• Nenhum resultado encontrado

O respeito à soberania dos veredictos do tribunal do júri

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "O respeito à soberania dos veredictos do tribunal do júri"

Copied!
57
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ALINE MARA RODRIGUES

O RESPEITO À SOBERANIA DOS VEREDICTOS DO TRIBUNAL DO JÚRI

Florianópolis 2012

(2)

O RESPEITO À SOBERANIA DOS VEREDICTOS DO TRIBUNAL DO JÚRI

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel.

Orientador: Profª. Maria Lúcia Pacheco Ferreira Marques, Dra.

Florianópolis 2012

(3)

O RESPEITO À SOBERANIA DOS VEREDICTOS DO TRIBUNAL DO JÚRI

Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Direito e aprovado em sua forma final pelo Curso de Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina.

Florianópolis, 06 de dezembro de 2012.

______________________________________________________ Profª. e orientadora Maria Lúcia Pacheco Ferreira Marques, Dra.

Universidade do Sul de Santa Catarina

______________________________________________________ Profº. Ricardo Diogo de Araújo

Universidade do Sul de Santa Catarina

______________________________________________________ Profº. Rodrigo I. Vilela Veiga

(4)

Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo aporte ideológico e referencial conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do Sul de Santa Catarina, a Coordenação do Curso de Direito, a Banca Examinadora e o Orientador de todo e qualquer reflexo acerca desta monografia.

Estou ciente de que poderei responder administrativa, civil e criminalmente em caso de plágio comprovado do trabalho monográfico.

Florianópolis, 06 de dezembro de 2012.

______________________________________ Aline Mara Rodrigues

(5)

Dedico este trabalho de conclusão de curso aos meus avós, Dilma e Adelino, pela sabedoria de vida transmitida e pelo amor incondicional. Amo vocês.

(6)

Inicialmente agradeço a Deus por sempre guiar meus pensamentos e coração para que eu alcançasse meus objetivos.

Aos meus pais, Lilia e Mauri, amor maior do mundo, que mesmo diante de tantas dificuldades nunca mediram esforços para que eu buscasse cada vez mais me entreter no mundo acadêmico, sempre me guiando para o mundo do saber.

Aos meus irmãos, Cyntia e Mauri Jr., amor de coração e sangue. Pessoas especiais que Deus colocou em minha vida para que eu aprendesse a dividir e me importar com o próximo. Vocês são a minha alegria.

Ao meu marido Alessandro, por sempre maximizar o meu saber através de sua experiência de vida pessoal e profissional e por acreditar e engrandecer meu potencial. Obrigada pelo amor de mestre e marido, és digno do meu orgulho e sorriso.

Às minhas tias Lélia, Liliam e Marilda, por mostrarem o quanto o mundo dos livros é interessante e que este é o melhor caminho para o futuro.

Ao meu afilhado Lucas, que me proporciona indiretamente o sabor da maternidade e enche meu dia de alegria a cada sorriso e brincadeira.

Às minhas amigas que deixaram o tempo da graduação mais leve e feliz, em especial a Gi, presente nos melhores e piores momentos nestes anos.

Ao Dr. Luiz Cesar Schweitzer, exemplo de homem e magistrado que respeita a sua toga em todos os momentos da sua vida. Obrigada pelos anos de aprendizado ao seu lado.

À minha professora e orientadora Maria Lúcia Pacheco Ferreira, pelo saber dividido e por estar sempre pronta para me ajudar.

À Universidade do Sul de Santa Catarina, seus funcionários, em especial à Tatyane, e aos meus mestres, por terem edificado o meu caminho na graduação.

(7)

“Considero ponto incontestável que os jurados sejam a base essencial da liberdade; sem essa instituição não posso acreditar que seja livre, por mais liberal que seja a Constituição” (Robespierre)

(8)

O presente trabalho de conclusão de curso buscou apresentar a discussão acerca do respeito à soberania do Tribunal do Júri quando as decisões são anuladas por estarem contrárias às provas dos autos. Inicialmente será apresentado o nascimento e a evolução do Tribunal do Júri no Brasil e no mundo, além de demonstrar, objetivamente, o nascimento da soberania neste instituto. Em seguida será apresentado o conceito de princípio, a sua hierarquização, bem como o conflito existente entre o princípio da soberania dos veredictos do Tribunal do Júri e o princípio do duplo grau de jurisdição. Por fim, será analisado se a soberania do Tribunal do Júri é respeitada diante das anulações das suas decisões por estarem contrárias às provas dos autos, discorrendo sobre a alteração ocorrida no Código de Processo Penal com a promulgação da Lei n° 11.689/08, especificamente no que concerne à quesitação, onde se verificou restar todas as teses defensivas em uma só pergunta.

Palavras-chave: Tribunal do Júri. Soberania. Duplo Grau de Jurisdição. Lei n°

(9)

1 INTRODUÇÃO ... 10

2 BREVE HISTÓRIA DO TRIBUNAL DO JÚRI ... 12

2.1 ORIGEM DO TRIBUNAL DO JÚRI NO MUNDO ... 12

2.2 ORIGEM DO TRIBUNAL DO JÚRI NO BRASIL ... 15

2.3 EVOLUÇÃO CONSTITUCIONAL DO TRIBUNAL DO JÚRI NO BRASIL ... 16

2.3.1O Surgimento da soberania nas decisões do tribunal do júri ... 20

3 TRIBUNAL DO JÚRI NA ATUALIDADE ... 24

3.1 CONCEITO DE PRINCÍPIO ... 24

3.1.1Hierarquia dos princípios constitucionais... 26

3.2 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS QUE ENGLOBAM O TRIBUNAL DO JÚRI 27 3.2.1Princípio da plenitude de defesa ... 27

3.2.2Princípio do sigilo das votações ... 28

3.2.3Princípio da soberania do tribunal do júri ... 29

3.2.4Princípio da competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida ...30

3.2.4.1 Princípio da soberania do tribunal do júri: absoluto ou relativo. ... 31

3.3 PRINCÍPIO DO DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO ... 33

3.3.1Foro por prerrogativa de função e o não respeito ao princípio do duplo grau de jurisdição ... 34

3.4 O PRINCÍPIO DO DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO VERSUS O PRINCÍPIO DA SOBERANIA DO TRIBUNAL DO JÚRI ... 37

4 LEI 11.689/08 E SUAS ALTERAÇÕES ACERCA DO TRIBUNAL DO JÚRI ... 39

4.1 BREVE RELATO ACERCA DAS MUDANÇAS NO ROTEIRO DO TRIBUNAL DO JÚRI ... 39

4.1.1Do questionário e sua votação ... 40

4.1.1.1 O quesito genérico da absolvição e sua obrigatoriedade ... 42

4.2 RECURSO INERENTE ÀS DECISÕES DO TRIBUNAL DO JÚRI ... 43

4.2.1A vontade pessoal do jurado e o recurso de apelação quando for a decisão dos jurados manifestamente contrária à prova dos autos ... 44

4.2.2A ineficácia da soberania do tribunal do júri ante as anulações de decisão contrária à prova dos autos ... 46

(10)
(11)

1 INTRODUÇÃO

A Constituição da República Federativa do Brasil fixa no seu art. 5°, inciso XXXVIII, o reconhecimento da instituição do Júri, bem como seus princípios norteadores: a plenitude de defesa, o sigilo das votações, a soberania dos veredictos e a competência para julgamento dos crimes dolosos contra a vida.

Contudo, além desses princípios taxativos, o Tribunal do Júri também é envolto por todos os princípios inerentes à matéria penal e processual penal, como o duplo grau de jurisdição, que oferece às decisões do júri o direito de apelação, ensejando recurso por estar a decisão do Conselho de Sentença contrário às provas dos autos.

As anulações de decisão do Tribunal do Júri com base nesse argumento limita a eficácia do texto constitucional que assegura a soberania dos seus veredictos.

No recurso questionado, o tribunal superior ao acolher a tese de que as provas são contrárias às provas dos autos não absolve ou condena o acusado, mas sim determina que o réu seja submetido a novo julgamento.

Preservar a soberania da decisão do Conselho de Sentença é dizer que o juiz togado não poderá alterar o mérito decisório. Contudo, anular uma decisão não altera seu mérito?

Para que o presente trabalho monográfico, de conclusão de Curso de Graduação em Direito, enfrente adequadamente o problema de pesquisa proposto, tem-se por objetivo geral analisar possível desrespeito à soberania do Tribunal do Júri, uma vez que sua decisão é anulada por julgamento contrário às provas dos autos. Com relação aos objetivos específicos, têm-se determinado: Conhecer a história do Tribunal do Júri, seus princípios constitucionais e seus embates com os demais princípios penais e, por fim, analisar se a soberania defendida na Constituição Federal é respeitada em confronto com o recurso de apelação por estar o julgamento contrário às provas dos autos.

No que concerne à metodologia, será aplicado os seguintes procedimento: para alcançar seus objetivos, o método utilizado será o de

abordagem dedutivo, partindo de uma premissa geral, determinada através do

respeito da soberania dos veredictos do Tribunal do Júri e terá forma de

(12)

construções legais. A pesquisa será exploratória, contendo problema e hipótese, além de ser adotada a técnica de pesquisa documental e bibliográfica, utilizando a legislação vigente, jurisprudência e doutrina.

No primeiro capítulo será apresentada a história do Tribunal do Júri, desde o seu nascimento mundial e como se deu sua origem no Brasil. Além disso, analisaremos este instituto sob o prisma das constituições brasileiras e o surgimento e evolução do instituto da soberania do Tribunal do Júri.

No segundo capítulo traremos o conceito de princípio e estudaremos aqueles que envolvem o Tribunal do Júri de acordo com a nossa Constituição Federal, além de trazermos o princípio do duplo grau de jurisdição sendo analisando conjuntamente com o princípio da soberania dos veredictos do Tribunal do Júri.

No terceiro e último capítulo, falaremos brevemente das alterações sofridas o Código de Processo Penal, com foco no procedimento relativo ao Júri, com a publicação da Lei n° 11.689/08, com destaque para a nova quesitação, o aumento da vontade pessoal do jurado e o respeito à soberania dos veredictos quando a decisão é anulada pelo órgão superior por estar a decisão contrária à prova dos autos.

Por fim, será elaborada a conclusão, onde será exposto o resultado da pesquisa, demonstrando a relevância do tema proposto e suas limitações.

(13)

2 BREVE HISTÓRIA DO TRIBUNAL DO JÚRI

Neste capítulo será apresentada a história do Tribunal do Júri, a sua origem mundial, bem como seu nascimento no Brasil, passando pela evolução constitucional brasileira, demonstrando, ainda, o surgimento da soberania nos veredictos do Tribunal do Júri.

2.1 ORIGEM DO TRIBUNAL DO JÚRI NO MUNDO

Inúmeras são as teorias para determinar o nascimento do Tribunal do Júri no mundo. Alguns defendem que este surgiu com a lei mosaica, entre judeus, no Egito, onde nasceram as leis de Moisés, pois naquela época os julgamentos já eram feitos por seus pares, respeitando o direito de defesa e a análise das provas, onde o Conselho de Anciãos decidia em nome de Deus.

Nas palavras de Pinto da Rocha (1919, p. 8-9 e 530 apud TUCCI,1999, p. 14), tem-se:

As leis de Moysés [sic], ainda que subordinando o magistrado ao sacerdote, foram, na antiguidade, as primeiras que interessaram os cidadãos nos julgamentos dos tribunaes [sic]. Muito, antes, portanto, de, na Grécia antiga, ser chamado o povo para dicidir sobre as grandes questões judiciárias, em plena praça pública, no exercício da justiça atheniense, antes da constituição desse tribunal, que era composto de cidadãos escolhidos entre os que todos os annos [sic] a sorte designava para julgarem collectivamente [...] ou divididos em secções [sic], muito antes da existência desses juizes [sic] populares, aos quaes [sic], como requisitos eram apenas exigias a edade [sic] de trinta annos [sic], reputação ilibada e quitação plena do thesouro [sic] público; muito antes do aparecimento desse tribunal de pares, já o Deuteronomio [sic], o Exodo [sic], o Levítico [sic] e os Números, na formosa e símplice linguagem do direito mosaico, nos fallam [sic] do Tribunal Ordinário, do Conselho dos Anciãos e do Grande Conselho. Na velha legislação mosaica encontramos nós os fundamentos e a origem da instituição do jury [sic].

Para outros, têm-se o nascimento do Tribunal do Júri com os dikastas1, nas Heliéia2 e no Areópago3 grego, onde o órgão julgador era dividido em dois

1

Denominação de quem participava dos julgamentos, cujas sessões eram chamadas de dikasterias. (MORAES, 2007, p. 03)

2

A Heliéia era o principal colégio de Atenas, formada por quinhentos membros sorteados entre os

(14)

conselhos: a Heliéia que julgava atos de menor importância, sendo um tribunal popular formado por heliastas4 que, após ouvirem a defesa, decidiam seguindo suas convicções; e os Areópagos que julgavam os crimes de homicídios premeditados e decidiam respeitando o senso comum.

Parte da doutrina ainda sustenta a sua origem na antiga Germânia com os centeni comites5, com influência romana.

Contudo, a tese mais defendida entre os doutrinadores dá conta de que o surgimento do Tribunal do Júri, com o contorno atual, deu-se na Inglaterra, que de acordo com Silveira (2011), quando o “Concílio de Latrão6, em 1215, aboliu as ordálias ou Juízos de Deus, com julgamento nitidamente teocrático, instalando o conselho de jurados.”

A competência para tal corpo de jurados eram os crimes de bruxaria ou com caráter místico, dividindo o Tribunal do Júri em dois: o pequeno Júri, formado por doze pessoas, que julgava analisando o caso em concreto, que concedia o veredicto e o grande júri, formado por vinte e quatro pessoas, que tinha como competência a acusação, uma vez que era estruturado por testemunhas presenciais do ilícito.

Acerca do tema Rangel (2008, p. 485 apud FERREIRA, 2011, grifo do autor) afirma:

Nesse conjunto de medidas, acusação pública, que até então era feita por um funcionário, espécie de Ministério Público, passou a ser feita pela comunidade local quando se tratava de crimes graves (homicídios, roubos etc.), surgindo assim, o júri que, como era formado por um número grande Erário. As reuniões davam-se em praça pública, sendo presididas pelo archote, a quem cabia decidir pela declaração da culpa de um cidadão. (BORBA, 2001, p. 01)

3

No período democrático de Atenas, era no Areópago que funcionava um célebre Tribunal, que era constituído por arcontes. Esse Tribunal era responsável pelos julgamentos dos crimes mais graves. (O AERÓPAGO...2012)

4

Nome que tinha os membros da Heliéia. (POMBO, 2012)

5

Estruturas rudimentares de jurisdição que possuem traços semelhantes e características

convergentes com as que são encontradas na estrutura moderna do Júri. (TEIXEIRA, p. 01, 2010)

6

O Primeiro Concílio de Latrão teve como objetivo principal restabelecer o princípio de que os assuntos espirituais são de autoridade da Igreja [...]O Primeiro Concílio de Latrão foi convocado em dezembro de 1122 para acontecer no ano 1123. Munido de diversos objetivos, a questão central era assegurar que todo o esforço que o papa Calisto II vinha fazendo para solucionar a questão das investiduras fosse consolidado. Porém, além deste desejo, o concílio almejava acabar com a prática de conferir benefícios a leigos e separar os assuntos espirituais e os temporais. (GASPARETTO JÚNIOR, 2012)

(15)

de pessoas (23 jurados no condado), foi chamado de grand jury (Grande Júri). Por isso era chamado de Júri de acusação.

Os jurados eram pessoas do povo, da região de onde ocorreu o crime, que julgavam com base no que sabiam e também no que era comentado, inexistindo, portanto, provas a serem analisadas.

As provas do crime, contudo, eram estudadas por outros dozes homens (pequeno júri), que decidiam se o réu era culpado ou inocente.

Paralelo a esta realidade inglesa, naquela época a Europa era marcada pela realidade medieval, onde a Igreja Católica ditava o rumo da sociedade. Período este em que a busca da verdade trilhava o caminho da tortura e crueldade, com condenações à pena de morte em praça pública, demonstrando, assim, o poder cristão.

Beccaria (2007, p. 37 apud FERREIRA, 2011), acerca do tema, leciona:

É uma barbárie consagrada pelo uso na maioria dos governos aplicar a tortura a um acusado enquanto se faz o processo, seja para que ele confesse a autoria do crime, seja para esclarecer as contradições em que tenha caído, seja para descobrir os cúmplices ou outros crimes de que não é acusado, porém dos quais poderia ser culpado, seja finalmente porque sofistas incompreensíveis pretenderam que a tortura purgava a infâmia.

Vê-se, pois, que a conjuntura do Tribunal do Júri inglês era uma exceção à Europa, visto que protegia os direitos fundamentais trazendo o povo para julgar seus pares, respeitando o critério do bom senso e seus costumes.

Diante deste quadro é que observamos por que muitos doutrinadores defendem o surgimento do Tribunal do Júri na Inglaterra, pois este se amolda claramente ao rito processual hoje existente, onde não só a acusação tem voz, tanto para acusar quanto para sentenciar, mas sim respeitando a defesa do acusado e deixando que a sociedade em que este vive defina se é culpado ou não.

Como já bem afirmou Ruy Barbosa (p. 120-121, apud TUCCI, 1999, p. 28) “[...] antes mesmo de irradiar-se no continente europeu, o júri inglês estabeleceu-se na América do Norte” onde no século XVII, mesmo anterior à independência, os Estados Unidos da América estabeleceram a dinâmica do Tribunal do Júri para o julgamento de todas as causas.

(16)

Embora cada Estado/Colônia tivesse suas próprias regras, os princípios básicos da sua concepção eram respeitados, como a publicidade, a oralidade e a contraditoriedade real.

As ideias iluministas, que geraram a Revolução Francesa, afetaram sobremaneira a organização judiciária. Tucci (1999, p. 29-30), acerca deste assunto, aduz:

Assim é que a Assembléia [sic] Constituinte deliberou, mediante os decretos de 8 de outubro e de 3 de novembro de 1789, e de 24 de março de 1790, que a justiça seria totalmente remodelada; tendo sido baixado, logo em seguida ao por último indicado, o de 30 de abril de 1790, consacratório do júri criminal como instituição judiciária. Orientando-se em linha de princípio, pelo modelo inglês, a França conferiu-lhe, entretanto, caráter eminentemente político, implicativo de modificações determinadas em decorrências de variações experimentadas em eventos dessa mesma natureza.

Como característica, o Tribunal do Júri francês adotou a publicidade dos debates, orais ou escritos, e determinou que o Júri julgaria somente os delitos criminais, com a instrução ocorrendo publicamente.

Além disso, o processo penal adotou três fases: instrução preparatória; júri de acusação (formado por oito pessoas, sorteados de uma lista de trinta); debates e julgamento (formado por doze pessoas, sorteados de uma lista de duzentas), com direito de recusar vinte nomes.

Na França, já naquela época, respeitava-se o voto de acordo com a consciência do jurado, vez que ao prolatar seu voto, individualmente e em voz alta, não precisava justificá-lo, admitindo-se o resultado por maioria dos votos, diferente do que ocorria na Inglaterra onde a condenação do acusado só tinha validade se a decisão fosse unânime.

Não há consenso para afirmar o nascimento do Tribunal do Júri. Contudo, ao longo da história, observamos que este instituto, a cada nova era, reestruturava-se e fortalecia-reestruturava-se, reprereestruturava-sentando, a sociedade, desde reestruturava-sempre, no reestruturava-seio do Judiciário.

2.2 ORIGEM DO TRIBUNAL DO JÚRI NO BRASIL

O nascimento da instituição do Tribunal do Júri no Brasil deu-se no ano de 1822, antes mesmo da declaração da sua independência e julgava somente os

(17)

crimes de abuso de liberdade de imprensa. Almeida (1999, p. 23), acerca do tema assim descreveu:

Coube ao Senado da Câmara do Rio de Janeiro, “em vereação extraordinária, de 4 de fevereiro de 1822”, dirigir-se a Sua Alteza Real, o Príncipe Regente D. Pedro, solicitando a criação do “Juízo dos Jurados”, para a execução da Lei de Liberdade de Imprensa no Rio de Janeiro, “onde a criação do Juízo dos Jurados parece exequível sem inconveniente, atenta a muita população de que se compõe e às muitas luzes que já possui.” Pelo Decreto de 18 de junho de 1822, o Príncipe regente, de acordo com o seu Conselho de Estado, instituiu o Júri no Brasil, mas com competência limitada para conhecer da criminalidade dos escritos abusivos.

Composto por vinte e quatro cidadãos que, conforme Nogueira (1996, p. 387-388 apud FIGUEIREDO, 2006), eram “escolhidos de entre os homens bons, honrados, inteligentes e patriotas os quais serão os Juízes de Facto para conhecerem da criminalidade dos escriptos abusivos.”

Destes vinte e quatro homens, os réus tinham o direito de recusar dezesseis e somente podiam apelar da sentença para a clemência real.

No mês de outubro do ano de 1823 foi apresentado um projeto de Carta de Lei à Assembleia Geral que regulamentava a liberdade de imprensa, com vários adendos acerca do Tribunal do Júri. Contudo, a Assembleia foi dissolvida por D. Pedro, que não chegou a aprovar tal projeto.

Entretanto, nesse mesmo ano, no mês de novembro, por decreto, D. Pedro ordenou a execução provisória deste projeto de lei, que, no seu art. 19 criou, em cada comarca, dois Conselhos de Juízes de Fato, um com nove e outro com 12 vogais.

Atesta Almeida (1999, p. 24) que “a formalização do processo e da sentença cabia ao juiz de direito, que, na Corte, era o corregedor do crime e, nas comarcas, os respectivos ouvidores. Em cada comarca foi criado um cargo de Promotor de Justiça, a ser preenchido, preferencialmente, por ‘bacharel formado’.”

Até a promulgação da primeira Constituição Brasileira, o Tribunal do Júri permaneceu com esta estrutura, julgando, tão somente, os crimes de imprensa.

2.3 EVOLUÇÃO CONSTITUCIONAL DO TRIBUNAL DO JÚRI NO BRASIL

A evolução do Tribunal do Júri cresceu ao passo dos momentos simbólicos constitucionais do Estado Brasileiro. Assertivamente Tubenchlak (1991,

(18)

p.4 apud ALMEIDA, 1999, p. 25) asseverou que “no Brasil, o caminho percorrido pelo Júri, desde 1822, assemelha-se a uma Guerra Santa: ora avançando, ora compelido a recuar, ora deformado em sua competência material, resistiu galhadarmente a tudo isso, inclusive dois períodos ditatoriais.”

Na elaboração da Constituição Imperial de 1824 o Júri foi reconhecido como um dos ramos do Poder Judiciário, tanto para a área cível como para a área penal e já dizia:

Art. 151 – O Poder Judicial é independente, e será composto de Juizes [sic] e Jurados, os quais terão lugar, assim no cível como no crime, nos casos e pelo modo que os códigos determinarem.

Art. 152 – Os Jurados se pronunciam sobre o fato, e os Juizes [sic] aplicam a lei. (BRASIL, 1824)

Vale ressaltar que no seu art. 179, onde declara a inviolabilidade dos direitos civis e políticos, foi a consagração dos direitos e garantias fundamentais.

No ano de 1884, a Lei n.º 261, alterou a competência para toda a matéria criminal.

A primeira Constituição Republicana (1891) manteve a instituição do Júri:

Art. 72 – A Constituição assegura a brasileiros e a estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à liberdade, à segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

§ 31 – É mantida a instituição do júri. (BRASlL, 1891)

Contudo, em respeito extremado à autonomia política dos Estados Federados, passou-se a eles a competência para legislar a respeito do Tribunal Popular, destacando-se o Estado do Rio Grande do Sul, que no texto da Lei nº 19/1895 estabelecia que “as sentenças do júri serão proferidas pelo voto a descoberto da maioria (art. 65, § 1º)” e “os jurados não podem ser recusados; à medida, porém, que forem sendo sorteados, poderão as partes opor-lhes suspeição motivada, que será decidida pelo Presidente do Tribunal (art. 66).” (RIO GRANDE DO SUL, 1895)

Na época em que se viveu a ditadura militar, nos anos 30, o Decreto nº 19.398, manteve a Constituição Federal e as Estaduais, porém foram parcialmente revogadas, mantendo escassas as regras, inclusive as referentes ao Tribunal do Júri.

(19)

Com a força do movimento constitucionalista, em 1933, o governo viu-se obrigado a convocar Assembleia Constituinte e no ano de 1934 o Tribunal do Júri foi classificado como órgão do Poder Judiciário: “Art. 72 – É mantida a instituição do júri, com a organização e as atribuições que lhe der a lei.” (BRASIL, 1934).

No fim do mandato, Getúlio Vargas, que dissolveu a Câmara e o Senado, revogou a Constituição de 1934 e outorgou a de 1937, a qual, para Nassif (2008, p. 20), fora o marco do Estado-Novo, “de vocação notadamente ditatorial”, onde a instituição do Júri não existia no seu seio.

Esta lacuna, como relata Nassif (2008, p. 20) trouxe clamor entre os juristas, que pressionaram, e o Tribunal do Júri passou a existir, pela primeira vez, sem ser preceito constitucional, através do Decreto-Lei nº 167 de 1938, dando-o como órgão do Poder Judiciário, sendo mais tarde incorporado ao Código Nacional de Processo Penal, onde existia a pena de morte para homicídio cometido por motivo fútil e com requintes de crueldade: “Art. 2. O Tribunal do Júri compõe-se de um juiz de direito, que é o seu presidente, de vinte e um jurados, sorteados dentre os alistados, sete dos quais constituirão o conselho de sentença em cada sessão de julgamento.” (BRASIL, 1938)

Contudo, este decreto, aboliu a soberania existente, pois aceitava recurso de apelação quanto ao mérito, em casos que fosse diagnosticado “injustiça de decisão.”

A Constituição de 1937 não resistiu ao fim da Segunda Guerra Mundial e deu lugar à de 1946, que nos Direitos e Garantias Individuais afirma:

Art. 141 – A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, à segurança individual e à propriedade.

[...]

§ 28 – É mantida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, contando que seja sempre ímpar o número dos seus membros e garantido o sigilo das votações, a plenitude da defesa do réu e a soberania dos veredictos. Será obrigatoriamente da sua competência o julgamento dos crimes dolosos contra a vida. (BRASIL, 1946)

Vê-se, pois, que o Tribunal do Júri, assim como é hoje, iniciou seu desenho no pós-guerra, onde o autoritarismo, característica principal do regime a que uma nação é imposta quando se está numa guerra, cedeu lugar para a democracia e a liberdade.

(20)

Importante destacar, assim, que a soberania dos veredictos já estava impregnada e nas palavras de Nassif (2008, p. 21): “A expressão soberania dos veredictos é a maior manifestação de respeito à vontade popular no restrito limite dos julgamentos do colegiado.”

O Golpe de 64 fez promulgar-se em 1967 uma Constituição que ampliou os poderes da União, bem como do Presidente da República, de maneira a centralizar o poder. O Tribunal Popular, porém, ficou mantido, bem como a sua soberania:

Art. 150 – A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

§ 18 – São mantidas a instituição e a soberania do júri, que terá competência no julgamento dos crimes dolosos contra a vida. (BRASIL, 1967).

Contudo, em 1969, a Emenda Constitucional nº 1/69, fora, na verdade, a nova Constituição, que manteve a instituição do Júri, mas tirou sua soberania:

Art. 153 – A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

§ 18 – É mantida a instituição do júri, que terá competência no julgamento dos crimes dolosos contra a vida. (BRASIL, 1969)

Na redemocratização do país, em 1988, fora promulgada a Constituição vigente:

Art. 5º – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

XXXVIII – é reconhecida a instituição do júri, com organização que lhe der a lei, assegurados:

a) a plenitude de defesa; b) o sigilo das votações; c) a soberania dos veredictos;

d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos conta a vida. (BRASIL, 1988)

(21)

Esta manteve o Júri nos Direitos e Garantias Fundamentais e restabeleceu a soberania dos veredictos, indo de encontro à arbitrariedade antes vivida, respeitando a democracia.

2.3.1 O Surgimento da soberania nas decisões do tribunal do júri

Igualmente controversas como as teorias do surgimento do Tribunal do Júri, são as teorias do surgimento da soberania dos veredictos do Conselho de Sentença.

Para Loureiro (p. 79 apud ANSANELLI JÚNIOR, 2005, p. 69) ela nasceu juntamente com o Conselho dos Anciãos uma vez que se o resultado do julgamento fosse para condenar o acusado, a sentença não seria publicada até o dia seguinte, onde os juízes iriam se reunir novamente para sustentar seus votos ou modificá-los. Contudo, afirma que não seria uma revisão nos moldes atual, onde a decisão seria submetida a julgamento perante um órgão superior, mas sim as próprias pessoas que julgavam que tinham nesse período pós-julgamento um momento de reflexão acerca da decisão tomada.

Nos julgamentos realizados pelo Tribunal grego de Heliastas, Azevedo (p. 10 apud ANSANELLI JÚNIOR, 2005, p. 70) afirma que “as decisões emanadas deste órgão, justamente por constituírem a expressão da vontade e soberania popular, eram definitivas, não admitiam recurso algum; sua jurisdição e competência estendiam-se tanto às causas públicas como às privadas.”

Outra decisão que não era reformada eram as proferidas pelas quaestione perpetuae, na Roma.

Diante do fato de inúmeros doutrinadores não aceitarem esses três “tribunais” como referência ao nascimento do Tribunal do Júri e, desta forma, não aceitarem que com eles também nasceu a sua soberania, há o entendimento de que esta tenha nascido somente na Inglaterra, em 1215, na Inglaterra, onde as decisões não eram passíveis de recurso, afirmando-se, dessa maneira, que na era medieval os monarcas eram reconhecidos como a pessoa que exercia o poder em nome de Deus.

Nessa esteira, para Ansanelli Júnior (2005, p. 71), este fato influenciou sobremaneira para dar à decisão do Tribunal do Júri o status de soberana:

(22)

Quanto do nascimento do Tribunal do Júri, uma vez que, acreditando-se que os doze jurados – número adotado em face da referência aos doze apóstolos – estavam imbuídos do Espírito Santo, o julgamento seria infalível, e, portanto, a decisão seria infensa a recursos. Nascia, então, a soberania dos veredictos, relacionada com a fundamentação teológica da soberania estatal da época.

Durante a Revolução Francesa a soberania dos veredictos também fora respeitada, uma vez que, de acordo com Ansanelli Júnior (2005, p. 71) os pensadores da época, Rousseau, Hobbes e Locke, defendiam que o poder emanava do pacto social e, desta forma, a soberania pertencia ao povo, que colocava o poder na mão do soberano, que, consequentemente, deveria respeitar o pacto social, defendendo, com isso, que o poder emanava do povo e não podia ser centralizado no monarca.

Neste conceito, a soberania dos veredictos no Tribunal no Júri ficou assegurada diante do conceito de infalibilidade humana. Sobre este período, leciona Oliveira (p. 70 apud ANSANELLI JÚNIOR, 2005, p. 71, grifo do autor):

Na Idade Média, a ideia [sic] de interferência divina nos julgamentos afastava a dúvida e tornava imutável a decisão. Mas os intusiastas do júri

buscaram apoio em outra crença: as decisões emanadas do povo eram infalíveis. A Assembléia [sic] Constituinte francesa, peles decretos de 3 de

outubro e 3 de novembro de 1789, suprimiu a revisão, e a 19 de agosto de 1792 autorizou o Tribunal de Cassação a julgas os anteriores pedidos despachados pelo Conselho do Rei.

Além disso, o Código de Instrução Criminal da França instituiu que a decisão do Conselho de Sentença não seria reformulada, mas sim anulada, sendo submetido a outro julgamento, por outros jurados.

Acerca da soberania dos veredictos do Tribunal do Júri em solo brasileiro, Ansanelli Júnior (2005, p. 72) aduz:

No Brasil, a soberania quase sempre acompanhou o Tribunal do Júri. Como já colocado, desde o seu nascimento até a edição do Decreto-Lei n. 167, de 05 de janeiro de 1938, as decisões do Tribunal Popular se caracterizavam pela soberania dos veredictos. A Constituição de 1946 incluiu a soberania dos veredictos no próprio texto constitucional. A Constituição outorgada através do Ato Institucional n. 1/69 não a mencionou expressamente, mas continuou se entendendo que a soberania dos veredictos continuava a existir, por ser princípio implícito. A Constituição de 1988 voltou a mencioná-la expressamente.

Dar ao cidadão a missão de julgar o seu semelhante e não ao juiz togado baseia-se na competência que tal instituição possui: julga-se somente crimes contra

(23)

a vida, que são atitudes anti-jurídicas que o ser mediano é capaz de tomar, mesmo não sendo marginal.

Neste sentido têm-se as palavras de Nassif (2008, p. 10):

Quando o legislador, constituinte ou ordinário, na depuração histórico-constitucional, promoveu a especialização do júri como garantia e direito fundamental do cidadão, e afastou de sua competência o julgamento de outros crimes que não os dolosos contra a vida, ainda que sem intenção clara e objetiva neste sentido (mas sim instintivamente), manteve com o juiz leigo o exame do fato que é comum a todos e que se resume em natural capacidade e possibilidade de matar outrem, justificada ou injustificadamente, qual seja, o atentado doloso contra a vida. Matar alguém é o crime sem o estereótipo do marginal, ainda que seja ele o maior frequentador do banco dos réus.

Vê-se, pois, que o cidadão comum vislumbrará com maior clareza os fatos e motivos para que o crime tivesse ocorrido, enquanto que o juiz togado somente julgaria tecnicamente os fatos.

E, se assim é, não pode, certamente, o Estado dizer que o decidido pelos representantes da sociedade não é correto, chamando, a mesma sociedade, para um novo julgamento.

Dessa forma, está expresso em nossa Carta Maior que a decisão do Tribunal do Júri é soberana. Mas, o que seria essa tal soberania? De acordo com o Dicionário Michaelis on-line (2009), “soberania” é “autoridade suprema”. De “supremo” temos como conceito “que está no seu gênero acima de tudo”.

Neste sentido, temos Bobbio (2007, p. 78) afirma:

Em sentido lato, o conceito político jurídico de soberania indica o poder de mando de última instância numa sociedade política e, consequentemente, a diferença entre esta e as demais associações humanas em cuja organização não se encontra este poder supremo, exclusivo e não derivado.

Almeida (2005, p. 54) sobre o assunto, aduz:

Soberania é poder legítimo, feito inquebrantável. Entretanto, soberania relativa, perante os discursos escritos de 1946 e 1988, adesivos ao Júri, inscritos no mesmo mármore da constitucionalidade, surgiu como interpretação jurídica atentatória aos veredictos emanados da sociedade, subtraindo, à revelia do Texto Político, um dos raros momentos de exercício direto e pleno (participativo) da democracia. A vontade do povo é exercida constitucionalmente, mas frustada pela repreensão colegiada ad quem, ao afirmar o erro decisório a quo, embora somente uma vez possa fazê-lo; mas o faz; e faz criticando, mandando que outro julgamento se realize, “sugerindo” veredicto diverso, como o dilema de “um professor culto e

(24)

elitista ensinando a alunos amadurecidos e pragmáticos a arte de viver melhor”; um simulacro de cibernética constitucionalmente despradozinada.

Assim, deveria a decisão do jurado restar acatada. Contudo, entre o que a norma diz e o que é praticado, temos um abismo. Bobbio (1992, p. 67 apud ALMEIDA, 2005, p. 53) já divagava sobre o desencontro entre a teoria e a prática jurídica:

Num discurso geral sobre os direitos do homem, deve-se ter a preocupação inicial de manter a distinção entre teoria e prática, ou melhor, deve-se ter em mente, antes de mais nada, que teoria e prática percorrem duas estradas diversas a velocidades muito desiguais. Quero dizer que, nestes últimos anos, falou-se e continua a se falar de direitos do homem, entre eruditos, filósofos, juristas, sociólogos e políticos, muito mais do que se conseguiu fazer até agora para que eles sejam reconhecidos e protegidos efetivamente, ou seja, para transformar aspirações (nobres, mas vagas), exigências (justas, mas débeis), em direitos propriamente dito (isto é, no sentido em que os juristas falam de ‘direito’) “

O legislador, ao declarar a soberania do Tribunal do Júri, sem nenhum adendo, deu a ela o status de plenitude, pois, se relativa fosse, este colocaria um salvo, a respeito da soberania do júri, na hipótese de decisão contrária às provas dos autos.

Massificou-se, então, a soberania como um dos Direitos e Garantias Fundamentais da nossa Constituição, devendo, assim, ser respeitada.

(25)

3 TRIBUNAL DO JÚRI NA ATUALIDADE

Neste capítulo trataremos dos princípios constitucionais que englobam a instituição do Tribunal do Júri dando enfoque especial ao Princípio da Soberania do Tribunal do Júri versus o Princípio do Duplo Grau de Jurisdição.

3.1 CONCEITO DE PRINCÍPIO

Etimologicamente significa:

Princípio: 1. Momento ou local ou trecho em que algo tem origem [...] 2.

Causa primária. 3. Elemento predominante na Constituição de um corpo orgânico. 4. Preceito, regra, lei. 5. P. ext. Base; germe [...]. 6. Filos. Fonte ou causa de uma ação. 7. Filos. Proposição que se põe no início de uma dedução, e que não é deduzida de nenhuma outra dentro do sistema considerado, sendo admitida, provisoriamente, como inquestionável. São princípios os axiomas, os postulados, os teoremas etc. (FERREIRA, 1986, p. 1.393, apud ESPÍNDOLA, 2002, p. 52.)

Segundo Picazo (1983, p. 1.267-1.268, apud BONAVIDES, 2000, p. 228, grifo do autor), “Deriva da linguagem da geometria, “onde designada as verdades primeiras”.[...] Exatamente por isso são “princípios”, ou seja, “porque estão ao princípio”, sendo “as premissas de todo um sistema que se desenvolve more geométrico.”

Na leitura de Rocha (1994, p. 21, apud ESPÍNDOLA, 2002, p. 53) “O Princípio é o verbo [...]. no princípio repousa a essência de uma ordem, seus parâmetros fundamentais e direcionadores do sistema normado.”

Acerca do conceito de princípio em uma visão etimológica, Nucci (2012a, p.27) aduz que “é um momento em que algo tem origem, é a causa primária ou elemento predominante na constituição de um todo orgânico.”

Para o mundo jurídico, os princípios formam a estrutura basilar da nossa legislação. São ensinamentos que devemos obedecer para a elaboração das nossas leis, garantindo, assim, um ordenamento jurídico uníssono.

Nesta esteira, Leal (2001, p. 50 apud SPENGLER NETO; SILVA, 2012), aduz:

Os princípios são os elementos que expressam os fins, que devem ser perseguidos pelo Estado (em sua acepção mais ampla), vinculando a todos

(26)

os entes e valendo como um impositivo para o presente e como um projeto para o futuro que se renova cotidianamente, constituindo-se numa eterna construção da humanidade.

Para Bandeira (2000, p. 747-748 apud FAZOLI, 2007, p. 13):

Princípio [...] é, por definição, mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência exatamente por definir lógica e racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere e lhe dá sentido harmônico.

Outro não é o entendimento de Silva (2004, p. 92, grifo do autor) quando afirma que “os princípios são ordenações que se irradiam e imantam os sistemas de normas, são [como observam Gomes Canotilho e Vital Moreira] ‘núcleos de condensações’ nos quais confluem valores e bens constitucionais.”

Crisafulli (1952, apud CANOTILHO, apud TOVAR, 2005, p. 01) assim conceitua:

Princípio é, com efeito, toda norma jurídica, enquanto considerada como determinante de um ou de muitas outras subordinadas, que a pressupõem, desenvolvendo e especificando ulteriormente o preceito em direções mais particulares (menos gerais), da quais determinam, e portanto resumem, potencialmente, o conteúdo: sejam, pois, estas efetivamente postas, sejam, ao contrário, apenas dedutíveis do respectivo princípio geral que as contém.

No Brasil, os princípios contidos na Constituição Federal são os mais importantes, pois ela é o alicerce e espelho para o legislador. Também nas palavras de Nucci (2012a, p. 27, grifo do autor), temos:

Portanto, quando mencionamos um princípio constitucional, referimo-nos à base do sistema legislativo como um todo, ao menos no que se refere às normas infraconstitucionais. O princípio constitucional há de ser respeitado como o elemento irradiador, que imanta todo o ordenamento jurídico.

O Superior Tribunal Federal já declarou que se deve observar, rigorosamente, os princípios contidos na nossa Carta Magna, conforme voto do Ministro Celso de Mello, na PET 1458/CE:

[...]o respeito incondicional aos princípios constitucionais evidencia-se como dever inderrogável do Poder Público. A ofensa do Estado a esses valores –

(27)

que desempenham, enquanto categorias fundamentais que são, um papel subordinante na própria configuração dos direitos individuais ou coletivos - introduz um perigoso fator de desequilíbrio sistêmico e rompe, por completo, a harmonia que deve presidir as relações, sempre tão estruturalmente desiguais, entre os indivíduos e o Poder[...] (BRASIL, 1998)

Os princípios emanados na nossa Constituição Federal são prerrogativas que devem ser seguidas pelo Estado, trabalhando no presente e os preservando para o futuro, almejando a construção de uma nação enlaçada em normas que adornam a construção de uma sociedade mais justa.

3.1.1 Hierarquia dos princípios constitucionais

A nossa Constituição Federal contempla duas espécies de princípios: os explícitos, quando está escrito diretamente no texto legislativo; e os implícitos: quando o texto legal nos indica, indiretamente, o caminho a ser seguido, contudo, não o assevera literalmente.

O entendimento majoritário, para não dizer unânime, apoia seu entendimento no sentido de que ambos os princípios, explícitos ou implícitos, têm o mesmo grau de importância dentro do ordenamento jurídico.

Desta forma, na resolução de um conflito entre princípios constitucionais não se leva em conta seu caráter expresso ou não, estando, portanto, diante de uma antinomia, que para Bobbio (p. 88 apud ANSANELLI JÚNIOR, 2005, p. 52) é “aquela situação que se verifica entre duas normas incompatíveis, pertencentes ao mesmo ordenamento e tendo o mesmo âmbito de validade.”

E, para a solução desse conflito, Bobbio (p. 88 apud ANSANELLI JÚNIOR, 2005, p. 52) também assevera que devemos utilizar três critérios: cronológico, hierárquico e o da especialidade.

Outra é a solução dada por Barroso (p. 187 apud ANSANELLI JÚNIOR, p. 54) que defende que em havendo conflito entre princípios deve-se escolher por aquele travestido de cláusula pétrea.

Contudo, seu entendimento deixa uma lacuna, pois poderá haver conflitos onde ambos são revestidos por essa força constitucional, ficando, portanto, a mercê de outro entendimento para solucionar tal incompatibilidade.

Para Alexy (p. 89 apud ANSANELLI JÚNIOR, p. 54) a solução seria obedecendo esta regra:

(28)

Cuando dos princípios entran em colisón – tal como es o caso cuando según um princípio algo esta prohibido y, según outro princípio, está permitido – uno de los dos princípios tiene que ceder ante el outro. isso non significa declarar invalido o princípio desplazado ni que em el princípio desplazado haya que introducir uma cláusula de excepción.

Galuppo (p. 179 apud ANSANELLI p. 54-55) não concorda com a teoria de Alexy visto que da maneira como é colocada, iguala princípio a valor, ao optarmos entre um ou outro, confundindo-se, assim, princípio com valor, pois é através da valorização que pendemos a nossa escolha.

Dworkin (p. 43 apud ANSANELLI JÚNIOR, p. 54-55) comunga do entendimento de Galuppo, que defende que se deve levar em conta a dimensão e o peso que tem o princípio para o caso em concreto.

Desta feita, verifica-se difícil a determinação fixa da hierarquia dos princípios constitucionais, diante de inúmeras correntes e visões ideológicas, contudo, para solução de um conflito, se deve observar os princípios da razoabilidade e proporcionalidade, além das particularidades do caso em concreto.

3.2 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS QUE ENGLOBAM O TRIBUNAL DO JÚRI

O art. 5º da nossa Constituição Federal institui o Tribunal do Júri e assegura, estabelecendo caráter de princípios, a plenitude de defesa, o sigilo das votações, a soberania dos veredictos e a competência para julgamento dos crimes dolosos contra a vida. (BRASIL, 1988)

3.2.1 Princípio da plenitude de defesa

A plenitude de defesa, nas palavras de Andreucci (2009, p. 3) assim se conceitua:

Implica o exercício do direito de defesa, pelo acusado, de forma mais abrangente que a ampla defesa, assegurada aos réus em geral, ensejando sua efetiva participação no Tribunal do Júri e possibilitando ao se defensor lançar mão de todos os argumentos e meios de provas e convencimento dos jurados, ainda que não expressamente previstos em lei.

Nucci (2012a, p. 28-34) demonstra a diferença entre a ampla defesa, inerente a todos os réus envoltos no processo penal, e a plenitude de defesa, que

(29)

engloba somente aqueles réus que serão julgados perante o Tribunal do Júri, no sentido de que o primeiro princípio defende que o réu terá uma defesa que não será tangida de utilizar todos os meios necessários a seu favor existentes na esfera jurídica. Já o segundo diz-se, por ser julgado por pessoa comum e não pelo magistrado togado, além de ter uma defesa ampla (princípio da ampla defesa), terá direito a uma defesa completa, perfeita.

Campos (2008, p. 34-35), comunga do mesmo entendimento:

No Júri, não basta a ampla defesa, cabível em todos os processos, inclusive os administrativos. É necessário, como bem explanado por Guilherme de Souza Nucci, que ela seja plena, ou seja, que o trabalho do defensor se situe acima da média, seja o mais perfeito possível, sem retoques. [...] Este princípio demonstra a intenção do legislador constitucional de privilegiar o Júri como garantia individual (de ser julgado o cidadão por esse tribunal), uma vez que se preocupa, excepcionalmente, com a qualidade do trabalho do defensor do acusado, a ponto de erigir em princípio a boa qualidade da defesa dos autores de crimes que serão julgados pelo Tribunal Popular.

Tem-se, portanto, que o réu submetido ao Tribunal do Júri está duplamente “protegido”, uma vez que além de sua defesa ser ampla, esta deverá ser plena, garantindo, assim, um julgamento justo.

3.2.2 Princípio do sigilo das votações

Reza o art. 485 do Código de Processo Penal que “Não havendo dúvida a ser esclarecida, o juiz presidente, os jurados, o Ministério Público, o assistente, o querelante, o defensor do acusado, o escrivão e o oficial de justiça dirigir-se-ão à

sala especial a fim de ser procedida a votação.” (BRASIL, 2008, grifo nosso)

O princípio do sigilo das votações, na concepção de Andreucci (2009, p. 3), é conceituado desta forma:

Como exceção ao princípio dos julgamentos, a votação dos quesitos pelos jurados, no Tribunal do Júri, é feita em sala secreta (atualmente denominada “sala especial”), sendo vedada qualquer forma de comunicação entre eles, que apenas poderão dirigir-se ao Juiz Presidente em caso de qualquer esclarecimento.

(30)

Os jurados decidem a causa através de votações secretas, não se identificando a maneira como votou cada cidadão-leigo. Visa tal princípio resguardar a tranquilidade e segurança dos membros do Conselho de Sentença para decidir o destino do acusado, sem medo de represálias, de quem quer que seja.

Neste diapasão, Ansanelli Júnior (2005, p. 43):

O sigilo das votações significa que os jurados, que decidem por meio do voto da consciência, não podem declinar a posição assumida quando o julgado. Por isso são levados à sala secreta e respondem aos quesitos formulados de forma secreta e imotivada.

Este procedimento de votação em sala “secreta” trouxe, de acordo com Nucci (2012a, p. 32), uma discussão entre doutrina e jurisprudência, que atualmente, pela maioria já está sanada, acerca da legalidade deste procedimento à luz do princípio da publicidade. Contudo, o próprio texto constitucional afirma que esta publicidade pode ser limitada quando a intimidade ou o interesse social ou público prevalecer.

Observa-se, assim, que este princípio não tem como objetivo fazer uma votação secreta, pois na prática, Juiz presidente, Acusação e Defesa, além dos funcionários do Poder Judiciário se fazem presentes na sala destinada a esta fase.

3.2.3 Princípio da soberania do tribunal do júri

Soberania do Júri, nas palavras de Bulos (2009, p. 528 apud MATTE, 2010, p. 01), “é a impossibilidade de os juízes togados se substituírem aos jurados na decisão da causa.”

Neste mesmo sentido temos Porto (p. 46 apud ANSANELLI JÚNIOR, 2005, p. 73) que declara que a soberania do Júri deve ser entendida como a impossibilidade de os juízes togados se substituírem aos jurados na decisão da causa.

Zappala (2010), assim afirma:

O princípio constitucional da soberania dos veredictos expressa o desejo do legislador constituinte de erigir o júri como última instância na decisão dos crimes de sua competência. A determinação constitucional não proíbe a pluralidade de julgamentos mas estabelece a impossibilidade de outro órgão do Poder Judiciário modificar a decisão proferida pelo júri.

(31)

Nucci (2012a, p. 34) dá para a soberania do Tribunal do Júri o conceito de que “o veredito popular é a última palavra, não podendo ser contestada, quanto ao mérito, por qualquer tribunal togado.”

Este preceito constitucional, portanto, defende basicamente que o que for decidido pelos Jurados não poderá ser alterado pelo juiz técnico.

3.2.4 Princípio da competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida

A Constituição Federal de 1988 determina que somente os crimes dolosos contra a vida, que estão elencados nos arts. 121 a 127 do Código Penal, é que serão julgados perante o Tribunal do Júri, desde que haja o elemento do dolo na ação.

A ampliação deste rol poderá ser feita através de lei ordinária, contudo, havendo crime conexo, também será submetido à julgamento perante a instituição do Júri, como bem afirma Nucci (2012a, p. 37):

Demonstrando ser possível que o Tribunal Popular julgue outros delitos, que não somente os dolosos contra a vida encontra-se o cenário dos crimes conexos. É viável que os jurados decidam condenar ou absolver o autor de um estupro ou de um roubo, por exemplo, bastando que o delito seja conexo ao crime doloso contra a vida.

Este também é o entendimento do Supremo Tribunal Federal:

A competência do Tribunal do Júri, fixada no art. 5°, XXXVIII, d, da CF, quanto ao julgamento de crimes dolosos contra a vida é passível de ampliação pelo legislador ordinário. II – A regra estabelecida no art. 78, I, do CPP de observância obrigatória, faz com que a competência constitucional o tribunal do júri exerça uma vis attraciva sobre delitos que apresentem relação de continência ou conexão com os crimes dolosos contra a vida. Precedentes. III – A manifestação dos jurados sobre os delitos de sequestro e roubo também imputados ao réu não maculam o julgamento com o vício de nulidade. (BRASIL, 2010)

Observa-se que embora a nossa Constituição especifique diretamente quais crimes serão julgados pelo Tribunal do Júri, este não é um rol absoluto, uma vez que se houver outro delito conexo ao crime doloso contra a vida, este também será julgado pelo Tribunal Popular.

(32)

3.2.4.1 Princípio da soberania do tribunal do júri: absoluto ou relativo.

O Princípio da soberania dos veredictos do Tribunal do Júri traz no seio do seu conceito paradigmas acerca da sua eficácia: se plena ou não.

Para alguns doutrinadores a soberania continuará sendo respeitada quando, em grau de recurso, o tribunal superior anular julgamento, por decisão contrária à prova dos autos, remetendo a outro Conselho de Sentença a decisão, eis que para eles esta decisão não altera o mérito.

Nucci (2012a, p. 34) aduz:

Não é possível que, sob qualquer pretexto, cortes togadas invadam o mérito do veredito, substituindo-o. Quando - e se – houver erro judiciário, basta remeter o caso a novo julgamento pelo Tribunal Popular. Porém, em hipótese alguma, pode-se invalidar o veredicto, proferindo outro, quanto ao mérito.

Neste mesmo sentido, Marques (apud Campos 2008, p. 36) afirma:

O termo soberania não pode ter seu sentido buscado em esclarecimentos vagos de dicionários ou filosóficos de Direito Constitucional, mas sim na sua acepção técnico-processual, qual seja, da impossibilidade de um tribunal togado substituir ou alterar no mérito um veredicto popular. Afinal, não teria sentido algum cruzar os braços frente a uma condenação ou absolvição escandalosas, que representassem uma encarnação da imoralidade.

Vê-se, portanto, que há o entendimento de que a soberania é respeitada a partir do momento que o mérito da decisão não é tocado a fim de modificá-lo, defendendo, assim, que as anulações de julgamento respeitam tal princípio, eis que o mérito não é modificado, mas sim, anulado, conceituando, assim, como um princípio relativo.

Contudo, há doutrinadores que pregam que o açoite à decisão dos jurados, mesmo que seja anulando-a e remetendo novamente a julgamento perante o Tribunal do Júri, não condiz com que o legislador quis exprimir ao incorporar na Constituição Federativa do Brasil, como característica do Tribunal do Júri, a soberania dos seus veredictos.

Almeida (2005, p. 55, grifo do autor), assim leciona:

A semântica lógica ensina que, quando se redige, a redação exprime a vontade de quem escreve (sobretudo quando sabe escrever), e é estranha a conclusão de relatividade soberana do Júri onde ela textualmente inexiste,

(33)

porque textualmente, na atual Constituição, nunca foi comandada para existir. Não é, pois, regra para o emprego exclusivo do substantivo feminino

a ele referir-se o legislador se na verdade pretendia sua relatividade. Aludir à soberania, que não é soberana, mas relativa, parece (longe de qualquer

intenção descortês) denunciar pouca habilidade legislativa e gramatical do

constituinte, senão uma insistência exegética conservadora, e em hora de reavaliação pelo intérprete moderno, que de fato, em sede de domínio pragmático, sobrepõe a subconstitucionalidade (norma inferior do art. 593,

III, d, CPP) à constitucionalidade pétrea (normas superiores dos arts. 5°, XXXVIII, c e 60, § 4°, IV, CF), num manuseio jurídico axiológica e

cientificamente menos saudável para os direitos e garantias fundamentais entre nós consagrados.

Acrescenta-se, ainda, informado por Almeida (2005, p 55) que durante a Constituinte de 1988, o Deputado José Egreja apresentou projeto de emenda constitucional n° 29.288, no que pertine à soberania do Tribunal do Júri, idealizando um salvo, quando as decisões forem contrárias à provas dos autos.

Ao negar-se tal projeto, quis o legislador constituinte, veementemente, que a soberania fosse completamente respeitada, visto que bastaria a aprovação para que outro conceito fosse sugado do texto constitucional, contudo, não o fizeram.

Reforçando tal entendimento, Rosa (1998, p. 430 apud CAMPANHARO, 2012) afirma:

É inconcebível que, após a introdução da prerrogativa da soberania, pela Carta de 88, continuem valendo as mesmas disposições do Código de Processo Penal, relativas ao recurso das decisões do júri, que valiam na vigência da Carta de 67 e na Emenda de 69, que não falava em soberania, porque, aliás, nunca é demais repetir e ressaltar que a palavra “soberania” exclui qualquer restrição. Não se pode falar em soberania sujeita a um poder superior.

D’Angelo e D’Angelo (2005, p. 138) afirmam que “a soberania insculpida no inciso XXXVIII do artigo 5° da Constituição Federal de 1988, a nosso ver, tem um caráter absoluto, isto é, não deve se submeter a nenhum outro crivo que não dele próprio.”

Assim, nota-se densa discussão acerca do caráter do princípio do veredicto do Tribunal do Júri ser absoluto ou relativo, contudo, esta soberania advém desde o seu nascimento, sem qualquer ressalva, o que demonstra o desejo do legislador em torná-lo integralmente respeitado.

(34)

3.3 PRINCÍPIO DO DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO

A irresignação faz parte da relação jurídica. Sempre para uma ou outra parte a decisão não será favorável, ou, quem sabe, para ambas. Dessa forma tem-se no nosso ordenamento jurídico, para remediar tal situação, o princípio do duplo grau de jurisdição, que é o direito de ter a decisão revista por um tribunal superior.

Acerca desta situação jurídica inter partes, Nucci (2012b, p. 394), aduz:

O mais relevante é assumir o caráter comum da natureza humana, demonstrativo da falta de conformismo diante da contrariedade. Assim sendo, o universo do Direito não poderia pairar alheio a tal realidade, desde que se sabe ter o Estado assumido o monopólio penal de distribuição de justiça. A decisão judicial do juiz singular, a primeira a ser proferida no processo, haverá de gerar inconformismo em alguma das partes. A procedência, impondo a condenação, acarreta irresignação do réu, fazendo valer seu desejo de recorrer a outra instância, de modo a ouvir, novamente, a análise da sua situação. A improcedência, externada pela absolvição, move o inconformismo do órgão acusatório, que, igualmente, pode recorrer para acalmar a sua ânsia pela reavaliação do caso. A procedência parcial pode ser colocar ambas as partes em estado de irresignabilidade, provocando a reação ambivalente, com a interposição de dois recursos.

A doutrina não é unânime no sentido de ser um órgão superior a reavaliar a decisão proferida. Para alguns, necessariamente, a reavaliação deve ser feito por órgão diferente que prolatou a sentença.

Nas palavras de Sá (1999, p. 88) “a possibilidade de reexame, de reapreciação da sentença definitiva proferida em determinada causa, por outro órgão de jurisdição que não o prolator da decisão, normalmente de hierarquia superior.”

De maneira não tão emblemática, tem-se o entendimento de Laspro (1995, p. 27), que conceitua tal princípio como sendo um “sistema jurídico em que, para cada demanda, existe a possibilidade de duas decisões válidas e completas no mesmo processo, emanadas por juízes diferentes, prevalecendo sempre a segunda em relação à primeira.”

Assim, vê-se, que este entendimento sustenta a tese de que a segunda decisão a ser proferida deverá ser feita por órgão diferente, não demonstrando, contudo, a necessidade deste órgão ser hierarquicamente superior.

(35)

De outro norte, levantando a bandeira da possibilidade deste princípio não obedecer a regra de ser outro órgão a julgar e ser, também, hierarquicamente superior, tem-se o conceito de Nery Júnior (1997, p. 41), que afirma:

Consiste em estabelecer a possibilidade de a sentença definitiva ser reapreciada por órgão de jurisdição, normalmente de hierarquia superior à daquele que a proferiu, o que se faz de ordinário pela interposição de recurso. Não é necessário que o segundo julgamento seja conferido a órgão diverso ou de categoria hierárquica superior a daquele que realizou o primeiro exame.

Esta tese, entretanto, não é das mais praticadas no cenário jurídico brasileiro. Porém, todos os três conceitos trazidos à baila asseguram a revisão da decisão proferida, de modo a trazer segurança jurídica ao ato decisório do Poder Judiciário.

Contudo, não há previsão expressa de tal princípio na nossa Constituição Federal, baseando-se somente em regras que denunciam a existência de recursos na via judiciária, como o previsto no art. 5°, LV, que afirma que “aos litigantes, e processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.” (BRASIL, 1988).

Além desta imposição jurídica, os arts. 102, II e III e 105, II e III, também da nossa Carta Magna, dão conta da existência de órgãos superiores competentes para julgar determinados recursos.

3.3.1 Foro por prerrogativa de função e o não respeito ao princípio do duplo grau de jurisdição

A Constituição Federativa do Brasil contempla determinadas funções com foro predeterminado no caso de cometimento de crime comum, quando ainda investido do cargo:

Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, cabendo-lhe:

I – processar e julgar, originariamente: [...]

b) nas infrações penais comuns, o Presidente da República, o Vice-Presidente, os membros do Congresso Nacional, seus próprios Ministros e o Procurador-Geral da República;

(36)

c) nas infrações penais comuns e nos crimes de responsabilidade, os Ministros de Estado e os Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, ressalvado o disposto no art. 52, I, os membros dos Tribunais Superiores, os do Tribunal de Contas da União e os chefes de missão diplomática de caráter permanente.

[...]

Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça: I - processar e julgar, originariamente:

a) nos crimes comuns, os Governadores dos Estados e do Distrito Federal, e, nestes e nos de responsabilidade, os desembargadores dos Tribunais de Justiça dos Estados e do Distrito Federal, os membros dos Tribunais de Contas dos Estados e do Distrito Federal, os dos Tribunais Regionais Federais, dos Tribunais Regionais Eleitorais e do Trabalho, os membros dos Conselhos ou Tribunais de Contas dos Municípios e os do Ministério Público da União que oficiem perante tribunais. (BRASIL, 1988)

Desta forma, determinadas pessoas de posse de determinados cargos não passam pelo julgamento na primeira instância. Para Nucci (2012b, p. 395-396) este é um privilégio que não deveria existir, pois todas as pessoas deveriam ser julgadas sem distinção de órgãos, respeitando, com isso o princípio do duplo grau de jurisdição.

Assim, ao ser julgada diretamente pela segunda instância, independente de qual seja, se Tribunal de Justiça Estadual, Superior Tribunal de Justiça ou Supremo Tribunal Federal, restaria tolhido do direito de recorrer da decisão, eis que se for pelo Tribunal de Justiça do Estado, só poderá ser avaliado pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal recursos não ordinários, onde não se discute questão de fato, mas somente matéria de direito.

Sendo julgado pelo Superior Tribunal de Justiça, só ascenderia recurso também limitado à matéria de direito que seja vincula à Constituição Federal.

E, por óbvio, aos litigantes julgados pelo Supremo Tribunal Federal não haveria para quem recorrer, mesmo em matéria de direito (constitucional), eis que já fora julgado pelo mais alto setor do Poder Judiciário, os guardiões da nossa Constituição Federal.

Quem não concorda com julgamentos que não respeitam o duplo grau de jurisdição baseiam-se na tese de que o Pacto de San José da Costa Rica, ratificado pelo Brasil, que defende o direito de que todos têm o direito ao duplo grau de jurisdição, não sobressai à Constituição Federal, tendo caráter de lei ordinária.

O Supremo Tribunal Federal proferiu acórdão acerca da medida cautelar ADI-MC 1480-3/DF, defendendo que os tratados internacionais são hierarquicamente inferior á Constituição Federal:

Referências

Documentos relacionados

Verificar a efetividade da técnica do clareamento dentário caseiro com peróxido de carbamida a 10% através da avaliação da alteração da cor determinada pela comparação com

• 5000ºKelvin, gama 1.8, ColorMatch – adequado ao tratamento imagem para impressão • 6500ºKelvin, gama 2.2, Adobe RGB – o maior espaço de cor RGB... Definir o branco em que

I - Ressalvadas as situações excepcionais como a referente à soberania do Tribunal do Júri, quanto aos veredictos, em regra a pena estabelecida, e não impugnada pela

Salvador (2009) abordou a ansiedade aos testes como uma situação social, na aplicação de um protocolo de intervenção a adolescentes com PAS baseado no modelo de Clark e Wells

§ 2 o Incluem-se na abrangência desta Lei as cooperativas que operem os produtos de que tratam o inciso I e o § 1 o deste artigo, bem assim as entidades ou

O kit Canine Leptospira foi projetado para determinar em soros de caninos, títulos de anticorpos séricos de diferentes sorovares patogênicos de Leptospira interrogans,

Usado com o Direct Phone Link 2, o Beltone Smart Remote permite que você use seu dispositivo móvel para obter facilmente uma visão geral e controlar remotamente seus

Se os personagens não intervierem com DuBois, provavelmente irão direto ver Karin, que se encontra em companhia de Alfred: ela acaba de se levantar, e Lucille está preparando seus