contraditório) e que a diferença não cabe na identidade (porque esta tem a si mesma como referência, tal como a vida refere-se a si mesma). Isto significa que integrar, em educação, não pode ser apenas a entrada dos grupos, outrora apartados, num espaço dito regular, portanto, “normal”. Adequar a escola às necessidades do diferente é insuficiente para que integração signifique inclusão.

Palavras-chave: inclusão, cultura, integração, currículo, educação.

Abstract

The integration calls to complacency and regard for the other, the different, the diverse. It means, recognizes the diversity and the selfsame naturalized and crystallized as essences. It follows a pedagogy focused on identity and not on the difference. Consequently, there is exclusion and not inclusion. Confine ourselves to celebrate the identity and the difference is how to celebrate life and death, I mean, you do not realize that death is not part of life (it is a contradiction) and that the difference lies not in the identity (because this has herself reference, such as life refers to itself). This means that integration in education cannot be only the entry of groups, once separated, in a regular space, known as "normal". Suit the schools for the needs of different is insufficient for integration means inclusion.

Keywords: inclusion, culture, integration, Curriculum, education.

(2)

contínua e planificada com pessoas da mesma idade”2

). Se assim for, corremos o risco de nos desviarmos de outros fins educativos que não podem ser reduzidos à interacção social. Isto significa que integrar não pode ser apenas a entrada dos grupos, outrora apartados, num espaço dito regular, portanto, “normal”. Adequar a escola às necessidades do diferente é insuficiente para que integração signifique inclusão.

A integração apela à complacência e à consideração para com o outro, o diferente, o diverso. Isto é, reconhece a diversidade e a mesmeidade como essências naturalizadas e cristalizadas. Daqui decorre uma pedagogia centrada na identidade e não na diferença. Por consequência, ocorre a exclusão e não a inclusão. Limitarmo-nos a celebrar a identidade e a diferença é como celebrar a vida e a morte, quer dizer, é não perceber que a morte não faz parte da vida (é contraditório) e que a diferença não cabe na identidade (porque esta tem a si mesma como referência, tal como a vida refere-se a si mesma).

A morte não é um acontecimento da vida. Não há uma vivência da morte3.

A identidade transporta o traço da alteridade. É aqui, na sua instabilidade, que a indeterminação conceptual, ou seja, que a definição de identidade e diferença não são, nunca

inocentes4. A diferenciação corresponde a inclusão/exclusão. Aquilo que somos traz a ideia daquilo que não somos. E se a identidade for compreendida como a norma então as outras identidades são avaliadas hierarquicamente. A força homogeneizadora da identidade normal é

directamente proporcional à sua invisibilidade5.

No entanto, a identidade hegemónica é permanentemente assombrada pelo Outro, sem

cuja existência ela não faria sentido6. Uma educação inclusiva terá forçosamente que passar pela construção de um currículo e de estratégias que atendam à diversidade enquanto parte activa na formação da identidade. Assim, a participação do indivíduo é fundamental para que os contextos de mudança encontrem novas formas de colaboração.

A possibilidade (real e legal) de introdução dos cursos técnico-profissionais nível III nas escolas regulares torna-se um problema social porque num mundo heterogéneo, o

encontro com o outro, com o estranho, com o diferente, é inevitável. É um problema pedagógico e curricular não apenas porque (…) interagem com o outro no próprio espaço da escola, mas também porque (…) mesmo quando explicitamente ignorado e reprimido, a volta do outro, do diferente, é inevitável, explodindo em conflitos, confrontos, hostilidades e até

2Beveridge, S., Promover A Educação Inclusiva, p. 16. 3

Wittgenstein, Tractatus, p. 139 - *6.4311.

4Silva, T.T., “A Produção Social da Identidade e da Diferença” in Identidade e Diferença – A perspectiva dos Estudos Culturais, p. 81.

5Idem, op. cit., p. 83. 6

(3)

Lantuna, v.1, n.1, jan-jul, 2014 149

mesmo violência. O reprimido tende a voltar – reforçado e multiplicado7.

O direito dos alunos à educação não deve aparecer apenas sob o estandarte de oportunidades educativas disponíveis. Esse direito não pode ser entendido como uma inclusão

integrativa de indivíduos com incapacidades que lhes são intrínsecas. Se assim fosse,

educação nada mais seria do que assistência social. Qualquer via ou tipo de educação deverá ser entendido como uma via de estudos tão nobre e válida como o ensino geral. Estou, obviamente, a pensar nos currículos alternativos, nomeadamente a educação profissional. A educação alternativa será o reconhecimento de que aprender implica heterogeneizar o currículo, isto é, oferecer vias suficientemente interessantes para aqueles que não se encaixam na normalidade. É também recusar a ideia de que estes alunos são uma expressão mínima no universo escolar8.

A inclusão total de todos os alunos (…) implica modificações no currículo e no modo como este é leccionado. (…) A inclusão total só será conseguida quando as políticas de reforma educativa deixarem de tratar crianças seleccionadas como membros de um qualquer grupo minoritário9. O sentido estrito do conceito de integração, tal como tem sido entendido tradicionalmente, nada mais é do que partilha de espaço e num outro sentido, também ele

estreito, seria o de normalização. Deixando de fora a qualidade do ensino estas perspectivas

estão convictas de que a integração mais não faz do que incluir para a normatividade identitária, isto é, tornar os alunos diferentes como os outros. Neste sentido, aqueles que não cabem nos modos de vida normais, por serem disjuntos, são excluídos. Integrar será então admitir a exclusão.

A negação da diferença é uma consequência de uma história social coberta de preconceitos, de crenças distorcidas e de desvio de conduta. Como vimos, tanto a norma como o desvio são socialmente e institucionalmente produzidos. Os estudantes deveriam ser

estimulados (…) a explorar as possibilidades de perturbação, transgressão e subversão das identidades existentes. (…) Estimular, em termos de identidade, o impensado e o arriscado, o inexplorado e o ambíguo, em vez do consensual e do assegurado, do conhecido e do assentado10.

A ideia de uma educação inclusiva implica a compreensão do contexto. O acolhimento

7Idem, op. cit., p. 97.

8Os dados europeus mostram o oposto. Há um equilíbrio de quase 50% na procura. Ver capítulo Países europeus com ensino profissional.

9Florian, L., Rose, R. E Tilstone, C. “Pragmatismo sim, Dogmatismo não: a promoção de uma prática mais inclusiva” in TilstonE, C. et al. (org.), Promover a Educação Inclusiva, p. 22.

10Silva, T.T., “A Produção Social da Identidade e da Diferença” in Identidade e Diferença – A perspectiva dos Estudos Culturais, p. 100.

(4)

do diferente exige adaptações curriculares, modos específicos de trabalho por parte daqueles que irão operacionalizar o currículo11 e daqueles que ensinam sem saber que ensinam (referimo-nos por exemplo aos auxiliares de acção educativa). O currículo oculto tem um poder imenso perante a inclusão e a própria preocupação dos professores com os resultados académicos dos seus alunos são pontos fundamentais para a inclusão escolar.

A educação inclusiva tem características comuns independentemente do seu contexto:

trabalho de equipa em colaboração;

um contexto comum;

participação da família;

papéis claramente definidos entre os diferentes profissionais;

utilização eficaz de pessoal auxiliar;

planos educativos individuais adequados;

processos para a avaliação da eficácia12.

A cooperação e a construção de uma equipa que adapte o currículo à prática pedagógica permitirá que a ideia de inclusão não seja uma mera disposição do aluno, mas sim a sua participação na vida escolar. Claro que terá de haver uma reconceptualização de papéis e de responsabilidades por parte da classe docente, das direcções executivas e do próprio Ministério da Educação. Nada pior existe num professor do que um espírito que se habituou ao mundo e que passivamente aceita o isolamento e o abandono da escola por parte dos alunos. Aí não é apenas o aluno que abandonou a escola. A escola abandonou o aluno com a conivência de todos os agentes educativos.

A escola deve incluir de modo a que a reciprocidade seja real e não meramente ideal. É

possível que exista um conjunto de condições que formam a base da educação inclusiva (…): uma oportunidade para a participação dos alunos no processo de tomada de

decisões;

uma atitude positiva quanto à capacidade de aprendizagem dos alunos;

um conhecimento por parte dos professores das dificuldades de aprendizagem;

uma aplicação competente de métodos de instrução específicos;

apoio de pais e professores13.

11Cremos que esta perspectiva não se dirige apenas ao diferente.

12Florian, L., Rose, R. E Tilstone, C. “Pragmatismo sim, Dogmatismo não: a promoção de uma prática mais inclusiva” in TILSTONE, C. et al. (org.), Promover a Educação Inclusiva, p. 39.

13

(5)

Lantuna, v.1, n.1, jan-jul, 2014 151 Acrescentamos que é demasiado pobre aceitar posições liberais baseadas no desenvolvimento da boa vontade para com a diversidade e que é possível corrigir sentimentos de discriminação. O Outro não é um Outro distante de mim. É ele que me permite ser quem sou. A relação entre o Eu e o Outro é uma relação dialéctica. Entre dois. A não assunção desta visão implica um exame e um questionamento das relações de poder, portanto, uma (des)construção social e política que nos permita compreender a multiplicidade que acciona a diferença. Devir e produzir opõem-se às visões essencialistas da diversidade que se limita a existir. O mundo é o lugar da constante mudança e disseminação. Afirmar a diversidade é reafirmar o idêntico.

Educar significa introduzir o cunho da diferença num mundo que sem ela se limitaria a reproduzir o mesmo e o idêntico, um mundo parado, um mundo morto. É nessa possibilidade de abertura para um outro mundo que podemos pensar na pedagogia como diferença14.

Muitas escolas são incapazes de oferecer um currículo que promova a inclusão, até porque muitas delas não estão preparadas para tal. A maior mudança reside na atitude e, portanto, nas representações sociais e individuais sobre a ideia de inclusão. A maior resistência está na acção, isto é, alguns agentes educativos são incapazes de aceitar novos desafios curriculares e pedagógicos.

O currículo não é um fim em si mesmo. Ele é um meio para a aprendizagem. Neste sentido, seria fundamental a reflexão sobre as metas educacionais do currículo das diferentes vias de ensino, profissionalizantes ou não,, de modo a que fossem reconhecidas as diferenças e, em simultâneo, a própria realização desses fins educativos através de uma aprendizagem cooperativa. A inclusão depende mais dos professores do que qualquer outro agente, isto é, o

ensino na sala de aula é o cerne da prática inclusiva, pois tem um efeito directo sobre todos os alunos”15

. E só pela inclusão será reconhecido a todos os alunos o direito à igualdade de oportunidades.

Referências

Apple, M. (1999). Ideologia e Currículo. Porto: Porto Ed.

Apple, M. (1999). Poder, Significado e Identidade. Porto: Porto Ed. Apple, M. (1999). Políticas Culturais e Educação. Porto: Porto Ed.

14Silva, T.T., “A Produção Social da Identidade e da Diferença” in Identidade e Diferença – A perspectiva dos Estudos Culturais, p. 101.

15Sebba & Sachdev citados por Florian, L., Rose, R. E Tilstone, C. “Pragmatismo sim, Dogmatismo não: a promoção de uma prática mais inclusiva” in Tilstone, C. et al. (org.), Promover a Educação Inclusiva, p. 45.

(6)

Apple, M. (2001). Educação e Poder. Porto: Porto Ed.

Silva, T. T. (1999). O Currículo Como Fetiche – a poética e a política do texto curricular. Belo Horizonte: Ed. Autêntica.

Silva, T. T. (2000). Teorias do Currículo, uma introdução crítica. Porto: Porto Ed. Silva, T. T. (org.) (1998). Alienígenas na sala de aula – uma introdução aos estudos

culturais. Petrópolis: Ed. Vozes. 2 ed.

Silva, T. T. (org.) (2000). O Sujeito da Educação – Estudos Foucaultianos.Petrópolis: Ed. Vozes. 4 ed.

Silva, T. T. (org.). (2000). Identidade e diferença – a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Ed. Vozes

Tilstone, C. et al. (2003). Promover a Educação Inclusiva. Lisboa: Instituto Piaget. Wittgenstein, L. (1995). Tractatus. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2 ed.

Referências

Documentos relacionados

[r]

Na busca por esse objetivo, iremos contextualizar o cenário legal e institucional que insere a política de formação continuada na agenda das políticas

O objetivo principal desta ação será tornar o material pedagógico utilizado e as dinâmicas mais próximas às deficiências de aprendizado apresentadas pelos alunos,

A opinião dos alunos que frequentam o PA sobre a implementação do Programa de Correção de Fluxo Escolar é de extrema importância, visto serem eles os protagonistas

Pensar a formação continuada como uma das possibilidades de desenvolvimento profissional e pessoal é refletir também sobre a diversidade encontrada diante

Na experiência em análise, os professores não tiveram formação para tal mudança e foram experimentando e construindo, a seu modo, uma escola de tempo

Desta forma, o presente trabalho vem apresentar a primeira contribuição sobre o conhecimento da fauna subterrânea associada a uma cavidade em metapelito

Also due to the political relevance of the problem of repressing misguided employment relationships, during the centre-left Prodi Government (2006-2008) and the