Inquérito Civil Público 1.30.010.000116/2015-20
RECOMENDAÇÃO Nº 22/2015 3º OFÍCIO CÍVEL E CRIMINAL - PR/VR
O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pelo Procurador da República
que esta subscreve, com fundamento nas disposições constitucionais e legais,
CONSIDERANDO a atribuição do Ministério Público Federal para a
defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis, atuando na defesa dos direitos difusos e coletivos, na defesa judicial e extrajudicial dos cidadãos, nos termos do art. 5º, III, “b” e “e”, art. 6º, VII,“c”, da Lei Complementar nº 75/93 e dos arts. 127 e 129 da CF/88;
CONSIDERANDO as atribuições do 3º Ofício de Tutela Cível e Criminal
sobre os procedimentos relativos a matérias afetas à 1ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, nos termos do artigo 2º, III, da Portaria Conjunta nº 03/2014;
CONSIDERANDO que, nos termos do artigo 6º, inciso XX, da Lei
Complementar 75/93, compete ao Ministério Público “expedir recomendações, visando à melhoria dos serviços públicos e de relevância pública, bem como ao respeito, aos interesses, direitos e bens cuja defesa lhe cabe promover, fixando prazo razoável para a adoção das providências cabíveis”;
A DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO, pelo Defensor Público Federal
que esta subscreve, no exercício de sua missão constitucional (art. 134 da CF/88) e legal (art. 4º, VII, VIII e X, da Lei Complementar nº 80/1994), com fulcro ainda no art. 5º, II, da Lei
00202 da unidade da DPU em Volta Redonda/RJ;
CONSIDERANDO que a cidadania e a dignidade da pessoa humana são
fundamentos da República Federativa do Brasil, e que a seguridade social é direito social de cunho fundamental e reconhecido constitucionalmente, inerente ao direito individual à vida e erigido à cláusula pétrea (art. 60, §4º, IV, da CF/88);
CONSIDERANDO que o § 12 do art. 201 da Constituição, com redação
dada pela Emenda Constitucional nº 47/2005, estabelece que lei disporá sobre o sistema especial de inclusão previdenciária para atender a trabalhadores de baixa renda e àqueles que, sem renda própria, se dediquem exclusivamente ao trabalho doméstico no âmbito de sua residência, desde que pertencentes a famílias de baixa renda, garantindo-lhes acesso a benefícios de valor igual a um salário-mínimo;
CONSIDERANDO que a Lei nº 12.470/2011 alterou a Lei nº 8.212/91
para estabelecer, em seu art. 21, § 2º, II, que o segurado facultativo sem renda própria que se dedique exclusivamente ao trabalho doméstico no âmbito de sua residência, desde que pertencente a família de baixa renda, poderá efetuar contribuições com base em uma alíquota de 5% sobre o limite mínimo mensal do salário de contribuição;
CONSIDERANDO que a mesma lei alterou o art. 21, § 4º, da Lei nº
8.212/91, para estabelecer que família de baixa renda é aquela inscrita no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal – CadÚnico cuja renda mensal seja de até 2 (dois) salários mínimos;
CONSIDERANDO que o CadÚnico é o instrumento de identificação e
caracterização socioeconômica das famílias brasileiras de baixa renda, a ser obrigatoriamente utilizado para a seleção de beneficiários e integração de programas sociais do governo federal voltados ao atendimento desse público (art. 2º do Decreto nº 6.135/2007);
CONSIDERANDO a instauração do inquérito civil em epígrafe, o qual
instituiu o chamado “fórum previdenciário”, com o fim de construir soluções e medidas em favor da atuação administrativa do INSS;
CONSIDERANDO que na reuniões que antecederam a instauração do ICP
e nas que a sucederam, a realidade dos segurados de baixa renda foi bastante realçada;
CONSIDERANDO que foi constatado que “o preenchimento dos
formulários do CadÚnico não é feito de modo uniforme por todos os órgãos municipais de assistência social, o que deriva principalmente da grande rotatividade dos profissionais de assistência social, principalmente nas prefeituras menores que não possuem quadro próprio e suficiente dos servidores” (fl. 04);
CONSIDERANDO que houve muitas divergências constatadas em relação
à forma de preenchimento dos campos relacionados à renda própria do segurado;
CONSIDERANDO que foi constatado que os dados do CadÚnico não são
armazenados em prazo superior a 5 anos, o que acarreta dificuldades para o segurado na validação junto ao INSS dos recolhimentos efetuados, inviabilizando a constituição de meios de prova quanto ao preenchimento dos requisitos do art. 21, § 2º, II, b, e § 4º, da Lei nº 8.212/91;
CONSIDERANDO que o INSS informou, à fl. 10, uma relação de
principais pendências encontradas no preenchimento do CadÚnico/CECAD, relacionadas à atualização do cadastro, ao lançamento correto da informação nos campos “trabalho e remuneração”, “valor recebido de doação” e à falta ou incompletude no preenchimento de outros campos;
contribuirá para a uniformização de critérios e melhor preenchimento dos formulários;
CONSIDERANDO que, como consequência, haverá menor incidência de
erros na aferição do reconhecimento da condição de segurado de baixa renda, reparando injustiças quanto à análise de benefícios no âmbito administrativo e evitando a judicialização decorrente de eventual indeferimento;
CONSIDERANDO que a noção de renda mensal própria não pode
abranger situações que nela se enquadram, como ocorre com a percepção de benefício assistencial (ex: bolsa família, LOAS), doação por terceiros ou o recebimento de valores de natureza alimentar decorrente de direito do requerente ou de seus dependentes, como ocorre com a pensão alimentícia;
CONSIDERANDO que o preenchimento de formulários do CadÚnico é
realizado por meio das prefeituras municipais;
RESOLVEM RECOMENDAR aos Municípios de Volta Redonda, Barra
Mansa, Pinheiral, Rio Claro, Barra do Piraí, Vassouras, Valença, Miguel Pereira, Rio das Flores, Paulo de Frontin, Mendes, Paracambi e Piraí que, no prazo máximo de 30 (trinta)
dias, deem início às seguintes medidas:
I – Efetuem o preenchimento do valor da “renda pessoal mensal” de forma a considerar apenas o trabalho remunerado do requerente, formal ou informal;
II – Deixem de considerar como “renda pessoal mensal” hipóteses como as seguintes, sem prejuízo de outras que a elas se assemelhem:
a) Doação de cesta básica ou outros gêneros (vestimentos, remédios, itens de higiene pessoal, etc);
b) Doação em dinheiro, como aquela recebida de entidades assistenciais, filantrópicas ou de quaisquer pessoas, o que deverá ser registrado em campo separado;
c) Pensão alimentícia em favor de filho ou outro dependente;
d) Pensão alimentícia em favor do próprio requerente, a qual deverá ser registrada em campo separado;
e) Qualquer espécie de benefício assistencial (bolsa-família, bolsa-escola, benefício de prestação continuada – BPC/LOAS etc)
III – Forneçam gratuitamente ao requerente a cópia integral do formulário preenchido (cadastro inicial e atualizações cadastrais), orientando-o a guardar tal documentação, tendo em vista a sua utilidade em caso de requerimento de benefício junto ao INSS;
IV – Promovam o preenchimento dos dados no sistema on line do CADÚNICO no prazo máximo de 10 dias, contados a partir da realização de cada entrevista;
V – Orientem os requerentes da necessidade de novo comparecimento ao órgão responsável no prazo de 2 anos para atualização do cadastro, ou em prazo inferior, se houver alguma alteração relevante do núcleo familiar;
VI – Comuniquem semestralmente, pelos mecanismos de publicação do Município e em veículos de grande circulação, a necessidade de atualização do referido cadastro.
Fixa-se o prazo de 30 (trinta) dias para a manifestação quanto ao acatamento dos termos da presente recomendação, encaminhando comprovação do
Volta Redonda, 10 de julho de 2015.
Julio José Araujo Junior
Procurador da República
Rodrigo Pires Carvalho