Mulheres
de Fé
As Evangélicas
Mulheres em culto evan-gélico na Igreja Batista da Lagoinha em Minas Gerais/Foto: Reprodução Blog Igreja Batista da Lagoinha
Através dos relatos da vivência religiosa das mulheres católicas, candomblecistas, evan-gélicas e espíritas em Salvador, esta série de reportagens é um olhar sobre a religiosidade da capital baiana nestas primeiras décadas dos anos 2000. Durante muito tempo as mulheres tiveram o seu modo de vida intensamente influenciado pela religião. No entanto, a partir do momento em que passaram a ter um maior controle de suas vidas, essa relação deixou de ser tão direta e sofreu algumas mudanças, apesar de ainda marcar bastante a cultura local e nacional. A experiência de fé das baianas revela parte do que acontece em todo o Brasil. Marcada pelo sincretismo, Salvador é refe-rência no país quando o assunto é religião. Conhecida mundialmente pela forte presença dos cultos afro-brasileiros, pelas igrejas católi-cas seculares que abriga em seu centro históri-co e pelas festas de largo que misturam (dizem que pacificamente) esses dois credos, a cidade, como grande parte das capitais brasileiras, experimenta atualmente sensíveis modifica-ções no seu panorama histórico-religioso. De acordo com o projeto Mapeamento dos Terreiros de Salvador, do Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), da Universidade Federal da Bahia (UFBA), existem atualmente, na cidade cerca de 1.165 terreiros de candom-blé. Já paróquias católicas, Salvador tem 115, segundo informações da Arquidiocese Metropolitana. Contudo, religiões com menor participação na formação da cultura local vêm crescendo rapidamente entre a população da capital baiana.
Nas últimas décadas houve um grande avan-ço das doutrinas evangélicas, o que, no caso de Salvador, se caracteriza, principalmente, pelas inúmeras igrejas que se multiplicam nos bairros periféricos. Além disso, também se destaca o crescente número de espíritas. De
Mulheres de Fé
acordo com dados da Federação Espírita do Estado da Bahia (FEEB), existem cerca de 184 centros espíritas na cidade, dentre eles os mais conhecidos são o Caminho da Reden-ção, comandado pelo médium mundialmente famoso Divaldo Franco, e o Cavaleiros da Luz, dirigido por José Medrado.
Nesse cenário, em que as mudanças se mistu-ram com o tradicional, as mulheres católicas mostram como mantêm sua crença em uma doutrina que, receosa da perda de adeptos, fecha os olhos para o comportamento mais liberal de suas fiéis. As evangélicas, bastante conhecedoras de tudo o que diz respeito à sua conduta religiosa, lidam com a necessidade da obediência aos preceitos bíblicos e com a fama de “negociantes da fé” que alguns de seus líderes carregam perante a sociedade. Protagonistas do seu credo, as mulheres do candomblé demonstram a clara consciência do preconceito que sofrem devido à sua escolha religiosa, para apesar do fim da persegui-ção oficial e da apropriapersegui-ção governamental e mercadológica de alguns dos seus ritos e costumes para a venda da imagem turística da Bahia. Apesar disso, elas continuam perse-verantes na obediência, na disciplina e nos preceitos, tão inúmeros quanto as nações que originaram os variados costumes do axé. Por sua vez, as mulheres espíritas se mostram as mais engajadas em projetos de caridade e causas humanitárias e afirmam ter um espaço satisfatório em sua religião.
A experiência das mulheres soteropolitanas com o sagrado ultrapassa o sincretismo, o preconceito, o conceito comum de liberdade e, em alguns casos, é até maior do que suas próprias individualidades. A vivência de fé da mulher atual desconstrói ideias preconcebidas, concilia tradição e mudança e cada vez mais se adapta as exigências da contemporaneidade.
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“É bom que se faça um trabalho assim mesmo. Para acabar com essa ideia de que as mulheres evangélicas são sérias. O povo pensa que a gente não sorri, não brin-ca.” Durante uma visita realizada à Igreja Batista Metropolitana (IBAM), no bairro do Imbuí, em Salvador, uma das fiéis que esperava o culto começar, ao saber do que se tratava a reportagem se disse chateada com a visão que as pessoas têm das mu-lheres “cristãs”. Apesar de não querer se identificar, ela pede que sua declaração seja publicada e deixa claro: “A gente é feliz com a vida que a gente tem. Não somos pessoas tristes, sisudas.”
Denominadas negativamente de “crentes”, as evangélicas fazem questão de negar a imagem a elas atribuída de mulheres que não se divertem, pouco atraentes e sub-missas. Há uma necessidade de demons-trar que a escolha de vida que fizeram foi autônoma e refletida e que até certo ponto são mulheres iguais às outras, com a única
diferença de acreditarem que não têm que competir diretamente pela igualdade de direitos com os homens.
“Muitas vezes as mulheres, por causa do feminismo, partem agressivamente para cima dos homens, o que leva eles a olha-rem para a gente como iguais. Os homens não veem mais fragilidade nas mulheres. A gente perdeu isso”, queixa-se Cléopatra Silva, membro da IBAM, enquanto relata que ficou extremamente incomodada ao pegar um ônibus cheio usando uma tipoia por estar com o braço quebrado e nenhum homem ter lhe cedido o lugar.
As igrejas evangélicas no Brasil são di-vididas em históricas, ou de missão, e pentecostais. Ainda dentro dessa segun-da categoria existe a corrente chamasegun-da de neopentecostal. As igrejas históricas foram trazidas para o país por estrangeiros protestantes, nas chamadas missões. São exemplos delas as igrejas metodistas,
Por Niassa Jamena
Mulheres em oração na Igreja Batista da Lagoi-nha/Foto: Reprodução site Lagoinha.com
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biterianas, calvinistas, luteranas, congrega-cionais, batistas, entre outras.
Já as pentecostais são as congregações que baseiam a sua doutrina no evento bíblico do Pentecostes. No dia de Pentecostes, inúmeras pessoas teriam recebido o Espíri-to SanEspíri-to, que se manifestava através delas falando línguas desconhecidas (fenômeno conhecido como glossolalia) e fazendo previsões. No país, essas irmandades deri-vam do movimento holiness (santidade), surgido nos Estados Unidos, em 1906. São pentecostais a Assembleia de Deus, a Congregação Cristã no Brasil, a Igreja do Evangelho Quadrangular, a Brasil para Cristo e a Deus é Amor. Em Salvador, à exceção da Batista, as igrejas pentecostais e neopentecostais – Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Mundial do Poder de Deus, Renascer em Cristo e Sara Nossa Terra – são as mais conhecidas e frequen-tadas, com cerca de 237 mil fiéis em toda a cidade, segundo dados do Instituto Brasi-leiro de Geografia e Estatística (IBGE). É através das práticas doutrinárias dessas igrejas que grande parte das pessoas forma a sua ideia sobre o que é ser uma mulher “crente”. Em relação à base doutrinária central, as religiões evangélicas têm em comum a crença na salvação somente pela fé em um Deus único, criador de tudo o que existe, tendo Jesus Cristo, seu único filho, como o guia para se alcançar a graça do Pai (misericórdia divina que possibilita a salvação, da qual nenhum ser humano
seria digno), diferenciando-se entre si ape-nas em determinados aspectos.
No caso do espaço simbólico e prático destinado às mulheres, aplica-se a mesma lógica. De forma geral, essas doutrinas têm uma visão similar sobre o que é ser mulher, do seu papel dentro da igreja, na família e na sociedade. As congregações se distinguem apenas por determinadas características práticas, devido às inter-pretações diferenciadas da Bíblia ou pela maior ou menor abertura que tenham para renovar as suas ideias.
“Todas as igrejas evangélicas creem em Jesus como o Salvador, em vida após a morte e na eternidade. As diferenças são mais relacionadas a alguns costumes, como o de louvar, o de cantar ou na forma de vestir. São bastante sutis, não tem dife-renças profundas. As ideologias são bem parecidas. Cada cristão vai para a igreja que se adapta mais ao temperamento dele. Aqui em Salvador, a gente tem os Atle-tas de Cristo e a igreja da Bola de Neve, por exemplo. A nossa igreja gosta de um louvor mais clássico, uma maneira de vestir mais social. Já outras, gostam mais de música popular, todas cristãs, mas com ritmos populares. No entanto, ninguém bebe, ninguém fuma. São mudanças pouco conceituais, muito mais relacionadas ao estilo de cada um”, explica o pastor presi-dente da Assembleia de Deus em Salvador (Adesal), Israel Ferreira.
De forma geral, as mulheres evangélicas Culto de mulheres
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mente trabalha apenas na Ibam e dirige, com o marido, a ONG Missão Evangélica de Assistência aos Pescadores (MEAP), mantida por membros de várias igrejas Batista do país e que realiza projetos so-ciais com pescadores do litoral brasileiro. Ao chegar, a líder cumprimenta a todas e prepara todo o material necessário para o culto. Visualmente, as mulheres que ali estão diferenciam-se muito pouco de qualquer outra que não seja evangélica. A maioria vem diretamente do trabalho e usa roupas que seriam normalmente vestidas também por não cristãs. Em quase nada lembram o estereótipo clássico da mulher crente. Elas brincam, sorriem e nem todas são exatamente contidas.
Os cultos são sempre iniciados com a ora-ção e em seguida elas cantam os louvores (como chamam as músicas gospel). Logo após, Cléo começa sua palestra. Durante os encontros é estudado o livro “O Desafio de Amar”, de Alex Kendrick e Stephen Kendrick. A obra é composta de quarenta lições sobre como manter um casamento.
A cada reunião elas estudam um capítulo. O objetivo do estudo é incentivar e ensinar as mulheres a amar o marido incondicional-mente, “quer ele mereça ou não”, e assim, promover a harmonia na família. “Não há lugar para individualidade dentro do casa-mento. Eu e meu marido somos um. Quan-do essa unidade é quebrada dentro de casa, é preciso cuidado. As mulheres do século XXI são autônomas, chefiam e comandam pessoas em seus trabalhos e quando os maridos chegam em casa querem continuar mandando. Só que isso quebra a unidade”, diz Cléo em um dos seus cultos.
Durante as palestras, Cléo é descontraída, faz piadas sobre características geralmente atribuídas às mulheres e dá um tom de bate-papo à reunião. Para criar empatia com as fiéis ela conta histórias pessoais para ilustrar as passagens de que fala. Ao explicar o motivo da iniciativa de realizar um encontro somente para mulheres diz que a ideia nasceu a partir das demandas particulares trazidas pelas fiéis à igreja. “O culto surgiu da necessidade que a gente
Cléo lidera o culto de mulheres na IBAM há quatro anos/Foto: Niassa Jamena atuam em atividades ligadas ao cuidado, e
que têm grande semelhança com a ma-ternidade. Muitas delas se engajam em funções relacionadas a aconselhamento, trabalhos sociais, atendimento, ensina-mentos a crianças e adolescentes, ajuda em serviços prático-administrativos na igreja ou coordenando/liderando grupos de mulheres. Nas congregações em que há mulheres pastoras ou que realizam prega-ções, na maioria das vezes elas não chegam a ascender ao cargo de liderança geral, sendo sempre um homem a ocupar esse posto.
A “mulher cristã”, como elas se definem, está inserida em um ambiente religioso em que ideias consideradas conservadoras convivem juntamente com determinados
avanços impensáveis até o fim dos anos 1990, como a maior flexibilidade nas exi-gências relacionadas ao vestuário feminino, por exemplo. Todavia, fica evidente que independentemente da crença que abra-çam, grande parte das fiéis faz uma esco-lha de fé consciente, seja porque almeja algum objetivo, porque faz uma “prova” com Deus e percebe que é melhor estar lá dentro do que “aqui fora”, no “mundo”, ou devido à criação evangélica. Uma vez admitidas na religião, incorporam todo o discurso de fé, na maioria das vezes pouco questionado. Mas, engana-se quem pensa que a entrada e permanência se dão de forma incoerente. Quase todas as mulhe-res evangélicas sabem e demonstram saber o porquê de serem como são.
Há quatro anos, todas as quartas-feiras, às 19h, as mulheres da Igreja Batista Metro-politana (IBAM) localizada no bairro do Imbuí em Salvador, se reúnem para um culto totalmente dedicado a elas. Pouco a pouco cada uma das déboras chega para ouvir o que Deus tem para dizer-lhes a cada noite. Coordenada por Cleópatra Silva, 46, mais conhecida como Cléo, a reunião é voltada para a mulher na família e para a sua realização enquanto mãe e, principalmente, esposa.
A realização de cultos exclusivamente femininos é uma prática relativamente comum nas igrejas evangélicas de
Salva-dor. Em variados segmentos da religião essas reuniões são vistas com simpatia pelas mulheres cristãs. Elas acreditam que esse momento é uma oportunidade para falar mais à vontade sobre seus problemas pessoais e temas relacionados à sua indi-vidualidade. Geralmente, esses encontros são dedicados a dar às fiéis diretrizes de comportamento, a aconselhá-las e a forta-lecer a sua crença (muitas vezes bastante criticada fora do meio religioso) através da criação de uma unidade de grupo.
Cléo é casada com o pastor principal do templo e tem dois filhos. Natural de São Paulo e formada em matemática,
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Igreja pentecostal mais antiga do Brasil, a Congregação tem um caráter mais comu-nitário e menos profissionalizado do que as outras denominações visitadas por esta reportagem. Fundada pelo italiano Luigi Francescon, em 1910, em São Paulo, (onde até hoje predomina) em Salvador ela se concentra mais nos bairros periféricos. Ao contrário das outras igrejas, a irman-dade, como se intitulam, ainda atribui sua expansão mais ao boca a boca. Os líderes não têm formação teológica, são termi-nantemente contra o televangelismo, assim como fotos ou filmagens. A CCB é igreja de revelação, ou seja, o pregador descobre o assunto sobre o qual vai falar na hora do culto. Acredita-se que o tema a ser tratado é revelado pelo Espírito Santo. Enquanto na Igreja Batista os frequentadores são de modo geral de classe média e com forma-ção superior, na CCB os fiéis em geral são pouco escolarizados, pobres ou de classe média baixa. De acordo com o IBGE, em
Salvador há por cerca de 7,5 mil evangélicos frequentadores da Congregação Cristã no Brasil.
“Existem reuniões mensais, palestras, só para mulheres e que tratam de assuntos como TPM, como se comportar na cama com seu marido, como ser uma mulher mais amorosa, coisas bem íntimas das mulheres”. Assim o pastor presidente Israel Ferreira, 61, descreve como é a reunião de mulheres da Assembleia de Deus (Adesal), em Salvador, com sede no bairro da Liber-dade. Os cultos voltados para as mulheres da igreja são realizados mensalmente e comandados por Joilda Ferreira, esposa do pastor Ferreira. Depois de um mês e meio de tentativas de contato sem sucesso, a pre-gadora informou que a próxima reunião de mulheres da Adesal seria no dia 30 de julho, no entanto, a celebração não aconteceu. Procurada a líder não atendeu ou retornou as ligações.
Na maior parte das igrejas evangélicas da cidade, a possibilidade de se tornar pastor é exclusivamente masculina. A função, considerada de enorme prestígio e poder, já que o pregador é considerado o repre-sentante de Deus na Terra (o tratamento que os fiéis dispensam a ele é de gran-de reverência, a ponto, gran-de muitas vezes, chamá-lo apenas pelo título ou de “meu pastor”) é prerrogativa dos homens. A ausência das mulheres nas pregações ou se dá por proibição expressa ou
simples-mente porque, apesar de haver uma maior abertura para elas atualmente, o longo tempo em que de fato não podiam liderar, impede uma iniciativa maior nesse sentido. Mesmo nas religiões evangélicas em que há pregadoras, a liderança central é sempre masculina.
A Igreja Batista tem suas raízes no protes-tantismo original europeu. As primeiras missões do grupo vieram para o Brasil em 1882. É, portanto, uma igreja histórica que
Em silêncio na Igreja
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viu nas famílias, a dificuldade das mães de criarem os seus filhos. Surgiu da vontade que nós temos, como mães, de vermos nossos filhos bem criados”, explica. Nas pregações não se aborda muito a
indivi-dualidade feminina. Fala-se pouco de vida profissional ou problemas pessoais. Na IBAM, as mulheres são essencialmente esposas e mães virtuosas.
De forma geral, no culto, as mulheres recebem dicas de como praticar o amor pelos seus cônjuges, segundo a palavra de Deus. Cada uma das lições é embasada em versículos da Bíblia. A ideia é que elas procurem entender e suprir as necessida-des dos seus companheiros, os escutem, os honrem e respeitem, sacrifiquem-se por eles e os elogiem.
A mulher não deve ser “rixosa”, (aquela que é acompanhada da rixa). Ela deve orar
ao invés de brigar. Elas rezam várias vezes durante a reunião. Em um dos encontros uma fiel se voluntaria para uma prece extra e pede que Deus guarde seus filhos, pela sustentação dos casamentos e que Deus restaure os maridos que enjoam das mulheres e aqueles que se separam ‘para se unirem a pessoas do mesmo sexo’. “Se-nhor nós te dizemos: nós não aceitamos o mundo como está”, finaliza. Orando pelas famílias de Salvador, as mulheres da IBAM auto intitulam-se de déboras, em referência à juíza (e líder da sua nação) Débora de Israel que orava pelas famílias do seu povo. Na irmandade da Congregação Cristã no Brasil (CCB) no município de Simões Filho, na região metropolitana de Salva-dor, assim como em nenhuma das outras igrejas do grupo espalhadas pelo país, não há cultos exclusivamente femininos. “Não tem culto específico para mulher. Não acho necessário que tenha. O objetivo é a salvação, e, nesse sentido, todos são iguais perante Cristo”, justifica o diácono Alcides Oliveira, 40, um dos líderes da igreja. Na CCB não há pastor, os cargos de liderança são de anciãos, diáconos e cooperadores. Mulheres no culto
feminino da IBAM/ Foto: Niassa Jamena
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“A mulher não deve ser “rixosa”,
(aquela que é acompanhada da
rixa). Ela deve orar ao invés de
brigar”
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líder religioso. Exercer uma função prática que lembre o pastoreio ou estar ao lado de um pregador, oferece para elas a mesma realização que um cargo oficial. Apesar do prestígio que os pastores detêm, as mulheres batistas minimizam essa impor-tância e afirmam que o nome “pastor” é tão somente um título, nada mais. Cleó, que além de ministrar os cultos femininos é também conselheira, explica: “Eu sou a esposa do pastor principal, então eu tenho funções como realizar estudo bíblico e aconselhamento. Não sinto essa necessida-de necessida-de um título. Eu já tenho uma função determinada de acordo com o meu dom. Muitas atividades minhas equivalem à de uma pastora. Não vejo muita relevância em um título se eu já tenho uma função. Eu não aspiro a isso”, assegura.
Viviane Santana, 26, também frequenta-dora da IBAM, ressalta que com ou sem o cargo muitas vezes as mulheres acabam fazendo a mesma coisa. “O pastoreio pode ocorrer sem o título. Pastorear é cuidar, acompanhar pessoas. O pastoreio feminino
estaria voltado para acompanhar mais as mulheres. Eu vejo que algumas irmãs aqui na igreja exercem essa atividade, embora não tenham esse cargo. Eu não vejo isso como algo realmente importante”, afirma. Bastante extrovertida e de personalidade forte, a pastora Antônia de Jesus, 56, foge ao que se espera de alguém que ocupa uma função como a dela, em uma instituição religiosa como a Primeira Igreja Batista do Brasil (PIBB). De bermuda, blusa e boné da seleção brasileira, chega para a entrevista, animadíssima para torcer pelo Brasil que disputaria naquele dia (26 de junho) um jogo contra o Uruguai pela Copa das Con-federações. Logo de início, diz, sem meias palavras, que chegou até a igreja pela dor. “Foi paixão à primeira vista. Eu observei o comportamento daquele povo. O semblan-te. Tinha algo ali que lá fora eu não tinha. Foram poucas horas, mas deu para perceber que algo diferente tinha ali dentro. Eu olhei para a pessoa que estava ao meu lado e disse: eu preciso de Jesus! E essa pessoa me deu uma assistência.”
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A pastora Antônia de Jesus acredita que a mu-lher pode realizar qual-quer atividade na igreja sem concorrer com o homem/
Foto: Niassa Jamena mantém um grande vínculo com as
conven-ções, (grupos de nível estadual, nacional e internacional que dão e mantém as diretri-zes doutrinárias das igrejas batistas em todo
o mundo), apesar de cada templo ser inde-pendente. No país, existem duas conven-ções: a Brasileira e a Nacional. Em Salvador há cerca de 140 mil evangélicos batistas. A IBAM faz parte do grupo das congre-gações batistas que não permite que a mulher seja pastora. A Convenção Batista Brasileia proíbe a pregação feminina. As mulheres podem ocupar vários postos dentro da hierarquia da igreja e participar dos 24 ministérios (modo como se deno-mina as áreas em que a instituição possui atividades) existentes, exceto o do pasto-reio, que diz respeito às pregações. Elas coordenam pequenos grupos e também participam da diretoria. No entanto, falar no templo não é permitido. O único modo de se exercer uma atividade similar é dirigindo um grupo de mulheres. Somente entre elas, a liderança feminina é aceita sem problemas.
Pastor da IBAM há seis anos, Carlos
Nil-ton Teixeira, 29, explica que as outras fun-ções são diferentes do pastoreio. Segundo ele, pregar é vocacional e não institucional. A atividade seria guiada por um critério subjetivo que não só o da competência e da capacidade. “A mulher, na Igreja Ba-tista, não é vista com nenhuma diferença diante dos homens. Entendemos que o seu papel é fundamental na congregação e na condição de membro tem igual valor e importância. A IBAM tem um regime democrático. Nós temos uma assembleia soberana que decide os rumos da igreja. A diretoria está acima, inclusive, do pastor. E a mulher pode fazer parte até mesmo da presidência dessa diretoria. Ela pode ocupar qualquer cargo”, afirma Teixeira. Questionado sobre o motivo desse voca-cionado ser negado à mulher, Teixeira dis-se que responderia a essa pergunta por e mail, depois de consultar a Bíblia detalha-damente, compromisso que não cumpriu. A justificativa utilizada pelos batistas que entendem que a mulher não pode pregar seria baseada no modelo de apostolado construído por Jesus. Como todos os 12 discípulos eram homens, a igreja acredi-taria que não era da vontade Dele que a mulher falasse do evangelho, disseminan-do a “palavra de Deus”.
As fiéis, no entanto, não veem problema nessa determinação. A impossibilidade de pregar é compensada com inúmeras outras atividades exercidas, ou, no caso das esposas de pastores, com o status que é adquirido devido ao casamento com o
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“A mulher, na Igreja Batista, não
é vista com nenhuma diferença
diante dos homens. Entendemos
que o seu papel é fundamental
na congregação e na condição de
membro tem igual valor e
impor-tância”
Pastor Carlos Nilton TeixeiraAs Evangélicas | 15 14 | As Evangélicas
Ana Carolina realiza o trabalho de limpeza na CCB todas às quar-tas- feiras pela manhã/ Foto: Niassa Jamena
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A costureira Ana Carolina Carvalho, 50, é membro do grupo de limpeza da congre-gação. Todas as quartas-feiras, a partir de 8h da manhã, ela e mais três “irmãs” lim-pam e arrumam o templo. Antes de iniciar os trabalhos, elas reúnem-se e oram. Ini-cialmente, varrem toda a igreja e os ban-cos pesados são levantados um a um para não atrapalhar o trabalho. Passam pano úmido, retiram a poeira, lavam os tapetes, arrumam o altar e lavam a área externa do templo. Durante todo o tempo fortalecem a crença com as “conversas-testemunho”, histórias que giram sempre em torno da crença. São milagres, casos fantásticos e sonhos. Nada é separado da religiosidade. Todos os diálogos visam comprovar a ação de Deus em suas vidas e na comunidade. As conclusões de todas as conversas são sempre utilizadas para confirmar aquilo em que acreditam.
Irmã Ana, como Ana Carolina é chama-da pelas colegas, conta que sonhou com
um anjo que veio à terra e anunciou algo semelhante ao apocalipse descrito na Bíblia. Afirma ter certeza de que Deus revelou-lhe algo durante a noite. Já a irmã Márcia conta a história de uma mulher que depois de muito “aprontar na vida” resolveu batizar-se na igreja. Em revelação, a irmandade ficou sabendo que Deus não permitiria o batismo. A mulher insistiu que se batizaria no sábado. Morreu na
sexta-feira anterior.
Ana Carolina se diz satisfeita com o espaço que a igreja reserva para a mulher. “Na Congregação tem a piedade, que é comandada por mulheres idôneas, que sabem identificar a necessidade do outro. Eu creio que para nós está ótimo. A parte da palavra fica com os varões. Como diz a Bíblia, quem tem a liberdade total para en-sinar são os varões, os homens. A mulher fica com os cargos que Deus revela através dos seus servos. Quando estou trabalhan-do lá me sinto feliz, me sinto útil”, declara.
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A PIBB, que já deixa claro no nome o pioneirismo que tem no país, permite o
pastoreio feminino. É filiada a conven-ção Nacional. Com cerca de 130 anos de existência e sediada na Avenida Antônio Carlos Magalhães, o templo possui um pastor central, a quem todos os outros de-vemse reportar, e as mulheres podem fazer parte do seu grupo de “discípulos”. Elas ministram os cultos para todo o público da igreja, assim como os homens. Pregadora da casa há 13 anos, Antônia é ex-alcólatra e ex-usuária de drogas. Ela conta que se encontrava na “miséria material e espiri-tual” e com dois filhos sem pai quando chegou à Igreja Batista. Após três tenta-tivas de suicídio, resolveu aceitar Jesus. Adepta desde 1984, afirma que passou por um processo árduo de recuperação até se tornar pastora e que o cargo que recebeu foi um reconhecimento.
Ao responder sobre o porquê de haver igrejas batistas que permitem e outras que proíbem que a mulher pregue, ela relata que essa diferença está ligada ao modo como se interpreta a Bíblia. “Isso aí depende muito da visão do líder ou da denominação. Se cada ser humano tem
po-tencial, então a mulher também tem o seu. Ela pode fazer tudo, sem concorrer com o homem. Tudo na mão da mulher se ajeita, e isso é dom. Infelizmente, fora da igreja a mulher está jogada fora”, constata a líder que, antes de ser pastora, foi missionária em Angola, na África, e em tribos amazô-nicas. Hoje, Antônia coordena o projeto “Bom Samaritano”, que acolhe e profissio-naliza pessoas em situação de rua.
No caso da CCB, a ausência de mulheres no altar é justificada pela interpretação literal de um texto bíblico que afirma que as mulheres devem estar em silêncio na igreja. O diácono Alcides Oliveira afirma que, caso elas tenham alguma dúvida sobre o culto, devem interrogar os maridos em casa. Em seguida, enumera os dois moti-vos que a Bíblia dá como justificativa para a interdição da fala feminina: “Porque pela palavra de Deus, Deus é a cabeça de Cristo, Cristo é a cabeça do homem e o homem é a cabeça da mulher. E porque o homem foi criado primeiro do que a mulher”, argumenta.
Caso queiram exercer alguma atividade na igreja, as irmãs da CCB devem procurar se encaixar em alguns dos grupos reservados a elas dentro da irmandade. São femininas as atividades da piedade, que visita casas pobres para fornecer ajuda, da limpeza, que limpa e arruma a igreja, do grupo de visita, que presta auxílio aos doentes, o de costura, que confec-ciona roupas para os necessitados, as instruto-ras de música e as porteiinstruto-ras, que controlam o fluxo de pessoas na entrada do templo.
“Como diz a Bíblia, quem tem a
li-berdade total para ensinar são os
varões, os homens. A mulher fica
com os cargos que Deus revela
atra-vés dos seus servos”
Ana Carolina, fiel da CCB16 | As Evangélicas
O casamento é um passo importantíssimo na vida das mulheres cristãs. Na maioria dos casos é um evento extremamente esperado e grande fonte de frustrações quando não acontece. A união com “um homem de Deus” é muito valorizada pelas mulheres evangélicas. No entanto, o matri-mônio só vale se for oficial. “Juntar-se” é pecado. Trata-se de uma escolha feita com bastante cuidado, separada em etapas ex-tremamente delimitadas e que têm que ser
necessariamente cumpridas (namoro, noi-vado e o casamento propriamente dito). O casamento é considerado uma bênção de Deus na vida da mulher.
“O casamento para mim é tudo. Luto e faço qualquer coisa para salvar meu casa-mento. Como já fiz. A Bíblia diz que o que Deus uniu, o homem não separa. Sou fir-mada nessa palavra. Quando vejo alguém se divorciando, sempre aconselho para que
Esposas
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a empresária prega de forma muito simi-lar aos pastores evangélicos homens. Ela demonstra ter habilidade com as palavras e orgulha-se do destaque que conseguiu na Adesal: “Eu sou a única mulher [mem-bro da Assembleia de Deus] no Brasil que participa de uma diretoria de igreja. Da diretoria só participam homens e pastores e eu fui escolhida para ser secretária”, res-salta. Casada há 20 anos, Elionai tem duas filhas e é dona da rede de salões de beleza ‘Talento’. Recentemente lançou a revista
‘Mulher de Talento’, da qual é idealizadora e diretora geral. Com uma estética moder-na, a publicação é voltada para o público feminino evangélico, já está na terceira edição e custa R$ 10. A reportagem princi-pal da edição de estreia conta a história de vida de Elionai e o modo como ela conci-lia a carreira profissional com a religião. “A mulher hoje ocupa cada vez mais espaço. Ela é empreendedora mesmo dentro da igreja”, afirma a pregadora, graduada em pedagogia e psicologia.
Em culto de mulheres da IBAM Cléo e uma fiel solteira oram pelas mulheres que ainda não casaram / Foto: Niassa Jamena
A Assembleia de Deus vive atualmente um momento de reformulações e já permite que as mulheres preguem nos templos. Fundada em 1911, no estado do Pará, pe-los suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, ainda hoje é a neopentecostal com o maior número de adeptos no país. Segundo da-dos do IBGE, a denominação evangélica tem cerca de 112 milhões de fiéis no Brasil e 84 mil em Salvador. Na cidade, ainda é bastante conhecida pelo conservadorismo e pelas exigências consideradas rígidas que fazia às mulheres adeptas da religião (como a proibição de se depilar, pintar, cortar ou alisar os cabelos e usar brincos e maquiagem).
“A maioria [dos pastores] é de homens. Mas, existe uma mudança de comporta-mento com relação à liderança. Acredito que vai levar alguns anos para as mulheres se tornarem maioria na liderança pastoral, mas a porta não está fechada para isso”, explica o pastor presidente Israel Ferrei-ra. No entanto, o líder omite em sua fala
o fato de a mulher não poder ostentar o título de pastora. A pregação feminina é permitida, mas a Adesal ainda não dá às mulheres a nomeação oficial.
Elionai Costa, 49, prega na Adesal há 25 anos. Frequentadora da Assembleia de Deus desde criança, ela se define como mãe, esposa e empresária. Em um sábado à noite comanda um culto no templo do bairro de Castelo Branco. Foi convidada para falar sobre a importância da escola dominical (atividade realizada aos domin-gos que consiste em estudar os ensina-mentos da Bíblia e que é oferecida para crianças e adultos). “O crente que vai à escola dominical não come qualquer coisa. Não se deixa enganar por qualquer dou-trina. O crente que vai à escola dominical cria raízes. Vários ateus vão querer debater com você na faculdade e como você vai argumentar se não estudar a Bíblia? O mundo é competitivo, quem não é bom, não fica”, discursa Elionai no culto. Com tom de voz forte e fala eloquente,
Mudanças
Elionai prega em vá-rias igrejas da Adesal há 25 anos/
Foto: Niassa Jamena
As Evangélicas | 19 18 | As Evangélicas
que os nossos maridos tomem decisões. Maridos mais descansados têm que ser treinados. Temos que deixar que eles tomem decisões”, prega Cléo em uma das suas reuniões.
“O que seria o papel da mulher? Cuidar do marido, em todos os sentidos. Emo-cional, espiritual e físico. Estar atenta às necessidades da casa. Hoje em dia é muito complicado por causa da jornada dupla, mas tudo tem que ser negociado. A gente acredita que a responsabilidade da casa é da mulher mesmo que seja só de gerência. Na maioria das vezes a mulher tem uma ideia melhor de gerenciamento da casa do que o homem. E se na personalidade dela, na criação dela, ela não teve muito isso, ela tem que desenvolver”, orienta Viviane Santana da IBAM.
Essa separação de atividades inclui o princípio de submissão da mulher que está na Bíblia. O Livro Sagrado dos cristãos evangélicos estabelece que assim como a Igreja está sujeita a Cristo, as mulheres também devem estar sujeitas ao marido. O papel feminino é de ajudadora do homem e, por isso, a mulher deve deixar o esposo ser o “cabeça da relação”. A vontade de mandar é tida como algo que é da nature-za do homem e de que ele necessita para se sentir respeitado e honrado por sua família. Alvo de várias críticas, esse princí-pio é defendido pelas mulheres cristãs que dizem que a submissão não significa uma sujeição total, e sim uma forma diferente de amar. O amor do homem seria como
o de Cristo: ele se entrega pela sua mulher (o versículo continua e diz: maridos, amem suas mulheres, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se a si mesmo por ela). Em prova de reconhecimento, a mulher se submete ao marido.
“Não é que a mulher vai ser capacho do homem. É jogo de cintura. Imagine uma mulher que vai sempre criar uma controvérsia? O que seria de uma família se quando o homem não quisesse ceder ela também tesasse? Desde o princípio, Deus colocou assim para que a família se mantenha. Se a mulher quiser viver como homem, aí não vai dar certo. Ela tem que conhecer o seu lugar e isso não a diminui. Pelo contrário, ela vai ser honrada”, argumenta pastora Antônia de Jesus da PIBB.
“Ela ser submissa não quer dizer que vai ser escrava dele. Ela pode trabalhar e ser uma mulher religiosa, servindo a Deus
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“Vai doer quando o seu marido
to-mar uma decisão e, mesmo você
não concordando, ter que aceitar
porque você tem que ser
submis-sa? Vai. Não é fácil irmãs. Mas se
a gente tem o amor de Jesus no
coração, a gente consegue.
Quan-do a gente se submete, a gente faz
a vontade do Senhor e não a dele”
Katiusse Teixeira, frequentadora da IBAM
tente recuperar a relação. Sempre oriento que não abra mão”, diz Jucélia Santos, 51, da Assembleia de Deus. Cléo Silva, líder do culto das mulheres da IBAM, destaca o protagonismo do matrimônio na vida da mulher. “O casamento e a maternidade são atividades prioritárias na vida de uma mulher. Mas pode não acontecer, né? Ela tendo ou não filhos ou sendo uma profis-sional, vai glorificar a Deus com sua vida. Mas, quando ela possui uma vida conjugal, o principal são as relações com o esposo e os filhos”, diz.
Atualmente não há nenhum impedimen-to formal para as mulheres evangélicas que queiram trabalhar e ter uma carreira profissional. “A visão da Assembleia de Deus acompanha a evolução da sociedade. Antigamente os homens eram paternalis-tas, as mulheres submissas. Mas hoje não é mais assim. A mulher não é tratada como escrava, como já se fez no passado, não só nas igrejas evangélicas, mas em todas as igrejas. A mulher é tratada com respeito. Ela pode ter funções e cargos na igreja,
trabalhar fora, ensinar os homens. Têm toda a liberdade de serem mulheres sem barreiras”, afirma o pastor Israel Ferreira. No entanto, os discursos feitos nos cultos e nas reuniões mostram que ainda há uma pressão para que a mulher case-se e dê prioridade a essa dimensão de sua vida. Percebe-se nas falas das mulheres uma dualidade não declarada entre ser profis-sional e ser esposa. As tarefas de mulher e a maternidade são tão valorizadas que for-çosamente se constituem em sonho para a maioria. Não estar casada significa não ter uma vida sexual ativa, não ter um homem que a proteja e estar excluída de forma prática ou simbólica de certas atividades da igreja. Na Batista Metropolitana, os grupos que orientam as famílias da igreja são sempre dirigidos por casais e o próprio culto das mulheres é quase que totalmente voltado para as casadas. Entretanto, para os solteiros existe o ministério dos ímpa-res, que cuida da vivência cristã daqueles que ainda não casaram.
Ele se entrega, ela se submete
Para o matrimônio dar certo, as doutrinas evangélicas acreditam que é preciso que haja uma separação de papéis masculinos e femininos. Por isso, desde criança, as famí-lias ensinam os meninos a serem meninos e as meninas a serem meninas. Quando adultos, esse discurso se transporta para o papel do homem e da mulher em um
lar ao se constituir uma família. A menina tem que brincar de boneca, o homem de carro. A mulher tem que ser meiga, doce, emotiva e falar baixo. O homem deve ser viril, tomar atitudes, ser disposto, ter voz de comando. Ela é responsável pela gestão do lar. Ele, pela gestão da vida do casal. “Muitas vezes nós mulheres impedimos
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O namoro evangélico é o primeiro passo para um futuro casamento. É como se fosse um período de amizade que ante-cede o matrimônio, para que os noivos conheçam um ao outro. Nesse período, a relação sexual é proibida, tanto para o homem como para a mulher. Entretanto, o tema sexualidade não é mais um tabu tão grande quanto no passado. Já há uma abertura maior em certas igrejas, existindo até seminários sobre o tema. Muitas vezes as mulheres são até estimuladas a fazer muitas coisas que as não cristãs fazem, como usar uma lingerie mais sexy, ter ati-tudes que excitem seu companheiro e dizer o quanto ele é bom no sexo. Porém, ainda não se fala de forma abrangente sobre a sexualidade feminina. Hoje, tenta-se falar de sexo aberta e normalmente, mas ainda há uma tensão nas igrejas que precisam acompanhar as mudanças da sociedade, e, ao mesmo tempo, necessitam manter seus valores.
Israel Ferreira, pastor presidente da Ade-sal, diz que hoje o sexo não é mais um problema em sua religião. “O princípio na igreja é: a moça e o rapaz se casaram, eles devem fazer sexo um com o outro. A igreja não dá restrição alguma, dá instru-ções técnicas, emocionais, espirituais, mas não tem nada proibido no sexo do homem com a mulher. No curso de noivos que damos aqui, se orienta sobre os cuidados que tem que ter nos primeiros tempos de casado, o cuidado para que a mulher tenha prazer no sexo, não seja só o homem”, conta. O líder não soube, no entanto, ex-plicar o que são exatamente as instruções técnicas.
“Antigamente as mulheres da Assembleia não gostavam de fazer sexo, se sentiam sujas, não sentiam nem prazer, vamos dizer assim. Faziam tudo cobertas. Eu falo por mim. Tinha vergonha do meu esposo. Hoje tem palestras, seminários e eu vi que
Guardadas
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O pastor Israel Ferreira afirma que na Adesal falar sobre sexualidade deixou de ser um tabu/ Foto: Niassa Jamena
com temor. Tem suas dificuldades [con-ciliar a vida de mulher moderna com a submissão], principalmente quando seu
esposo não é cristão e você é. Há uma certa dificuldade, mas tem que orar todo dia. Como a Bíblia diz que a mulher sá-bia edifica a sua casa, então com o jeito, com o carinho, ela vai conciliar trabalho e religião. explica Ana Carolina da CCB. Todavia, as pregações nos cultos, inclu-sive as feitas pelas próprias mulheres, sugerem uma relação diferente da descri-ta pelas entrevisdescri-tadas nesdescri-ta repordescri-tagem. Em uma das reuniões das déboras, Ka-tiusse Teixeira, esposa do pastor Carlos Nilton Teixeira, fala sobre as dificulda-des de ser uma mulher cristã: “Vai doer quando o seu marido tomar uma decisão e, mesmo você não concordando, ter que aceitar porque você tem que ser submis-sa? Vai. Não é fácil irmãs. Mas se a gente tem o amor de Jesus no coração, a gente consegue. Quando a gente se submete, a gente faz a vontade do Senhor e não a dele”, aconselha.
Em uma das reuniões que lidera na IBAM, Cléo também declara que o dis-curso feminista de que a mulher deve o ter seu próprio dinheiro para não depen-der de homem nenhum não pode sair da boca de uma mulher Cristã: “Se não se consegue uma unidade, um consenso, você se submete à decisão dele como esposa. Deus não disse que o marido é o cabeça? Então ele está certo naquela decisão. Siga ele, descanse na decisão desse homem. Mesmo que dê errado, não fale nada. Mesmo ele errado, você será abençoada porque você fez a vonta-de vonta-de Deus.”
O divórcio só é permitido pelas doutri-nas evangélicas em caso de infidelidade conjugal, e, ainda assim, procura-se todas as formas de reconciliação para se evitar que aconteça. O casamento é para a vida toda e como gera famílias, é considerado o alicerce de uma sociedade de bem. A separação oficial é encarada como a quebra de um compromisso as-sumido com Deus. Quando perguntados sobre separações em casos de violência doméstica, a maioria dos entrevistados não deu uma resposta precisa ou ar-gumentou que isso seria uma exceção. “Uma mulher que o marido bate, ela não é obrigada a morrer nos braços daquele homem. Aí, infelizmente, a gente diz que ela pode se divorciar. Mas sabendo que é só por causa da dureza do coração dele”, afirma a pastora Antônia.
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“Uma mulher que o marido bate,
ela não é obrigada a morrer nos
braços daquele homem. Aí,
infe-lizmente, a gente diz que ela pode
se divorciar. Mas sabendo que é
só por causa da dureza do coração
dele”
Pastora Antônia de Jesus22 | As Evangélicas
uma obrigação no casamento, principal-mente porque as fiéis são orientadas a não negar a relação ao cônjuge, mesmo se o casal tiver discutido ou caso elas estejam sem vontade.
Em relação às proibições sexuais, oficial-mente o tema é pouco tratado, apesar de ser do conhecimento de todos que é vetada a masturbação, o consumo de por-nografia e a prática do sexo anal. Apenas o pastor Carlos Nilton Teixeira falou de forma sutil sobre o assunto. “A relação sexual não deve ser vista como algo profa-no. Ela é uma bênção de Deus e deve ser vivida com toda a alegria e todo o respeito aos limites do seu cônjuge. A vida sexual do casal será construída a partir do
res-peito mútuo e descobertas que respeitem a fisiologia do nosso corpo”, descreve o pregador da IBAM.
Todas as correntes evangélicas são total-mente contra o aborto, em qualquer oca-sião, já que consideram o feto uma vida e a sua morte uma injustiça contra um ser frágil. Contudo, não fazem nenhuma restrição a qualquer contraceptivo, sendo o planejamento familiar uma prática bastante incentivada. A única exceção é a CCB, que não proíbe, mas não vê com bons olhos os anticoncepcionais. “Aconselhamos que cada um seja guiado por Deus. Mas o bom seria que não se usasse [anticoncepcionais]. Isso fica entre o casal, mas a palavra de Deus nos diz: ”nós devemos crescer e nos repro-duzir”, ressalta o diácono Alcides Oliveira.
Cássia Santana, 34, é organista (toca ór-gão nos cultos) da CCB há 15 anos e há 13 ministra aulas de órgão para meninas e mulheres da irmandade. Ela começou a
es-tudar música aos 16 anos e em 1998 passou a poder tocar oficialmente nos cultos. Na Congregação, para poder tocar os hinos da irmandade é necessário passar por um
exa-Com bom senso
Cássia Santana minis-tra aulas de música para meninas a partir de seis anos/Foto: Niassa Jamena o sexo é uma coisa abençoada por Deus.
Agora, tudo com decência. Tem coisas que o marido quer tentar só porque sabe que a mulher tem que ser submissa a ele”, diz Jucélia Santos que há 16 anos frequenta a Assembleia.
Todos os líderes afirmam que as igrejas não se metem muito na vida sexual dos casais. Alegam que não há orientações expressas sobre o assunto e que tudo que se pratica é de consciência de cada um. As proibições são abordadas de forma sutil ou nas conversas de bastidores. A sexua-lidade feminina ainda é encarada como o ato de ter relações sexuais com o marido. Discute-se pouco as nuances que o tema envolve. Fala-se que a mulher deve ter prazer, mas apenas se diz que para isso o homem deve ser carinhoso, romântico e ter paciência.
Há uma preocupação maior com a virgin-dade das meninas, embora a orientação é que o casal deve chegar puro ao altar. É delas a missão de evitar que os dois “caiam em tentação” antes do matrimônio, de se guardar e preservar o “namoro santo”. Recomenda-se que a namorada tenha atitudes que evitem contato mais próximo ou que levem o homem a ter vontade de manter relações sexuais. “Que ela [a mu-lher] tenha um namoro que agrade e honre a Deus. Que ela se aprofunde para saber se é a pessoa certa, se aquilo vai culminar em um casamento”, recomenda Cléo sobre a postura da mulher no namoro.
Na Congregação Cristã no Brasil (CCB), os dirigentes orientam que o sexo seja o mais simples possível. Mas, não apro-fundam-se ao tratar do tema e nem veem necessidade de abordar o assunto mais detalhadamente. No culto de mulheres da IBAM, fala-se bastante da importância de satisfazer o marido, no sentido de perceber se ele está desejando o contato íntimo e tomar a iniciativa. Do ponto de vista femi-nino, pouco é discutido e, de certa forma, em alguns comentários feitos durante os cultos, dá-se a impressão de que o sexo é
Jucélia Santos diz que palestras realizadas na Adesal mudaram a visão que tinha sobre a pró-pria sexualidade/ Foto: Niassa Jamena
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“É delas a missão de evitar que os
dois “caiam em tentação” antes
do matrimônio, de se guardar e
preservar o “namoro santo”
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por outros motivos. No grupo de limpeza, “irmã” Márcia, em conversa com outras colegas, relata que perguntaram para ela o porquê da separação. Ela disse que era questão de organização, mas que assim também se evitava que uma mulher passas-se na frente do marido da outra, podendo, causar ciúmes na esposa.
Além do véu, há outras exigências da CCB em relação às roupas femininas. Na denominação evangélica, as mulheres são orientadas a usar somente saias e vestidos, mesmo estando fora dos cultos, pois calças são consideradas roupas exclusivamente masculinas. Também não devem utilizar cosméticos. “A vestimenta das nossas irmãs é composta por saias e vestidos e elas não devem usar maquiagem. Embora algumas usem, né? A veste da mulher deve ser diferente da do homem, conforme a palavra de Deus nos ensina. Que não use o homem traje de mulher e nem a mulher traje de homem”, explica o diácono Alci-des Oliveira. No caso de quem trabalha em empresa que exige calça como farda, a recomendação é a troca de roupa ao sair do expediente.
A Igreja Batista não impõe de forma clara restrições a roupas e acessórios femininos, entretanto, é sempre lembrado que a pos-tura assumida por cada mulher depende da sua consciência e do quanto a mensagem cristã já provocou uma reforma íntima. “A igreja não proíbe ou atesta nenhum tipo de roupa. O foco da mensagem cristã é o co-ração. Entendemos que é a partir dele que as mudanças exteriores acontecem.
En-tendemos que qualquer mulher, indepen-dentemente da sua fé cristã ou não, pode
ser extremamente bela sem ser vulgar. A orientação é que se use uma vestimenta que dignifique o seu corpo”, defende o pastor Carlos Nilton Teixeira.
Por sua vez, o pastor Israel Ferreira, da Adesal, diz que as mulheres da sua igreja podem usar qualquer roupa, mas com bom senso. Mais uma vez ele reafirma a mudança ocorrida em relação às déca-das passadéca-das, lembrando inclusive, que, na Assembleia as mulheres já sentaram separadas dos homens, assim como ainda ocorre na CCB: “A Assembleia de Deus recomenda às mulheres que se vistam de forma pudorosa, ou seja, uma mulher não deve andar seminua, principalmente den-tro do templo, com pinturas extravagantes, roupas extravagantes. A mulher não deve se vestir de forma sexy para atrair os ho-mens, principalmente no recinto religioso. Claro que hoje está um pouco mais aberto, mas ainda é assim”, explica. Entretanto, a tradicional exigência do uso de saia, pelo menos nos cultos, ainda se mantém.
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“A Assembleia de Deus
recomen-da às mulheres que se vistam de
forma pudorosa, ou seja, uma
mulher não deve andar seminua,
principalmente dentro do templo,
com pinturas extravagantes,
rou-pas extravagantes”
Pastor Israel Ferreirame. Aos sábados à tarde ela ministra as suas aulas. Primeiro ensina às crianças, depois às mulheres adultas. Cada aluna é ensinada particularmente. Primeiro elas solfejam (falam a marcação do tempo das notas musicais) as lições dos livros utilizados na aula e depois vão para a prática, no órgão. As aulas começam às 13h e duram até a última aluna ir embora, variando o tempo de acordo com a desenvoltura de cada uma e com a quantidade de alunas presentes. Mesmo estando na sala de música da igreja e não no templo principal, Cássia e suas alunas utilizam o véu durante toda a aula. Na CCB, todas as mulheres, mesmo crianças, têm que utilizar um véu branco enquanto estão no templo, pois a mulher orar sem véu é considerado uma atitude desonrosa. “A mulher estar sem o véu é como se estivesse com a cabeça raspada. O véu é uma forma respeitosa de se apre-sentar diante de Deus. No templo, a gente usa o véu. Na rua, o cabelo representa o véu da mulher”, explica Ana Carolina. A
justificativa para esse mandamento é retira-da retira-da Bíblia do trecho em Coríntios que afirma que é honroso para mulher ter o ca-belo crescido enquanto que, para o varão, é o contrário. Cássia Santana afirma que há pessoas que se escandalizam quando veem as mulheres de véu: “Acham que é coisa de seita satânica”, diz.
Cássia só dá aula para mulheres porque apenas elas podem ser organistas na CCB, já que o órgão fica do lado feminino (es-querdo) do templo, enquanto os violinos e violoncelos, tocados exclusivamente por homens, ficam do lado masculino (direito). Na Congregação, os homens sentam-se separados das mulheres. Os microfones através dos quais dão os testemunhos tam-bém são separados.
Os fiéis e os dirigentes não têm uma ex-plicação clara para a regra. Dizem apenas que é questão de organização, embora haja uma preocupação velada com o fato de as mulheres sentarem ao lado dos homens
Legenda: As mulheres assistem toda a aula de música utilizando o véu/Foto: Niassa Jamena
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esse poder, acham que é suficiente ser a sombra. A convenção batista baiana e a brasileira não reconhecem até hoje as mu-lheres pastoras. A igreja que tem pastora tem que sair da convenção. Ela pode até desenvolver o mesmo trabalho, ela abre o culto religioso, abre a congregação, con-quista os fiéis, pode até ser que seja ela realmente a pastora, mas tem que ter um pastor. O marido dela pode não ter conhe-cimento, representatividade, mas tem que ser ele ali segurando como pastor”, critica. A corrente feminista procura valorizar as atuações das mulheres no tempo de Jesus. Ao invés de enfatizar textos que preguem a submissão da mulher ao homem ou a expulsão de Adão do paraíso por culpa de Eva, ela destaca o estudo do livro de Gálatas, de Mateus, e de outros que falam das mulheres discípulas, das que seguiram e foram ensinadas por Jesus como, Maria Madalena, Júnia e Prisicila. Na visão do grupo, a Bíblia não pode ser tomada ao pé da letra devido ao caráter extremamente datado de seus textos, escritos eu um con-texto cultural em que a mulher não era va-lorizada. “O que nós temos hoje da Bíblia foi compilado e organizado na época da patrística, para defender um credo e uma fé de homens que diziam estar imbuídos do Espírito Santo e que, com seus interes-ses particulares, foram tirando as mulhe-res violentamente do meio eclesiástico”, explica Julie que, atualmente, não tem uma congregação fixa.
Elizabeth Passos, 50, teóloga e mestre
em estudos interdisciplinares em gênero afirma que há discursos bíblicos que não devem ser trazidos para a atualidade: “Tem questões na Bíblia que são essenciais e que valem para ontem, hoje e sempre e ques-tões que são acidentais, que são discursos
marcados pela cultura de uma época. A submissão é um discurso de época e, portanto, não deve ser trazido para os dias de hoje e nem ser mascarada com a desculpa de que é uma submissão em amor. Submissão é submissão”, enfatiza. Elizabeth, que frequenta a Igreja Batista Esperança, no bairro de Pituaçu, dá aula para formação de pastores na Faculdade Batista Brasileira e relata que ainda é muito difícil debater determinados temas na sala de aula como a sexualidade feminina e a homossexualidade.
“O grupo prefere não discutir tanto sobre isso [a questão homossexual] e quando você traz a questão eles não vêm para fazer a discussão. Ficam falando em grupi-nhos. O grupo não estabelece na igreja um embate sobre essa discussão”. Segundo Elizabeth, o mesmo ocorre em sua
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“[...]A submissão é um discurso
de época e, portanto, não deve ser
trazido para os dias de hoje e nem
ser mascarada com a desculpa de
que é uma submissão em amor.
Submissão é submissão”
Elizabete Passos, teóloga feminista
“Como todo novo convertido, eu queria ter uma experiência com o sagrado. No início, eu estava precisando de algo que desse sentido para mim, então pedi a minha sogra para me levar para a Igreja Batista. Eu queria mudar. Eu era muito brigona, ciumenta, eu era uma mãe vio-lenta eu achei que a religião realmente me daria um freio. É aquela coisa, você tem algo dentro de si e acha que é algo exter-no que vai te ajudar a encontrar sabe? O novo convertido ele se maravilha, ele quer fazer parte daquela família nova, quer viver aquelas experiências que os irmãos dizem lá na frente que experimentaram. E eu não fui diferente. Só tinha uma diferença desde o início, eu sempre identificava coisas que me deixavam desconfortável dentro da re-ligião”, admite Julie Pereira, ao relatar seu contato inicial com a Igreja Batista. A teóloga de 45 anos conta que, ao entrar na igreja, viveu uma fase de encantamento
com a doutrina. Aceitou tudo o que lhe foi dito e tentou de todas as formas se adaptar ao papel que a religião determina para a mulher. No entanto, não conseguiu lidar com as interdições que eram feitas às fiéis e começou a discordar da igreja em temas como pregações femininas, aborto, sexo antes do casamento, homossexualidade, entre outros. Julie hoje faz parte de um grupo dissidente (formado por mulheres e homens) dentro da corrente religiosa. A teologia feminista é recente e ainda não aceita pelo grupo tradicional.
A grande crítica que Julie faz à Batista é quanto ao fato de muitas igrejas não per-mitirem o pastoreio feminino e estabelecer como suficiente para a mulher ser apenas esposa do pastor: “Você entende a sutileza da violência simbólica? A figura do pastor já confere autoridade e poder suficiente para aqueles que estão à sombra dele. Elas, além de reconhecerem essa autoridade e
Questões Acidentais
A teóloga Julie Pereira deixou de frequentar a Igreja Batista por não concordar com os en-sinamentos da religião sobre a mulher/ Foto: Niassa Jamena
As Evangélicas | 29 28 | As Evangélicas
gregação. “Na minha igreja, o grupo se diz avançado, mesmo que no dia a dia isso não seja tão real. Na discussão, afirmam serem a favor do movimento feminista, dos avan-ços das mulheres, mas eu percebo muito um controle da sexualidade das filhas por parte dos pais. Apesar do avanço, não há tanta liberdade para as mulheres na vivên-cia da sua sexualidade. Já com relação aos homossexuais, ainda há uma maior
difi-culdade. Mas, há um bom grupo a favor e outro contra. Não é homogêneo”, afirma a teóloga.
Julie afirma que a igreja trabalha com uma teologia ultrapassada, que promove um controle muito grande do corpo. “Aquele abraço que você encosta o seio no rapaz, aquele beijo mais profundo que excita, a verdadeira mulher cristã deve evitar antes do casamento. Como é que você vai saber se você gosta de alguma coisa, se você não experimentar? Até o uso de camisi-nha [antes do casamento] e a masturbação são condenados na igreja. Eles proíbem a masturbação por que dizem que o nosso corpo é templo do Espírito Santo e não de imundície. As doutrinas cristãs atacam os
pecados sexuais. Mentir, roubar, subornar, explorar mão de obra? Eu não vejo pas-tor pregando muito sobre isso, não. Mas infidelidade, sexo antes do casamento, as irmãs que se vestem de blusa transparen-te, as saias curtas das meninas? Depois do casamento a mulher tem que aprender a toque de caixa a ser a amante. Aliás, existem irmãs prontas pra te ensinar como você deve vivenciar sua sexualidade.” Apesar dos pensamentos progressistas, Elizabeth Passos afirma conseguir con-ciliar suas ideias com a religiosidade sem problemas. Definindo-se como uma evan-gélica não tradicional, que tem uma forma própria de se relacionar com Deus, ela, todavia, não acha conveniente todo tipo de crítica que se faz à igreja. “Eu sou contra toda generalização. Para mim, existem grupos religiosos sérios e não sérios. Dis-curso generalizante não diz da diversidade de mundos e é uma forma de destruir a pluralidade na sociedade”, adverte. Ao descrever como consegue conciliar o seu pensamento diferenciado com sua fé, Julie Pereira declara: “Primeiro, eu passei um tempo que nem orar eu orava. Eu briguei com o sagrado. Esse Deus macho e homem eu não queria. Até que me veio a consciência que Deus é um ser que não é corpo. Então, ele não é homem e não é mulher. O meu Deus pode muito bem ser mulher. Eu posso muito bem chamar Deus de minha mãe. Hoje eu rezo: ‘Deus, minha mãe e meu pai de misericórdia”, confessa.