UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
ESPECIALIZAÇÃO EM INTEGRAÇÃO DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL À EDUCAÇÃO BÁSICA NA MODALIDADE DE EDUCAÇÃO DE JOVENS E
ADULTOS
A superação e a força de vontade
de quem volta a estudar
Marisa Dutra Paz
Orientador: profª Dra. Simone Valdete dos Santos
Porto Alegre 2009
FICHA CATALOGRÁFICA
___________________________________________________________________________
P438s Paz, Marisa Dutra
A superação e a força de vontade de quem volta a estudar / Marisa Dutra Paz ; orientadora Simone Valdete dos Santos. – Porto Alegre, 2009.
19 f.
Trabalho de conclusão (Especialização) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação. Curso de Especialização em Educação Profissional integrada à Educação Básica na Modalidade Educação de Jovens e Adultos, 2009, Porto Alegre, BR-RS.
1. Educação. 2. Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos. 3. PROEJA. 4. Dificuldades – Alunos do PROEJA – Sala de aula. 5. Alunos do PROEJA – História de vida. 6. Escola Técnica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 7. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – Campus Porto Alegre. I. Santos, Simone Valdete dos. II. Título
CDU 374.7 _____________________________________________________________________________ CIP-Brasil. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação.
A superação e a força de vontade de quem volta a estudar
Resumo: O presente trabalho busca compreender as principais dificuldades do aluno do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional à Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA) da Escola Técnica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Serão apresentados depoimentos de professores dos quais serão analisados as dificuldades que os alunos encontram em sala de aula.
Palavras-chave: Aluno do PROEJA, Histórias de Vida.
Introdução
A educação hoje, lamentavelmente, ainda não atinge toda população que deveria, milhares de brasileiros não conseguem completar o ensino regular no tempo ideal. Acabam por abandonar a escola por diversos motivos como a necessidade de trabalhar, falta de vagas em colégios da região que moram, problemas de deslocamento ou mesmo por falta de interesse.
Essa realidade originou a criação do Serviço de Educação de Adultos, do Ministério da Educação e Saúde, em 1947. Porém, décadas depois, a realidade ainda era quase a mesma. Com a criação da Lei 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB), ocorreu uma reformulação na educação, mas ainda nada muito específico para viabilizar resultados na educação profissionalizante de jovens e adultos. Somente em 2008, através da Lei 11.741/2008, foram acrescentados à LDB parágrafos que articulam a integração de diferentes níveis e modalidades da educação com o ensino técnico profissionalizante.
A Escola Técnica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) passou a oferecer o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional à Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA) no segundo semestre de 2007, em parceria com o Colégio de Aplicação da mesma universidade. A partir do ano de 2008, a Escola Técnica passou a oferecer o PROEJA e o Colégio de Aplicação o EJA (Educação de Jovens e Adultos), após essa desvinculação a Escola Técnica, dentro do seu Setor de Ensino, passou a
reestruturar o PROEJA para suas próprias necessidades.
Quando o Governo Federal passou a investir no ensino profissionalizante do EJA, constatou-se que era necessário qualificar professores para que o investimento tivesse um retorno de sucesso. A preocupação era de formar profissionais para lidar com alunos mais velhos, com conhecimentos dessa realidade pontual, como mercado de trabalho, dificuldades específicas, déficit de aprendizagem dessa população escolar, e tantos outros problemas relacionados.
Mas, infelizmente, não houve um foco especial destinado a montar uma estrutura de apoio aos alunos que voltam a estudar, para que eles conseguissem compatibilizar o estudo com o trabalho e a família, o que acabou ficando restrito apenas a um trabalho para os professores e não para as instituições como um todo.
Será que temos, hoje, profissionais capacitados para trabalhar com esses alunos? Será que oferecemos suporte para esses alunos superarem suas angústias e dificuldades?
Esse trabalho surge dessas duas perguntas. Através de depoimentos de professores que dão aula para o PROEJA e ouvindo as histórias de vida dos alunos do curso, tentamos responder essas perguntas.
Referencial Teórico
O educador que mais soube descrever o aluno do PROEJA, dentro das concepções desse trabalho, foi Paulo Freire. Quando ele escreve a Pedagogia do Oprimido, ele relata os problemas que surgem dentro da sociedade capitalista o que é a realidade da qual falamos. Para Freire (1978), a sociedade capitalista, nada mais é do que uma “sociedade opressora”, onde os “oprimidos” buscam recuperar sua humanidade. Dentro da figura dos “oprimidos”, encontram-se todos aqueles que não tiveram acesso a educação na idade adequada.
Em Que fazer – Teoria e prática em educação popular, Freire (1989) analisa a importância de enxergarmos o aluno muito além da sala de aula:
defende que é necessário entender o contexto da sociedade em que esse aluno vive. Nessa postulação é fundamental procurar saber de onde vem esse aluno e como o mesmo vive, no seu dia-a-dia, considerando esses dados no programa de ensino planejado para ele.
Está aqui um ponto muito próprio à educação popular: o conhecimento do mundo é também feito através das práticas do mundo; e é através dessas práticas que inventamos uma educação familiar às classes populares. (FREIRE, 1989, p. 20)
Para Queiroz e Passos as pessoas agem com a intenção de abordar uma conduta organizada, ou seja, um projeto. O sujeito pode construir, reconstruir, abandonar, interromper ou dar continuidade aos seus projetos, “ainda que o projeto se refira ao indivíduo, ele é elaborado conforme o contexto em que o sujeito esteja inserido” (QUEIROZ, 2006, p.88).
Olhando através de Freire, para essa concepção de projetos, entendemos que os alunos constróem-se ao longo de suas vidas, e que ao fazerem suas escolhas e defenderem seus interesses, estão iniciando a caminhada para as grandes mudanças em nosso contexto social. Queiroz e Passos dizem que os trabalhadores:
[...] mesmo mediante uma realidade objetiva pouco motivadora, a realidade socioeducacional brasileira, vêm ao longo de suas vidas tentando realizar seus sonhos e desejos de escolaridade, profissão e outros. (QUEIROZ, 2006, p. 89).
Todas as pessoas apresentam problemas durante sua caminhada, mas percebemos que para aqueles que não tiveram acesso à escola na idade correta, existe uma angústia ao voltar a estudar. A angústia pode ser pelo medo de ser excluído dentro da instituição, partindo do principio que o aluno já se sentiu excluído diante da sociedade. Outro motivo para a angústia pode ser o medo do fracasso, pois a vida de um trabalhador não é fácil, e quanto mais velho ele for, maiores serão as suas responsabilidades. Freire (1989) afirma que o docente deve ser um profissional crítico, que deve ir além da “normalidade das burocracias rotineiras”.
Aparceirado com os ‘atendidos’ pela instituição, esse(a) profissional ouve perguntas e enxerga questões mais amplas e mais concretamente direcionadas do que os programas em que atua. Diríamos assim: sem se neurotizar individualmente, é um(a) profissional não sossegado(a) quanto aos alcances de seu trabalho. (FREIRE, 1989, p. 57)
O docente tem de ser capaz de olhar além do conteúdo, sabendo entender a dificuldade de cada aluno que está retornando a sala de aula. É importante que o aluno tenha seu espaço, que o professor vá além do conteúdo, tentando compreender a realidade de cada um. Jaqueline Moll explica que o primeiro desafio para o docente é reconstruir o “trajeto de retorno” do aluno no espaço escolar, ou seja, “para muitos a escola ficou para trás há muito tempo, é coisa de criança [...]” (2004, p.12).
Moll (2004) também afirma a importância de “redesenhar a configuração imaginária da escola que vive na memória de cada um”, ou seja, é preciso quebrar estigmas, acabar com as angústias. É preciso desfazer mitos, redesenhar a imagem dos castigos, superar a comparação com colegas que tinham melhor desempenho, tentar desenvolver as diferentes habilidades que cada aluno apresentar.
Danise Vivian (2008) relata que em sua pesquisa com adultos analfabetos, enxergava em seus alunos, além da busca de um melhor emprego, a possibilidade de “superação das adversidades já vividas” e a renovação de experiências escolares anteriores. Moll (2004) e Vivian (2008) percebem através de suas experiências, que renovação é um tópico fundamental para aqueles que voltam a estudar. É preciso ouvir as angústias, traumas, e reconstruir a imagem da escola para o aluno, fazer do ambiente escolar, um contexto agradável, onde o aluno possa falar, onde a troca de experiências seja livremente aceita.
Para Vivian (2008), a oferta de vagas na Modalidade Jovens e Adultos, resgata uma dívida social que o país tem com aqueles que não tiveram acesso à escola na idade certa. Ao propiciar a um aluno mais velho se formar, estamos tentando quitar essa dívida. Ao qualificar os professores que trabalham com EJA e PROEJA, tentamos ir mais adiante, mais do que quitar essa dívida, formar
profissionais capacitados para um trabalho de qualidade que possam auxiliar a educação e a construção da dignidade de cada aluno. Precisamos entender que quando ensinamos, além de estarmos preparando um profissional, estamos contribuindo para a formação de um cidadão.
Uma maneira de entender melhor o aluno é conhecê-lo através do levantamento de questões como: qual o motivo que o levou a parar de estudar e o que o fez retornar para a sala de aula. Queiroz e Passos (2006) chamam a busca dessa compreensão de “elementos externos e internos”, traçando um paralelo entre os elementos: a interrupção escolar e o retorno aos estudos.De acordo com esses autores, “além da formação do educando, há um ser humano que se completa, apropriando-se do e no mundo, mediante a relação consigo, com o outro e com o mundo.” (QUEIROZ, 2006, p.107).
O professor é o apoio e a base do aluno diante do novo, mediante suas próprias descobertas. É preciso preparar não somente profissionais qualificados para o mercado de trabalho, mas cidadãos aptos para enfrentar o mundo. Pessoas capazes de mudar a sua realidade profissional, social, cultural, que saibam utilizar o conhecimento que adquirem. É importante destacar que a escola deve ser um espaço de reflexão e crítica, de troca de experiências, o professor e o aluno estão juntos aprendendo um com a realidade do outro.
Para Freire (2007), saber escutar é a melhor maneira de aprender a falar com os alunos. O professor nada mais é do que um mediador, e se não souber ouvir e enxergar o aluno além da sala de aula, o insucesso poderá chegar rápido. Educar no Ensino Regular é um desafio, mas acreditamos que na Modalidade Jovens e Adultos o desafio é multiplicado, pois não se trabalha com uma linha de conhecimento regular, e sim, faz-se uma “costura” na linha do conhecimento.
É preciso reconstruir o conhecimento, rever o que já foi ensinado e introduzir o novo. O aluno e sua experiência devem ser valorizados, cada aluno traz um pouco do novo, e ele deve estar ciente de todas as mudanças que essa troca de conhecimento traz para ele e para o professor. A melhor reflexão sobre isso nos oferece Freire, ao dizer que: “Minha segurança se alicerça no saber confirmado pela própria experiência de que, se minha inconclusão, de que sou
consciente, atesta, de um lado, minha ignorância, me abre, de outro, o caminho para conhecer.”(FREIRE, 2007. p.135).
Histórias de Vida de Alunos
Esta etapa de nosso trabalho refere-se à transcrição de entrevistas feitas com três alunos do PROEJA da Escola Técnica da UFRGS, em que cada um dos alunos relatou sua história de vida e as dificuldades encontradas no retorno ao estudo.
Aluno A
Aluna do sexo feminino, com a idade de 54 anos, matriculada no Curso Técnico em Biblioteconomia. Começou a trabalhar com oito anos como babá, depois passou a trabalhar como empregada doméstica e, posteriormente, como cozinheira em casas de famílias. Cursou apenas o antigo Ginásio (equivalente ao atual Ensino Fundamental), abandonando os estudos após o término do mesmo.
Casou-se aos 20 anos e ficou viúva com 26 anos, na ocasião mãe de três filhos. O interesse de retornar a estudar ocorreu quando os filhos entraram na escola, e ela não conseguia ajudá-los nas tarefas que eles levavam para a casa. Após um tempo, ela fez um Curso Supletivo e, quando se formou, prestou concurso para o cargo de Merendeira Escolar do Estado, profissão que exerce até hoje. Numa leitura de jornal, viu o anúncio de vagas para o PROEJA oferecido na Escola Técnica da UFRGS.
Ao tentar inscrever a filha, não teve sucesso porque faltaram algumas documentações necessárias. A funcionária que a atendeu convenceu-a a inscrever-se no curso. Suas vizinhas, quando souberam do seu retorno à sala de aula, disseram que ela não conseguiria acompanhar o curso, que já tinha passado da idade de estudar. Hoje, ela comprou um computador para vencer suas dificuldades de informática e para trocar e-mails com o filho que está na Argentina. Suas vizinhas estão convidadas para sua formatura e ela faz questão que todos
compartilhem essa vitória com ela.
Aluno B
Aluno do sexo masculino, com a idade de 39 anos, matriculado no Curso Técnico em Biblioteconomia. Nasceu no interior, em uma família pobre. Após perder a mãe, aos 13 anos, foi para um Colégio Interno de Padres Franciscanos. Aos 15 anos retornou para casa e aos 17 ingressou na Marinha, onde permaneceu como fuzileiro até os 21 anos. Atualmente, é divorciado, tem dois filhos e mora sozinho.
Trabalhou como garçom e zelador de prédio. Ele conta que teve depressão, pois não sabia que rumo sua vida ia tomar, até ver no jornal o anúncio das vagas para o PROEJA. Ao ser sorteado, largou o emprego por incompatibilidade de horário. Depois de algum tempo, conseguiu outro trabalho até terminar a metade do curso.
Atualmente tem aulas pela manhã, vive da bolsa auxílio a que os alunos do PROEJA têm direito e, a pouco tempo conseguiu trabalho na biblioteca de uma universidade privada. Depois de formado pretende continuar estudando e está pensando em fazer um curso superior. Ele diz que com os estudos recuperou sua auto-estima e passou a se sentir feliz.
Aluna C
Aluna do sexo feminino, com a idade de 31 anos, matriculada no Curso Técnico em Contabilidade. Interrompeu os estudos na terceira série, aos 10 anos para trabalhar em casa de família. A família a matriculou numa escola estadual. Um ano e meio depois largou o trabalho e a escola para morar com uma tia, mas não permaneceu lá, pois a casa tinha muitas crianças e não tinha mais lugar para ninguém. Após sair de lá morou um tempo com uma madrinha e, posteriormente, voltou para a casa da mãe. Sua mãe e seu padrasto tinham problemas com bebida e acharam que ela tinha que ficar tomando conta da casa, que estudar era perda de tempo.
ela conseguiu terminar o Ensino Fundamental. Aos 16 anos engravidou e abandonou o primeiro ano do Ensino Médio. Em 2001, conseguiu voltar a estudar somente por seis meses, largando novamente a escola para cuidar da filha. Após a separação do marido, voltou para a casa dos pais onde estudou até concluir o segundo ano do Ensino Médio. Saindo novamente da casa dos pais com a filha, estava desesperada quando leu no jornal sobre as vagas para o PROEJA na Escola Técnica.
Depois de iniciar o PROEJA, com muito esforço, conseguiu terminar o Ensino Médio. Logo após teve de voltar, novamente, para a casa dos pais, que estavam sem condições de obter o seu sustento. Essa mudança atrapalhou sua vida escolar no curso técnico, pois tinha dois empregos diferentes, sendo um de madrugada. Mesmo dormindo três horas por dia e se alimentando muito mal, em nenhum momento pensou em desistir de estudar.
Hoje, casada pela segunda vez, mesmo tendo sido reprovada em quase todas as disciplinas do primeiro semestre, matriculou-se para seguir estudando. Comprou uma casa, trabalha em um só emprego, conseguiu aposentar os pais e sua filha está estudando. Atualmente, sua única preocupação, além de estudar, é ajudar sua irmã de 18 anos que tem problemas com bebida. Salienta que não pretende deixar de estudar, pois na escola conheceu pessoas maravilhosas que sempre a incentivaram e a acolheram.
Comentários sobre as Histórias de Vida
Podemos perceber que, nas três histórias de vida apresentadas, o primeiro fato comum é que todos os alunos tiveram uma infância pobre e difícil, cada um teve um motivo sério para não continuar os estudos e isso lhe trouxe muitas dificuldades para prover seu próprio sustento e sua auto-estima foi muito afetada. Suas famílias não priorizaram a educação e, conseqüentemente, eles acomodaram-se naquela situação social: a pobreza. Os pais não lutaram para que os filhos rompessem com o contexto social que eles viviam, já que eles mesmos
eram produto de um meio desinformado e mal-estruturado. Para Freire (1978), eles aceitaram a situação de “oprimidos” e não buscaram a “humanização” de sua família.
A aluna A percebeu na dificuldade em auxiliar os filhos em fazerem o dever de casa, a sua condição de ineficiência derivada da interrupção nos seus estudos. Ela foi convencida a retomar os estudos, ou seja, ela não acreditava em si mesma antes de ingressar no curso, mas não “projetou” esse momento. A partir do momento em que assumiu o compromisso de retornar os estudos, ela também começou a se renovar, passou a ter autoconfiança. Conforme Queiroz e Passos propõem, essa aluna passou a reconstruir sua trajetória dentro do seu contexto, a partir da sua inscrição no PROEJA. Ela acreditou que, de alguma forma, os estudos lhe proporcionariam alguma oportunidade de melhorar suas condições de vida.
Com a ajuda de seus professores ela está superando suas dificuldades, indo além do que as pessoas acreditaram que ela fosse. A compra de um computador representa a conclusão de uma etapa dentro do seu projeto. Superar suas deficiências é a nova etapa dele. O computador representa também, a inserção dela num outro contexto social, ele lhe abre uma janela para um mundo novo e dinâmico, que o retorno aos estudos lhe apresentou.
O Aluno B viu na escola a cura para sua depressão. Com sua infância pobre e com a falta de oportunidade, tornou-se mais um oprimido dentro da sociedade. Queiroz e Passos caracterizam essa realidade como “pouco motivadora”, tanto pelas todas as mudanças que ele vivenciou como pela falta de oportunidade para concluir os estudos. Mas, esse aluno conseguiu enxergar na escola “a superação das adversidades já vividas” (VIVIAN, 2008, p. 18) e, a partir disso, começou a traçar uma caminhada onde cada desafio é encarado com força de vontade e otimismo.
A educação é o fator de mudança social e cultural na sua vida, tanto nas suas relações na escola, na sociedade, como na sua formação enquanto sujeito e cidadão. Esse aluno superou traumas escolares e priorizou a educação, chegando a abandonar o emprego para se dedicar ao curso.
Para o aluna C, a família foi a principal responsável pelo insucesso da vida escolar. Seus pais não entenderam que o estudo poderia ser a oportunidade de uma vida melhor, acomodaram-se na pobreza, e aceitaram que o futuro de seus filhos seria exatamente igual ao deles. O casamento para essa aluna trouxe a oportunidade de retorno aos estudos, o que teve seu fim com a maternidade. A responsabilidade de cuidar da filha e a falta de condições financeiras contribuíram para que o retorno à escola viesse mais tarde.
A descoberta do oferecimento de vagas para o PROEJA, surgiu em um momento difícil, como para os outros alunos aqui citados. Ingressando no curso, se esforçou para conseguir acompanhar os colegas, mas as dificuldades do cotidiano, acabaram atrapalhando os estudos. Essa aluna está no grupo de mulheres que Freire (1989, p. 21) descreve como pessoas que “compreendem a vida como luta pela vida”. Ou seja, a cada dia surge um novo desafio a ser vencido. Voltar para a casa dos pais, ter dois empregos, estudar, cuidar da filha, é mais um retrato da vida de milhares de pessoas em nosso país.
Freire afirma que os opressores, querem apenas “transformar a mentalidade dos oprimidos e não a situação que os oprime” (1979, p. 69), fazendo com que as pessoas se adaptem a realidade difícil e que não “pensem” em mudar a situação. A referida aluna conseguiu, com a ajuda de colegas e professores, não desistir de estudar por causa de seus problemas. Mesmo reprovada em quase todas a disciplinas, ela continua acreditando e persistindo no seu objetivo: terminar o curso técnico.
Depoimentos de Professores
Aqui registramos os depoimentos dos professores, que falam de sua experiência com os alunos oriundos do PROEJA.
Professor A
Minha experiência com alunos do PROEJA ainda é muito pequena, pois, até agora, só dei aula para um aluno ou melhor uma aluna desse grupo. Nela pude
observar muitas das características que foram discutidas durante minha Especialização em PROEJA. Esta aluna apresentava muitas dificuldades para poder cursar todas as disciplinas do semestre. Para que ela pudesse ter um maior rendimento nas aulas, tivemos que, juntamente com o setor de ensino, eleger algumas disciplinas para que ela conseguisse dar andamento ao curso, devido as suas dificuldades de aprendizado.
A essas dificuldades, podemos somar vários fatores como a idade, 47 anos, o tempo em que a aluna estava distante da sala de aula, as suas obrigações diárias como dona de casa e trabalhadora que era. Ela aluna acordava diariamente as 4:30 da manhã para poder realizar as tarefas da casa antes de ir para o serviço as 6:30. Trabalhava o dia todo numa empresa no setor de almoxarifado, realizando diversas tarefas com desgaste físico. Ao final do dia, encarava a sala de aula. Quando tinha os dois últimos períodos ela já estava muito cansada e muitas vezes não conseguia ficar acordada na aula.
Ela também possuía um problema muito sério de visão e um problema de concentração. Mas ela não desanimava, com um pouquinho de persistência nossa para que ela continuasse os estudos ela conseguiu concluir a minha disciplina. Eu gostei da experiência. Tive que fazer adaptações nas provas aumentando a fonte, nos textos para que ela pudesse fazer as provas e ler os textos com os conteúdos que eram dados aos alunos. O retorno que essa aluna me deu foi muito bom. Notei que não é difícil para nós nos adaptarmos a eles, precisamos ter a mesma força de vontade que eles têm, quando ganham a oportunidade de voltar a estudar e concluir um curso técnico numa escola pública e de qualidade.
Professor B
Sou professora do Curso Técnico em Biblioteconomia, e no segundo semestre de 2008 ingressaram no nosso curso dois alunos oriundos do Ensino Médio na modalidade PROEJA, faltando, portanto, completar a formação profissionalizante. Atualmente eles estão iniciando o terceiro semestre do curso e esta é a nossa primeira experiência com alunos dessa modalidade de ensino.
geral, ambos tiveram, desde o início, um bom entrosamento com a turma. Nunca percebi qualquer “estranhamento” pelo fato de eles terem tido uma forma de ingresso diferente dos demais colegas. A turma, em que eles ingressaram, também tinha um perfil que propício a facilitar o entrosamento, principalmente no que se refere à média de idade. Claro que havia alunos bem jovens (com 18 ou 19 anos), mas há um bom grupo que estava na faixa etária entre 30 e 40 anos ou mais, semelhante a dos dois alunos em questão.
De modo geral, creio que ambos estão contentes com o curso, e ambos são, sem dúvida, muito esforçados e muito interessados em aprender! Esta é uma característica super importante, pois há boa vontade para conseguir superar as diversas dificuldades que surgem e que não são poucas. Assim como outros alunos, eles passam por situações cotidianas complicadas, como a falta de dinheiro para pagar a passagem do ônibus, chegam atrasados porque moram bem longe e o trânsito não colabora, têm não só acesso restrito a computador mas, também, muitas dificuldades para utilizá-lo.
Porém, mesmo com dificuldades, percebo que ambos trazem ricas experiências de vida, e estão dispostos a dar conta de suas obrigações com o curso, ainda que para isso seja necessário ter aulas de reforço ou refazer trabalhos, enfim, ambos estão num processo de busca por uma melhor qualificação. Estão “indo à luta” e, especialmente no caso do aluno do sexo masculino, essa busca por qualificação já está rendendo bons frutos. Recentemente ele foi contratado para trabalhar em uma biblioteca, o que para nós foi uma grata surpresa, pois em geral, os alunos de segundo semestre são contratados somente como estagiários, e não como funcionários efetivos.
Não sei se tenho condições de emitir uma opinião consistente em relação às vantagens/desvantagens/desafios de se trabalhar com alunos da modalidade PROEJA, afinal, temos contato somente dois alunos oriundos dessa modalidade. Certamente os desafios sempre são grandes, pois é bem diferente trabalhar com alunos que concluíram recentemente o Ensino Médio, que já prestaram vestibular e estão inseridos na dinâmica da realidade escolar; e trabalhar com alunos que estão distantes da Escola, e que muitas vezes sequer imaginavam que poderiam
voltar a freqüentá-la.
Contudo, posso afirmar que essa primeira experiência está sendo bem positiva, pois não tivemos evasão e acho que o curso está sendo importante para os objetivos de vida de cada um dos dois. Além do mais, a possibilidade de oferecer essa nova chance a um cidadão que não teve acesso à educação no momento oportuno, é uma oportunidade para que também nós, professores, possamos repensar nossas formas de ensinar e de aprender, promovendo, com isso, uma melhor qualificação do nosso trabalho em sala de aula.
Professor C
A despeito de muitas expectativas negativas, o ingresso de alunos do PROEJA, especialmente no Curso Técnico de Administração da Escola Técnica da UFRGS, introduziu uma dinâmica especial nas aulas. Isso porque, ao longo dos anos, é característica dos alunos que optam pela Administração, o fato de serem em sua grande maioria jovens e sem experiência no mercado de trabalho.
Dessa forma, o desnível aparente em termo de conhecimentos básicos (aqueles adquiridos ao longo do Ensino Médio) é compensado pela experiência profissional, que muito enriquece o debate e a produtividade em sala de aula. Talvez o maior impacto se dê no âmbito do trabalho do professor, que agora terá de planejar as aulas tendo em vista a possibilidade de uma maior heterogeneidade de grupos em sala de aula.
Isso passa por um repensar das estruturas e temas a serem tratados, o formato e requisitos de avaliação, indo até o desenvolvimento de atividades que privilegiam a interação entre esses grupos de alunos, promovendo assim o crescimento da turma como um todo, via inclusão efetiva dos alunos oriundos do PROEJA. Tal inclusão, via trabalhos em grupo, propicia, a meu ver, a possibilidade de melhorar a auto-estima desses alunos, por vezes abalada, garantindo através da contribuição de suas experiências profissionais, o devido respeito dos demais alunos. Cabe ao professor do ensino técnico saber explorar essas possibilidades, em detrimento das diferenças estruturais de conhecimento entre os alunos.
Comentários sobre o depoimento dos professores
A partir dos depoimentos colhidos percebemos que a característica destacada em todos os alunos, oriundos do PROEJA, é a força de vontade de cada um. Os professores conseguiram entender que a palavra que acompanha cada aluno é superação. Eles se preocuparam em compreender a realidade de cada aluno, se adaptaram para atender esse novo aluno.
O professor A, em parceria com o Setor de Ensino, conseguiu fazer com que a aluna tivesse um rendimento maior nas disciplinas cursadas. O primeiro passo, para isso, foi o de ouvir a rotina dessa aluna, saber seus horários, suas responsabilidades, o tipo de trabalho que ela realizava, ou seja, a aluna foi considerada em sua totalidade. O segundo passo foi ouvir suas dificuldades físicas, como um problema de visão. A aprovação da aluna foi mérito do “grupo de apoio” que se formou para que ela tivesse sucesso, grupo esse formado por professor, aluno e Setor de Ensino. Um método de trabalho que, certamente, irá servir para que outros alunos também tenham sucesso durante sua caminhada.
O professor B ressalta o bom entrosamento dos alunos oriundos do PROEJA com os outros alunos, o que nos mostra que o preconceito não tem sido um fator presente na sala de aula. A experiência de vida desses alunos contribui para esse entrosamento. Para esse educador, repensar as formas de ensinar e aprender é uma oportunidade de crescimento para todo professor, um desafio que ele está conseguindo vencer, vendo no sucesso de seus alunos o seu próprio sucesso.
O professor C destaca algo que Freire pregou ao longo de sua obra, a valorização do aluno e a troca de experiências entre o professor e o aluno. Esse educador entendeu que o aluno do PROEJA traz para discussão em sala de aula o que se aprende com mercado de trabalho na prática, e que seus problemas podem enriquecer os debates e possibilitar um maior entrosamento para o grupo.
admiração dos alunos com os colegas oriundos do PROEJA, fatos que vêem a reforçar a auto-estima desses alunos. Desse modo o professor pode repensar toda a didática de suas aulas, partindo do princípio que alguns alunos já vivenciaram de perto muitos aspectos a serem discutidos em sala de aula. Isso faz com que ele esteja sempre se reciclando e que os alunos sejam sempre ouvidos.
Considerações Finais
Através dos relatos das histórias de vida, percebemos que os alunos do PROEJA da Escola Técnica, são alunos que estão tendo todo o atendimento necessário, tanto pela instituição que os acolhe, como também pelos professores que são os mediadores da sua inserção no meio escolar e seus parceiros diretos na aquisição do conhecimento.
Os alunos, em sua maioria, têm histórias de vidas complicadas, marcadas pelo trabalho e inúmeras responsabilidades. Muitos abandonam o estudo para trabalhar e sustentar a família. O retorno a sala de aula surge como uma “salvação”, uma meta que contribui para a recuperação da auto-estima de cada um. Superação é a palavra que acompanha cada um, principalmente, pelo fato de que após um dia de trabalho exaustivo, de rotinas domésticas, eles ainda encararem uma sala de aula e se esforçam para vencer as dificuldades encontradas.
Encontramos hoje, nos professores da Escola Técnica da UFRGS a idéia de trocar experiências com cada aluno, de vê-lo como um todo, de conhecer sua história pessoal. O aluno tem o espaço para desabafar sobre suas dificuldades, e tem no professor não só um educador, mas um apoio para sua caminhada já traçada. Muitos não almejam somente um melhor emprego, mas também a dignidade e o direito de se tornar um cidadão bem instruído perante uma sociedade tão preconceituosa. Preconceito esse que muitas vezes vem dos filhos, dos vizinhos, dos cônjuges, dos colegas de trabalho, dos amigos, mas que com a sua força de vontade é esquecido após um dia de aula.
Respondemos positivamente as duas perguntas chaves desse trabalho; hoje a Escola Técnica tem professores capacitados para lidar com os alunos oriundos do PROEJA e também contamos com o apoio de um Setor de Ensino preocupado em dar todo o apoio e a estrutura necessária para o sucesso do aluno do PROEJA.
Estamos formando além de profissionais qualificados, seres humanos que recuperam sua dignidade e superam traumas, pobreza, problemas físicos, relações familiares conturbadas. É com orgulho que cada professor vê um aluno concluir uma etapa do curso escolhido, e troca experiências com os colegas profissionais, o que dissemina os bons resultados gerando incentivos que poderão beneficiar os alunos que ainda estão por vir.
Referências
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